segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Brasil ficou refém de medidas e posturas surreais


Infelizmente, uma geração de pessoas atrasadas tomou o poder e impõe projetos e perspectivas que elas acreditam serem eternas, duradouras e inabaláveis, mesmo que elas não sejam benéficas para a população e apontem irregularidades e mostrem absurdos diversos.

Essas pessoas tomaram conta das instituições, controlam até os meios acadêmicos, lideram a política e ditam os valores e procedimentos que devem ser aceitos para a população, a pretexto de que aceitando tudo isso se obtém sucesso econômico e até garantia de entretenimento pleno e permanente.

Em nome de uma Disneylândia brasileira de praças olímpicas, BRTs pomposos e vinda cada vez mais constante de atrações estrangeiras, o povo brasileiro se transformou num bando de patetas. O autoritarismo político, a pompa economicista e a glamourização tecnocrática tornam-se processos que fazem a sociedade brasileira se tornar refém de valores decadentes que são impostos em todo o território nacional, mesmo quando revelam um grande fracasso.

Para piorar, se eles se demonstram problemáticos e danosos, causando efeitos trágicos e tudo, seus tecnocratas, na promessa de "resolverem" os problemas, "admitindo" a existência deles, buscam soluções mirabolantes que tentam resolver tudo, menos o problema. É como se tentasse curar um câncer com remédio contra tosse.

Muitas dessas medidas, que envolvem do jornalismo à mobilidade urbana e passam até pela cultura rock e outros âmbitos, são constrangedoras, mas prevalecem pelo seu verniz de "novidade" e "modernidade", e pela não-assumida complacência com defeitos, imperfeições e erros.

Geralmente esses projetos e ideias escondem falhas que são inerentes a eles, porque eles se baseiam na mediocrização da competência, da ética ou mesmo da utilidade pública. Em outras palavras, tratam-se de expressões sutis de incompetência e de violação da ética e do interesse público em geral.

Na mobilidade urbana, isso é ilustrativo. Afinal, que mobilidade é essa que desmobiliza, que complica, que discrimina, que restringe? Um sistema de ônibus que adota a pintura padronizada que dificulta os passageiros de diferir uma empresa de ônibus de outra, coisa que não se resolve exibindo logotipos pequenininhos de empresas ou nomes em letreiros digitais. Isso é mobilidade urbana?

Ou então a dupla função do motorista-cobrador que elimina empregos e compromete o conforto e a segurança dos passageiros, sendo um dos fatores que influenciam os diversos acidentes que mataram e feriram muitas pessoas nas ruas das cidades?

E que mobilidade é essa em que percursos longos de linhas, que eram mais rápidos, eficientes e eram únicos no atendimento a certos bairros e logradouros, foram substituídos por "linhas alimentadoras" que, não obstante, escondem processos de dificultar as populações pobres a irem para bairros da Zona Sul ou mesmo para bairros de classe média na Zona Norte?

No âmbito cultural, o que se nota é toda a campanha para forçar a popularização ou mesmo a falsa respeitabilidade do "funk carioca", um ritmo que pela sua própria essência trabalha uma visão caricatural da pobreza e nunca passou de um fast food sonoro, sem valor artístico algum.

O "funk" defende valores morais retrógrados, embora tente dar uma impressão contrária a isso. Tratado como "cultura autêntica", mal consegue esconder seu caráter meramente mercadológico e consumista, através de propaganda enganosa que esconde até mesmo todo o esquema cruel de exploração de "artistas" pelos "humildes" empresários do gênero. Mesmo os MC's tidos como "engajados" estão apenas a serviço do mercado e do marketing.

E se o rock é considerado o "santo remédio" para as baixarias do "funk", o problema maior está nos seus canais de divulgação. Sua divulgação está entregue emissoras de rádio como a 89 FM, em São Paulo, e a Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, feitas por profissionais, sobretudo locutores, sem qualquer competência para o rock.

Caso mais grave é o da Rádio Cidade, sem tradição para o gênero e cuja origem está consagrada em contextos opostos ao do público roqueiro. Tratando o público jovem de maneira caricata, trabalhando o perfil de roqueiro de novela de TV, a emissora não tolera concorrentes no segmento transmitidas em FM e sua existência só se justifica pelo fato de seus donos serem amigos e parceiros dos grandes empresários do entretenimento.

A conduta da Rádio Cidade chega níveis patéticos na cobertura do rock, com repertório repetitivo e superficial que nem atende às necessidades do segmento, mesmo as mais básicas. Sua linguagem e mentalidade destoam do perfil roqueiro e sua incompetência chega a fazê-la depender de programa de TV da Globo para lançar novas bandas de rock, que só repetem os piores modismos dos anos 90.

Culturalmente, isso traz uma diferença negativa, na medida em que emissoras de rádio ditas "roqueiras", sem ter pessoal realmente especializado no gênero, só servem para promover o consumismo do gênero, criando públicos sem uma visão crítica do mundo e que se apegam apenas aos estereótipos do rock feitos para estimular gastos com produtos e serviços diretamente associados ao gênero, mesmo que com preços caros.

No jornalismo, também a incompetência chega aos níveis surreais. A cobertura de reportagens e os artigos analíticos deram lugar ao panfletarismo mais rabugento, em que comentaristas políticos expressam seu profundo ódio contra os movimentos sociais e seus representantes.

Um claro exemplo está na revista Veja, em São Paulo, marcada pela presença de comentaristas extremamente reacionários como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, o roqueiro Lobão e, em outros tempos, Diogo Mainardi, hoje no Manhattan Connection da Globo News.

Outros jornalistas reacionários são Eliane Cantanhede, da Globo News, Marco Antônio Villa e Rachel Sheherazade, da Jovem Pan. Mas, no Rio de Janeiro, a Rede Globo oferece exemplos típicos como Carlos Alberto Sardenberg e Merval Pereira, embora se diga que o Jornal Nacional tenha a missão de misturar pregações reacionárias com interpretações fantasiosas da realidade noticiada.

O jornalismo é outro problema que também segue seu aspecto surreal, porque a informação deixa de ter espaço em nome da visão fantasiosa do mundo, geralmente em favor dos mais ricos e traindo a coerência quando a opinião passa a expressar preconceitos sociais e paranoias moralistas.

Esses são vários exemplos de como o Brasil anda surreal, quando pessoas que se envolvem com decisões e com processos de formação de opinião e cultura adotam posições absurdas e incoerentes, em muitos casos contrárias ao interesse público e piorando as coisas na medida que suas atitudes e posicionamentos têm a pretensão de serem eternos e permanentes, mesmo que sejam retrógrados e prejudiciais de qualquer forma.

domingo, 30 de agosto de 2015

O único Espiritismo, sem canastrices

ESPETÁCULO DAS MESAS GIRANTES, NO SÉCULO XIX, FOI OBJETO DE ESTUDO DE ALLAN KARDEC.

"O Espiritismo é a ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal". É o que escreveu Allan Kardec em O Que é o Espiritismo, uma das obras subestimadas do pedagogo francês mas que traz muitas orientações precisas sobre a Doutrina Espírita.

Existem vários tipos de Espiritismo? Infelizmente, as interpretações um tanto distorcidas em torno da Doutrina Espírita geram várias facções contraditórias, quase sempre descumprindo o pensamento original de Kardec e distorcendo seu legado e suas lições.

Há desde um igrejismo cafajeste que se observa em Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, até o Espiritismo aparentemente "puro" mas de viés direitista através do gaúcho Francisco Amado, mais próximo da revista Veja do que da Revista Espírita.

As distorções chegam a reduzir Allan Kardec ora a um igrejista filantrópico, ora a um pegagogo esotérico, ou então a um cientista eclesiástico ou, então, a um neo-calvinista espiritualista. Nenhum desses aspectos corresponde à natureza científica de seu pensamento nem em sua disposição de oferecer temas para debate.

O Espiritismo autêntico só existe um, é evidente, e é o que foi sistematizado por Allan Kardec, que procurou dar ao tema o máximo de coerência possível e dar a ele o máximo de contemporaneidade, precisão, objetividade e coerência lógica, mesmo sabendo que o assunto era novo e bastante complexo, que não poderia de modo algum ser fechado.

Lamentavelmente, quase todos exaltam esse "espiritismo único", enquanto outros tentam criar interpretações "próprias" da Doutrina Espírita. Quanto a estes, é óbvio que eles levam a deturpação às últimas consequências a ponto de desviarem o pensamento kardeciano a interpretações cada vez mais diversas e estranhas à doutrina original.

Mas mesmo aqueles que evocam o "espiritismo único" não estão imunes a mistificações e desvios. É como na atual onda do "movimento espírita" alegar suposta fidelidade a Kardec, mesmo traindo o tempo todo o seu legado e a sua trajetória, como ocorre nos últimos 40 anos.

Muitas canastrices e muitos charlatanismos são feitos, protegidos pela suposta fidelidade a Kardec. Atividades supostamente mediúnicas são feitas sem que qualquer dom mediúnico fosse sequer feito, daí o recurso das mensagens religiosas como artifício para acobertar a fraude pseudo-mediúnica.

Aliás, o "movimento espírita" hoje, pelo menos o oficial, que se apoia nos mitos de Chico Xavier e Divaldo Franco, mas jura de pés juntos "total fidelidade" a Allan Kardec, usa do bom-mocismo para acobertar ações fraudulentas, abordagens irregulares e muita, muita mistificação e pregações moralistas retrógradas.

Esse movimento tenta, com sua habitual bajulação a Kardec, dizer que o Espiritismo trazido por ele é o único, mas criam um "espiritismo" totalmente diferente a ele. Ou seja, o "espiritismo" que tem em Chico e Divaldo seus "mestres" já é "outro", pois nada tem a ver com o do professor lionês.

Daí o grande problema. O Espiritismo original e único, de Allan Kardec, não tem as canastrices e charlatanismos que se observa em Chico e Divaldo, que já é um desvio e não pode estar associado à Doutrina dos Espíritos. Portanto, o "movimento espírita" não tem a moral de defender a tese de que o Espiritismo é único e ligado a Allan Kardec se já se envolvem com uma doutrina diferente da dele.

sábado, 29 de agosto de 2015

Por que os trabalhos questionadores são desencorajados no Brasil?


Tinha que ser Chico Xavier considerado a personalidade "mais importante" do país. Seu ideal de castração da alma, de calar-se ante a dor, ao sofrimento, sem queixumes, sem questionamentos e sem sequer gemidos, acaba se encaixando na perspectiva conservadora dominante no Brasil.

