quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Humberto de Campos Filho sofreu assédio moral por Chico Xavier?

GRAVURA DO ESCRITOR HUMBERTO DE CAMPOS PUBLICADA NO JORNAL A MANHÃ, EM 1943.

Que Humberto de Campos Filho, o jornalista e produtor de TV que herdou o nome do falecido autor maranhense, foi seduzido pelo "médium" Francisco Cândido Xavier, isso é uma verdade que só os beatos religiosos e os complacentes com o "espiritismo" brasileiro em geral não querem admitir.

Assim que morreu Dona Catarina Vergolino de Campos, viúva de Humberto, Chico Xavier, ao saber do interesse do filho pelo "espiritismo" brasileiro, até pelo lobby que a religião tinha na TV Tupi, já existente no Rio de Janeiro e em São Paulo na década de 1950, resolveu "convidar" o produtor para uma doutrinária no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.

Era uma "emboscada" motivada pelo pretexto da "caridade". Mas uma armadilha movida pelo maior deturpador do Espiritismo, um "médium" que reduziu o legado kardeciano a nada, rebaixando a novidade espírita a uma retomada do velho Catolicismo jesuíta medieval sob novo rótulo, que foi feita para tentar abafar processos judiciais recorrentes dos herdeiros do autor maranhense.

Chico Xavier foi um manipulador de corações e mentes dos mais habilidosos e traiçoeiros. A ele estão associadas técnicas como hipnose, Argumentum Ad Passiones (ou "apelo à emoção"), Assistencialismo (caridade fajuta que não traz resultados profundos, mas a promoção pessoal do "benfeitor") e até coitadismo ou vitimismo, já que Chico, quando duramente questionado, costumava, em sua esperteza, reagir em silêncio, posando-se de "vítima", para forçar a comoção pública.

Deturpador e oportunista, o "médium" que usurpou os grandes nomes de nossa literatura para produzir sensacionalismo, confusão e se autopromover com a bagunça que provocou, era também famoso pelo olhar maligno dos tempos de juventude, comprovada por uma foto com ele olhando de frente, publicada por O Globo em 1935. Ele foi também o que mais fez crescer e se consolidar a "vaticanização" que atingiu o Espiritismo no Brasil.

Processado pelos herdeiros de Humberto de Campos em 1944, Chico Xavier viveu seus dias de Aécio Neves e Michel Temer quando foi beneficiado pela seletividade da Justiça, que não conseguiu compreender que as "psicografias" atribuídas ao escritor maranhense destoavam claramente em estilo do acervo que o também acadêmico havia deixado em vida.

Só uma leitura mais atenta é suficiente para evidenciar as diferenças. O estilo original de Humberto de Campos era bem escrito, culto mas coloquial, com narrativa descontraída e ágil. A do "espírito Humberto" é melancólica, prolixa e rebuscada, pesada de se ler, excessivamente igrejeira e moralista, deixando muito claro um estilo que o escritor maranhense nunca seria capaz de expressar.

Embora haja eventuais plágios da obra de Humberto ou pastiches parciais de suas prosas, o que se observa na suposta psicografia trazida por Chico Xavier é que o estilo está mais para um arremedo ruim dos textos dos quatro evangelistas do Novo Testamento (Marcos, Lucas, Mateus e João) nas traduções em português que conhecemos. No conjunto da obra, quase nada de Humberto de Campos se encontra nas obras supostamente espirituais que levam seu nome.

De uma forma muitíssimo estranha, estão fora de catálogo os livros originais de Humberto de Campos. Indagamos até que ponto o lobby do "movimento espírita" no Brasil pode influir no mercado literário. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro é blindado pela Rede Globo, ele virou a "religião da Globo" e Chico, o "padroeiro da Globo". O poder midiático pode ter dado uma ajudinha para fazer os livros originais desaparecerem para dificultar leituras comparativas.

"ME ACEITE QUE EU SOU BONZINHO"

E tudo isso se deu porque Humberto de Campos Filho, que poderia ter mantido seu ceticismo, preferiu se render ao bom-mocismo do "médium", em um espetáculo anual, aparentemente de "caridade", que nunca trouxe resultados profundos e definitivos de transformação social, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro.

A reunião doutrinária no Grupo Espírita da Prece e a caravana ostensiva só para fazer meros donativos - uma clara demonstração de Assistencialismo e não de Assistência Social, como alardeiam os "espíritas" - , que em 1957 teve a participação de Humberto de Campos Filho como espectador e convidado, pode ter sido um grave exemplo de assédio moral, através da modalidade de apelo religioso.

No fim da doutrinária, Chico foi abraçar Humberto e, usando um tom melífluo de fala, o envolveu emocionalmente, fazendo-o chorar. Depois fez um falsete que deixou a vítima desnorteada, pensando ser a voz do pai, seduzido pela técnica de manipulação mental através do modo mais perigoso de Argumentum Ad Passiones, o "bombardeio de amor".

Considerado uma novidade em termos de estudos sobre a falácia discursiva, o "bombardeio de amor" é confundido por muitos brasileiros como uma forma saudável de acolhimento das pessoas, pelo aparente tom íntimo e generoso que tal apelo emocional traz, causando sensações de conforto, agrado profundo e alegria.

Mas especialistas em análise de discurso e de manipulação da mente afirmam que o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), é um dos mais perigosos tipos de Ad Passiones, tipo de argumentação já considerado falacioso.

O "bombardeio de amor" é uma espécie de mancenilheira emotiva, uma referência à árvore mancenilheira, considerada muito bonita e de frutos deliciosos, mas altamente venenosa em toda sua estrutura, sejam as folhas, o tronco, a seiva e as frutas, trazendo efeitos mortais no organismo.

A atuação de Chico Xavier - que completou a técnica de convencimento sobre Humberto Filho com uma amostra de atividades de Assistencialismo - apresenta caraterísticas de assédio moral, como se estivesse dizendo para aquele que iria processá-lo: "Me aceite que eu sou bonzinho".

Isso é extremamente grave, e faz manchar o "espiritismo" brasileiro como um todo, porque usar o "amor" e a "caridade" como pretextos para se aceitar ações desonestas ou oportunistas é muito mais grave do que tais desonestidades e oportunismos em si, porque são meios de forçar a aceitação pública e estimular a credulidade, o deslumbramento cego e o fanatismo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Arrivismo: uma receita de sucesso?



O Brasil tem um hábito estranho. É a teimosia de aventureiros de qualquer causa se projetarem através de uma trajetória cheia de graves erros, impasses e encrencas, e depois de conquistar o que queriam, passam a bancar os "certinhos", menos por aprenderem as lições do que por saberem o que fazer para levar vantagem.

Há muitos exemplos nesse sentido, o que faz com que uma parcela de pessoas, de uma forma associadas a valores retrógrados, se aventurem em alguma causa considerada de vanguarda, buscando obter visibilidade, causar impressão e obter privilégios, além de evitar ser tragado por alguma decadência que tornasse os valores retrógrados originais obsoletos.

Esse é um tipo muito comum do que se considera ser o arrivismo, um método de ascensão social movido pelas conveniências e pelas ambições, nem sempre por métodos ou posturas corretos. É um tipo de aventureiro social que busca atingir uma meta da qual não se identifica necessariamente, mas da qual depende de um vínculo permanente para obter vantagens pessoais.

Isso não deve ser confundido com as mudanças eventuais que pessoas que antes defenderam valores ultrapassados adotam ao perceber que os valores mais avançados valem mais a pena. Mas o contexto pode discernir as pessoas que, originalmente defensoras de valores ultrapassados, mudam por verdadeiro aprendizado e outras que apenas embarcam em valores avançados para obter visibilidade e prestígio social.

No entanto, num Brasil marcado pelas acrobacias retóricas que fazem com que até direitistas se apropriando de causas de esquerda se esforcem para parecer "esquerdistas exemplares", e fazem muitos machistas violentos conseguirem conquistar novas namoradas surpreendentemente inteligentes, emancipadas e feministas, os arrivistas sempre vestem a capa daqueles que "aprenderam novos valores e mudaram de verdade".

Quantas atitudes hipócritas, que deixam passar algum posicionamento mais retrógrado, surgem de repente, fazendo o arrivista se arrepiar diante de uma ameaça de encrenca, pondo sua causa oportunista a perder. Quantos impulsos do caronista vindo da retaguarda aos "excessos" dos vanguardistas são dados, criando sérios problemas que, com muito custo, o arrivista tenta abafar e passar por cima.

O Brasil é um país em que o penetra luta para ser o convidado vip de uma festa. O país tem o vício de sempre negociar novidades com forças velhas, não tem uma tradição de romper com valores obsoletos, preferindo condicionar valores novos sempre ao agrado de forças retrógradas que querem permanecer no poder, com uma parcela delas se apropriando e buscando um vínculo tendencioso com o novo.

O arrivista tenta parecer flexível, volúvel, como um canastrão circunstancial. O canastrão é um incompetente que finge que quer aprender tudo, se dizendo pronto para qualquer aventura. E o arrivista é uma espécie de "canastrão de vanguarda", aquele que fura a fila da realidade para se aventurar numa causa em que não se identifica mas na qual deseja ter vínculo permanente por pura vantagem.

O Espiritismo foi vítima desse vício brasileiro. E criou arrivistas como Francisco Cândido Xavier, um católico ortodoxo que passou a ser, de maneira bem arrivista, um suposto guia da doutrina originária da França.

Retrógrado e ultraconservador, Chico Xavier foi o maior arrivista do Brasil, ele mesmo criando confusões, agindo errado, às vezes por influência de outrem, mas não raro sob decisão e vontade próprias, com a exata consciência de seus atos.

Ele deturpou a Doutrina Espírita de forma gravíssima, com efeitos devastadores e danosos, emporcalhando o legado espírita original e desqualificando o trabalho árduo que, no passado, foi feito por Allan Kardec. Foi algo feito, sim, com muito propósito, e não pode ser visto como acidente, porque foi feito para um público muito grande e durante muitos anos e através de muitas obras.

A deturpação do Espiritismo por Chico Xavier e seguidores, dos quais se destaca Divaldo Franco, não pode, de forma alguma, ser considerada "um errinho de nada" ou um efeito acidental de incompreensão. Se fosse realmente uma mera incompreensão, porque essa "incompreensão" foi mantida durante muito tempo e espalhada para multidões através de um grande acervo de obras?

Os dois "médiuns" já haviam sido alertados da deturpação há muito tempo. Eles mesmos "catolicizaram" o Espiritismo com muito propósito e consciência plena de seus atos. Se tivessem cometido um acidente de incompreensão, não teriam lançado tantas obras, por muito tempo e com grande repercussão, com conteúdo abertamente igrejista e moralista conservador.

Mas, como arrivistas, os "médiuns" também tentaram dissimular - o arrivista é alguém que costuma dissimular muito suas posturas, até para ocultar aspectos retrógrados de sua personalidade e seus pontos de vista - e eles tentaram expor, na aparência discursiva, a correta teoria kardeciana, como se quisessem "provar" que "aprenderam a lição".

