segunda-feira, 23 de outubro de 2017

E se Aécio Neves fosse um "médium espírita"?

AÉCIO NEVES: O LÍDER QUE CHICO XAVIER SONHOU PARA COMANDAR O "CORAÇÃO DO MUNDO E PÁTRIA DO EVANGELHO"?

Na semana passada, Aécio Neves escapou de ser afastado do Senado Federal e continuar sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal por acusações de corrupção e outros crimes de ordem político-financeira. No entanto, ele saiu tão desgastado que as chances dele voltar a assumir a presidência de seu partido, o PSDB, se tornam cada vez menores.

Aécio Neves, neto do político Tancredo Neves, não tem a mesma trajetória digna do avô. É certo que Tancredo cometeu erros e tinha defeitos, mas nada comparável com o apetite desmensurado pelo poder de seu neto, que, derrotado nas eleições de 2014, articulou um golpe político com o deputado federal Eduardo Cunha e o vice-presidente da rival Dilma Rousseff, Michel Temer, para tirar a presidenta do poder.

Aécio Neves é acusado de envolvimento em diversos esquemas de corrupção, seja no âmbito local de Minas Gerais, seja no âmbito nacional, seja específico do PSDB, como a compra de votos para a emenda da reeleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso, nos anos 90, seja nos esquemas tucanos do "mensalão" e do "petrolão" (este alvo de investigação da Operação Lava Jato).

Apesar disso, Aécio Neves sempre foi beneficiado pela blindagem da Rede Globo e da sociedade plutocrata em geral, sempre ávida em procurar um perfil de político "bonitão" e considerado "moderado" (eufemismo para "conservador") para assumir no futuro a Presidência da República.

Depois de Fernando Collor de Mello, as elites encontraram problemas para defender futuros "moderados", de 1990 para cá, dois possíveis candidatos a políticos "moderados" que poderiam ter algum carisma, como Luís Eduardo Magalhães, filho de Antônio Carlos Magalhães, e Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, morreram prematuramente, em 1998 e 2014, respectivamente.

Sob a ótica do "espiritismo" brasileiro, Aécio Neves se encaixa nas expectativas que o "médium" Francisco Cândido Xavier expressava sobre o governante do "Brasil futuro", definido pelo religioso como "coração do mundo e pátria do Evangelho". Aécio Neves é profundo admirador de Chico Xavier, e é possível que a recíproca ocorresse. Se estivesse vivo em 2014, Chico Xavier apoiaria Aécio Neves para a Presidência da República.

Chico Xavier também é alvo, mesmo postumamente, de forte blindagem da grande mídia e da sociedade. Só foi hostilizado pelas Organizações Globo até os anos 1960, quando a corporação da família Marinho era respaldada por católicos ultraortodoxos (devemos nos lembrar que Chico era católico ortodoxo, mas dotado de aparente paranormalidade). Mas a partir da década de 1970, Chico Xavier virou um protegido da Rede Globo.

Desde então, os "médiuns espíritas" passaram a ser blindados, sustentados pela mesma mitologia que se construiu para Madre Teresa de Calcutá a partir do documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), do inglês Malcolm Muggeridge. O roteiro de Muggeridge, que sugeria um padrão conservador de "bondade humana", que estabeleceria o domínio social sobre as populações pobres, praticamente sustenta o bom-mocismo dos "médiuns" brasileiros.

Recentemente, o "médium" Divaldo Franco se envolveu numa enrascada. Organizando o encontro Você e a Paz em São Paulo, ele decidiu dedicar o evento ao prefeito de São Paulo, João Dória Jr.. Só que Dória, além de não ser carismático, estava sofrendo uma grave decadência política, e no evento decidiu lançar, sob o consentimento da organização do Você e a Paz, um alimento de valor nutricional, ético e social duvidoso, a "farinata", depois denunciada pelos movimentos sociais.

A adesão de Divaldo Franco a esse alimento, condenado por entidades nutricionais sérias, foi uma postura gravíssima e potencialmente fatal para os "espíritas", o que poderia ter causado um escândalo de grandes proporções. Mas a blindagem da grande mídia a Divaldo, como seria a qualquer "médium", é de fazer inveja a qualquer figurão do PSDB, devido ao silêncio absoluto que se fez à sua participação no evento.

Nem o fato de João Dória Jr. ter divulgado o perigoso alimento (que, feito de restos de comida de procedência duvidosa, podem causar desnutrição e intoxicação alimentar, com consequências que podem ser fatais) ostentando o tempo todo a camiseta do Você e a Paz, com o crédito do nome de Divaldo Franco e tudo, despertou a atenção dos jornalistas.

Mas, ainda que essa blindagem partisse da Globo, da Folha ou da Abril - que, novamente, tenta vender a encalhada edição especial de Superinteressante com Chico Xavier - , é compreensível, porque a mídia conservadora protege os "médiuns espíritas" como se fossem "sacerdotes sem batina", num esforço de neutralizar a ascensão das seitas evangélicas de tendência pentecostal, que já contam também com uma parcela de veículos midiáticos de propriedade direta (Record) ou indireta (arrendamento de espaços).

O problema é quando a imprensa de esquerda, que serve de contraponto para o discurso oficial da mídia hegemônica e é capaz de investigar os bastidores do circo político-midiático conservador, sem medo de desafiar totens consagrados, torna-se, no entanto, impotente diante dos "médiuns espíritas", por mais que estes sejam blindados pela Rede Globo e representem um padrão de "bondade humana" que está mais próximo da teledramaturgia "global" do que da realidade em que vivemos.

Imagine uma festa na qual algum convidado, que recebe as maiores homenagens, apresenta uma ideia absurda que depois se reconhece prejudicial a um grande número de pessoas. É certo que esse convidado tem culpa pelo seu ato, mas o anfitrião não pode ser inocentado, porque ele mesmo decidiu homenagear o convidado, mesmo tendo condições prévias de conhecer o embuste e cancelar a homenagem por isso.

O agravante do apoio de Divaldo Franco a uma comida potencialmente estragada é que o "médium" mantém uma reputação, ainda que postiça, de "sábio", o que sugeria que ele pudesse ser advertido pelos benfeitores espirituais da farsa alimentícia do prefeito da capital alimentícia, o que o faria decidir pelo cancelamento da homenagem.

Mesmo que isso fosse causar um conflito com católicos e evangélicos, sobretudo a Arquidiocese de São Paulo, na pessoa do arcebispo dom Odilo Scherer, isso seria compreensível para os seguidores de Divaldo, se fizesse realmente sentido a imagem de "líder" que o "médium" exerce não só entre os "espíritas", mas também entre os que não seguem essa religião. Seria criada uma polêmica, mas com efeitos bem menos danosos do que o consentimento de Divaldo à "ração humana".

Com o consentimento, Divaldo Franco foi para os mais baixos planos de sintonia espiritual, derrubando de vez a imagem de "sábio", "ativista", "pensador espírita" e outras qualidades "iluminadas". Como um "humanista" vai apoiar um projeto alimentar que trata o pobre faminto de maneira desumana, equiparado a um cachorro de rua?

Vêm à tona até mesmo as lembranças de que o espírita autêntico, o jornalista Herculano Pires, certa vez definiu Divaldo como um "impostor", episódio hoje abafado pelo "espiritismo" brasileiro. Mas a blindagem da grande mídia a Divaldo Franco agora espera que a "farinata" caia no esquecimento e o "médium" volte à imagem "divinizada" que sempre o consagrou.

Só que o silêncio dado ao episódio acaba expressando também a decadência da sociedade que prefere proteger ídolos religiosos do que a humanidade como um todo. As esquerdas acabam sendo cúmplices, e essa complacência a pessoas ou instituições que, em sua propaganda, apresentam imagens de pobres sorridentes, revela o quanto as esquerdas são vulneráveis a certas armadilhas.