Como se as feridas trazidas pela ditadura militar tivessem sido insuficientes para despertar o país, até mesmo os paradigmas de rebeldia e ativismo que predominam em nosso país nada têm de rebeldes e ativistas. E quem tem mais de dois neurônios acaba sendo discriminado de uma forma ou de outra.

Pensar e questionar viraram pecados no Brasil. Não podemos sequer contestar a mediocridade reinante, porque chega outra pessoa e diz para não criticar, porque o medíocre "está melhorando". É evidente que isso não passa de lorota, o medíocre continua medíocre, ele só está recorrendo a artifícios para justificar seu sucesso, visibilidade e prestígio por nada.

Não há encorajamento em trabalhos questionadores, e dois exemplos se observam nisso, como nos cursos de pós-graduação das universidades e na produção cinematográfica, em que a censura do poder econômico se torna mais perigosa e cruel do que sugere a aparente falta de censura existente em suas atividades.

Se hoje um roqueiro não pode ser rebelde, porque sua rebeldia genuína - que não se limita a gestos, poses nem palavras - é considerada "escandalosa" e "incômoda", imagine fora desses meios de suposta rebeldia. Contestar, em pleno século XXI com um Brasil prometendo ser potência mundial e "coração do mundo", tornou-se um pecado e um ato antissocial.

Nos cursos de pós-graduação, observa-se que há uma barreira para pessoas que realmente têm um projeto questionador para pesquisa. Alguns aspectos diversos envolvem esta restrição. No Brasil, pessoas do nível de Noam Chomsky, Umberto Eco e Eric Hobsbawm simplesmente não chegariam sequer às portas dos cursos de mestrado.

Esses aspectos variam entre as vaidades pessoais dos professores orientadores e um certo temor de que as verbas de pesquisa seriam comprometidas. A realidade brasileira, diferente do que ocorre na Europa, não permite que as verbas públicas sejam destinadas a trabalhos de risco, mesmo que seja para derrubar mitos e desqualificar totens.

A maioria dos projetos aprovados de mestrado e graduação são inofensivos ou correspondem a apologias ao "estabelecido", neste caso usando o pretexto de "provocadores". O debate "desce" ao público, "desce até o chão", como se fosse "debate" aceitar a degradação sócio-cultural e "problemática" o apoio acadêmico que se deve dar a ela.

Existem filtros ideológicos até mesmo na grande imprensa, aqui bem mais grotescos do que nos EUA. Lá existe imprensa reacionária, mas ela é bem mais profissional do que a que se vê na revista Veja, na rádio Jovem Pan e até na Rede Globo e O Estado de São Paulo, em que o reacionarismo de comentaristas da notícia chega a ser amadoresco e panfletário.

O "funk carioca", um dos símbolos da degradação sócio-cultural, durante muitos anos sofreu uma blindagem extrema de intelectuais, famosos e acadêmicos. Muito se fez para defender o gênero como "grande coisa", quando ele na verdade esconde um processo que inclui retrocessos morais, degradação cultural das classes pobres e transformação destas em caricaturas para favorecer o consumismo.

O ritmo foi defendido sob o pretexto do "combate ao preconceito", enquanto por trás desse discurso formas preconceituosas de exploração da imagem do povo pobre eram feitas, ocultando valores de apologia ao machismo, à violência, à ignorância, à violência e ao consumismo eram feitas sob a desculpa da "provocatividade".

Outro aspecto negativo era a deterioração da atividade artística e das relações de trabalho dissimuladas pela indústria do "funk". MCs (os "vocalistas" do gênero) não podiam tocar instrumentos nem fazer melodias. Além disso, há casos de MCs que não compõem repertório próprio, recebendo material já feito por seus produtores e o MC leva sozinho o crédito da autoria para receber, em direitos autorais, o que deixa de receber de encargos e outras garantias de remuneração.

Contestar tudo isso em reportagens investigativas e trabalhos acadêmicos não é permitido, e se informações desse tipo existem na Internet, é por conta dos blogues e fóruns das mídias sociais que constantemente publicam questionamentos aprofundados diversos.

Os questionamentos arriscam a estabilidade de valores e práticas estabelecidos. Põem em xeque privilégios de detentores do poder diversos, do econômico ao acadêmico. Impedem a manutenção sutil de desigualdades através de uma paz forçada e uma prosperidade falsa que, fundamentadas na mediocrização, obrigam os prejudicados a aceitarem e viverem "felizes" com seus prejuízos. Os retrocessos são assim "socializados" e consolidados pelo "sistema".

PROIBIDO FAZER FILME QUESTIONANDO "ESPIRITISMO"

No cinema, a castração chega a ser pior do que a observada na milionária e nem sempre liberal indústria cinematográfica dos EUA. Com toda a obsessão por lucro e com o apetite capaz de ceifar excelentes seriados de TV só pela baixa audiência, o capitalismo cinematográfico das grandes companhias (Columbia, Warner, Universal, MGM etc), há uma relativa liberdade de temas.

É a partir desses filmes que foram denunciadas as fraudes dos reality shows que nada têm de reais. Ou dos sofrimentos de jovens esquisitos denominados nerds. Ou então os bastidores da corrupção política e do sensacionalismo jornalístico. Mesmo dentro dos limites, há uma certa liberdade para questionar o "estabelecido", mesmo num contexto de busca voraz por lucro.

No Brasil, em que tudo parece ser, em tese, "mais liberal" que os EUA e que, até pouco tempo atrás, era tabu dizer que o cinema brasileiro ficou comercial. Mesmo as comédias tolas da Conspiração Filmes usavam o legado do Cinema Novo como desculpa. Como se hoje se fizesse um Glauber Rocha com comédias insossas e inócuas.

Não se pode fazer documentários questionando o "funk". O lobby de cineastas respaldados por acadêmicos, intelectuais e famosos acharia "elitista". Da mesma forma, até a deturpação da Doutrina Espírita feita no Brasil também é proibida de questionamento.

O que pode é tomar como legítimo um documentário sobre cartas de Chico Xavier em que a mãe de um falecido, em pose triunfante, exibe uma carta que só aparece a letra e o estilo da mensagem do anti-médium, que "assina" em nome do finado rapaz, que não deixou vestígios pessoais na suposta mensagem.

Mas se criar um documentário questionando tudo isso, pondo em xeque as reputações de Chico Xavier e Divaldo Franco, mesmo quando se toma cálculos consistentes e objetivos que mostram que a Mansão do Caminho, em toda sua trajetória, só ajudou menos que 0,1% da população de Salvador, o trabalho já é barrado antes mesmo da pré-produção.

Questionar de forma objetiva é "anti-objetivo". Confunde-se opinar com difundir teses, de uma forma ou de outra. Dogmas e fantasias vindas não raro do subjetivismo opinativo são vistos como "verdades indiscutíveis". Já questionamentos aprofundados e embasados, com todo o cuidado pela coerência argumentativa, são tidos como "opinativos demais" e "de baixa validade lógica".

No caso do "espiritismo", que tanto defende o questionamento lógico na teoria, desde que ele não seja exercido na prática, isso é sintomático. E por isso mesmo a ideologia da castração de Francisco Cândido Xavier e seu aberrante conservadorismo são vistos como "progressistas" e "ativistas", porque, na verdade, são o contrário dessas duas qualidades.

Mas, infelizmente, a lógica é discriminada no Brasil. Não só por pessoas comuns, mas sobretudo por aqueles que mexem com a atividade do raciocínio questionador, que vetam justamente esse processo, apesar dele ser a sua essência. Pensar virou um processo considerado aberrante, mesmo por aqueles que dizem defender essa prática.

E no "espiritismo", o que se observa é a credulidade entrando no lugar da lógica. Ninguém conhece, ninguém pergunta, ninguém debate, ninguém questiona. Só acredita, crê e aceita sem questionar. E depois os "espíritas" se dizem adeptos rigorosos e da mais absoluta fidelidade ao método científico de Allan Kardec. Assim fica fácil dizer uma coisa e fazer outra.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A imagem anti-rebelde do roqueiro carneirinho


Contrariando a imagem histórica do rebelde associada ao fã ou artista de rock, ser roqueiro no Brasil virou sinônimo de "ser mais um no rebanho", rebaixado a um mero consumidor de sons pesados e um mero papagaio a exibir gestos e emitir palavras estereotipados.

Aliás, papagaio, não. Carneirinho, melhor dizer. Ovelhinha branca, a seguir o rebanho e obedecer as decisões do peão que guia as ovelhinhas. É preocupante que ser roqueiro no Brasil é ser submisso, convencional, conformado com as coisas. E sobretudo em cidades como o Rio de Janeiro, cada vez mergulhadas no mais profundo atraso.

Ás vésperas do Rock In Rio, a ocorrer no próximo mês, vê-se o público roqueiro mais próximo de uma plateia de Luciano Huck, Fausto Silva e Xuxa Meneghel do que de uma multidão dotada de uma boa visão de mundo e um forte senso de ativismo e insubordinação.

A impressão que se tem é que o roqueiro brasileiro está muito mais próximo de Chico Xavier do que de Frank Zappa. E vai que eles gostam mesmo, alternando suas roqueirices clichês com frases do anti-médium mineiro, mostrando o quanto até supostos rebeldes são convencionais.

E o pior é que o comportamento cordeirinho, mais próximo de um devoto religioso do que de um rebelde, tornou-se a regra do público de rock no Brasil. Basta ter um humor irônico e ouvir sons mais pesados, cumprindo assim o simulacro, e de resto se comportar como a pessoa mais submissa e convencional do planeta.

O mercado brasileiro, famoso pela sua transmissão de valores retrógrados - a publicidade veiculada nas TVs é conhecida por suas visões constantemente preconceituosas e estereotipadas da sociedade - , trabalha a imagem distorcida do público roqueiro, que deixa de ser um rebelde a analisar o mundo de maneira crítica para ser um falso rebelde obediente às convenções sociais.

O pior é que essa imagem submissa, subserviente, não se limita apenas a roqueiros fake, que geralmente ouvem apenas tendências mais deturpadas do rock - como poser metal e emo - , mas mesmo roqueiros autênticos que parecem "cansados de guerra".

Uma amostra disso são as exposições dedicadas à memória da antiga Rádio Fluminense FM, de Niterói, última emissora de rádio FM dotada de personalidade e criatividade. As pessoas vão ver as fotos e a história da rádio conformadas com sua situação de passado que não volta mais.

Hoje, rádios autenticamente de rock se limitam à Internet. No rádio FM, tem que se contentar com a deturpação grosseira feita pela Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, já com uma afiliada irradiando em Cabo Frio, e pela 89 FM, de São Paulo, que por sua vez trata o público roqueiro como se fosse telespectador do Pânico da Pan ou tiete do Gugu Liberato.