A complacência social acaba cedendo e danoso é aquele vanguardista que dá ouvidos a um arrivista, dando-lhe visibilidade às custas de um figurão mais moderno e avançado. O "espiritismo" brasileiro, mesmo com conteúdo medieval, igrejista, mistificador, mitificador e cheio de devaneios religiosos retrógrados, conseguiu, de arrivismo em arrivismo, passar uma falsa imagem de "progressista", "científico", "racional" e "moderno", aliciando os mais modernos setores da sociedade civil.

Isso é muito ruim, porque o arrivista, num dado momento, acaba sempre freando e evitando as transformações sociais necessárias, minimizando seus efeitos e mantendo intatas as estruturas de poder vigentes. Mesmo que personalidades retrógradas possam ir à ruína, a ação de arrivistas minimiza esses danos, na medida em que permite que aventureiros das novas causas sempre apareçam para levar vantagem e fingir solidariedade ao "novo".

E é isso que, no caso do "espiritismo", cria a doce ilusão de que os próprios deturpadores atuarão na recuperação das bases doutrinárias espíritas originais. A promessa de "aprender a lição" volta à tona, diante da profunda crise vivida pelo "movimento espírita", e existem até arrivistas que forçam a barra, apelando, da boca para fora, para "não só aprender Kardec, mas viver Kardec no dia a dia!".

Sim, existem demagogos que forçam a barra em simular uma postura "plena" da causa que não se identificam. Quantos "espíritas" falam mal da "vaticanização" que eles mesmos praticam, com muito entusiasmo! Quantos deturpadores falam em "viver Kardec", e que, com sua dramaticidade oratória, muitas vezes pomposa mas em outras "mais simples", evocam aquilo que nem se dispõem a fazer, que é a recuperação das bases espíritas originais.

É sempre a mesma desculpa da raposa prometer reconstruir o galinheiro. E quantas raposas se fazem de moradoras do galinheiro, como se já tivessem nascido galinhas! Esse é o problema do arrivismo que sempre brecou as transformações sociais, mantendo o Brasil num atraso social que não só tem dificuldades de ser mantido como ameaça retroceder cancelando os poucos avanços sociais conquistados ao longo dos tempos.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A imagem "higienista" da mulher solteira no Brasil


Algo está muito estranho na divulgação da imagem da mulher solteira pela mídia. Uma imagem forçadamente hedonista, espetacularizada, e que se volta, praticamente, para apenas um lado da pirâmide social, o lado de baixo, nas classes populares, através de uma suposta liberdade difundida pelo mercado do entretenimento.

Recentemente, as rádios estão tocando "Tô Solteira de Novo", continuação de um antigo sucesso da funkeira Valesca Popozuda, "Agora Eu Tô Solteira", um estranho hino de solteirice que, sabemos, não cabe na vida das solteiras comuns, e é mais um exemplo de como a mídia trabalha uma imagem caricatural e espetacularizada da mulher solteira.

As pessoas deveriam parar para pensar e perguntar se uma solteira de verdade se preocuparia em ostentar este estado civil. A coisa é praticamente exclusiva no Brasil, mas não existe só no "funk", mas também no "sertanejo", onde existe o suposto empoderamento do "feminejo", com letras supostamente anti-machistas.

A imagem da solteira trabalhada por esses sucessos do entretenimento popular é tão caricata, voltada ao narcisismo, à curtição e à hipersexualização, que internautas com senso crítico muito afiado ficam perguntando se essas cantoras são realmente solteiras ou estão criando tipo para vender sensualidade.

Observa-se, também, que a imagem da mulher solteira só se dirige às classes populares, havendo um contraste entre as famosas que ficam solteiras com mais facilidade e outras que investem em casamentos estáveis, criando um duplo condicionamento do feminismo brasileiro aos valores machistas dominantes no Brasil onde feminicidas"nunca morrem".

ACORDO MACHISTA

Feminismo, no Brasil, tem que estabelecer um acordo com a ideologia machista, de forma que as conquistas da mulher brasileira sejam minimizadas, ou, quando muito, controladas pela figura masculina.

Observa-se um duplo acordo. Num deles, a mulher que não quer fazer o papel de objeto sexual e quer buscar experiências de vida que não dependam de apelos sensuais ou sexistas esteja sempre associada à figura de um marido ou namorado, geralmente um empresário ou um profissional liberal (médico, advogado, economista).

A mulher que quer "fugir" de sua imagem sexualizada, só se sensualizando conforme o contexto, mas podendo se desvincular dessa imagem a maior parte do tempo, transmitindo ideias e valores culturais mais relevantes, precisa ser "vigiada" pela figura do marido, geralmente um sisudo homem associado a um cargo de liderança e sucesso econômico.

Por outro lado, a mulher que permanece em valores machistas, seja a pobre coitada que só vê novelas, ouve "pagode romântico" e brinca de ser "mãe" com seu pequeno afilhado, ou a siliconada de glúteos avantajados que apela para um sensualismo obsessivo que, mesmo em outros assuntos, há o vínculo forçado do sexo e da sensualidade, a solteirice é permitida e o vínculo à figura do marido ou do namorado é simplesmente dispensado.

Observemos quem são as mulheres que tendem a ser casadas e as que tendem a ser solteiras com maior facilidade. A disparidade de discursos e condições é aberrante e mostra o quanto a ideia de ser solteira é desigual, pendendo mais para as classes populares, enquanto que, nas classes média e alta a ideia é enfatizar a vida de casada e a formação de uma família tradicional (marido, mulher e filhos).

No grupo das casadas, predominam atrizes de TV que se tornam referência para um público feminino de classe média. Há também modelos de grifes, sobretudo "supermodelos". Há também jornalistas de TV, ex-VJs da MTV, influenciadoras digitais ligadas à moda e outras famosas de perfil mais intelectualizado ou próximo disso e sem um apelo sensual obsessivo.

Já no grupo das solteiras, predominam subcelebridades vindas de reality shows, cantoras de gêneros popularescos, modelos siliconadas de marcas de menor expressão, musas fitness de apelo popularesco, dançarinas de ritmos como "funk" e "pagodão" e "musas" de times de futebol. Embora parte delas se autoproclame "feminista", elas são patrocinadas por empresários machistas do entretenimento "popular" ou até por dirigentes esportivos.

Essas solteiras usam um discurso pronto, previamente estabelecido e não raro contraditório. Num momento dizem que são "solteiríssimas" ou "solteiras e felizes", dizendo que "não arrumam namorado por causa do foco no trabalho (?!)", noutro se dizem "carentes" e usam o bordão surrado de que "os homens fogem de medo". Não conseguem se decidir se estão felizes solteiras ou se estão à procura de um "príncipe encantado".

DESIGUALDADE SOCIAL

A imagem "higienista" que está por trás desse mercado de sensualismo obsessivo, abordado por uma imagem caricatural da mulher solteira, emerge como um problema sério por trás dessa distribuição desigual da mídia do entretenimento entre solteiras e casadas.

Nem precisamos destacar a realidade irônica desse processo. No âmbito popularesco, mulheres que mantinham casamentos estáveis se divorciam de repente, com muita facilidade, em favor da "sensualidade". Já entre as mulheres "de elite", famosas mantém casamentos estáveis, mas aparecem quase sempre sozinhas nos eventos, sugerindo "vida de solteira" patrocinada pelos respectivos maridos.

O que está em jogo nesta distribuição desigual é que o "sistema", no qual se executa uma indústria do entretenimento difundida pela grande mídia, conservadora e mercenária, estabelece um "controle social" por trás dessa imagem da mulher solteira restrita apenas ao chamado "povão".

Há um jogo ideológico por trás, no qual o entretenimento "popular" desestimula a mulher a formar família e ter filhos, ou, tendo algum, se separa e não contrai mais novo matrimônio. A ideia é desestimular a renovação de gerações nas populações de origem negra, índia ou mestiça, criando um discurso de "liberdade" que "desobriga" as jovens mulheres que consomem música popularesca a serem mães.

Mas a perversidade não pára por aí. A ideia de evitar que casais heterossexuais se formem, combinando referências masculinas e femininas para as crianças (que praticamente crescem sem o convívio diário da figura paterna), longe de ser uma questão de "liberdade sexual", é na verdade uma forma de evitar com que a formação de casais seja uma referência nas classes pobres, evitando a solidariedade popular a partir do lar.

A imagem do homem é bombardeada pela mídia popularesca de maneira bastante negativa: bêbado, infiel, criminoso, violento, malandro, insensível. Isso é difundido largamente pela mídia policialesca, mas é reforçada pelas músicas de conflitos amorosos que são bombardeadas pelas rádios por meio dos sucessos populares.

O mais grave disso é que homens de etnia negra, índia e mestiça são alvos dessa exploração negativa de imagem, inserindo um racismo sutil nas próprias comunidades, fazendo mulheres igualmente negras, índias e mestiças se envolverem amorosamente com homens afins.

Novidades como a causa LGBT são bombardeadas nas classes populares que, pela baixa escolaridade e pela manipulação midiática e religiosa, não conseguem compreender sua natureza. Amestradas pelo cativeiro midiático de rádios e TVs e educada ideologicamente por seitas evangélicas e sua mídia associada (a Rede Record é a principal delas), as classes pobres não conseguem entender a causa LGBT que lhes chega de maneira exótica e espetacularizada.

O grande problema é que a união de pessoas do mesmo sexo, uma realidade melhor assimilada pelas classes médias, digerida de maneira confusa pelas classes populares, revela seu caráter "higiênico", porque é um amor que não gera filhos biológicos, "congelando" assim o crescimento populacional das classes pobres, não com o objetivo de evitar a superpopulação, mas antes fazer desaparecer, gradualmente, populações de origem negra e índia ou mestiças.

Isso é que está em jogo quando, nas classes mais abastadas, se estimula o casamento, até mesmo por conveniência, revelando, por outro lado, casais sem afinidade cujas esposas reclamam dos defeitos de seus maridos sisudos. Casais afins são desencorajados nas classes populares, mas, nas classes abastadas, há até o ato de "carregar casamento", desestimulando os divórcios de casais divergentes.

Diante disso, a desigual distribuição de solteiras e casadas no Brasil, uma realidade aberrante, pois, no Primeiro Mundo, isso não existe - as solteiras da Europa, por exemplo, se assemelham em perfil às casadas intelectualizadas do Brasil - e nem as solteiras dos países mais evoluídos ficam preocupadas em ostentar sua solteirice.

Lá fora, uma vez tornada solteira, a mulher toca a vida para a frente e busca novos campos de interesse, como História, Artes Plásticas, Viagens etc. Embora de vez em quando se sinta estimulada a se sensualizar, exibindo um decote no vestido durante os eventos sociais, a solteira do Primeiro Mundo não se preocupa o tempo todo em exibir uma imagem hipersexualizada.

A imagem caricatural da solteira brasileira esconde também preconceitos sociais, porque a abordagem hipersexualizada envergonha as mulheres mais abastadas. Também envolve preconceitos sociais, uma vez que a imagem da mulher solteira está associada a um lazer obsessivo e à busca do estereótipo de objeto sexual que intimida as mulheres realmente emancipadas, não só do machismo, mas da hipersexualização.

