quinta-feira, 30 de junho de 2016

O "funk" e sua mania de coitadismo

MC LEONARDO, EX-PRESIDENTE DA APAFUNK

O "funk" é uma espécie de Chico Xavier da música brasileira. Retrógrado, se faz de progressista e, irregular, quer o reconhecimento pleno da sociedade e nenhum questionamento a respeito. Desde uns quinze anos atrás o "funk" vive essa mania de coitadismo que, à sua maneira, viveu o anti-médium mineiro e hoje é trabalhado por herdeiros e seguidores.

O "funk" sofreu a mais nova repercussão negativa com o recente episódio do estupro coletivo de uma jovem no Rio de Janeiro, alguns de seus 33 estupradores haviam citado uma música de "funk proibidão", o sucesso "Mais de 20 Engravidou", do ex-crooner da Furacão 2000 (equipe que tendenciosamente pegou carona numa manifestação a favor de Dilma Rousseff), MC Smith, que jura só "mostrar a realidade das periferias".

Diante disso, um dos maiores ideólogos do gênero, o ex-presidente da APAFUNK (Associação de Profissionais e Amigos do Funk), MC Leonardo, tentou argumentar sobre o caso, dizendo que o "funk" não "veio de Marte", e por isso é "machista, patriarcalista e erotizado" por causa da sociedade.

O "funk" é um ritmo muito estranho. Surgiu de uma ruptura de DJs emergentes da noite suburbana carioca, como DJ Marlboro e Rômulo Costa (dono da Furacão 2000), com as lições do antigo funk de James Brown e derivados. Reduzido a um primário karaokê, o chamado "funk carioca" sucumbiu a um rigoroso formato estético que só era mudado conforme as circunstâncias e a vontade dos DJs.

O ritmo sempre foi comercial e nunca teve pretensões artísticas nem culturais. Era só entretenimento, como se espera em qualquer pop dançante em todo o planeta. Mas, nos últimos 15 anos, o "funk" passou a sofrer uma intensa e forte blindagem intelectual, que criou um discurso que passou a monopolizar toda narrativa relacionada ao gênero: uma suposta etnografia de conteúdo ativista que era tida como vinculada à realidade das periferias.

O discurso chegava a penetrar setores das esquerdas, o que travou boa parte do debate em torno dos problemas culturais no Brasil. Afinal, o "funk" abordava as classes populares de maneira caricatural e estereotipada, mas analisar essa problemática era vista como "preconceito". Ou seja, contraditoriamente, o "funk" queria combater o preconceito mantendo uma visão preconceituosa sobre as classes populares.

O "funk" tenta penetrar na mídia esquerdista pela porta dos fundos. Seja pela atuação de jornalistas e intelectuais solidários, como Pedro Alexandre Sanches (descrito por especialistas como discípulo não-assumido de Otávio Frias Filho, da Folha de São Paulo) e pelo próprio MC Leonardo, a manobra tenta disfarçar o real vínculo histórico em que o "funk carioca" se consolidou: sua aliança com as Organizações Globo.

Muito antes dos ídolos do "funk" se passarem por "discriminados pela grande mídia", coisa que nunca foram, eles estabeleciam parcerias com veículos das Organizações Globo, como a gravadora Som Livre e a hoje extinta emissora carioca 98 FM.

A popularização do "funk" também teria sido feita por programas da Rede Globo de Televisão, como o Xou da Xuxa e Caldeirão do Huck, considerados por estudiosos da Comunicação como dois dos maiores instrumentos de manipulação do inconsciente coletivo pela rede televisiva, juntamente com o Jornal Nacional.

Apesar disso, os partidários do "funk" alegam que isso é "mera coincidência". Mesmo assim, até MC Leonardo, que tem coluna no periódico esquerdista Caros Amigos, também foi beneficiado pelas Organizações Globo: seu antigo sucesso com o irmão MC Júnior, "Rap das Armas", foi resgatado pelo cineasta José Padilha para a trilha sonora do filme Tropa de Elite.

Padilha é um dos membros do Instituto Millenium, composto por integrantes do establishment da mídia ultraconservadora, dos quais se destacam Pedro Bial, Rodrigo Constantino, Otávio Frias Filho, Guilherme Fiúza, entre outros. O Millenium é uma espécie de clube do qual são também sócios ou membros honorários nomes como Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e até a blogueira cubana Yoani Sanchez.

Mesmo assim, o ritmo carioca que não incomoda gente como Luciano Huck e Danilo Gentili tenta se desvincular, no discurso, do poder midiático, com MC Leonardo na Caros Amigos superestimando a abordagem dos noticiários policialescos como a única maneira da grande mídia abordar o "funk".

No texto "Deixem o Funk em Paz!", um "indignado" MC Leonardo não conseguia explicar por que estava preocupado com a culpabilização do "funk" no caso do estupro coletivo. Entra em contradição dizendo que o "funk" é apenas reflexo da sociedade em que se vive, e quer eximir o gênero das responsabilidades que assumiu quando fazia um discurso apologético.

O que se observa no discurso dos defensores do "funk" é esse rodízio de contradições. Quando as circunstâncias e as abordagens são agradáveis, o "funk" se diz "com um compromisso de transformar a sociedade". Mas diante de aspectos negativos, o "funk" que se dizia responsável por se mobilizar contra os problemas sociais, não quer se responsabilizar por tal omissão.

É a mesma mania de coitadismo. "Querem incriminar o funk", lamentam seus defensores. Mas isso reflete na verdade, uma série de contradições e equívocos para um ritmo que nunca deveria ter adotado um discurso ativista nem militante, se apropriando de referenciais que nunca lhe foram próprios, da Semana de Arte Moderna de 1922 ao punk rock.

O "funk" sempre se pautou pela mediocridade sonora. Musicalmente ruim, dizendo de forma mais direta. Ele sempre foi um projeto ideológico de DJs associados com a Rede Globo, com o governo Fernando Collor e seus políticos fluminenses associados - "bailes funk" dos anos 1990 eram patrocinados por vários políticos da Baixada Fluminense - para abordar de forma caricatural a "realidade" das classes populares.

Até mesmo o discurso de "periferia", segundo apontam especialistas diversos, revela que o discurso intelectual que passou a fazer apologia ao "funk" remeteu a uma ideia vinculada ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que estabeleceu teorias econômicas e sociológicas que foram a base do seu neoliberalismo, definindo sociedades subdesenvolvidas como "periferias".

O vínculo conservador do "funk" mostra o quanto a sociedade pobre era vista como se sua pobreza, ignorância e associação aos valores retrógrados é "fatalista": mesmo o suposto feminismo de suas intérpretes era vinculado aos padrões machistas de "mulher-objeto" ou, quando muito, a um sentimento de misandria (aversão a homens), que mais parece uma sutil campanha depreciativa à formação de estruturas familiares.

Essa campanha inverte as coisas, criando uma heterofobia quando a verdadeira defesa da causa LGBT não requer uma rejeição das estruturas familiares tradicionais (marido, mulher e filhos). O verdadeiro ativismo LGBT apenas pede a aceitação de novas estruturas, mas o respeito às estruturas tradicionais através do direito de escolha.

No "funk" e em outras ideologias das "periferias", a ideia é desestimular as relações heterossexuais entre pessoas de dentro das periferias, criando uma misandria de classe, onde rapazes e moças pobres com afinidades pessoais são estimulados pela propaganda midiática a nunca ficarem juntos.

O "funk" mostra casos graves como esses e nunca se empenhou em agir contra. Dotado de rigor estético ferrenho, sempre fez apologia à ignorância e à pobreza. Criou coisas estranhas como o "orgulho de ser pobre", uma forma sutil de prender os pobres nas favelas, residências consideradas provisórias e retratos de injustiça social (o IBGE já descrevia a injustiça de viver em favela há 60 anos), e a apologia ao lamentável trabalho de prostituição.

Diante de tantos retrocessos defendidos pelo discurso do "funk", como é que o ritmo tenta insistir num coitadismo, recusando-se a assumir a culpa pelos erros que deixou ocorrer? Quando era badalado pela retórica intelectualoide, envolvendo até mesmo teses acadêmicas e filmes documentários, o "funk" era sempre exaltado pelo potencial supostamente transformador da humanidade.

Daí que todo esse discurso "ativista" e "militante" é falso. Só serviu para atrair o apoio do mercado, da alta sociedade, de estilistas de moda porraloucas e DJs estrangeiros em busca de algum modismo pitoresco. Todo esse papo de "movimento cultural" só serviu para o "funk" ganhar mais dinheiro diante de tanto proselitismo.

O "funk" nunca passou de um mero ritmo dançante e comercial e deveria ser considerado somente como entretenimento, sem pretensões artísticas e culturais. Com a retórica pretensiosa que passou a adotar, o "funk" passou a ser defendido por um discurso intelectualoide e coitadista que começa a ficar repetitivo e chato. O coitadismo do "funk" está começando a cansar.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Igrejismo travestido de ato de amor

ILUSTRAÇÃO MEDIEVAL NA CATEDRAL DE SAINT AIGNAN, EM CHARTRES, NA FRANÇA.

O "espiritismo" brasileiro demonstra representar as ameaças advertidas pelo espírito Erasto e descritas em O Livro dos Médiuns. A mistificação que existe por trás de supostas coisas belas é uma maneira de dominar e manipular as pessoas diante de dogmas e ritos católicos inseridos na deturpação da Doutrina Espírita.

O trecho abaixo comprova que o "movimento espírita" é deturpador e que usa ideias e estórias associadas a ideias bonitas como "amor", "caridade", "bondade" e "humildade" para inserir conceitos herdados do Catolicismo medieval, que era a base da Igreja Católica portuguesa vigente no Brasil colonial e cujos paradigmas foram herdados também pelo "espiritismo" brasileiro.

A estória que será mostrada a seguir não se tem certeza que realmente aconteceu. Tendo como protagonista o conhecido Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier adorado pela gente incauta ou por pessoas pouco vigilantes em algum esclarecimento de vida, o episódio tenta ser um arremedo brasileiro da cerimônia do lava-pés da narrativa católica da vida de Jesus de Nazaré.

A estória pode nunca ter acontecido, até porque seria fácil demais Chico Xavier reviver o "lava-pés" de Jesus. E, além disso, outro detalhe é observado nesse ritual escancaradamente católico: à água é atribuída supostos poderes de cura.

Isso é uma prova do caráter anti-científico do "espiritismo". O trecho abaixo envolve várias manobras traiçoeiras da doutrina brasileira que nunca levou Allan Kardec a sério. Cria uma ideia de "bondade" subordinada à religião, insere no ideário espírita conceitos originalmente católicos e desmoraliza a atividade científica quando põe a fé religiosa como concorrente desleal na cura de doenças difíceis.

Portanto, o texto abaixo nem de longe traz alguma lição de esperança ou de bondade verdadeiras. Um blogue intitulou uma postagem com este texto de "Aos pés do amor". Só que é um "amor-daçar", um "amor" que constrange mais do que conforta, um "amor" que oprime quando a supremacia religiosa se mostra num status acima do sofredor. É, portanto, um texto de puro igrejismo.

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TRECHO DO LIVRO CHICO XAVIER: UM DOCE OLHAR PARA O ALÉM (PÁGS. 32-33)

Por Sebastião Aguiar - Editora Globo, 2010

Chico vinha sofrendo de fortes dores num dos pés e mancava, sem que os médicos que o atenderam pudessem aliviá-lo. Diariamente, os funcionários da Fazenda Modelo eram trazidos de volta para casa em charretes que, ao retornarem a Pedro Leopoldo, tinham de passar pelo Biriba, nome dado à zona de meretrício da cidade.