São emissoras de rádio cujos locutores são retirados de excedentes não aproveitados em rádios pop convencionais e nada roqueiras. São pessoas que usam o microfone para exporem seus preconceitos de maneira discreta, porque não são especializadas em rock, não têm conhecimento de causa e só servem como vitrine publicitária para rádios que só exploram o gênero para atender a interesses de empresas promotoras de eventos.

A Rádio Cidade, com sua linguagem e mentalidade que, hoje, remete aos parâmetros da Rádio Disney (já que a linguagem Jovem Pan tornou-se problemática até pela reputação que a emissora adquiriu nos últimos meses, reacionária demais até para os padrões ultraconservadores de nossa mídia), trabalha a imagem do roqueiro que mais parece ter vindo das novelas da Rede Globo.

É uma imagem do jovem que se preocupa em ser um mero vocabulário ambulante de gírias, mais preocupado em explicar seus deslizes e retrocessos do que cobrar satisfações da sociedade que o explora - já que seu nível de questionamento do mundo é superficial e conivente em muitos aspectos - e conformado com o que o mercado lhe impõe como valores, conceitos e músicas de "rock".

Mas esse estereótipo ameaça contaminar o público mais autêntico, que parece dotar de uma "felicidade crônica" e inadequada para um mundo turbulento como o de hoje. As pessoas passam até a usar gírias enjoadas como "rock na veia", "é déiz, véio", "show de bola", "galera" e seu convencionalismo chega a impressionar até as pessoas consideradas "mais caretas".

Não é por acaso que o roqueiro brasileiro que mais se destaca na mídia é o músico Lobão, tão carioca de criação como a Rádio Cidade, tão paulista de moradia recente como a 89 FM. Amigo dos falecidos Júlio Barroso (fundador da Gang 90) e Cazuza, de personalidades bem arrojadas, Lobão recentemente tornou-se abertamente reacionário e amigo e admirador do neo-medieval Olavo de Carvalho.

Para quem chamava o progressivo de Patrick Moraz, o ex-músico do Yes que contratou o Vímana (antiga banda de Lobão, Lulu Santos e Ritchie nos anos 70) para acompanhá-lo, de retrógrado, Lobão virou a casaca ao se tornar seguidor de gente ainda mais retrógrada.

Hoje o roqueiro virou pessoa tão submissa que prefere ler horóscopos a ter que reivindicar qualquer coisa. Só adere a passeatas quando elas são modismo, quando a mobilização lembra mais um desfile de rebanhos do que uma luta por causas nobres. Estas só são defendidas quando, de tão banalizadas, não prejudicam mais o "sistema".

É preocupante isso. Um roqueiro brasileiro que se encaixa nas campanhas publicitárias idiotizantes, até mesmo nos comerciais de McDonalds - rede de lanchonetes que se autoproclama "de restaurantes" acusada de crueldades na exploração de mão-de-obra - , conformado com o "sistema" e apenas fingindo ser rebelde e ativista apenas para agradar as convenções sociais.

Num país em que se deturpa tudo, do feminismo à Doutrina Espírita, transformar o fã de rock num carneirinho feliz com seu rebanho a seguir as ordens do peão, para torrar dinheiro em festivais de rock e alimentar um mercado de faz-de-conta que toma conta do gênero.

E assim os roqueiros irão aos festivais de rock se alimentando felizes e conformados com lanches caríssimos de péssima qualidade feitos por pobres coitados que, das redes de lanchonetes, são tratados como escravos, recebendo pouco e sem a devida proteção trabalhista para enfrentar fogões e fornos calorentos e perigosos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A preocupante despreocupação de muitos brasileiros


O conformismo é um dos maiores males no Brasil e as pessoas têm a falsa impressão de que o país já está acabado e perfeito, mesmo que seja "um país perfeito cheio de imperfeições". Contraditoriamente, as pessoas pensam que há muito o que fazer no país, mas que não há necessidade de se fazer muito pelo país.

A crise existente no Brasil e em outras partes do mundo é vista de forma desigual. Na Grécia, a crise é encarada com pânico e insegurança. Na França, com um certo ceticismo. Já no Brasil, a crise é vista com indiferença, porque não é com os umbigos das pessoas ditas influentes.

A indisposição das pessoas se reflete na Internet, quando textos questionadores são praticamente boicotados. Isso quando não chega o vandalismo digital de sociopatas, como zoeiros e troleiros (trolls), potencialmente reacionários, que contradizem seus conhecimentos de Informática (pelo menos como usuários) com um senso medieval de "patrulhamento" e visão de mundo.

O Brasil passou por inúmeros retrocessos nos últimos 50 anos. Estima-se que eles foram impulsionados a partir do golpe militar de 1964. O Brasil ficou brega praticamente a partir da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que teve os "rosários" do padre estadunidense Patrick Peyton, teve o Catolicismo ortodoxo, a neo-pentecostal Nova Vida e até a Federação "Espírita" Brasileira, com o aval de Chico Xavier e tudo.

Mas os piores retrocessos vieram a partir dos anos 90, com Fernando Collor sendo eleito e uma avalanche de retrocessos de ordem social, cultural, urbanista, político, econômico, moral etc. Mas como eles vieram sob o pretexto da democracia, do populismo, dos avanços tecnológicos e da prosperidade econômica, eles foram aceitos praticamente com submissão bovina.

Daí que a crise acontece e as pessoas não levam a sério. Os noticiários não conseguem esconder essa crise, e até mostram. Crises que envolvem violências, acidente, corrupção, gafes gravíssimas e tantos outros problemas. Mas a banalização de tudo isso anestesia as pessoas, sobretudo numa época em que se passou a brincar de WhatsApp e desprezar a leitura ou escrita de blogues.

As pessoas imaginam que tudo está sob controle, mesmo o descontrole. Acham que os problemas dificilmente baterão às suas portas. Se ocorrem tragédias, a impressão é que nunca envolverão aquele "rapagão divertido" das rodadas de cerveja ou aquelas pessoas "iradas" que dizem piadas nas mídias sociais.

Até mesmo os homicidas se acham sob controle de tudo. Supõem que tiram a vida de outrem por alguma "causa nobre" moralista, como a "defesa da honra" masculina ou o "direito à propriedade" dos grandes fazendeiros e acham que, para eles, tudo pode ocorrer de forma linear e direitinha. Mas não é assim.

Nada impede que grupos de extermínio morram em um desastre automobilístico pouco depois de cometerem seus atentados. Seus automóveis geralmente sucateados apontam para isso. Da mesma forma, nada impede que um feminicida conjugal, mesmo relativamente jovem e aparentemente saudável, morra de infarto só porque, fugindo para o exterior, viu um parente da vítima na rua.

O espírito de imprudência e imprevidência é muito comum no Brasil. E isso prova a inexperiência de um país jovem, configurado como nação política em 1500, um período que parece "ontem" se comparado com os milhares de anos da nação grega. Se a crise da Grécia, hoje, causa aflição nos seus cidadãos, isso é um perigoso alerta para o Brasil.

As pessoas tentam procurar os "anos dourados" do nada. Seja pelas "vídeocassetadas" que as concorrentes da TV Globo anunciam como "espaços dos internautas", como se na Internet as pessoas só se interessassem em tolices, seja pelo supérfluo de qualquer espécie que soa prioritário para muitas e muitas pessoas.

No Rio de Janeiro, cidade que mais sofreu retrocessos nos últimos 25 anos, a situação é mais grave. Essa decadência é vista com indiferença pelas pessoas, que até esnobam de tal constatação. Acham que praia, cerveja e futebol representam por si a prosperidade, e riem da crise achando que ela "existe em todo o país", uma forma eufemista de dizer que "é uma coisinha de nada que ocorre no Brasil".

Só que isso é sério. A decadência do Rio de Janeiro, que a partir de seu grupo político - comandado por Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão, não muito diferentes em autoritarismo que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ele um integrante do prepotente PMDB carioca - , impõe retrocessos em níveis medievais para seu Estado, não pode ser vista como coisa sem importância.

O Estado do Rio de Janeiro é visto de tal forma como referência para o país, juntamente com São Paulo, que se um retrocesso prevalecer nesses lugares, ele acaba valendo para todo o país, fossem como fossem seus males para o povo em geral.

O povo nem precisa apoiar tais retrocessos, bastando o respaldo de grupos de políticos e empresários que definem o retrocesso tal, lançado no eixo Rio-São Paulo - geralmente a partir de São Paulo sob a "consolidação" no Rio de Janeiro - , como "viável" para todo o Brasil.

O Rio de Janeiro há muito perdeu toda a modernidade e contemporaneidade que se tentou desenvolver na Cidade Maravilhosa durante anos, inicialmente como uma reação, por vezes de apoio, por outras de contestação, aos projetos urbanísticos do prefeito Pereira Passos lançados por volta de 1905.

Era uma modernização que parecia definitiva e inabalável há 55 anos. Mas que hoje rui de forma dramática, embora o silêncio dos cidadãos e o pouco caso da grande mídia, que denuncia os milhares de desastres que acontecem no Estado do Rio de Janeiro como se fossem atrações de circo, tentem renegar essa realidade.

Há uma despreocupação um tanto masoquista e suicida. Como se tudo que ocorresse de ruim fosse comédia ou fizesse parte da complexidade pós-moderna de hoje. Só que o pouco caso das pessoas, que já estão na quarta ou quinta geração dos que ficam aceitando retrocessos desde que os militares assumiram o Poder Executivo federal em abril de 1964, estabelece um preço muito caro para o país.

Perdem-se referências e pessoas de grande valor e o país se mergulha numa mediocridade que não dá mais para esconder. A "cultura popular" que transforma o povo pobre em caricatos "debiloides consumistas" é cada vez mais questionada, depois que a onda de blindagem intelectual e acadêmica caíram no ridículo de tanto apoiarem essa "cultura de mercado".

O problema é que mesmo a classe média alta sofria da crise da Educação e de toda uma série de crises de valores e princípios, que os fazem ao mesmo tempo doentes e ao mesmo tempo ignorantes de suas próprias doenças.

Sem referenciais sólidos, tentam atribuir alguma superioridade a determinados totens através de valores meramente simbólicos ou materiais, como o diploma, a visibilidade e o prestígio junto aos privilegiados para dar um apoio e credibilidade a essas pessoas.

Daí o apoio a Luciano Huck, Danilo Gentili, William Bonner, Jaime Lerner, Alexandre Sansão, Rachel Sheherazade, Rodrigo Constantino, etc.Daí a ilusão de que diploma, fama, votos eleitorais e dinheiro garantem a credibilidade e o respeito. Em primeira instância, até quem tinha um forte idealismo abria mão de boa parte de seus princípios para se vender a um corrupto em troca de visibilidade.