Enquanto as mulheres das classes pobres veem na solteirice trabalhada pela mídia "popular" um pretenso ideal de liberdade, as mulheres mais abastadas e instruídas se sentem constrangidas com tais abordagens, se apressando em se casarem com os primeiros homens poderosos e influentes que encontrarem em restaurantes e casas noturnas chiques.

domingo, 17 de setembro de 2017

"Espiritismo" não pratica caridade, se promovendo com a caridade dos outros


Principal justificativa dos deturpadores do Espiritismo para continuarem prevalecendo e abafarem os efeitos drásticos de seus atos, a "caridade" é tida como a sua maior qualidade. No entanto, até ela pode ser uma farsa, se observarmos bem.

Sabe-se que a chamada "caridade espírita" consiste em mero Assistencialismo. Embora os "espíritas" definam sua aparente filantropia como "Assistência Social" (a caridade que provoca transformações sociais profundas e definitivas), o que se vê, todavia, na prática, é Assistencialismo, caridade paliativa, reduzida a aspectos pontuais e provisórios ou, se efetivos, bastante superficiais e medíocres, na qual o que mais está em jogo é o prestígio e a promoção pessoal do "benfeitor".

Mas, não bastasse essa "caridade" ser mero Assistencialismo, gerando mais holofotes para os "espíritas" do que transformações sociais para os mais necessitados, na verdade essa "caridade" não é praticada pelas instituições "espíritas", mas pelos fiéis, frequentadores das "casas espíritas".

Sim, isso mesmo, o que rende acaloradas discussões nas redes sociais, sobretudo sobre "médiuns" que vivem do culto à personalidade - apesar de se autoproclamarem "símbolos máximos da humildade humana" - , não passa de uma grande perda de tempo.

Além de deturparem o Espiritismo, difundindo, em nome de Allan Kardec, ideias contrárias a seus ensinamentos, os "médiuns" são famosos por uma caridade que não praticam. Eles apenas se promovem com a caridade dos outros: médicos, professores, cozinheiros, ou donativos enviados por terceiros.

Os "médiuns" apenas se ostentam, a exemplo dos donos de agências de publicidade que não criam as próprias campanhas, mas se consideram "autores" das campanhas que empregados e outros subordinados fazem, ficando sempre com os louros dos trabalhos dos outros.

Os "médiuns" e outros palestrantes "espíritas" fazem turnês por todo o país, em certos casos pelo mundo afora, acumulando tesouros terrenos como medalhas e condecorações, vendendo livrinhos marcados por um aparato de belas palavras repleto de devaneios igrejistas e moralistas, e muitos acreditam que esses palavreadores do "movimento espírita" são símbolos máximos de caridade. Falam até em "vidas totalmente dedicadas ao amor ao próximo", o que é uma grande falácia.

O que ocorre é que o cidadão em comum é que doa seus objetos e os voluntários aderem ao trabalho mal remunerado (isso quando há alguma remuneração), se doando para alimentar a vaidade pessoal do figurão "espírita", que quase sempre está no exterior fazendo discursos para ricos e poderosos, em troca de prêmios por uma suposta caridade e pelo balé de palavrinhas enfeitadas.

Isso é muito grave, porque os ídolos do "movimento espírita" produzem uma retórica na qual eles estão associados a uma imagem de "filantropos" que fascina muita gente e cria legiões de defensores fanáticos, capazes de se envolverem em bate-bocas nas redes sociais, na defesa desesperada de seus ídolos religiosos, pouco se importando se os mais necessitados estão sofrendo ou não ou se os mantimentos doados no mês passado já se esgotaram, voltando a miséria de antes.

A coisa chega ao nível deplorável, porque os "médiuns" causaram uma série de deturpações da Doutrina Espírita, consistindo numa grave traição ao trabalho árduo e penoso que Allan Kardec desenvolveu em seu tempo.

Os "médiuns", além da traição doutrinária (algo que não é acidental, pois feito durante anos, para um grande público e em grande projeção) rompem com sua função intermediária, atraindo para si o culto à personalidade. Viram "grifes" para supostas ações mediúnicas, em muitos casos bancando os "donos" de determinadas personalidades mortas.

Não bastasse isso, a tão festejada "caridade" que está tão associada a essas "criaturas tão puras" é, na verdade, uma ação de terceiros, em muitos casos não vindo de um centavo sequer dos bolsos dos "pensadores espíritas", que, pelo contrário, ainda são pagos por empresas e por parte do dinheiro da caridade para fazer turnês e ficar fazendo belas verborragias para ricos e poderosos em estabelecimentos nobres e hotéis de luxo no Brasil e no exterior.

Ver que essa "caridade" é o maior motivo desses deturpadores é preocupante. A reputação deles acaba se alimentando com essa farsa, fazendo com que os questionamentos fossem abafados em tudo. Até as "mediunidades" fake são aceitas porque seus "médiuns" são "caridosos", pouco importando se a suposta mensagem espiritual foge drasticamente do estilo pessoal do morto em questão.

Precisamos questionar até mesmo essa "caridade". As pessoas ainda pensam a "bondade" como se estivessem pensando a vida como se fosse um conto de fadas ou uma novela da Rede Globo. Ignoram o quanto há autopromoção e arrivismo entre os deturpadores da Doutrina Espírita, que usam de todos os artifícios para se tornarem unanimidade mesmo nas suas piores irregularidades. As pessoas levam gato por lebre e não percebem.

sábado, 16 de setembro de 2017

Criticar a deturpação espírita não é expressar intolerância religiosa

SE DEPENDER DOS "ESPÍRITAS" BRASILEIROS, BOA PARTE DO CONTEÚDO DE O LIVRO DOS MÉDIUNS EXPRESSA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA A ELES.

Estão surgindo casos de intolerância religiosa no Brasil e eles estão sendo muito mal interpretados por uma imprensa incompetente, conservadora e desinformadora e deformadora da opinião pública. Com base numa "constelação" de grandes grupos midiáticos (Globo, Abril, Folha etc) e seus "satélites" que são as páginas de fake news, as pessoas levam gato por lebre e não entendem coisa com coisa com o que passa realmente.

Os episódios que ocorrem no Brasil, na verdade, são episódios de intolerância religiosa, sim, mas sob motivação social elitista e dotada de racismo, movidos por grupos neopentecostais contra crenças religiosas afro-brasileiras e é um reflexo, na verdade, de uma luta de classes agravada depois que a sociedade mais reacionária retomou o poder, com a derrubada do governo Dilma Rousseff.

O "movimento espírita" tenta se aproveitar da situação e, mediante sua grave crise, pegar carona nos movimentos religiosos afro-brasileiros e tomar como seu o infortúnio deles. Isso é bastante insólito e tendencioso, porque o "movimento espírita" sempre se preocupou em não ser confundido com os movimentos como a umbanda e o candomblé, tidos pelos leigos como "espíritas".

Hoje até parece que o "movimento espírita" passou a gostar desta confusão e vários de seus palestrantes estão espalhando por aí que a onda de intolerância religiosa atinge os "espíritas" e ficam dizendo que as críticas severas que recebem na Internet são "manifestos de intolerância, de falta de perdão e perda da fé em Deus", na esperança de deixar o contraditório "espíritismo" brasileiro como está, na "fase dúbia" da bajulação de Allan Kardec e da apreciação de ideias roustanguistas.

O que se tem é intolerância à mentira, à falta de lógica, à contradição e à dissimulação. O conteúdo dos "espíritas" diz muito desses gravíssimos defeitos, difundidos sobretudo pelos "médiuns" que vivem do culto à personalidade e se promovem pelo Assistencialismo (que dizem ser "assistência social"). Através deles, o legado de Kardec foi rebaixado a um "outro Catolicismo", que de tão influenciado pelo jesuitismo, reduziu o "espiritismo" a uma religião medieval.

As críticas severas e bastante enérgicas que o "espiritismo" recebe se baseiam no conteúdo nem sempre agradável da seminal obra O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. A obra não é um doce a ser dissolvido pelos paladares igrejistas dos "espíritas" brasileiros - tanto que Francisco Cândido Xavier se apressou a lançar uma obra mais de acordo com os devaneios igrejistas, intitulada Nos Domínios da Mediunidade - e mostra pontos que desagradam os "espíritas" brasileiros.

Em muitos trechos, identificam-se caraterísticas negativas que se encaixam nas atividades e nos pontos de vista lançados pelos badalados "médiuns" brasileiros, alvo de muita blindagem por parte da grande mídia, como um PSDB da religiosidade. Textos rebuscados, ideias excêntricas à Doutrina Espírita (como os devaneios igrejistas), uso de nomes ilustres em supostas psicografias, tudo isso já havia sido alertado por Kardec como aspectos negativos da deturpação do Espiritismo.

Lendo esse livro - evita-se traduções igrejeiras como as da FEB e IDE e se prefere a de José Herculano Pires, editada pela LAKE, por ser mais honesta com o texto original - , observa-se quantos subsídios a obra de Allan Kardec oferece para apontar os gravíssimos e preocupantes defeitos da deturpação brasileira, coisa que não é algo para esquecer como errinhos de nada, porque eles envolvem responsabilidades, compromissos e riscos nunca devidamente assumidos.

Para quem está acostumado pela imagem adocicada dos "médiuns" brasileiros, promovidos como se fossem fadas-madrinhas da vida real, ler O Livro dos Médiuns é de partir o coração. Sim, porque o conteúdo se refere, direta ou indiretamente, a tudo que representa o "espiritismo" brasileiro, não de maneira elogiosa mas com críticas bastante severas, apoiadas por argumentos seguros e certeiros.

Será que os "espíritas" brasileiros acusarão Allan Kardec ou espíritos mensageiros como São Luís e Erasto de praticarem "intolerância religiosa"? Será que eles serão acusados, da mesma forma, de "falta de misericórdia"? Por outro lado, o "trabalho do bem" pode ser considerado com obras mediúnicas fake de livros e quadros de pintura?

O "espiritismo", infelizmente, sempre se aproveitou da desinformação da maioria das pessoas para levar vantagem até mesmo em suas piores irregularidades. E criticar isso não é expressar intolerância religiosa, mas intolerância à mentira, à fraude, à mistificação e à dissimulação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mensagem "espiritual" atribuída a Allan Kardec dá indícios de obra 'fake'


É muito pouco provável que o professor Leon Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, tenha deixado mensagens espirituais. As mensagens que foram divulgadas atribuindo-se a ele soam muito igrejeiras, e, no caso brasileiro, bastante grotescas, sendo a mais famosa, por Frederico Júnior, lançada em 1889, mostrando um suposto Kardec que pedia para valorizarmos a "revelação da revelação" (nome dado à causa do deturpador J. B. Roustaing).

O que se pode inferir, com base na personalidade rigorosamente criteriosa e objetiva de Kardec, é que ele não teria retornado à Terra nem enviado mensagens espirituais. Mesmo deixando seu trabalho incompleto, Kardec teve consciência, na fragilidade de sua doença, de ter deixado uma orientação suficiente para a humanidade apreciar sua teoria e suas ideias.

A mensagem que reproduzimos abaixo é uma "pegadinha". Ela foi publicada na França, destinada à Revista Espírita e publicada nos Anais do Espiritismo daquele país. Isso sugere que a mensagem atribuída a Allan Kardec é "autêntica" e "indiscutível", mas indícios de que a mensagem tem veracidade duvidosa, embora sutis, podem ser identificados.