Uma tarde, ao passarem pelo local, Chico e seus companheiros foram chamados pelas moças que viviam ali. Uma delas, dirigindo-se ao Chico, disse: "Venha até a minha casa, preciso lhe falar". Os colegas logo fizeram gracejos e comentários maliciosos, mas ele desceu da charrete e foi até a residência da moça.

Ali, as prostitutas reunidas o receberam com profundo respeito. Pediram-lhe que sentasse. A moça que o abordara trouxe uma pequena bacia com água limpa, pediu permissão para descalçá-lo, colocou seu pé doente na bacia e, segurando uns raminhos de flores do campo, rezou, seguida pelas companheiras. Ela molhava os raminhos e os batia delicada e repetidamente no pé de Chico. Depois enxugou-o, beijou-o e calçou-o.

Dois dias depois, emocionado, Chico contava o episódio aos amigos. Sua vidência lhe mostrou que o líquido da bacia foi ficando escuro e lodoso à medida que a moça banhava seu pé, fazendo com que a dor o deixasse lentamente.

domingo, 26 de junho de 2016

Por que o apego aos retrocessos?

AÉCIO NEVES SAUDANDO MICHEL TEMER - Governo retrógrado e corrupto dos derrotados de 2014.

O que tem em comum o governo Michel Temer, os atentados numa boate gay em Orlando, a ascensão da extrema-direita na Europa e o fundamentalismo do Estado Islâmico? Em diferentes contextos, há um saudosismo perigoso de uma parcela da sociedade pedindo para voltar tempos de valores sociais mais retrógrados.

2016 se revela um ano problemático. Pessoas consideradas de alguma contribuição moderna para a sociedade, como o escritor Umberto Eco e o cantor David Bowie, faleceram. Em contrapartida, políticos idosos como José Sarney e Paulo Maluf se recusam a sair de cena e a sociedade patriarcalista e machista vive com medo de ver os feminicidas Pimenta Neves e Doca Street, com fortes indícios de doenças graves em estágio avançado, morrerem de repente.

Morreram também talentos promissores, como o ator Aaron Yeltchin e a cantora Christina Grimmie. É um ano em que cidades antes consideradas redutos de modernidade, como Paris e Rio de Janeiro, sucumbem a decadências vertiginosas, desafiando aqueles que ainda creem nessas cidades como "modelos" a serem seguidos pelas demais regiões. É também um período em que as mídias sociais (do antigo Orkut ao atual WhatsApp) mostra internautas cada vez mais retrógrados e ignorantes.

Além disso, há a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, complicando a integridade econômica, e, no Brasil, um confuso governo interino, que se pretende efetivo - Michel Temer fala em governar até o fim de 2018 - , com base numa agenda cheia de retrocessos e com uma equipe e base de apoio (neste caso com Aécio Neves, Eduardo Cunha e companhia) envolvida em escândalos de corrupção.

Há um grande apego aos retrocessos. Uma nostalgia doentia, que acaba criando em seus defensores um rompimento com a realidade, já que o radicalismo das convicções sociais faz com que muitos reajam contra princípios realistas, contra a lógica e contra a ética.

Retornam movimentos extremistas que vão desde o fundamentalismo religioso que reivindica uma volta às crenças de, pelo menos, dois mil anos atrás, até grupos que querem uma higienização racial para promover uma sociedade, pelo menos, de maioria branca. Há os plutocratas, os machistas, os racistas, os elitistas que também querem um mundo praticamente exclusivo deles.

No Brasil, um fato aberrante é a boa reputação que um encrenqueiro como Jair Bolsonaro tem para uma parcela considerável de brasileiros e a criação de movimentos como "International Klans", que espalhou panfletos em alguns lugares em Niterói. E há o medo do hesitante governo Michel Temer, a exemplo dos primeiros anos "frouxos" da ditadura militar, se converter em uma conduta ainda mais cruel e repressiva para a população.

Nos EUA, grupos racistas e homofóbicos eventualmente se manifestam, fora os atiradores de diversas origens que praticam chacinas em várias partes do país. O Klu Klux Klan, de triste lembrança, continua existindo. Na Europa, grupos de extrema-direita atraem adeptos em vários países, e um fascista de 52 anos assassinou uma parlamentar britânica que defendia a permanência do Reino Unido na União Europeia e depois foi preso.

As pessoas em geral perderam a noção da realidade, as mídias sociais incluem de reacionários doentios que praticam cyberbullying a fãs "afogados" nas suas fantasias que, contrariados com a realidade, querem matar seus ídolos.

A ilusão da "tecnologia de ponta" revela um caminho inverso da humanidade desinformada que, conhecendo vagamente fatos passados, sem fazer o discernimento necessário, acabam se interessando por eles e defendendo uma sociedade ainda mais retrógrada.

Um tempo em que mulheres eram coisas e machistas, deuses (daí que feminicidas, por exemplo, "nunca podem morrer"). Que patrões detinham o monopólio de decisão sobre os empregados. Que os aumentos de preços eram suportados como sendo decisões divinas. Que os tecnocratas sempre decidiam pelo povo, por pior que seja uma decisão. Que divindades e lendas guiavam multidões a seus templos de adoração. Que ruas só eram ocupadas por "brancos limpinhos e perfumados".

Mesmo a rebeldia é guiada para defender tais valores obscurantistas. Um "espírito do contra" que vê num retrocesso uma forma de catarse, um saudosismo obscurantista, um "medo da clareza" e um pavor do progresso, que faz com que os incomodados do Sol do futuro corram, ao mesmo tempo ferozes e assustados, ameaçadores e fugitivos, às suas "cavernas de Platão".

A coisa acontece de forma tão aberrante que, no Brasil, a chamada grande imprensa (Globo, Folha, Veja, Estadão) chega a impor sua visão míope das coisas, se revoltando quando jornalistas estrangeiros retiram a máscara do golpismo político do governo Temer e sua equipe de "notáveis" corruptos.

Um comentarista de Época, Guilherme Fiúza, chegou a cometer uma violenta gafe, publicando um texto no qual acusa o jornal estadunidense New York Times de ser patrocinado pelo PT. Fiúza "pagou mico" diante de correspondentes internacionais conceituados.

Recentemente, o empresário da Folha de São Paulo, Otávio Frias Filho, levou uma bronca de uma jornalista britânica que definiu a grande mídia brasileira como golpista e voltada aos interesses de seus donos. Graças a esse quadro (e de pistolagens que matam blogueiros e quem denunciar o coronelismo regional local), a ONG Repórteres Sem Fronteiras registrou que o Brasil caiu, de 2015 para 2016, de 99º para 104º lugar em liberdade de imprensa.

E quem imagina que o "espiritismo" está fora disso está enganado. A religião que se diz "futurista" e "esclarecedora" demonstrou, na verdade, ser, até mais do que a atual linhagem da Igreja Católica, herdeira do Catolicismo medieval português, e a postura "dúbia" que bajula Allan Kardec mas pratica igrejismo não consegue dissimular essa realidade.

Perdido em suas próprias contradições, o "espiritismo" nem de longe pode ser considerado futurista nem moderno, mas antiquado e velho, um catolicismo medieval redivivo. Ver que igrejeiros moralistas como Chico Xavier e Divaldo Franco são considerados "futuristas" é, no fundo, constrangedor.

Mas num Brasil em que muitos veem como a "última palavra em humor" uma comédia mexicana de 45 anos atrás (nada contra essa comédia, mas ela reflete o "espírito dos anos 70"), tentam transformar Paulo Maluf num político cult e veem modernidade no projeto ditatorial de Jaime Lerner e seus ônibus visualmente padronizados, fica complicado questionar o "futurismo" atribuído a dois religiosos que mais parecem ter vindo dos porões mofados da República Velha.

O que assusta, seja no Brasil e no mundo, é a confiança com que retrógrados de todo tipo têm em fazer a marcha a ré da humanidade com menos atropelos possíveis, ou, no pior dos casos, com menos arranhões. Acham que a humanidade entrará no futuro retomando um passado que combina barbárie e preceitos moralistas, privilégios de poucos e flagelos de muitos, um egoísmo de uma minoria que pede aos outros caridade e misericórdia para os egoístas e seus atos abusivos e danosos.

Enquanto se desenha um mundo injusto e surreal no qual convicções sociais querem se sobrepor à realidade, os egoístas sentem a ilusão de sua invulnerabilidade: quem fica rico às custas do empobrecimento do outro e acha que não perderá dinheiro, o sujeito que tira a vida de outrem e imagina que nunca vai morrer, a pessoa que pratica corrupção e acha que não será punida, o sujeito que impõe uma medida nociva acreditando que ela nunca será revogada, o sujeito que humilha outrem acha que nunca será desmoralizado etc.

Todo esse egoísmo parece prevalecer e desafiar impasses, irregularidades, escândalos e toda revolta popular. O triunfo dos retrógrados em prol de seu egoísmo passadista parece desafiar as circunstâncias, até o momento em que a realidade cobre sua conta àqueles que investem e se apegam a esses retrocessos desesperados.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O direito de ir e vir e a imobilidade humana

SOB O VÉU DA PINTURA PADRONIZADA, A EMPRESA BANGU FECHOU AS PORTAS, PEGANDO O POVO DA ZONA NORTE CARIOCA DE SURPRESA.

No processo de ir e vir por ônibus, as pessoas parecem indiferentes à gravidade da pintura padronizada, que serve de "lona" para o triste espetáculo da corrupção do sistema de ônibus. É assustadora a passividade da população, que poderia ter derrubado há tempos essa arbitrariedade do prefeito Eduardo Paes que nem de longe resolve a questão da mobilidade urbana.

As pessoas pensam que a pintura padronizada não tem a ver, o que é importa é o serviço, se esquecendo da confusão que diferentes empresas de ônibus que apresentam o mesmo visual pode causar. E você vai, resignado, pegar um ônibus cuja empresa você mal tem ideia de qual é, sem a certeza de voltar vivo. Na melhor das hipóteses, você tem grande probabilidade de sair ferido num acidente de ônibus e perder umas horas no leito de um hospital mais próximo.

Sob o véu da pintura padronizada, ocorreram muitos absurdos. Nível de catástrofe, mesmo, para infelicidade do carioca que se acostumou a aceitar retrocessos vertiginosos - até "rádio rock" ruim os cariocas aceitam confortavelmente, além de uma imprensa que passou a mentir mais do que informar, como a Globo e a revista Veja - e, diante dessa tragicomédia da mobilidade urbana, sucumbiu à tetraplegia mental da imobilidade social (leia-se conformismo).

Entre vários absurdos, houve empresa com documentação irregular circulando livremente. Claro, o ônibus exibe o logotipo da prefeitura e ninguém estranha, vai que um despenca de um viaduto e os passageiros morrem. Tem também empresa trocando de nome e ninguém sabe. Ah, a empresa não se chama mais City Rio? Agora é Via Rio ou Vigário Geral? Voltou a ser City Rio? Ou agora é VG? Ou vai virar Conto do Vigário?

A pintura padronizada pode até ser uma "embalagem", mas é um fator que, com toda certeza, influi na queda de qualidade do sistema de ônibus do Rio de Janeiro. Todo mundo pensa que a identidade visual de cada empresa é só estética e propaganda, mas a pintura própria e personalizada que cada empresa tinha estabelecia relações de serviço entre empresa e fregueses.

