terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Se apropriar do prestígio dos finados não é privilégio do Espiritolicismo

HUMBERTO DE CAMPOS E ITAMAR ASSUMPÇÃO - Dois nomes diferentes da cultura brasileira, mas cujo prestígio é usurpado de forma oportunista por outrem.

É verdade que o "espiritismo" brasileiro tem como principal habilidade a apropriação indébita do prestígio de personalidades falecidas, pegando carona nelas e distorcendo até mesmo seu legado em prol de interesses escusos e oportunistas.

Sabe-se o exemplo de Humberto de Campos, usurpado pela imaginação fértil de Chico Xavier e sua plêiade de espíritos zombeteiros, que imitaram falecidos intelectuais e artistas, de forma bastante medíocre, orientados pelo único "ilustre" admissível, o antigo Padre Manoel da Nóbrega, já que seu codinome Emmanuel mostra uma personalidade realmente idêntica à do padre jesuíta.

Herdeiros do finado escritor e acadêmico tentaram processar Xavier contestando a autenticidade da autoria, verificada pelo advogado que observou que os escritos do "espírito" eram inferiores e até risíveis em relação ao que Humberto havia sido em vida.

A apropriação indébita envolveu de Olavo Bilac a Casimiro de Abreu, passando, através de outros médiuns, por Raul Seixas, Noel Rosa, Juscelino Kubitschek, Eça de Queiroz, Santos Dumont e até Marilyn Monroe, todos a serviço de um moralismo panfletário, místico e falsamente fraternal.

Só que mesmo intelectuais fora do "espiritismo à brasileira" se apropriam desse prestígio. Temos uma intelectualidade cultural brasileira, influente nos seus meios e dominante nos redutos acadêmicos e midiáticos, que aposta na degradação cultural brasileira sob o pretexto do "reconhecimento da diversidade cultural de nosso país".

São jornalistas, historiadores, cineastas, antropólogos, sociólogos e artistas que acham que o melhor é transformar o Brasil num território cercado de breguice por todos os lados, com as classes populares mergulhadas no subemprego, no alcoolismo, na mediocrização artístico-cultural e na degradação de valores morais.

Eles, com o mesmo prestígio duvidoso mas tido como "unânime" e "inabalável" que Chico Xavier, também fazem a "arte" de se apropriarem do prestígio de personalidades falecidas, distorcendo, em causa própria, o legado e os pontos de vista de artistas e intelectuais falecidos.

Por exemplo, para defender o "funk", ritmo musical marcado pela imbecilização sócio-cultural e pela apologia à miséria, à ignorância e à imoralidade, os intelectuais mais badalados chegam a recorrer a intelectuais falecidos há mais de 50 anos, ou até vários séculos antes, para a defesa desse ritmo que trabalha uma imagem caricata das populações pobres.

Se, por exemplo, há muita baixaria no "funk", os intelectuais badalados recorrem à Gregório de Mattos, poeta do século XVI, para "explicar" os "valores" defendidos pelo ritmo popularesco. Se o "funk" é muito americanizado, recorrem à "antropofagia" de Oswald de Andrade.

Para defender o "funk", o brega e outras mediocridades, os intelectuais recorreram a tantos nomes que variam de Malcolm McLaren, o artífice do punk rock, até Antônio Conselheiro, o profeta militante da Revolta de Canudos. Até Itamar Assumpção, nome da MPB alternativa, também foi usado para "defender" a bregalização do país.

Daí que tem o mesmo sentido ultrajante, hipócrita e usurpador um médium usar o nome de Raul Seixas para defender um misticismo debiloide que o cantor baiano nunca teve e que encerrou a vida despido do antigo misticismo que havia tido antes, como artistas de "sertanejo" e axé-music - gêneros que Raulzito odiava - pegarem carona em pretensas homenagens ao artista.

Os intelectuais distorcem conceitos, posturas, atitudes, e houve o caso de Adriana Calcanhoto dizer que o poeta Vinícius de Moraes apoiaria o "funk", o que seria um absurdo. O mesmo Vinícius que a mente de Chico Xavier nunca permitiria "psicografar" poemas românticos e sensuais que o poeta carioca costumava fazer em vida.

Dessa forma, o "jeitinho brasileiro" de certos oportunistas tentam deturpar o legado dos finados, distorcendo posturas e pontos de vista para que eles sejam usados pelos oportunistas de cá para defender em causa própria tudo aquilo que nem vale a pena ser defendido, já que simboliza a mediocrização, a imbecilização cultural ou a promoção de moralismo duvidoso.

Daí a desonra que isso representa, quando pessoas que não conseguem entender a verdadeira natureza dos ilustres falecidos se sentem "donas" de seu prestígio, a pretexto de sua suposta solidariedade. Supondo homenageá-los, intelectuais e médiuns acabam ofendendo os falecidos, na medida em que distorcem suas ideias em prol de causas bastante duvidosas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Raul Seixas nunca teria sido o espírito Zílio


Quem acompanhou Raul Seixas no final de sua vida, não se deixa enganar pela imagem adocicada que o dito médium Nelson Moraes atribuiu a um tal de Zílio que, na imaginação deste palestrante espiritólico, teria sido o nome adotado pelo roqueiro baiano na vida espiritual.

Nelson tenta até usar algumas citações ligadas às canções de Raulzito para "reforçar" sua suposta identidade espiritual, sem saber a contradição que o tom piegas, conformista e pueril demais traz em relação ao rebelde baiano que terminou a vida bastante cético e irônico com os rumos da vida.

Cabe aqui mostrar o absurdo das mensagens atribuídas a Raulzito, que nem mesmo as citações gratuitas de antigas canções conseguem indicar a veracidade. Muito pelo contrário, essas citações gratuitas, que não seriam feitas pelo cantor, só reforçam o caráter fraudulento de tais mensagens, seja por um espírito zombeteiro e imitador, ou então pela imaginação férfil de Nelson.

A primeira delas, reproduzida integralmente, traz um moralismo religioso que contradiz seriamente ao ceticismo carregado de ironia e cinismo que Raul expressou claramente no final da vida, principalmente ao lado do músico Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus), seu último parceiro. A mensagem, do livro Um Roqueiro no Além, é um suposto alerta atribuído ao roqueiro para os que estão na Terra:

"Frente a realidade que me surpreendeu, a metamorfose agora é outra!

A Sociedade Alternativa não acontece no embalo dos sonhos mal sonhados, nasce na individualidade daqueles que vivem na real.

Vivi como um cometa que passa e causa espanto, não consegui ajustar-me na órbita que poderia sustentar-me na trajetória rumo a felicidade que sonhei para mim e para os outros. Porém, ainda não apaguei, vou continuar entre a luz e a sombra, procurando minha própria luz em constante metamorfose.

Voltei sem alarde, faço da mente do médium o meu telegrafo para revelar ao mundo das ilusões, a verdadeira Sociedade Alternativa que nos aguarda no universo infinito e que deve ser construída no universo íntimo de cada um, aí e agora.

Depois de atravessar os vales escuros da dor e do sofrimento, minha visão ampliou-se e pude compreender que aqueles que buscam afogar suas ansiedades e frustrações nas drogas químicas e alcoólicas, é como um epilético criado artificialmente, o qual sofre e faz sofrer. Por isso, vejo-me na obrigação consciencial de informar aos companheiros que estão a caminho que o sofrimento não pára aí, ele se estende pelos vales espirituais onde a epilepsia se torna real processando a duras penas os elementos venenosos inseridos no corpo perispiritual.

Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes a verdadeira finalidade da vida. Conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros. Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação em que, alguns casos, pode se prolongar por longos séculos.

Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: Você mesmo".


Outra mensagem foi extraída do livro Há Dez Mil Anos, e mostra um "Raul Seixas" um tanto abobalhado e demasiado religioso no seu recado "fraterno" a seus leitores:

"Hoje me sinto muito feliz quando encontro alguém lendo os meus depoimentos, mais do que quando executam as minhas músicas. Aos poucos estou alcançando o sucesso, não mais o sucesso do mito, mas sim, do ser humano que sou. Espero que aqueles que hoje são fã do mito, ao ler meus depoimentos, venham se tornar fãs de verdade e daquele que realmente merece nossa gratidão e reconhecimento. Um dia, Ele será seguido como o grande ídolo da humanidade."

Raul nunca teria citado, pelo menos com a ênfase usada nas mensagens "espirituais", termos como "metamorfose" e "sociedade alternativa" até porque o roqueiro baiano, já nos anos 80, teria abandonado o misticismo que o marcou na década de 70 e passava a ver os rumos do país até mesmo com certo ceticismo.

"SEI QUE PARECE SÉRIO, MAS É TUDO, TUDO ARMAÇÃO"

Em 1987, Raul Seixas compôs com Marcelo Nova a música "Muita Estrela, Pouca Constelação", gravada pelo cantor e a então banda de Nova, Camisa de Vênus. Apesar do título parecer uma referência astronômica, nenhuma sombra da fase mística de Raul aparece na música.

A letra fala de show business. O tema se refere à acomodação do Rock Brasil, embora poderia se referir à música brasileira como um todo (a exemplo de "Arrombou a Festa", de Rita Lee), e mostra Raul Seixas com um humor afiado, corrosivo, descrito num refrão certeiro e sem a dócil pieguice observada nas mensagens de "Zílio":

"Sei que até parece sério / Mas é tudo, tudo armação / O problema é que tem muita estrela / Pra pouca constelação".

Raul Seixas, em entrevista à revista Bizz, em 1988, parecia tão pessimista com os rumos do país que nem mesmo a Censura Federal ele acreditava que iria acabar. E, além disso, ele despejava duras críticas à axé-music (cujo império mercadológico obrigou o cantor a seguir carreira em São Paulo) e ao breganejo que depois tentaram pegar carona no prestígio do cantor depois de falecido.

Raul não tinha mais a ver com o "maluco simpático", com o "místico astrológico" vestido de mágico cantando "Plunct Plact Zoom" para a criançada. Eram imagens reais, mas exageradas e distorcidas pelas mentes de pais conservadores - das quais se inserem pessoas como Nelson Moraes - que acreditam numa imagem adocicada e quase idiotizada de Raulzito.

Não. No final da vida, Raul Seixas estava corrosivo, amargo mesmo, como roqueiro era mais cínico e cético, e vale lembrar que isso veio em toda a vida, desde os tempos em que, adolescente, Raul rompeu com a idolatria por Elvis Presley depois que o viu elogiando as Forças Armadas norte-americanas, após a prestação de serviço militar.

A fase mística foi superada por Raulzito, que era uma pessoa que enxergava as coisas pela frente, e certamente não iria olhar para trás preocupado em fazer trocadilhos com antigas obras. Para Raul, os anos 80 não eram "Gita", "Sociedade Alternativa", "Metamorfose Ambulante". Os anos 80 pareciam mais um "trem que perdeu o condutor", nas palavras dadas pelo próprio cantor.

Na Internet, devem haver documentos e arquivos sobre o que Raul Seixas fazia e pensava nos últimos tempos. A "Muita Estrela, Pouca Constelação", se seguiu a música "Rock'n'Roll", com o mesmo humor corrosivo de Raulzito e Marceleza, e sem qualquer "otimismo" de caráter místico ou esotérico.

Portanto, conclui-se que Zílio não passou de uma grande farsa, respaldada pelo prestígio que os chefes espíritas, os ditos "médiuns", possuem em seus meios. "Mensagens de amor" não são desculpas para que se permitam fraudes nem para aceitar erros que contradizem os espíritos do além com os supostos indivíduos que eles dizem terem sido em vida.