O texto, no seu conteúdo, apresenta um Kardec estranho, que se proclama um "missionário" e não um professor e muito menos lembra o Kardec original que lançava ideias com o objetivo de estabelecer um debate e mesmo um questionamento, a ponto de dizer que, se a Ciência provar logicamente o equívoco de uma ideia lançada pelo Espiritismo, que se prefira a Ciência do que a Doutrina Espírita.

No texto abaixo, embora o suposto Kardec fale em "ciência", o texto soa bastante igrejeiro. Ele transforma a "ciência espírita" numa religião e Kardec, estranhamente, trata a si mesmo como se fosse um "missionário". Isso parece bonito para as pessoas, mas contraria a natureza pessoal de Kardec, que nunca se comportou como se fosse um militante religioso.

As alegações do suposto Kardec soam místicas e o Espiritismo é visto como uma religião, e o texto triunfalista foge da natureza kardeciana original, embora, sendo uma mensagem veiculada na França e não no Brasil (onde supostas mensagens espirituais não escondem seu caráter fraudulento), pareça um sutil arremedo das mensagens que Kardec veiculou em obras finais como A Gênese e a coletânea Obras Póstumas.

Embora pareça estranho para os leigos, a Revista Espírita (La Revue Spirite), periódico fundado por Kardec, escapou dos propósitos originais do pedagogo de Lyon. O Espiritismo original também foi deturpado na França, a partir de J. B. Roustaing, mas mesmo os seguidores de Kardec suavizaram seu legado ao sabor de crenças católicas, o que comprometeu a essência original da Doutrina Espírita.

Isso significa que mesmo o Espiritismo francês se deixou diluir ao sabor do Catolicismo, não com a voracidade que se observa no Brasil, mas de maneira decisiva, tanto que, no decorrer dos tempos, deturpadores como Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, teriam livros traduzidos para o francês.

Vamos ao texto da mensagem do suposto espírito de Kardec.

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Comunicação de Allan Kardec em 30 de Março de 1924, confiada à - "La Revue Spirite" - pelos Anais do Espiritismo de Rocheford-Sur-Mer (França). N. º de julho de 1924.

"Outrora os espíritas podiam ser contados nos dedos. Escarneciam e praguejavam contra aqueles que se interessavam por essa Ciência; esses tais eram tidos por malucos e evitados com cautela; mas, hoje, vai-se fazendo luz intensa sobre o Espiritismo, porque os sábios o explicam e procuram a realidade dos fatos. Eu não disse na minha vida terrestre, que o Espiritismo havia de ser cientifico ou morreria?

E a ciência vai pouco a pouco homologando os fenômenos espíritas.

Para muita gente, nós o sabemos, esses fenômenos continuam ainda incompreensíveis, porque não se pode explicar e analisar a força que os produz, mas dia virá em que os sábios à descobrirão e provarão que, se a matéria compõe nosso corpo, existe também no ser humano uma coisa mais sutil que anima esse corpo: a alma imortal!

Com grande alegria vejo um raio luminoso aclarando alguns sábios que tendo a princípio repelido os fatos com desdém, observando-os depois com atenção, vão reconhecendo a sua realidade.

Direi, portanto, aos que ainda não compreendem o Espiritismo: estudai, observai, mas não o aceiteis senão com a vossa razão e com a ciência; é por atenção acurada na observação dos fenômenos que chega a concluir: Cela est! ("É isso!", em francês - o tradutor manteve a expressão original)

Aqueles que nos fatos espíritas só vêm ilusão e crendices da parte dos médiuns que nós animamos, estão em erro, podem também estar de má fé.

Se há médiuns mais preocupados de seus interesses que da verdade, também os há, e em maior número, que são sinceros e desinteressados e são na realidade uma força psíquica poderosa, capaz de ajudar os Espíritos a produzir fenômenos; esses são para nós preciosos auxiliares que nos permitirão atingir o triunfo de nossa obra de Luz.

Que Deus abençoe esse trabalho dos Espíritos, que vai crescendo de dia para dia neste planeta, para maior bem da humanidade. Quanto a mim, a minha missão espiritual está cumprida em parte, e dentro de alguns anos tornarei a reencarnar-me entre vós, amigos; e muitas pessoas jovens, que aqui se acham presentes, poderão reconhecer-me então pela minha obra de Espiritismo.

Essa missão terrestre eu a aceitarei com jubilo por amor de meus irmãos da Terra; e para bem a desempenhar meu espírito está se instruindo, está se iluminando nestas maravilhas estupendas e sem limites, onde há tanto que observar.

Eu estou aí haurindo poderosas forças espirituais para voltar ao serviço do progresso da humanidade terrestre, para afirmar a meus irmãos a realidade e a beleza desta vida do espírito no Espaço.

Sim, eu voltarei para trabalhar neste planeta onde lutei e sofri, mas estarei com o espírito mais forte, mais generoso, mais elevado, para aí fazer reinar mais fraternidade, mais justiça, mais paz".

domingo, 10 de setembro de 2017

A deturpação do Espiritismo e a incoerência dos deturpadores


Na crise vivida pelo "espiritismo" no Brasil, percebe-se que os próprios deturpadores sempre investem na promessa de "recuperar as bases espíritas originais", como se fosse fácil ensinar errado num dia e depois corrigir o mau ensino com a revisão de suas ideias.

Mudar ideias, corrigir, rever conceitos e desculpar-se dos erros é, em si, compreensível e, dependendo do conceito, bastante louvável. Mas não é o caso do "espiritismo" brasileiro, no qual os deturpadores, no primeiro momento, fogem com muito gosto dos ensinamentos espíritas originais e, depois, querem reparar os erros que cometeram, mesmo quando suas consequências se tornam graves.

O "espiritismo" brasileiro, por suas escolhas, acabou se reduzindo a uma forma atualizada e esotérica do antigo Catolicismo jesuíta, de bases medievais, que vigorou no Brasil durante boa parte do período colonial. Quando tentou reparar o problema gerado, foi tarde demais.

Não adianta renegar Jean-Baptiste Roustaing e herdar suas ideias. Da mesma forma, não adianta admitir alguma qualidade positiva na obra de Roustaing e depois dizer que "Espiritismo é só com Allan Kardec".

Nos últimos 40 anos, o festival de incoerências associado aos "grandes nomes" do "espiritismo" brasileiro, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, corroborado por nomes de menor projeção como Richard Simonetti, José Medrado, Orson Peter Carrara e Alamar Régis Carvalho, mostra o quanto o "espiritismo" se reduziu a um engodo doutrinário.

Esse engodo mistura ideias espíritas originais com conceitos igrejistas. A "caridade", tão festejada, se resume a mero Assistencialismo, apesar do rótulo pomposo de "Assistência Social": uma "caridade" que ajuda pouco e só serve para a promoção pessoal do "benfeitor", endeusado por conta de concessão de sopinhas, roupas velhas e projetos pedagógicos não muito diferentes da antiquada Escola Sem Partido.

A desinformação generalizada das pessoas - que desconhece, por exemplo, que o termo "médium" significa "intermediário" e nada tem a ver com a imagem espetacularizada dos supostos médiuns marcados pelo culto à personalidade - permite que o "espiritismo" se sustente com tantas contradições, num momento apelando para o "respeito rigoroso aos postulados kardecianos originais", no outro se derramando no igrejismo mais exaltado.

O expositor "espírita", seja um "médium" ou um simples palestrante ou escritor, não pode ser compreendido como um funcionário de plantão que comete um desastroso erro num dia e, depois, tenta corrigir o que havia dito antes. Isso porque, pelas suas pretensões e responsabilidades, a contradição tem maior peso de gravidade, e se juntarmos as diversas exposições, orais ou textuais, de cada "pensador espírita", se verá uma coleção de ideias que se chocam umas com as outras.

PRETENSÃO DE PALAVRA FINAL

O expositor "espírita" tem sempre a pretensão de ficar com a "palavra final", embora sempre dê a impressão de que não pretende isso. É como aquelas pessoas que querem a posse da verdade mas, no discurso, insistem que não.

Neste caso, o expositor "espírita", que se considera "porta-voz de Jesus" e, a pretexto de transmitir mensagens "edificantes", comete vários equívocos, até pela abordagem igrejeira que expressa da Doutrina Espírita, tem um peso de responsabilidade maior para ter maior cuidado com as ideias, e, se decide se descuidar, está sujeito aos efeitos mais drásticos que o desqualificam como "pensador" do Espiritismo.

Não adianta expor um aparato de belas palavras, como se a arrumação de textos garantisse a suposta coerência de ideias e a aparente positividade das mensagens significasse consistência de ideias e conformidade com o bom senso. Quantas mentiras, quantas ideias truncadas, confusas e incoerentes se escondem sob a mais bela coreografia das palavras!...

O caso precedente de Chico Xavier, que sempre foi um católico ortodoxo fantasiado de "espírita", ou o caso posterior de Divaldo Frando, roustanguista dos mais igrejistas, mas que vende a falsa imagem de "kardeciano autêntico", revelam o quanto os alhos e bugalhos textuais causam problemas graves, fazendo com que, de forma vergonhosa, o Espiritismo brasileiro nunca seja devidamente respeitado.

A coisa se agrava quando os expositores "espíritas" sempre desejam ter a reputação de "filósofos". Isso requer uma grande responsabilidade que quase nunca é assumida, principalmente se soubermos que a função de filósofo não é a de ter a pretensão de "saber tudo", mas de transmitir ideias para análise e questionamento.

Daí ser vergonhoso ver volumes como a série "Divaldo Responde", um "clássico" da empulhação, um amontoado de textos verborrágicos, de suposta erudição e rebuscados, que só agradam mesmo a quem se apega a valores ultraconservadores e a paradigmas hierárquicos que só tinham sentido cem anos atrás.

A "fase dúbia" do "movimento espírita" vive a sua grave crise e quer corrigi-la com supostas soluções que se revelam ineficazes. Sempre a mesma promessa de "entender melhor Kardec", alimentada pela letra "desencarnada" da "correta" exposição da teoria espírita original.

Mas se, num momento, se sucumbe à tentação do igrejismo mais entusiasmado, então não adianta ensinar correto a teoria espírita, se na prática desobedece às mesmas lições. Além disso, os deturpadores da Doutrina Espírita não têm condições reais para recuperar as bases kardecianas que eles mesmos rasgaram com gosto. Não se pode fugir da responsabilidade dos piores erros.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Imagem "dócil" dos "médiuns" impede que eles sejam investigados em irregularidades


O "espiritismo" não passa de um grande balé de palavras bonitas que escondem um conteúdo conservador. Uma embalagem bonita e aparentemente "limpa", mas que no seu interior esconde uma série de graves e terríveis contradições.

No Brasil, há o costume das pessoas julgarem o conteúdo pela embalagem. O jogo das aparências, sobretudo numa sociedade de hierarquias rígidas e desiguais, onde o "topo da pirâmide" fica com tudo e a "base", sem sequer o necessário, é defendido de maneira ferrenha, neurótica e extremamente apegada.

O "espiritismo" brasileiro fala tanto em desapego, mas é uma das religiões que mais sofrem de apegos muito doentios. É o caso dos supostos "médiuns", que se vê claramente deturpando o legado espírita original, mas pelos quais há um esforço obsessivo em mantê-los como representantes daquilo que justamente deturpam e traem com gosto, a Doutrina Espírita.

