sábado, 31 de janeiro de 2015

Autênticos espíritas brasileiros desconhecem critérios de mediunidade


Mesmo as pessoas que fazem críticas sérias aos descaminhos do "movimento espírita" brasileiro e reclamam a recuperação das bases kardecianas ainda mantém um sério medo diante de tantas irregularidades. Sem terem a firmeza do professor lionês, eles se limitam a criticar tais descaminhos apenas dentro de problemas óbvios como "fulano não leu Kardec".

Todavia, eles chegam mesmo a atribuir autenticidade a anti-médiuns como Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier, e tudo que se faz nesses círculos é analisar apenas seus erros e equívocos. Eles não leram Allan Kardec, mas parecem destinados a saírem incólumes, para muitos, diante de uma possível recuperação das bases kardecianas.

As pessoas preferem apostar no duvidoso, no discutível, dando-lhe uma credibilidade e uma veracidade que não existem. Analisamos as contradições de Divaldo Franco, Chico Xavier e José Medrado, mostrando irregularidades sérias de suas atividades ditas mediúnicas, e obtivemos constatações fazendo análises cuidadosas de conteúdo.

Algumas fotos de Chico Xavier "psicografando", na verdade, mostram mensagens que só têm a caligrafia do anti-médium mineiro. Isso traz veracidade na mensagem espiritual? Não traz. Mesmo que a mensagem evoque aspectos referentes à vida pessoal do falecido, elas não garantem que haja veracidade ou sejam realmente confiáveis.

Vamos comparar, por exemplo, um tênis pirata da Reebok. A essência do falso é ser igual ao verdadeiro. Nota-se, no tênis falsificado, os mesmos elementos estéticos e funcionais que se apresentam no tênis verdadeiro, só que de forma mais limitada e malfeita. Não são as semelhanças que garantem que o produto é verdadeiro, mas uma série de fatores.

A procedência, as caraterísticas mais sutis, a observação se há alguma contradição que denuncie a falsidade de um produto, outros detalhes técnicos, tudo isso deve ser observado. Da mesma forma que uma nota de dinheiro, numa época em que as notas falsas tentam apresentar alguns aspectos mais sutis, como a "marca d'água".

Na mediunidade, é a mesma coisa. Se ela apresenta algum aspecto de contradição, podem anotar que é fraude e o anti-médium é charlatão. Não tem choradeira que faça voltar atrás. Se existem provas, devemos estar do lado da razão, da coerência, da realidade dos fatos, que está acima de qualquer indivíduo, seja ele prestigiado ou não.

ANÁLISE DE CONTEÚDO DERRUBA FÁCIL

Um exemplo: a psicofonia de Divaldo Franco. Certa vez ele falava com sua voz natural e, sem qualquer pausa, saía uma voz de um velho bonachão atribuída a Bezerra de Menezes. Isso é aberrante e de cara, não tem o menor grau de veracidade.

Primeiro, porque dois espíritos não podem, num processo mediúnico, falarem sem alguma pausa. Isso é incoerente. Sendo pessoas diferentes, há uma pausa entre o fim da fala do médium e o começo da do espírito. Não pode haver essa sincronia de duas pessoas "falando como se fosse uma só voz", coisa que só a pieguice emotiva e cega tem a arrogância de "legitimar".

Segundo, porque não há uma voz conhecida de Bezerra de Menezes, que viveu o tempo em que a invenção do fonógrafo era muito recente e por isso mesmo as personalidades ilustres dificilmente deixaram registros sonoros.

Além disso, notou-se que o "Dr. Bezerra" da suposta psicofonia de Divaldo Franco contradisse com a de José Medrado. O de Divaldo era sereno, bonachão e tranquilo. O de Medrado, esganiçado, agonizante e aflito.

Quanto a José Medrado, analisamos a contradição das pinturas verificando os quadros originais de Claude Monet, Edouard Manet e Pierre-Auguste Renoir, e notamos dessemelhanças entre os quadros de cada um deles com os de Medrado, ao passo que os quadros "mediúnicos" apresentam um mesmo estilo e as assinaturas mais parecem vir da mão do próprio Medrado.

Há muitas contradições, irregularidades, equívocos, que muitos analistas espíritas, mesmo sérios, têm muito medo em apreciar. Confiantes no status de Divaldo Franco e Chico Xavier, acham que a mediunidade atribuída a eles é "100% confiável", quando, em seus históricos, existe graves acusações de plágios, fraudes, adulterações e outros artifícios nada honestos.

ALLAN KARDEC ERA CÉTICO

Outro aspecto a destacar é que Allan Kardec era muito cético e não dava uma confiabilidade absoluta às mensagens espirituais trazidas a seu conhecimento. Se os brasileiros lessem mais O Livro dos Médiuns, na tradução de José Herculano Pires, ficariam envergonhados com a alta reputação que Divaldo e Chico acumularam para si ao longo dos anos.

Kardec descrevia que era muito difícil reconhecer a identidade de um espírito falecido. Ele adotava critérios que se aproximassem da veracidade, que ele definia como provável e não absoluta. Ele estabeleceu um método que se aproximasse da veracidade, mas que mesmo assim não é garantia alguma de êxito sem algum risco de irregularidade.

Esse método, incluído no Controle Universal do Ensino dos Espíritos (C. U. E. E.), consiste em colher mensagens atribuídas a um espírito falecido através de diferentes médiuns, sem qualquer relação entre si, e verificar se tais mensagens apresentam caraterísticas rigorosamente comuns.

Por exemplo, se quisermos receber uma mensagem escrita do ex-beatle John Lennon, teríamos que recorrer a um médium de Cuba, outro na China e outro na França, sem qualquer relação entre si, e depois verificar se a caligrafia e o estilo de linguagem correspondem ao do músico inglês, sem que apresente algum aspecto que apontasse alguma falha.

No Brasil, nem isso é garantia de veracidade. Até porque o corporativismo "espírita" - há "espíritas" divergentes que cometem a mesma pseudo-mediunidade - faz com que diversos supostos médiuns de diferentes partes do país, sem relação entre si, possam, mesmo assim, serem igualmente fraudulentos.

Houve tentativas assim, de maneira capenga - e com algum vínculo institucional entre os ditos médiuns - , relacionadas ao esforço de familiares das vítimas do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, de colher mensagens de seus entes mortos.

Supostos médiuns do interior de São Paulo e do de Minas Gerais foram escolhidos para a aparente tarefa. Mas contradições apareceram, como falhas na assinatura de Stéfani Posser Simeoni e uma pregação religiosa demais de outra vítima, que "teorizava" demais sobre "reajustes espirituais".

Chico Xavier, espécie de "grife" do "espiritismo" brasileiro, também está associado a muitas irregularidades. E olha que ele era o único recorrido por tantas pessoas, despreocupadas em tentar recorrer também a outros supostos médiuns para ver se as mensagens de um mesmo espírito não se contradiziam.

Até o caso de Jair Presente não deixou de apontar fraudes. As famílias tentaram argumentar que Chico detinha informações "difíceis" sobre o falecido jovem, mas uma comparação que fizemos entre a primeira mensagem "mediúnica" atribuída a ele, de um religiosismo exagerado, expressava uma aberrante contradição com outra, com excesso de gírias hippie e narradas com nervosismo de alguém que estava sob o efeito de drogas.

Análise de conteúdo derruba fácil as fraudes mediúnicas. Nem é preciso ser grafologista ou bacharel, bastando apenas ter uma observação bastante apurada. No caso de Humberto de Campos, por exemplo, a análise de conteúdo derruba, definitivamente, qualquer hipótese de que o autor de O Brasil Anedótico tenha realmente escrito as obras atribuídas ao seu espírito.

O estilo de Humberto era culto mas levemente coloquial, de temática laica e bastante descontraído. O do seu suposto espírito era tristonho, excessivamente religioso e de referenciais igrejísticos. Em muitas passagens, identifica-se, nos textos atribuídos ao espírito de Humberto, semelhanças com a retórica de Chico Xavier ou com o moralismo literário de Antônio Wantuil de Freitas.

A análise de conteúdo é, portanto, um embasamento científico na essência, mas que pode ser aplicado por pessoas de formação mais simples. Comparar estilos, confrontar contextos, verificar caligrafias, observar situações, entre tantos outros critérios, fazem com que não seja difícil observar irregularidades diante de mensagens supostamente espirituais.

Tudo é uma questão de pesquisa, raciocínio e discernimento. O resultado final pode ser extremamente doloroso, até chocante, para muitas famílias ou para os seguidores de algum médium-estrela do "movimento espírita". Mas é preferível ficar com a realidade dos fatos do que relativizarmos a lógica atribuindo veracidade a coisas absurdas e contraditórias.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Desventuras de um tratamento espiritual - II


Mais uma mensagem chegou até nós de um rapaz que havia feito um tratamento por correspondência para o Templo Espírita Tupyara, localizado no bairro do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, há cerca de dez anos atrás.

O jovem, morador de uma capital nordestina, havia exposto seu problema na vida: dificuldade de emprego e de ascensão sócio-profissional. Achava que o tratamento por correspondência iria dar algum resultado favorável. Ele decidiu pelo tratamento por sugestão da mãe.

Paralelamente, ele tomou conhecimento da abertura de um concurso para uma conhecida autarquia federal, num cargo que lhe causou grande interesse não apenas pelo salário atraente de R$ 2.700 na época, meados de 2005, mas pelas possibilidades de realização que o cargo público iria lhe proporcionar.

Ele mandou a carta para o Tupyara. Topou em fazer o tratamento. Dias depois, recebeu a resposta e o procedimento para o tratamento espiritual. Fez todas as recomendações. Manteve-se tranquilo. Ficou bastante esperançoso.

Depois, ele se inscreveu para o concurso. A autarquia, na filial de sua cidade, prometia oferecer sua biblioteca para os candidatos estudarem. A bibliografia já estava indicada no edital. A prova parecia não ser muito difícil, pelo menos para ele, e tinha assuntos que poderiam não ser de sua especialidade, mas que ele seria capaz de aprender.

Ele fez o tratamento, comprando folhas de arruda, sal grosso e tudo. Permaneceu em prece, pensou em coisas boas, manteve-se disposto e gentil para sua família e amigos, manteve-se esperançoso o tempo todo.

Mas aí vieram as dificuldades. Uma biblioteca entrou em greve. Ele encontrou dificuldades para pegar os títulos indicados pela bibliografia. A biblioteca da autarquia não teve funcionário disponível para atender aos candidatos. A Internet era insuficiente para ele conseguir cobrir todo o programa de estudos.

Aí chegou o dia da prova. Ele até se esforçou para fazer as questões corretamente, na prova objetiva, apesar de algumas questões confusas e uma com resposta mal bolada. Já a prova discursiva apresentou três questões que ele não conseguiu redigir com acerto, já que os enunciados eram muito vagos e ele não havia estudado os assuntos dessas questões.

Com isso, veio o resultado da prova objetiva. De 60 pontos totais, ele acertou 48, o que lhe parecia um bom sinal. Mas a prova discursiva era eliminatória, e ele precisaria acertar pelo menos 60% da prova discursiva para estar na lista de aprovados, mas do total de 40 pontos ele acertou apenas 15.

Ele enviou os recursos, ou seja, mensagens pedindo a revisão de avaliações ou questões das provas, conforme orientado pelo edital do concurso. Pediu mesmo para que se anulasse a questão que foi mal formulada, que tinha duas das cinco opções para assinalar dadas como respostas corretas.

O jovem não foi acatado. Semanas depois, a lista final do concurso revelou que o rapaz havia sido reprovado, e que os recursos haviam sido indeferidos pela organizadora do concurso. Triste e revoltado, o jovem contemplava a lista dos aprovados, sem ver seu nome entre eles.

Meses depois, ele mandou uma carta para o Tupyara desabafando os infortúnios, mas veio uma resposta que apenas o aconselhou a orar. Nunca conseguiu um concurso igual ao da autarquia, e continuou penando sem que conseguisse um resultado favorável, por mais que batalhasse.