A pintura própria também representava um compromisso social de cada empresa, garantia competitividade e transparência no serviço. Isso poderia não transformar o sistema de ônibus num mar de rosas, mas facilitava o passageiro comum de, ao diferenciar uma empresa de outra pelas cores e pelo desenho, teria mais chances de identificar a empresa que presta mau serviço.

Já quando há pintura padronizada e diferentes empresas de ônibus exibem um mesmo visual, além da imagem representar o poder da intervenção estatal - logotipos de prefeitura ou governo estadual, em que a Secretaria de Transportes, em vez de apenas fiscalizar, dá ordens, fazendo exigências mas deixando de ter suas responsabilidades naturais. Muitos até passam a defini-la pejorativamente como "Escrotaria de Transportes", assim como definem pintura padronizada como "podrenização".

A Secretaria de Transportes troca competência com autoritarismo, mas, por trás disso, torna-se eticamente vulnerável à corrupção político-empresarial. Desde que foi decidida "de cima" por Eduardo Paes, em 2010, a pintura padronizada que esconde as empresas de ônibus da população já começou mal quando, diante da rejeição popular (depois convertida em preguiçosa conformação), Paes decidiu tudo pela surdina, em votação às escuras na ALERJ e aprovação sem consulta popular.

Brigas empresariais nos bastidores dos "consórcios", empresa A puxando o tapete de empresa B, empresa sonegando despesas e entregando a outra mais fraca que nada deve, empresas fechando por suposta falência e ressuscitando com outro nome, empresas trocando de linha, linha trocando de empresa.

Sem falar que o sistema de ônibus se "partidariza" e hoje, no Rio de Janeiro, a Rio Ônibus virou dona da "máquina" eleitoral, para compensar que as empresas estão proibidas de exibir suas identidades visuais. Isso é o grande risco, e os cariocas felizes da vida sem o risco que sofrem. Mas hoje o Rio está tão decadente que um carioca vai beber cicuta e ainda vai achar uma delícia.

Com esse "véu" da corrupção sobre rodas, empresas acabam deixando de ter a responsabilidade que a identidade visual simboliza e mesmo as empresas que eram consideradas boas decaem severamente o seu serviço. Só a antes eficiente empresa Matias, que atua em bairros como Lins e Engenho de Dentro, apresentou goteiras no interior de veículos novos. A Real, antes também boa, apresenta frota sucateada, assim como a Verdun, Alpha, Tijuca e Braso Lisboa, só para citar as "conceituadas".

Tudo isso é favorecido porque a pintura padronizada só expressa a imagem da Prefeitura do Rio de Janeiro e o abuso de poder de sua Secretaria de Transportes, que em vez de ser um órgão regulador e fiscalizador banca o dublê de administrador de ônibus. É como se um sentinela do Exército se achasse ter a autoridade de um general.

As pessoas parecem esperar que o Jornal Nacional ou o jornal O Dia lhe digam que a pintura padronizada nos ônibus é uma decisão nociva, que confunde os passageiros e favorece a corrupção político-empresarial. É o que se vê diante dessa imobilidade urbana da sociedade que poderia, com uma simples manifestação, cancelar essa medida absurda que Eduardo Paes fez aprovar numa votação às escuras.

Trata-se do direito de ir e vir da população. A pintura padronizada puxou até outras arbitrariedades piores, como a dupla função do motorista-cobrador, que causou demissão em massa de muitos cobradores pais de família, e do esquartejamento de itinerários de ônibus diante dessa farsa de "linhas alimentadoras", "troncais" para forçar o uso de um pouco confiável Bilhete Único para mascarar a perda de tempo que se dá com baldeações em ônibus superlotados.

Quando as pessoas vão protestar contra pintura padronizada, dupla função e itinerários esquartejados? Quando O Dia publicar artigos diários sobre o assunto? Quando William Bonner disser que isso é ruim para a população? Ou será preciso um Luciano Huck, um Fausto Silva ou uma Ivete Sangalo para dizerem "todo santo dia" que a pintura padronizada nos ônibus estimula a corrupção?

Enquanto isso, as pessoas continuarão, resignadas e conformadas, pegando ônibus sucateados, sem saber que empresas operam tais linhas - um dia é uma, noutro pode ser outra, vale tudo nesse caótico sistema - , mas acreditando que irão sair ilesas achando que o problema maior não é com elas.

Só que é assim que muitas pessoas, quando não perdem a vida, perdem umas boas horas do dia num leito de hospital, tendo que adiar compromissos e perder até mesmo várias oportunidades da vida, que não acontecem o tempo todo.

E, para quem acha que não vai sofrer com os acidentes dos ônibus padronizados, essas ocorrências podem acontecer com qualquer um, até para aquele rapagão animado que, sofrendo um desastre desse tipo, terá que perder o encontro com a "galera" marcado para aquele dia. As pessoas perdem e pagam caro pelo conformismo.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A estranha felicidade numa palestra "espírita" para ricos


Muito estranha a postura do "movimento espírita" em tempos de crise como as de hoje. Diante de um governo armado por um golpe parlamentar, jurídico e midiático, os "espíritas" parecem alheios a tudo e ficam falando em "esperança", "paz" e ainda acham que "nunca o Brasil esteve tão melhor hoje".

É uma postura até menos sincera do que a de 1964. Segundo alerta o historiador Jorge Ferreira, biógrafo de João Goulart, na Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, ocorrida no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 19 de março daquele ano, vários movimentos religiosos participaram daquele evento patrocinado pelo governador paulista Adhemar de Barros, conhecido na época como o "rouba mas faz".

Ferreira afirma que até mesmo "kardecistas" (eufemismo usado pelo "movimento espírita" para definir o movimento que nada tem de Allan Kardec e tudo de Francisco Cândido Xavier) participaram daquele evento que hoje seria conhecido como o "Fora Jango" e que influenciou os militares a iniciarem o processo de derrubada do presidente.

A postura do "movimento espírita" era mais sincera. Chico Xavier defendia a queda de João Goulart, para desespero dos esquerdistas de hoje que tão ingenuamente manifestaram sua admiração pelo sinistro "médium", entorpecidos pelo seu estereótipo de "gente humilde" e de "filantropo".

Uma blogueira chegou a cometer uma gafe reclamando que o filme As Mães de Chico Xavier era boicotado pela grande mídia, mesmo sendo uma co-produção da Globo Filmes, das mesmas Organizações Globo que controlam a Rede Globo e tendo narrativa típica de novela "global".

A postura do "movimento espírita" era tão grave que Chico Xavier ainda se mantinha golpista quando era entrevistado no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi, em 1971. E mais grave ainda porque a ditadura, em 1971, era mais escancarada do que a de 1964, que fingia ser "democrática". E isso quando até o golpista exaltado Carlos Lacerda estava na oposição.

Mas hoje o que prevalece é a postura "dúbia" no "movimento espírita". Uma postura dissimulada, contraditória, de "dizer uma coisa e fazer outra", distante de um roustanguismo mais aberto e assumido de outros tempos. Essa postura vem mais ou menos desde 1975, embora já fosse latente nos anos 1960. Mas foi em meados dos anos 70 que ela se oficializou e tenta resistir até hoje.

Diante disso, vemos o caótico governo Michel Temer, que mais parece um desgoverno por ser uma coleção de escândalos. Até a edição deste texto, três ministros caíram e vários membros do primeiro e segundo escalão do governo interino estão sob risco de caírem, por conta de denúncias de corrupção. E parte de seus mentores, como Eduardo Cunha, Aécio Neves e José Serra, este um dos ministros, também mostram a batata queimando de tanto assar.

PALESTRA CARÍSSIMA SOBRE...SER FELIZ!

E como reagem os "espíritas"? Alheios a tudo. Embora oficialmente eles não tenham se pronunciado pelo "Fora Dilma", tão "bondosos" e "misericordiosos" que são com tudo e todos, eles parecem muito felizes diante do cenário bagunçado que se formou em Brasília.

Vemos então figuras como Divaldo Franco, maior deturpador vivo do Espiritismo, espalhador de muitas mentiras mistificadoras protegido pelo verniz da "sabedoria" e da "bondade", realizando uma palestra intitulada "Felicidade Possível" num hotel caríssimo em Salvador, o Hotel Fiesta.

Divaldo é um reflexo de uma sociedade confusa. É erroneamente tido como "filósofo" e "sábio" por conta de uma população desinformada, que conhece as coisas da vida pela metade, sem um hábito de leitura atenta de bons livros e que prefere investir no preguiçoso hábito de colecionar frases curtas de intelectuais e celebridades como se isso lhe trouxesse alguma sabedoria.

É um público que tanto faz aceitar um desordeiro como Gilmar Mendes, um jurista corrompido que levanta a bandeira do PSDB (recentemente ele fez manobras para tentar livrar o senador Aécio Neves de ser investigado pela Operação Lava-Jato). Um público que não conhece as leis, e que em parte prefere pautar sua vida em textos religiosos de dois mil anos atrás do que da Constituição Federal de 1988 (com artigos reparados pelas emendas que vieram ao longo dos anos).

Diante desse nível de incompreensão, que favorece o jornalismo decadente em que vivemos, que mais deforma do que informa as pessoas, é que temos um povo confuso que aceita um Judiciário corrompido e parcial na interpretação das leis, e diante disso tanto faz que um ídolo religioso seja visto como "filósofo", só faltando ensinar Chico Xavier e Divaldo Franco nos cursos de Filosofia para a coisa cair no ridículo de vez.

Divaldo é, aliás, o anti-filósofo, porque seu discurso é mistificador, deturpador, obscurantista. Um filósofo tem uma oratória simples e direta. A de Divaldo é rebuscada e prolixa. Um filósofo não se preocupa com as certezas, mas com as questões. Divaldo tenta expor certezas. Um filósofo não tem a pretensão de saber tudo. Já Divaldo lança livros de respostas prontas para qualquer tema.

E aí temos ele fazendo uma palestra num seminário caríssimo, feito em um hotel de luxo, há poucos dias, em Salvador. Um palestrante "espírita" equivocadamente descrito como "professor" e erroneamente definido como "cientista" e "filósofo" fazendo uma "importante" exposição cujo tema é, simplesmente... "Felicidade possível".

Ficamos refletindo o que é a manobra discursiva dos "espíritas". Em palestras para gente rica, é adotado um discurso de "esperança" e "felicidade", de se trabalhar a "prosperidade" para desenvolver a "caridade" e o "amor ao próximo". Talvez seja uma forma de botar adoçar as almas depois que, na saída das palestras, algum burguês fique calmo depois de, rendido por um assaltante, agradeça a Deus por ter seu carro roubado.

Por outro lado, quando é com os pobres, o discurso é outro. "Aguente a barra, que está muito pesada, mas confie em Deus que tudo passará (leia-se "para daqui a cem anos ou, com melhor sorte, na proximidade da velhice")", é o discurso mais típico.

As pessoas não imaginam que o "espiritismo" brasileiro professa a Teologia do Sofrimento, uma herança de Jean-Baptiste Roustaing que seus adeptos, tão metidos a se dizer fiéis seguidores de Allan Kardec, não conseguiram se livrar. Esquecem eles que o roustanguismo pode ter "desaparecido" no Brasil na forma que se conheceu na França, mas todo esse legado foi devidamente adaptado à realidade brasileira por Chico Xavier e seus seguidores, inclusive Divaldo Franco.

Portanto, é um agravante que o "movimento espírita" finge que não existe, ou então supõe que é conversa de gente invejosa ou de evangélico querendo bancar o moralista. Mas, infelizmente, é a dura realidade: o "movimento espírita", com a Teologia do Sofrimento, prova ter assumido, mais até do que a Igreja Católica de hoje em dia, a herança do Catolicismo medieval português.