O Brasil é um dos países mais ignorantes do mundo. Talvez o mais, se levarmos em conta que pesquisas são apenas recortes de uma parcela da sociedade. A desinformação generalizada faz com que muitas pessoas, mesmo tidas como "esclarecidas" e "progressistas", aceitem gato por lebre e cultuem um "espiritismo" que nada tem a ver com o original francês.

O apego aos "médiuns" atinge níveis que são definidos, pela Ciência Espírita original, como processos obsessivos de "fascinação" e, em certos casos, de "subjugação", criando uma ilusão de "boas energias amorosas" que, diante da mais inofensiva contestação, se convertem em explosões de ódio, raiva e até violência.

É o que se vê em relação a Francisco Cândido Xavier e outros. A adoração cega, a "fascinação" e "subjugação" que eram alertados, com muita antecedência, por Allan Kardec e seus mensageiros, infelizmente é um vício do qual dificilmente sai das mentes de muitos deslumbrados, obsediados pela mística e pela magia que se associam aos supostos "médiuns" brasileiros.

Isso é muito terrível. A imagem dos "médiuns" brasileiros, que romperam com o caráter intermediário da função e vivem do culto à personalidade, se equipara à imagem das fadas-madrinhas dos contos de fadas infantis. O próprio entretenimento das "belas estórias", que existe nas palestras e textos "espíritas" em geral, remete a uma forma grosseiramente adulta do lazer de ouvir estórias infantis durante a infância.

Isso garante a imunidade e a impunidade dos "médiuns espíritas", que se tornam "imexíveis" como os políticos do PSDB, às vezes bem mais do que os chamados tucanos. Há casos de irregularidades em obras "mediúnicas", sejam livros, cartas e pinturas, e ninguém investiga, ou, quando se investiga, lembra o simulacro de investigação que remete a atividades recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal que promovem uma "justiça seletiva".

São irregularidades graves, que em país menos imperfeito dariam em acusações de falsidade ideológica e ofensa à memória de pessoas mortas. O baiano José Medrado cria um falso quadro de Cândido Portinari, intitulado "São Francisco de Assis", e o exibe como um troféu no seu programa na TV Bandeirantes, mas ele nem de longe lembra o "São Francisco de Assis" original que o pintor havia feito em 1941.

Mas os casos de Chico Xavier são notórios. O aberrante contraste estilístico que se observa em obras espirituais atribuídas aos espíritos de Humberto de Campos, Auta de Souza, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e tantos e tantos outros, mesmo não-famosos, em relação ao que eles eram em vida, é evidente. Imagine se a adorável poetisa Auta de Souza, no mundo espiritual, abriria mão de seu estilo feminino de lirismo infantil para "escrever" igualzinho ao "médium" que a recebeu?

Tudo isso daria cadeia, em países menos evoluídos. É charlatanismo puro, uma atitude que até Kardec reprovaria com energia. E não foi por falta de aviso que essa irregularidade ocorre livremente no Brasil, pois a contundente obra O Livro dos Médiuns já preveniu a humanidade da apropriação de nomes ilustres que tanto espíritos farsantes quanto supostos médiuns se utilizam para levar vantagem com o sensacionalismo e a mistificação.

Mas experimente iniciar alguma investigação. Lágrimas serão derramadas pelos seguidores dos "médiuns", que chorarão copiosamente só de imaginar vem um de seus adorados como réus num tribunal. A situação é preocupante, porque a obsessão reage com muita cegueira, mediante falácias como "perseguição ao trabalho do bem" a pessoas, que, na verdade, só ajudam muito, muito pouco.

Sejamos sinceros. Se os "médiuns" brasileiros tivessem realmente feito caridade, até pela pretensão de grandeza que se atribui a eles, o Brasil teria atingido níveis escandinavos de qualidade de vida, até porque se alega que a ajuda desses "filantropos" é "profunda e transformadora".

Mas a verdade é que isso é conversa para boi dormir e o que os "médiuns" fazem é mero Assistencialismo, uma caridade paliativa, pontual, sem enfrentamento real com os problemas da pobreza, uma medida que "não cura" a doença da miséria, apenas "alivia" sua dor. Além disso, o Assistencialismo se preocupa mais em promover o "benfeitor" às custas de uma "caridade" que só traz resultados medíocres para os mais necessitados.

Vergonhoso é ver que Chico Xavier fazia todo um espetáculo de ostentação, a níveis de espalhafato, em pomposas caravanas que só serviam para oferecer doações que se esgotavam em três semanas. Enquanto os mantimentos de um evento filantrópico se esgotavam das despensas das famílias carentes, ainda havia muita comemoração por aquele donativo praticado. Os resultados da "caridade" desaparecem, mas as comemorações continuam, em desrespeito ao sofrimento dos mais pobres.

Igualmente vergonhoso é ver que um fanático seguidor de Divaldo Franco, numa comunidade de ateísmo (?!) nas redes sociais, tenha insistido tanto em defender a risível imagem do suposto médium como "maior filantropo do país", quando dados concretos confirmam que ele não chegou a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais em níveis nacionais.

A teimosia do referido internauta, num meio em que a pós-verdade se dispõe de um exército de desculpas que promovem a supremacia do contrassenso sobre a coerência, tão comum nas redes sociais, revela a preocupação que se tem em definir a "bondade humana" apenas pelo rótulo da religião e pelo prestígio de ídolos religiosos. A miséria dos infortunados da sorte é só um detalhe.

É preciso haver mais questionamentos sobre o "espiritismo" brasileiro e que eles possam ultrapassar os limites da Internet, criando esforços para que até a grande imprensa seja, mesmo a contragosto, induzida a admitir os problemas que envolvem a doutrina igrejeira.

Se ao menos a chamada imprensa alternativa, sobretudo a mídia progressista, rompesse com a complacência obsessiva que envolve os "médiuns espíritas" - que, aliás, são protegidos da mídia mais reacionária, sobretudo as Organizações Globo - e resolvesse investigá-los, sem medo de fazer demolir, como castelos de areia, a imagem adocicada aos níveis das fadas-madrinhas, seria um belo esforço.

Afinal, enquanto as paixões religiosas inebriam as pessoas na Terra, acreditando que as mensagens fake atribuídas aos mortos mas vindos apenas das mentes dos "médiuns" são "autênticas" apenas porque mostram "lindas mensagens", nos planos espirituais os espíritos ficam assustados com as pernas-de-pau longas que a mentira "mediúnica" arruma para manter o status de "verdade absoluta".

A ilusão doentia dos "médiuns" imunes a tudo, até mesmo à coerência dos fatos, só foi possível porque as pessoas são desinformadas, se rendem fácil às tentações da paixão religiosa (tão inebriantes quanto as tentações do sensualismo) e são capazes de mentir a si mesmos dizendo que são "as mais esclarecidas e as mais realistas". Infelizes daqueles que estão presos nestas ilusões.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Madre Teresa de Calcutá e a alegria com a tragédia alheia

BRUXA DO MAR (VILÃ DE TURMA DO POPEYE) E MADRE TERESA DE CALCUTÁ - Separadas ao nascer?

Um dos pontos bastante sombrios de Madre Teresa de Calcutá, oficialmente promovida a "santa" e tida como "símbolo de caridade máxima" - e, entre os "espíritas" brasileiros, um modelo para a "caridade" de Francisco Cândido Xavier - é sua estranha alegria ao saber que milhares de seus assistidos haviam morrido devido aos descuidos diversos de higiene e falta de assistência.

Segundo Madre Teresa, ao saber que 29 mil dos enfermos e miseráveis que ela acolheu na instituição Missionárias da Caridade, haviam morrido, ela não escondeu seu entusiasmo e disse que são "mais anjos" que agora "estão mais perto de Deus".

O lado sombrio de Madre Teresa foi revelado pelo físico indiano Aroup Chatterjee, que viveu em Calcutá e lá trabalhou como médico, e escreveu o livro Mother Teresa: The Untold Story, que chegou a ser intitulado Mother Teresa: The Final Verdict, e que inspirou o documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel), do jornalista inglês Christopher Hutchens.

Segundo Chatterjee, Madre Teresa, ao saber dos 29 mil mortos entre seus alojados, afirmou que havia batizado em nome de São Padro para "deixá-los entrar no céu" e disse que "é muito bonito ver as pessoas morrerem com tanta alegria". Sobre o sofrimento humano, Madre Teresa teria dito que "o mundo ganha muito" com isso.

Outro médico, o cubano Hemley González, havia trabalhado na instituição de Madre Teresa, movido pela reputação oficialmente positiva das Missionárias da Caridade. Mas logo que foi trabalhar lá, viu o que considerou uma "violação sistemática dos direitos humanos" e um "escândalo financeiro". Ele ficou chocado com o que viu nas instalações.

Segundo ele, confirmando o que já havia sido denunciado por Chatterjee e Hitchens, as seringas eram poucas e reutilizadas (algo que nivela a "caridade" de Madre Teresa ao que muitos drogados fazem em suas vidas sociais), sendo lavadas apenas com água de torneira (que não é lá aquela limpeza que se supõe, sobretudo num país como a Índia), e os pacientes só eram remediados com paracetamol e aspirina ou, quando muito, por remédios que chegavam com prazo de validade vencido.

MADRE TERESA, "ESPIRITISMO" E CHICO XAVIER

O que faz uma retrógrada figura católica, ícone da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo, ser adotada pelos "espíritas" - que, na sua natural hipocrisia, também recorrem, mais tarde, à bajulações oportunistas a figuras progressistas como Dom Paulo Evaristo Arns e sua irmã Zilda Arns - , é algo que dá para entender, se considerarmos que o "espiritismo" brasileiro se reduziu, hoje, a uma religião ultraconservadora.

O "espiritismo", sabemos, tornou-se tão conservador que só perde em referências retrógradas às seitas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus. Enquanto esta busca um foco maior no Velho Testamento, o "espiritismo" focaliza o Novo Testamento, mas enquanto o primeiro busca uma leitura protestante dos velhos tempos bíblicos, o segundo relê a trajetória de Jesus de Nazaré sob o ponto de vista dos fundadores da Igreja Católica, como o imperador romano Constantino.

A inclinação do "espiritismo" brasileiro ao Catolicismo medieval se deu, inicialmente, pela simpatia dada pela obra Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing. Depois, a "catolicização" do "espiritismo" brasileiro se deu por questão de sobrevivência, para se aproximar da Igreja Católica que o protegeria da repressão policial que combatia os "centros espíritas" no país. Mas a medievalização se deu, para valer mesmo, com a adoção do católico ortodoxo Chico Xavier.

O próprio "médium" era, além de devoto de Nossa Senhora da Abadia, admirador do padre Manuel da Nóbrega, tanto que, como paranormal, o beato de Pedro Leopoldo afirmava ter mantido contatos amigáveis com o espírito do padre jesuíta, que, com base numa antiga assinatura, "E. Manoel" (Ermano Manoel, "irmão Manuel" em português arcaico), passou a ser conhecido como Emmanuel.