Só que isso não resolve a crise. Não se sustenta o progresso dessa forma, e o triunfo da mediocridade não significou até agora a recuperação gradual de antigos progressos perdidos, pois os medíocres não se dispõem, até pela falta de capacidade natural, de interesse para ter a mesma competência do antigo gênio falecido ou jogado para o ostracismo.

A mediocridade se apoia em valores medíocres e, por vezes, mesquinhos. Não pode dar lições nem exemplos com a mesma competência dos mestres. Bajular é inútil, criar arremedos também, e o progresso é comprometido de qualquer maneira porque nas altas posições da atividade humana há a predominância de incompetentes que só fazem falar, dizendo que sabem tudo, que podem fazer qualquer coisa valiosa, mas nada fazem.

Os retrocessos no Brasil, e, sobretudo, no Estado do Rio de Janeiro, com a outrora Cidade Maravilhosa se afundando na decadência e sua vizinha Niterói isolada no seu preguiçoso marasmo, se mostram cada vez mais evidentes, por mais que a sociedade faça vista grossa.

Chegará um momento em que não dará mais para esconder ou esnobar, até porque o reacionarismo dos internautas que queriam manter a "visão oficial (e irreal) das coisas" começa a ser questionado.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O PMDB carioca é fascista?

PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO QUER "LIMPAR" A ZONA SUL DIFICULTANDO O ACESSO DAS POPULAÇÕES POBRES POR ÔNIBUS.

Qual a relação entre a repressão policial contra adolescentes pobres que vêm da Zona Norte do Rio de Janeiro e o plano do subsecretário de Planejamento, Alexandre Sansão, de reformular as linhas de ônibus para a área? Nenhuma, muitos devem pensar. Estão errados.

As duas medidas, por incrível que pareça, estão tão integradas quanto o sistema que está na mente de Alexandre Sansão, que decidiu reservar o "grosso" das linhas da Zona Norte para Zona Sul para o fim de linha da Candelária, sobrecarregando a já tumultuada estrutura de pontos de ônibus no entorno da famosa igreja, que nos horários de pico as filas, de tão grandes, se confundem.

Quem se dirige à Candelária no final da tarde para pegar um ônibus para outros municípios, como Niterói e os da Baixada Fluminense, sabe o drama. Na cidade dos ônibus com pintura padronizada que confundem os passageiros - a ameaça foi anunciada para as linhas intermunicipais para o Rio a partir do ano que vem - , tem que se perguntar a outrem para que destino é uma fila, para não embarcar no ônibus errado.

É na chamada mobilidade urbana que o PMDB carioca está causando muitos estragos. Se a filial do partido no Rio de Janeiro é conhecida nacionalmente pelo autoritarismo do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, prepotências à parte o deputado apenas segue a cartilha autoritária e antilegalista que o partido, na sua unidade estadual, determina.

No âmbito municipal e estadual, o grupo do prefeito Eduardo Paes não é muito diferente dos delírios mandões de seu xará na Câmara Federal. O próprio prefeito impôs a pintura padronizada nos ônibus (uma das piores medidas feitas para o setor no país) atropelando leis (a medida contraria a Lei de Licitações, o Código de Defesa do Consumidor e até a Constituição Federal) e promovendo uma "votação às escuras", sem consultar a sociedade, para aprovar a medida "na marra".

Hoje a realidade de diferentes empresas de ônibus ostentarem a mesma pintura facilita uma série de corrupções que ocorrem sem que os passageiros saibam ao certo. Eles, redobrando a atenção para tentar diferir uma empresa que vai para o Lins de outra que vai para a Pavuna, já que ambas têm o mesmo visual, mal sabem que, sob esse véu da pintura padronizada, empresas já mudaram de nome, de razão social, linhas trocaram de empresa e os passageiros são sempre os últimos a saber.

E se a pintura padronizada - herança do autoritário Jaime Lerner, tecnocrata paranaense surgido na ditadura militar através da ARENA e, como administrador, tão corrupto quanto Paulo Maluf - era tida como medida "disciplinadora" (a própria ditadura veio em 1964 usando essa desculpa), a verdade é que ela alimenta a corrupção.

Essa corrupção é evidente quando as empresas de ônibus não podem mais exibir suas respectivas identidades visuais. Há muitas desvantagens nessa restrição. As autoridades usam como desculpa que a identidade visual é propaganda, mas o que vemos é que a pintura padronizada não passa de um outdoor político que não traz qualquer funcionalidade para o transporte público, só complicando ainda mais as coisas. A propaganda é da prefeitura, vide o destaque para o logotipo da cidade.

CORRUPÇÃO PADRONIZADA - ÔNIBUS DA VIAÇÃO VERDUN CIRCULA COM PLACAS DE REGISTRO DIFERENTES.

Isso é tão verdadeiro que muitos dos ônibus que adotam esse visual "disciplinador" possuem irregularidades na documentação. Muitos desses carros são comprados de segunda mão de outras empresas ou, mesmo na mesma empresa, trocam o número da frota. Pior: um dos ônibus da Viação Verdun chegou a circular com duas chapas diferentes, só sendo apreendido depois de se envolver em um acidente.

Mas pintura padronizada é apenas uma das tragédias impostas pelo PMDB carioca. Outra tragédia é a redução de itinerários e a multiplicação de linhas "alimentadoras" e "troncais" feitas sem critério, apenas para seguir a "cartilha Lerner", implantando o padrão do arquiteto e político paranaense que está caduco até no seu Estado de origem.

Sob a desculpa inconvincente de evitar a sobreposição de itinerários, linhas com percurso exclusivo eram extintas, quando a desculpa do "percurso comum" se limita apenas ao meio do itinerário, já que em outros trechos dos percursos eram as linhas desativadas as únicas a atender determinados logradouros e a ligação de determinados bairros.

Como dizer que linhas como 465 Cascadura / Gávea (antiga 755), 676 Méier / Penha, 910 Bananal / Madureira e 952 Penha / Praça Seca correspondem a "itinerários sobrepostos"? A desculpa de Alexandre Sansão não só fracassou como essas mudanças, feitas para forçar o uso do Bilhete Único e promover o sensacionalismo do BRT Transcarioca (que hoje só roda lotado, havendo superlotação nos picos), como perdeu o cargo de secretário de Transportes com a má repercussão da medida.

Agora, como subsecretário de Planejamento, Sansão quer fazer o pior do que a tragédia que ele havia empurrado para o corredor Fundão-Madureira-Alvorada do BRT Transcarioca. Quer "limpar" a Zona Sul dificultando o acesso dos moradores da Zona Norte às praias da Zona Sul.

Mesmo a redução de algumas linhas de ônibus para a estação de Siqueira Campos - o máximo que podem chegar a Copacabana - , para trajetos que passam pelo Túnel Santa Bárbara, não deixa de representar um higienismo, porque esse afunilamento é gradual e nada impede que Sansão "replaneje" o sistema e bloqueie todo o acesso de linhas da Zona Norte para a Zona Sul.

A reserva dos pontos da Candelária e das paradas da Central - já que as linhas a terem percurso reduzido passam por toda a Av. Pres. Vargas - , além de sobrecarregar os pontos do Centro carioca, que já são superlotados e tumultuados hoje em dia, causará superlotação até fora dos horários de pico.

Além disso, é curioso que o plano de Alexandre Sansão venha junto com a notícia de que muitos adolescentes pobres foram detidos quando iam para as praias da Zona Sul só porque não tinham documentos. Quase todos negros e sem antecedentes criminais, apenas estudantes ou trabalhadores querendo se divertir, porque são cariocas e valorizam as praias do Rio de Janeiro. Todos eles maltratados "na pista" e condenados a fazer baldeação em BRTs superlotados.

Um deles disse à imprensa que vinha do bairro do Jacaré, atendido pela linha 474, uma das linhas a terem seu percurso esquartejado pela "cabeleira" do poderoso Sansão. Histórica, a 474 Jacaré / Jardim de Alah já tinha outros códigos numéricos e surgiu de um ramal que terminava no Aeroporto Santos Dumont.

O autoritarismo do PMDB carioca e sua pose de falsamente progressista, sua tecnocracia irresponsável, autoritária e caduca, que adota critérios "técnicos" do tempo do regime militar, é que está estragando com o Rio de Janeiro e está comprometendo o desenvolvimento do Brasil.

Com toda a ambição pessoal de poder, o deputado Eduardo Cunha no entanto está de acordo com o receituário de impor medidas à revelia da lei e do interesse público do PMDB carioca. Não é só Cunha que age assim. Numa greve de bombeiros para reivindicar melhorias nos salários e nas condições de trabalho, o então governador Sérgio Cabral Filho simplesmente mandou prendê-los, só soltando depois que sua decisão repercutiu mal na imprensa.

Eduardo Paes queria até mesmo atrapalhar a estrutura urbana do Rio de Janeiro. Ele queria transformar o trecho da Av. Rio Branco entre a Av. Pres. Vargas e o Aterro do Flamengo, num grande parque, proibindo seu acesso aos veículos e complicando o já turbulento e confuso trânsito do Rio de Janeiro.

Fica-se imaginando se o PMDB carioca é fascista. Que autoritarismo festivo é esse que toma conta de seus políticos, podendo ser um Eduardo Cunha que sonha ficar com o Executivo em suas mãos - e ele já é o segundo suplente para exercer a Presidência da República - , mas podendo ser um Eduardo Paes, ou um Carlos Roberto Osório que começa dando entrevistas como se fosse sargento da polícia e agora fala macio como se fosse quase paternal?

O PMDB já é o único remanescente dos dois partidos da ditadura militar - embora grupos de extrema-direita se esforcem em recriar a ARENA - e sua conduta parecia mais democrática, embora o partido nunca tivesse um perfil ideológico definido, tendo sido, como MDB, um balaio de gatos que envolveu de comunistas moderados a progressistas do antigo PSD dos tempos de Juscelino Kubitschek.

Mas hoje, através da sua unidade do Rio de Janeiro, o PMDB retoma o autoritarismo da ARENA e o discurso tímido dos generais do começo da ditadura militar, causando grande apreensão aos brasileiros, na medida em que seus políticos e tecnocratas, de Eduardo Cunha a Alexandre Sansão, de Carlos Roberto Osório a Sérgio Cabral Filho, contribuem para destruir o Rio de Janeiro e oferecer o Estado em frangalhos para ser "o modelo a ser seguido" pelo Brasil.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Difícil falar de rosas num país de espinhos


O "movimento espírita" perde tempo disfarçando sua prática irregular da Doutrina Espírita com receituários moralistas e familiaristas e "mensagens positivas" cheias de palavras melífluas e conselhos pretensamente edificantes.