E aí nota-se a estranheza de um "espiritismo" que, nesses momentos de crise e caos, falar em "felicidade" e descrever um fantasioso otimismo, supondo que "nunca o mundo esteve tão feliz" e "nunca fizemos tanto bem quanto antes".

Uma religião como essa não consegue entender a complexidade dos conflitos cotidianos, da desigualdade de interesses, em que aqueles que mais precisam não têm o necessário e aqueles que nem precisam de tanto obtém até o mais supérfluo dos supérfluos, e ver que "tudo está melhor" com esse desgoverno que vemos no Palácio do Planalto é uma alegação vergonhosa partida da tal "religião da bondade" que não resolve suas próprias contradições.

O Brasil sofre um risco de ser governado pela extrema-direita, diante de uma multidão que passionalmente pode ser guiada a apoiar um Jair Bolsonaro ou algum outro tirano que vier escondido das mangas do poder midiático e econômico, e os "espíritas" felizes cantando a "vitória do Bem". Talvez se o tirano se chamar Benjamim possamos realmente dizer que o "Bem" dominará nosso país. E todo mundo cantando canções de paz quando for escravizado em campos de concentração.

Triste sina de uma religião que se diz "a mais avançada do país". Uma religião moldada na Teologia do Sofrimento medieval - é só observar as frases de Chico Xavier sobre o sofrimento, ele deixou clara essa postura - e que tenta dissimular isso com um pretenso otimismo.

Enquanto isso, desigualdades e injustiças imensas ameaçam se agravar diante da explosão colérica dos reacionários que primeiro tiraram uma chefe de Estado para depois retomar os retrocessos que com tanto trabalho combatemos ao longo dos séculos.

A "esperança" dos "espíritas" demonstra ser um otimismo frágil diante dos tempos terríveis em que vivemos. É como alguém que, feliz da vida, diante das trovoadas que se anunciam, sugere para as pessoas se protegerem debaixo de uma árvore. Só que a árvore conduz eletricidade e, quando um raio a atingir, a árvore e as pessoas sob ela situadas também serão fatalmente atingidas.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Rio de Janeiro realmente está em estado de calamidade pública

VÍTIMA DE ESTUPRO COLETIVO CHEGANDO PARA DEPOR EM DELEGACIA NO RIO. A CALAMIDADE PÚBLICA NÃO É SÓ ECONÔMICA.

A semana terminou com o governador interino do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, decretar estado de calamidade pública. A notícia chocou o país, mas de forma menos intensa, já que o Estado do Rio de Janeiro já tinha sido cenário de tantas ocorrências funestas, nos últimos anos.

Portanto, antes que a chamada "boa sociedade" carioca dissesse que esse decreto é um "mimimi" para arrancar verbas federais à toa, ou que é "culpa do PT" - de repente os petistas viraram bodes expiatórios de "tudo que está aí" no país - ou que não passa de uma grande frescura política.

É certo que Francisco Dornelles nem de longe é um político carismático. Ele parece um "dinossauro" político, da árvore genealógica familiar tanto de Getúlio Vargas quanto de Tancredo Neves (avô do desastrado e corrupto senador Aécio Neves) e, politicamente, de variantes conservadoras do governo carioca.

No entanto, o decreto só reflete a decadência avassaladora que o Estado do Rio de Janeiro e, por conseguinte, a sua antes imponente capital, está sofrendo. Uma decadência generalizada, algo como uma antiga vedete sofrendo AVC. A ex-Cidade Maravilhosa, palco de tantas ocorrências infelizes, realmente sofre uma calamidade pública, e ela não é somente econômica.

As pessoas têm a mania de admitir a crise quando falta dinheiro. Se tem dinheiro, não há crise. Se há sucesso comercial, não há crise. Essa é uma visão bastante enganosa que as últimas ocorrências estão pondo em xeque-mate naqueles que acreditam que, fora a "falta de verbas", o Rio de Janeiro "continua lindo".

Só a queda de uma ciclovia muito mal construída, matando dois ciclistas, e o caso do estupro coletivo que vitimou uma adolescente, mostram o quanto o Rio de Janeiro sofre uma decadência sem limites. E Niterói, antiga capital do Estado, segue o mesmo declínio, feliz em servir-se de capacho para a cidade vizinha, virando uma cidade provinciana do tipo que muitas cidades do interior já começam a romper.

É o espírito do tempo. O Rio de Janeiro decai como um todo. A cidade da Bossa Nova de 60 anos atrás hoje é a cidade do grotesco "funk", que agora se enrola todo para explicar um machismo que nunca assumiu antes.

Da mesma forma, é a cidade cuja boa parcela da população deu de presente ao país personalidades políticas de valor deplorável como o antes apenas inexpressivo Eduardo Cunha, eleito deputado federal em 2014 e convertido num tirânico e irresponsável presidente da Câmara dos Deputados, e o fascista Jair Bolsonaro, que chegou até a fazer apologia ao estupro, quando brigou com uma deputada do PT.

Os cariocas pagaram caro porque foi através de Eduardo Cunha que se interrompeu o mandato de Dilma Rousseff, que mesmo com suas imperfeições tentava manter o país nos eixos, com o controle dos preços, revalorização gradual dos salários e implantação de medidas de âmbito social. Cunha está associado às "pautas-bombas", propostas associadas a retrocessos sociais ligados a preconceitos religiosos e elitistas e à ganância financeira dos "moralistas" envolvidos.

Agora Cunha só está ameaçado de perder o mandato parlamentar - ele apenas está suspenso, embora tenha perdido a chance de, como presidente da Câmara, exercer eventualmente a presidência da República, nas ausências do titular Michel Temer - depois de muita trabalheira e pelo fato de que, pelo temperamento difícil, Cunha também oferece perigo para o grupo político que fez afastar Dilma, até pelo medo do deputado e marido de uma ex-jornalista da Globo "ir longe demais".

Arrivismo tem limites. E, na terra da Rede Globo, mídia traiçoeira de péssimos serviços de manipulação da opinião pública, até o público de rock, ligado a paradigmas de rebeldia juvenil, recebeu o péssimo "presente de grego" da Rádio Cidade, decadente emissora que usa o lema "Rock de Verdade" mas trabalha com equipe sem envolvimento algum com o gênero e com uma grade de programação que remete aos mesmos programas de besteirol e sucessos musicais da Jovem Pan FM.

Mas a tolerância do público roqueiro autêntico - ligado a projetos como Maldita 3.0, Kiss FM e Cult FM - com a supremacia mercadológica da Rádio Cidade (o pretexto é deixar que uma emissora incompetente mas "melhor estruturada" firme o rock no mercado, algo como deixar que um lobo faminto reorganize um rebanho de ovelhas) também revela um contexto de conveniências.

Afinal, já que até a imprensa internacional (ridicularizada por incompetentes jornalistas da grande mídia, que se pretendem "donos da verdade" com suas visões fora da realidade) acusa os políticos do PMDB carioca de agravarem a crise fluminense, faz sentido essa preocupação em "manter" uma decadente e incompetente "rádio rock": os donos da Cidade estabelecem alianças comerciais e turísticas com o próprio PMDB, os dirigentes esportivos e os empresários de grandes eventos.

Mas também os interesses econômicos e políticos também ganham um tempero automotivo, com o sistema de ônibus do Rio de Janeiro sofrendo uma decadência em níveis catastróficos - ou calamitosos, para citar o decreto de Dornelles - e não é só por motivação econômica.

O sistema decai pelos erros grotescos que atropelam de morte o interesse público com medidas impopulares - como a dupla função motorista-cobrador que demitiu muitos trabalhadores que sustentavam famílias, a pintura padronizada que esconde empresas de ônibus sob a mesma pintura, confundindo a população e favorecendo a corrupção político-empresarial que fez empresas surgirem e serem extintas, linhas trocarem de empresa e tudo o mais, sem que a população saiba.

A aceitação da pintura padronizada nos ônibus por uma população resignada fez com que as autoridades abusassem e impusessem novos retrocessos, como o fim das linhas diretas da Zona Norte para a Zona Sul, sob a desculpa do "sistema integrado", que já ceifou também linhas distantes como 465 Cascadura / Gávea, 676 Méier / Penha e 952 Penha / Praça Seca, complicando a vida de muitos moradores.

Era todo o processo que se vê hoje no governo Michel Temer. No conjunto da obra, uma coleção de retrocessos trazidos por um sistema de valores no qual o que vale é o status quo de quem decide, e não a validade ou não de uma medida.

Outra calamidade pública eram as ações de trolagem e cyberbullying nas mídias sociais, em que ataques em massa eram combinados para quem não concordava com esses valores estabelecidos, campanhas difamatórias complementadas, em certos casos, com blogues caluniadores criados contra os desafetos, geralmente parodiando suas atividades e usando de forma leviana e desrespeitosa seu legado pessoal.

Isso significa a ação de jovens desprovidos de formação educacional e moral que usam da "liberdade da rede" para depreciarem e ameaçarem quem discorda de um sistema de valores machista, racista, tecnocrático, midiático e econômico nos quais o poder dominante é praticamente divinizado e defendido com submissão extrema, cabendo punição a quem discordar disso.

Ver que jovens assim travestem sua mentalidade medieval através de uma falsa rebeldia, um uso de palavrões, ironias e sarcasmos que parecem "modernos", trajes que variam de universitários ou mesmo suburbanos comuns a outros que misturam hippies, black power, surfistas, skatistas e outros tipos aparentemente arrojados é assustador.

Só esses encrenqueiros digitais, em maioria residentes no Grande Rio, que mostram que a calamidade pública que atinge o Rio de Janeiro não se limita à crise econômica, mas um conjunto de valores. A própria vitória eleitoral do PMDB e a ascensão de figuras como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro revela esse obscurantismo sócio-cultural, que é a verdadeira calamidade que faz o Rio de Janeiro perder toda a razão de ser como antiga cidade-modelo para o resto do Brasil.

sábado, 18 de junho de 2016

O "amor" no discurso alucinógeno religioso


Sabe-se do poder alucinógeno ou simplesmente ilusório das drogas, que forjam falsas alegrias e cujos efeitos variam conforme os entorpecentes usados. A maconha, por exemplo, traz uma ilusão de felicidade plena, a cocaína, a de autoconfiança, a do ácido lisérgico, a produção sensorial de imagens surreais na mente das pessoas.

E a religião? Ela não é capaz de criar ilusões? Nota-se, no fanatismo religioso, que, assim como o drogado "feliz" se torna agressivo e violento quando contrariado, observa-se na religião essa mesma reação, vinda de gente que se considera "salva", "equilibrada" e "emocionalmente segura".

Há um grande perigo no "espiritismo" relacionado a essa mística de "palavras de amor", "estórias lindas", "exemplos de paz e bondade", "energias de luz" e outras coisas semelhantes. Essa vibração infantilizada reflete uma obsessão séria, como um processo alucinógeno e orgiástico que apenas substituem símbolos de futilidade explícita por paradigmas ligados à caridade e humildade.

O processo, todavia, se torna traiçoeiro, e esse vício que entorpece os "espíritas" no Brasil, de maneira descontrolada e irreversível - num país em que a Justiça está de "rabo preso" - , era advertido por Allan Kardec em seu tempo.

Ele advertiu para os riscos dos tipos de obsessão bastante perigosos, a "fascinação" e a "subjugação". Esses dois se observa no "espiritismo" brasileiro, um engenhoso processo de deturpação que permite lançar mentiras e mistificações e sair totalmente impune, como se cometesse um crime perfeito.