Isso é tão certo que é um princípio ético. Conceitos de amor e caridade não podem se contradizer à ética. A fraude não pode ser aceita "em nome do amor". Sobretudo quando se trata de um artista como Raul Seixas, que nem de longe teria sido o piegas idiotizado, ridiculamente místico e religioso, que o Espiritolicismo, na carona do prestígio do baiano, queria a todo custo promover.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Escritor se autopromove usurpando o prestígio de Raul Seixas

NELSON MORAES E OS LIVROS FALSAMENTE ATRIBUÍDOS AO ESPÍRITO DE RAUL SEIXAS.

Pior do que ser ignorado em vida, é ser usurpado e explorado depois da morte. Pois o roqueiro Raul Seixas, ignorado pelo mercado, mal visto pela sociedade, depois que faleceu em 21 de agosto de 1989, com apenas 44 anos, passou a ser bajulado e usurpado de maneira mais leviana do que o desprezo que sofreu em vida.

Se, aqui na Terra, Raulzito sofreu a bajulação barata e oportunista de nomes como os breganejos Chitãozinho & Xororó - que tiveram a covardia de dizer que "Tente Outra Vez", canção do baiano, inspirou a carreira dos dois canastrões musicais - e os ídolos da axé-music, que quase fizeram um tributo ao cantor (barrado judicialmente pela viúva Kika Seixas), não é diferente no Espiritolicismo.

Pois houve um caso de um suposto médium que se aproveitou do prestígio do roqueiro baiano para lançar, ao menos, dois livros supostamente atribuídos a Raulzito, usando o codinome Zílio. O "médium" em questão é o paulista Nelson Moraes, radialista, empresário editorial e terapeuta.

Ele havia lançado um livro intitulado Um Roqueiro no Além, em que o suposto Zílio narra sua suposta experiência no mundo espiritual. Nos moldes feitos pelo livro Nosso Lar pelo fictício André Luiz, "Zílio" era um roqueiro que faleceu prematuramente por causa das drogas e passou muito tempo preso ao seu túmulo.

"Zílio", tempos depois, teria sido assistido por amigos espirituais e, a partir disso, inicia sua recuperação moral, dentro das perspectivas espiritólicas de reajustes moralistas do passado através do caminho da fé mística e da conformação com os "desígnios da vida".

Com o sucesso do livro, através do chamariz do uso (indevido) do nome de Raul Seixas - "protegido" pelo pseudônimo de Zílio, escapatória para possíveis ações judiciais, a exemplo do Irmão X para Humberto de Campos, usado por Chico Xavier - , outra publicação oportunista veio à tona, Há Dez Mil Anos.

O livro até copia o título do embuste Há Dois Mil Anos, a psicografia de Chico Xavier em que Emmanuel diz ter sido um senador romano que governava a Judeia sem saber das regras de casta política do Império Romano, nem parte dos lugares e prédios de sua área e não entendia sequer de latim.

Há Dez Mil Anos, por sua vez, é uma espécie de "relato pormenorizado" de Zílio quando (supostamente) era o roqueiro Raul Seixas, num relato bastante místico, moralista e por demais religioso que destoa bastante da personalidade cética que o músico baiano teve nos seus últimos anos de vida.

A linguagem é por demais piegas, e através de Zílio é construída uma imagem quase debiloide de Raul Seixas, um "simpático esotérico" com um quê de ingênuo, pregando um moralismo religioso numa linguagem extremamente dócil e conformista.

Evidentemente a "façanha" causou uma certa controvérsia. Mas Nelson, evitando ser surpreendido por alguma ação judicial, deixou de atribuir Zílio ao espírito de Raul Seixas, e Um Roqueiro no Além foi relançado com o desenho de um rapaz qualquer com uma guitarra elétrica.

Nelson preferiu apenas difundir sua fantasia para seus pares. Ele mesmo é dono da editora Aulus, que publica os referidos livros. Para seu público, ele difunde supostas mensagens de Raulzito, com a linguagem piegas e pueril que o músico baiano não teve no final da vida. E cabe explicarmos isso em outra oportunidade.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Espiritolicismo faz fiado para infratores graves

 
Estranha moral do "espiritismo" brasileiro. A "doutrina de amor e caridade", tida como a "mais evoluída " do mundo, prefere que pessoas boas abreviem suas existências enfrentando tragédias prematuras enquanto pessoas de baixo caráter e erros extremos "mereçam" viver longamente pouco importando se isso lhes terá serventia ou se eles mesmo terão saúde para tanto.

Não bastasse a glamourização das tragédias prematuras, das cobranças moralistas de "dívidas passadas", o Espiritolicismo encontra no "fiado" a fórmula para pessoas de baixo caráter só poderem "expiar" seus erros na próxima encarnação.

Daí um certo consentimento com a impunidade dos maus, com as crueldades humanas, com os crimes cometidos. Já houve até livro "mediúnico" sobre um homem que matou a esposa e, "coitadinho", tinha até assistência espiritual para fazê-lo ficar bonzinho rapidinho, de preferência diminuindo seu sofrimento e evitando futuros desastres.

Chega a ser contraditório. A energia com que certos pregadores "espíritas" fazem acusando vítimas de hoje de terem sido "crápulas de outras vidas" se opõe à tolerância quase benevolente quando homicidas saem de suas cadeias para levar uma vida de privilégios e um confortável ostracismo.

Só que esse teatrinho de sentimentos, na verdade, envolve um processo só. O da "doutrina" permitir que pessoas cometam seus piores erros e atrocidades com um mínimo de sofrimento e de desilusões ou infortúnios, sendo uma espécie de "fiado" em que tudo se faz hoje e o pagamento só é feito "amanhã", no caso, a "próxima vida".

O sujeito comete todo tipo de erro, rouba demais, mata, prejudica fulano, sicrano e beltrano, provoca dores nas famílias, espalha lágrimas e rancores por toda parte, e nada lhe acontece. Se sofre alguma coisa desagradável, ela é a mínima possível.

Tem homicida que cometeu o crime com certa crueldade, mas como é de alguma classe mais abastada, sai da cadeia como se fosse um ladrãozinho de tomates de um armazém. A mítica espiritólica lhe assegura a longa impunidade de tal forma, a pretexto de um "longo aprendizado", que nem os descuidos à saúde podem liquidá-lo.

Ele pode encher a cara de álcool durante muitos anos, em doses pesadíssimas, que só sofrerá efeitos danosos, segundo a lógica espiritólica, a partir dos 85 anos. Pode dirigir de olhos fechados pelos piores trechos de uma "rodovia da morte" que, se sofrer um acidente, tenderá "oficialmente" a só ferir o dedo mindinho de um dos pés. Uma unhazinha encravada, talvez.

O "crápula", que precisa "aprender muito" algo que suas paixões materiais não o fazem inclinado a aprender, viverá vida sossegada e pode até mesmo processar os parentes de suas vítimas se eles reclamarem de sua impunidade e fizerem alguma acusação grave contra ele.

O que o "espiritismo" não destaca é que, se indivíduos assim têm muita sorte na vida, não é porque eles "têm mais chance de aprender", até porque eles, tomados de seus orgulhos, pouco se evoluem com a longevidade, mas é porque a sociedade está ainda no estágio de tolerar ou aceitar pessoas assim, dentro de condições morais e legais favoráveis a tais situações.

Em contrapartida, o "espiritismo" prefere acreditar que pessoas que cometem erros sérios só venham a conhecer suas consequências quando já se arrependeram de tais delitos ou faltas. Isso é muito, muito ruim, e tal visão nada contribui para a evolução moral das pessoas, mas para aumentar ainda mais os sofrimentos e as angústias das pessoas.

Imagine. Uma pessoa que comete erros graves e passa a vida toda tendo o mínimo de sorte possível para evitar consequências igualmente graves. Essa pessoa causa indignação pelos estragos que fez a outras pessoas que, por sua vez, sofrem até aquilo que nem mereciam sofrer, ao menos da forma ou intensidade que isso ocorre.

Já o "crápula", sortudo na vida presente, só passa a ser um desafortunado nas próximas vidas quando conhece o arrependimento, quando passa a adotar um bom caráter. Se na hora oportuna, o sofrimento que deveria ocorrer é evitado o máximo possível, depois ele aparece numa dose tão exagerada que se torna difícil superar tantas dores.

Essa visão, que expressa um moralismo doutrinário, só prejudica as pessoas que sofrem. Nada tem de caridosa e leva a ideia do perdão aos inimigos e desafetos de forma caricata, forçada e oportunista. E que faz com que certas pessoas que deixem de odiar indivíduos de baixo caráter passem a odiar pessoas que poderiam ser amáveis.

Dessa forma, a moral distorcida espiritólica acaba fazendo, mesmo sem querer, que deixemos de odiar nossos inimigos para "desejar" algum mal para nossos amigos e entes queridos, por causa das tais "dívidas passadas"...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

"Espiritismo" brasileiro e a visão mórbida da tragédia humana


O "espiritismo" brasileiro, que denominamos Espiritolicismo, sente um certo glamour pela tragédia. Se aproveitam da certeza da sobrevida espiritual para enxergar, de forma conformista, glamourizada e quase sensual, as tragédias que ceifam sobretudo muitas vidas jovens.

Isso cria, nos chamados "espíritas", um sentimento estranho que, na prática, contraria os sentimentos de solidariedade aos sofrimentos familiares. As "lágrimas de crocodilos" que os "espíritas" brasileiros fazem diante de tragédias diversas acabam sendo até uma forma piorada de espiritualidade, porque acham que tragédia na vida dos outros é refresco.

Há uma glamourização nessas tragédias, e por vezes uma certa crueldade. "Cidadão bom é cidadão morto", pregam essas pessoas, vendo que as tragédias humanas acabam sendo vistas até como maneira de higienismo social, de um lado, ou de "prevenção" contra a longevidade de mentes evoluídas, de outro.

É notável que o moralismo "espírita" despeje falsos elogios gloriosos a jovens bonitos que morrem muito cedo, numa adoração quase sensual que, na prática, profana a memória desses jovens que os acidentes da vida fizeram abreviar suas existências.

Para piorar, surgem mediunidades duvidosas, ou talvez pseudo-mediunidades - quando o ato nem chega a ser mediúnico, mas fruto de uma imaginação fértil do escritor - que evocam supostas mensagens desses entes queridos, num tom piegas e por vezes deixando vazar alguma caraterística que contradiz ao que eram os entes supostamente atribuídos a essas mensagens.

Quando são jovens de boa aparência e boa posição social, a glamourização da tragédia torna-se um pouco mais carinhosa, mas nem por isso menos cruel. Se a mocinha linda morre aos 25 anos num acidente de carro ao lado de amigos igualmente jovens e igualmente mortos, todos são vistos com simpatia, mas também tidos como "culpados" de faltas passadas.

Se há assassinos, eles é que são "inocentes", sejam culposos ou dolosos, mas sempre "justiceiros" a serviço das "leis espirituais", como pregam, com tirânico moralismo, os ideólogos do Espiritolicismo. Quem tira a vida do outro, por mais que seja tomado pelo rancor pessoal, é reduzido "generosamente" a agente do "cumprimento de ajustes de outras vidas".

Quando se tratam de pessoas pobres, então a fúria se torna mais evidente. Os "espíritas" acabam acusando tais pessoas de serem antigos sanguinários, e suas tragédias servem de "pagamento" para faltas passadas.