O caso do "funk" mostra o quanto as esquerdas morderam a isca e deixaram o governo Dilma Rousseff ser ceifado de graça. A ilusão de que o "funk" é "progressista" pela suposta associação à "felicidade do povo pobre", mesmo quando o gênero não passa de um subproduto do poder midiático, apoiado abertamente pela Rede Globo, fez os movimentos sociais serem esvaziados, porque a população pobre deixou o ativismo social para "descer até o chão".

A imagem dos "médiuns espíritas" acaba sendo dominadora e isso é terrível. A imagem associada a crianças negras e pobres sorrindo, paisagens floridas, céu azul com nuvens brancas e sol, nas quais se inserem retratos do respectivo "médium" e suas frases, todos esses apelos dóceis acabam seduzindo as pessoas como se fossem cantos-de-sereia modernos.

Ficamos imaginando se Aécio Neves, que é da mesma geração do "médium" José Medrado, conterrâneo de Divaldo, tivesse sido um "médium espírita", mesmo com toda a atividade política que exerce.

Imagine Aécio lançando livros "mediúnicos", dizendo frases de efeito sobre "lições de vida", associado a imagens "amorosas" e exercendo atividades supostamente filantrópicas, mesmo que elas sejam também fonte de seu conhecido esquema de corrupção. Talvez a blindagem de Aécio se tornasse completa e a execração popular, num país em que "médiuns" fazem o que querem e nem de longe respondem por seus atos, fosse bastante minimizada. É triste, mas é a nossa realidade.

domingo, 22 de outubro de 2017

A mais baixa sintonia vibratória de Divaldo Franco


É da mais extrema gravidade o consentimento de Divaldo Franco em oferecer o evento Você e a Paz para não só homenagear o decadente João Dória Jr., mas também deixá-lo lançar um duvidoso projeto alimentar, feito de restos de comida, sem informação nutricional conhecida e potencialmente sujeito a causar intoxicação alimentar, desnutrição, desidratação e até morte.

Divaldo Franco entrou num impasse. Como o homem que diz ter respostas prontas para todos os assuntos não desconfiou da tal "farinata", um potezinho com bolinhas que mais parecem lanche industrializado ruim, mas promovido sob a falsa ideia de ser um "alimento completo" a ser distribuído para as classes pobres.

Se ele fosse o "líder" que muitos acreditam ser, Divaldo teria desafiado até dom Odilo Scherer. O conflito, neste caso, atuaria em favor da paz, ao perceber a farsa de um alimento prejudicial para a população. Em vez disso, Divaldo aceitou tudo, e nem a idade avançada justifica tal omissão, porque, mesmo com 90 anos, Divaldo parece estar lúcido e consciente de seus atos e decisões.

Um aspecto que deve ser levado em conta é tão baixa sintonia vibratória que teve Divaldo Franco em acolher um prefeito já em decadência vertiginosa, que é o prefeito de São Paulo. Pois João Dória Jr. nunca teve carisma, foi apenas um apresentador de TV voltado para as elites, e só foi eleito por causa do modismo das elites reacionárias em eleger um candidato conservador associado à imagem de "político não-tradicional".

Mas João Dória Jr. só fez coisas ruins em seu governo. Nada justificava ele ser o maior homenageado do Você e a Paz. Divaldo Franco, tido como "grande sábio" e sempre "em contato com benfeitores espirituais", poderia ter sido avisado pelos "amigos do além" sobre a decadência retumbante de João Dória Jr., evidente até mesmo na imprensa que havia sido solidária ao prefake.

Vale lembrar que não se deve confundir decadente com injustiçado. João Dória Jr. é um representante das elites ricas, um membro da classe dominante, apoiador do golpe político que derrubou Dilma Rousseff e garoto de recados das elites empresariais, através de sua empresa Lide. Não é um sujeito que se possa equiparar, por exemplo, a Nelson Mandela e Martin Luther King.

Além disso, a imagem de João Dória Jr. já estava decadente quando Divaldo o acolheu. Dória havia até brigado com políticos do PSDB, trocado farpas com o veterano Alberto Goldman e criando uma discreta divergência com seu padrinho político, o governador paulista Geraldo Alckmin. Além disso, Divaldo cometeu o equívoco de homenagear João Dória Jr. como se o prefeito estivesse em alta, se esquecendo que o tucano estava em crise de reputação.

Isso mostra quem é o alvo da sintonia vibratória de Divaldo Franco. Ele tenta soar imparcial, acolhendo políticos de direita e esquerda, mas o apoio a João Dória Jr. mostra que a imparcialidade, no caso, é apenas uma cordialidade formal, mas a preferência que os "médiuns espíritas" expressam, com maior entusiasmo, sempre se volta a políticos conservadores, ideologicamente de direita. Sobre tal sintonia, lembremos de Jesus: "Diga com quem tu andas que eu te direi quem és".

A coisa é tão grave, como se não bastasse Divaldo Franco ter sido um dos maiores deturpadores do Espiritismo - coisa que ele admitiu como "acidente", devido à "falta de tempo", uma desculpa que só convence os complacentes - , é que ele aceitou a "farinata" sob o pretexto de ser uma "opção a mais" para "matar a fome dos necessitados".

Só que isso colocou Divaldo Franco numa situação bem baixa, para alguém considerado "ativista", "filantropo" e "sábio". Isso porque Divaldo Franco aceitou apoiar um alimento de procedência duvidosa, sem informações nutricionais e que, segundo especialistas em saúde, oferece grave risco de provocar intoxicação alimentar e morte por diversos motivos.

Isso coloca Divaldo Franco abaixo até mesmo do produtor cinematográfico Harvey Weinstein. O produtor de Hollywood fez coisas vergonhosas, deploráveis, grosseiras, imorais e altamente ofensivas. Mas o propósito dele era o "entretenimento sexual", ato do mais cínico egoísmo, do mais arrogante machismo e desprezo ao ser humano, um abuso cometido sob o véu do status quo.

Mas isso não se compara com o apoio e o consentimento a um alimento que não trouxe informações confiáveis de usa comida reaproveitável, e segundo muitos não garante a nutrição completa prometida e constituem em bolinhas industriais que são comparadas a comida de cachorro e à lavagem de porco.

Isso coloca Divaldo Franco em xeque mate, agravando ainda mais a crise que o "espiritismo" brasileiro, de raiz roustanguista, está sofrendo. A crise atinge níveis insustentáveis, e não é o prestígio religioso dos "médiuns" que vai resolver o problema ou que se deixe tudo para lá para proteger a imagem adocicada dos "médiuns".

Voltando a Weinstein, ele usou seu status quo, seu poder de rico e premiado produtor para assediar mulheres. Pagou por ter abusado demais de sua imunidade. Os "médiuns espíritas" são a mesma coisa, abusando do prestígio religioso para subestimar a inteligência do povo e cometer também os seus abusos de ordem doutrinária, filantrópica - como usar a grana da caridade para fazer turismo com palestras milionárias - e de outra natureza.

O "médium espírita" não pode ser o caloteiro moral a fazer o que quiser, a errar feio e não ser responsável por isso. Ele tem responsabilidade, sim, e deve pagar pelos erros, se eles são muito graves. E do jeito que os "médiuns espíritas" erram, não raro com extrema gravidade, isso faz o "espiritismo" brasileiro ir para o nível mais baixo das religiões, favorecendo as seitas neopentecostais que acabam lucrando com os erros dos deturpadores do Espiritismo.

sábado, 21 de outubro de 2017

Grande mídia e esquerdas fazem silêncio diante da participação de Divaldo Franco no caso "farinata"


O prefeito de São Paulo, João Dória Jr., exibiu o tempo inteiro a camiseta do evento Você e a Paz durante uma entrevista coletiva de lançamento do seu "granulado nutricional", dentro do programa "Alimento para Todos". O granulado é também conhecido como "farinata" e usa o nome de fantasia de "Allimento", com "l" duplo, um trocadilho com a expressão "all", referente a "todos".