As únicas propostas de emprego que encontrou se limitaram a um jornal comunitário de um subúrbio perigoso - o editor tinha um litígio com inimigos pessoais - e conselhos que recebia para procurar uma rádio local, surgida de um esquema de corrupção e controlada por um ex-prefeito que havia feito um desvio de verbas usando empresas fantasmas.

Esta rádio era tida como "conceituada", mais pelo lobby que o proprietário e ex-prefeito fazia com as classes dominantes locais do que por alguma competência natural de sua programação, por sinal tendenciosa e ideologicamente instável,

A situação, portanto, não é garantia de boas possibilidades profissionais para o rapaz, que, se aceitasse a proposta, se envolveria em uma cilada, tendo que seguir as regras da empresa (que um dia são uma coisa, noutro variam completamente), e para piorar o seu dia de aniversário era o mesmo do ex-prefeito marcado pela corrupção.

O que é procurar a luz e encontrar mais trevas...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Chico Xavier e a mania de "divinizar a autoridade"

CHICO XAVIER E AS PERSONALIDADES E INSTITUIÇÕES DAS QUAIS SE ATRIBUEM "VALOR DIVINO".

Existem duas situações. Na primeira, uma personalidade se destaca na mídia e na opinião pública e se torna bastante popular não por ter qualidades que sejam realmente consideradas superiores ou ao menos relevantes, e cuja simpatia e carisma se justificam por si só, não havendo qualquer explicação para tal.

Já na segunda, as pessoas recebem a informação de que uma medida será adotada, sem consulta popular, e que traz muito malefícios à população. Apesar desse caráter nocivo, a medida é implantada. Apesar de sua impopularidade, ela é ampliada para outras cidades e até capitais. A alegação de tal medida é que ela foi decidida por pessoas dotadas de status tecnocrático.

O comportamento dos brasileiros tornou-se "bovino". Aceita-se qualquer barbariedade porque ela veio "de cima", da decisão ou mesmo em função da visibilidade de personalidades que no fundo não possuem qualquer mérito de superioridade, mas conseguiram alguma reputação através dos mecanismos da fama, do compadrio e de outros artifícios.

No "espiritismo" brasileiro, temos o problema sério, que podemos definir seguramente como gravíssimo, do endeusamento de Francisco Cândido Xavier, que causa problemas até para aqueles que querem buscar as bases kardecianas da Doutrina Espírita e não conseguem se desapegar do estereótipo confortável do "bom velhinho" e suas frases adocicadas.

Chico Xavier cometeu erros sérios e preocupantes demais para que ele merecesse qualquer consideração para quem quer recuperar o Espiritismo nas bases trazidas por Allan Kardec. Como um aluno do professor lionês, Chico, pelos seus erros, teria sido chamado pelo diretor da escola por causa de seu desempenho extremamente desastroso.

Mesmo assim, Chico torna-se um "quase deus", seus mais graves erros são minimizados ou sua responsabilidade é atribuída a outrem - como os dirigentes da FEB, por exemplo - , mesmo quando Chico claramente apoiou e contribuiu abertamente para os descaminhos e deturpações conhecidos.

Ficamos complacentes diante de abusos, erros graves e tantos equívocos preocupantes, grosseiros e vergonhosos cometidos por pessoas às quais se atribui superioridade por alguma coisa, ainda que seja um motivo do qual muitos não conseguem explicar. Em muitos casos, muitas pessoas acreditam que a pessoa é "superior" na sua especialidade porque... "porque sim"!

NEYMAR E LUCIANO HUCK - Jogador de futebol com QI de sub-celebridade e apresentador com manias de ser dublê de ativista social.

Se Chico Xavier é visto pelos seus seguidores como "divindade", essa é uma mania brasileira. De repente, o anti-médium mineiro passou a acumular, do nada, reputações discutíveis que o atribuem qualidades falsas de "filósofo", "psicólogo", "cientista", "profeta" e tudo o mais. Assim, do nada, tudo por questão de status.

Isso porque tornou-se uma mania, no Brasil, de aceitar as imposições por causa do status. Se vem "de cima", tudo bem. Se alguém impôs uma coisa ruim e essa pessoa tem muita visibilidade, prestígio ou algum atributo aparentemente técnico, essa coisa ruim pode até nos prejudicar que temos que aceitá-las porque nosso prejuízo é tido como um "mal necessário".

Ficamos assim. Aceitamos qualquer coisa vinda "de cima", por alguma alegação que varia da popularidade de alguém à sua formação técnica. "Divinizamos" a autoridade e a liderança, somos prejudicados por suas medidas ou expressões diversas e achamos que nossos piores prejuízos são "males necessários" e temos esperanças por benefícios que nunca virão.

O povo brasileiro ficou "bovino" e seu nível de conformismo e aceitação das coisas chega mesmo a ser pior do que o que o povo teve em abril de 1964, quando ocorreu o golpe militar que tirou o presidente João Goulart do poder. Registra a história que o Brasil só sucumbiu ao conformismo a partir do quinto ato institucional (AI-5), em dezembro de 1968.

JAIME LERNER, ALEXANDRE SANSÃO E CARLOS ROBERTO OSÓRIO - Protegidos pela reputação "técnica", causaram o maior desastre para o transporte coletivo do país.

Só o direito de ir e vir dos brasileiros, através do transporte coletivo, sucumbiu a catástrofes e desastres de grandes proporções. a partir de medidas arbitrárias como a pintura padronizada que uniformiza empresas de ônibus com o visual imposto pelo Estado, a dupla função do motorista-cobrador, a redução de percursos de linhas para forçar a baldeação e a diminuição de ônibus em circulação que deixa o povo esperar muito tempo para a chegada de um ônibus.

Tudo isso é aceito por causa da roupagem tecnocrática de seus idealizadores, como Jaime Lerner, arquiteto paranaense que muitos esquecem ser ligado à ditadura militar. Ou seus discípulos cariocas, Alexandre Sansão e Carlos Roberto Osório, que transformam secretarias de transporte em verdadeiros laboratórios para a farra político-empresarial sobre o transporte coletivo.

MERITOCRACIA

Isso é que conhecemos como meritocracia. O "governo" do status, a supremacia daqueles que vêm com a reputação em alta, muitas vezes sem que alguém pergunte por quê, e que acaba influindo no quadro de violento retrocesso social sofrido nos últimos anos no Brasil.

O status é obtido pela rede de relações e pelos sistema de valores nem sempre justo nem edificante, mas que garante, através de uma série de artifícios, que pessoas medíocres ou incompetentes para alguma coisa se tornem seus supostos especialistas por uma questão de ascensão social. Meritocracia é o mérito como um fim em si mesmo.

Aceitamos tudo porque o fulano que impôs é especialista nisso ou naquilo, ou porque alguém faz sucesso, ou alguém é indicado por "forças superiores" como pretenso símbolo de "sabedoria" (como é o caso de Chico Xavier). Corrompemos nossos desejos e aceitamos bovinamente os piores absurdos, prejudicando nós mesmos por acreditarmos na pretensa superioridade de alguém.

Claro, é o Brasil de Neymar, um jogador de futebol que se comporta como se fosse uma sub-celebridade, se autopromovendo com uma média de dez factoides por cada gol que ele faz em campo. Ou então um Luciano Huck, apresentador de TV que usa seu carisma para se passar por "ativista social" em sê-lo de fato.

Há também nomes como Ivete Sangalo e Chitãozinho & Xororó, que alcançam altas reputações na música brasileira sem fazer algo de muito relevante. Ou então gente como o funqueiro DJ Marlboro, quase um "santo" nas páginas registradas na busca do Google.



Há também intelectuais que pregam a degradação cultural, como o historiador Paulo César de Araújo e o jornalista Pedro Alexandre Sanches, que no entanto gozam de status de "divindades" porque o primeiro tem formação acadêmica e o segundo, aparentemente, entrevistou um "who is who" da Música Popular Brasileira.

Institucionalmente, então, aceitamos que a Rede Globo imponha valores duvidosos, em suas novelas e programas de auditório, imponha gírias terríveis que todo mundo acaba falando no dia seguinte e massacra o vocabulário de tal forma que, em vez de falarmos "freguês", agora falamos "cliente" até mesmo para quem compra um pastelzinho na rua.

Há tantos exemplos. Para o público de rock, com tanta rádio que estaria melhor preparada para entender a realidade desse público, veio, no Rio de Janeiro, uma incompetente Rádio Cidade cujos donos, todavia, se entrosam melhor com uma elite de empresários, produtores e jornalistas influentes.

Ou então a supremacia da Coca-Cola, que, dizem, criou o famoso refrigerante de cor preta originalmente para ser usado como água sanitária, ou a McDonald's, rede de lanchonetes que, no Brasil, é denunciada por promover trabalho escravo e pagar mal seus funcionários.

Ou então, em caráter regional ou dependendo do grupo social, gozam de alta reputação figuras duvidosas como Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão, a promoverem o neo-coronelismo no Rio de Janeiro, ou o ex-presidente Fernando Collor, eleito senador em 2006 com um lobby que envolveu a revista Isto É e até uma intensa mobilização nas mídias sociais.

Ou então uma figura corrupta e incompetente como Mário Kertèsz, na Bahia, prefeito de projetos mirabolantes que roubou Salvador e usou o dinheiro para comprar rádios e jornais (alguns desfeitos depois de graves denúncias na imprensa) e instaurou a Rádio Metrópole, gozando da falsa reputação de intelectual, comunicador e jornalista que ele nunca foi nem é, não sabendo sequer escrever uma crônica.

E Kertèsz, com tudo isso e ainda tendo tentado comprar para seu controle os movimentos sociais em atividade na Bahia, ainda virou "divindade" entre seus seguidores por ter contratado para um programa radiofônico o festivo líder "espírita" local, o anti-médium José Medrado!

SUPERIORIDADE MATERIALISTA

É por causa disso que o Brasil vê banalizar a corrupção, a violência e a degradação sócio-cultural. A cultura brasileira decaiu tanto que dois canastrões como Chitãozinho & Xororó são vistos como "gênios" por causa de um tributo oportunista e caça-níqueis ao maestro Tom Jobim.

Imagine se tivéssemos que ficar muitas horas sem comer, seguindo o conselho de um badalado médico, só porque ele tem diploma e goza de muita visibilidade e alega que precisamos "reeducar nossa fome"? Teríamos que nos sacrificar só porque a medida é aconselhada por alguém dotado de prestígio e "especialidade técnica"?

MULHER MELÃO E SOLANGE GOMES - Símbolos da vulgaridade feminina, elas são tidas como "feministas" por uma elite influente de antropólogos, ativistas e jornalistas dotados do privilégio da ampla visibilidade.

Vemos até mesmo "mulheres-objetos" se passarem por "feministas" através de uma mera superexposição de glúteos e bustos siliconados, porque uma elite, aparentemente muito respeitada, de antropólogos e jornalistas desejou e persuadiu a opinião pública para que assim fosse.

Por causa de tanta incompetência escondida pelo manto do sucesso popular, do prestígio religioso, dos diplomas acadêmicos, da visibilidade obtida do nada mas tornada inabalável, somos prejudicados, sem saber, por causa desse "olimpo" de pretensas "divindades", pessoas bem mais deficitárias do que muitos pensam mas que gozam de um prestígio inabalável.

São pessoas que parecem gozar de uma "superioridade" terrena e materialista, que as faz gozar de imunidade mesmo quando são envolvidas em escândalos sérios ou associadas a erros e equívocos graves, mesmo trágicos. Isso porque muitos acreditam que as pessoas serão "divinas" para sempre, dentro dessa visão um tanto torta de "divindade".

Mas essa "divindade" é apenas um status material, provisório, feito pelos limites da Terra e aceitos pela passividade bovina de muitas pessoas, que não perguntam sequer por que fulano está no poder, faz sucesso ou tem tanto carisma. Simplesmente aceitam. É o que se decidiu "de cima", então vale qualquer absurdo, como se muitos pudessem louvar até fezes de passarinhos.