A crueldade atinge até mesmo médiuns emergentes ou mesmo badalados. Woyne Figner Sacchetin, médico de São José do Rio Preto, foi processado por usar o nome de Santos Dumont para acusar de "romanos sanguinários" as vítimas de um acidente ocorrido no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 2007, incluindo todos os ocupantes de um avião da TAM.

Pior fez Chico Xavier, o médium que muitos têm muito medo de fazer a menor crítica, quando fez a mesma acusação contra as vítimas da tragédia do circo em Niterói em 1961. Assim como Woyne, Chico usou o nome de Humberto de Campos (sob o codinome Irmão X) para "acusar" os humildes espectadores do que seria um alegre espetáculo de terem sido "romanos sanguinários".

Só que Chico fez isso em 1966, com uma reputação que a Federação "Espírita" Brasileira há muito construiu, criando nele um mito que pudesse ser o mais inabalável e inatacável possível, por mais erros que cometesse, inserindo no médium mineiro um paradigma de pretensa humildade que, no recurso discursivo do contraste, forja uma suposta superioridade espiritual.

Daí Chico nem sequer foi processado por isso. Até porque, em 1944, o mineiro já ganhou as ações judiciais dos herdeiros de Humberto de Campos, que pelas obscuras questões do então ascendente Espiritolicismo, não conseguiram provar a hoje reconhecida inautenticidade da atribuição a Humberto a obras "psicografadas" inferiores ao que o escritor produziu em vida.

A glamourização da tragédia humana, pelo "espiritismo" brasileiro, torna-se um processo cruel de higienização social, da qual os homicidas são poupados por simbolizarem o "atenuante" dos "ajustes de vidas passadas". Como se qualquer um que cometesse um assassinato fosse, na verdade, um "justiceiro" a serviço das "vontades da espiritualidade".

Pouco importa se os homicidas vivem seus complexos e eles mesmos enfrentam pesadas tragédias, por conta das pressões emocionais que sofrem pelos seus atos e que os fazem abreviar suas vidas em uma média de vinte anos. Os espiritólicos os veem com "menos revolta" na medida em que eles são "facínoras úteis" para garantir a estabilidade dos padrões sociais conservadores.

Já as vítimas, elas são as "culpadas". Se são jovens e de alguma classe mais abastada, podendo ser até classe média, e de uma aparência mais agradável, são apenas carinhosamente apreciados pela morbidez "espírita", num culto quase sensual, num contraditório processo de adoração doentia àqueles que "tiveram que ir porque lhes chegou a hora (sic)".

Se são do povo ou são de alguém sem afeição direta pelos "espíritas", a raiva torna-se mais clara. Ódios adormecidos se voltam contra pessoas abastadas ou contra populares de lugares distantes, acusados de terem sido "plateias entusiasmadas de espetáculos sanguinários", tidos como "assassinos de cristãos" que "tiveram mesmo" que enfrentar tais tragédias.

Com isso, cai a máscara do "espiritismo" brasileiro como uma "doutrina de amor e caridade", diante de tão baixas vibrações diante dos mortos admiráveis adorados com morbidez mais fútil, e por mortos distantes odiados como se simbolizassem neles ódios mal-resolvidos e ocultos. Isso não é amor e muito menos caridade.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Famoso julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos teria sido fictício

 
Uma das conhecidas cenas dramáticas encenadas constantemente nos teatros e no cinema pode não passar de uma ficção. O julgamento de Jesus, feito pelo prefeito da Judeia, província romana subordinada juridicamente à Síria (hoje um país do Oriente Médio), Pôncio Pilatos, simplesmente não teria existido em qualquer documento histórico referente à época.

Pilatos teria simplesmente ordenado a condenação, sem qualquer consulta nem intermediação. Deu a ordem imediatamente, para seus subordinados cumprirem, que é levar o ainda jovem Jesus (talvez entre os 35 e 45 anos de idade), para ser pendurado na cruz, local de suplício mortal a condenados de diversas infrações que iam de sonegação fiscal a assassinato.

O "crime" de Jesus teria sido o de afrontar politicamente as autoridades romanas, através das conversas esclarecedoras que teve nos locais onde se hospedava. Jesus era um andarilho e se hospedava em diversas casas, e nas conversas demonstrava não somente um profundo conhecimento das lições morais elevadas, como também entendia muito de política.

Jesus, que foi um ativista social no seu tempo, tinha uma inteligência acima da média do povo da época. Isso é certo. E, entre uma conversa e outra, ele falava em "outro reino", o que deu margem a diversas interpretações, sobretudo a de que ele estaria conspirando contra o poder imperial, de cuja tirania Jesus assumidamente reprovava.

"JULGAMENTO" TERIA SIDO INVENTADO PELO CATOLICISMO MEDIEVAL

O suposto julgamento de Jesus, que ia contra ao imediatismo sanguinário das autoridades romanas da época, já se mostrava contraditório ao apresentar um Pôncio Pilatos hesitante e indeciso, diante de um "povo" que parecia querer a condenação do ativista, mesmo quando ele, na verdade, era uma pessoa muito querida por aqueles que o conheceram.

Talvez até existisse mesmo uma parcela da sociedade que odiasse Jesus e o quisesse vê-lo na cruz, mesmo. Mas o povo não tinha o direito de ser consultado pelas autoridades que ainda escravizavam, torturavam e matavam, naqueles tempos da Antiguidade. As autoridades mandavam e desmandavam, o povo tinha que aceitar os arbítrios impostos e pronto.

O julgamento teria sido inventado na Idade Média, pela nascente Igreja Católica, para tirar a culpa do Império Romano pela condenação de Jesus. A culpa então seria atribuída ao povo judeu, inocentando os romanos, que a partir do imperador Constantino, considerado o "pai" do Catolicismo, estariam promovendo uma "reabilitação" da figura de Jesus Cristo.

Na verdade, essa "reabilitação" foi uma apropriação que, tardiamente, as elites imperiais romanas, já no declínio do famoso império, tiveram da figura de Jesus, distorcendo sua pessoa para nela criar um mito associado a qualidades mágicas, místicas e moralistas, subestimando seu caráter humanista e sua notável inteligência.

ESPIRITOLICISMO NÃO QUESTIONOU JULGAMENTO

O Espiritolicismo não questionou a veracidade do julgamento. O livro Há 2000 Anos, que o espírito jesuíta Emmanuel ditou ao médium Chico Xavier, cheio de grosseiras falhas históricas e sérias omissões geográficas, continuou considerando o julgamento, que havia sido narrado detalhadamente como reza a cartilha católica.

Neste caso, é notável que se coloca no Império Romano qualidades inexistentes, enquanto extrai outras que de fato existiam. Emmanuel, através do seu duvidoso Públio Lentulus (descendente inexistente de um político que de fato tinha esse nome), havia ignorado a regra de castas vigente nas oligarquias imperiais e, tendo Lívia como esposa, havia dado à filha o nome de Flávia.

Nas oligarquias do Império Romano, sabe-se que havia a regra do nome de um filho ou filha ser necessariamente derivado do nome do pai e/ou da mãe, e a filha de Públio não poderia se chamar Flávia, teria de ao menos se chamar também Lívia.

Mas se Emmanuel desconheceu esse detalhe, ele corrobora a inexistente paciência do violento Pôncio Pilatos, que não queria perder tempo para ver Jesus crucificado, ele que estava furioso em acreditar que o ativista era uma ameaça para a "paz política" do Império Romano.

Pôncio nunca teria feito aquele interrogatório que inspira a imaginação de muitos dramaturgos da Paixão de Cristo. Pôncio simplesmente teria ordenado a sentença para seus subordinados e eles foram executá-la imediatamente.

Foi assim, curto e grosso, porque condizia mais à natureza brutal dos políticos romanos, que, como elites, poderiam até mesmo ter regras específicas, como a de castas familiares e cargos políticos (como os chamados "equestres", cavaleiros que tinham status inferior ao de senadores), mas quando condenavam eram tão diretos e intolerantes quanto quaisquer brutamontes.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Espiritolicismo ainda mantém imagem distorcida de Jesus

BJÖRN BORG, EX-TENISTA SUECO - Seu rosto é, segundo católicos e espiritólicos, a aparência que teria tido Jesus.

O Espiritolicismo não representou qualquer tipo de ruptura real com a Igreja Católica, mesmo tendo a crença da reencarnação e da sobrevivência do espírito como relativos diferenciais. E isso se deve sobretudo à imagem que o "espiritismo" brasileiro faz de Jesus de Nazaré.

Embora num contexto bem diferente do que foi feito pelo Catolicismo, o Espiritolicismo não se compromete a resgatar o Jesus histórico, apesar de tantas pretensões e promessas dos "espíritas" brasileiros neste sentido. De coração mole, os "espíritas" acabam num e noutro momento preferindo o Jesus religioso, o Jesus Cristo que "importaram" das crenças católicas.

Jesus é uma figura bastante controversa nos dias de hoje. Seu ano de nascimento é incerto, apesar do marco zero do catolicismo medieval atribuir o ano um da nossa era como o de seu nascimento. Jesus, além disso, não teria nascido em janeiro, mas na primeira quinzena de abril, provavelmente entre sete e oito anos "antes de Cristo".

Embora haja uma "flexibilidade" na interpretação da vida de Jesus, os espiritólicos parecem mais confusos do que esclarecidos do significado real de sua pessoa. Tentam sair do dogmatismo extremo do antigo catolicismo, tentando "analisar", sob a luz da "ciência (sic) espírita", até mesmo a pouco conhecida adolescência do ativista judeu.

Sabe-se que Jesus era dotado de uma inteligência muito acima da média dos cidadãos do Oriente Médio de seu tempo. Mas a forma como Jesus teria usado essa inteligência - notabilizada sobretudo na famosa conversa que ele, ainda pré-adolescente, teve com alguns intelectuais da época - é bastante controversa.

O Espiritolicismo até dá a aparente liberdade de se admitir, por exemplo, que Jesus não teve a intenção de criar uma religião específica. No entanto, o "estudo" sobre sua figura apela mais para novos mitos, novas mistificações, do que para a análise de sua figura histórica e sua missão humanista.

Lançando mão de interpretações psicográficas duvidosas, ou de "palpites" de "especialistas espíritas", o Espiritolicismo apenas reforça a imagem de Jesus como um "assistencialista moral", entre um esotérico e um pregador religioso, mesmo quando se admite algum caráter intelectualizado de Jesus ou admitir alguns aspectos pessoais que eram tabus.

Pelo menos o Espiritolicismo admite que Jesus ria, dava risadas, contava piadas e dançava muito nas festas realizadas perto de onde ele se instalava. Sabe-se que ele era um andarilho, e se hospedava em diversas casas, e daí ele conversava e esclarecia as pessoas.

Mas essa brecha foi necessária para o Espiritolicismo para justificar alguma diferença em relação à Igreja Católica, apenas um detalhe menor para compensar o muito do moralismo católico medieval que foi absorvido pelo "espiritismo" brasileiro. Tiveram que criar um Jesus mais humano e menos sisudo, porque manter a imagem medieval de Jesus seria forçar a barra demais.

No entanto, isso para por aí. Fora as menções ligeiras de estudos arqueológicos ou descobertas de historiadores sobre quem teria sido mesmo Jesus, os palestrantes e "especialistas" não raro são tentados a "analisar" Jesus de forma mística, aceitando até mesmo as diversas pinturas que mostram de forma desigual a aparência do jovem andarilho da Galileia.