Chico Xavier, espécie de Aécio Neves da religião, pela blindagem ferrenha que recebe mesmo diante de revelações muitíssimo sombrias - entre elas, a de que sua alegada mediunidade teria sido um blefe - , contribuiu muito para o "espiritismo" brasileiro se afastar definitivamente de Allan Kardec (apesar das insistentes bajulações de seu nome) e recuperar as bases doutrinárias, isso sim, do Catolicismo jesuíta que dominou o Brasil no período colonial.

O próprio Chico Xavier revelou, mesmo sem assumir a Teologia do Sofrimento, ser adepto dessa corrente católica. Isso é comprovado com ideias que veiculava sobre a resignação ao sofrimento, ao mito da "abnegação": sofrer "sem demonstrar sofrimento", olhar a natureza nos momentos de agonia, não reclamar da vida e não contestar coisa alguma eram seus apelos, ditos pelas próprias palavras e, por vezes, atribuídas tendenciosamente aos "espíritos" que dizia psicografar.

A própria adoração a Chico Xavier amaldiçoa seus próprios seguidores. Em boa parte de seus seguidores, ocorrem tragédias envolvendo filhos e outros jovens, o que traz indícios de que o "médium" via com exotismo as mortes prematuras. Vários famosos que se tornaram devotos ou simpatizantes do "médium" viam algum filho morrer de forma prematura.

Infelizmente, num país completamente desinformado como o Brasil, Chico Xavier é muito mais blindado do que Madre Teresa, apesar do mito desta ser bem mais organizado do que aquele. Chico só passou a ter um mito "trabalhado de forma mais limpa" nos anos 1970, e ainda assim sob a assistência da Rede Globo de Televisão e inspirado no próprio exemplo do mito da madre trabalhado pelo jornalista britânico Malcolm Muggeridge.

Nos últimos anos, o "espiritismo" brasileiro comprova cada vez mais seu caráter ultraconservador. A condenação ao aborto, até mesmo em casos de estupro, e a culpabilização das vítimas, além de outros juízos de valor bastante severos, sangram a doutrina brasileira que tanto se alardeia em ser "esclarecedora", mas investe no mais sombrio obscurantismo.

E isso diz muito quando os "espíritas" acolhem com muito entusiasmo uma figura como Madre Teresa de Calcutá. A cada dia o "espiritismo" brasileiro desfaz a imagem tão confortável, porém irreal, de "doutrina progressista", revelando seu conteúdo medieval. A princípio isso está na Internet mas os fatos farão isso ser divulgado em breve na grande imprensa, apesar de toda blindagem que esta mantém à doutrina igrejeira.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Madre Teresa e o Assistencialismo


Há vinte anos, Madre Teresa de Calcutá faleceu, aos 87 anos de idade. Nascida no mesmo ano que Francisco Cândido Xavier, Madre Teresa é um nome do Catolicismo adotado pelos "espíritas", o que diz muito sobre o caráter conservador do "espiritismo" brasileiro, que acolhe esta que é um dos ícones da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo.

O próprio mito de Madre Teresa de Calcutá, construído pelo discurso engenhoso e emocionalmente apelativo do jornalista católico inglês Malcolm Muggeridge, inspirou no Brasil a reinvenção do mito de Chico Xavier, sem os apelos pitorescos do antigo tutor do "médium", o presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas, mas com a narrativa de novela tomada emprestada da Rede Globo, que fez o papel de "Muggeridge" da ocasião.

A ideia é sempre criar um paradigma de "caridade" e "bondade" que cause mais deslumbramento do que resultados concretos. No que se refere aos efeitos da sociedade, essa "caridade" traz resultados bastante medíocres, expondo mais o nome do "benfeitor" que se torna objeto de idolatria, extrema e cega, até mesmo quando os donativos que haviam sido distribuídos à população carente tenham se esgotado há um tempo.

A sociedade brasileira é extremamente conservadora e mesmo pessoas que se julgam "progressistas" e "modernas" não conseguem mais esconder seu conservadorismo extremo e, por vezes, reacionário, que contraditoriamente só aceita transformações sociais moderadas, que não mexem nos privilégios das elites dominantes.

Daí que é uma sociedade que vê a "caridade" apenas como um derivado da religião. O raciocínio da sociedade é meramente institucionalista, quase mercantil. Afinal, a "bondade" reduz-se a um "produto", no qual as pessoas prestam mais atenção ao "benfeitor" que é alvo de adoração extrema, quase que como um velocino de ouro.

Os necessitados são só um detalhe. Fala-se vagamente que "muitas pessoas" foram beneficiadas, sem dar informações concretas, se contentando com meras propagandas institucionais, em que os "benfeitores" são cercados de crianças e velhinhos e faz sua "humilde" ostentação que lhe garante os prêmios e os aplausos de autoridades e aristocratas.

Há denúncias sobre aspectos sombrios de Madre Teresa de Calcutá, bastante conhecidos. Mas suponhamos que a "caridade" que ela fez foi "verdadeira". Nem considerando assim permite defini-la realmente como caridade plena, pois se trata apenas de Assistencialismo, "caridade paliativa", uma ideia que as pessoas tomadas de paixões religiosas, como os "espíritas", que remetem aos "médiuns" o culto à personalidade, não conseguem perceber.

O que o "espiritismo" sempre fez foi Assistencialismo. Ele é muito diferente de Assistência Social, embora os "espíritas" aleguem essa segunda denominação. Mas a verdade é que a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social é que, enquanto o primeiro apenas "alivia as dores", a segunda "cura a doença" da pobreza.

Os "espíritas" criam toda uma retórica sobre "assistência social", "caridade transformadora", "revolução social" etc. Mas, na prática, só fazem Assistencialismo. Afinal, se a caridade fosse realmente transformadora, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de vida, se levarmos a sério a pretensão de grandeza que sempre se atribuiu ao "espiritismo" brasileiro.

Infelizmente, o Brasil sucumbiu ao contrário, e vemos o desmonte voraz dos direitos sociais, comandado pelo presidente Michel Temer, e o "espiritismo" brasileiro dá o maior apoio, vendo neste desmonte "uma excelente oportunidade de exercitar o desapego, o acordo entre irmãos, a resignação e a fé diante do sofrimento".

Os "espíritas" que idolatram Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, Madre Teresa e outros "filantropos", movidos pelas paixões religiosas, chegam a cometer a incoerência de dizer que "não é missão da caridade promover o progresso sócio-econômico do país", caindo em muita contradição, porque caridade tem a ver com qualidade de vida, sim.

Enquanto a "bondade" servir apenas para a idolatria religiosa de "benfeitores" que comemoram demais pelo pouco que fazem, as virtudes humanas se reduzem a esse estereótipo do rótulo religioso, da visão institucionalista, burocrática e até mercadológica, que comprova a crença de muitos de que a sociedade é sórdida e a bondade só existiria sob o rótulo de um movimento religioso.

Os brasileiros têm essa visão de "bondade" porque veem novela demais, e seu paradigma é o Criança Esperança da Rede Globo. Submetidas a uma narrativa ao mesmo tempo fabulosa e maniqueísta, feita aos moldes de um "conto de fadas" para adultos, as pessoas entendem a "bondade" sem a compreensão realista verdadeira. Mesmo a miséria lhes é apresentada em tons de dramalhão, o que impede a compreensão objetiva do problema.

Uma grande prova do quanto essas pessoas só aceitam uma "caridade" mais restritiva, que promova a imagem pessoal do "benfeitor", é que elas são as mesmas que se irritam quando políticos e ativistas progressistas, como o ex-presidente Lula e o professor Paulo Freire, realizam projetos de inclusão social mais ampla.

As pessoas que costumam glorificar ídolos como Chico Xavier, Divaldo Franco etc. acabam se irritando com os projetos progressistas, que acusam seus idealizadores de "corruptos", "escolas de guerrilheiros", "doutrinação ideológica" etc. Preferem projetos como a pedagogia igrejeira da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, que aliás se insere nos padrões que estão de acordo com a proposta ultraconservadora da Escola Sem Partido.

Para a sociedade conservadora, é melhor defender uma "caridade" espetacularizada que, embora ajude muito menos pessoas e traga resultados medíocres, é envolvida pela fabulosa mística religiosa, rende uma narrativa digna de contos de fadas e, o que lhe é mais importante, não ameaça os privilégios das elites. A definição desta "caridade" como "transformadora" é apenas conversa para boi dormir. E para as elites dormirem sossegadas, também.

sábado, 2 de setembro de 2017

No Brasil das 'fake news', querem reabilitar o falso Humberto de Campos


O Brasil é hoje marcado pelas páginas de fake news, portais reacionários da imprensa de segundo escalão que, na prática, soam como "satélites" da grande imprensa, que também cada vez mais está desinformando e manipulando as pessoas.

Páginas como "Imprensa Livre", "Jornalivre", "Diário do Brasil", ""Folha da Pátria" e o que vier com nomes igualmente pomposos, difundem notícias de valor verídico bastante duvidoso, em muitos casos transmitindo juízos de valor sem provas, visando sobretudo proteger os interesses das classes dominantes, que sustentam essas páginas mentirosas financiando espaços na Internet.

No "espiritismo", a habitual falta de concentração típica dos brasileiros impede a real comunicação com os mortos. Se ela faz os brasileiros não terem paciência sequer para ouvir música ou ler um livro, quanto mais para se comunicar com o povo do além-túmulo?

Daí que os ditos "médiuns", aberrações que são idolatradas e recebem culto à personalidade, recorrem a obras fake, caprichando nas mensagens religiosas para desencorajar qualquer denúncia. Ninguém iria apontar fraude em "mensagens de amor".

O "espiritismo", no seu desespero paranoico de tentar reabilitar o mito de Francisco Cândido Xavier, agora tenta partir para todos os lados. Algumas concessões têm que ser feitas, como o periódico "Correio Espírita" admitir que Chico Xavier não foi reencarnação de Allan Kardec, mas esta concessão foi feita mais para destacar o anti-médium mineiro e reforçar a "peculiaridade" do "espiritismo" que é feito no Brasil.

A reabilitação de Chico Xavier - algo comparável ao que se fez com Aécio Neves na política - envolve até mesmo a duvidosa e farsante obra que usa o nome de Humberto de Campos. O volume da série "Grandes Temas do Espiritismo", da revista Espiritismo & Ciência (sic), insiste em tentar dar alguma validade à farsa que usurpou o falecido autor maranhense.

A capa da edição destaca o pseudônimo que Chico Xavier e o presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, deu para o pseudo-Humberto, "Irmão X", uma paródia do Conselheiro XX, apesar da pronúncia ser "irmão xis" diante do "conselheiro vinte". Conselheiro XX foi um pseudônimo usado por Humberto para escrever crônicas satíricas sobre personalidades históricas ou de seu tempo.

A revista, que, como muitas outras, ensina e informa mal a Doutrina Espírita, define como "fundamental" a obra do suposto Humberto de Campos para a divulgação do Espiritismo, algo que vemos ter sido bastante duvidoso e de muito mau gosto, por ter sido uma usurpação de um nome ilustre para vender livros, promover sensacionalismo em torno do "médium" e assim seduzir e enganar a opinião pública, aliciada por apelos igrejeiros das "mensagens fraternais".

