segunda-feira, 21 de março de 2016

O esquema do "pagou, publicou" e o fator de impacto de periódicos científicos


Sabe-se que o meio acadêmico não é, no seu todo, a perfeição do planeta. É verdade que os meios acadêmicos e científicos contam com muitos professores, pesquisadores e outros profissionais dotados da mais admirável competência e da mais digna transparência.

Mas existem casos em que acadêmicos, professores e profissionais da Ciência são manipulados aqui e ali. Na Alemanha nazista, cientistas trabalhavam para forjar "provas científicas" para os preconceitos sociais do governo e permitir sua crueldade sanguinária.

No Brasil, intelectuais da cultura viviam seus momentos de executivos de rádio, quando recebiam jabaculê de empresas de entretenimento para exaltar a bregalização social numa roupagem travestida de monografias, documentários cinematográficos, análises etnográficas e reportagens.

Se existem publicações conceituadas que estabelecem critérios rigorosos de expressão do Conhecimento - há a liberdade temática e de abordagem, desde que buscando o desenvolvimento da lógica - , outras que exercem parcialmente essa função mas aceitam o "jabá" acadêmico de vez em quando, e outras publicações de categorias inferiores que vivem no esquema do "pagou, publicou".

Foi denunciado que o periódico Plos One, revista científica considerada de "acesso livre", havia publicado um artigo de pesquisadores de uma universidade chinesa, sobre mãos humanas, que faziam alusão ao Criacionismo, teoria que atribui a Deus a criação da Terra a partir do nada e da alma humana a partir do nascimento. Em seguida, o Plos One publicou uma retratação, alegando problemas na tradução do artigo.

A Plos One é considerada de fator de impacto pouco expressivo. Fator de impacto é o critério usado para medir a credibilidade de periódicos científicos através da repercussão dos artigos publicados.

No "espiritismo", é conhecido o episódio em que um grupo de acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora tenta provar o suposto pioneirismo do "espírito André Luiz", que constatamos ser fictício, nas descobertas referentes à glândula pineal, em 2008.

Eles publicaram um texto em inglês no periódico Neuroendocrinology Letters no qual atribuíram ao livro Missionários da Luz, de 1945, a citação de informações que em tese só seriam conhecidas posteriormente num espaço entre 13 e 63 anos.

A tese possui um discurso monográfico convincente, mas aponta uma falha metodológica. Os cientistas, comandados por Alexander Moreira-Almeida, declararam que os estudos sobre a glândula pineal na década de 1940 eram bastante escassos.

O erro está no fato dos cientistas, conforme a bibliografia mencionada, só terem pesquisado fontes de terceiros, publicadas a partir de 1977, sendo apenas o livro de Francisco Cândido Xavier o único item da década de 1940 presente.

Além disso, um autor alemão, pouco conhecido fora do seu país, o biólogo Wolfgang Bargmann, era um dos principais estudiosos da glândula pineal dos anos 1940. E há dúvidas sobre se a bibliografia sobre o tema era escassa.

Outro dado a ressaltar é que uma descoberta científica é apenas comprovação de um conjunto de hipóteses que havia sido longamente analisado, o que significa que, no caso da glândula pineal, as teses descobertas em 2008 eram muito antigas e sua discussão não só era significativa nos anos 1940, nos bastidores da ciência, como era bem anterior a essa década.

Usando um outro exemplo, que é a possibilidade de existência de água na Lua, embora a tese só ganhasse confirmação ou probabilidade a partir dos anos 1960, ela já era discutida, ainda que fosse considerada improvável. Mesmo assim, o fato dessa hipótese ser descrita numa obra de Jules Verne de 1869, À Volta da Lua (também conhecida como Viagem ao Redor da Lua), pressupõe que o tema já era discutido por cientistas no século XIX.

Quanto a Neuroendocrinology Letters, o periódico indica ser de baixo fator de impacto. A própria repercussão do "pioneirismo" de André Luiz e, por conseguinte, de Chico Xavier - promovido "de graça" a pretenso cientista - , só se deu nos meios "espíritas", incluindo uma reação eufórica de Marlene Nobre e seus amigos, durante troca de e-mails, comemorando o "feito" como se fosse um milagre religioso.

Eles atribuíram o Neuroendrocrinology Letters a um "conceituado periódico científico", mas a verdade é que seu fator de impacto foi baixo. Não conseguimos obter os dados precisos, mas a forma como repercutiu a tese de Alexander Moreira-Almeida e sua equipe demonstra que o periódico não é considerado de grande credibilidade.

Pelo contrário, como um periódico de "publicação aberta", o Neuroendocrinology Letters deve fazer parte do esquema "pagou, publicou", havendo apenas critérios superficiais de envolvimento científico ou acadêmico dos autores. Leva-se mais em conta o status de quem escreve do que a qualidade e a pertinência das ideias.

É muito provável que o artigo dos acadêmicos sobre Chico Xavier tenha sido publicado sob pagamento. Não se sabe se os próprios autores publicaram o texto em inglês ou se o periódico tinha um tradutor que publicou o texto enviado em língua portuguesa. Sabe-se, contudo, que o periódico tem baixo fator de impacto, pois é pouco expressivo na transmissão e repercussão de atividades acadêmicas e científicas.

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