Chega-se ao ponto do "mestre" Divaldo Franco, um dos totens sagrados do Espiritolicismo, falar em "olhos azuis de Jesus", numa clara afronta à natureza étnica do ativista judeu, que, nascido no Oriente Médio, teve a típica aparência de um árabe, com seus olhos castanhos e sua pele bastante bronzeada e rústica.

Existe até mesmo uma canção "espírita" bem açucarada, cantada em vários centros, que se preocupa em rimar "olhos azuis" com "Jesus", com essa aparência europeizada difundida pelo catolicismo medieval. Difícil não pensar no ex-tenista sueco Björn Borg, que parece simbolizar o paradigma da "imagem ideal" de Jesus pelos católicos ferrenhos e seus simpatizantes.

Também não há uma análise sociológica, a análise histórica é superficial, a geográfica é apenas correta, com a apresentação de mapas e citação de alguns fatos. Mas, a julgar que o "sábio" Emmanuel descreve erros e omissões históricas grotescas no livro Há 2000 Anos, isso também não ajuda muito.

Assim, a imagem de Jesus é apenas suavizada por algumas brechas. Jesus não é mais o "Deus encarnado", nem o moralista sisudo e um tanto solene. Pode-se até admitir que ele foi namorado de Maria de Magdala, sua discípula.

Mas os "olhos azuis" e os erros históricos do padre jesuíta - que provou não ter vivido a época de Jesus - só prejudicam a verdadeira compreensão do ativista da Galileia. Portanto, quem quiser compreender de forma mais objetiva e realista a pessoa de Jesus, recorra a historiadores, arqueólogos e sociólogos sérios, que poderão informar melhor sobre as coisas.

O Jesus espiritólico ainda está preso a uma "missão" moralista-esotérica, tomado ainda de enxertos copiados de crenças orientais (hindus e chinesas) distorcidas,  que fazem de Jesus não o verdadeiro ativista social que havia sido, mas um místico que pouco acrescenta à imagem um tanto fabulosa que ele teve do Catolicismo.

Assim, o Jesus histórico pode esclarecer muitas coisas que só reafirmarão a importância desse ser humano que buscou ensinar conhecimentos morais e de outras naturezas para a humanidade.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A pseudo-ciência como fio condutor do Espiritolicismo


Sabemos que o "espiritismo" brasileiro nada tem de ciência. A ciência aparece apenas em artifícios, em aparatos ou arremedos de estudos que não passam de meras manobras ideológicas para disfarçar o moralismo religioso ou para reforçar clichês de ritos "terapêuticos".

Não existem estudos sérios, não existe gente que se prepare para algo além de uma exposição oral de livros ou de cumprir normas, ritos e atividades de seus centros espíritas. Fala-se no sentido do estudo científico, na pesquisa científica, na reflexão objetiva dos fenômenos da vida.

O que há, de "ciência", é um desfile de imagens ilustrativas que evocam formas biológicas de seres humanos, de rostos humanos, que são feitos mais para ilustrar o pedantismo dos "mestres espíritas" e para dar um verniz "intelectual" para os seminários espíritas realizados em algum lugar.

A própria desinformação de muitas pessoas, de um lado, e o pretensiosismo das lideranças "espíritas", de outro, fazem com que todo o aparato de pseudo-ciência se torne o fio condutor do "espiritismo à brasileira".

MUITOS NEM SABEM O QUE É ESTUDO

Muitos palestrantes nem sequer sabem o que é estudo. Os colaboradores - os chamados "tarefeiros" - , muitíssimo menos. Cria-se uma aura de misticismo e adoração que as pessoas pensam ser ciência, porque está tudo "tão bom", tudo parece "tudo de bom" que vale qualquer tipo de pretensiosismo.

Em muitos momentos, confunde-se esoterismo com ciência. Aquele misticismo astral, aquelas fantasias astrais de imaginarmos infantilmente o universo, os planetas e os seres extra-terrestres, aquele arremedo de psicologia, astronomia e biologia que os leigos absorvem sem ter a menor ideia do que se trata, tudo isso é típico do "espiritismo" brasileiro.



Muitos nem sabem o que é estudo. Não questionam, não perguntam, só "questionam" e "perguntam" dentro dos limites ideológicos de suas crenças, mas o conhecimento científico verdadeiro se encoraja a ultrapassar esses limites. O conhecimento religioso do espiritolicismo nem de longe cogita isso.

Quando muito, apenas pesquisa-se ligeiramente na Internet e se colhe informações a respeito de alguns textos para respaldar aquele livro "espírita" indicado para a palestra. Mas isso não é ciência, ou então qualquer aluno de primário seria um cientista tão somente porque faz os deveres de aula recomendados pelo professor.

Mesmo os físicos, astrônomos, acadêmicos e qualquer outro de conhecimentos cultos e certa erudição no discurso - inclusive Chico Xavier, notório escrevinhador de palavras cultas e por vezes rebuscadas, e Divaldo Franco, pela sofisticada manobra das palavras - , também não se comprometem a fazer ciência, quando trabalham com o Espiritolicismo.

Se eles são cientistas, eles deixam a ciência para suas profissões. O "espiritismo" brasileiro não dá lugar para a ciência, como fenômeno em si mesmo, a ciência mal consegue aparecer como um figurante que faz "pontas" no espetáculo "espírita" servido ao público, e muito menos nas atividades desenvolvidas nos bastidores.

A ciência acaba se reduzindo a uma mera desculpa para aceitar ritos e dogmas "espíritas", para  intimidar aqueles que venham realmente com questionamentos que avisem aos espiritólicos do esquecimento, da incompreensão, da ignorância ou mesmo do desprezo aos verdadeiros métodos científicos adotados pelo professor Allan Kardec.

Cria-se, no "espiritismo" brasileiro, apenas o que o anedotário popular define como jogo de aparências. Ilustram-se cartazes de palestras ou de textos "espíritas" com imagens do corpo humano, com pinturas mostrando o universo e os planetas, e enfia-se um cem número de cientistas, de Isaac Newton a Albert Einstein, em toda a verborragia espiritólica.

Cria-se todo um simulacro de ciência para fazer o "espiritismo" parecer diferente ao religiosismo explícito da Igreja Católica e das crenças evangélicas, para fazer as pessoas crerem de que se trata de uma doutrina baseada numa abordagem científica e numa visão objetiva do mundo.

Só que, por trás disso, existe toda uma retórica moralista, mística e mistificadora, em palavras de erudição formal, com vocabulário rebuscado ou, se este não for o caso, com demonstrações de pedantismo pretensamente intelectual.

Só que sabemos que existem seitas pseudo-científicas, que se tornam até mesmo religiões cruéis, a "escolher" seus beneficiários e seus lesados, como se viu na Cientologia, da qual falaremos em outra oportunidade.

O que se sabe é que o Espiritolicismo, o tal "espiritismo à brasileira", se fundamenta de todo esse aparato científico para camuflar os valores religiosos herdados sobretudo da fase final do catolicismo medieval que havia resistido na Idade Moderna e ainda vigente no Brasil do século XIX, época de fundação do "espiritismo" brasileiro.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Quando Allan Kardec é refém do Espiritolicismo


O tom de certos articulistas do Espiritolicismo dá uma amostra de como é o fanatismo, a pretensa sabedoria e o caráter de bajulação que seus porta-vozes fazem em relação à doutrina de Allan Kardec, o professor que virou refém do "espiritismo à brasileira" e é usado para defender até aquilo que ele nunca acreditou.

Aparentemente, existe uma frase de Kardec que diz que "o Espiritismo é uma religião e nós nos ufamanos disso", talvez uma dessas frases mal-traduzidas e mal-interpretadas, já que o "espiritismo" brasileiro, a exemplo do catolicismo medieval, tem por hábito deturpar a mensagem dos verdadeiros mestres e profetas, que nunca se cercam de pompa nem de palavras dóceis para alertar a humanidade.

O que se deve contestar é a má interpretação que se faz do sentido de religião dado por Kardec. Ele estava preocupado apenas com a natureza moral, e não com os dogmas e rituais ligados ao espetáculo que se tornou conhecido como "religião".

Kardec, esse professor desconhecido, na sua essência dos ensinamentos, queria apenas reestabelecer a ligação filosófica entre o homem e Deus, sem a intermediação de crenças supostamente iluminadas feitas apenas por homens que não obstante são mais vulneráveis à tentação dos erros e dos caprichos dos privilégios materiais.

Kardec virou um fantoche da FEB, no processo mais leviano de apropriação dos mortos que nos dias de hoje atingem até mesmo nomes como Raul Seixas, Karl Marx, Che Guevara ou mesmo a gracinha da Brittany Murphy.

É o "maluco" Raulzito, são Karl Marx e Che Guevara paparicados por neoliberais pseudo-esquerdistas - eles estão assim aos montes, sobretudo no Brasil - é a "drogada" Brittany Murphy que "não deveria" participar da continuação da animação infanto-juvenil Happy Feet, são Cazuza e Renato Russo reduzidos a espectros digitais (hologramas) a cantar até com "sertanejos" etc.

E tem Allan Kardec apoiando todo tipo de absurdo, todo tipo de aberração que o grande pedagogo nunca teria apoiado, ele, na sua serena mas firme busca pelo conhecimento, como um pesquisador sério que não aceitaria mistificações baratas.

Kardec, om toda certeza, não iria apoiar as barbaridades que a FEB faz, este que é o partido político do Espiritolicismo, uma espécie de PSDB espiritualista, com seus "trensalão" e "privataria" do além-túmulo.

Um colaborador da FEB, Jorge Hessen, em tom bastante violento, demonstra num texto toda a sua fúria - logo ele, que tenta reprovar a fúria dos outros - contra aqueles que investigam as distorções, falhas e conflitos do "espiritismo à brasileira", com as seguintes palavras:

"A rigor, o que está escamoteado na retórica desses aventureiros da ilusão, sob o tema “Emmanuelismo”, é, nada mais nada menos, o aspecto religioso da Doutrina Espírita sustentado dignamente no Brasil pela FEB e abrilhantado por Chico Xavier na prática mediúnica. Esses kardequeólogos “PhD’s de coisa nenhuma”, longe do uso do bom senso, insistem em divulgar a “progressista” tese de que se é preciso fugir do “Cristo Católico”, do religiosismo, do igrejismo no Espiritismo e transformá-lo numa academia de expoentes do “saber”, sob a batuta deles, obviamente! Isso só pode ser chacota!"


A irritação clara é o momento extremo dos espiritólicos pois, como já descrevemos, eles começam dizendo coisas como "meu irmão, você está alterado", "você fala mal dos que promovem o amor e a caridade, reveja suas posições, amigo!", numa fúria diluída em palavras "angelicais".

Tentando desmentir as distorções catolicizantes do "espiritismo" da FEB, e defendendo as "ilustres" figuras de Emmanuel, André Luiz e Chico Xavier, Hessen ainda não está contente em usar o nome de Kardec, usa o nome de Santo Agostinho, o bispo Aurelius Agostinus de Hipona, para justificar a "natural afinidade" entre Catolicismo e Espiritismo segundo a ótica da FEB.

Ainda vamos falar muito de Santo Agostinho, mas sabe-se que ele foi uma exceção entre tantos católicos. O bispo de Hipona, hoje cidade de Annaba, na atual Argélia, e na época parte do Império Romano. Apesar de bispo, Santo Agostinho também foi filósofo, matemático e teatrólogo, e procurava aliar os conhecimentos cristãos à lógica da qual o catolicismo medieval destruiu.