O "Allimento", por sua procedência duvidosa e pelo discutível valor nutricional, já causou repercussão negativa de grandes proporções. O consentimento do "médium" Divaldo Franco, que ofereceu o evento "Você e a Paz", organizado por ele, para homenagear o prefeito paulistano e para este lançar seu produto, também pode se tornar um dos maiores escândalos envolvendo o "movimento espírita" no Brasil.

Muitos não conseguem perceber o lado sombrio do "espiritismo" e seus "médiuns", que têm a imagem falsamente associada a ideia de meiguice e humildade e são tidos como acima de qualquer suspeita.

Mas os "espíritas" já apoiaram o golpe de 1964 e a ditadura militar (mesmo na sua pior fase), apoiam o governo Michel Temer e grupos como o fascista Movimento Brasil Livre (definido como um dos paladinos da "regeneração do Brasil" e na construção da "Pátria do Evangelho") e fizeram juízos de valor acusando pessoas humildes de terem sido tiranos em vidas passadas.

O "espiritismo" também aposta no "fiado moral" como princípio para espíritos atrasados só pagarem por erros graves e crimes na próxima encarnação, cabendo a eles receber o indulto e o perdão complacente de suas vítimas, e investe na sua concepção de meritocracia, pois a "meritocracia espírita" alega que os ricos são beneficiados porque, em outras vidas, eram "pobres que viraram bons" enquanto que os pobres são beneficiados por terem sido "ricos que cometeram faltas graves".

Apesar disso, os "espíritas" são vistos como "caloteiros morais", beneficiados pela crença incoerente de que, quando acertam, agem por consciência de seus atos, mas, quando erram, supostamente agiram por influência alheia, sendo isentos de qualquer responsabilidade. Imagine, por exemplo, um "médium espírita" apedrejar a vidraça da casa de alguém e ser isento de pagar pelo prejuízo? É como se assim fosse.

MÍDIA EM SILÊNCIO

Muito se critica das posturas do arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, de ter apoiado a "farinata" ou "Allimento" e até se sentir "ofendido" quando se referiu o produto como "ração humana", mesmo com pareceres de entidades nutricionistas sérias quanto aos riscos de um alimento como esse, de origem, qualidade e valor nutritivo bastante duvidosos e que mais parece um lanche de uma marca menor que, já pelo seu aspecto, nunca traz ideia de um "alimento completo".

Mas o fato do "Allimento" ter sido lançado no evento "Você e a Paz", organizado por Divaldo Franco - o evento envolve lideranças católicas e evangélicas, mas é comandado pelo "médium" baiano - , deveria chamar a atenção de todos, sobretudo quando o prefeito de São Paulo, ao lançar o produto numa entrevista coletiva, usou a camiseta do evento e não da Arquidiocese de São Paulo.

Apesar dessas evidências, a grande imprensa reagiu em silêncio absoluto. Quando citava o evento "Você e a Paz", claramente conhecido por ser um acontecimento "espírita", se limitavam a se referir, vagamente, como um evento "religioso" ou de "várias religiões".

A terrível omissão, na chamada imprensa hegemônica, é acompanhada pela abordagem positiva com que o "complexo alimentar" foi descrito por veículos jornalísticos da TV Bandeirantes e da Rede Globo de Televisão. Mesmo quando a Folha de São Paulo admite alguma polêmica em relação ao "Allimento", há um esforço de fazer prevalecer a imagem positiva da iniciativa.

Isso é compreensível, quando se leva em conta que os "médiuns espíritas" são protegidos da Rede Globo de Televisão e de um bloco de veículos midiáticos que não estão religiosamente vinculados a seitas evangélicas de tendência pentecostal, como a Assembleia de Deus, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus.

De forma bastante explícita, Francisco Cândido Xavier, Divaldo Franco e João Teixeira de Farias, o João de Deus, são blindados pela Rede Globo de Televisão e tratados como se fossem "sacerdotes sem batina". O trocadilho do nome "médium" com "mídia" não pode ser subestimado. E a Globo Filmes já fez vários filmes baseados na vida e na obra de Chico Xavier.

O problema é quando esse silêncio é acompanhado pelo silêncio dado à mídia de esquerda, considerada alternativa e independente, mesmo adotando uma abordagem diferente e bastante crítica ao "Allimento" de João Dória Jr.. As esquerdas midiáticas se limitaram a criticar as posturas do arcebispo Scherer e não fizeram uma menção a respeito de Divaldo Franco.

É como se criticassem uma festa pelo bolo estragado e culpasse os convidados, inocentando o anfitrião que consentiu e apoiou tudo isso. Vamos imaginar se, no Rock In Rio, fosse contratada uma banda de rock que lançasse uma música com apologia ao fascismo. Roberto Medina seria inocentado por ter deixado contratar uma atração como esta e por "não saber" a natureza ideológica de tal banda?

A omissão diante de Divaldo lembra a postura complacente da mídia no caso Otília Diogo, quando se falou que Chico Xavier foi "enganado" pela "médium" farsante, que fez fraudes em supostas materializações.

A verdade é que Chico Xavier sabia de tudo e foi cúmplice da grande farsa, e foi salvo por receber forte blindagem da mídia e da ditadura militar que o "médium" defendia com muito entusiasmo. E quem acha que a acusação de cumplicidade com Otília Diogo é desaforo de detrator, imagens trazidas por Nedyr Mendes da Rocha, solidário ao "médium", registram ele participando ativamente e com alegria dos bastidores da farsa, acompanhando todos os detalhes.

A complacência das esquerdas com o "espiritismo" brasileiro segue o mesmo paradigma de sua complacência com o "funk": como o "espiritismo", o "funk" é um fenômeno patrocinado pela mídia hegemônica alinhada ideologicamente com a direita, sobretudo as Organizações Globo. No entanto, a aparente abordagem que corteja uma ação paternalista aparentemente em prol do povo pobre faz com que haja a adesão das esquerdas, sem observar o que está por trás de tudo isso.

O "funk" apela para a glamourização da pobreza e o "espiritismo" faz apologia ao sofrimento humano. São dois fenômenos bastante conservadores e que não podem ser considerados progressistas, pois por baixo de suas aparências, há valores retrógrados e rigidamente moralistas em jogo, por trás da exploração falsamente "positiva" da pobreza humana.

Apesar desses alertas, as esquerdas atuam de maneira extremamente complacente, como um "corno manso" que, ao ser noticiado pelos amigos de que sua mulher lhe está traindo, ele afirma que ela "foi apenas visitar um primo".

A complacência gerou uma gafe, quando uma blogueira que se dizia "comunista" e mantinha uma página esquerdista se assumiu adepta convicta de Chico Xavier e reclamou que o filme As Mães de Chico Xavier era "boicotado pela grande mídia".

A gigantesca gafe se deu porque o filme é produção da Globo Filmes, das Organizações Globo, e seu enredo é encenado à maneira bastante similar das novelas da Rede Globo. E se a blogueira visse a entrevista do Pinga Fogo (TV Tupi, 1971) com seu ídolo condenando severamente o comunismo, ela teria morrido de tanta vergonha.

Quanto ao "Allimento", ele está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo. O episódio complicou o "movimento espírita" e desgasta a imagem do "médium" Divaldo Franco, que, com uma imagem de "sábio" e "conhecedor das coisas", nunca agiu para evitar a homenagem ao prefeito de São Paulo, oferecendo seu evento para a divulgação do terrível alimento que é comparado à comida de cachorro ou a lavagem de porco.