Quantas vezes se pronuncia a palavra "Amor", nessa religião que amor...daça. Afinal, seu princípio maior é aguentar os infortúnios em silêncio, sem questionamentos nem queixas, e aceitar as imposições da vida, nem sempre justas ou meritórias, como se fossem "desígnios superiores".

As irregularidades do "espiritismo" brasileiro são denunciadas, suas contradições se tornam cada vez mais evidentes, e os "espíritas" tentam reagir com textos "lindos", ilustrados por paisagens floridas, crianças sorridentes e céus ensolarados. Não conseguem enfrentar os dilemas que ocorrem num país complexo como o Brasil.

Querer mostrar rosas para um país de espinhos é complicado. E, além disso, quando a doutrina de "amor e luz" consegue ser pior do que muitas seitas neo-pentecostais que, de tão ridículas, pelo menos acabam se tornando divertidas (com boa vontade, dá para ver R. R. Soares como um humorista de stand up comedy), é bom se alertar.

Isso porque são pessoas que não entendem de mediunidade, não entendem de Ciência Espírita e muito menos sabem o que é a vida espiritual que tentam se passar por profundos entendedores de tudo isso, inventando fantasias e simulacros que só é verídico para eles e para quem, desinformado, vier de carona.

O desconhecimento das lições verdadeiramente trazidas por Allan Kardec é disfarçado por todas as bajulações que os "espíritas" fazem ao professor. Bajulações baratas, em que o autêntico Espiritismo é defendido no discurso, quando é ofendido na prática. Sim, porque não adianta elogiar o mestre se despreza ou desrespeita seus ensinamentos.

Da mesma forma, também é inútil esculhambar um outro mestre e seguir direitinho as lições deste. Jean-Baptiste Roustaing virou um "palavrão" no "movimento espírita", por causa de polêmicas radicais como os tais "criptógamos carnudos". Fora a alta cúpula da FEB, os "espíritas" tentam fugir de Roustaing como, na alegoria católica, o diabo foge da cruz.

O roustanguismo está quase todo na obra de Chico Xavier e Divaldo Franco (que afirma "não ter tido tempo" para ler o autor de Os Quatro Evangelhos), sobretudo no primeiro. A ideia da vida carnal como um castigo, a apologia ao sofrimento, o beatismo religioso como única forma de salvação, tudo isso é herança explícita do roustanguismo, queiram ou não queiram seus seguidores.

Afinal, a questão não é assumir uma ideia e fingir que não a defende. Usar posturas para contradizer ou dissimular práticas é algo muito comum no Brasil, mas expressa uma grave hipocrisia. Os que praticam o roustanguismo, eliminando ou minimizando pontos polêmicos, tentam a todo custo dar a falsa impressão de que "seguem rigorosamente o pensamento de Allan Kardec".

Os "espíritas" dizem uma coisa e fazem outra e, quando são desmascarados, se escondem em artigos de palavras lindíssimas, mas vazios de sentido. Pedir para que todos "demos as mãos" é muito, muito fácil. No entanto, solicitar a "fraternidade em Cristo" é tão oco e inútil diante de um país cheio de conflitos.

Da mesma forma, as espetaculares "mensagens mediúnicas" e os sensacionais "estudos acadêmicos" (com metodologias falhas e duvidosas) que surgem tentando legitimar Chico Xavier, aliados ao aparente bom-mocismo das páginas "espíritas", se multiplicam como se quisessem provar algo que não conseguem provar.

Tudo vira um ciclo vicioso, pois o Espiritismo tão leviana e precariamente praticado tenta compensar isso com o suposto bom-mocismo, com filantropias que quase nunca ajudam de verdade, só realizando ajudas provisórias e inócuas. Ou com mensagens bonitinhas cheias de bichinhos, crianças, flores, apelos vagos à fraternidade que não resolvem injustiças nem conflitos.

Daí que nem o bom-mocismo resolve a crise violenta que o "espiritismo" brasileiro sofre, e que faz até com que seus palestrantes e líderes não tenham mais o que dizer. Jurar fidelidade absoluta a Kardec e trair seu pensamento o tempo todo são demonstrações de desonestidade doutrinária que nenhum aparato de "amor e bondade" conseguem disfarçar. A coisa está feia, mesmo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Chico Xavier é como um bombeiro que chega após o incêndio ter causado estragos


Infelizmente, o Brasil tem como uma das maiores manias o sentimentalismo e a pieguice que faz as pessoas encararem as coisas com fantasias e deslumbramento, sem terem discernimento necessário para analisar as coisas como realmente são.

Fala-se de Francisco Cândido Xavier como se ele pudesse ser a síntese de todas as qualidades positivas dos brasileiros. Tentam creditá-lo até como "cientista", pasmem. E ele ainda é visto por muitos como "o maior filósofo do país", quando a última coisa que ele seria capaz de fazer era Filosofia.

Paciência. O Brasil não atingiu estágios conquistados pelos países europeus, mais antigos. E já vive uma crise semelhante a da Grécia, embora sob contextos bastante diferentes. E se a Grécia tornou-se vulnerável a seu colapso social, político e econômico, não bastasse sua cultura não corresponder hoje a 1% do que era na Antiguidade Clássica, o Brasil então é ainda mais frágil.

Aqui a cultura popular foi privatizada por um bando de jagunços urbanos que determinam o "mau gosto" que as classes pobres serão obrigadas a consumir. Bota-se uma grande soma de dinheiro para empurrar qualquer idiota para fazer sucesso, ele faz, entra em cartaz em todo veículo de mídia e depois vem um etnólogo (ou etilólogo) dizer que seu sucesso é fruto da "vontade popular".

E isso torna o país fácil para qualquer mistificação. Vai a mídia lançar qualquer besteira e ela se propaga. Vão os etnólogos e jornalistas culturais "assinar embaixo" de tudo isso. E aí, pronto, qualquer mentira pode se tornar sucesso com o esforço de mídia e acadêmicos e tudo se consagra.

E aí Chico Xavier entra como o "cavaleiro da esperança" tido como "progressista" e "transformador". Ele, que defendeu a ditadura e pregava um moralismo conservador, de aceitar todo tipo de sofrimento sem reclamar, talvez até sem gemer, sufocando nossas emoções, mesmo as instintivas. Ele, que pregava a oração em silêncio em vez da mobilização, era no entanto tido como "ativista".

Todo tipo de contradições virou um atraente malabarismo discursivo para promover a suposta superioridade de Chico Xavier, às custas da ingenuidade das pessoas. E ele, visto como consolador, só "socorria" depois do "leite derramado", era como um bombeiro que chega depois que o incêndio fez os seus estragos.

A má energia do "espiritismo", que faz com que pessoas sofram infortúnios e tragédias vindas do nada, faz com que essa ilusão aconteça. Chico Xavier "nunca chega" antes da tragédia ocorrida, e há quem fique feliz por ele ser um mero enxugador de lágrimas.

Se fosse num enterro de alguém que morreu por erro médico e o doutor que atendeu essa pessoa vai para o velório consolar a família e supor que a alma do falecido "está bem", as pessoas não iriam gostar, chamariam o médico de oportunista, porque ele havia provocado a morte de alguém.

Mas sendo o "médico" Chico Xavier, cuja doutrina que deturpa o legado de Allan Kardec traz más energias pela sua própria natureza mistificadora e fraudadora, que vem "consolar" as pessoas depois de infortúnios e tragédias, depois do prejuízo já feito, todo mundo gosta.

Chico Xavier poderia fazer das suas que todo mundo acaba aceitando ele. Se apropriar de pessoas mortas, cometer pastiches e fraudes, promover moralismo retrógrado, fazer tantos erros e sair imune e impune a tudo isso. E ainda por cima "chegar" depois da tragédia ocorrida. Quem é que precisa de um "consolador" que só chega depois do "leite derramado"? Só os ingênuos, é claro!

domingo, 23 de agosto de 2015

No Rio de Janeiro, o 'apartheid' social vem de BRT

DECISÃO DO SUBSECRETÁRIO ALEXANDRE SANSÃO (E) O FAZ SER COMPARADO A EDUARDO CUNHA NO ÂMBITO DA MOBILIDADE URBANA.

Um dos mais perversos processos de exclusão social está em curso no Rio de Janeiro, cidade que vive um surto de provincianismo e ultraconservadorismo social, uma situação preocupante se levermos em conta que a cidade e seu respectivo Estado servem de referência para a prevalência de valores e práticas adotados no resto do Brasil.

A eliminação de linhas de ônibus na outrora Cidade Maravilhosa, marcada pela corrupção política, pela criminalidade crescente, pelos movimentos reacionários, pelo vandalismo na Internet e por tantos outros retrocessos sócio-culturais, já prejudica o direito de ir e vir das pessoas e pode complicar ainda mais em outubro, quando a Zona Sul perderá nada menos que 33 linhas de ônibus.

Elas serão substituídas por linhas "troncais", um total de cinco, algumas em direção ao Centro, outras em direção à região da Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Tudo parece simples na teoria, feita por critérios puramente tecnocráticos, dentro de simulações da computação gráfica e de outros aplicativos digitais.

No entanto, a realidade não é bem assim como acontece e o que haverá é a eliminação de importantes linhas de ônibus, de grande demanda e muitos carros, por trajetos troncais feitos apenas com poucos BRTs. Na teoria, tudo parece permitir que o trânsito fluirá com menos ônibus e as linhas serão adequadamente substituídas por BRTs. Mas na prática um quadro estarrecedor está por vir.

Como se observou nos casos do Fundão, Madureira e Alvorada, a extinção de trajetos tradicionais, alguns deles exclusivos e funcionais, como 465 Cascadura / Gávea, 676 Méier / Penha, 910 Bananal / Madureira e 952 Penha / Praça Seca em "alimentadoras" que só reproduzem parcialmente os respectivos itinerários, os BRTs, insuficientes para cobrir a ampla redução de ônibus em circulação, se tornaram superlotados.

A superlotação é tanta que o ar condicionado não consegue refrescar os ônibus que, com janelas lacradas, sem abertura, se tornam locais quase asfixiantes, com tantas gentes espremidas. O anedotário popular já compara os BRTs às "latas de sardinha", porque eles podem ser considerados "enormes" para o padrão dos ônibus (embora nem tanto, já que um BRT soma a estrutura de um ônibus convencional com um ou dois micrões), mas são muito pequenos para o padrão dos trens.