A "fascinação" toma conta das pessoas, seduzidas pela imagem de "bondade" e pela simbologia de céus azuis, jardins floridos, nuvens brancas e sol radiante que cercam as imagens de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, os piores deturpadores da história do Espiritismo.

A "fascinação" consiste nesse aspecto vulnerável da emotividade frágil, que cai na armadilha dos deturpadores que mostram sempre "coisas lindas" e "boas ideias" para dominar as pessoas e lançar sobre elas conceitos e visões desprovidos de coerência e lógica.

Já a "subjugação", que é o aspecto ainda mais cruel, quando a vítima é totalmente dominada pelo deturpador da Doutrina Espírita, se observa na acomodação das instituições, que nunca se mexem para questionar as figuras mitológicas de Chico Xavier e Divaldo Franco, que vivem a impunidade dos sonhos de Eduardo Cunha.

São lançados plágios literários, ideias surreais, conceitos sem pé nem cabeça e, portanto, desprovidos de lógica, mas todo um malabarismo discursivo é feito para que estas deturpações, que envergonhariam Jesus de Nazaré e Allan Kardec, sejam aceitas sem críticas.

Ninguém raciocina, ninguém discerne as coisas, ninguém analisa. Acham que Chico Xavier, mesmo contrariando o pensamento kardeciano, é "fiel discípulo" do professor lionês. Divaldo, nem se fala, o ar professoral engana muita gente direitinho.

E aí eles usam todo aquele truque de mostrar céu azul, jardim florido, peixinhos nadando no fundo do mar, crianças sorrindo, tudo isso para prender a atenção das pessoas e dominá-las. Ninguém percebe o quanto isso é traiçoeiro e há ainda uns esnobes que dizem, com ironia psicopata: "Ah, quem me dera cair nessas armadilhas de amor e de paz".

Isso é terrível. Trata-se de uma exploração piegas das ideias associadas a bons sentimentos e boas ações. Algo tendencioso, malicioso, pernicioso. Ninguém desconfia, e essa falta de desconfiança faz com que o Brasil seja o país em que os privilegiados de toda ordem - política, econômica, midiática, tecnocrática e religiosa, entre outras - façam o que querem contra a população.

Chamamos esse apelo ideológico de "amor-daçar". Um "amor" que intimida, e logo não é amor. Um "amor" que garante mais a supremacia de uma minoria de religiosos sobre seus subordinados, usando todo um repertório "lindo" para envolver emocionalmente as pessoas e deixá-las vulneráveis, embora com a falsa impressão de que estão seguras e fortes.

Daí que, independente de qualquer ideologia, temos que admitir a frase de Karl Marx: "a religião é o ópio do povo". O entorpecente religioso, com seus símbolos de pieguice e emotividade exagerada, faz com que as pessoas percam a noção de discernimento e questionamento. E isso não é diferente em relação ao "espiritismo" que, apesar de seu verniz "racional", segue direitinho os velhos preceitos medievais da Igreja Católica.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Brasil quer voltar a 1974


O que está em jogo, nos fatos ocorridos no Brasil nos últimos tempos, é o esforço de uma parcela de brasileiros em resgatar os valores de uma estabilidade forçada do período do general Ernesto Geisel, que chegou ao poder em 1974.

Muitos fatos e incidentes ocorridos nos últimos anos refletem essa necessidade de combinar um quadro de "milagre brasileiro" da Era Médici com o contexto de democracia restrita do seu sucessor, e esse projeto parece ser o do atual governo de Michel Temer.

Atualmente, o contexto político é que dita essa perspectiva de uma marcha-a-ré social do Brasil. O governo do presidente interino Michel Temer procura retroceder, em muitos aspectos, em relação a conquistas sociais históricas, prometendo uma política econômica ultraconservadora que contraria muitos dos avanços historicamente atingidos.

Mas, mesmo durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, essa perspectiva de voltar à Era Geisel era sinalizada, tanto por uma intelectualidade cultural que defendia o separatismo com um discurso dissimulado, quanto por outros agentes sociais que queriam a "paz forçada" de um equilíbrio forjado durante os idos de 1970-1978, mais precisamente durante o governo Geisel.

O machismo tenta resistir através das mídias sociais ou tanto pelas ocorrências de feminicídios que continuam acontecendo nos noticiários policiais quanto pelo erotismo compulsivo no qual "musas" como Solange Gomes e Renata Frisson, a Mulher Melão, como propagandistas.

O próprio erotismo das revistas pornográficas e das musas de aparência grotescamente "sensual", hoje expresso por essas e outras "musas" através de um sensualismo obsessivo, revela também o saudosismo de revistas antigas como Brazil e Big Man Internacional.

O "separatismo" cultural, que os intelectuais associados defendiam sob a desculpa de "combater o separatismo", forçando a classe média a aceitar a bregalização, num contexto ainda mais radical do que o da Era Médici, quando o mercado e a mídia empurravam o brega para o povo pobre enquanto a classe média ficava com a MPB e o Rock Brasil juntamente com a elite. Hoje, a classe média é induzida a apreciar o brega.

Ideólogos dessa "cultura popular" sonhavam com a volta da "provocatividade" pós-Tropicália, já banalizada e, sem o poder de impacto de 1967-1968, apreciava o comercialismo tosco dos ídolos cafonas, ideologicamente conservador mas tido como "subversivo" apenas por alguns aspectos meramente comportamentais.

O "funk" resgata esses aspectos grosseiros do imaginário brega, embora use um discurso ideológico de pretensa vanguarda artístico-cultural, que funciona na teoria mas não se observa na prática. Pouco importa: o que importa é a visão "oficial", a imagem marqueteira, criando uma "lógica" típica da miopia midiática e publicitária vigente na Era Geisel, ainda governada sob a vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5).

A economia e outros aspectos do cotidiano, como, por exemplo, a mobilidade urbana, também tem perspectivas que remetem a 1974, entre o "milagre brasileiro" de Médici e a "abertura lenta e gradual" de Geisel.

Na economia, observa-se a volta de medidas para combater a crise - em outros tempos falava-se em "inflação" - , usando a desculpa do arrocho salarial para resolver despesas e déficits, enquanto subsídios são repassados para a indústria e planos de privatização são elaborados. Setores como Saúde e Educação, com menos investimentos, continuam no nível deficitário de sempre.

Na mobilidade urbana, o incômodo mascaramento das empresas de ônibus através da pintura padronizada, medida imposta à força no Rio de Janeiro, juntamente com outros suplícios como a dupla função do motorista-cobrador e o esquartejamento de percursos de linhas funcionais, revelam um projeto de sistema de ônibus que se comprova um fracasso definitivo.

No entanto, tudo isso é mantido sob desculpas de "caráter técnico" e baseadas numa reputação divinizada que o arquiteto Jaime Lerner, mesmo envolvido em corrupção política, ainda possui na sociedade. Recentemente, Lerner foi obrigado pela Justiça a devolver uma grande quantidade de dinheiro obtido em corrupção.

Lerner é apenas um exemplo de como tecnocratas são "santificados" mesmo quando envolvidos em casos de corrupção. É surreal que, num mesmo grupo político sem confiabilidade, a figura do secretário de Transportes, que impõe seu poder a empresas de ônibus escondidas numa pintura padronizada, seja considerado um "santo" ou algo próximo disso.

Falando em "santificação", a própria religiosidade também se desespera em resgatar valores de 1974. O catolicismo só não conseguirá recuperar a demanda que tinha antes, tal como sua influência na sociedade está longe de ter a força de outrora.

Mesmo assim, seu misticismo e moralismo refletem a herança católica, tanto em movimentos protestantes do tipo "neopentecostal" e derivados da Igreja Nova Vida, como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Assembleia de Deus, todas em ascensão no período do governo Geisel.

No caso do "espiritismo", a ideia de seus membros hoje é justamente a de salvar a tendência que começou a prevalecer definitivamente no período Geisel: a postura "dúbia", que é a dissimulação do igrejismo de influência católica com falsas apreciações do cientificismo de Allan Kardec, postura consagrada com os mitos de Chico Xavier e Divaldo Franco.

O próprio anti-esquerdismo, que fazia com que operações militares suspeitas buscassem eliminar políticos como Juscelino Kubitschek, João Goulart ou mesmo Carlos Lacerda - direitista que passou a se opor à ditadura militar, ao saber que as Forças Armadas lhe barraram o caminho da sucessão presidencial - , criou um novo surto com as manifestações pelo "Fora Dilma" e a campanha caluniosa contra o PT e seus políticos.

Com esses aspectos, é estranho que a grande mídia não defina o período Geisel como "seus anos dourados". Afinal, todas as tentativas de recuperar aquele Brasil ao mesmo tempo castrado e resignado, onde as decisões partiam não da sociedade em si, mas de políticos, empresários, religiosos, tecnocratas e acadêmicos, estão sendo feitas, nem sempre com o êxito desejado, mas com todo o empenho para se fazerem prevalecer de uma forma ou de outra.

Desta maneira, vemos que o Brasil continua sendo um país conservador, pois a necessidade de uma boa parcela de brasileiros em querer fazer marcha-a-ré histórica, retrocedendo o país aos paradigmas vigentes em 1974, mostra o quanto tem gente que não quer progresso nem realismo e nem modernidade para o país. Para eles o que importa é um país "velho", mas estável.

terça-feira, 14 de junho de 2016

A overdose de religião e os valores retrógrados


A cidade de Orlando foi palco de dois crimes sangrentos que puseram o mundo a pensar. No dia 10, a cantora Christina Grimmie, de 22 anos, que havia sido finalista do The Voice matriz, nos EUA, foi assassinada por um fã enlouquecido, Kevin James Loibi, que depois chegou a ser detido pelo irmão da vítima, mas se suicidou em seguida.

No dia 12 foi a vez do terrorista Omar Saddiqui Mateen, de 29 anos, homofóbico declarado e simpatizante do Estado Islâmico, abrir fogo contra os frequentadores da boate gay Pulse, na mesma cidade da Flórida, EUA, matando 50 pessoas. Omar foi morto por policiais que entraram no local.

Uma porção de problemas envolvem esses incidentes. A começar, o clima de ódio que se propaga nas mídias sociais e faz com que jovens exagerem na rebeldia e idolatrem grupos sanguinários, seja o Estado Islâmico ou a Klu Klux Klan, por exemplo, passem a se tornar vingativos e reacionários.

São pessoas que, em diversos níveis, se irritam com as mudanças dos tempos e reagem de uma forma ou de outra. Pode ser um cyberbullying feito por quem não aceita que alguém discorde de um modismo ou de uma arbitrariedade política, como pode também ser um crime cometido por alguém enfurecido com alguma mudança ocorrida.

Num cenário cada vez mais caótico em que os EUA sofrem com a ocorrência de atentados a bala com várias vítimas e o Brasil está desgovernado com um grupo político cheio de gente corrupta - incluindo o próprio presidente interino, Michel Temer - , valores retrógrados ainda tentam resistir a todo tipo de transformação social.

É uma sociedade marcada por um estranho moralismo que faz ter posições estranhas. É uma sociedade cujos setores retrógrados chegam a elogiar o ato terrorista que matou gays, vinculada a uma sociedade patriarcalista que, no entanto, tem medo de ver feminicidas morrerem de repente por descuido da própria saúde.

Valores do obscurantismo religioso e racial, ligados a grupos como o EI e a KKK, preocupam a sociedade, por serem defendidos por uma parcela influente de pessoas, cujo tráfico de influência envolve parte dos meios de Comunicação, do Poder Legislativo ou mesmo do Poder Judiciário.