Desse modo, o "espiritismo" só não tem uma crise grave porque a religião é mais blindada pela sociedade do que o PSDB. O "espiritismo" comete irregularidades gravíssimas mas ninguém tem coragem de questionar nem investigar. Até as traições aos postulados kardecianos originais são aceitas sem críticas, os "espíritas" traem Kardec o tempo todo e ainda se autoproclamam "fiéis a ele".

Assim, uma boa sugestão que se deve dar ao PSDB é que ele mude de partido, evitando esta palavra na nomenclatura e usando uma expressão solta como um novo nome: ESPÍRITAS, com a sigla ESP. Os tucanos, usando o nome ESPÍRITAS, recuperariam a blindagem que agora começam a perder. E Aécio Neves poderia, em vez de ser execrado pela opinião pública, ser carregado por uma multidão de devotos.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Divaldo Franco não é isento de responsabilidade pelo apoio à "ração humana" de João Dória Jr.


Existe um péssimo hábito da sociedade brasileira em acreditar que os "médiuns espíritas" só têm consciência dos seus atos quando eles são positivos. Quando negativos, acreditam as pessoas que os "médiuns" só agiram por "influência de outrem", "não sabiam o que faziam", "foram enganados" ou "tentaram ser manipulados por espíritos inferiores".

Não, não é assim. Ainda mais se o "espiritismo" que temos no Brasil, reduzido a uma atualização do antigo Catolicismo jesuíta, é praticamente divorciado dos postulados espíritas originais. Os "médiuns" devem ser responsabilizados pelos graves erros que cometem e pagar por eles, porque em muitos casos eles assumiram riscos e contribuíram para as consequências.

No caso da "farinata" ou "granulado nutricional", o engodo alimentar que o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., pretendia lançar a partir de um processado industrial de restos de comida - em tese, com prazo de validade próximo ao vencimento - , o fato do indigesto alimento (semelhante a bolinhas granuladas que parecem lanche de baixa categoria), cujo nível nutricional é duvidoso, ter sido lançado oficialmente durante o evento "Você e a Paz", em São Paulo, devia chamar atenção de todos.

O prefeito de São Paulo - cuja reputação decadente lhe vale o apelido jocoso de prefake - estava exibindo o tempo todo a camiseta do "Você e a Paz", e ninguém percebeu a coisa. Mesmo a mídia de esquerda, que costuma perceber as armadilhas mais sutis dos bastidores político-midiáticos, ignorou o respaldo do "movimento espírita" à gororoba "nutritiva" de João Dória Jr..

Pois o lançamento oficial do produto foi feito em 08 de outubro, no Parque do Ibirapuera, durante a edição paulistana do movimento "Você e a Paz" que, embora seja um evento ecumênico, é idealizado pelo "médium" Divaldo Franco. O evento decidiu homenagear o prefeito da capital paulista, mesmo quando ele já era visto como um político decadente em boa parte das páginas da Internet.

ALIMENTO CONDENADO, EM TODOS OS SENTIDOS

O "granulado nutricional" se revelou um grande engodo, comparável a uma "lavagem de porco". Ele é muito mais do que um preparado de comida ruim, condenado pelas mais conceituadas entidades de nutrição e saúde do país. É também um ato ofensivo de elitismo e discriminação social, direcionado supostamente a alimentar as populações mais carentes da maior cidade da América Latina.

Isso porque ela se baseia na suposição, bastante preconceituosa, de que os pobres não têm acesso aos alimentos surgidos na natureza, como verduras, legumes, frutas, cereais e carnes. A realidade mostra que os pobres são os que mais têm acesso a esses recursos alimentícios. As elites é que, tomadas de profundo preconceito e ignorância social, acham que os alimentos naturais "brotam" em supermercados.

A recomendação do Guia Alimentar da População Brasileira recomenda que a ênfase de uma alimentação saudável deve ser dada aos alimentos próximos ao estado em que se encontram na natureza, deixando os alimentos industrializados como opção secundária e nunca exclusiva de uma dieta alimentar.

Segundo especialistas, uma dieta regular, variada e constante de verduras, legumes e frutas é capaz de prevenir os efeitos do câncer, além de ajudar no seu tratamento e no de outras doenças. Cereais como feijão e arroz são considerados básicos para preservar as funções vitais do organismo, ainda que sempre acompanhados de variadas opções de saladas e alimentos dotados de proteínas.

A comida processada de João Dória Jr. não apresenta informações sobre a composição alimentícia - que pode vir de restos de comida de restaurantes, churrascarias e lanchonetes de fast food que trabalham com lanche processado (como McDonald's) e também de comida de hospitais, contaminada pelo contato de consumidores enfermos - e ainda é alvo de denúncias ainda mais sombrias.

Consta-se que surgem notícias de que um abrigo ligado à Arquidiocese de São Paulo, a Missão Belém, está sendo investigado pelas 14 mortes de ex-dependentes químicos e ex-moradores de rua internados no estabelecimento, num curto intervalo de tempo, em junho passado.

A Missão Belém funciona sem alvará e é parceira da Plataforma Sinergia na produção da "ração humana". Os pacientes mortos tiveram sintomas semelhantes de diarreia, vômito, desnutrição, desidratação e intoxicação alimentar. Suspeita-se que eles teriam sido testados como "cobaias" do "complexo alimentício" fornecido por João Dória Jr..

O episódio suspeito já começa a ser comparado com campos de extermínio nazistas. O caráter duvidoso do alimento, se for comprovado seu uso na Missão Belém, seria um agravante que demonstraria o teor nocivo da "ração humana", lançada oficialmente num evento comandado por um "renomado médium espírita", muito amigo dos figurões católicos ligados ao prefake.

CONSCIÊNCIA DOS ATOS

Há muito falamos que Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, não são inocentes de seus atos. Eles deturparam o "espiritismo" brasileiro de propósito, não por acidente ou falta de tempo para estudar a doutrina kardeciana. Pelo contrário, o longo período, a grande repercussão e o enorme alcance de público revela o quanto Divaldo e Chico tinham plena consciência de seus atos ao decidirem transmitir conceitos que contrariam os postulados espíritas originais.

A crença de "espíritas" ou mesmo de leigos de que os "médiuns" não têm culpa pelos erros que fazem, só agindo conscientemente quando se tratam de acertos ou atos positivos, é uma falácia e uma fantasia que não tem pé nem cabeça e que, confrontado com argumentos lógicos, é de fácil demolição, sobretudo diante da suposta imagem de "sábios" oficialmente associada aos "médiuns".

Divaldo Franco agiu com plena consciência de seus atos. O entusiasmo com que João Dória Jr. vestiu a camiseta do "Você e a Paz", quando divulgou a "farinata", não foi um ato do acaso, havendo também um propósito de divulgar o evento e, portanto, há um vínculo de imagem da "farinata" com o "Você e a Paz" e a pessoa de Divaldo Franco. Essa a mídia de esquerda ignorou completamente, preferindo apenas questionar a figura do arcebispo paulista dom Odilo Scherer, defensor da "ração".

Divaldo não pode dizer que foi desavisado ou não sabia sobre o "alimento". Ele teve responsabilidade no apoio a João Dória Jr.. Ou então Divaldo é um desinformado completo, o que derruba de vez a postura de "sábio" tão associada a ele a ponto de haver até mesmo os livros pedantes da série "Divaldo Responde". Seus seguidores chegam a exagerar chamando Divaldo de "filósofo" e "cientista".