O que se teme é que, no caso da Zona Sul, a coisa piore ainda mais com a redução das linhas. E seu autor, o subsecretário de Planejamento da Prefeitura do Rio de Janeiro, Alexandre Sansão, que havia sido secretário de Transportes da gestão de Eduardo Paes, já está sendo comparado a um equivalente à mobilidade urbana do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, famoso pelo seu autoritarismo.

Sansão é responsável por medidas antipopulares como a pintura padronizada nas empresas de ônibus, que demonstrou confundir os passageiros, que precisam redobrar a atenção, e estimular a corrupção político-empresarial, e a dupla função do motorista-cobrador, que sobrecarrega o trabalho do motorista, que está sujeito a acidentes e outros incidentes, o mais trágico envolvendo um ônibus da Paranapuan que caiu de um viaduto em Bonsucesso, matando oito passageiros, devido a uma briga por troco de passagem entre um usuário e o motorista, que sobreviveram.

Aliás, o próprio PMDB age de maneira autoritária e o prefeito Eduardo Paes governa a cidade do Rio de Janeiro como se fosse um síndico de um condomínio de luxo. Ele parece se focar mas os turistas de Barcelona, embora tente parecer "progressista" e tentar se passar por "super-prefeito", capaz de atender os mais diversos âmbitos do interesse público. Mas falar é fácil e agir é que é o problema. E o PMDB carioca age contra os interesses populares.

No caso das linhas da Zona Sul, a mudança é um dissimulado projeto de gradual higienização social, dificultando às populações suburbanas o acesso às praias litorâneas. As autoridades tentarão desmentir, como é de praxe, mas a prática fala muito mais do que mil discursos.

TRADICIONAL LINHA 474 SERÁ UMA DAS EXTINTAS E DARÁ LUGAR A UM TRAJETO QUE LIGARÁ O JACAREZINHO AO CENTRO.

APOIO ELITISTA

Reportagem publicada pelo jornal Extra do último dia 20 mostra que o projeto de reformulação de linhas para a Zona Sul só é defendido pelas elites. Enquanto os trabalhadores protestam e lamentam terem que fazer baldeação, entidades patronais, políticos, tecnocratas e associações de moradores ricos elogiam a medida e compartilham dos mesmos argumentos fantasiosos.

"A maioria dos passageiros nem vai precisar fazer transbordo. Na Zona Sul, os ônibus deveriam andar com 80% da capacidade no horário de pico, mas não passam de 50%. Também não creio que teremos desemprego", delira o próprio Alexandre Sansão, ignorando a própria realidade de que muito mais passageiros terão que fazer transbordo, como se já não bastasse o pessoal que já vem de zonas distantes da Zona Norte e Zona Oeste.

Com essa declaração, ele também ignora que postos de trabalho serão, sim, fechados com a medida, e que o único benefício será que mais ônibus serão vendidos praticamente para serem repassados somente para os lucros das empresas. Levantamento aponta que o Rio de Janeiro tornou-se a nova capital brasileira do desemprego, com mais de 45.300 vagas fechadas, só no trabalho formal.

"Há ônibus demais. Alguns vão para onde já existe metrô e devem ser suprimidos" tenta argumentar a presidente da Associação de Moradores de Ipanema, Maria Amélia Loureiro, provavelmente escondendo o incômodo que os abastados moradores dos edifícios da Zona Sul têm de que os "ônibus demais" vêm de lugares distantes como Méier, Abolição, Cordovil, Olaria, Jacaré, Cidade de Deus, Rio das Pedras e Usina.

"Pouquíssimos passageiros faziam a viagem completa. Essa lógica continuou até hoje", alega o professor da COPPE/UFRJ, Paulo Cezar Martins Ribeiro, adotando uma visão de mobilidade urbana de tecnocratas isolados em seus gabinetes. Além disso, o Rio Ônibus, sindicato patronal, ligado aos empresários de ônibus, afirmou que o sistema irá "melhorar" com a reformulação. Melhorar para os bolsos deles.

ISSO É APENAS UMA SINGELA AMOSTRA DE COMO SERÃO OS PONTOS DA CENTRAL DO BRASIL COM AS MUDANÇAS QUE VIRÃO EM OUTUBRO.

A REALIDADE

Bem antes dessa reformulação, a realidade nega por definitivo as declarações dadas pelos porta-vozes das elites. No terminal de linhas municipais da Central, no entorno da Praça da República e da Praça Cristiano Ottoni, pessoas se amontoam em confusão para pegar as linhas de ônibus existentes no local. Os ônibus são muitos, mas saem sempre lotados, com todos os assentos ocupados.

Com a redução das linhas, o que as elites não conseguem enxergar, ou talvez não tenham coragem de argumentar, é que a confusão será ainda maior. Afinal, não serão apenas as pessoas que já chegam de outros municípios (vários por trem), do Centro e da Zona Oeste, que pegarão os ônibus da Central para a Zona Sul, mas também aqueles vindos do Méier, Jacaré, Cidade de Deus, Tijuca, Penha, Bonsucesso e Olaria. Os ônibus dificilmente sairão sem superlotação.

Com a desativação das linhas para o BRT Transcarioca dos terminais de Fundão, Madureira e Alvorada, esse quadro se mostra de forma estarrecedora. Autoridades, tecnocratas e aristocratas tentam dar outros motivos, como "problema de planejamento" ou "teste inicial de quantidade de frota" para minimizar o problema, quando ele vem justamente do esquartejamento de trajetos de ônibus imposto pela Prefeitura.

São ônibus superlotados, que não comportam a demanda das linhas desativadas, que se torna enorme e sobrecarregada. Além do mais, a reposição com mais BRTs irá, isso sim, sobrecarregar o tráfego das avenidas de seus trajetos, de forma ainda mais caótica do que se supôs evitar das linhas de trajetos longos.

O HIGIENISMO

O aspecto que o discurso político-tecnocrático tenta ocultar é que a baldeação que o esquartejamento de trajetos de ônibus provoca é um obstáculo para as populações de bairros suburbanos terão que viver no cotidiano para se deslocarem para a Zona Sul.

Elas terão que pegar ônibus de seus respectivos bairros para o Centro do Rio, e daí para a Zona Sul e vice-versa. Pelo que o plano fará na prática, as pessoas viajarão sentadas no primeiro ônibus, mas terão que viajar em pé no segundo, o que causa desconforto e transtornos diversos, como se nota em veículos superlotados, como o risco de assédio sexual e furtos.

Isso trará muito incômodo e irá intimidar as populações pobres a enfrentar o transtorno toda semana. A ideia é que, com menos ônibus, as populações pobres sejam desestimuladas a se deslocarem para a Zona Sul, criando um higienismo social.

Essa tese pode ser considerada "absurda" por aqueles que defendem a mudança nas linhas, mas ninguém irá assumir o elitismo no discurso. O que se observa é que, no entanto, as elites se sentem incomodadas em ver tantos pobres nas praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca e atribuem generalizadamente a eles a ocorrência de arrastões, que só partem de alguns marginais.

Há as favelas da Rocinha e do Pavão-Pavãozinho, subúrbios em plena Zona Sul, aos quais o elitismo social apela às autoridades fazer outras medidas. Mas, a curto ou médio prazo, o fim da ligação direta das linhas da Zona Norte e Jacarepaguá para a Zona Sul, assim como o fim da linha 465 Cascadura / Gávea, tem como objetivo afastar os pobres das ruas da Zona Sul, diminuindo sua presença nesses redutos de classes mais abastadas.

A mudança nas linhas segue a mesma lógica da antiga linha 442 Lins / Urca, que apesar de sua alta rentabilidade e de sua demanda sempre expressiva, foi extinta pela pressão elitista da associação de moradores do bairro do famoso Pão de Açúcar, para evitar que pessoas vindas do Méier e do Engenho Novo usem suas praias.

Esse grave processo de discriminação social é uma realidade que nem todos assumem. E mostram mais um dos inúmeros retrocessos que comprovam a decadência do Rio de Janeiro e sua preocupante situação de cidade referência para o país, mesmo com seus piores defeitos e com as decisões e modismos mais desastrados. É com os problemas dessa cidade que se fará o futuro de nosso país?

sábado, 22 de agosto de 2015

Advogada cita caso Humberto de Campos em reportagem sobre pintura "mediúnica"


Na reportagem sobre a pintura "mediúnica" de Giovanni d'Andrea, que questionamos em outras postagens, a advogada Deborah Sztajnberg (lê-se "istáinbergue") citou o famoso caso em que o anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier foi processado pela família de Humberto de Campos por causa de sua suposta mediunidade.

"Isso começou com um caso famoso do Chico Xavier, nos anos 1940, sobre o escritor Humberto de Campos. Até aquele momento, não havia entendimento sobre o assunto. A família entrou na justiça para obter os direitos e acabou perdendo. Aquilo foi tomado como precedente", disse ela, considerada especialista em direitos autorais.

Segundo a advogada, a obra "mediúnica" só não é vista pela Justiça como publicidade enganosa se seu responsável avisasse previamente de que se trata de uma "obra psicográfica", para assim ganhar a imunidade jurídica. Em outras palavras, se alguém fizer um trabalho "mediúnico" e avisar antes à Justiça, não haverá punição judicial.

O grande problema é que, com o desconhecimento que existe da Ciência Espírita e com a tendência dos "espíritas" de adotarem práticas simuladas e visões especulativas, quase tudo que é feito sob o rótulo de "mediúnico" é falso, se comparado minuciosamente com as obras que os respectivos falecidos fizeram em vida.

Não se pode considerar veracidade por causa das semelhanças apresentadas. Essa é a mania daqueles que entram em contato com esses trabalhos "mediúnicos". As pessoas ignoram a tese lógica de que a finalidade do falso é sempre soar como uma imitação do verdadeiro. Como os produtos piratas, que sempre apresentam alguma semelhança com o original.

O grande problema está nas diferenças. Se, diante de dez aspectos semelhantes entre duas coisas supostamente iguais, uma diferença faça uma delas se contradizer à outra, então existe falsidade, mesmo quando as semelhanças atribuam a igualdade como uma qualidade verossímil.

No caso de Humberto de Campos, a advogada parece ignorar que o caso foi um aberrante escândalo de fraude e apropriação indébita de alguém falecido, cujo processo, movido pelos herdeiros de Humberto de Campos, só não deu ganho de causa nas duas partes por dois motivos: o enunciado do processo e o desconhecimento dos juristas da época sobre assuntos mediúnicos

No primeiro caso, a família do falecido autor maranhense não elaborou um motivo claro para o processo. Em vez de processar Chico Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira de forma direta, exigindo deles indenização por apropriação indébita de alguém falecido, preferiram uma motivação hesitante, cujos efeitos jurídicos dificilmente se dariam em favor dos herdeiros.