Se Santo Agostinho deu seu depoimento aos médiuns consultados por Allan Kardec, e publicados na bibliografia do professor lionês, não foi pelo mesmo sentido que o jesuíta Emmanuel se interferiu na Doutrina Espírita.

Santo Agostinho queria fazer o Cristianismo andar para a frente. Emmanuel queria que o Espiritismo andasse para trás, com o mesmo método que o conhecido Padre Manuel da Nóbrega (o E.Manoel - Ermano Manoel, dos documentos antigos do Brasil colonial) fazia tentando "absorver" as culturas indígenas para depois enfraquecê-las e matá-las com o catolicismo medieval.

É lamentável que manifestações de completa intolerância dos chefões da FEB e seus colaboradores aos questionamentos feitos à deturpação da Doutrina Espírita feita durante décadas pela instituição, venham à tona, com a desmoralização gratuita aos questionadores do Espiritolicismo.

Pois se questionamos o Espiritolicismo - que Hessen descreve jocosamente como "Emmanuelismo", desqualificando os contestadores do "insuspeiro" Emmanuel - , é pelos erros que nele consistem, que transformaram o Espiritismo num engodo místico, ritualístico, cheio de dogmas moralistas e outras irregularidades.

E ainda sentem-se tranquilos quando usam o nome de Allan Kardec para legitimar seus absurdos. Antes admitissem que Kardec não era para seu bico, que só falava para os franceses, que no Brasil não cabia Iluminismo nem Espiritismo etc. Seria cruel, mas seria mais sincero.

Kardec andou sendo deturpado pelo Espiritolicismo gratuitamente. Houve até suposta aparição de Kardec falando como um padre católico, e houve até farsante esotérico que disse ter sido Allan Kardec noutra encarnação. Sem falar dos textos deturpados em traduções diversas, a partir do exemplo febiano do roustangusta Guillon Ribeiro.

O grande pedagogo, seguro defensor da boa Educação, gratuita, abrangente e preparatória para os desafios (e as armadilhas) da vida, nunca iria aprovar isso. Kardec é usurpado, distorcido, deturpado, quando ele mesmo afirmou que, se houver alguma coisa errada sob o nome do Espiritismo, ele preferiria ficar com a ciência.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A fixação dos espiritólicos pelo folhetim


O "espiritismo" brasileiro é ciência? Não. Filosofia? Muito menos. Moral? Nem tanto assim, vide as irregularidades que conhecemos. O "espiritismo" brasileiro, que nós fazemos por bem denominar Espiritolicismo, até pelo ranço que tem do catolicismo medieval  remanescente na Era Moderna, se vale mais no espetáculo da pieguice do que de qualquer racionalidade científica.

O que chama a atenção em relação ao Espiritolicismo é a ênfase que se tem nos chamados romances psicografados, que os ditos "espíritas" não obstante dão mais preferência para ler do que os precisos mas "indigestos" livros de Allan Kardec, cuja tradução de José Herculano Pires é a única no Brasil que se submete à essência dos textos originais.

Muitos preferem ler romances "espíritas", achando que neles estão as lições práticas de convívio moral, de resolução dos problemas pessoais e na superação de conflitos e angústias da vida. No entanto, essas obras são carregadas da mais derramada pieguice aliada a um moralismo místico que é confundido com filosofia.

E por que existe essa fixação por essas verdadeiras novelas da espiritualidade que se carregam de moralismo, pieguice e uma desnecessária dramaticidade que intimida muito mais do que encoraja a viver?

Simples. O  "espiritismo à brasileira" se carrega tanto dos valores moralistas e místicos, trazidos pelos últimos estágios do catolicismo medieval, que extrai dos tempos do Segundo Império um dos hábitos mais comuns do grande público na época: a leitura de folhetins.

Os folhetins eram os romances publicados aos poucos nas edições diárias dos jornais. Isso no século XIX, em cujo último quartel foi instaurado o Espiritolicismo no Brasil. Embora os romances "espíritas" sejam introduzidos tardiamente, sobretudo a partir da década de 1960 - quando uma nova forma de folhetim, a telenovela, se popularizava - , a herança do século XIX é notória.

É como se a espiritualidade que havia "guiado" os rumos da FEB - a roustanguista Federação "Espírita" Brasileira - por volta de 1884 se lembrassem, anos depois do Pacto Áureo (1949) que, com o advento da televisão (segundo semestre de 1950) e sua popularização,ao longo dos anos, que as novelas remetiam aos velhos folhetins do período imperial.

Que ler romances é até uma atividade saudável, isso é a mais pura verdade. Mas, no caso dos romances "espíritas", o grande problema está no pretexto supostamente "científico" e "filosófico" de tais mensagens, que só serve para respaldar o moralismo místico-religioso da maior parte de suas obras, de narrativa quase sempre piegas ou mesmo deprimente.

Junte-se a isso com o costume da crença "espírita" brasileira de glamourizar os mortos prematuros, sobretudo de boa aparência. O quanto nomes como Lauro Corona e Daniella Perez devem ter sofrido com a morbidez quase lasciva que o dito "espiritismo" tem com a imagem de belos rapazes e moças prematuramente falecidos e entregues ao "ajuste de contas" no além.

Mas, independente dessa adoração a jovens e belos cadáveres - Oscar Wilde que o diga - , os romances "espíritas" adotam um moralismo de um sofrimento agudo e quase "predestinado" junto a um socorro espiritual um tanto piegas e paternalista e uma superação quase melancólica e resignada dos problemas, numa alegria patética e um tanto servil.

Em outras palavras, as obras "espíritas" desse gênero seguem quase sempre a narrativa típica dos dramalhões, de aparente grandiloquência hollywoodiana, que narram sofrimentos homéricos socorridos pelo paternalismo "espírita". E isso quando se fala em obras gerais.

Até porque, em casos extremos, há obras que, de tão ruins, desaparecem no caminho, como um certo romance "espírita" em que um homem mata a esposa e é sempre socorrido por um assistente espiritual por conta de sua aparente angústia e dor, que mais parece "catimba" de jogador de futebol que finge ter lesão na perna para o juiz dar pênalti e seu time golear o adversário.

E estamos falando em conteúdo, que já tira o crédito de muitos romances "espíritas". Imagine se levarmos em conta o aspecto técnico, em que a mediunidade duvidosa traz, em certos casos, espíritos farsantes que se passam por figuras ilustres ou queridas, ou de médiuns farsantes que tomam como psicografia algo que vem tão somente de suas imaginações terrenas!

Então a coisa fica muito mais grave e o que vemos é tão somente um mercado de romances ruins, que perderiam feio diante de nomes como Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Raul Pompeia ou, um pouco mais além, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Fernando Sabino, verdadeiros artistas da palavra e da prosa ficcional, realmente de grandes lições de vida humana.

Muito dessa superestima aos romances "espíritas", a essa fixação pelos folhetins "mediúnicos", é na verdade para alimentar a indústria editorial dos livros "espíritas", que tão sutilmente fazem as fortunas dos chamados centros espíritas e transforma seus líderes em verdadeiros magnatas, apesar da aparente humildade a eles associada.

O próprio Chico Xavier foi pioneiro nessa indústria, sobretudo a partir de romances surreais - não, nada a ver com o surrealismo admiravelmente genial de Franz Kafka - ditados pelo "padre" Emmanuel "da Nóbrega" ou descritos pela mente fértil do antigo parceiro Waldo Vieira, sob o pseudônimo de "André Luiz".

Desde então, vieram outros, inclusive da família-grife Gasparetto, que impulsionaram o mercado e permitiram o lançamento de vários autores, dos quais poucos se salvam, pelo menos na função de entretenimento literário, de textos que prendam a atenção do leitor. E não se diz aqui a respeito da transmissão das lições de Allan Kardec, que aqui é praticamente NENHUMA.

Portanto, é um mercado que, supostamente feito para a "caridade", é feito mais para fortalecer o poder econômico e influenciador do "espiritismo" brasileiro, às custas do controle ideológico que a FEB e outros órgãos dissidentes ou em tese divergentes, mas ideologicamente afins, estabelecem sobre seus fiéis.

Pois os romances "envolvem" mais os fiéis, fazem as editoras ganharem mais dinheiro e estimulam até mesmo fraudes literárias, us(urp)ando até mesmo nomes ilustres como Eça de Queiroz, Juscelino Kubitschek e outros, para estimular ainda mais as vendas às custas da exploração da boa-fé popular.

Daí que os romances "espíritas" são uma ferramenta crucial para os chefões do "espiritismo à brasileira" atraírem cada vez mais o grande público, se aproveitando de sua fragilidade emocional e pelo forte apelo que as narrativas piegas desses romances trazem para os leitores.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Uma frase de Brittany Murphy vale mais que a bibliografia espiritólica


Brittany Murphy, conhecida por filmes como As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless), Recém-Casados (Just Married), Sin City - A Cidade do Pecado (Sin City) e Grande Menina, Pequena Mulher (Uptown Girls), era uma brilhante atriz e cantora que faleceu prematuramente há exatos quatro anos, com apenas 32 anos de idade.

A sempre adorável Brittany está agora no mundo espiritual, brilhando com seu caráter generoso que as pessoas que conviveram com ela ou a viram como figura famosa puderam conhecer e admirar. E ela teve um grandioso talento, além de uma personalidade bastante intuitiva, jovial, alegre e cativante.

Pois Brittany havia dito uma frase em sua entrevista que é uma singela lição de esperança e otimismo. Uma frase sem imposições de moralismo piegas, de alegria forçada, de falso positivismo, mas tão somente um estímulo à paciência e à perseverança em poucas e discretas palavras. Abaixo, a frase de Brittany:

"Everybody has difficult years, but a lot of times the difficult years end up being the greatest years of your whole entire life, if you survive them". ("Todos têm seus anos difíceis, mas muitas vezes os anos difíceis acabam se tornando os melhores anos de toda sua vida, se você sobreviver a eles").

Brittany não impôs receitas, não estabeleceu caminhos prévios, até porque cada caso é um caso e ela deve saber que cada pessoa tem sua receita própria para superar suas dificuldades. Isso parece sem graça, mas é de um mérito bastante admirável.

Pois a frase da querida Brittany vale muito mais do que os textos verborrágicos, piegas, de receituários prontos de "vida feliz" e "bem estar" que não trazem muito estímulo para pessoas deprimidas. Uma frase de uma atriz bela, graciosa e muito, muito simpática vale muito mais do que milhares de livros "espíritas" dotados de "receitas prontas" para a "felicidade humana".

Daí não ser preciso gastar muito, muito dinheiro. Bem que eu poderia ter visto apenas os admiráveis filmes com a Brittany, me deliciar com seu talento e beleza, em vez de perder tanto tempo com o espiritolicismo que me iludiu durante muitos anos.

Beijão, Brittany, e obrigado por tudo.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A verdade sobre o tal do Mínimus


Soa uma grande picaretagem. Um ambicioso livro que, supostamente, tende a explicar o Novo Testamento, sob uma ótica dita "espírita", cujo autor atende pelo "singelo" nome de Minimus, que durante muito tempo não deu qualquer informação a respeito.

O livro em questão é Síntese de O Novo Testamento, editado, é claro, pela roustanguista FEB, que lançou a referida obra em 1949, época do famoso Pacto Áureo, realizado na Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, evento que reforçou os princípios deturpadores da Doutrina Espírita pela FEB.

Evidentemente, a obra segue o enfoque espiritólico, dentro da linha de livros como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, Nosso Lar, Há 2000 Anos e as traduções pasteurizadas dos livros de Allan Kardec por Guillon Ribeiro.