Quando Divaldo decidiu homenagear João Dória Jr., o prefeito da capital paulista já vivia um desgaste político profundo, por diversas razões. A violência policial a dependentes químicos na cracolândia, a liberação de velocidade que aumentou as mortes no trânsito e o descaso com moradores de rua, além das viagens constantes e sem motivo de João Dória Jr. contribuíram para o desgaste de sua imagem e a redução de chances de êxito na corrida presidencial de 2018.

A organização do evento também se deu após as denúncias de que a "farinata" de João Dória Jr. tinha valor nutricional duvidoso e que potencialmente ofereceria riscos à saúde da população carente. Antes do "Você e a Paz", entidades de nutricionistas e movimentos sociais alertaram para a ameaça que o "composto alimentar" pode trazer à população carente, apontando riscos de subnutrição e intoxicação alimentar que podem ser fatais.

Os defensores de Divaldo Franco definem ele como "sábio". Se basearmos nessa hipótese, suporíamos que o "médium" teria sido avisado por "benfeitores espirituais" sobre a figura nefasta de João Dória Jr. e retirado a homenagem. Pela imagem de "grandeza", "firmeza" e "coragem" tão associadas ao "médium", tido também como suposto ativista social, ele seria capaz de convencer os parceiros católicos e evangélicos a retirar a homenagem, diante do desgaste de imagem do prefeito.

Mas não. Divaldo levou tudo adiante e deve ter elogiado o "alimento", naquela sua crença de que "tudo é válido para matar a fome dos necessitados". Consentiu que João Dória Jr. divulgasse o produto exibindo a camiseta do evento e demonstrou, com isso, apoio à iniciativa.

A própria aliança entre Divaldo Franco e João Dória Jr. revela também uma sintonia vibratória. É a chamada "lei de afinidade". Divaldo pode até dizer que "acolhe todos independente do nível ideológico" e que o "Você e a Paz" existia quando o petista Fernando Haddad era o prefeito paulistano. Só que os "espíritas", quando acolhem esquerdistas, é por mera formalidade cordial, enquanto que os direitistas são acolhidos com mais calor e maior entusiasmo, indicando preferência.

Portanto, foi um ato de muita responsabilidade. E isso, com certeza, é mais um escândalo envolvendo um ídolo "espírita", que pode repercutir negativamente em breve. A crise do "movimento espírita", que construiu suas bases traindo Allan Kardec, entra em mais um e gravíssimo capítulo, quando um "médium" badalado apoia um político decadente e assina embaixo no lançamento de um projeto alimentar de gosto duvidoso e que pode representar consequências nefastas para a saúde alimentar.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O encontro entre o Deturpador e o Prefake


Numa época em que o senador Aécio Neves é presenteado pela impunidade e que um engodo alimentar é lançado pelo prefeito de São Paulo, João Dória Jr., descobre-se mais provas de que o "espiritismo" brasileiro, que vende uma falsa imagem de "progressista", está alinhado com o atual cenário político do Brasil, de métodos fisiológicos e perfil ideológico conservador.

Mesmo na Bahia, onde há uma predominância de movimentos sociais e personalidades progressistas, o "espiritismo" brasileiro se revela bastante conservador. Os "médiuns" José Medrado e Divaldo Franco sinalizaram, sutilmente, apoio ao grupo político dos herdeiros de Antônio Carlos Magalhães. Consta-se que José Medrado seria um parente distante do político populista de direita, Marcos Medrado, conhecido por ser um dos representantes baianos da bancada ruralista do Legislativo.

É claro que eles tentam se passar por ecumênicos, mas o "espiritismo" brasileiro sempre se manifestou eminentemente conservador. O "médium" Francisco Cândido Xavier é conhecido por apoiar a ditadura militar, mesmo na sua pior fase, regida pelo terrível AI-5 e com ações de tortura comandadas pelo DOI-CODI, e logo quando parte da direita que apoiou o golpe militar de 1964 migrou para a oposição.

Parece chocante, mas o próprio Chico Xavier, em um programa de TV dirigido para milhões de telespectadores e hoje disponível no YouTube, disse com todas as palavras verdadeiros desaforos contra pessoas humildes, condenando os movimentos camponeses e operários, além de pedir para que oremos pelos generais (e, por conseguinte, pelos torturadores) que estavam construindo um "reino de amor" do Brasil futuro, um "reino" feito sob o banho de sangue de muitos brasileiros inocentes.

Chico Xavier, que setores das esquerdas ingenuamente lhe demonstram simpatia, também apoiou o candidato à Presidência da República, Fernando Collor, na disputa contra Luís Inácio Lula da Silva. Este, mais tarde vitorioso em duas eleições presidenciais, recebeu a pretensa solidariedade do "médium" e latifundiário João Teixeira de Faria, o João de Deus, que como "coronel" goiano tem preferência ideológica aos políticos do PSDB que dominam o Estado de Goiás.

João de Deus teria dado o "beijo da morte" na ex-primeira-dama Marisa Letícia da Silva. Antes do "médium" dizer que estava orando por ela, a esposa de Lula parecia ter consideráveis chances de se recuperar de um AVC, no começo deste ano. Foi João de Deus dizer que "orava por ela" para, pouco depois, ela falecer, com 67 anos incompletos.

José Medrado é contratado pela Rádio Metrópole FM, de Salvador, cujo dono foi um "filhote" da ditadura militar, o engenheiro e dublê de radiocomunicador, Mário Kertèsz. A origem da emissora se deu num esquema de corrupção quando Kertêsz era prefeito da capital baiana e uma grande verba pública destinada a obras importantes foi desviada para a aquisição de rádios e TVs.

Apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães, Kertèsz foi filiado à ARENA e sua primeira gestão como prefeito de Salvador se deu como prefeito-biônico, nomeado pelos militares. Na segunda gestão onde ocorreu a corrupção que o fez adquirir rádios e TVs, ele era eleito pelo PMDB e foi designado pelo padrinho político, com quem se reconciliou após um breve rompimento, a destruir o Jornal da Bahia, antigo periódico de esquerda baiano, que Kertèsz reduziu a um tabloide policialesco.

Ultimamente, porém, Mário Kertèsz resolveu se apropriar das forças baianas de esquerda, de tal forma que exerceu sobre elas um monopólio de visibilidade. Por duas vezes este ano, o "filhote da ditadura" buscou promoção pessoal entre os movimentos esquerdistas de todo o Brasil ao entrevistar o ex-presidente Lula.

O "espiritismo" brasileiro, portanto, está associado a forças conservadoras de tal forma que as poucas pessoas de esquerda que se declaram "espíritas" - na orientação adotada pelo "movimento" brasileiro - parecem bastante deslocadas da realidade e tomadas de profunda ingenuidade diante da fachada "filantrópica" da doutrina brasileira.


DIVALDO FRANCO E A RAÇÃO HUMANA

A atitude conservadora ganhou novos ingredientes depois que o "movimento espírita", de forma sutil, manifestou defesa convicta ao governo Michel Temer e a grupos reacionários como o Movimento Brasil Livre e o Revoltados (!) On Line. Sabe-se que os textos sobre apologia ao sofrimento cresceram desde 2016, o que indica que os "espíritas" defendem medidas restritivas como a reforma trabalhista, a reforma previdenciária e a terceirização total no mercado de trabalho.

Sobre a reforma trabalhista, os "espíritas" defendem itens como o fim dos encargos salariais, sob a tese do "desapego material", e a prevalência do negociado sobre o legislado no acordo de patrões com empregados, que combina o espírito de servidão destes últimos com a utopia do "diálogo fraterno" que os "espíritas" atribuem a estes dois entes profissionais.