Essa meritocracia demonstra tão somente a "superioridade" momentânea nos limites da Terra e da encarnação presente de cada envolvido. Após a morte física, essas pessoas desfazem completamente da "superioridade terrena" e, não raro, ficam horrorizadas diante do "nobre nome" que tiveram e que foi reduzido a pó sob cinzas ou no fundo do túmulo.

Isso faz com que as pessoas que aceitem qualquer arbitrariedade diminuam drasticamente sua auto-estima, deixem de usar sua capacidade de discernimento e questionar ou rejeitas as coisas e aceitem medidas e fenômenos que na verdade soam nocivos e degradantes. Essa passividade anda causando sérios malefícios, vários deles de consequências bastante trágicas.

Como é que esse quadro de conformismo e complacência social, a todo tipo de absurdo só porque "vem de cima", irá permitir que o Brasil seja a "vanguarda humanitária da Terra" é algo que não dá para entender. Mas essa fantasia se deu a partir de um sonho banal de Chico Xavier, que prometia que o Brasil seria potência do mundo num passe de mágica (ou no "silêncio da prece").

Com sub-celebridades, "mulheres-objetos", músicos canastrões, ônibus "padronizados", famosos errantes querendo dar "bom exemplo", e outras tantas coisas e pessoas lamentáveis em tantos aspectos, não há como fazer o Brasil virar "coração do mundo". Se o Brasil mal consegue resolver a si próprio, ele tem muito menos capacidade de liderar alguma coisa no mundo todo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nas supostas "psicografias", o "escritor-fantasma"' está no mundo dos vivos


A mediunidade brasileira é uma coisa surreal e ridícula. Afinal, seu processo enfatiza muito mais as "palavras de amor", um mero amontoado de vocábulos açucarados, do que qualquer manifestação real dos espíritos falecidos.

Artistas pesando nas "mãos" perispirituais, ícones da cultura jovem adotando um discurso formal e solene demais - como no caso de Rafael Mascarenhas, filho de Cissa Guimarães, e do roqueiro Chorão, líder do Charlie Brown Jr. - , obras "mediúnicas" que apresentam plágios literários explícitos etc.

Essa indústria de livros e mensagens "psicografadas" - sejam elas pinturas, cartas, vozes etc - mostram o grave grau de charlatanismo que envolve até mesmo astros "espíritas" ainda muito badalados, e tais atividades não diferem muito das supostas biografias que alimentam o mercadão das celebridades.

Sabe-se da existência do "escritor-fantasma" - ghost-writer, em inglês - que é o escritor anônimo ou semi-anônimo que está por trás de um livro supostamente escrito por alguém famoso, e que quase não leva crédito de autoria, às vezes, quando muito, como um "co-autor".

Normalmente, nesse mercado, o famoso que quer lançar sua "autobiografia" conversa com o escritor, dá seu depoimento sobre como deve ser narrada a sua vida e o escritor faz todo ou quase todo o trabalho, enquanto atribui ao famoso a autoria total ou principal da obra.

No "espiritismo" brasileiro, o "escritor-fantasma" bem que poderia ser o espírito que se manifesta na mensagem mediúnica, mas esse espírito nem sequer chega perto, não diz um pio, não mexe no pincel, não fala uma sílaba e não põe uma vírgula nas supostas obras "espirituais".

Quando muito, espíritos zombeteiros podem aparecer fazendo o seu teatrinho. "Olha, eu fui a atriz tal, eu sofri nas trevas da desolação, fui socorrida na colônia espiritual e reencontrei a luz fraterna em Cristo", dirá algum deles. Mas não raro os "escritores-fantasmas" são os próprios que se autointitulam "médiuns".

A imaginação fértil desses escritores "fantasmas" em carne viva faz com que as personalidades dos falecidos sejam parcialmente reproduzidas nas obras, e mesmo assim da forma mais estereotipada possível - vide os casos de Raul Seixas e Cazuza - , enquanto se insere algum proselitismo religioso.

É assustador como muita gente acredita na veracidade dessas obras, quando a gente vê que nada do espírito falecido realmente apareceu ou se aproximou, o que se observa, na verdade, são obras fictícias, em que os supostos médiuns, na verdade, botam o que sua imaginação supor, no mais errante juízo de valor, de quem seriam os espíritos das pessoas depois de mortas.

Por isso, esses pretensos médiuns na verdade se equiparam aos "escritores-fantasmas" do show business e, da mesma maneira que estes, promovem o sensacionalismo tentando impressionar a opinião pública às custas da exploração da imagem de entes queridos ou de gente famosa, reduzidos estes a meros propagandistas religiosos das mais baixas categorias.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"Espiritismo" brasileiro "amaldiçoou" José Wilker e irmã de Chorão do Charlie Brown Jr.?

ATOR JOSÉ WILKER E TÂNIA ABRÃO, IRMÃ DO MÚSICO CHORÃO, DO CHARLIE BROWN JR., MORRERAM DEPOIS DE RECORRER A "CENTROS ESPÍRITAS".

O "espiritismo" brasileiro amaldiçoa? Provavelmente, sim. Afinal, ele é uma deturpação descontrolada da doutrina de Allan Kardec e, com suas fraudes, mentiras, enxertos e adulterações cometidos ao longo de mais de cem anos, ele se transformou numa seita muito distante de sua tão alardeada imagem de "doutrina de amor e luz".

Recentemente, no último sábado, faleceu, com apenas, com apenas 55 anos de idade, Tânia Abrão, irmã mais velha do músico Chorão, líder e fundador da banda de rock Charlie Brown Jr., um dos ícones do rock dos anos 90. Ela teria sofrido dois acidentes vasculares cerebrais e não resistiu a seus efeitos. Tânia estava deprimida com o falecimento do irmão, ocorrido em 2013, e decidiu entrar num "centro espírita" na esperança de receber mensagens do irmão.

Numa pesquisa na Internet, também verificamos que o ator José Wilker, que faleceu em abril do ano passado de infarto fulminante, havia consultado um "centro espírita" para tentar uma cirurgia espiritual para corrigir um glaucoma. Detalhe: José Wilker era ateu.

Há casos de muitas pessoas que perdem filhos, amigos, cônjuges, e estavam envolvidas com o "espiritismo" brasileiro. Que tragédias podem ocorrer com qualquer um, isso é verdade, mas o "espiritismo" brasileiro trata as tragédias humanas com uma certa morbidez, sob a desculpa de que a vida espiritual existe e, por isso, a vida terrena nada significa.

Só que a vida terrena tudo significa e as pessoas que possuem um diferencial de personalidade, como no caso de Wilker - cheio de planos aos 69 anos de idade - são as que mais tendem a morrer cedo, contrariando as previsões um tanto hipócritas de líderes e astros "espíritas" de que as grandes personalidades viverão longamente para cumprir sua missão de esclarecimento da humanidade.

Perguntamos aos "espíritas"? Que esclarecimento da humanidade teremos? Mera desculpa para moralismos religiosos? O que se nota no "espiritismo" brasileiro é que o máximo de intelectual e científico que ele aprecia é um engodo de delírios pseudo-científicos oriundos de uma compreensão deficitária do conhecimento científico e mesclados a um misticismo ocultista mais rasteiro.

O Brasil mergulha num quadro de imbecilização cultural, corrupção política, prepotência tecnocrática e desordem social. Grandes cientistas, artistas e intelectuais têm pouco dinheiro e sofrem baixa visibilidade, como é que eles irão comandar a nação prometida para ser o tal "coração do mundo" do futuro? Financiados pela "luz" e pelas "fontes fecundas de amor"?

Faz sentido a hipocrisia do "espiritismo" brasileiro, dos desmandos da FEB, das astúcias e erros irresponsáveis de Chico Xavier e Divaldo Franco. Faz sentido a doutrina que herdou muitas caraterísticas do Catolicismo medieval português, que faz apologia ao sofrimento e justifica as tragédias humanas pela leviana acusação de que todos teríamos sido tiranos romanos um dia.

Para uma religião que chega a dizer que homicídios são "males menores" porque expressam processos de "reajustes espirituais" - desculpas que se equiparam à "defesa de honra" do machismo, "limpeza étnica" do racismo e ao "combate à subversão" das ditaduras - , procede esse mau agouro do "espiritismo à brasileira", ocorrido à sombra de suas "palavras de amor".

Daí os progressos travados e um confuso misticismo que, em tese, evoca as melhores energias e os maiores progressos de ordem espiritual, mesmo aplicadas à vida material, mas que não conseguem sequer oferecer respostas aos problemas vividos no país, antes criando condições para piorá-los de vez e ceifar as vidas de mentes brilhantes ou pessoas sofridas.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Seguindo Chico Xavier, Divaldo Franco encerra parceria com Joana de Angelis


Seguindo o exemplo dado por Chico Xavier há cerca de 15 anos, o anti-médium baiano Divaldo Franco anunciou sua aposentadoria "mediúnica", anunciando o fim da parceria com a mentora Joana de Angelis, que segundo Divaldo irá "reencarnar" neste ano que se começa.

De acordo com sua declaração, Joana se tornará uma "missionária", a exemplo do que Chico falou de Emmanuel, que reencarnaria em 2000 numa cidade do interior de São Paulo para se tornar um "educador" e se transformar num grande líder de "recondução moral" dos brasileiros para a construção do tal "reino de luz" prometido para o país considerado "coração do mundo".

É muito conto de fadas para uma realidade só, embora, sabemos, Chico Xavier, em suas supostas "profecias", na verdade interpretações de sonhos comuns, desses que temos enquanto dormimos, tenha reservado para a desenvolvida Europa, para os prósperos porém imperfeitos EUA e para a problemática porém esforçada Ásia a "destruição" por conta de cataclismas e terrorismos.

Nesse cenário, o Brasil se transformaria num "reino de amor" a comandar a "comunidade das nações", aglutinando as mais diversas correntes culturais, científicas, artísticas, políticas e religiosas em torno de uma "crença comum", a "doutrina espírita" tal como é feita no Brasil e codificada não por Kardec, mas por Bezerra de Menezes, Chico Xavier, Emmanuel, Divaldo e companhia.

Ligando a tecla SAP: o que Chico anunciou desde 1969 foi a instauração de um novo império político-religioso, de cunho tecno-teocrático, no qual o Catolicismo apostólico romano seria revisto e atualizado com base na parcial assimilação de conceitos espíritas como reencarnação e vida espiritual, enquanto politicamente um novo Império Romano é previsto em solo brasileiro.

A ideia totalitária é corroborada por Divaldo Franco e Joana de Angelis, a soror que não aguentava ver gente triste e talvez, quando reencarnar, tenha que sofrer a provação de levar tapa de babás furiosas toda vez que cair numa crise de choro. Sofrimento é bom quando é com os outros, mas consigo mesmo é ruim.

Do contrário de Emmanuel, que sabemos, por suas obras e temperamento, ter sido o padre jesuíta Manuel da Nóbrega, Joana de Angelis não teria sido Joana Angélica, a corajosa baiana que morreu tentando salvar o Convento da Lapa, em Salvador.

Isso porque não há indícios nem justificativas que apontem qualquer semelhança de personalidade entre Joana Angélica e Joana de Angelis, já que a primeira teria sido de ideias mais modernas e temperamento enérgico mas tolerante, enquanto a mentora de Divaldo nunca passou de uma moralista de palavras dóceis mas de uma índole temperamental e autoritária.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DA "APOSENTADORIA"

Há também um outro motivo, observado também no caso de Emmanuel, sobre essa aparente aposentadoria. Primeiro, porque, tanto na época de Chico Xavier quanto na de Divaldo, a velhice do anti-médium é um dos motivos para que se encerrem as parcerias espirituais.