Portanto, o conteúdo do livro, seguramente, segue um suposto espiritualismo, com algum pedantismo pretensamente filosófico e científico, e recheado do mais retrógrado moralismo católico, nos moldes do catolicismo medieval que vigorou até mesmo no século XIX. Nada que acrescentasse muito às distorcidas traduções acumuladas pelo Novo Testamento.

Durante tempos Mínimus não deu os "mínimus" detalhes de quem era. Várias edições foram publicadas sem que qualquer informação fosse dada. Até que pesquisei um texto num blogue roustanguista, chamado "Aron, um Espírita", sobre outro livro de "Mínimus", Os Milagres de Jesus, e veio a verdade: Mínimus é, na verdade, Antônio Wantuil de Freitas, ex-presidente da FEB.

Ele, que havia sido farmacêutico, havia dirigido a entidade entre 1943 e 1970, e através dele a FEB apoiou o Estado Novo e o golpe militar de 1964, além de ter defendido Chico Xavier no caso Humberto de Campos e presidido as reuniões que deram no Pacto Áureo.

Provavelmente, a identidade foi revelada pouco depois, talvez até após a morte de Wantuil, em 1974, o que fez Mínimus ter permanecido durante algum tempo como "enigma", o que contradiz muito a suposta transparência que o "espíritismo à brasileira" tenta transmitir a seus fiéis.

O livro Síntese de O Novo Testamento continua em catálogo, sendo um dos "livros básicos" de toda essa deturpação que mancha a imagem do professor Allan Kardec, cujas ideias foram distorcidas da pior maneira possível, ocultando as verdadeiras lições do mestre lionês, pouco conhecidas no Brasil.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A escravidão que foi apoiada pelo Dr. Bezerra de Menezes

DR. BEZERRA E SEU LIVRO DE CABECEIRA.

O médico e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes foi um político sem muito diferencial. Pode-se até dizer que foi um político regular, nos níveis de algum parlamentar do PMDB de hoje em dia, com alguma vocação democrática mas com algum fisiologismo político.

Para quem não sabe, o fisiologismo político, conhecido jargão da ciência política de nossos tempos, consiste no agente político, seja governador, prefeito, deputado, vereador, senador etc, adotar medidas que deem preferência às vantagens pessoais em detrimento do interesse público, embora, em muitos casos, esse interesse seja usado como uma falsa justificativa.

Bezerra até escreveu um livro simpático de propostas abolicionistas, A Escravidão no Brasil e as Medidas que Convém Tomar para Extingui-la sem Dano para a Nação, publicado em 1869. Nele o médico e parlamentar até dá sugestões interessantes para o fim do regime escravo no Brasil.

Todavia, Bezerra acabou tendo menos destaque na História por isso. Talvez outros parlamentares tomaram a dianteira no processo, que só foi consumado em 1888 (e olhe lá!), e nesses tempos - virada dos anos 60 para os 70 do século XIX - , era crescente a oposição da sociedade ao regime escravocrata vigente no Brasil.

O grande problema é que Bezerra de Menezes, que deu sua pequena e simpática ajuda para encerrar o período da escravidão no Brasil, acabou apoiando o desenvolvimento de uma nova escravidão, o suplício do Espiritolicismo que tão cedo deturpou as lições arduamente pesquisadas e analisadas pelo professor Allan Kardec.

Pois o chamado "Kardec brasileiro", infelizmente, havia deixado o professor francês de lado, para aderir aos delírios descritos por Jean-Baptiste Roustaing através de um processo mediúnico por este encomendado a uma única médium, o livro Os Quatro Evangelhos (1866).

Com o subtítulo oportunista "A Revelação da Revelação", o delirante livro de Roustaing cria uma fantasia de fazer os psicodélicos viciados em LSD nos anos 1960 parecerem realistas intransigentes, que é a tese do ser humano voltar a virar animais, plantas ou até vermes e micróbios para "expiar" as faltas da encarnação precedente.

Durante muito tempo Roustaing era tido como "espírita moderno", em detrimento do "antiquado" Allan Kardec, que, infelizmente, foi desprezado até mesmo pelos franceses, pois mesmo os amigos e seguidores do professor lionês preferiram deturpar e diluir suas lições precisas em prol de um "espiritismo" mais domesticado e condizente ao poderio católico da França de então.

E o Brasil acabou se tornando um terreno fértil para o Espiritolicismo que já começava a esboçar na França, no período entre o falecimento de Kardec, o final da década de 1860, e a fundação, no país sul-americano, da FEB.

Mesmo um dos ex-aliados de Kardec havia entrado em contato com Bezerra de Menezes, e Roustaing, o advogado de Bordeaux desafeto do professor lionês, foi o autor recomendado para a leitura do médico brasileiro.

Os delírios de Roustaing guiaram as primeiras atividades e ideias do dito "movimento espírita". Em outras palavras, Roustaing fundou o "espiritismo" brasileiro. Durante muitos anos, foi ele que norteou as diretrizes da doutrina, diante de um Kardec mal lido, quase nunca estudado e apenas bajulado como se fosse "mestre e colega" de Roustaing.

Só depois de tantos conflitos e divergências, principalmente por alguns espíritas sérios que acharam um absurdo sermos predestinados a voltar à encarnação até mesmo na forma de protozoários, alertando sobre o absurdo da expressão "criptógamos carnudos" ("criptógamos" é uma expressão da botânica e se refere somente a plantas), a situação "mudou" um pouco.

A questão da reencarnação como lesmas - que é o que enfatizava o discurso roustanguiano - foi deixada de lado, o nome de Roustaing, sem ser boicotado ou marginalizado pela FEB (Os Quatro Evangelhos estão no mercado até hoje), foi colocado "na geladeira", como diz o jargão de hoje, em relação ao discurso ideológico "espírita" brasileiro.

A primeira manobra foi atribuir a Allan Kardec os delírios místicos de Roustaing - descontados a surreal tese dos "criptógamos carnudos", que foi abandonada depois de controvérsias e pesadas desavenças - e o jornalista Guillon Ribeiro, que traduziu Roustaing, foi designado a "suavizar" os textos de Kardec na tradução de sua bibliografia.

A segunda manobra foi "abrasileirar" as distorções roustanguianas - ainda deixando de lado os "criptógamos carnudos" - criando um outro mito, a do médium mineiro Chico Xavier, que seria o responsável oficial por uma outra "releitura" das ideias de Allan Kardec.

Bezerra faleceu em 1900, mas acabou abrindo o caminho para essa deturpação, para essa verdadeira escravidão da espiritualidade com os dogmas místicos e moralistas que passaram a constituir o "espiritismo" brasileiro.

Com isso, o que poderia significar um horizonte de descobertas preciosas no ramo da espiritualidade se reduziu a um engodo religioso que mistura misticismo delirante, moralismo austero, autoritarismo dogmático, idolatrias mórbidas e tudo de ruim que se consiste o chamado "espiritismo" brasileiro, a verdadeira escravidão da fé cega supostamente espiritualista.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A "doce" revolta dos espiritólicos quando contrariados


Quando geralmente se questiona o "espiritismo" brasileiro, principalmente apontando os erros de seus astros - principalmente Chico Xavier - , volta e meia aparecem reações nervosas de seus fanáticos, que se sentem desconfortáveis com tamanhas críticas.

Geralmente são reações irônicas, dadas num tom de falsa benevolência, às vezes forjando alguma aparente calma e posando de suposta superioridade espiritual, mas que claramente apontam algum nervosismo, alguma irritação e revolta. Alguns comentários são bastante típicos:

"Irmão, você está sendo obsediado, ao fazer esse comentário sobre nossa amada figura espírita".

"Você está alterado, irmão, ao atacar verdadeiros exemplos de amor e caridade".

"Reflita o que está dizendo, amigo, e reveja suas ideias em favor daqueles que cultivam lições de amor por toda a humanidade".

"Nossa doutrina é tão linda. Tem certeza realmente do que você está dizendo?"

"Oh, Senhor Jesus!! Iluminai nosso humilde irmãozinho, que se encontra perturbado ouvindo as vozes trevosas que lhe envenenam o coração!"

"Que mal nosso líder espírita causou em você, meu amado amigo, para que volte suas palavras contra essa pessoa que é só bondade e só amor?"

Esses são os principais exemplos. Sempre comentários simulando alguma mansidão, mas claramente apresentando algum incômodo. E incômodo, neste caso, gera nervosismo. A revolta mal disfarçada por palavras "fraternais" não significa que sejam reações equilibradas.

Pelo contrário. As reações tornam-se desesperadas, até mesmo desequilibradas, embora haja uma tentativa de controle dos nervos e até da maneira de dizer ou escrever respostas. São réplicas que mostram uma intolerância em relação à crítica expressa por alguém contra o Espiritolicismo.

O que se pergunta, diante de reações assim, é o seguinte: se o Espiritolicismo é uma doutrina que, em tese, se destina a elevar o espírito, a promover a tolerância, a paz, a alegria e os sentimentos mais edificantes, por que existem reações assim tão desesperadas?

A doutrina apresentou falhas sérias, desde os primórdios da FEB - a roustanguista Federação "Espírita" Brasileira - , ainda em 1884, quando as lições precisas de Allan Kardec foram trocadas pelos delírios extravagantes de Jean-Baptiste Roustaing, até os dias atuais, sobretudo através da licensiosidade doutrinária que teve o apoio ou a conivência de Chico Xavier.

O véu de "amor" e "compaixão" que os fanáticos espiritólicos fazem aos erros de sua doutrina, no entanto, podem fazê-los perder a cabeça em momentos que tomam conhecimento de denúncias diversas a respeito desses mesmos erros.

Aí os fanáticos do Espiritolicismo chegam mesmo a duvidar de fontes, mesmo fidedignas, por mais que as denúncias tenham fundamento, sejam apresentadas por documentos, tenham provas irrefutáveis. Chegam mesmo a perguntar se essas provas foram inventadas por alguém.

Esses fanáticos preferem aceitar os inúmeros erros, equívocos e deslizes cometidos pelo seu "espiritismo", porque só lhes interessa as tais "lições de amor e caridade". Podem ser relatos delirantes, surreais, fantasiosos, sobre seus ídolos, eles preferem a mentira bondosa, comovente e confortante do que a verdade que corta feito uma faca bastante afiada.

Mas isso só faz piorar as coisas. Afinal, essas reações só mostram a fé cega à qual os espiritólicos estão envolvidos, que só camufla as péssimas energias das mentes teimosas quando são contrariadas numa retórica pouco convincente de "amor e fraternidade". O que revela uma grande insegurança moral e uma ausência da paz de espírito que esses fanáticos supõem manter.

Por isso, as energias dessas pessoas que assim reagem não podem ser as mais positivas. Até porque é claro seu desequilíbrio mental diante da contrariedade às suas crenças pétreas, porém surreais e inverídicas. Não será chamando o discordante de "meu irmão" e "amado amigo" que irão fazê-los mais tranquilos, pois suas consciências estão suficientemente pesadas e inseguras.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Mediunidade ficou desmoralizada no Brasil


O fenômeno da mediunidade, no Brasil, ficou desmoralizado, na medida em que se recusou a adotar o rigor e a cautela recomendados pelo codificador espírita Allan Kardec, que não era médium, mas havia escrito um excelente receituário chamado Livro dos Médiuns.