Agora é a vez de Divaldo Franco, que não escondeu seu apoio ao prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, cortejar logo um dos políticos mais desmoralizados do Brasil, o prefeito de São Paulo João Dória Jr., apelidado de prefake e eleito em 2016 por causa do modismo da anti-política que contaminou setores conservadores da sociedade brasileira.



João Dória Jr., que outrora era apresentador de programas que entrevistavam pessoas ricas, está associado a medidas deploráveis como o "Acelera São Paulo", que aumentou o padrão mínimo de velocidades de veículos, causando várias mortes nas avenidas marginas da capital paulista.

Outra medida deplorável foi a de mandar acordar os moradores de rua com jatos d'água, uma atitude imoral, assustadora e, pelo choque térmico que pode causar, nociva à saúde. Dória também reprimiu uma cracolândia, atrapalhando a ação de psicólogos para educar os viciados a largar o consumo, e fez com que o ponto de venda e consumo de crack se mudasse para uma área residencial, ameaçando a segurança e o conforto dos moradores.

Pois João Dória Jr. foi o homenageado, no último dia 08, do evento do Movimento Você e a Paz, comandado por Divaldo Franco, na etapa realizada em São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Habitualmente inclinado a atacar desafetos, João Dória Jr. "desejou paz" a Alberto Goldman, veterano político que trocou farpas com o prefeito paulistano.

No evento, João Dória Jr. lançou o programa "Alimento para Todos", no qual apresentou o "granulado nutricional", um pote cheio de bolinhas granuladas que seria composto de restos de comida processados sob uma técnica industrial que não foi divulgada. Também não foram divulgados os critérios nutricionais, a forma como se faz o processamento e a procedência dos alimentos a serem aproveitados. O granulado é pejorativamente apelidado de "ração humana".

Enquanto Divaldo Franco, que muitos acreditam como "sábio" e "filantropo" e mesmo muitos contestadores da deturpação espírita têm muito medo de questionar sua trajetória com profundidade e firmeza, apoia o granulado, que Dória pretende destinar para a população pobre, os movimentos sociais e entidades sérias de diversos setores condenam a iniciativa.

O Conselho Federal de Nutricionistas, por exemplo, já afirmou que o granulado, a ser distribuído sob o codinome "Allimento" (com "l" duplo), definiu a iniciativa como "danosa à dignidade humana". Outros movimentos sociais apontam outros aspectos prejudiciais à iniciativa do prefake.

Entre tais aspectos, enumera-se o fato do desprezo de Dória por iniciativas que emancipassem de verdade o povo pobre e os moradores de rua, numa cidade como São Paulo, em que favelas são dizimadas total ou parcialmente por constantes incêndios. Além disso, criar uma ração humana em vez de melhorar o acesso da população às cestas básicas é um ato comparável ao de oferecer uma ração animal para cachorros domésticos, o que indica um profundo e cruel preconceito social.

Pela ótica dos "espíritas", a "ração humana" seria uma "maneira alternativa" de "trazer benefícios alimentares aos necessitados". "Qualquer iniciativa é bem vinda, se for para matar a fome dos famintos", é o que se resume esta tese, ignorando aspectos diversos da iniciativa do prefeito paulistano, que contrariam os princípios de dignidade e respeito humanos.

Sobre o apoio de Divaldo Franco à iniciativa e ao prefake, isso não surpreende, apesar da complacência que o "médium" baiano recebe até mesmo daqueles que contestam a deturpação espírita, mas recuam no meio do caminho.

O "médium" baiano é conhecido por ser, depois de Chico Xavier, o maior deturpador da Doutrina Espírita, tendo sido ambos antigos católicos e discípulos de Jean-Baptiste Roustaing. Divaldo foi denominado, pelo jornalista José Herculano Pires, com o incômodo título de "impostor", pela forma com que o baiano expressava conceitos do Espiritismo.

Quanto a Divaldo e Dória, digamos que a sintonia de vibrações os uniu, e muito. Ambos adoram deixar os assistidos à própria sorte e saírem viajando em busca de prêmios e condecorações. O bairro de Pau da Lima, de Salvador, é um dos mais perigosos da capital baiana. Já São Paulo aumentou seus índices de violência quando Dória seguia viagem pelo resto do país, querendo se promover para uma possível candidatura à Presidência da República. Esta atitude desagradou até seu partido, o PSDB.

A ração humana pode render muitos episódios e desgastar a imagem de João Dória Jr.. E se ele recebe as bênçãos de Divaldo Franco, isso significa que o "espiritismo" brasileiro também se encontra numa retumbante decadência, o que deveria causar uma grande vergonha naqueles que ainda acreditam que o próprio Divaldo irá recuperar as bases kardecianas originais. Sonhem, amigos...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Ração humana" e os paliativos do Assistencialismo


O Brasil não consegue resolver a pobreza de maneira frontal e transformadora. Se prende em ações paternalistas como a "caridade" religiosa que se fundamenta no Assistencialismo, feita mais para causar comoção no público do que para realizar resultados definitivos de emancipação plena das pessoas carentes que, neste caso, só recebem benefícios relativos, mesmo que "definitivos".

Ninguém imagina que essa "caridade" que produz lágrimas em plateias acomodadas em seus confortáveis assentos nas palestras religiosas, ou nos sofás de suas salas vendo "lindos exemplos de amor e superação" nas atrações televisivas, não traz resultados sociais profundos, servindo mais para a promoção pessoal do "benfeitor" que, independente de aparentes boas intenções ou não, têm muito mais cartaz pelos benefícios a que supostamente está associado.

Pior: quando um governante como o ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, estabelece políticas de inclusão social que, embora a princípio paliativas, causam impulso para experiências sociais maiores, a mesma sociedade que santifica um "médium espírita" pelo quase nada que fez pelos pobres chama Lula de "criminoso comunista".

A sociedade "do bem" se horroriza quando uma empregada doméstica ou um faxineiro do prédio pegam o elevador social quando não estão com o material de serviço. A pessoa "caridosa" se irrita quando, ao jogar uma embalagem de um lanche no chão, é advertido por um gari a pegar o objeto e colocá-lo na lixeira.

Mas quando são atitudes superficiais como dar sopinha para os pobres e doar mantimentos, muitos ruins, e roupas, muitas rasgadas, aí é a maior festa. "Caridade transformadora", exageram muitos, criando uma torcida para santificar o "benfeitor" de ocasião. Os mantimentos doados se esgotam em duas ou três semanas, e até menos, por causa de famílias numerosas. Mas a "caridade" que resultou nesses donativos é festejada por mais tempo, até um ano.

Há muito o que discutir sobre caridade, porque muitas pessoas não percebem o quanto os pobres são tratados como se fossem cãezinhos domésticos enquanto o "benfeitor" recebe medalhas e outros prêmios, excursionando pelo mundo recebendo homenagens pelos resultados ínfimos que trouxe à população carente.

Ver que o "médium" Divaldo Franco virou, sob as bênçãos da Rede Globo, o "maior filantropo do Brasil" por ter ajudado menos de 0,01% da população brasileira é muito constrangedor. Soa como uma gafe. A bondade humana é condicionada à carteirada religiosa, enquanto ações de baixa eficiência e de nível apenas paliativo são superestimadas, criando uma filantropia espetacularizada na qual há comemorações demais e transformações sociais de menos.

O pobre continua excluído, a doença da pobreza não é curada, apenas as dores são aliviadas. Mesmo quando se oferece emprego e alguma qualidade de vida, ela é baixa, e feita sobretudo sob o custo do ensino religioso dissimulado num projeto pedagógico "sem fins lucrativos" e "gratuito". Nada muito diferente do que os neopentecostais defendem com o projeto Escola Sem Partido.