O QUE REALMENTE ACONTECEU

A farsa do "espírito Humberto de Campos", que causava, com muita razão, indignação nos meios intelectuais, foi o maior escândalo causado por Chico Xavier, uma das confusões deploráveis que o anti-médium causou mas das quais se serviu do vitimismo para sair ileso de qualquer enrascada. O caso jogou Chico e Wantuil para os tribunais, e os dois, espertos, chegaram mesmo a veicular uma carta fake atribuída a Humberto na qual há apelos muito estranhos. Entre eles:

"(...)Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til".

Essa declaração Humberto nunca daria, porque se trata de uma ideia um tanto estranha. Um autor defendendo a omissão de sua identidade, como se autorizasse a usurpação de seu nome ao bel prazer, sob a desculpa da "elevada cooperação para Deus". A frase é muito estranha e traz um forte indício do estilo pessoal de Chico Xavier.

Algumas verdades devem ser expostas, esclarecendo os incautos que, com a memória curta e com a percepção equivocada da "bondade" trazida pelas novelas da Rede Globo e pelo Criança Esperança - lembremos que Chico é um protegido da Globo - , veem as coisas como se fossem um conto de fadas, e por isso se recusam a perceber o que está por trás do caso Humberto de Campos. Vejamos:

1) Chico Xavier teria feito uma revanche, por não ter gostado da resenha que Humberto, em vida, fez do livro Parnaso de Além-Túmulo. Embora, aparentemente, Humberto tenha visto semelhanças de estilo nos poemas "psicografados" em relação aos autores originais, o que não indica que Humberto teria legitimado o livro, ele reprovou a "psicografia" sob a alegação de que "autores mortos não podiam concorrer com autores vivos". Ao morrer, pouco depois, Humberto teve o nome usurpado por Chico Xavier, que teria inventado um sonho para justificar a "parceria".

2) Os parentes de Humberto de Campos moveram, contra Chico Xavier e a FEB, um processo judicial que foi um tanto ingènuo na petição: pedia à Justiça analisar as "psicografias" para ver se eram autênticas ou não. Se caso positivo, os herdeiros participariam dos lucros dos livros, mediante direitos autorais. Se caso negativo, Chico e a FEB teriam que indenizar os familiares. Faltou firmeza para apontar que a "psicografia" era uma demonstração de falsidade ideológica, facilmente identificável numa leitura analítica.

3) A "seletividade" da Justiça, famosa por inocentar criminosos ricos - "condenados" à liberdade condicional - e, recentemente, por poupar políticos do PSDB e até do PMDB, em 1944 inocentou Chico Xavier pela desculpa de achar o processo "improcedente", ou seja, a Justiça ignorou a verdadeira natureza da questão, pegando mais no problema secundário de direitos autorais, quando se vê que o caso era claramente de falsidade ideológica, pois o "espírito Humberto de Campos" comprovadamente era diferente, em estilo, do que o autor maranhense demonstrou em vida.

4) O escritor Agrippino Grieco, apontado pelos "espíritas" como "comprovador" da "autenticidade" do "espírito Humberto de Campos", por ver, em princípio, algumas semelhanças entre a obra deixada em vida e a "psicografia", mudou seu ponto de vista e se desiludiu ao saber das revelações dadas aos que questionaram a "obra mediúnica". Com isso, Grieco se envergonhou de ter acreditado na "autenticidade", ao ver que havia irregularidades no estilo do Humberto original e do "espírito".

5) Visando abafar futuros processos judiciais, o esperto Chico Xavier tentou fazer agrados aos familiares de Humberto. O filho homônimo, que virou produtor de TV, foi seduzido pela "doce emboscada" de assistir a um culto liderado por Chico Xavier, em 1957. Esperto, Chico pediu à casa espírita (o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba), para organizar atividades de Assistencialismo (caridade meramente paliativa), enquanto ele se valia de um recurso considerado falacioso, chamado "bombardeio de amor" (um tipo perigoso de apelo emocional). Assim, Chico "encheu de afeições" o produtor Humberto de Campos Filho, que foi levado a chorar copiosamente, e depois o produtor era levado pelo "médium" a acompanhar uma caravana ostensiva demais para uma finalidade meramente paliativa: a doação de mantimentos e roupas. Portanto, uma "caridade" que serve mais para propaganda do "benfeitor" do que para realizar uma profunda transformação social.

ESTILOS DIFERENTES

Para quem acha que o "espírito Humberto de Campos" tem "semelhanças" com o Humberto de Campos original, impressão que se dá numa leitura meramente superficial e apressada, identificamos as diferenças de estilos entre o autor original e o "espírito", que devem ser levadas em conta.

1) O estilo de narrativa do Humberto de Campos original era ágil, quase cinematográfica e gostosa de se ler. O do "espírito Humberto" era mais pachorrenta, prolixa, cansativa e inspirava uma leitura "pesada" e entediante, que só agrada a quem for beato religioso.

2) O texto de Humberto de Campos original era culto e correto, porém bastante acessível e coloquial. O do "espírito" era prolixo, rebuscado, pretensamente erudito, porém com sérios vícios de linguagem, como escrever "que cada" (trocadilho com "quicada").

3) A escrita de Humberto de Campos original era descontraída, com uma linguagem parnasiana quase modernista. A do "espírito" tem um forte acento igrejista, era melancólica e deprimente, soando mais como um velho folhetim medieval.

4) Os temas de Humberto de Campos original eram diversos, relacionados à realidade política e cultural, e quase sempre laicos. Mesmo um conto sobre Jesus, no livro O Monstro e Outros Contos, falava mais sobre infância e não de religião. Já o "espírito" era monotemático, escrevendo episódios bíblicos ou usando situações cotidianas para veicular mensagens religiosas, não raro correspondendo ao pensamento pessoal de Chico Xavier.

CONCLUSÃO

As observações acima foram constatadas mediante leitura minuciosa e cuidadosa das duas biblografias, a original de Humberto de Campos e a suposta obra espiritual. As semelhanças de estilo entre os dois repertórios não é muita, e quando há, revela um grande pastiche literário.

A verdade é que a atribuição da "obra espiritual" a Humberto de Campos se conclui falsa, porque as diferenças estilísticas são extremas. Daí que a revista "Espiritismo & Ciência", no volume "Grandes Temas do Espiritismo" dedicados ao suposto Irmão X, cometeu uma grande perda de tempo e se junta à onda das "informações fake" que, em certos casos, cria exércitos de jovens fascistas. Os adeptos de Jair Bolsonaro, tido pelas fake news como "o homem mais honesto do Brasil", que o digam.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O que pensa o topo da pirâmide social?


O que pensa o topo da pirâmide social quanto ao futuro? Sabe-se que esse topo corresponde a uma parcela da sociedade se julga privilegiada e predestinada, por atributos que vão do porte de armas ao prestígio religioso, passando pelo dinheiro, pela fama, pelo diploma, pelo poder político e empresarial, e por aí vai.

Há um ano, a presidenta Dilma Rousseff foi definitivamente afastada da Presidência da República, consagrando o poder de uma elite que não aceitava as transformações sociais obtidas. Vários agentes sociais, como rentistas, machistas, racistas, fascistas, criminosos ricos e até ídolos religiosos (que se autoproclamam estarem a um passo de Deus ou, ao menos, num caminho menos longo a ele) reclamaram a recuperação de antigos privilégios.

O topo da pirâmide mostrou ser um repositório da sordidez humana. Vários escândalos e crimes e inúmeras irregularidades das mais graves - como um juiz feminicida que, mesmo afastado do emprego, ganha R$ 307 mil na função - permanecem e não causam muita revolta (fora o "ativismo de sofá" das redes sociais, que não traz resultados concretos), isso num país em que as pessoas se irritaram facilmente ao verem um membro do Partido dos Trabalhadores (PT) em ação.

O topo da pirâmide social apodrece e se torna mofado e velho. Mostra sua decadência, sua obsolescência, seu ocaso. Ultimamente há um clima de "ninguém sai", como no famoso conto de Luiz Fernando Veríssimo sobre um jogo de baralho, pois as velhas ordens sociais, mesmo acumulando encrencas e escândalos, faz todo o possível para se permanecer em pé.

Inferindo nos pontos de vista dos detentores dos mais diversos privilégios sociais, nota-se que eles se consideram pessoas "modernas" que conquistaram o poder social pleno por volta de 1974, quando aquilo que entendiam ser um período de "limpeza dos excessos sociais" - eles podem ser tanto o comunismo quanto movimento hippie, por exemplo - , foi consolidado.

Mesmo os crimes cometidos são feitos mediante alegações que remetem a "busca de facilidades" (corrupção) ou juízos de valor (homicídios), e não é surpresa que o topo da pirâmide sempre age de imediato para garantir a proteção social e os menores danos sociais a seus detentores. Daí os casos de impunidade não só na Justiça, como também na preocupação mais recente de criminosos e corruptos de elite obterem também a simpatia da sociedade.

No "espiritismo", há até um famoso "médium" que lança quadros de pintura fake, que não correspondem aos estilos originais dos pintores mortos e, invariavelmente, apresentam apenas a caligrafia pessoal do "espírita" em questão. Ele expôs um dos quadros abertamente num programa de TV, como se fosse um troféu, e a Justiça não mexe com ele. Juízes e advogados só se aproximam do "médium" para lhe abraçarem, posarem para fotos e, pasmem, até para pedir conselhos.

Os critérios éticos, estéticos, morais e sociais do topo da pirâmide se tornam desgastados. O velho moralismo, o darwinismo social, vícios tipicamente brasileiros como o "jeitinho" e a "memória curta" (que protege antigos algozes da decadência, mudando sua imagem social perante a sociedade) tentam a todo custo livrar a plutocracia (o conjunto de privilegiados que ocupa a parte superior da pirâmide) do prejuízo sócio-econômico, do desprezo público e até da morte.

Sim, porque, aparentemente, o topo da pirâmide social não pode ter mortos prematuros e seus detentores, mesmo com problemas de saúde, têm quase sempre esforços hercúleos para adiarem o falecimento para o mais tarde possível, mesmo quando o organismo "pede pra sair" há décadas. Há dois políticos famosos da ditadura militar e três famosos homicidas (estes com histórico de sérios problemas de saúde) que, mesmo idosos, em tese, não parecem destinados a morrer tão cedo.

Políticos conservadores também tentam a todo custo abafar encrencas e infortúnios, tentando sobreviver a escândalos e impasses diversos. Seja o presidente Michel Temer ou os parlamentares Aécio Neves e Jair Bolsonaro (e os filhos deste, Flávio e Eduardo), seja o jurista Gilmar Mendes, entre outros, há todo um esforço de abafar situações negativas e sobreviver quase ileso no cume da pirâmide social.

E mesmo em religiões como as seitas neopentecostais (como a Igreja Universal do Reino de Deus) e até o "espiritismo", as confusões em que se metem seus ídolos religiosos sempre são abafadas. Sobretudo os "médiuns espíritas", de trajetória cheia de confusões graves nos bastidores, mas sempre se empenhando em passar, para a sociedade, uma imagem "limpa" de pretensos filantropos e uma reputação comparável à de fadas-madrinhas de contos de fadas.