Eles preferiram pedir aos juristas que "examinassem" as obras "espirituais" que levam o nome de Humberto de Campos para que, no caso de comprovação da autoria alegada, a renda se destinasse aos herdeiros e, no caso de se comprovar a não-autoria, que Chico Xavier e a FEB fossem multados pelo uso indevido do nome de um outro autor.

No segundo caso, os juízes não entenderam a questão e julgaram "improcedente". Houve um empate jurídico. Os herdeiros não ganharam a causa, mas também Chico Xavier não foi legitimado pela Justiça da época (1944). Só que o empate rendeu pontos a Chico Xavier, como se observa em critérios esportivos, em que às vezes um zero a zero vale uma classificação.

O assunto era novo e Chico Xavier, que já trabalhava um estereótipo de "caipira bonzinho", foi beneficiado pelo empate jurídico. Com isso, ele pôde levar adiante sua obsessão por Humberto de Campos, mas tomando o cuidado de "esconder o nome" através do pseudônimo "Irmão X", uma paródia de um dos pseudônimos usados por Humberto em vida, "Conselheiro XX".

A apropriação de Humberto continuou existindo, mas restrita aos meios "espíritas", e Chico sempre usava Humberto para certos episódios ou supostas declarações, e alegava que o suposto espírito adotou o nome de "Irmão X" para evitar "novos dissabores".

Isso foi muito grave, porque, depois da morte, Humberto de Campos passou a "viver" em função de Chico Xavier, tornando-se um dos mais graves casos de obsessão espiritual da História do Brasil, de encarnado para desencarnado, e um dos mais aberrantes casos de impunidade de alguém que se apropria de um outro, já falecido, para se autopromover às custas dele.

Chico Xavier virou "dono" de Humberto de Campos e praticamente a sua trajetória em vida, que chegou a ter significativa popularidade - o prestígio de Humberto, em vida, equivaleu ao de João Ubaldo Ribeiro nos últimos anos - , hoje caiu no esquecimento. Infelizmente, Humberto é mais conhecido pelas obras que não escreveu mas levaram seu nome por iniciativa do anti-médium.

Isso é que deve ser levado em conta. Temos que recuperar a reputação independente e autônoma de Humberto de Campos, tirar dele desse "encosto" chamado Francisco Cândido Xavier e rejeitar as obras atribuídas ao espírito do autor, que destoam completamente de seu estilo original.

Temos que fazer isso, em respeito à memória de Humberto de Campos. Nenhum pretexto de amor e bondade pode permitir que se usurpe o prestígio de outrem para a autopromoção. Não há caridade que se sustente com a desonestidade, porque isso se torna duplamente cruel, pois a mentira e a fraude se tornam piores quando se escondem em toda campanha de bom-mocismo.

Desse modo, ajudar as pessoas através da enganação é muito mais cruel do que a maldade explícita, porque é uma crueldade que poucos conseguem perceber e que se torna bem-sucedida sem que se possa agir contra ela, ao menos sem dificuldade.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Supostas mediunidades e seus clichês


O "espiritismo" brasileiro chega a ser uma comédia. As atividades ditas "mediúnicas", não bastassem as mesmas serem feitas na base do improviso, desprezando a Ciência Espírita de Allan Kardec e preferindo, em muitos casos, práticas ocultistas medievais, elas seguem um "padrão" que na verdade corresponde a um repertório de clichês respectivamente adotados por cada prática.

Muitos desses "métodos" foram popularizados por gente como a família Gasparetto e Francisco Cândido Xavier e, embora sejam práticas bastante populares e até vistas por muitos como respeitáveis, são, não obstante, de valor e procedimentos bastante duvidosos.

Observam-se as mesmas caraterísticas em vários exemplos de práticas que aqui analisamos, como as supostas psicografia, psicopictografia (pintura mediúnica), psicofonia e nas cirurgias ditas mediúnicas, em que os mesmos clichês e estigmas são observados:

1) Nas psicografias, observa-se que, no Brasil, a prática não vai muito além do simulacro, em que um suposto médium finge que psicografa e redige, da própria mente e usando sua caligrafia - às vezes um parceiro seu inventa uma assinatura diferente, mas isso é pouco comum - e manda uma mensagem de apelo religioso, creditando a "autoria" ao falecido solicitado na ocasião.

As mensagens são padronizadas, e seguem uma narrativa linear. O "espírito" conta que sofreu ao falecer, que depois foi assistido por outros espíritos, que se instalou numa colônia espiritual e, conhecendo os ensinamentos de Jesus, apela para as pessoas da Terra se dedicarem a este.

2) Nas psicofonias, além de se observar a prioridade nos personagens do século XIX, o que é estranho e traz indício de fraude - porque as personalidades do século XIX raramente tiveram acesso às novas tecnologias de gravação do som lançadas a partir do fonógrafo, em 1877 - , nota-se o mesmo tom religiosista das supostas psicografias.

Em alguns casos, permite-se fazer supostas psicografias com "espíritas" próximos, ou então os mais conhecidos - já se faz com Chico Xavier, por exemplo - , feitos geralmente por aqueles que conviveram intimamente com eles, para que assim conhecessem seu estilo de falar e seus trejeitos.

3) Nas psicopictografias, o clichê está sempre na "multidão" de pintores que se supõe reunir durante o evento, como se fosse muito fácil juntar pintores de diferentes épocas e lugares para um mesmo trabalho. Se é muito difícil reunir colegas de escola de 25 anos atrás, quanto mais pintores de diferentes tempos e lugares?

Geralmente as pinturas são feitas, "sensacionalmente", com as mãos ou os pés, com técnicas mais "modestas" para garantir o caráter sensacional das obras que, com todo o esforço de imitação, soam sempre inverídicas, bastando uma comparação com a obra que o falecido pintor fez quando era vivo. Além disso, os "médiuns" nem medem escrúpulos de usar assinaturas diferentes das originais.

4) Nas cirurgias mediúnicas, o que se observa são duas coisas: a prática rudimentar e o clichê de quase sempre "incorporar" um médico alemão, austríaco ou coisa parecida. Lembrando práticas de cirurgias clandestinas da época medieval, as operações, cujos critérios são a revelia da ciência médica contemporânea, são quase sempre feitas com tesoura ou facão.

Os resultados, dizem, são "eficazes", mas o caráter duvidoso das práticas é evidente e essa eficácia é discutível. Corpos são perfurados sem muita higiene e tumores são retirados como um caroço é tirado de uma fruta cortada por uma faca.

As "cirurgias" sempre têm esse aspecto marginal de romperem com os procedimentos médicos atuais como se a Medicina que temos na Terra fosse um "mal". Além disso, o caráter rudimentar surge para fazer sensacionalismo através da simplicidade.

Outro aspecto a se considerar é que boa parte dos "médicos espirituais" é vingativa, já que, em dado momento, os supostos médiuns acabam sofrendo alguma tragédia, atribuída a uma suposta represália movida por esses "enérgicos espíritos".

Assim, observa-se um amontoado de clichês. A suposta psicografia de apelo religioso e narrativa linear de sofrimento-socorro-salvação. A suposta psicofonia que usa gente que viveu antes da popularização do fonógrafo. A suposta pintura mediúnica que reúne grupos de pintores de origem dispersa e a cirurgia dita espiritual que só usa tesoura ou faca e "incorpora" médicos germânicos.

Não se trata de um método rigoroso que envolve essas semelhanças. Pelo contrário, se tratam de clichês de práticas duvidosas, em muitos casos correspondentes a práticas clandestinas da Idade Média que passaram a ser aceitas por um repaginado Catolicismo medieval, que adotou reformas pontuais para se transformar no "espiritismo" que se tem no Brasil.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

"Centro espírita" do Rio de Janeiro promove pinturas "mediúnicas"


Vale a pena falsificar para investir na caridade? O amor permite todo tipo de mentira? Existe a "desonestidade do bem"? Pois, vendo o total desconhecimento no Brasil da Ciência Espírita, quando vemos que há simulacros de mediunidade e especulações sobre vida espiritual, não há como levar a sério esse "kardecismo" que nada tem de Allan Kardec.

Poderíamos ver alguma boa intenção, se não fosse a falsidade que se observa, numa comparação entre as obras "espirituais" e as obras originais dos autores alegados. Depois de Luís Antônio Gasparetto e José Medrado, agora o carioca Giovanni d'Andrea, do "centro espírita" Tenda dos Irmãos do Oriente, localizado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, lança pinturas.

Seus seguidores garantem que a causa é "nobre" e os quadros, "avaliados" entre R$ 250 a R$ 400, terão renda destinada para o Hospital Pedro de Alcântara, localizado em Rio Comprido e organizado pelo grupo "espírita" Obreiros do Bem.

Uma questão que podemos fazer é essa. Se a intenção é a caridade, por que apelar para a falsidade ideológica de usar pintores falecidos para obras que, se observa bem, não possuem a menor veracidade? Não seria melhor o suposto médium pintar seus próprios quadros, usar sua própria autoria e assim se revelar um talento em ascensão?

Ficamos vendo, suspirando, o caso de Wolfgang Beltracchi, que passou anos e anos falsificando quadros, imitando estilos de outros pintores, até ser desmascarado e preso. Pois ele, arrependido, resolveu pintar obras originais, assumidas como de sua autoria, e o trabalho saiu elogiado. Para que se consagrar às custas dos outros se, com boa vontade, se pode ter talento próprio?

O que se observa, nas pinturas abaixo, são irregularidades quanto ao estilo e à assinatura, que faremos aqui em minuciosa comparação, selecionando as principais obras "mediúnicas", ou supostas psicopictografias, e comparando com as obras originais dos pintores atribuídos. As irregularidades chegam a ser aberrantes.

Das duas, uma. Ou Giovanni recebeu algum espírito brincalhão que falsificava quadros em vida, ou ele mesmo imitou diversos estilos de pinturas, contrariando o que ele disse sobre "nunca ter estudado arte na vida". Ele diz usar técnica diferente da dos pintores originais, usando acrílico em vez de óleo sobre tela, mas mesmo quando recorre a técnicas similares, o resultado é duvidoso.


À esquerda, suposta pintura atribuída ao espírito do holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). À direita, obra original do artista, O Semeador, concluída em 1888. Nota-se a aberrante diferença de estilo, até pela forma com que as cores diversas são distribuídas.

Além disso, o pintor autodidata e "maldito" - seus trabalhos eram discriminados em vida e só foram devidamente valorizados postumamente - , pelo seu temperamento rebelde em seu tempo, ele nunca iria se oferecer para um evento como esse, de mero propagandismo religioso, embora sutil.