Segundo, porque o anúncio da suposta reencarnação de seus mentores é uma manobra para evitar que seus nomes fossem usados por outros supostos médiuns para produção de novas mensagens. Dessa forma, a tese da reencarnação, combinada em consenso pelas cúpulas "espíritas", era uma forma de assegurar que Emmanuel e Joana não teriam "novos trabalhos" publicados por outrem.

Dessa forma, os interesses financeiros e essa manobra insólita de direitos autorais - não se pode mais evocar um falecido porque ele "já voltou à vida" - tornam-se exclusividade da FEB e dos editores que herdam o legado de Joana, como de Emmanuel, por isso ninguém poderá mais lançar novos livros atribuídos a tais espíritos para não obter lucros em cima deles.

Esse, aliás, é um motivo bem mais forte do que a idade avançada dos anti-médiuns, porque dessa maneira ninguém mais estaria autorizado a usar e faturar em cima dos nomes de Emmanuel e Joana de Angelis, sob a alegação de que eles "já voltaram ao mundo dos vivos" e, por isso, "não teriam condições" para mandar novas mensagens espirituais. Simples assim.

sábado, 24 de janeiro de 2015

A que interessa o "espiritismo" teorizar o amor e a caridade?


Em 130 anos, nunca o "movimento espírita" brasileiro se valeu de tantos desperdícios como nas últimas décadas. Desde o "fenômeno" do anti-médium Francisco Cândido Xavier, um verdadeiro desperdício de palestras, livros e outras atividades só serviram para teorizar, com exagerada insistência, meros sentimentos de amor e caridade.

A indústria de "palavras de amor", piegas e viscosa, é alimentada ora por livros prolixos e bastante pedantes - como as obras de Emmanuel e Joana de Angelis - , ora com outros bem menos verossímeis, como livros de auto-ajuda ruins e novelas desastrosas que são produzidas sob o rótulo de "literatura espírita".

Sem terem a menor capacidade de analisar a natureza da vida espiritual a partir dos conhecimentos lançados e arduamente sistematizados por Allan Kardec, os "espíritas" brasileiros quase sempre se perdem em lições moralistas envolvendo relações familiares.

Não fosse suficiente tal equívoco, se vê também uma série de teorias feitas para promover o conformismo diante do sofrimento. Nota-se que o conformismo é usado através de eufemismos preciosistas como "resignação" e "abnegação". Se tudo de errado ocorre em sua vida, só lhe resta aceitar e rezar para você sair inteiro dessa, dizem os "bondosos espíritas".

É muita, muita teoria para nada. O "espiritismo" brasileiro tem essa mania, uma seita religiosa com cacoetes de parecer ciência sem sê-la de fato, e cria teorias sobre o amor, a caridade e a fraternidade que não passam de um engodo moralista fantasiado de análises científicas.

Tudo se perde em apelos que poderiam se resumir a poucas palavras. Quanto papel, quantas vozes, quanto dinheiro, tudo se perdeu por causa de apelos dóceis, teorias que entorpecem tanto as pessoas que elas acabam achando tudo complicado.

AMOR VIROU COISA "COMPLICADA"

Com tanta teoria e tantos "estudos" sobre o amor e a caridade, o que parecia muito simples acaba sendo visto como coisa complicada. Há casos de pessoas que, no Facebook, colocam felizes seus memes com frases de Chico Xavier, tão alegres e dóceis em transmitir "amor", mas que na vida real não suportam determinadas pessoas que lhe são companheiras só neste portal social digital.

Muito fácil. Colhe-se aquela frase bonitinha do anti-médium mineiro, geralmente de alguma comunidade dedicada a frases bonitinhas, e compartilha no seu perfil dando a impressão aos seus seguidores (os "amigos" que coleciona no Facebook) que é uma pessoa humanista, fraternal e caridosa.

Mas aí essa pessoa encontra aqueles nerds que lhe seguem no Facebook e que ela os aceitou por algum motivo gentil, e cumprimenta com muita frieza. De que adiantam as "palavras de amor" que servem de "alimento fecundo e permanente" para a alma, quando nas situações mais necessárias lhe falta o amor que, em tese, se transborda nesses "rios de águas frescas" e "mensagens fraternais"?

De tanto teorizar o amor, ele fica "complicado" porque as pessoas acabam achando que o amor é um problema complexo, uma especialidade científica, acabam acreditando que, para amar, precisa-se de muito esforço e muito sacrifício. E aí, desanimados, acabam ficando na zona confortável das relações por conveniência, das "amizades de ocasião".

Ou seja, tudo fica em vão. Analisa-se tanto o amor que ele se torna um assunto "difícil" e "desinteressante", tão "complicado" que cria uma dependência psicológica para aqueles que recorrem ao "espiritismo" para "melhorar suas vidas", tudo em vão.

É como nas drogas. Para retomar o prazer do amor, os "espíritas" precisam cada vez mais ouvir milhares de teorias sobre o amor, milhares de apelos para se amar, quando, na prática, a overdose de apelos e teorias acaba criando um cansaço psicológico que deixa as pessoas na mesma, quando muito havendo tolerância umas com as outras, mas pouca ou nenhuma afeição verdadeira.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dora Bria e o contexto da mulher brasileira hoje


Há exatos sete anos, numa tarde chuvosa numa estrada de Abaeté de Minas, Dora Bria perde o controle da direção do seu carro e encerra sua vida, poucos meses antes de completar 50 anos, de forma dramática.

Ela era windsurfista, e uma das poucas que nunca se casaram na vida, e havia, em 2007, dado até entrevistas para publicações como Caras. Poderia se passar por uma moça que ainda nem havia feito 30 anos, tal sua aparência e personalidade jovial, e hoje, se viva estivesse, seria uma "garotona" de 57 anos.

Quando morre uma mulher assim, de personalidade que une inteligência, simpatia, simplicidade e decência, sem se envolver em escândalos, estrelismos ou factoides, o Brasil perde muito. E, como Dora, muitas mulheres com personalidade dotada de tais qualidades faleceram precocemente, por diversos motivos.

Umas faleceram, como Dora, por algum acidente de trânsito. Outras, por doenças graves contraídas precocemente. Outras, assassinadas num assalto, num sequestro ou vítimas de balas perdidas. Outras, pelos próprios companheiros que, mesmo ricos e de boa aparência, só tardiamente revelaram pessoas cruéis e violentas.

O Brasil sente muita falta dessas mulheres, principalmente quando a imbecilização cultural atinge o grau extremo e preocupante, entrando pela porta da frente, nas salas de estar das boas casas, nas universidades e até nos colegiados de Antropologia. Sem exagero, mas tem gente que ainda tem coragem de fazer etnografia com bustos e glúteos siliconados.

Não que haviam deixado de existir mulheres com o perfil de Dora Bria, ou de outras como Daniella Perez, Monique Alves, Sylvia Telles, Leila Diniz e outras mulheres que se destacaram por suas qualidades mas tiveram suas vidas ceifadas. Mas, infelizmente, elas são raras diante de uma multidão imbecilizada ora pelo grotesco popularesco, ora pelo beatismo religioso.

São mulheres que não conseguem dosar seu senso de humor e aderem ao ridículo de seus referenciais "culturais" constrangedores. Outras não dosam sua sensualidade e só vivem de mostrar o corpo. Outras não dosam sua religiosidade e viram beatas, transformando suas páginas nas mídias sociais em verdadeiras igrejas.

São excessos que, em muitos aspectos, por mais que tais mulheres vivam independência financeira, profissional e até amorosa (várias são até "encalhadas"), revelam heranças de valores machistas, já que muito desses comportamentos é consequência direta dos estereótipos que o machismo impôs às mulheres, sejam elas "sensuais" ou não.

São valores que variam entre o sensualismo forçado, caricato e obsessivo e o religiosismo exagerado, passando pelo fanatismo futebolístico grosseiro, pela cafonice e pela pieguice convictas, que nenhum contexto de "engajamento" ou de "atitude" conseguem compensar.

Um exemplo. Ontem, no Rio de Janeiro, houve um concurso de topless em Ipanema, em que a indústria do entretenimento empurrou a funqueira Renata Frisson, a Mulher Melão, para forjar "engajamento", como se faz as mulheres que só vivem de mostrar o corpo.

Essas mulheres personificam, de forma explícita, valores machistas, mas precisam forjar uma mobilização social, se autopromovendo às custas de eventos contra estupro, contra a discriminação à sociedade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), ou usando alegações "militantes" como "liberdade do corpo", "direito ao desejo", "livre sensualidade".

São conversas para boi dormir, afinal tudo isso é desculpa e pretexto para mulheres associadas ao sensualismo grotesco originário de valores machistas, como Mulher Melão, Solange Gomes, Mulher Filé, Valesca Popozuda, Geisy Arruda e outras que se afirmam apenas pelo corpo exagerado ou pela sensualidade forçada, feita muitas vezes sem necessidade e tão grotesca que nem seduz.

Fora elas, existe nas mídias sociais uma multiplicidade de mulheres anônimas que exibem o pior gosto musical, as piores escolhas culturais, exageram na religiosidade ou na apreciação do futebol, entre tantas coisas cafonas, piegas, ridículas e exageradas, das quais chegam a defender com um certo orgulho e uma convicção que beira à arrogância.

Nada a ver com uma mulher do perfil que foi Dora Bria, ela mesma praticante e apreciadora de esportes, mas sem fanatismos. Talvez tivesse sua religiosidade, sem exageros, da mesma forma que sua beleza sensual não indicava nem sucumbia ao sensualismo forçado e grosseiro.

E, se Dora morreu solteirona como pouquíssimas de sua geração - quando muito, as solteiras de sua faixa etária passaram antes por experiência de casadas - , as poucas mulheres que reúnem qualidades semelhantes são tão raras que em sua maioria estão comprometidas na vida amorosa.

A imbecilização cultural dominante no Brasil, e atingindo graus extremos que fazem com que escapar delas torna-se difícil - a imbecilização criou até um exército de "fundamentalistas" na Internet, os quais reagem furiosamente quando alguém critica seus ícones e ídolos - , dificulta a ascensão social de mulheres que, independente de classe social ou padrão estético, possuem personalidade e vivem a vida de forma decente.

Por isso, quando houve o desastre de carro que matou Dora Bria, o Brasil sofreu mais uma vez um prejuízo. Morta, Dora dificilmente será um exemplo inspirador para a maioria das mulheres brasileiras, que preferem pautar sua personalidade em exemplos difundidos pela mídia "popular".

Com isso, a situação da mulher brasileira hoje é preocupante, porque os valores culturais difundidos pela grande mídia, apegada a promover sub-celebridades e "artistas" canastrões em quantidades "industriais" ano após ano, dificultam que as mulheres desenvolvam valores sócio-culturais edificantes, tornando-as reféns do machismo mesmo quando estão solteiras e solitárias.

Isso se torna bastante complicado e, mais uma vez, mostra o quanto o Brasil vive uma situação de atraso. No exterior, já surge uma Emma Watson mostrando personalidade diferenciada, mas aqui isso se torna extremamente raro e, portanto, pouco influente.

E, toda vez que perdemos mulheres como Dora Bria, lacunas são deixadas sem que elas possam ser devidamente preenchidas e complicadas. E o Brasil ainda quer ser a "vanguarda" da humanidade com essa situação de atraso extremo conduzido por uma mídia provinciana e coronelista e um sistema de valores retrógrado e viciado em muitos aspectos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"Colônia das Borboletas" e o outro fundamentalismo


Circula por vários blogues "espiritualistas" uma mensagem do gênero, supostamente recebida pelo "médium" Wagner Borges, em São Paulo, no dia 30 de novembro de 2014, foi atribuída, sem mencionar autoria específica, a uma suposta colônia espiritual denominada Colônia Extrafísica das Borboletas.

Reproduzimos a mensagem (com o mesmo tom alucinógeno das narrativas de Nosso Lar, livro de Chico Xavier em co-autoria não creditada de Waldo Vieira) para que os leitores possam analisá-las e compará-las conforme os ensinamentos do professor Allan Kardec.