No Brasil, existe a bancada BBB, da Bíblia (evangélicos), do Boi (latifundiários) e da Bala (policiais, militares e armamentistas em geral) que querem até mesmo mexer na Constituição de 1988 e desfazer de muitas conquistas sociais históricas, obtidas com muita dificuldade e até tragédia.

Só para se ter uma ideia da gravidade da coisa, é essa bancada BBB, eleita por uma classe média confortável que aceita tudo que a Rede Globo diz e impõe (da gíria "balada" até acusações surreais contra o PT, como subornar o Papa Francisco), que defende reformas trabalhistas que irão rebaixar os trabalhadores assalariados aos níveis do mercado informal, com menor remuneração, menor qualificação e menos assistências e encargos.

Por exemplo, se um trabalhador sofrer um acidente de trabalho, cortando um braço pelo manejo inadequado de uma ferramenta, ele tem que ir a um hospital qualquer, enfrentar filas e ainda pagar para amputar o braço, sob risco de contrair uma infecção mortal.

É essa a realidade que o "maravilhoso" governo de Michel Temer e seu "heroico superministro" Henrique Meirelles - que especialistas já apontam como praticante de "pedaladas fiscais", o mesmo mal que, supostamente atribuído a Dilma Rousseff, motivou seu afastamento político - querem para os trabalhadores, sob o respaldo de um Poder Legislativo que parece viver no Brasil-colônia.

Muitos desses valores retrógrados estão por trás da religião. A religião só é boa quando se limita a ritos culturais, uma saudável tradução adulta das brincadeiras e da imaginação infantis. Mas quando ela se impõe à realidade, cria aberrações como a "bancada BBB" e os movimentos como EI e KKK, também apoiados em dogmas religiosos.

Mesmo a "benéfica" religião "espírita" se torna nociva pela desonestidade doutrinária acobertada pelo aparato das "palavras de amor". Só mesmo um país em que um plagiador de livros é elevado a um semi-deus, como Chico Xavier, que faz com que se aceite um governo como o de Michel Temer, comandado por uma horda de corruptos políticos.

A religião que motiva ações do EI não protege as pessoas das ameaças que as atingem. A família de Christina Grimmie era religiosa. Não temos condições aqui de avaliar se a influência religiosa influiu ou não na vulnerabilidade da cantora, mas frequentemente a religião traz energias mais azarentas do que, por exemplo, quebrar um espelho em casa.

Pelo menos o "espiritismo" é assim. Recentemente, uma série de assaltos ocorreram, em Niterói, numa área do Cubango próxima a um "centro espírita" local, cujas instalações lembram o de uma casa mal-assombrada, junto a uma área considerada erma e perigosa mesmo durante o dia.

A religião torna-se um repositório de valores retrógrados, que envolvem preconceitos elitistas e valores ligados ao machismo, ao patriarcado e ao patrimonialismo. Muitos valores moralistas da religião, incluindo os "espíritas", estão relacionados a ideia de que os privilegiados devem ser protegidos, mesmo em seus abusos, e os sofredores têm que suportar desgraças ou sair delas com muita dificuldade.

Os incidentes dramáticos que acontecem no Brasil e no mundo, como o estupro de uma multidão de homens contra uma adolescente no Rio de Janeiro, e a chacina na boate gay de Orlando, indicam esse pânico de setores da sociedade que não querem ver seus valores "tradicionais" caindo por causa das mudanças de padrões de relações amorosas, estrutura familiar, relações de trabalho etc.

A mesma sociedade que pede "morte aos petistas e aos gays" mas não aceita que feminicidas que mataram suas mulheres em nome da "defesa da honra" possam morrer de câncer por terem fumado demais. E apenas estamos citando algumas paranoias que saltam das redes sociais da Internet.

Na paranoia religiosa, o pai de Omar chegou a declarar que "cabe a Deus punir os gays". Ele lamentou que o filho tenha feito o atentado, mas também demonstrou homofobia diante do desprezo aos homossexuais.

O atentado de Orlando é comparado ao de 11 de setembro, o que mostra que os valores retrógrados do obscurantismo religioso, moral e cultural parecem se tornar mais violentos na medida em que seu desgaste se torna mais evidente.

A questão do ódio que é expresso nesses incidentes nem de longe é de falta de religião. No caso dos atentados fundamentalistas, é uma overdose de religião que faz pessoas agirem pela intolerância e fanatismo. O problema não é a religião em si. Mas quando ela tenta estabelecer seu monopólio sobre a realidade, ela revela aspectos negativos, quando a fé se transforma em fanatismo e se acha possuidora da verdade.

domingo, 12 de junho de 2016

Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha: dois graves perigos para a nação


Um grande mal no Brasil é a emoção subjetivista e exaltada. Tanto no lado "positivo" de endeusar Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco quanto para esculhambar o PT, as pessoas são tomadas de uma cegueira sentimental muito perigosa, que trava o raciocínio e atrofia o nível de compreensão aos níveis aberrantemente surreais.

Sabemos, no caso do "espiritismo", o quanto é perigoso o endeusamento a duas figuras ordinárias, para não dizer levianas, como Chico Xavier e Divaldo Franco, associados a velhos e duvidosos paradigmas de "bondade" e "humildade" que nunca realizaram transformação profunda e verdadeira na sociedade e nunca passou de um faz-de-conta dotado de muita pieguice.

As pessoas chegam mesmo a aceitar que nomes como Humberto de Campos e Auta de Souza sejam usurpados de maneira mais fútil, batizando até mesmo "centros espíritas" - usurpação da qual nem o médico Carlos Chagas escapa - e cujas obras "mediúnicas" a eles associadas nem de longe mostram seus estilos pessoais.

Tudo na mais absoluta impunidade. Os "espíritas" realizam verdadeiros trotes caligráficos, através das supostas cartas de entes queridos falecidos, e pessoas chegam a se comover sem perceber as fraudes escandalosas que estão por trás. Se iludem com vagas semelhanças sem saber das diferenças que derrubam qualquer indício de veracidade em tais "mediunidades".

É com esse nível míope de compreensão, baseado em paradigmas morais de erros e acertos que deixam muita gente boa desprevenida e vulnerável, que os brasileiros foram manipulados por TVs, revistas e jornais a sentir rancor pelo PT, baseado nos estereótipos e nas invencionices de jornalistas da grande mídia brasileira, cada vez menos comprometidos com a honestidade da informação, como a Veja, Globo, Estadão, Band, Isto É e Folha de São Paulo.

O estereótipo do gordo de aparência enérgica de Lula, cuja aparência de antigo operário remeteu, apenas por coincidência, ao vilão Brutus das estórias do Popeye, era trabalhada de maneira pejorativa pelos meios de comunicação, associada a de um suposto mafioso cuja única preocupação era desviar dinheiro público para contas pessoais e de seus amigos.

Já o estereótipo de Chico Xavier sempre foi trabalhado, pela mesma mídia corporativa, de forma "agradável", como o choroso velhinho frágil que supostamente representava a personificação da perfeição e do amor, através de clichês que não mediam escrúpulos de sucumbir à mais enjoada pieguice.

A realidade mostra o quanto as aparências enganam. Chico Xavier era um espertalhão, um plagiador de livros, fazia pastiches literários grosseiros, era um moralista retrógrado, defendeu a ditadura militar, fazia juízos de valor dos mais deploráveis (como no caso das vítimas do incêndio de um circo em Niterói) e falou mal de pessoas pelas costas (como no caso dos amigos do jovem Jair Presente).

Já Lula procurou, como governante, mesmo com vários senões, fortalecer a autoconfiança do Brasil no circuito das nações emergentes, manobrando a economia de forma a permitir o desenvolvimento associado às melhorias sociais, num processo indolor em que o poder aquisitivo dos brasileiros era recuperado por uma elevação salarial gradual e um controle maior de preços.

Mas as pessoas esculhambaram um líder político que se esforçava em reduzir o analfabetismo e o desemprego e promover a melhoria de qualidade de vida. E, junto à imagem falsa de "brutamontes" de Lula, seguiu-se à imagem "maquiavélica" da "bruxa megera" de Dilma Rousseff.

Por outro lado, à imagem "apaixonante" de Chico Xavier, tido como "caipira inocente", se somou a do "professor à moda antiga" de Divaldo Franco, com ternos brancos e cabelo engomado à maneira dos anos 1940, tido como pretenso pensador e dublê de filósofo, encantando muitos incautos saudosos dos antigos catedrásticos dos tempos da vovó.

Presos nas impressões das aparências, os brasileiros perdem a noção da realidade apegados a valores do status quo ou de convicções pessoais. E que permite que as pessoas apoiassem a saída de uma chefe política que buscava resolver a crise do país e que seja substituída por um cenário político ainda mais tenebroso.

PERIGO À VISTA

Diante do conforto do sofá, pessoas que não são acostumadas a se mobilizar por coisa alguma, que compram alimentos sem saber o preço mas juram que não tem dinheiro para gastar nisso ou naquilo (e ainda torram dinheiro com cigarros ou tatuagens), passaram a "se mobilizar" pela saída de Dilma Rousseff praticamente sob as ordens impostas pela Rede Globo de Televisão.

Patéticos cidadãos vestidos de uniforme da Seleção Brasileira de Futebol - ignorando que a CBF tem tenebrosos casos de corrupção, de roubalheira explícita - iam para as ruas defender até a volta da ditadura e da tortura e uns se atreviam até a pedir pena de morte para os petistas, em manifestações que se destacaram mais pelo pitoresco do que por qualquer tipo de ativismo.

Sob a representação de "personagens" como Kim Kataguiri, o "revoltado" Marcello Reis, Fernando Holiday e o "Batman do Leblon", "mascotes" como o Pato da FIESP, e apoiado por famosos como Thiago Lacerda, Marcelo Serrado, Susana Vieira, Luciano Huck, Regina Duarte, Alexandre Frota e o roqueiro Lobão, os protestos anti-Dilma feitos "contra a corrupção" permitiu a ascensão de corruptos no poder.

A votação de 17 de abril na Câmara dos Deputados revelou dois desses corruptos, seu então presidente, Eduardo Cunha, e um dos votantes, o ex-militar Jair Bolsonaro. Bravateiros políticos, Cunha é conhecido por praticar corrupção desde quando presidia a Telerj e Bolsonaro era considerado encrenqueiro e desordeiro, tendo sido punido várias vezes quando servia o Exército.

Tanto Cunha quanto Bolsonaro são vistos erroneamente como "perigos menores" pela população que vive o conforto de seus sofás, diante da cômoda e preguiçosa sintonia da pouco confiável Rede Globo, num momento em que os jornalistas não só desta rede mas também do canal pago Globo News, deram para mentir.

É constrangedor ver, por exemplo, que a maneira confusa, desonesta e agressiva com que o vice de Dilma e convertido no seu opositor, Michel Temer, assumiu o poder junto de opositores da presidenta afastada e até mesmo de membros do PSDB, partido derrotado nas eleições presidenciais, é vista por analistas e jornalistas sérios do mundo inteiro como um golpe e a mídia brasileira, sobretudo a Globo e a Veja, desmentir isso e ainda acusar os estrangeiros de "desinformados".

O governo de Michel Temer demonstra uma coleção surpreendente de escândalos e arbitrariedades, que não permitiram sequer que o povo brasileiro sentisse qualquer otimismo, O projeto de governo com medidas retrógradas que desfazem conquistas sociais históricas e ameaçam a validade de importantes artigos de leis como a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) e até da Constituição de 1988, só garantiram 11% de aprovação do cambaleante governo.