Com a farra causada pela roustanguista Federação "Espírita" Brasileira, que na prática é uma espécie de partido político dos espiritólicos, o fenômeno de comunicar-se com os espíritos do além virou uma coisa sem critério, sem o menor controle, em que certos escândalos vêm à tona mesmo quando abafados pelas lideranças espiritólicas.

Tudo ficou tendencioso. E isso não parte apenas dos chamados médiuns menos preparados, mas também do "maior deles", o mineiro Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, ele mesmo movido pelas circunstâncias e agindo em prol da deturpação da Doutrina Espírita de Kardec.

Se Chico é o "discípulo" de Kardec, então ele cometeu traição. Logo entre seus primeiros trabalhos, como Parnaso de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, mostram indícios de que não teriam sido psicografados.

Os dois livros apontam falhas terríveis em relação ao que os presumidos autores espirituais produziram em vida. Queda de qualidade na expressão poética e prosaica, monopólio de temas "espiritualistas" independente de que natureza seja o autor atribuído, além de denúncias de que Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho teria sido na verdade uma edição reescrita de uma palestra de Leopoldo Machado em 1934.

Só a trajetória de Chico Xavier já permite analisar a mediunidade irregular que, a partir dele e depois de tantos outros, caraterizou o "espiritismo à brasileira". Chico teria sido médium, de fato, mas nem tudo de sua obra era mediúnico e boa parte do que realmente foi nem sempre foi confiável.

Há casos que a mediunidade acerta, tanto como processo - houve de fato a comunicação espiritual - , quanto pela provável identidade do espírito mensageiro. Mas, por incrível que pareça, são casos excepcionais diante de tantas irregularidades.

Em outros casos, a mediunidade existe, mas parte de espíritos zombeteiros que imitam alguns clichês conhecidos de espíritos ilustres ou de entes queridos que partiram, para se aproveitar da boa-fé das pessoas e da comoção popular para lançar mensagens piegas de suposta amabilidade.

Há também casos de "animismo", que é quando o espírito faz mediunidade de si mesmo, aproveitando sua imaginação fértil que o faz "transportar" para fora de si e se passar por qualquer pessoa, como se quisesse fazer uma encenação teatral para sua própria mente.

Casos assim Chico Xavier desempenhou, e é impossível que ele tenha produzido 100% do que é atribuído à sua mentalidade. Com os compromissos de verdadeiro popstar do Espiritolicismo, Xavier tinha que atender pessoas, ir a cerimônias, festas, receber prêmios, homenagens, fazer viagens etc, não tinha condições de psicografar as dezenas anuais de livros atribuídas a ele.

E se dois dos livros atribuídos à sua mediunidade são acusados de serem fraudulentos, uma antologia poética medíocre demais para ser fielmente atribuída aos autores citados, e um livro sobre "história do Brasil" com narrativa infantilizada demais para ser atribuída ao aristocrático, porém de alguma forma arrojado, Humberto de Campos, então dá para sentir o drama.

Boa parte desses trabalhos "mediúnicos" pode ser, na verdade, livros escritos pelo próprio médium, ou talvez por algum outro colaborador - Parnaso de Além-Túmulo teria sido escrito pelo sobrinho de Xavier, numa acumulação estranhamente gradual de poemas "espirituais" em cada edição - ou mesmo por uma equipe editorial da publicadora de tais obras.

Virou bagunça, porque não sabemos o que é verdadeiro e o que é falso. Aceitar tudo a pretexto da fé e do amor é uma coisa não só preguiçosa, mas, o que é grave, omissa e conformada com os erros cometidos por trás desse pretexto. Afinal, não se engana alguém por amor, é bom deixar-se claro.

Com essa bagunça toda, que parece ameaçar corromper os estudos de Trans-Comunicação Instrumental - tecnologia recente que usa veículos de comunicação para o contato com os falecidos - , a mediunidade saiu desmoralizada, desvinculada do rigor científico e entregue ao mais confuso e delirante misticismo, apoiado por dogmas moralistas de "fé, amor e caridade".

Isso dificulta bastante a oportunidade de algum médium sério chegar com uma comunicação relevante e consistente, porque o quadro está completamente bagunçado. Se prostituiu o processo mediúnico, que alguém que venha com um trabalho sério acaba se sentindo desestimulado.

As razões disso são porque a mediunidade bagunçada no Brasil, na medida em que é feita sem critério e ao bel-prazer da imaginação fértil de alguns pseudo-médiuns, de um lado, e da ação de espíritos farsantes, de outro, ameaçam a baixa reputação da mediunidade séria e honesta, pelo fato de que os leigos irão vincular este trabalho a outros mais desonestos, porém mais populares.

Daí que o verdadeiro médium, no Brasil, além de seguir as rigorosas recomendações de cautela e prudência dadas por Allan Kardec, precisa tomar muito cuidado para que a repercussão de seus trabalhos não seja associada erroneamente a outros de credibilidade duvidosa, ainda que bem sucedidos na sua repercussão.

domingo, 15 de dezembro de 2013

'O Filme dos Espíritos' nem de longe se inspirou em Allan Kardec


O cartaz do filme O Filme dos Espíritos, em direção dividida entre André Marouço e Miguel Dubret,  investe imediatamente na propaganda enganosa: "Inspirado em O Livro dos Espíritos de Allan Kardec", como se tivesse sido uma adaptação em drama cinematográfico do livro do professor lionês.

No entanto, a história, embora tratasse de sofrimentos espirituais - num tom um tanto moralista e num ranço católico sutil - , nem de longe tem a ver com o ensinamento de cunho científico, filosófico e de verdadeira evolução moral do grande pedagogo, e até quem nunca viu o filme é capaz de cair na armadilha de criar uma falsa sinopse.

É muito fácil não ter visto O Filme dos Espíritos e montar uma resenha dele. É como um mau aluno de uma escola recorrendo ao trabalho de cópia para montar um texto escrito de várias páginas, sem saber direito o que é tal assunto e apelando para a enrolação para costurar trechos copiados de várias fontes e jogar uns argumentos malandros entre um e outro.

Imaginemos. "O filme trata de sofrimentos pessoais de um homem, que entra em contato com o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, que responde a muitas questões de sua vida. O filme tem no elenco Nelson Xavier, que foi o médium Chico Xavier na biografia cinematográfica". Parece correto, mas é muito vago e impreciso.

Claro, o carinha que escreve uma resenha dessas vai enrolar, cheio de palavras "de amor", falando sobre existências passadas de forma superficial, sobre família, sobre depressão, tudo o mais. A enrolação fica por conta dos comentários malandros do redator: "Certa vez, cheguei tarde na escola, minha mãe me deixou de castigo e eu não gostei, mas depois aprendi que a moral espirit(ólic)a fala das questões do livre arbítrio".

Para professores despreparados, uma redação destas ganha uma nota dez. Mesmo sem o aluno ter visto um segundo sequer do filme, mas passado uma "linda lição de espiritualidade", essa água com açúcar verbal tão caraterística do Espiritolicismo, de tão viscoso e pegajoso que é.

Bom, a história cita apenas o drama de um psiquiatra, Bruno Alves, viúvo e angustiado, que ameaça se matar e recebe das mãos de um gari um exemplar velho do Livro dos Espíritos. Deve ser o da FEB, pelo jeito, mas não me lembro dos aspectos da capa do livro no filme.

É um cara meio deprê, visualmente parecido com o Marcelo Camelo de Los Hermanos, que procura um orientador espiritual, vivido por Nelson Xavier, conhece uma moça, arruma um emprego e depois fica legalzinho, legalzinho.

Não, nada de mesas girantes, nada de sons de batidas que parecem vindos do nada, e nada de experiências magnéticas com animais e pessoas, ou de relatos filosóficos sobre planetas, e nada de divagações de ordem antropológica, sociológica e ética sobre a evolução do espírito.

O filme apenas é um roteiro brasileiro de um drama comum. Nada de inspiração no livro de Kardec. Isso é propaganda barata para ver o filme. É como se eu criasse um roteiro de uma viagem de sacoleiros para o Paraguai e que, só porque a história se passa numa rodovia, eu dissesse que o filme é inspirado no livro On The Road, de Jack Kerouac.

Além disso, a impressão ligeira que se tem é que se trata de um filme católico. A linguagem é a mesma dos filmes católicos de longa-metragem, com todo aquele caráter piegas, paternalista, místico.

Outra impressão para o espectador comum é que o filme começa "Los Hermanos" - por conta do visual barbudão do protagonista - e termina CNBB. A imagem do espírito do personagem de Nelson Xavier passeando pela instituição "espírita" que ele cuidava é bem católica, na sua linguagem sentimental e no apelo espiritualista.

Portanto, do contrário que a publicidade do filme conta, O Filme dos Espíritos não se inspirou uma linha sequer na obra do professor lionês. O livro só é mencionado, parcialmente, em algumas passagens, mas isso não quer dizer que a história necessariamente se baseou no livro de Kardec. Pelo contrário, o livro mais pareceu um "figurante" do que o "protagonista" no filme.

A publicidade simplesmente se aproveitou e se autopromoveu, levianamente, do carisma do professor. Portanto, foi uma publicidade enganosa que se camufla pelo sentimentalismo para iludir as pessoas.

sábado, 14 de dezembro de 2013

A mania do Espiritolicismo em dizer que todos fomos cidadãos romanos


O "espiritismo" à brasileira tem muitas manias. Uma delas é a de atribuir aos brasileiros o passado remoto de ter sido cidadão romano, de preferência vivendo nos tempos de Jesus Cristo, mesmo que seja do lado dos "vilões" do Império Romano.

A imaginação fértil, aliada a um moralismo um tanto vingativo, fez com que Chico Xavier e Woyne Figner Sacchetin, usando, respectivamente, os nomes de Humberto de Campos e Santos Dumont, atribuir às respectivas tragédias do circo de Niterói, no final de 1961, e do acidente da TAM em São Paulo, em 2007, ao suposto vínculo das vítimas ao povo sanguinário do Império Romano.

Mas não somente as vítimas - quase sempre tratadas como "culpadas" pelo Espiritolicismo - são atribuídas, sem qualquer verificação séria e cautelosa, ao passado de cidadãos romanos. Mesmo os astros do Espiritolicismo seriam também, nesse reencarnacionismo delirante e distorcido, antigos cidadãos que teriam vivido no famigerado império internacional.

Bezerra de Menezes teria sido, supostamente, o cobrador de impostos Zaqueu, que em conhecido episódio bíblico teria sido avisado por Jesus que este iria visitá-lo, depois de avistar o cobrador, que tinha estatura baixa, entre os galhos de uma árvore, para avistá-lo diante do acolhimento das pessoas em sua volta.

Joana de Angelis, a suposta orientadora de Divaldo Franco, atribuiu como uma de suas encarnações uma tal de Joana de Cusa, que havia sido esposa de Cusa, procurador de Herodes Antipas, e havia se identificado com a figura de Jesus, vindo a ser pregadora de suas lições, conforme registram as fontes oficiais.

Emmanuel atribuiu para si a estranha figura de Públio Lentulus, um suposto senador romano, estranhamente subserviente ao governador da Judeia, Pôncio Pilatos, seu subordinado político, de uma personalidade branda demais para um enérgico político da época.

Ele chegou a atribuir seu "protegido" Chico Xavier como sendo sua filha Flávia (?! - o nome da filha deveria ser, conforme a casta romana a combinação dos nomes dos pais, e a esposa de Públio teria sido Lívia). Públio, já viúvo, e Flávia, estariam, conforme relatou Emmanuel, entre as vítimas da erupção do vulcão Vesúvio, na atual Itália, no ano de 79 da nossa era.