A MENSAGEM DOS FALANGEIROS DA COLÔNIA DAS BORBOLETAS
(Um Recado Espiritual Para Alguém Coberto pelo Manto da Arrogância)

Meu amigo, nada do que você fizer irá separá-lo do Amor de Nosso Senhor.
Mesmo que você renegue a sua espiritualidade, o mundo espiritual não desaparecerá. E, na hora certa, quando você sair definitivamente do seu corpo, a realidade extrafísica se apresentará à sua frente.
Você pode se bloquear e até blasfemar contra a Luz, mas, mesmo assim, continuará sendo amado. Isso é certo, como a vida que passa e como a dor que chama para o devido reajuste consciencial...
Você pode odiar a canção da vida e tapar o seu coração com a cera da sua arrogância, mas a canção das esferas espirituais continuará encantando as estrelas e magnificando a existência infinita...
Você pode tentar trair a si mesmo dizendo que nada existe e que estava iludido com a espiritualidade, mas, em seu coração, você sempre saberá a verdade.
E sempre será amado, incondicionalmente porque a Luz jamais negocia com o ego de alguém! E o Amor é maior do que qualquer picuinha acalentada pela imaturidade consciencial do homem.
O seu encontro com a consciência cósmica já está traçado há muito tempo, pois esse é o caminho para todos os seres que evolvem pela fieira evolutiva. Isso é inexorável! Mesmo que você se bloqueie consciencialmente e queira atrasar sua jornada, eventualmente ela acontecerá...
Você pode se cobrir com o manto escuro da arrogância, mas as estrelas estão aguardando-o no seio do Eterno...
E nós, os seus amigos extrafísicos*, temos a paciência necessária para lidar com os arroubos do seu ego, porque conhecemos o seu jeito desde outras jornadas, dentro e fora do corpo. E, de vez em quando, você faz isso e tenta se autosabotar alegando motivos diversos (sempre baseados no seu personalismo barato e na sua verve irônica).
Mas nós sabemos que isso passará, como de outras vezes, seja pela dor ou pela volta do seu discernimento espiritual.
Isso é certo, como o Amor de Nosso Senhor.
Certo como o mergulho na consciência cósmica.
Certo como a Luz agindo silenciosamente em seu coração.
Sim, certo como a canção da vida, que jamais tem fim...

P.S.:
O Amor jamais condena. E a Luz não negocia com o ego.
Você pode até achar que está sozinho, mas uma parte sua sabe da verdade:
“Nada pode separá-lo do Amor de Deus”.
Isso é certo!
Então, Amor e Luz para você, sempre.

- Seus Amigos da Colônia Extrafísica das Borboletas, sempre trabalhando em nome de Nosso Senhor -
(Recebido espiritualmente por Wagner Borges – São Paulo, 30 de novembro de 2014.)

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Para piorar as coisas, há um blogue que se dedica ao "espitismo avançado", com ênfase na Conscienciologia e Projeciologia - criações de Waldo Vieira, ex-parceiro de Chico Xavier - , que investe na seguinte "pérola" para empurrar sua ideologia:

"O Espiritismo tem sido detonado e fanatizado pelos Espíritas, a Conscienciologia tem sido detonada por fanáticos. Todo este radicalismo fundamentalista destrói o que era para ser e deveria ser ciência. Este blog é uma crítica severa e bem humorada as pessoas que priorizam os 10% de diferença entre seus ideais e que ignoram os 90% de semelhança entre as opções evolutivas e linhas de pensamentos. Não adianta ser isto ou aquilo sem amor. Não adianta dizer que faz "ciência" com as paixões do umbigo".

A declaração é arrogante e mostra que o fundamentalismo não está naqueles que procuram "fechar" um sistema de ideias em seus conceitos mais precisos e originais. O fundamentalismo, muitas vezes, está naqueles que querem "abrir" um sistema de ideias a ponto de descaraterizá-lo e torná-lo mais confuso e impreciso.

A Conscienciologia e sua derivada, a Projeciologia, são consideradas pseudo-ciências, e são elas que fazem "ciência" com as paixões do umbigo, misturando crenças místicas do nível da Astrologia e do jogo de Búzios com Psicologia, Fisica e Antropologia.

Isso é que é o fundamentalismo que prevalece no Brasil. Um fundamentalismo do que se "abre" para fugir aos princípios originais. Um fundamentalismo da falsa diversidade, do pretenso ecletismo, da suposta originalidade, que na verdade esconde um processo perverso de descaraterizar sempre sistemas de ideias originais, para comprometer a transmissão natural e íntegra dos conhecimentos.

Assim, cria-se um "espiritismo" à moda da casa, e uma "ciência" feita "ao Deus-dará", sob a desculpa de adaptações, inclusões e flexibilidades, mas que ocorrem para justamente eliminar a essência original dos conhecimentos apresentados pelo sistema de ideias. Não há como fazer ciência dessa maneira tão caótica, ainda mais sob a arrogância dos defensores da Conscienciologia e da Projeciologia.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Devo é mais realista que Chico Xavier

A BANDA ESTADUNIDENSE DEVO, EM FOTO DE CERCA DE 1982.

Ser realista é muito melhor do que adotar um otimismo fora da realidade. As "profecias" fabulosas de Francisco Cândido Xavier já são duvidosas em muitos aspectos, por não passarem de devaneios mesclados com utopias religiosas, imagine então se comparados com outras abordagens, mesmo inusitadas?

Pois Chico Xavier perde até mesmo para a banda estadunidense Devo. Surgida em Akron, Ohio, a banda, ícone do som que misturava punk e tecnopop e se tornou um dos artífices do pós-punk - estamos falando de cultura rock, pessoal - é comandada pelos vocalistas e tecladistas Mark Mothersbaugh e Gerald Casale.

A banda - que viu regressarem ao mundo espiritual dois membros-fundadores, o ex-baterista Alan Myers e o guitarrista Bob Casale, irmão de Gerald - surgiu com uma ideia grave que eles trabalharam a princípio de forma humorística: a "teoria da devolução".

Segundo seus integrantes, a "devolução" consistiria no retrocesso da humanidade, em ritmo proporcionalmente inverso ao do avanço da tecnologia e do consumismo. À medida que a tecnologia avança e os bens de consumo se multiplicam, a humanidade passaria a retroceder no aspecto moral, não sendo necessariamente má, mas deixando de ser naturalmente generosa e solidária.

É o que acontece, na sociedade neoliberal e tecnocrática em que vivemos. A tecnologia avança, o consumismo aumenta, e as pessoas deixam de valorizar a amizade e se contentam em serem multidões solitárias reunidas nas mídias sociais, mas incapazes de levar a vida social para além do grupinho do qual está acostumado a se relacionar (e olhe lá).

O Devo afirmava que a "devolução" recuperava os instintos primitivos da sociedade, além de estimular o emburrecimento, a alienação e a estupidez. Por isso, o retrocesso movido pela tecnologia e pelo consumo, criando um "mundo bonito" de conformismo, de aparente felicidade, que a consciência já não consegue mais definir do que se trata.

Isso é muito diferente das fantasias trazidas pelo "velho Chico", o "bom velhinho", falecido há mais de dez anos, mas que continua enfeitando as mídias sociais com suas frases açucaradas. Chico Xavier acreditava que o mundo iria progredir sob o silêncio da prece e o sentimento de fé no coração.

Isso parece muito fácil. Mas a realidade está regredindo de forma catastrófica. Se Chico Xavier "prevê" uma catástrofe a atingir a Europa, os EUA, o Oriente Médio e a Ásia, ele não previu a catástrofe da mediocrização cultural, da corrupção e da violência que assolam o Brasil tão "predestinado" a ser a "vanguarda" da humanidade planetária.

Se os países desenvolvidos vivem a crise do consumismo, e começam a repensar seus valores, sobretudo diante de atos terroristas como os que ocorreram nos EUA, Inglaterra, Espanha e França nos últimos 15 anos, atingindo do World Trade Center à redação do periódico Charlie Hebdo, o Brasil vive a crise de valores resultante do colapso causado pela ditadura militar.

Vivemos um mundo em crise, e não será o Brasil que resolverá esse quadro. Não há reino de amor algum em cogitação, o que existe é um quadro de crises sociais profundas e trágicas, das quais teremos que resolver de forma coerente e sensata, num quadro conflituoso do qual o "silêncio da prece" se torna apenas uma solução inócua, tal qual uma água com açúcar.

O Devo deu uma grande lição de realismo. E o realismo prepara muito mais as almas para a transformação não somente individual, mas grupal, e não somente a transformação do "eu", mas também a do "outro".

Daí que o realismo vivifica muito mais do que otimismos vãos. As "profecias" de Chico Xavier de um "mundo feliz" comandado pelo Brasil são apenas conversas para boi dormir. O "buraco" está mais embaixo, e antes admitíssemos as catástrofes e crises à nossa frente do que ficar sonhando em "reinos de amor e luz" que nada dizem na complexa realidade em que vivemos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Até conhecedores do Espiritismo no Brasil não sabem o que é mediunidade

A APARENTE MEDIUNIDADE DE DIVALDO FRANCO E CHICO XAVIER É ASSOCIADA A GRAVES IRREGULARIDADES QUE CONTRARIAM OS ENSINAMENTOS DE ALLAN KARDEC.

Há um sério problema nas mídias sociais, quando os debates giram em torno da mediunidade. Mesmo aqueles que questionam os descaminhos da Doutrina Espírita no Brasil se sentem inseguros quando os alvos dos questionamentos envolvem os badalados Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco.

Os dois, apesar do grande carisma que contraíram, também estão envolvidos em diversas irregularidades no processo mediúnico, conforme diversas pesquisas comparativas comprovaram. Ambos estão envolvidos com atos que variam desde plágios em supostas psicografias até na participação de fraudes relacionadas à psicofonia e materialização.

O próprio temor místico-religioso dessas pessoas, ainda tomadas de preconceitos e de falta de firmeza em relação aos problemas existentes no "espiritismo" brasileiro, ainda tenta afirmar, mesmo sem justificativas convincentes, de que a mediunidade adotada no "espiritismo" brasileiro é totalmente confiável.

Pesquisando várias fontes e analisando fontes alheias que questionam a mediunidade de Chico Xavier e Divaldo Franco, só para citar os "tarimbados", observa-se que eles acumulam irregularidades que poderiam muito bem fazê-los reprovados definitivamente do crédito de mediunidade. Isso sem falar da informação óbvia de que os dois nunca estudaram Allan Kardec.

No entanto, apesar dessas irregularidades, seus adeptos ou mesmo seus contestadores mais hesitantes, tentam afirmar que a mediunidade deles é "100% confiável", mesmo com os piores erros por eles cometidos, e que causam alvoroço na imprensa.

Se eles causam escândalo quando tais irregularidades são denunciadas, é porque tem algo errado. Não há como tapar o sol com a peneira e creditar como "julgamento terreno dos homens" pareceres científicos ou questionamentos cautelosos que apontam equívocos e indícios de fraudes em mensagens supostamente mediúnicas dos dois.

Tomados de medo, os adeptos mais espiritólicos são marcados pelo discurso choroso que afirma que Chico e Divaldo são "perseguidos" pelo "incêndio da opinião pública". Mas mesmo aqueles que não compartilham com a orientação catolicizada desses "espíritas" também manifestam semelhante medo, hesitantes diante da exigência da coerência lógica.

Eles até entram em contradição. Exigem "embasamento científico" quando alguém formula uma denúncia de tal irregularidade, mesmo quando esse alguém já realiza uma abordagem científica, verificando argumentos e apresentando provas. No entanto, não tem essa exigência quando se trata de "legitimar" as mediunidades de Chico e Divaldo, em que um mero "manifesto de fé" basta.

O desconhecimento do processo de mediunidade permite a legitimação e até o deslumbramento de processos duvidosos de falsetes se passando por psicofonia, cartas "diferentes" com a mesma assinatura do suposto médium, quadros de "diferentes pintores" que soam parecidos e têm como assinatura a mesma caligrafia do suposto médium, tudo porque as pessoas se impressionam demais com as semelhanças, sem saber as diferenças.