Isso é um reflexo de uma mentalidade na qual a plutocracia não querer sequer perder seus totens. Há um tipo de sociedade marcada pela obtenção de privilégios elevados e métodos confusos e desonestos de ascensão social, nos padrões que fariam mais sentido nos anos 1970, que não quer que seus ilustres ídolos se tornem coisas do passado.

O medo que essa sociedade tem de ser passada para trás, de ver, mesmo nos seus membros mais idosos, a sombra do passado batendo suas portas, deixando que os privilegiados de toda ordem obtenham protagonismo ou mesmo coadjuvação para o futuro, pelo menos como "modelos a serem seguidos" pelos futuros privilegiados.

O topo da pirâmide social vive sua decadência, quando os diversos setores de privilégios sociais mostram toda a sua sordidez. O velho conservadorismo social que parecia liquidado nos anos 1960 mas retomou seu caminho na década seguinte luta para sobreviver nos tempos atuais, reclamando para si uma "modernidade" que lhes escapa das mãos.

É por isso que as velhas ordens sociais tentam a todo custo permanecer no "barco", evitando sua própria ruína e buscando a maior totalidade de "sobreviventes" possível, nesses tempos de impasses e inseguranças. E, com isso, revelam o medo de, perdendo a posse antecipada do futuro, serem tragadas pelo passado, deixando de exercer influência dominante na sociedade.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Por deturpação, "espiritismo" brasileiro pode estar perdendo adeptos


Oficialmente, o "espiritismo" brasileiro tem como seguidores 2% da população brasileira. Mas esse índice pode ser bem menor porque os critérios adotados são bastante flexíveis e confusos, podendo incluir "espíritas" ocasionais - pessoas fora da religião que recorrem, por exemplo, a tratamentos espirituais - até mesmo umbandistas intimidados com o racismo na sociedade.

Se considerar o termo "kardecista", a coisa não se resolve, porque o termo, apesar de ser derivativo do nome Allan Kardec, nada tem a ver com ele, sendo na verdade a definição da "fase dúbia" do "movimento espírita", que em tese evoca Kardec, mas na prática segue J. B. Roustaing.

Diante disso, o número de seguidores genuínos do legado kardeciano - é bom lembrar que se deve excluir os deturpadores que o bajulam e fingem apreciar a teoria espírita original - chega a ser inferior até mesmo a 0,1%, porque a maioria que se diz "espírita" é adepta de ideias roustanguistas, mesmo alegando "fidelidade absoluta" ao legado de Kardec.

Mas mesmo os roustanguistas enrustidos ("enroustanguidos"?) também são em menor número, diante de tantas contradições e pelo fato do "espiritismo", até por se tornar um clone da Igreja Católica, nunca oferecer um diferencial expressivo como religião.

O "espiritismo" apenas atrai, em maioria, um público bastante idoso, sendo na prática um "catolicismo" para exaustos, porque dispensa a ginástica do senta-e-levanta das missas católicas e dispensa compromissos formais associados ao Catolicismo propriamente dito.

ÁGUA COM AÇÚCAR

A maioria das atividades "espíritas" não oferece condições para o verdadeiro entendimento da Doutrina Espírita. Isso é menos mal, porque, quando a teoria espírita original é exposta, ela vem de deturpadores que não seguem rigorosamente as lições que divulgam em palestras, livros e depoimentos.

A Ciência Espírita tem, da parte destes palestrantes - uma elite de escritores e "médiuns" que bancam os "intelectuais" do "espiritismo" brasileiro - , uma exposição teórica razoável, mas que não diz muita coisa. Isso é notório, se observarmos, por exemplo, que a obra de Franz Anton Mesmer, autor do qual Kardec usou como ponto de partida para sua teoria espírita, não tem obras publicadas no Brasil.

Para piorar, há toda uma teoria de "mediunidade" que tem até pontos corretos, mas que os próprios "médiuns" não seguem. Se valendo do vício típico do povo brasileiro, a falta de concentração (que no cotidiano impede as pessoas de ouvirem música com atenção e se dedicarem à leitura regular de livros), a quase totalidade dos trabalhos "mediúnicos" é fake, pela incapacidade de obter a real comunicação com os espíritos.

Aliás, os espíritos desencarnados são os que menos se sentem inclinados a entrar em contato com os "médiuns espíritas". Isto é fato, porque o conteúdo do que entendemos, aqui, como mensagens "espirituais", não condiz com aspectos pessoais dos supostos autores, o que, para nós, é um processo fraudulento, mas, no mundo espiritual, é uma desonestidade maior ainda: no além-túmulo, a ideia é que os "médiuns", em vez de representar os mortos, decidem "falar por eles".

Isso é ofensivo, para os espíritos do além, porque não há a sintonia verdadeira das pessoas da Terra com eles, e não há coisa mais humilhante para alguém que gostaria de dizer alguma coisa que a de ver outra pessoa se passando por ele, escrevendo mensagem usando o seu nome.

Para piorar, as mensagens "espirituais" seguem sempre o mesmo conteúdo água-com-açúcar, completamente igrejista, que domina a maior parte das palestras "espíritas". Isso é como uma brincadeira de mau gosto, porque nem todo mundo está disposto a virar garoto-propaganda religioso, a fazer mershandising cristão, pois a maioria das "cartas psicográficas" apela para "nos unirmos na fraternidade em Cristo".

"CATOLICISMO" JESUÍTA

O que impede o "espiritismo" de aumentar sua popularidade, apesar de ser a religião mais blindada do país - em padrões que se comparam, na política, ao PSDB - , apoiada pela maior corporação de mídia do país, as Organizações Globo, é que seu conteúdo nem de longe empolga, porque soa como uma espécie de "catolicismo à paisana".

Observando com muita atenção o conteúdo do "espiritismo" em suas atividades e obras, nota-se que ele se tornou, na verdade, uma doutrina afastada, de maneira negativamente surpreendente, dos postulados espíritas originais. A alegada "fidelidade absoluta" a Kardec e até a apelos forçadamente hipócritas como "vamos viver Kardec" mais parecem conversas para boi dormir, cortinas de fumaça para tentar dissimular esse afastamento.

A coisa ocorre de tal forma que a evocação de padres, freiras, sacerdotes e outros figurões católicos na quase totalidade das "casas espíritas" - o precedente foi aberto com Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, que evocou o padre Manuel da Nóbrega, renomeado Emmanuel - demonstra que o "espiritismo" brasileiro caminhou para ser uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta, que vigorou no período colonial.

Na prática, o "espiritismo" brasileiro rompeu com Kardec porque seu conteúdo remete ao Catolicismo jesuíta, difundido pelo próprio Manuel da Nóbrega em seu tempo. O Catolicismo difundido pelo catecismo da Companhia de Jesus vem de Portugal, que manteve durante muito tempo dogmas e práticas medievais, praticando inquisições até mesmo na época da Revolução Francesa, no final do século XVIII.

Ideias como a apologia ao sofrimento humano, que remetem à Teologia do Sofrimento, são acolhidas pelos "espíritas" com mais entusiasmo do que os católicos. Além disso, os "espíritas" acabam defendendo valores moralistas mais conservadores e se alinhando até em manifestações sócio-políticas reacionárias, como os protestos contra Dilma Rousseff.

De maneira subliminar, identificou-se também, nos textos "espíritas", o apoio às reformas excludentes do governo Michel Temer, como a reforma trabalhista e a reforma da previdência. Apelos para os sofredores aceitarem o sofrimento, abrirem mão de desejos e necessidades mais fundamentais e se conformarem com as adversidades da vida tornaram-se mais frequentes, em diversas publicações e eventos "espíritas".

RAZÕES DA DECADÊNCIA

Em princípio, o que faz o "espiritismo" perder adeptos é a falta de um grande diferencial religioso, até porque a doutrina brasileira prefere imitar o Catolicismo até em ritos e dogmas, como no caso da água benta (pelo redundante nome de "água fluidificada"), o confessionário ("auxílio fraterno") e dogmas como a "data-limite" de Chico Xavier, imitação do "juízo final" católico.

Além disso, a aproximação do "espiritismo" com o Catolicismo jesuíta - que nem a suposta "fidelidade a Kardec" consegue disfarçar, porque o termo "kardequizar" é uma corruptela do termo "catequizar" - e a velha pieguice moralista dos romances "espíritas" pode fazer o "espiritismo" bastante agradável a pessoas com mais de 70 anos, mas muito deprimente e entediante para quem é mais jovem.

Mesmo as figuras dos "médiuns", em que pese a falsa atribuição de "futurismo" e "modernidade" dada aos mesmos, não deixam de serem antiquadas. O visual de Chico Xavier chegava a ser cafona, com sua peruca e seus óculos escuros. Como personalidades, Chico e seu principal seguidor, Divaldo Franco, remetem a velhas e antiquadas figuras do começo do século XX, ou talvez até de antes.

Chico Xavier era um caipira ultraconservador, como era em seu meio. Isso não é juízo de valor, é um fato confirmado sociologicamente. Como um caipira ultraconservador, ele era um beato católico, que em crenças era bastante ortodoxo. Sua ortodoxia só era "quebrada" formalmente pela aparente paranormalidade, bem mais precária do que se pode imaginar. Chico ia muito pouco além da "façanha" de conversar com a falecida mãe e com um antigo padre jesuíta.

Divaldo Franco, que já investe, na Mansão do Caminho, um projeto pedagógico bem de acordo com a Escola Sem Partido (curiosamente, a sigla ESP corresponde às três primeiras letras de "espiritismo"), remete ao velho e obsoleto estilo do professor verborrágico, aristocrático, símbolo de um saber hierarquizado e dotado de um discurso rebuscado de ideias prolixas.

Só para ter noção de como o perfil de Divaldo Franco é bastante antiquado, é só ver o livro O Ateneu, de Raul Pompeia (1863-1895), famoso escritor carioca. O modelo hierarquizado do professor "catedrático", personificado pelo diretor da escola, o pedagogo Aristarco, já era considerado decadente no ano em que a obra foi publicada, 1888.

Se confrontarmos os perfis de Divaldo com o do francês Allan Kardec, a coisa ainda se complica para o lado do "médium" baiano, definido pelo estudioso da Doutrina Espírita, José Herculano Pires, como roustanguista. Apesar das poses de "rigoroso discípulo de Kardec", o "médium" baiano difunde ideias que se chocam com os postulados espíritas originais, por mais que fale na tão alegada "fidelidade absoluta" ao pedagogo de Lyon.

Dá pena ver que muitos consideram Divaldo Franco "ultramoderno" e "futurista" e que muitos atribuem a ele e Chico Xavier a posse não só da verdade, como do futuro da humanidade. Logo eles, que sempre foram deturpadores severos e graves da Doutrina Espírita, católicos ortodoxos, figuras conservadoras e antiquadas no conjunto da obra.

É por isso que se vê que o "espiritismo" brasileiro perde adeptos, com "casas espíritas" se esvaziando constantemente. Em Salvador, houve caso de debandada de mais de 40 pessoas de uma única "casa espírita". Houve até rumores de que o "Centro Espírita Paulo e Estêvão", em Amaralina, iria se desfazer de parte de suas instalações, reduzindo seu espaço para conter despesas. A coisa está feia para aqueles que deturparam o trabalhoso legado de Kardec...
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