A crise do governo Temer, cujo projeto político, segundo especialistas, resultou da parceria de Aécio Neves com Eduardo Cunha, também sinaliza para a "alternativa" de Jair Bolsonaro, que se anunciou pré-candidato à presidência da República para 2018. Bolsonaro é identificado com ideais fascistas, o que pode ser um perigo mortal até para a sociedade que comemorou o "Tchau, Querida" (termo pejorativo de anti-petistas baseado na despedida de Lula num telefonema ilegalmente divulgado).

Bolsonaro é considerado um ídolo por uma parcela de cariocas ultraconservadores, vários deles associados a atividades como cyberbullying. É um grave risco a vitória eleitoral de um fascista como ele, que levaria o Brasil a aprofundar os retrocessos que já estão nas mentes dos tecnocratas associados a Michel Temer.

As vitórias eleitorais de Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro revelam o grau de influência que o decadente Estado do Rio de Janeiro oferece ao país, um Estado que está longe da antiga modernidade que se achava inabalável no território fluminense.

O Rio de Janeiro já encara um neocoronelismo manifesto tanto pelo cenário político de Eduardo Paes e companhia, quanto por casos de pistolagem na Baixada Fluminense e com um machismo radical que faz o sucesso de subcelebridades como Solange Gomes e Renata Frisson (Mulher Melão) e permite que mais de 30 homens estuprem uma adolescente indefesa. E que teve na "cosmopolita" Ipanema um episódio de linchamento com morte digno de cidade atrasada do interior.

É esse Estado do Rio de Janeiro e sua respectiva capital, que já não fazem mais jus à modernidade a que estavam associados há 30 anos, que oferece para o Brasil verdadeiros monstros morais como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro. O primeiro ameaçou governar o país como o vice de Michel Temer e o segundo é favorito para a sucessão presidencial em 2018.

Os dois representam catástrofes políticas e sociais que os brasileiros deveriam se alertar. Eles não são os heróis que a Rede Globo oferece ao público em suas zonas de conforto, mas dois tiranos que podem destruir o país e pôr as conquistas históricas do povo brasileiro a perder. É bom que nos lembremos da triste experiência da ditadura militar que quase botou o Brasil na falência.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Decadente, mercado literário prioriza livros religiosos


Segundo um levantamento feito por várias editoras de livros, em 2015 houve um aumento de 20% da produção de livros religiosos, indo dos 16% registrados em 2014 para 19% no ano seguinte. A literatura para adultos, no mesmo período, teve queda de 22%, de 9% para 7%.

2015 foi o pior ano para o mercado literário brasileiro. Isso se deve não pela rotineira desvalorização do ato de ler um livro, mas por aspectos quantitativos. Sem priorizar a busca do conhecimento, o mercado de livros sucumbiu a temas supérfluos, levando ao exagero a sua função de também entreter as pessoas.

Tudo parecia ser feito para desviar os leitores da busca do conhecimento. Obras de ficção sobre estudantes vampiros, cachorros com nomes de roqueiros, aventuras em jogos de Minecraft, besteirol de astros do YouTube (os vlogueiros ou youtubers) predominaram nas vendas de livros, não bastasse o surreal filão dos "livros para colorir", geralmente com quase nenhum texto e voltados apenas ao "lazer anti-estresse" de colorir árvores, flores e outros desenhos.

Os "livros para colorir" chegaram a estar na lista de mais vendidos no setor de não-ficção (?!). Pelo menos três títulos chegaram a figurar entre os 20 mais vendidos. Para piorar, as obras realmente de não-ficção que dominam no mercado envolvem temáticas relacionadas à Segunda Guerra Mundial.

A que interessa o público brasileiro "conhecer" a Segunda Guerra Mundial? Livros como O Pequeno Príncipe, cujo autor, Antoine de Saint-Exùpery, foi um aviador morto durante o confronto, O Diário de Anne Frank e livros históricos diversos sobre o período são superestimados como se só eles podem figurar entre os livros que oferecem conhecimento que podem ter algum sucesso nas vendas.

Um internauta reclamou que, num portal de escritores independentes, também se priorizam os livros religiosos e de temáticas supérfluas. Tentando lançar alguns livros, o internauta teve apenas um fraco êxito, enquanto bobagens como Lili e Peteco na Disney chegavam à lista dos mais vendidos.

Ele não é o único. Muitos criticam a discriminação de temas diversos. Se um livro denuncia os problemas da cultura brasileira, ele não vende. As pessoas até dizem "sentir simpatia", mas alegam "não ter dinheiro" para comprá-lo. Mas quando é um livro de "lindos exemplos de amor" ligado a algum embuste religioso, este vende como água e até quem "não tem dinheiro" passa a comprar até cinco exemplares para serem distribuídos para a família e os amigos.

O mercado literário já antecipava a crise de valores em que se atola o Brasil, que nos últimos meses permitiu que uma elite de políticos corruptos, aliados a executivos de Comunicação e setores corrompidos do Poder Judiciário tomassem o poder, usando a crise econômica como pretexto para impor medidas nocivas para as classes trabalhadoras ou mesmo a classe média.

É um Brasil contraditório em que a crise de valores é renegada por uma sociedade que, perplexa diante as ameaças às suas "zonas de conforto", cria um bode expiatório para os problemas que atingem seu sossego nos sofás e cadeiras: o Partido dos Trabalhadores, sobretudo Dilma Rousseff e Lula.

Daí que culpam o PT pelas notícias ruins noticiadas pela imprensa, mesmo aquelas sem relação política alguma. Recusam-se a ver a complexidade dos problemas existentes, que poderiam ser explicadas pelos livros que "não têm dinheiro" para comprar.

Por outro lado, quando é o consolo "água com açúcar" das fantasias da fé religiosa, uma sociedade que "não têm dinheiro" para coisas importantes mas torra muita grana em cigarros e tatuagens, não vê a hora de despejar suas centenas de reais para obter os livros religiosos de todo tipo, para o entretenimento vazio das "mensagens de amor".

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Niterói, a cidade do interior que nenhuma cidade do interior quer ser

DESFILE DA MARCA FRANCESA LOUIS VUITTON NO MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA.

No último dia 28 de maio, um desfile internacional reunindo celebridades estrangeiras realizou-se no Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Pode parecer um fato normal, não fosse um detalhe: por poucas horas, Niterói teve um destaque no Brasil e no mundo.

Foi apenas uma pálida lembrança de uma cidade que chegou a ser capital do Estado do Rio de Janeiro. O próprio Estado vive um estado (olha o trocadilho) de decadência avassaladora, e, se a cidade vizinha, o Rio de Janeiro, sofre uma decadência que não dá mais para esconder - recentemente, a cidade protagonizou um caso de estupro coletivo - , Niterói leva essa decadência até as últimas consequências.

É como se a antiga capital fluminense aceitasse tardiamente a condição subserviente imposta pela fusão dos antigos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara (este constituído apenas do município do Rio, depois que deixou de ser o Distrito Federal), decisão feita pela ditadura militar.

Mesmo diante dessa ação arbitrária, que "esvaziou" Niterói com praticamente toda a migração de negócios e instituições diversas para a cidade vizinha mais famosa, havia iniciativas de destaque como a até hoje insuperável experiência da rádio de rock Fluminense FM e a construção do imponente Museu de Arte Contemporânea, criação do renomado arquiteto Oscar Niemeyer.

Mas até essas duas façanhas decaíram. No espaço de sintonia da antiga Fluminense, opera uma rádio de notícias. Além disso, existe a complacência de adeptos da antiga Fluminense, ligados a iniciativas como o memorial Maldita 3.0 e rádios como a (hoje inativa) Kiss Rio FM e a digital Cult FM, com a canastrice eletrônica da Rádio Cidade, FM que se comprovou sem vocação, nem competência e muito menos tradição na cultura rock, além de ser feita por gente que não entende do ramo.

No caso do MAC, o aspecto decadente se refere não ao museu em si, mas ao seu derivado, o Módulo de Ação Comunitária, o Maquinho, museu voltado ao público infanto-juvenil, que teria sido dominado por traficantes do Morro do Palácio, no Ingá.

Niterói sucumbiu a uma decadência que, em certos aspectos, é até pior do que o do município vizinho. É certo que a decadência observada na cidade do Rio de Janeiro atinge níveis catastróficos que fazem a cidade sucumbir a um inimaginável atraso que a coloca abaixo até do que capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste viveram durante a ditadura militar. Mas Niterói está pior no contexto de sua acomodação que faz muitos dos críticos dizerem que a cidade "parou no tempo".

ACESSO CARO E DEMORADO

Reduzida a ser uma cidade-dormitório, Niterói está suja e miserável, com um grande número de mendigos e marginais nas ruas, bairros violentos (Fonseca, Viradouro, Caramujo e São Francisco são alguns dos exemplos), comércio decadente com lojas se fechando e um sistema deficitário de abastecimento em que produtos se esgotam no mercado rapidamente e demoram para serem reabastecidos.

Niterói não faz jus à antiga posição de um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano do país. O título teria sido obtido por dados maquiados, já que, a partir da década de 1990, a cidade decaiu muito.

Só o bairro do Viradouro, por exemplo, era um bairro de classe média quase aos níveis de Icaraí, mas hoje é uma "terra sem lei" onde traficantes circulam pela rua em plena luz do dia e controlam até mesmo o Conjunto Residencial Sílvio de Noronha, o Conjunto da Marinha do bairro. De vez em quando, o bairro sofre ocorrência de tiroteios em manhãs ou tardes de grande movimento.

A cidade de Niterói se comporta como uma cidade interiorana e perigosa, como nenhuma cidade do interior do país gostaria de ser. Sua urbanização caótica faz com que haja concentrações de favelas além da conta nas regiões de Pendotiba e Caramujo, criando uma estrutura desigual e desumana.

O comércio sofre com poucas opções de lojas e serviços. Até no âmbito da saúde faltam clínicas e consultórios realmente especializados em determinadas áreas. Lojas fecham constantemente, criando "corredores da falência" em vários cantos da cidade. O dado insólito é que, mesmo com esse quadro dramático, há o dado surreal do prefeito Rodrigo Neves ser premiado pelo SEBRAE por um projeto de empreendedorismo que nunca foi posto em prática.

Mas mesmo o comércio que existe e tem continuidade peca pelo desabastecimento, já que estoques de vários produtos desaparecem rapidamente mas levam uma média de duas ou três semanas para serem reabastecidos. Niterói se mostra um dos piores setores de logística existentes no país, e olha que a cidade fica no centro dos grandes distribuidores e fabricantes de produtos. Isso sem falar da lentidão dos operadores de caixas de supermercados, que mais parecem namorar o computador.

Eventos culturais também são raros numa Niterói que chegou a ser cosmopolita. A cidade que tinha uma cena de rock e MPB fortes, que deu ao Brasil de Leopoldo Fróes a Leila Diniz, vive a supremacia de ritmos popularescos (como "sertanejo" e "funk") e carece de verbas públicas para viabilizar uma rotina constante de atrações culturais de qualidade.

Na mobilidade urbana, destaca-se a péssima distribuição de linhas de ônibus, pois não há uma linha direta ligando, por exemplo, Charitas ao bairro de Alcântara, em São Gonçalo, e na cidade que constrói a ligação Charitas-Cafubá não há uma ligação direta entre os bairros vizinhos de Rio do Ouro e Várzea das Moças, cujo acesso precisa ser feito pela Rodovia RJ-106, complicando o trânsito no local.