Desse modo, as pessoas se iludem com semelhanças banais, com vagos traços de personalidade que não passam de imitação. Afinal, o falso tenta se parecer verdadeiro e assume algumas semelhanças, mas poucos percebem que é pelas diferenças gritantes que o falso deixa de parecer verdadeiro.

Em muitos casos, não basta ler O Livro dos Médiuns, sobretudo na tradução cuidadosa de José Herculano Pires, para saber o que é mediunidade. O livro é um guia fundamental, mas existem novos problemas e dilemas para os quais a obra de Allan Kardec é uma bússola, mas o leitor terá que ir adiante analisando por conta própria as irregularidades da mediunidade malfeita ou desvirtuada.

ALLAN KARDEC ALERTAVA SOBRE OS ERROS

Allan Kardec alertava sobre os fenômenos associados ao Espiritismo que, se for apontado um único erro em cada um deles, deve-se reprová-los. Se uma manifestação de espírito apresentar alguma irregularidade, ela deverá ser rejeitada, por contrariar a coerência e a lógica dos fatos.

Isso é muito importante, e Kardec havia escrito e expresso várias vezes. Isso mesmo os seus adeptos aparentemente mais dedicados - mas não o suficiente para contestarem em todo os descaminhos do "espiritismo" brasileiro, falhando quando "esbarram" nos totens consagrados - se esquecem completamente.

Melindrosos, eles tentam arrumar uma desculpa de que Chico Xavier e Divaldo Franco "com toda a certeza, erraram", mas "merecem lugar" no Espiritismo autêntico por "suas lições de vida" e por seu "trabalho mediúnico".

Imaginam que eles "apenas" compreenderam mal a doutrina de Kardec e agiram "por boa-fé", quando os fatos mostravam que eles, quando convinham, agiam por má-fé mesmo na deturpação da Doutrina Espírita.

O próprio Allan Kardec, justo e coerente, iria reprovar Chico Xavier e Divaldo Franco e provavelmente diria o seguinte: "Não há sombra de dúvida de que os dois são pessoas da mais terna simpatia e apreço. Mas o trabalho que os dois fizeram em nome da Doutrina Espírita é bastante irregular, de maneira que não se pode lhes atribuir confiabilidade plena ao que fazem".

Esse suposto comentário se baseia no que Kardec seria capaz de dizer e avaliar sobre as coisas. Ele não sucumbe às tentações da fé ou às ilusões de carisma para legitimar alguém, se os atos apontam justamente o contrário.

Outra coisa estranha é atribuir os questionamentos seguidos de provas e argumentos lógicos a Chico Xavier e Divaldo Franco como "julgamentos terrenos", se por outro lado são as ilusões terrenas, do status quo celebrado pelos homens na Terra, legitimado pelo julgamento dos homens dotados de prestígios materiais, que legitimam e promovem a pretensa superioridade dos dois anti-médiuns.

São as paixões da Terra, mesmo apoiadas numa religiosidade supostamente espiritualista, que fazem Chico Xavier e Divaldo Franco serem vistos como "espíritos superiores". Portanto, são sentimentos materialistas, situações materialistas, intenções materialistas, que preferem ignorar irregularidades, sob o pretexto do "mistério da fé", do que investir no doloroso processo do realismo lógico.

Por isso, contrariando as recomendações de Allan Kardec, mesmo os espíritas brasileiros com alguma dedicação ainda têm medo de reprovar aqueles que erraram, e erraram muito. Ainda estão presos às paixões materialistas que atribuem supostas superioridades aos totens do "espiritismo" brasileiro.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A música brasileira do "Coração do Mundo"


Tão tomado de "erudição" e "bom gosto", o "espiritismo" brasileiro cria um padrão de espiritualidade em que valores conservadores aliados a uma mediocridade sócio-cultural são estimulados e efetivados.

Uma religião que está mais próxima de uma tradução heterodoxa e moderada do Catolicismo medieval do que de uma adaptação brasileira do Espiritismo de Allan Kardec, certamente, se compromete em promover um país não muito transformador que vemos no Brasil.

Defendendo valores morais conservadores, com a mesma energia que o Catolicismo teve até pouco tempo atrás, o "espiritismo" brasileiro também não seria muito progressista em matéria de "cultura brasileira".

O "espiritismo" é tão brega na sua expressão que mistura pieguice sentimental, misticismo esotérico e moralismo religioso sob um verniz de espiritualidade futurista e apreciação da ciência que ela se une aos bregas até mesmo no nome do Padre Manuel da Nobrega, placa de rua que batizou a "cultura" dos cafonas e que remete à famosa encarnação do espírito Emmanuel.

E como essa doutrina atrasada, ainda fundamentada no Catolicismo medieval e nas crenças influenciadas por Jean-Baptiste Roustaing - como a de colocar o homicídio como mal menos grave do que o suicídio - , e com um moralismo que, entre outras coisas, dá uma valorização exagerada e materialista da família, pode influenciar no declínio cultural do Brasil? Muita coisa.

O "espiritismo" brasileiro, como sistema de conhecimentos e de valores, em nenhum momento representou uma alternativa relevante e transformadora diante do Catolicismo propriamente dito e nem das chamadas seitas neopentecostais, tidas como "protestantes", e nem mesmo das crenças evangélicas autênticas.

Muito pelo contrário, se compararmos a pregação de astros como Divaldo Franco e Chico Xavier com as do líder protestante Martim Luther King Jr., os dois perderiam feio diante das lições coerentes e precisas do grande ativista norte-americano assassinado em 1968.

Mesmo assim, o "espiritismo" bate o pé e quer que um Brasil atrasado esteja na vanguarda do mundo ou talvez do Universo e dite seus valores esquizofrênicos para o resto da humanidade, além de promover o "espiritismo" de Chico Xavier e companhia como se fosse a "última palavra" em termos de doutrina filosófica e espiritualista.

Musicalmente, o "espiritismo" se traduz numa valorização de músicas românticas, com apelação religiosa ou com alguma letra "positiva", naquilo que seus líderes e seguidores entendem como "temas edificantes". Tudo sem critério, já que em sua apreciação vale tanto uma canção bonita mas manjada como "Canção da América" como qualquer baboseira de Sullivan & Massadas.

Mas isso não impede que o "astral espírita" que anuncia o Brasil como o "Coração do Mundo" apronte na valorização da cafonice dominante. Até porque, nos circuitos "laicos", o padrão de sociedade desejado pelo "espiritismo" brasileiro dá preferência às baixas manifestações musicais, como o "sertanejo", a axé-music, o "forró eletrônico" e o "funk".

Verificando a "fronteira" entre um conhecido "centro espírita" de Niterói, o Centro Irmã Rosa, e todo um circuito de bares e boates em seu entorno, não é de se surpreender que, fora das "doutrinárias", a "livre" valorização da música brasileira tende a preferir não uma cultura que eleve o espírito, mas aquela que "faz muito sucesso".

Claro, são canções "bonitas" ou "divertidas", do "sertanejo" ao "funk", que "todo mundo gosta". E cujos ídolos são "gente boa", se esforçando em trazer "boas energias" para a plateia. O "espiritismo" cujo astro maior, Chico Xavier, apoiou Fernando Collor, oferece condições de favorecimento e proteção aos ídolos musicais patrocinados pelo "caçador de marajás" e seus aliados.

Tudo a ver. O moralismo "espírita" mais pune os diferenciados do que os errados, protegendo pessoas de índole retrógrada, mas comprometida com o zelo do que as forças conservadoras entendem como "equilíbrio moral". E isso dá para juntar as peças do quebra-cabeça.

As próprias forças políticas, empresariais e midiáticas que promovem a supremacia do conservadorismo sócio-cultural se apoiam nos mesmos valores moralistas religiosos, na defesa da "família" e no combate à "subversão", lançando mão de medidas intimidatórias (como a pistolagem) ou de processos de domesticação sócio-cultural das classes populares.

Daí que, musicalmente, juntando esses interesses com outros comerciais e de outra natureza controladora, mesmo num contexto "laico", essas forças se afinam muito com o "espiritismo", tanto que, na Salvador de Divaldo Franco e José Medrado, a quase totalidade de músicos adeptos ou simpatizantes de sua doutrina vêm justamente da axé-music.

Fora os clássicos já muito manjados da MPB autêntica, como a citada "Canção da América" de Milton Nascimento e Fernando Brant ou "Eu Sei Que Vou Te Amar", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, o "espiritismo" não tem interesse em apreciar a canção brasileira de qualidade, que realmente elevasse o espírito, mas apenas canções "feitas para toda a família".

CHITÃOZINHO & XORORÓ E ALEXANDRE PIRES - ELES TAMBÉM TENTAM TIRAR VANTAGEM COM "PALAVRAS DE AMOR".

É como defender a produção de sucos que valem mais pelo gosto do açúcar do que pelo sabor de sua respectiva fruta. Além disso, o padrão de "liberdade moral" do "espiritismo" brasileiro permite, em contrapartida, que se apresentem às crianças sucessos como "Beijinho no Ombro" e "Segura o Tchan", apenas dentro dos limites "saudáveis" da "moralidade espírita".

Isso para não dizer a canastrice pseudo-sofisticada e pseudo-MPB de nomes da música brega, como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Leonardo, Daniel e Zezé di Camargo & Luciano, além de nomes mais recentes como Luan Santana, Thiaguinho e Cláudia Leitte, que tentam algum "lugar nobre" na Música Popular Brasileira seguindo a mesma cartilha das "palavras de amor".

É a mesma desculpa que faz Chico Xavier ser visto como um "vice-deus" e que, na música brasileira, faz do romantismo um artifício para que muitos canastrões musicais tentem entrar no primeiro time da MPB pela porta dos fundos, ou pela porta da frente, se algum complacente deixar.

Mas como essa "moralidade" é confusa, enérgica demais com quem é diferenciado e elevado, e branda demais com quem comete erros graves, tem tudo a ver a musicalidade brega predominar no país que é anunciado como a "vanguarda da espiritualidade planetária".

Sem representar alternativa real à religiosidade predominante, o "espiritismo" cria condições diversas que propiciam a degradação cultural do país, e não adianta os líderes "espíritas" reclamarem das baixarias do "funk", "sertanejo universitário" e quejandos. O "espiritismo" prometeu remediar a sociedade, mas trouxe doenças ainda piores que refletem na cultura brasileira como um todo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Espiritismo e cultura rock: iguais processos de domesticação no Brasil


No Brasil, existe o hábito de introduzir novidades sempre adaptadas em bases velhas. Geralmente ideologias novas ou propostas arrojadas, para serem introduzidas no Brasil, em vez de romper com estruturas precedentes e já saturadas, os adaptam, trazendo para os novos ideais procedimentos decadentes que eliminam o aspecto inovador de cada novo ideal.

O próprio "movimento espírita" segue esse contexto, quando as ideias arrojadas do pedagogo Allan Kardec, fundamentada na onda de descobertas e novidades no âmbito do conhecimento científico, foram introduzidas no Brasil e diluídas a ponto de praticamente se reduzirem a um religiosismo conservador cujos avanços restringem a um confuso e inócuo pedantismo pseudo-científico.

E já que estamos na época de celebrar os 30 anos do Rock In Rio, outro exemplo mostra o quanto o Brasil tem essa mania de "podar" ideias arrojadas, diluindo-as a um nível que pareça ao mesmo tempo inócuo e estabilizável, minimizando os efeitos revolucionários da maneira que adaptam as novas ideias a procedimentos e abordagens decadentes e até obsoletos.

O Rock In Rio, claro, foi um evento que consagrou o mercado de música internacional e que constituiu para popularizar um tipo de comportamento juvenil que não é exclusivo dos ouvintes de rock, mas caraterístico e típico deles.