A ASSINATURA "ESPIRITUAL" (ACIMA) ENTRA EM CONTRADIÇÃO COM A ORIGINAL, DEVIDO À GRANDE DIFERENÇA DE CALIGRAFIA.


Acima, uma pintura supostamente atribuída ao espírito do artista japonês radicado no Brasil, Manabu Mabe (1924-1997), em que se tenta imitar o estilo do original, mas o resultado soa bastante confuso. Ela é confrontada com Vento Vermelho, um dos últimos trabalhos do autor, concluído em 1997. Embora os herdeiros do pintor estejam condescendentes com o projeto "filantrópico", eles admitem que não há veracidade na autoria alegada.

SUPOSTA ASSINATURA DO "ESPÍRITO" DE MANABU MABE (ACIMA) NÃO CONFERE COM A ORIGINAL.



Nesta imagem, confronta-se a suposta pintura espiritual de Paul Jackson Pollock (1912-1956), artista de vanguarda dos EUA, que aparece no alto, com os dois trabalhos originais do autor, Mural (1949), no centro, e Convergence (1952), abaixo.

Note-se que a complexidade da arte de Pollock não confere na suposta pintura espiritual, que parece muito tosca e limitada a uma aleatória combinação de rabiscos que nem conseguem preencher todo o espaço, como nos trabalhos do artista estadunidense.


Aqui, observamos, à esquerda, a suposta pintura espiritual atribuída a Pablo Picasso (1881-1973), célebre artista espanhol. À direita, uma obra original do pintor, Retrato de Dora Maar, de 1936, dedicado a uma das várias mulheres que passaram pela vida amorosa do artista.

Mesmo em seus devaneios surreais, Picasso nunca pintaria da forma como se fez na pintura "mediúnica", muito comportada para seu talento surreal, mas um tanto tosca do que quando ele se concentra em traços mais sofisticados.

A ASSINATURA "ESPIRITUAL" (ACIMA) TENTA IMITAR A ORIGINAL, MAS NÃO CONSEGUE.


À esquerda, vemos uma pintura atribuída ao espírito de Jean-Pierre Renoir (1841-1919), célebre pintor francês. O estilo desta pintura "mediúnica" difere bastante da suposta psicopictografia feita pelo baiano José Medrado usando o nome do pintor. Para confrontar, usamos a obra original do artista, Femme à la Rose, concluída em 1976.

A exemplo de José Medrado, a obra trazida por Giovanni destoa do estilo de Renoir, cuja sofisticação de traços e distribuição de cores não é notada nas obras "espirituais". A palidez da pele da moça da pintura "mediúnica" foge severamente do estilo original do francês.

ACIMA, A ASSINATURA "ESPIRITUAL" NADA TEM A VER COM A ORIGINAL.


Sinceramente, à esquerda vemos uma pintura "espiritual" que nada tem a ver com o estilo pessoal de Amedeo Modigliani (1884-1920), notável pintor modernista italiano. Em vez dos desenhos precisos, quase usando um recurso visto em desenhos animados e revistas em quadrinhos, de contornar as pessoas com traços em preto, nota-se traços "espectrais" que fogem do estilo do pintor.

ACIMA, ASSINATURA ATRIBUÍDA AO ESPÍRITO, QUE SE TORNA RISÍVEL PELA ABREVIAÇÃO DO SOBRENOME, NUNCA OBSERVADO NA ASSINATURA ORIGINAL. A GRAFIA TAMBÉM DIFERE, E MUITO, EM RELAÇÃO A QUE O ARTISTA ASSINOU EM VIDA.


Soa bastante ridículo e patético atribuir alguma veracidade a essa pintura que se atribui a Cândido Portinari (1903-1962), conhecidíssimo pintor brasileiro. Mesmo com boa vontade, não dá para ver qualquer autenticidade na suposta psicopictografia, já que a diferença de estilo é aberrante, como já se observou no "Francisco de Assis" trazido por José Medrado, também usando o nome de Portinari.

A ASSINATURA (ACIMA) NEM ENGANA É ABERRANTEMENTE DIFERENTE DA ORIGINAL.

ASSINATURAS SUPOSTAMENTE DIFERENTES REVELAM, ENTRE SI, SEMELHANÇAS EM UM ÚNICO ESTILO, ÀS VEZES TENTANDO UMA CALIGRAFIA, OUTRAS ESCREVENDO LETRAS DE FÔRMA.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ariston Teles e a "mensagem de Chico Xavier" sobre a tragédia de Santa Maria


O "espiritismo" brasileiro virou chanchada. Virou uma grande bagunça, com todas as contradições e confusões que simplesmente desnortearam a Doutrina Espírita no Brasil. Chico Xavier, Divaldo Franco e companhia fizeram coisas até piores que Jean-Baptiste Roustaing, já perverso na deturpação da doutrina de Kardec, mas restrito apenas a alguns pontos polêmicos.

Afinal, o que é lançar a tese do "Jesus fluídico" ou dos "criptógamos carnudos" diante das séries de pastiches literários, falsas mediunidades, visões confusas sobre detalhes das vidas dos "espíritas" e suas atividades? Tudo confusão, e onde residem as contradições a coerência não encontra morada confortável e hospitaleira. Kardec seguramente teria reprovado o "espiritismo" brasileiro.

A figura confusa, contraditória e sem um mínimo de coerência de Chico Xavier, que sabemos nunca ter sido mais do que um católico paranormal, adorador de imagens dos mais materialistas, só prejudicou a doutrina de Allan Kardec e espalhou a mentira e a contradição em tudo que se faz oficialmente em nome da Doutrina Espírita no Brasil.

A mediunidade duvidosa de Chico Xavier acabou se voltando pelo lado inverso e hoje alguns supostos médiuns usam mensagens "psicofônicas" atribuídas a ele. Claro, se fosse fora da religião, seriam espetáculos de imitação humorística, mas como é "espiritismo", elas são feitas "a sério" e atribuídas "autenticamente" aos espíritos do "outro lado".

O principal deles, sabemos, é Ariston Teles, que afirma ter tido contatos com Chico Xavier ainda vivo, entre 1980 e 1999. Sabe-se que a suposta psicofonia reproduz os trejeitos do anti-médium e, pelo menos, as palavras transmitidas condizem ao religiosismo conservador do mineiro, compartilhado até por aqueles que usurpam seu nome.

A mensagem a seguir é uma amostra. Ela foi divulgada no "centro espírita" Monte Alverne, em Brasília, no dia 30 de janeiro de 2013, a respeito da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, três dias antes.

Nota-se que Ariston conhece bem Chico Xavier, a "mediunidade" parece convincente, pelo estilo de linguagem e pelo padrão ideológico da mensagem. Mas mesmo assim pode ser uma falsa psicofonia, porque é de praxe o "movimento espírita" desconhecer a Ciência Espírita e o próprio Chico Xavier acaba recebendo de volta a péssima metodologia que ele havia criado. Vamos lá.

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MENSAGEM ATRIBUÍDA A CHICO XAVIER SOBRE A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA

Divulgada por Ariston Teles, em suposta psicofonia, em 30 de janeiro de 2013.

Centro Espírita" Monte Alverne, Brasília.

"Amigos, solicitaram algumas palavras a respeito do que foi manchete nos últimos dias no Brasil e no mundo. 

Cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, casa de festas. Centenas de jovens, em plena noite de euforia em manifestações da própria alma. Acontece o inesperado, sob o ponto de vista humano. 

Tragédia para aqueles que causaram, de uma forma ou de outra, o doloroso evento. Tragédia para aqueles que não conseguem dormir de consciência tranquila. Depuração ou resgate para aqueles que foram constrangidos a deixar o corpo físico, retornando dolorosamente ao estado de pânico ao mundo espiritual. Sofrimento depurativo também para os demais que se encontram hospitalizados, e para todos os respectivos familiares, parentes, colegas, amigos. 

Dor coletiva. Dor no fundo da alma. Ferida que só o tempo se encarrega de sarar e cicatrizar, ficando materialmente a marca do trauma e da saudade. Rio Grande do Sul, território e Estado que abriga a maior colônia europeia, especialmente alemã. 

Peço permissão para fazer um ligeiro paralelo ou analogia entre o Estado do Rio Grande do Sul e o Estado da Bahia. Para a Bahia, imigraram milhares de espíritos após a escravatura, procedentes de países africanos. Para o Sul do país, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, especialmente espíritos procedentes de países europeus. Os jovens que se deleitavam em noite festiva precisavam, embora lamentemos, precisavam, como espíritos, passar por essa dolorosa experiência. 

A dor dos escravos, na velha e amada Bahia, converteu-se em alegria, caraterística do seu povo, enquanto as crueldades do nazismo, em práticas abomináveis, em câmaras de gás venenoso, transformaram-se noutro espaço do globo, no Rio Grande do Sul, Brasil, em dor, a se generalizar em milhares e milhões de almas que, neste momento, vertem em lágrimas a arderem na face e no coração. 

Essa reflexão pode estar sendo feita naturalmente por muitas pessoas, muitos companheiros, que pendem um pouco de História à luz da reencarnação. Mas consideremos finalmente o seguinte: quando alguém bate à nossa porta, movido pela dor ou pelo desespero, não espera explicações, ainda que sejam à luz do Evangelho. A dor que nos procura pede socorro, compaixão, amor. 

Por isso, elevemos, neste momento de tristeza generalizada, elevemos nossos melhores sentimentos ao Senhor Jesus, terapeuta espiritual da Humanidade, pedindo bênçãos e misericórdia para todos aqueles que estão embaixo desse lamentável e doloroso acontecimento. 

Aqueles que desencarnaram em estado de pânico, aqueles outros que se encontram hospitalizados, seus familiares, amigos, os proprietários do clube, pedimos bênçãos e misericórdia para todos aqueles irmãos e irmãs, especialmente os pais e as mães que não têm conseguido conciliar o sono satisfatoriamente, tamanho é o peso da dor que acaba de desabar em seus corações. 

Confiemos na compaixão infinita de Deus. O tempo cicatriza as feridas do corpo e da alma. E os emissários de Deus, protetores espirituais de cada um, se encarregam, como está acontecendo, de espalhar energias balsâmicas para acalmar as dores, renovar as esperanças e pacificar os corações. 

A lei da vida é inviolável, deve ser respeitada, aceita e compreendida, mas a essência dessa grande lei tem nome. Chama-se Amor. Chama-se Amor. O Amor infinito e incondicional de Deus. Que ele nos abençõe e nos guarde em seu coração compassivo, agora, amanhã e sempre. 

Chico Xavier (sic).
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