Ou seja, na Mansão do Caminho, a pessoa pode até aprender um emprego, mas paga o preço em acreditar em bobagens como "crianças-índigo", importadas por Divaldo de esotéricos de valor bastante duvidoso. E o cidadão, com isso, se limita a ser apenas "mais um no rebanho", até porque a ideia de "rebanho" é muito defendida por religiões "cristãs", seja o Catolicismo conservador, as neopentecostais e a "espírita".

Diante dessas situações de ineficiência e inferioridade social preservada nas classes pobres, vêm à tona uma iniciativa que, assim como a Escola Sem Partido, traz novas questões a respeito do que é uma visão elitista de "caridade" que, até agora, gozava de confortável unanimidade na sociedade mais influente.

É bom lembrar que, antes da divulgação da Escola Sem Partido, as pessoas não conseguiam entender o mal de um projeto pedagógico que evitasse debater a realidade social e, em contrapartida, respeitar fantasias ligadas a crenças religiosas. Mesmo pessoas que se consideravam "progressistas" caíam na cilada de defender esse projeto pedagógico, até caírem na real ao ver a Escola Sem Partido como uma bandeira educacional dos inimigos de Dilma Rousseff que tomaram o poder em 2016.

Agora, temos o projeto da "ração humana" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr., que é o aproveitamento de restos de comida que seriam processados num composto alimentar em formato de bolas granuladas, similar ao que se faz com rações para cachorros e gatos vendidas nos supermercados. O projeto é intitulado "Alimento para Todos".

O PREFEITO DE SÃO PAULO, JOÃO DÓRIA JR., ASSINANDO O PROGRAMA "ALIMENTO PARA TODOS" COM UMA AMOSTRA DO ALIMENTO PROCESSADO. À DIREITA, CHARGE PARODIANDO A INICIATIVA.

A iniciativa do prefeito João Dória Jr., criticada pelos movimentos sociais e por especialistas em Nutrição, foi anunciada sem a apresentação de estudos e critérios nutricionais e a empresa contratada, a Sinergia, não possui fábrica e só trabalha com parcerias com outras empresas.

A ideia do alimento processado, destinado a ser distribuído para igrejas e templos - não há informação se as "casas espíritas" também fornecerão o produto - , é criticada também pelo plano ideológico: a "ração humana", como é conhecida, está associada a um projeto desumanizado de alimentação do povo pobre, sendo uma opção duvidosa para a falta de acesso das populações carentes a uma alimentação de qualidade.

É claro que alguns "espíritas" vão dizer que oferecem "alimentação de qualidade" para as populações carentes e vão considerar o projeto de João Dória Jr. bastante discutível. Tudo bem. Mas a vida é tão complexa que até mesmo uma simples concessão de sopas, mingaus e alimentação básica através do Assistencialismo, mesmo com todo o cuidado nutricional e higiênico mínimos, não é suficiente para dar ao povo pobre a alegada transformação social de suas vidas.

O que se vê é que os projetos de "caridade" ao povo pobre trazidos pelas elites, das quais as religiões como o Catolicismo, as seitas evangélicas originais e as pentecostais e o "espiritismo" brasileiro se inserem no contexto social, não o fazem romper sua inferioridade social, mesmo quando lhes ajudam a obter um emprego.

Casos como a Escola Sem Partido, o "Alimento para Todos" de João Dória Jr. e a "filantropia" do Caldeirão do Huck, comandado pelo apresentador e empresário Luciano Huck - um dos fundadores do movimento Renova BR, que patrocina candidatos políticos de perfil conservador - , nos fazem pensar sobre o caráter duvidoso de uma "caridade" que pouco ajuda os necessitados e apenas expõe o "benfeitor" à adoração pública.

Essas iniciativas trazem novas questões que mesmo pessoas que se diziam "progressistas" conseguiam admitir, e que servem para apontar defeitos que neopentecostais e "espíritas" possuem, mas que muitas pessoas, mesmo aparentemente esclarecidas, se recusavam a admitir e contestar. Tais iniciativas apelam para "ajudar o próximo" sem causar ruptura alguma ao sistema de desigualdades sociais nem com os privilégios das classes dominantes.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

João de Deus usou atriz global para se promover e abafar investigações

JOÃO DE DEUS JÁ SE PROMOVIA ÀS CUSTAS DE FAMOSOS DO BRASIL E DO EXTERIOR, COMO A APRESENTADORA ESTADUNIDENSE OPRAH WINFREY.

Muitos ainda têm medo de enfrentar a deturpação do Espiritismo. Mesmo os questionadores mais dedicados recuam com medo quando chegam a um certo ponto, muitas vezes seduzidos pelas paisagens fantasiosas que ilustram as fotos dos "médiuns espíritas", ilustrações cheias de crianças sorridentes, céus azuis com brancas nuvens e jardins floridos. Em certos casos, os "médiuns" aparecem cercados de coraçõezinhos vermelhos e fofinhos.

Esse "cenário de Teletubbies" que desarmou muitos dos críticos da deturpação espírita, fazendo com que os deturpadores, com uma certa arrogância, disparassem falácias do tipo: "Viram? Nosso trabalho do bem (sic) desarma até os mais céticos, que podem resistir durante décadas, mas um dia são tomados pela força da fé", é resultante do recurso falacioso mais usado pelos "espíritas", o Argumentum Ad Passiones, ou simplesmente Ad Passiones.

Pois é o Ad Passiones, sobretudo na sua forma mais perigosa, o "bombardeio de amor" - expresso pela simulação de afetividade e generosidade que os "espíritas" fazem ao acolher visitantes - que fez com que o esperto Francisco Cândido Xavier, o "Aécio Neves da fé espírita", tenha seduzido Humberto de Campos Filho e, assim, evitado os processos recorrentes dos herdeiros do escritor maranhense.

Há muito mais corrupção nos bastidores do "espiritismo" brasileiro do que nos porões do que a direita imagina ser o Partido dos Trabalhadores. Ninguém desconfia, por exemplo, quem paga para os palestrantes "espíritas" ficarem excursionando pelo Brasil e pelo mundo para expor um repertório de palavrinhas bonitinhas e piegas, em troca de medalhas e outros prêmios. A situação chega a ser pior do que as seitas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

Isso se deve porque, embora as seitas neopentecostais estejam comprometidas com um projeto retrógrado de país, tentando frear na marra os avanços sociais e fazer prevalecer valores sociais antiquados - através de projetos educacionais como a Escola Sem Partido - , elas não têm o pior defeito praticado pelos "espíritas": a desonestidade doutrinária, que faz com que os "espíritas" entrem em contradição e dissimulem o tempo todo.

A situação chega ao ponto de reduzir o legado de Allan Kardec a uma doutrina mitômana, dissimuladora, mistificadora. Os críticos da deturpação espírita, que admitem que o "espiritismo" brasileiro é catolicizado, mesmo assim se sentem ofendidos, sem razão, quando há necessidade de ir adiante com os questionamentos. Eles se contentam com a promessa vã de que os próprios deturpadores vão "aprender melhor o pensamento de Kardec", algo que se revelou inútil.

O igrejismo que contaminou o "espiritismo" brasileiro tornou-se tão intenso - mesmo sob a verborragia pseudocientífica de Divaldo Franco e o carisma forjado de Chico Xavier - que a figura do "médium" passou a assumir caraterísticas dos antigos escribas e sacerdotes reprovados por Jesus de Nazaré em seu tempo, como o culto à personalidade, a falsa humildade e o discurso rebuscado.

E quem acha que criticar os "médiuns espíritas" e outras figuras da doutrina brasileira é ato de "intolerância religiosa" e "ódio ao trabalho do bem", é bom deixar claro que tais críticas se baseiam em alertas e questionamentos trazidos pelo próprio Allan Kardec, que preveniu ao mundo a deturpação que, infelizmente, encontrou um campo fértil no ingênuo e complacente Brasil.