Para quem não entende a cultura rock, vale uma ligeira explicação. O rock, ritmo surgido há 60 anos, se amadureceu na década de 1960 ao assumir uma diversidade cultural e um engajamento ideológico que mobilizou muitos jovens que pediam a transformação da humanidade, reagindo contra procedimentos e valores antiquados vigentes na sociedade.

Com a cultura rock, criou-se uma cultura alternativa, que se diversificava conforme o contexto de cada país, que estabeleceu um estado de espírito juvenil voltado à contestação, ao exame, ao questionamento da realidade, além de uma atuação independente de poderes e valores considerados dominantes.

Desde então, vieram correntes que eram até divergentes entre si, mas eram baseadas na atuação independente e no engajamento artístico e sócio-cultural, como o psicodelismo, o punk e o pós-punk, entre outras expressões.

E, de repente, esse estado de espírito chegava ao Brasil a partir do começo dos anos 70 e que se ampliou quando uma geração de rádios roqueiras, no início dos anos 80, divulgava movimentos culturais e adotava uma mentalidade não só musical, mas também sócio-cultural e ativista. A Fluminense FM, de Niterói, simbolizava esse espírito que se encaixava no período de decadência da ditadura militar.

O Rock In Rio iria ampliar essa mentalidade, mas, com o tempo, uma leva de rádios comerciais começou a trabalhar uma imagem domesticada do jovem roqueiro, eliminando o que ele tinha de mobilizador e reduzindo a rebeldia a aspectos formais, como vestuário e vocabulário, que na prática escondiam ideias e procedimentos conservadores.

A 89 FM de São Paulo é seu símbolo maior (atualmente, tem também a Rádio Cidade, no Rio de Janeiro). A emissora tem como donos uma família cujo patriarca foi político da ARENA durante a ditadura militar, a mesma que foi apoiada por Chico Xavier (que muitos incautos pensam ser progressista).

Isso diz muito para uma rádio que tenta "canalizar" a rebeldia juvenil para um nível ideológico mais conservador, voltado ao consumismo ao invés do ativismo. E diz muito o fato da rádio adotar um padrão de locutores que parecem falar com os roqueiros como se fossem criancinhas mimadas de 12 anos.

Com isso, a família fica completa. Os pais evitam se aprofundar no conhecimento científico de Allan Kardec, que abriria às portas para o cientificismo geral europeu (como Voltaire e Rousseau), e se contentam em "estudar Kardec" através do religiosismo conservador de Chico Xavier.

Enquanto isso, os filhos evitam se aprofundar no questionamento juvenil da realidade, se conformando até demais com o "sistema", usando o "rock pesado" tocado pela 89 FM ou pela Rádio Cidade apenas como mera catarse para extravasar seus instintos como num "exorcismo" para gastarem energia e voltarem ao sossego do conservadorismo de ideias.

E todos orando em silêncio enquanto o Brasil apresenta problemas diversos, fruto de novidades mal assimiladas e de um atraso que não consegue ser superado de forma alguma. E ainda acreditam que é esse país que vai comandar a humanidade planetária no futuro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O que o "coração do mundo" tem a dizer sobre as mulheres-objetos?

MULHER MELÃO MOSTRA OS "DOTES FÍSICOS" NA PRAIA DE COPACABANA.

Anunciam que o Brasil será a vanguarda do mundo. O terrorismo irá eliminar os países civilizados na Europa e nos EUA, terremotos e tsunamis tirarão do mapa a Califórnia, também nos EUA, e vários países da Ásia, da Oceania e da Europa escandinava. Países asiáticos serão dizimados pelo terror e pelos terremotos, e com tudo isso o "velho mundo" desaparecerá, abrindo caminho para o Brasil.

Tudo bem. A "profecia" parece maravilhosa para muitos, afinal vem de Chico Xavier, o "bom velhinho" de frases dóceis que as pessoas colocam nas mídias sociais e que mesmo os espíritas de um nível de seriedade considerável, mas ainda insuficiente, querem manter no pedestal.

O Brasil, dizem, está vivendo uma revolução de ordem científica, cultural, moral e de outros âmbitos, e outro "bom velhinho", Divaldo Franco, nas suas palestras "sobre a paz", afirma que esse progresso está acontecendo há vários anos. Então tá.

Que "progresso" é esse então que está acontecendo? No âmbito científico, temos acadêmicos e intelectuais "masturbando" com a imbecilização cultural e com frivolidades tipo "como o Gangnam Style pode fazer a água doce ficar mais cristalina".

No âmbito cultural, a citada imbecilização que, sob o rótulo de "popular", despeja centenas de aberrações e canastrices, não somente musicais, mas comportamentais, informativas etc., destinadas a fazer sucesso por toda a vida, nem que seja à custa de factoides e bobagens ditas na imprensa.

As chamadas "musas sensuais", ou, deixando de ser politicamente corretos, as mulheres-objetos, que se acham a expressão "feminista" do país que pretende ser a "vanguarda da espiritualidade planetária", são o exemplo desse problema que temos entre milhares no nosso país.

Essas mulheres se ocupam apenas em mostrar seus corpos, numa pretensa sensualidade que, de tão obsessiva, rotineira e repetitiva, é de cansar e causar tédio até em tarados de plantão. Nada fazem a não ser "sensualizar", "sensualizar" e "sensualizar". E se acham "feministas" só porque, em maioria, as "musas" parecem não ter namorados nem maridos.

Há sub-celebridades como Solange Gomes, Geisy Arruda, Nicole Bahls e uma Andressa Urach que, por pouco, não regressou à "pátria espiritual". Há funqueiras com nomes de "frutas", as tais "mulheres-frutas", que incluem Mulher Melancia, Mulher Melão e Mulher Maçã, mas tem até a Mulher Filé, e funqueiras sem nomes de "frutas" como Valesca Popozuda.

Há moças saídas do Big Brother Brasil que só saem para agitos noturnos (que o establishment midiático define pela gíria "balada", expressão coloquial tão enjoada quanto o "chuchu beleza" dos anos 70). Há as musas de campeonatos de luta tipo UFC que, além de segurar plaquetas, só sabem mostrar seus corpos.

Isso não é exclusivo no Brasil, mas é no Brasil que essa exploração fútil do corpo feminino, num contexto em que "estamos preparados para governar o mundo", encontra maior terreno. Só em 2011, foram contabilizadas pelo menos 200 mulheres que buscavam a fama apenas "mostrando demais", nos portais de celebridades dos mais diversos no país.

E ver que, por outro lado, algumas mulheres dotadas de personalidade, como Daniella Perez, Dora Bria, Nara Leão e Monique Alves, e, mais antigamente, Leila Diniz e Sylvia Telles, faleceram cedo, sem que pudessem fazer seus exemplos se propagarem na sociedade, o que torna constrangedor ver que uma boa parcela de mulheres brasileiras perde tempo fazendo "sensualidade barata".

Isso revela uma crise de valores e uma série de contradições que existem no país que se acha preparado para comandar a comunidade das nações. As mulheres-objetos se acham "feministas" e arrumam desculpas para sua "sensualidade barata": "liberdade do corpo", "direito à sensualidade", "livre expressão da beleza brasileira (?!)" etc.

Elas não fazem outra coisa e nem sequer se reservam a proteger seus corpos da superexposição nem de usar roupas discretas conforme a situação. Até no frio querem "sensualizar", ignorando riscos. Solange Gomes, por exemplo, usou roupas curtas para um evento realizado numa cidade que tinha apenas 10°C de temperatura.

Elas não têm personalidade, não costumam expressar ideias coerentes - pelo contrário, cometem muitas gafes, são grosseiras e arrogantes - , e acabam desmoralizando o feminismo e a emancipação feminina, até porque essas "musas", no fundo, seguem valores machistas, elas são a personificação de uma imagem de mulher trabalhada pelo mais grotesco, histérico e irredutível machismo.

E como é que o Brasil, "pronto" para virar "potência econômica" e "coração do mundo", terá que lidar com esse exército massivo de centenas de mulheres-objetos que surgem a cada ano no país? E como é que vamos ser a vanguarda do mundo se são justamente essas "musas" que representam o paradigma de "feminismo" difundido com entusiasmo até por uma elite influente de intelectuais?

A luta das mulheres nesses tempos todos, que representou muito sangue, muitas mulheres mortas, pela violência, pela opressão do trabalho, pelo descaso das autoridades, pelos erros médicos, pelos latrocínios e acidentes de trânsito etc, não foi feita para que a emancipação feminina se reduza a uma superexposição de bustos e glúteos siliconados exibidos sem a menor necessidade.

A "liberdade de corpo", desprovida de liberdade da alma, de qualquer capacidade de raciocinar e apreciar a vida e o mundo de maneira mais útil e coerente, faz grandes estragos na medida em que essas mulheres tornam-se formadoras de opinião e modelos de comportamento para as jovens moças do futuro, sobretudo nas periferias.

Ver o Brasil virar vanguarda com esse tipo bisonho de "feminismo" é estarrecedor. E o exército de mulheres-objetos parece querer durar a vida toda, com a exposição de corpos tão gratuita que causa tédio e constrangimento. Isso desmoraliza a luta das mulheres e ofende o verdadeiro feminismo, além de desonrar as tragédias que ceifaram as vidas de milhares de mulheres batalhadoras e dignas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O reacionário Chico Xavier

CHICO XAVIER PEDIA QUE APOIÁSSEMOS OS MILITARES QUE, NA ÉPOCA, AUTORIZAVAM SESSÕES DE TORTURA COMO DESTA FOTO À DIREITA.

Tão conhecido ingenuamente (e de maneira exagerada) como o "mais progressista dos progressistas" por seus apaixonados seguidores, Chico Xavier também tinha seu lado sombrio. Quando lhe permitia, ele tinha língua ferina, julgava e condenava e botava tudo na conta de pessoas falecidas cujos nomes lhe eram tomados por apropriação indébita.

Extremamente conservador, Chico Xavier apenas deixava isso implícito em suas "palavras de amor", cujo nível ideológico sugeria adiarmos a luta por melhorias de vida e aceitarmos o pior sofrimento com resignação (ou conformismo) e orarmos em silêncio, aguentando qualquer barra pesada sem protestar.

O doce masoquismo que Francisco Cândido Xavier desejava a seus fiéis, sempre sugerindo que, em vez do questionamento e da contestação, nos limitemos a orar, e, em vez de fazermos queixas, que aguentemos tudo em silêncio, tem muito a ver com a declaração que publicamos a seguir.

A declaração parece um dos manifestos do IPES, o "instituto" que pedia o golpe militar de 1964, ou um editorial de O Estado de São Paulo, só para citar o periódico paulista que era o mais reacionário da mídia mais reacionária, tanto quanto a Tribuna da Imprensa, mas aparentemente com menos fúria do que o jornal carioca de Carlos Lacerda.

Ela foi dada por Chico Xavier em 28 de julho de 1971, quando ele foi entrevistado no programa Pinga-Fogo, da TV Tupi de São Paulo, cujos vídeos estão disponiveis até no YouTube. E mostram um Chico Xavier ácido, longe das "palavrinhas de amor" que adoçam mentes e envenenam vidas:

"Temos que convir (...) que os militares, em 3l de março de 1964, só deram o golpe para tomar o Poder Federal, atendendo a um apelo veemente, dramático, das famílias católicas brasileiras, tendo à frente os cardeais e os bispos. E, na verdade, com justa razão, ou melhor, com grande dose de patriotismo, porque o governo do Presidente João Goulart, de tendência francamente esquerdista, deixou instalar-se aqui no Brasil um verdadeiro caos, não só nos campos, onde as ligas camponesas (os “Sem Terra” de hoje)), desrespeitando o direito sagrado da propriedade, invadiam e tomavam à força as fazendas do interior. Da mesma forma os “sem teto”, apoderavam-se das casas e edifícios desocupados, como, infelizmente, ainda se faz  hoje em dia, e ali ficavam, por tempo indeterminado. Faziam isto dirigidos e orientados pelos comunistas, que, tomando como exemplo a União Soviética e o Regime Cubano de Fidel Castro, queriam também criar aqui em nossa pátria a República do Proletariado, formada pelos trabalhadores dos campos e das cidades".

