segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Alterações em "Parnaso": Chico Xavier e FEB põem na conta dos "autores espirituais"


A polêmica das sucessivas alterações sofridas nas edições do livro Parnaso de Além-Túmulo, que Chico Xavier atribuiu a autoria a poetas e escritores "do além" - inclusive espíritos misteriosos, como um certo "Amadeu" -  , em maioria famosos, tentou ser contornada com um jogo-de-cintura não muito sutil entre o anti-médium mineiro e os dirigentes da FEB.

O processo aparentemente demorado de revisão entre a quinta edição e a sexta e "definitiva", entre 1945 e 1955, ocorreu pouco depois dos efeitos controversos causados pela ação judicial movida pelos herdeiros de Humberto de Campos contra Chico e a FEB.

Embora a ação judicial tenha resultado em empate, esse desfecho favoreceu Chico e a federação, na medida em que eles eram dispensados de tentar provar se Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho era realmente de Humberto de Campos ou não. A dispensa não representou confirmação de autoria, mas o fato da Justiça "lavar as mãos" favoreceu os espiritólicos.

As revisões feitas nas edições de Parnaso de Além-Túmulo, entre sua publicação original em 1932 e a quinta edição, de 1945, eram relativamente rápidas e pequenas. De repente, a revisão feita entre a quinta e a sexta foi mais demorada, durando dez anos, diante dos efeitos negativos que a notícia da ação judicial provocou, em que pese o desfecho favorável a Chico e a FEB.

Talvez seja por causa das denúncias de que Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho tenha sido uma obra de qualidade inferior, conforme o advogado dos herdeiros de Humberto, Milton Barbosa. A denúncia foi corroborada por vários estudiosos literários, como Osório Borba, enquanto outros preferiram ficar neutros, como Monteiro Lobato.

Só que a neutralidade foi usada pela FEB como se fosse favorável a Chico Xavier. Tentando confundir as pessoas, a FEB usou algumas declarações, citadas em postagem aqui publicada, como se fossem confirmatórias da mediunidade de Chico Xavier nos referidos livros.

Ora, deixemos de ser ingênuos!! Não negar não significa necessariamente afirmar ou confirmar, mas expressar uma dúvida neutra. Como o próprio Humberto de Campos fez em vida, em relação a Parnaso de Além-Túmulo, em que o fato de admitir semelhanças de estilo não significa exatamente que os poemas "do além" sejam realmente dos autores espirituais atribuídos.

AJUDINHA DE "ANDRÉ LUIZ"

Para tentar resolver o problema, era bolado o livro Nos Domínios da Mediunidade, que Chico atribuiu a André Luiz - o insólito autor de Nosso Lar - e foi publicado em 1955, mesmo ano da sexta edição de Parnaso de Além-Túmulo.

Feito para tirar de escanteio o Livro dos Médiuns, de Allan Kardec - do qual a FEB só "recomenda" a tradução de Guillon Ribeiro - , Nos Domínios da Mediunidade, que expressa o pseudo-cientificismo típico de Waldo Vieira (provável criador de André Luiz), foi usado para tentar justificar as alterações relacionadas ao livro poético.

"Por que, afinal de contas, a mensagem não consegue ser filtrada pronta e irretocável? Serão assim tão difíceis os meios de comunicação entre desencarnados e encarnados?", alega Suely Caldas Schubert, no livro Testemunhos de Chico Xavier, em 2010, indagando sobre as misteriosas reparações em Parnaso de Além-Túmulo.

A tentativa de argumento é um tanto prolixa para definir "cientificamente" (no modo André Luiz / Waldo Vieira) o processo "mediúnico", e um tanto surreal para definir o modo como Chico Xavier teria feito o livro.

"CIRCUITO MEDIÚNICO"

Segundo Nos Domínios da Mediunidade, o processo mediúnico se divide num processo comunicativo vagamente descrito, entre a "vontade-apelo" do médium e a "vontade-resposta" do espírito. A tentativa de explicação é incompleta, porque descreve o primeiro processo, a "transmissão de mensagem", e "outros processos" dos quais não há uma menção rigorosamente analisada.

Na "transmissão da mensagem", há quatro etapas. A primeira seria a "associação de mentes" entre médium e o espírito escolhido, depois a "assimilação de pensamento" por parte do médium, em terceiro vem a "interpretação do pensamento" pelo médium e depois a "transmissão da mensagem".

Em outros processos, as etapas descritas, em ordem crescente de ocorrência, são a "formação de ideia" (ideação), "escolha de ideia" (seleção), "análise da ideia" (autocrítica) e "expressão da ideia". Parece correto, mas o tal "circuito mediúnico" carece de melhores estudos, coisa que o religiosismo pseudo-científico do "espiritismo" brasileiro não parece interessado em fazer.

Suely Schubert menciona também o livro No Invisível, de Leon Denis - pensador francês perdido entre o cientificismo de Allan Kardec e o religiosismo de Roustaing - , que descreve um estágio "superior" da mediunidade: "Em um grau superior, é como uma centelha do céu a dissipar as humanas tristezas e esclarecer as obscuridades que nos envolvem".

A essa definição - se é que isso pode ser considerado definição, já que essa ideia de Leon Denis é bastante vaga e superficial para definir o que é um médium evoluído - , Suely atribui tal qualidade a Chico Xavier, embora ela mesma tenha deixado "obscuridades não esclarecidas" como no caso da influência de Roustaing em Chico Xavier e na FEB.

"SPEED RACER" DA MEDIUNIDADE

A FEB descreve Chico Xavier como um "Speed Racer" da mediunidade. Segundo a instituição, Chico, no caso de Parnaso de Além-Túmulo, psicografava poemas em reuniões públicas, de modo muito rápido, ou seja, rabiscando o papel com uma velocidade anormal, mas dele saindo palavras "prontas".

Depois, Chico lia as páginas em voz alta, alegando não haver tempo para revisão por parte do autor (espírito) e médium. O trabalho, com base nesta hipótese, era feito de maneira contínua, dia após dia, e, apesar do cuidado, ocorrem pequenas falhas no mecanismo acima descrito.

A alegação da FEB sobre a demora de revisão da quinta para a sexta edição do livro poético era de que Chico Xavier tinha muito tempo para entrar em sintonia com todos os autores espirituais envolvidos, procurando acertar a disponibilidade de contato com cada um deles.

Apesar dessa justificativa, de que as reformulações do livro eram feitas pelos "autores espirituais", pontos obscuros permanecem para questionamento. Por que o livro foi publicado com material a ser posteriormente revisto? E por que os poemas apresentam irregularidades de estilo e expressão em relação ao que seus presumidos autores escreveram em vida?

Enquanto isso, o próprio Chico deixou vazar que pediu aos dirigentes da FEB que fizessem a revisão do livro, pela falta de tempo do anti-médium mineiro em verificar minuciosamente todo o conteúdo do livro. Chico e a FEB puseram na conta dos "autores espirituais" as revisões sucessivas de Parnaso, mas deixaram vazar que uma equipe de editores da FEB é que reeditava mesmo o livro.

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