Há também os problemas de deslocamento para o Rio de Janeiro, já que para ir à cidade vizinha o deslocamento é caro e, no caso da Ponte Rio-Niterói, bastante demorado, o que faz com que o niteroiense seja um "estrangeiro" para os cariocas, em que pese o vício da mídia fora do Rio de Janeiro confundir Niterói como se fosse um distrito da (outrora) Cidade Maravilhosa.

Além disso, há também a macaqueação da tenebrosa iniciativa da pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro, repetida em Niterói e em São Gonçalo, escondendo empresas de ônibus da população, coisa que não é resolvida pela exibição de pequenos logotipos que se perdem num olhar à distância ou se confundem quando colocados em janelas junto a outros logotipos (símbolo de cadeirante, de vistoria ecológica, preço da tarifa etc).

O pior é que as autoridades de Niterói falavam, com seu natural cinismo demagógico - não muito diferente do da famosa cidade vizinha e de pessoas do nível de um Eduardo Cunha - , que a pintura padronizada "tirava o vínculo visual" das empresas de ônibus, mas impunha um vínculo com a Prefeitura, num claro apelo de propaganda política, que praticamente "partidariza" o sistema de ônibus, com evidente prejuízo para os passageiros que usam ônibus para ir e vir de suas casas.

Nas linhas intermunicipais e interestaduais, Niterói peca pelo horário limitado e muito raro de várias linhas de ônibus para outras cidades, como Itaguaí e Três Rios, e pelo equívoco de um dos ramais da linha Rio X Salvador, que passa pelo município, não estabelecer parada na Rodoviária de Niterói, que há muito tempo perdeu o glamour que o Centro Norte, como um todo, que era similar ao da Praça Mauá carioca e hoje reduziu-se a um decadente reduto de ébrios, mendigos e marginais.

OUTROS PROBLEMAS

Não há uma lei de combate à poluição sonora e Niterói leva ao extremo o fanatismo pelo futebol, uma doença grave que atinge o Grande Rio e que chega a condicionar as relações sociais pela obrigatoriedade de gostar por futebol e, de preferência, torcer por um dos quatro times cariocas (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), seguindo a regra da região metropolitana em que há gente que pergunta antes o time de alguém antes de saber o seu nome.

Durante as partidas esportivas, podendo ser até véspera de dia útil, no fim de noite, com pessoas indo dormir para acordarem para mais um dia de trabalho e várias morando longe e tendo que acordar ainda de madrugada, torcedores gritam feito feras ensandecidas a cada gol de seu time de preferência.

Pior é que esses torcedores, muitas vezes, parecem ficar em silêncio sepulcral, em boa parte do andamento do jogo, até que um gol faz com que uma gritaria em níveis altíssimos de decibéis, que fazem um quarteirão de bairro parecer uma arquibancada de estádio, desaba acordando os que já começavam a dormir, perdendo o sono com tanta barulheira.

Niterói parece muitas vezes rural e sem higiene, que até os caminhões de lixo espalham fedor por onde passam, diante de bovinos cidadãos que, seguindo a "Síndrome de Riley Day" (alusão à doença na qual sua vítima é incapaz de sentir qualquer tipo de dor) dos cariocas em geral, já nem sentem o mau cheiro que já existe em ruas fétidas de esgoto, de lixo espalhado e fezes de cães nas calçadas.

Há também o caso do grande número de fumantes em Niterói, um reflexo que acontece também em outras regiões do Grande Rio. O pior é que as pessoas que fumam têm o descaramento de andarem cerca de três, quatro ou cinco quarteirões sem fumar, só com o cigarro aceso na mão, cuja fumaça incomoda justamente os não-fumantes.

Isso é uma grande falta de respeito com quem não fuma. Se a pessoa é capaz de andar quatro ou cinco quarteirões sem fumar, por que então ela não para de fumar de vez, ao invés de ficar segurando um cigarro aceso para poluir a atmosfera? Ignoram os fumantes que um simples cigarro contém substâncias análogas ao de venenos de rato e fumaças que escapam dos canos dos automóveis.

A acomodação do Grande Rio é geral. O município do Rio de Janeiro já aflige o país com sua trágica e avassaladora decadência, simbolizada recentemente pelo estupro coletivo e, um pouco antes, pela queda de uma ciclovia mal-construída.

Mas Niterói causa espanto pelo fato de sua decadência não só ser semelhante ao da cidade vizinha como apresenta outros aspectos, que fazem com que Niterói decaia para um provincianismo pior do que seria admissível num Estado como o Acre. Mesmo tardiamente, é assustador que Niterói tenha passado a aceitar a condição humilhantemente servil que a ditadura militar lhe reservou quando realizou a confusa fusão dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Assaltos ocorreram em frente a um "centro espírita" em Niterói

RUA DESEMBARGADOR LIMA CASTRO, LOCAL DE ASSALTOS EM NITERÓI.

"Pelo terceiro dia consecutivo, a Rua Desembargador Lima Castro, no Fonseca, foi palco da ação de criminosos que agem sempre no início da manhã, quando as pessoas estão saindo de casa para trabalhar e as crianças estão sendo levadas para as escolas. Ontem mais um motorista foi assaltado, por volta das 7 horas, próximo ao posto do Detran, onde há um sinal com radar. Ele foi rendido por dois criminosos armados que estavam em uma motocicleta e teve seus pertences e seu veículo levados.".

Intitulada "'Tá muito fácil para a bandidagem'", a reportagem do jornal O Fluminense de Niterói do último dia 02 de junho mostra que áreas "protegidas" pelas "elevadas energias" do "espiritismo" são as mais vulneráveis à violência e outros males.

É certo que a reportagem nada cita em relação a isso e nem de longe cita a relação entre energias vibratórias e locais de assaltos, mas é só observar a foto que se observa o detalhe oculto: é nessa área em que se situa o Intituto Dr. March, "centro espírita" do local,

ÁREA É LOCAL DO "CENTRO ESPÍRITA" INSTITUTO DR. MARCH.

A ocorrência de assaltos no local foi em três dias consecutivos. Diante dele se segue um trecho ermo, entre o restante da Rua Desembargador Lima Castro até o cruzamento entre a Rua Noronha Torrezão e a Estrada Viçoso Jardim, altamente perigoso.

Os incidentes preocupam porque acontecem em momento de maior movimento, o que faz também com que aumente o risco quando o movimento é menor. Nem um sinal com radar intimida os bandidos, que agem como se a impunidade estivesse sempre garantida a eles.

Quanto à "coincidência" de que "centros espíritas" se situam em locais perigosos e seus partidários definem como "normais" essas circunstâncias, já que se definem como "instituições filantrópicas" instaladas em locais onde já ocorriam, em tese, tais crimes, o grande problema é que tal argumentação, embora verossímil, não faz muito sentido.

Afinal, o "espiritismo" é uma religião confusa. É um sub-catolicismo muito mal disfarçado por bajulações a Allan Kardec e falsas apreciações a temas científicos. Além disso, a religião em geral não só é impotente em frear a violência como acaba permitindo que ela cresça.

Seria coincidência demais que lugares mais religiosos são justamente os que mais acontecem atos de violência. A mistificação e o moralismo que as religiões pregam, com ideias surreais e valores conservadores, além de uma "caridade" paliativa que quase nunca resolve em definitivo, permitem com que o desequilíbrio emocional e a apologia ao sofrimento humano criem condições para que certas pessoas pratiquem atos de violência.

O "espiritismo" e as religiões neo-pentecostais - que dominam o cenário político brasileiro através da "Bancada da Bíblia" - acabam, pelo seu conteúdo ideológico retrógrado, inspirando em pessoas menos evoluídas a inclinação para o crime, já que seu projeto "filantrópico" em nada contribui para resolver a situação de miséria nem de ignorância, até porque são religiões voltadas para o obscurantismo e não para o esclarecimento verdadeiro.

sábado, 4 de junho de 2016

O preconceito dos empregadores


Empregadores, em nome da aparência, acabam caindo no prejuízo. Afinal, não há crise econômica que não faça um empregador poder ajudar e contratar aquela pessoa aparentemente esquisita e tímida mas que tem vocação ou talento para determinada função.

Boa parte dos índices de desemprego poderia ser resolvida abrindo mão da aparência. Não se quer dizer que se vá admitir um mendigo para emprego e aceitar que ele trabalhe com suas vestes sujas e fedorentas. Mas o que acontece no mercado de trabalho é algo que reflete muito mais o radicalismo preconceituoso e a ganância dos empregadores do que a falta de dinheiro.

Existe dinheiro circulando no Brasil. O problema é que as elites é que estão confiscando, escondendo fortunas para dizer que existe crise econômica, inventar que Dilma Rousseff deixou um rombo de R$ 170,5 bilhões para assustar os brasileiros.

Vale lembrar que esse rombo é, muito provavelmente, o dinheiro que, na verdade, foi o PMDB de Michel Temer, Jader Barbalho, Eduardo Paes, Geddel Vieira Lima e companhia, junto ao PSDB que leva uma "bolada" para os "paraísos fiscais" no exterior, que pegou dos brasileiros. Dinheiro que foi roubado usando como pano de fundo a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas.

O que existe é a concentração de renda. As elites, que "nossos misericordiosos espíritas" pedem para que não questionemos e só oremos em favor delas para Deus lhes dar uma "luz de caridade" nas almas gananciosas, é que estão nadando em dinheiro, junto com subcelebridades, dirigentes esportivos, empreiteiros e especuladores financeiros.

Não há, exatamente, uma crise estritamente econômica. A crise econômica é apenas um reflexo da ganância de uns poucos, da intolerância destes com os avanços sociais ocorridos, da cobrança exagerada de impostos ou aluguéis, da obsessão doentia pelo mercado. Mas é um reflexo de uma crise maior, de valores, de paradigmas em decadência que resistem a todo e qualquer preço.

A mania de aparências, por exemplo, que faz com que um farsante como Francisco Cândido Xavier seja endeusado só por personificar paradigmas religiosos, e criminalizar o ex-presidente Lula por estigmas que incomodam a tranquilidade elitista, faz também com que o mercado de trabalho rejeite justamente aqueles que poderiam fazer as empresas crescerem.

Por outro lado, aquele homem folgazão que conta piadas numa empresa, ou aquele bonitão que foi contratado só porque fala inglês, podem desenvolver esquemas de corrupção quando sua limitada competência não consegue mais gerar aumento de renda ou ascensão social de forma limpa e íntegra.

Em nome da boa imagem da empresa, se cai na cilada de contratar gente incompetente que, apenas na entrevista de emprego, demonstra desenvoltura, segurança, equilíbrio emocional e senso de humor, quando, na rotina do trabalho, demonstra defeitos graves e uma insegurança profissional perigosa.

Isso mostra o jogo das aparências que esconde verdadeiras armadilhas. As empresas deixam de contratar bons profissionais porque eles gaguejam ou tremem durante as entrevistas ou têm mais de 40 anos de idade, "velhos demais" para o aparato profissional das companhias.

Distorções como estas, no mercado de trabalho, poderiam ser resolvidas com um mínimo de jogo de cintura do empregador, com o fim do preconceito contra pessoas "mais velhas", "menos bonitas" e "menos extrovertidas", e, em vez de cobrar algum comportamento nas entrevistas de emprego, poderia empregá-lo e ensinar um trabalho. A experiência surge não pela coleção de anos, mas a partir do momento em que se dá oportunidade a alguém demonstrar um talento latente.
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