Quanto à encarnações passadas, o espiritismo verdadeiro, aquele trazido para nosso mundo pelos ensinamentos cautelosos do professor Allan Kardec, não recomenda a preocupação exagerada a respeito das mesmas. Além disso, não existem ainda meios totalmente seguros para garantir se fulano havia sido sicrano numa encarnação anterior.

A tese do esquecimento de vidas passadas é uma maneira, segundo Kardec, de permitir que as pessoas, não se lembrando de suas existências passadas, evitem sofrer vaidades, constrangimentos ou até mesmo ódios deixados no passado, criando um contexto "limpo" em que possa ser desenvolvido o bom entendimento entre as pessoas.

Outro detalhe é que nem todo mundo foi romano no passado. Existem diferentes idades espirituais. Aquele espírito que jurava que foi um deputado romano que mandava cristãos aos leões pode não ter surgido sequer na Idade Média, ou talvez nem tenha sido um terráqueo. Existem milhares de mundos, "muitas moradas", como havia dito Jesus, metaforicamente.

Portanto, seria melhor que as pessoas se preocupassem mesmo é na compra de fantasias de romanos para o próximo baile de Carnaval. E que seja feito tão somente para brincar na folia. Se havíamos sido, ou não, políticos romanos ou cristãos devorados por leões ou pelo fogo, pouco importa. Vivamos nossas vidas e cultivemos as esperanças que existem dentro de nós.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O mito do panfletarismo da arte espírita

ALGUÉM IMAGINARIA O ROQUEIRO RONNIE JAMES DIO (E) E O RAPPER ADAM YAUCH ESCREVENDO TEMAS PIEGAS SOBRE "VIDA DO OUTRO MUNDO"?

O "espiritismo" brasileiro tem desses absurdos. Quando é produzida a suposta arte psicografada, as mensagens que nos chegam se limitam a falar apenas de temas como amor, caridade e "vida do outro mundo", de uma forma piegas e bastante panfletária.

Podem ser nomes diversos como Olavo Bilac e Noel Rosa, que os temas parecem obrigatoriamente obedecer uma aparente lógica de um só tema, a "espiritualidade" da forma como é defendida pelo suposto Espiritismo adotado pela FEB e popularizado por Chico Xavier.

Como é que diferentes artistas orbitem, postumamente, sob o mesmo roteiro temático, independente do que foram em vida, é um grande mistério. Aqui na Terra, tais nomes escrevem sobre diversos temas, mas a impressão é que, se levarmos a sério essas psicografias, eles se tornaram limitados a uma mesma missão temática, como se fossem subordinados a ela.

Imagine se um roqueiro como Ronnie James Dio, que até começou fazendo um rock mais leve, mas depois se consagrou através do heavy metal, iria mandar para os médiuns letras piegas sobre fraternidade e vida eterna?

O que dizer do músico punk Joe Strummer, que havia sido líder do famoso The Clash, escrevendo temas do tipo "unimos, irmãos, no seio da vida eterna, viajores da nossa jornada que inspira tanto amor"? Um cara que compôs "Spanish Bombs", "Rock the Casbah" e "Clash City Rockers" iria vir com uma roubada dessas?

Joey Ramone até cantou uma música como "What a Wonderful World", sucesso na voz de Louis Armstrong, mas se este jazzista não iria mandar letras piegas sobre "viajores e caminheiros da vida após a vida", o cantor dos Ramones muito menos, por mais que o cara tenha sido uma simpatia e que, facialmente, era comparado por uns a Chico Xavier (protesto: prefiro mil vezes o Joey Ramone).

O cantor de música chilena Victor Jara era capaz de unir melodias doces com letras de protesto cortante. Jara, que foi assassinado pelas tropas do ditador Augusto Pinochet, não iria mandar para nós letras do tipo "danos nossas mãos para enchermos de bençãos nossas almas com a certeza da eternidade".

E Adam Yauch, um dos rappers e músicos dos Beastie Boys? Seria que ele escreveria temas açucarados sobre a "vida eterna"? De fato ele tornou-se espiritualista - da linha budista, não da linha espiritólica - , mas não a ponto de se vender, no além, para tais pieguices panfletárias.

Esses casos são estrangeiros e, felizmente, eles não tiveram mensagens aparentemente psicografadas atribuídas à sua autoria e dentro daquela limitação temática que mais parece vir das determinações dos barões da roustanguista Federação "Espírita" Brasileira.

Mas essa suposta psicografia - que, sabemos, não foi realmente feita pelos espíritos a que se atribui a autoria - já teve inúmeras aberrações, que observadores sérios não teriam dificuldade de verificar contradições em relação a o que os espíritos presumidos fizeram em vida.

Teve um "Olavo Bilac" se esquecendo das próprias habilidades de métrica poética que marcaram a vida do poeta parnasiano. Teve um "Raul Seixas" debiloide escrevendo um livrinho espiritualista. Teve um "Humberto de Campos" narrando a História do Brasil da mais ridícula forma. E um "Noel Rosa" mais parecendo um beato e com menos senso de humor que marcou o sambista carioca.

Certamente, dentro dessa "linha editorial do além", Vinícius de Moraes não poderia estar associado a poemas de romantismo sensualizado. Cazuza seria associado não a imagem do roqueiro boêmio, mas de um jovem piegas falando em fraternidade e otimismo de forma carolinha.

E Renato Russo? Ah, coitado! Para quem achou que Renato Russo mergulhou na pieguice gravando músicas italianas, não imagina o que seria a suposta psicografia atribuída ao cantor da Legião Urbana, de risíveis poemas "fraternais", surreais exaltações à "vida eterna" de pieguice muito estranha para quem terminou a vida compondo letras amargas como "Natália".

É certo que essas obras não seriam de fato da lavra dos espíritos atribuídos, até porque, em um momento ou em outro, a precariedade do talento da mensagem "espiritual" entra em contradição séria com o que os autores presumidos fizeram em vida.

O que pode haver é a imitação de estilo do suposto médium, capaz de copiar os estilos de vários artistas, mas sempre escapando alguma imperfeição, algum erro. O que mostra que não é o próprio espírito de alguém que se foi, porque ele nunca perderia seu talento no retorno à vida espiritual. Espírito não regride, ele progride, quanto mais fora da vida corpórea.

Se não é a imitação do suposto médium, pode ser a ação de algum espírito imitador, especialista em plagiar artistas falecidos. E esse panfletarismo temático soa de muito mau gosto, apesar das "mensagens de amor", tanto pela desonestidade dessas manifestações como do caráter monotemático que torna tais expressões enjoativas e constrangedoras.

Daí que não dá para se conformar com isso, só porque são "mensagens de amor". Como dissemos, "amor e caridade" não servem para acobertar os erros e equívocos, muitos deles gravíssimos, do Espiritolicismo. E, se tentam acobertar, tornam tais erros e equívocos mais graves ainda.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Palavras de amor" não absolvem erros do "Espiritismo" brasileiro


Quando surgem denúncias de erros graves ou equívocos constrangedores praticados no Espiritolicismo, que é o dito "Espiritismo" brasileiro, seus adeptos se insurgem e chegam mesmo a dizer "Deixa pra lá,  o que importa são as lições de amor que a doutrina nos dá".

É o caso, por exemplo, de quando se apontam os grotescos erros históricos apontados por historiadores renomados em vários trechos do livro Há 2000 Anos, que o espírito Emmanuel havia ditado ao médium Chico Xavier em 1944.

Os leitores entusiasmados dessa duvidosa obra literária, um "novelão" malfeito de uma linguagem por demais rebuscada e retórica digna do mais retrógrado catolicismo medieval traduzido para o português, simplesmente menosprezam tais erros históricos em nome das "lições de amor" que a obra parece "inspirar".

Outros então chegam ao ridículo de indagar se os dados contidos no livro não seriam "verdadeiros", por conta de um espírito que tais pessoas acreditam ser "superior", o "guia iluminado" de Chico Xavier, a "pessoa mais bondosa" que passou pela face da Terra, na impressão dessas mesmas pessoas.

Impressões semelhantes ocorrem quando Divaldo Franco é acusado de plágio, ou de dar informações erradas em suas palestras verborrágicas, ou diante do aberrante livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, suposta psicografia montada pela FEB sob responsabilidade assumida por Chico Xavier usando o nome do escritor Humberto de Campos.

"Que importam os erros, o que importa é o amor". "Quem é que garante que eles tenham sido erros?". São reações diferentes, mas que colocam o amor acima da honestidade da razão, dentro daquilo que, no catolicismo medieval, havia sido conhecida como a supremacia da fé sobre a razão.

No catolicismo medieval, falava-se no tal "mistério da fé". Era obrigado acreditar, e não pensar. O cientista Galileu Galilei chegou a ir aos tribunais porque questionou concepções astronômicas defendidas pela "Santa Igreja" na época, começo do século XVII. Isso porque suas descobertas científicas nada tinham valor diante da fé cega defendida pelos católicos da Inquisição.

Mesmo sob o pretexto de uma "fé raciocinada" que não se observa na prática, o "Espiritismo" brasileiro também mostra um ranço de catolicismo medieval, quando tenta absolver os erros da razão em prol da "emotividade do amor, da caridade e da fraternidade".

Só que isso, mais do que significar uma adaptação "moderna" para o "mistério da fé" do catolicismo medieval, é uma amostra de conformação com a desonestidade, com a ignorância convicta e nada inocente, e com outros vícios trazidos pelo "movimento espírita".

Afinal, um livro como Há 2000 Anos, em que Emmanuel narra sua suposta passagem nos tempos de Jesus Cristo, revela-se uma fraude aberrante, porque Emmanuel, a partir dos erros históricos que transmite, desconhecendo a geografia, a geopolítica e mesmo o sistema de castas familiares adotado pelo Império Romano, acaba demonstrando que não teria vivido naqueles tempos.

Isso é desonesto, porque Emmanuel diz que foi um senador romano que nenhum documento histórico conseguiu comprovar. Pelo contrário, Emmanuel se baseou na duvidosa "epístola Lentuli", que nem a Igreja Católica, nos seus altos surtos medievais, admitia veracidade.

A "epístola", apócrifa (sem autoria creditada), só teria sido publicada a partir do século XIII, portanto bem depois da vida de Jesus. Antes disso, nenhum documento, dos que hoje restam, dá conta do tal "Públio Lentulus" que Emmanuel diz ter sido, e é pouco provável que os documentos perdidos também possam constar de tal dado.

Portanto, se aprendemos, na nossa sociedade, que a desonestidade macula qualquer sentimento de amor, por que teremos que aceitar tal defeito em relação ao "Espiritismo" brasileiro? Inútil dizer que as "lições de amor" estão acima de qualquer desonestidade ou erro histórico. Até porque desonestidade é enganar quem ama o enganador, é traição, intriga, desmoralização e gera tristeza.

No exemplo de Há 2000 Anos, Emmanuel cometeu uma grande fraude. Como foi fraudulento o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que não passou de uma reedição de uma antiga palestra e nada acrescentou de revelações ao duvidoso horizonte historiográfico brasileiro, ditado pelos burocratas do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil.

Portanto, fraudes assim não podem ser inocentadas pelas "palavras de amor" que transmitem. Isso as faz até piores, porque as "palavras de amor" servem para enfeitar a desonestidade e fazê-la palatável e apreciável para mentes sensíveis, porém pouco preparadas para discernir as coisas. Daí a imoralidade que nenhum "amor" consegue suavizar.
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