JOÃO DE DEUS

O "espiritismo" brasileiro, além disso, é blindado pela mesma Rede Globo de Televisão que defendeu a ditadura militar e combate os movimentos progressistas. A Globo blinda Chico Xavier para concorrer com os "pastores eletrônicos" das concorrentes.

Para a Globo, a figura do "médium espírita" lhe é vantajosa, por ser um "sacerdote sem batina" cuja penetração social aparentemente independe de institucionalismo religioso. Com isso, a Globo vê no "espiritismo" um "Catolicismo à paisana", podendo persuadir religiosamente as pessoas sem despertar qualquer desconfiança a respeito disso.

A habilidade da Globo manipular as pessoas não pode ser subestimada: ela manipula até uma parcela de seus próprios detratores, inserindo-lhes valores, gírias, crenças e paradigmas culturais que são próprios da emissora, e que podem ser, no futuro, a herança da família Marinho, tida erroneamente como um patrimônio "acima do poder midiático e ideológico dominantes".

Com Chico Xavier morto e Divaldo Franco aposentado, a Globo promove seu mais novo "médium-sacerdote", o latifundiário e curandeiro João Teixeira de Faria, o João de Deus. Exposto a celebridades estrangeiras, através de um lobby mais ambicioso no qual se inclui uma afiliada da Globo em Goiás, João de Deus se expôs até a personalidades estrangeiras como a apresentadora Oprah Winfrey. Shirley MacLaine e Naomi Campbell também fizeram consultas com o "médium".

Há aspectos muito sombrios em torno de João de Deus, que o establishment religioso promove como um cruzamento de Zé Arigó com o curandeiro do programa O Povo na TV (SBT), Roberto Lengruber, depois desmascarado como charlatão.

João de Deus é latifundiário e teria acumulado riquezas e adquirido propriedades com o desvio de parte do dinheiro da caridade para a Casa Dom Inácio de Loyola, localizada em Abadiânia, interior de Goiás, Estado brasileiro considerado um dos mais conservadores do país.

Por outro lado, assim como Chico Xavier pode estar associado à "maldição dos filhos mortos", João de Deus estaria associado também a energias negativas, sobretudo quando a Marisa Letícia Lula da Silva, mulher do ex-presidente Lula, sofreu um AVC e, internada, parecia ter alguma chance de cura. Foi João de Deus orar por dona Marisa, para ela depois falecer. Consta-se que o jornalista Marcelo Rezende também teria sido "beneficiado" pelas energias de João de Deus ao morrer.

As energias negativas seriam seletivas, apenas atingindo personalidades que causam risco às energias conservadoras respaldadas pelo "espiritismo" brasileiro, atualmente fundamentado para recuperar as bases do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial.

Daí que muitos que recorrem a Chico, Divaldo e João sofrem alguma maldição ou ela atinge algum ente querido. Recentemente, o desenhista Maurício de Souza perdeu um filho prematuramente depois que criou animações da Turma da Mônica com Chico Xavier. Famosos como Nair Bello, Ana Rosa e Augusto César Vannucci, adeptos de Xavier, tiveram históricos de perda prematura de filhos.

O episódio de Camila Pitanga, que perdeu o amigo e colega de novela Domingos Montagner, deveria chamar a atenção. Ateia e de esquerda, ela recorreu a João de Deus para agradecer o fato de ter sido salva da tragédia. Ela em si recebe boas energias, mas também foi indicada por alguém - a novela, Velho Chico, teve no elenco o "espírita" e ativista de direita Carlos Vereza, que viveu Adolfo Bezerra de Menezes no cinema, e é um dos membros do reacionário Instituto Millenium.

Com isso, Camila acabou sendo usada como garota-propaganda não só de um cambaleante "espiritismo" igrejeiro praticado no Brasil, como também de um "médium" de valor duvidoso que é blindado pela Rede Globo de Televisão, que, sabe-se, recorre ao "espiritismo" para exercer seu poder, através de um respaldo religioso feito para enfrentar, de maneira sutil, as seitas neopentecostais.

O que chama a atenção é que a atriz foi convidada para tal ato de propaganda quando João de Deus é alvo de investigações criminais. Um texto do Jornal Opção, com detalhes, fala dos crimes de morte causados por exercício irregular da função, já que a "cirurgia mediúnica", atividade do "médium", é feita à revelia da ciência e sob métodos e técnicas duvidosos até sob o ponto de vista higiênico.

A técnica de usar apenas tesoura ou outro objeto cortante para perfurar a barriga e retirar um caroço é até um clichê dessa sub-medicina cuja credibilidade poderia ser posta em xeque (e podemos dizer xeque-mate) por um simples aspecto: João de Deus não realizou cirurgia em si mesmo, quando estava sofrendo de câncer.

Isso se torna vergonhoso e deplorável se percebermos que, em condições muito mais adversas, o cirurgião russo Leonid Rogozov, em 1961, realizou cirurgia em si mesmo, só precisando de dois assistentes, um para fornecer os instrumentos, e outro para mostrar o espelho para Rogozov olhar a área de sua cirurgia. Leonid sobreviveu e só faleceu 39 anos depois, com os efeitos naturais da velhice, em 2000, aos 76 anos de idade.

Duas pessoas haviam morrido depois que João de Deus realizou as "cirurgias". O norte-americano de ascendência latina Javier Villa Real Bustus (ironicamente, Javier é "Xavier" em espanhol) e a austríaca Martha Rauscher morreram após recorrerem à "cirurgia". A morte de Martha chegou a ser noticiada pelo portal G1, da Globo, sem que o nome dela nem o de João de Deus seja citado, o que sugere a blindagem da corporação da família Marinho ao "médium".

Quase não há investigações contra João de Deus. Segundo uma delegada de Abadiânia, ele não é denunciado. Como de praxe no "espiritismo", ninguém se atreve a denunciar os "médiuns" achando que é "intolerância religiosa" e "impiedade ao trabalho do bem", vide o famoso caso de Chico Xavier, cujo histórico de confusões e irregularidades, causadas por decisão, vontade ou consentimento do "médium" mineiro, o fizeram um equivalente religioso do conterrâneo Aécio Neves.

Há apenas uma investigação, em Abadiânia, contra João de Deus, que ocorre em segredo de Justiça, e a que está em andamento contra Javier Bustus, na qual o "médium", por sua atividade irregular, poderá responder por homicídio doloso ou culposo. Um texto explicando os problemas da "cura mediúnica" aponta problemas legais que podem indicar crimes diversos, não só o de charlatanismo, mas também de lesão corporal, entre outros.

O uso de uma atriz, ateia e de esquerda, para visitá-lo, a pretexto de agradecimento por uma graça, foi o recurso que João de Deus, blindado pela Globo, usou para abafar a má imagem trazida pelas denúncias que, se não são muitas, são graves, como a de charlatanismo ou de acúmulo abusivo de bens.

João de Deus também acumula uma fortuna surpreendente para alguém que vive "só da caridade".Tem um latifúndio, no interior de Goiás na divisa com Mato Grosso, com área equivalente a 18 parques do Ibirapuera (em São Paulo): 597 alqueires. Só a propriedade é avaliada no valor de cerca de R$ 2 milhões.

O "médium" não cobra por consultas e cirurgias na Casa Dom Inácio de Loyola. Mas ele já cobrou consultas em vários consultórios que administra, também cobra dinheiro por seus remédios e já cobrou taxas para uma palestra e amostras de suas atividades em eventos "espíritas" no exterior. É um bilionário com muita fome de dinheiro para alguém que quer ser associado à humildade e à simplicidade, não bastasse o culto à personalidade tão caraterístico dos "médiuns espíritas".
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