Chocante, para os incautos que acham que Chico Xavier é "todo amor e bondade", ele baixar a lenha em agricultores e moradores de rua que não eram beneficiados por políticas de reforma agrária e reforma urbana, e condenar os movimentos reivindicatórios das classes operárias.

Chico reproduz, nesse depoimento, a visão golpista de 1964 reafirmada desde o final de 1968 com o quinto Ato Institucional (AI-5), com o mais furioso reacionarismo. É o "homem chamado Amor" que, contraditoriamente, despeja toda sua raiva contra o operariado, o campesinato e os sem-teto forçados a morar nas ruas. Faltou-lhe o "espírito misericordioso" que fez e ainda faz sua fama e prestígio.

Pois esse é o reacionarismo de Chico Xavier, a face oculta do homem cujos seguidores enxergam qualquer virtude, até mesmo as que Chico nunca teve - como a de profeta, filósofo e cientista - , mas que se cegam aos defeitos que se mostram bastante claros como este, em que Chico mais parecia um líder udenista do que um líder espiritualista.

Para uma instituição como a FEB, que esteve na Marcha da Família Com Deus pela Liberdade, isso muito tem a ver. E esse "espiritismo" ainda se acha a vanguarda religiosa do Brasil, capaz de comandar o país na liderança mundial do futuro!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Auta de Souza e a apropriação tendenciosa do "movimento espírita"


Lamentável o que ocorre no "movimento espírita", em que existe a glamourização das tragédias prematuras e a apropriação dos espíritos dos mortos para veicular mensagens religiosas supostamente atribuídas a eles.

Um claro exemplo de como é essa apropriação oportunista é o que se fez com gente como Irma de Castro, a Meimei (1922-1946), e a jovem poetisa Auta de Souza (1876-1901), em que a natural comoção por suas mortes prematuras foi aproveitada pelo "movimento espírita" para se apropriar de suas imagens e forjar um pretenso legado espiritual.

Explorando e faturando em cima das memórias das duas jovens, o "movimento espírita" as reduziu a meras propagandistas do Espiritolicismo, tornando-as escravas de uma missão meramente proselitista, estando associadas a meras mensagens piegas de "amor e luz", sujeitas a pregar sempre essa visão piegas e sentimentalista.

No caso de Auta de Souza, tornou-se pior. Esquecida poetisa potiguar, até por ter falecido muito jovem, antes de levar adiante sua ascensão - era apoiada por Olavo Bilac - , ela chegou até a ser relembrada, décadas depois, por Otto Maria Carpeaux, escritor e intelectual, mas depois passou a ser associada tendenciosamente ao anti-médium Francisco Cândido Xavier.

Ela foi associada meramente ao proselitismo religioso, em que mesmo poemas seus autênticos - publicados no seu único livro, Horto, lançado em 1900 - eram misturados a poemas atribuídos a seu espírito - divulgados sobretudo por Chico Xavier - , dentro de um contexto de sentimentalismo místico e apegado na fé.

Auta foi uma poetisa da segunda geração do Romantismo, gênero que teve, entre outros, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire e Castro Alves. Havia o Romantismo, de temáticas amorosas ou sociais, e seu derivado mais melancólico, o Ultrarromantismo, inspirado nas leituras de Os sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang Goethe.

Para quem não sabe, Werther era um jovem apaixonado por Charlotte, uma bela mulher que no entanto estava comprometida e iria se casar. Os dois eram amigos e o noivo de Charlotte, Albert, de índole mais sisuda, era todavia cordial e educado com o jovem que, não suportando a paixão impossível, pede a Albert seu revólver emprestado e se mata disparando-o contra seu peito.

A melancolia inspirou a geração ultrarromântica, associada às frustrações amorosas, numa vida que, em uns, era marcada pela vida boêmia (Álvares de Azevedo) ou pela religiosidade (Auta de Souza) ou pela saudade da infância (Casimiro de Abreu) ou pelo pessimismo (Junqueira Freire e Fagundes Varela).

Auta surgiu já na fase do Simbolismo, que já mostrava as poesias de Augusto dos Anjos e Raul de Leoni, também vítimas da apropriação nominal de Parnaso de Além-Túmulo, que mais parece uma requentada obra anti-modernista (talvez o interiorano Chico Xavier não fosse com a cara do arrojado movimento da Semana de 1922) do que uma "avançada" antologia espiritual.

SONETO "ESPIRITUAL" PECA PELO PANFLETARISMO RELIGIOSO

Comparemos dois sonetos relacionados a Auta de Souza, um de sua autoria, "O Beija-flor", e datado de 1896 e outro, "Pensa", atribuído ao espírito da poetisa, divulgado por Francisco Cândido Xavier durante a reunião do Grupo Meimei, na cidade de Pedro Leopoldo (MG), em 31 de julho de 1954.

Nota-se que o poema de Auta é gracioso e de versos melodiosos, expressando um frescor de natureza, deslizando pelas métricas e rimas do soneto produzido pela jovem e um dos mais famosos de sua antologia poética.

Já o poema "espiritual" soa cansativo e, ainda que Auta pudesse produzir poemas melancólicos e religiosos, o estilo destoa do que a jovem seria capaz de escrever em vida, principalmente pela métrica cansativa.

Além disso, o poema em questão pelo proselitismo religioso que, em temática, coincide muito com os apelos de Chico Xavier em prol do conformismo ante o sofrimento, como se fosse a glamourização do sofrimento humano, já que é de praxe o "espiritismo" brasileiro se promover às custas das angústias alheias.

O BEIJA-FLOR

Auta de Souza - 1896 - Publicado no livro Horto

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou... Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

==========

PENSA

Atribuído a Auta de Souza - Divulgado por Chico Xavier, em 31.07.1954

Antes de maldizer a própria sorte,
Pensa nos tristes de alma consumida,
Que vagueiam nas lágrimas da vida,
Sem migalha de amor que os reconforte.

Que a retaguarda escura nos exorte!
Contemplemos a noite indefinida
Dos que seguem sem pão e sem guarida
Entre a dor e a aflição, a treva e a morte!

Pensa e traze aos que choram no caminho
A fatia de luz do teu carinho,
Pelas mãos da bondade, terna e boa...

E encontrarás no pranto da amargura
A fonte cristalina que te apura
E a Presença do Céu que te abençoa.

Note-se que o estilo destoa completamente do original, sendo mais um daqueles apelos de Chico Xavier para aceitarmos os problemas e declínios da vida - quanto pior, "melhor", não é? - , dentro do ideal de glamourização do sofrimento humano.

Xavier já teve problemas em relação aos poemas que ele colocou como de autoria de Auta de Souza, tanto que, da segunda para a terceira edição de Parnaso de Além-Túmulo, respectivamente de 1935 e 1939, ele havia mudado alguns versos para "satisfazer a métrica", como foi obrigado a admitir o pesquisador Alexandre Caroli Rocha, quando analisou a antologia poética.

Uma amostra é o poema "Contrastes", do qual Chico Xavier alterou o 11o. verso do poema, conforme reproduzimos aqui, na concepção original:

CONTRASTES

Atribuído a Auta de Souza - Divulgado por Chico Xavier em Parnaso de Além-Túmulo, 2a. ed., 1935.

Existe tanta dor desconhecida
Ferindo as almas pelo mundo em fora,
Tanto amargor de espírito que chora
Em cansaços nas lutas pela vida;

E há também os reflexos da aurora
De ventura, que torna a alma florida,
A alegria fulgente e estremecida,
Aureolada de luz confortadora.

Há, porém, tanta dor em demasia,
Sobrepujando instantes de alegria,
Tanto desânimo e tantas desventuras,

Que o coração dormente, a pleno gozo,
Deve fugir das horas de repouso,
Minorando as alheias amarguras.

O poema foi originalmente publicado na segunda edição do livro xavieriano. Para a edição seguinte, valendo para as demais e para a última "definitiva" (a sexta edição, de 1955), o verso "Tanto desânimo e tantas desventuras" foi substituído por "Tal desalento e tantas desventuras".

A título de comparação, mostramos aqui um poema melancólico feito por Auta de Souza em vida, escrito em Utinga (RN) em outubro de 1898, que difere muito da "melancolia" dos poemas supostamente espirituais. O poema se intitula "Eterna Dor":

ETERNA DOR

Auta de Souza - Outubro de 1898

Alma de meu amor, lírio celeste, 
Sonho feito de um beijo e de um carinho, 
Criatura gentil, pomba de arminho, 
Arrulhando nas folhas de um cipreste. 

Ó minha mãe! Por que no mundo agreste, 
Rola formosa, abandonaste o ninho? 
Se as roseiras do Céu não têm espinhos, 
Quero ir contigo, ó lírio meu celeste! 

Ah! se soubesses como sofro, e tanto! 
Leva-me à terra onde não corre o pranto, 
Leva-me, santa, onde a ventura existe...

Aqui na vida - que tamanha mágoa! - 
O próprio olhar de Deus encheu-se d’água... 
Ó minha mãe, como este mundo é triste!

O poema passa uma fluência rítmica e um lirismo que os poemas "espirituais" trazidos por Chico Xavier não trazem. Agora, vamos mostrar um poema religioso, "No Jardim das Oliveiras", de 07 de abril de 1898, em que os versos, ainda que sugiram um recital mais lento, nem assim deixam de exprimir a musicalidade e uma religiosidade que não sucumbe ao panfletarismo proselitista.

NO JARDIM DAS OLIVEIRAS

Auta de Souza - 07.04.1898

“Minh’alma é triste até à morte...” Doce, 
Jesus falou... E o Nazareno santo 
Chorava, como se a su’alma fosse 
Um mar imenso de amargura e pranto. 

Depois, silencioso, ele afastou-se 
E foi rezar no mais sombrio canto. 
Seu grande olhar formoso iluminou-se 
Fitando o etéreo e estrelejado manto. 

“Pai, tem piedade...” E sua vez plangente 
Tremia, enquanto pelas trevas mudas 
Baixava manso o triste olhar dolente. 

Pobre Jesus! Como n’um sonho via: 
Em cada sombra a traição de Judas, 
Em cada estrela os olhos de Maria!

Como se vê, Auta de Souza não escreveu os poemas "espirituais" que aparecem sob a divulgação de Chico Xavier. O esforço de imitação encontra falhas sérias, como se observa na comparação dos poemas de Auta com aqueles divulgados por Chico usando o nome da poetisa potiguar.

RELIGIOSIDADE NÃO INFLUI NO PROSELITISMO DO ALÉM-TÚMULO

O fato de que Auta de Souza, a exemplo de Irma de Castro, ter sido religiosa em vida não garante que elas se disponham a ceder seus nomes para qualquer proselitismo religioso. Se elas eram católicas, isso não quer dizer que se possa apropriá-las para defender o religiosismo "espírita", mesmo quando sabemos que este tem matrizes claramente católicas.

Isso se justifica porque nenhum espírito é obrigado a ser necessariamente laico ou religioso no além-túmulo. As coisas "do lado de lá" funcionam de forma muito indiferente a questões dessa ordem. O mundo espiritual, sinceramente, não é uma igreja.

A apropriação indevida de espíritos do além, portanto, não se atenua quando há motivação de transmissão de mensagens religiosas. Se há plágio por parte de supostos médiuns, não são as "mensagens de amor" que possam inocentar quem pratica esse delito, até porque é uma apropriação indevida de toda forma.

Usa-se o nome de outrem e se promove pelo carisma do falecido. A autopromoção ocorre, por mais "iluminadas" que sejam essas mensagens. Daí, por exemplo, o caráter leviano das apropriações de Irma de Castro e Auta de Souza, entre tantos outros mortos pelo "espiritismo" brasileiro que, a partir de Chico Xavier, exerce um fascínio mórbido pelos jovens mortos...
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