domingo, 17 de maio de 2015

"Espiritismo" transforma o amor num prisioneiro das palavras


Diz o ditado popular que falar é fácil. E, no "espiritismo" brasileiro, o que se observa é a exploração dos conceitos de amor, fraternidade e caridade que se tornam escravos da retórica, prisioneiros das palavras, reduzidos às letras "desencarnadas" da verborragia "espírita" que muito tem de proselitismo religioso e nada do Espiritismo originalmente lançado por Allan Kardec.

Muito se fala em amor e pouco se age. Quando muito, são medidas paliativas "comemoradas" como se fossem filantropia plena. Recentemente, Divaldo Franco comemorou, através de reportagem do Fantástico, na Rede Globo de Televisão, uma "ação de caridade" que só ajuda menos que 1% da população de Salvador e se ostenta como "belo exemplo para o mundo".

Faz-se pouco e o envaidecimento se torna pleno e perigoso. Chico Xavier lançou livros cheios de erros e irregularidades, muitas gravíssimas, e ainda assim acha que "fez bem ao próximo" o seu malabarismo das palavras que apenas consola os incautos e crédulos, que desconhecem as diversas armadilhas da vida.

O amor, a sabedoria, a caridade, a fraternidade, ou mesmo os pareceres técnicos, a funcionalidade e a racionalidade, tudo virou pretexto para belas palavras se apoiarem em práticas desumanas, algo inimaginável nos embrutecidos tempos do Império Romano, já que hoje a crueldade dos homens mostrou-se possível de ser sustentada pelas mais belas e generosas palavras. A hipocrisia virou mal do século, principalmente no Brasil.

O Brasil vive a ditadura das desculpas, e tudo virou um espetáculo de malabarismo das palavras. Corruptos ficam sempre argumentando serem "honestos" e apenas "perseguidos" por desafetos ou por traidores. Tecnocratas julgam os malefícios sofridos pela população como "males necessários" para "benefícios futuros" que ninguém sabe como são e, se soubesse, veria que seriam menos benéficos do que se supõe.

É como, no sistema de ônibus, se vê na exaltação ao BRT, meros ônibus articulados que mais parecem microtrens de asfalto, transformados em "divindades da mobilidade urbana". As pessoas são obrigadas a aceitar a tal da "padronização visual", que impõe um mesmo visual para diferentes empresas de ônibus, confundindo os passageiros, acobertando a corrupção político-empresarial e outros malefícios, em troca de "benefícios" nem tão benéficos assim.

Afinal, os noticiários mostram os BRTs sofrendo acidentes, rodando superlotados, causando sufoco e desorganização das pessoas. Mas como Jaime Lerner é uma espécie de "Chico Xavier" do transporte público, endeusado com todos os erros e desastres cometidos. Infelizmente, muitos acreditam que os diplomas de uns poucos justificam os piores sofrimentos de muitos.

É sempre assim. Vide o desenvolvimento econômico de tantos anos, que estrangulava salários em prol de um desenvolvimento industrial e financeiro. Com o Partido dos Trabalhadores, a esfera social começou a receber maior atenção, mas os erros e irregularidades de seus governos ainda comprometem o sucesso do desenvolvimento pleno do país.

Para um país em que as pessoas com fome aceitam viver na pobreza desde que tenham uma TV de plasma, uma antena parabólica e um engradado de cerveja na geladeira, as pessoas nem têm consciência exata dos seus desejos e necessidades, porque pessoas dotadas de status, seja econômico, acadêmico, político ou coisa parecida, ficam com o monopólio das decisões.

As pessoas chegam mesmo a atribuir nos "superiores de ocasião", não raro verdadeiros algozes enrustidos, vontades e desejos de algum progresso social. As pessoas aceitam sofrer, de forma masoquista, achando que endinheirados, diplomados e famosos são donos dos nossos desejos, das nossas vontades e perspectivas e são senhores das nossas necessidades que eles desconhecem e desprezam.

Por um logotipo de prefeitura, de governo estadual ou de algum consórcio politicamente armado, que desmancham a diversidade visual e funcional das empresas de ônibus e impõem um "visual único" que nos confunde e permite a roubalheira empresarial, muitos aceitam essas barbaridades em troca de ônibus mais longos, confortáveis e rápidos e um bilhete eletrônico para pegar vários ônibus.

Só que a prática mostrou o contrário. Ônibus mais lotados, lentos, atrasos constantes na chegada ao trabalho, tentando convencer o patrão que não foi vadiagem (e muitos patrões são capazes de pedir um Nobel da Paz a um Jaime Lerner filhote da ditadura), empresas mal-administradas (desestimuladas pela proibição de exibir a identidade visual) e, por isso, com ônibus mais velhos, sem manutenção e causando acidentes com várias mortes.

Mas há outros exemplos. Como os favelados que recorrem ao crime organizado para protegê-las e compensar o descado do Estado. Ou as pessoas que disfarçam a baixa auto-estima porque o fanatismo pelo futebol é a única salvação por suas vidas. Ou então os ouvintes das rádios 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ) que usam um rock que não entendem direito como válvula de escape para impulsos juvenis e aceitam uma programação que tem mais piadas, locutores engraçadinhos e outras coisas nada roqueiras em troca de alguma catarse e de alguma promoção para conseguir ingresso para "aquele festival".

Mas também há a terrível "música popular" das rádios bregas, com aqueles canastrões se achando "gigantes do samba" ou "violeiros de raiz" sem ter uma ideia do que é samba ou música caipira, aceitos comodamente por serem "simpáticos e divertidos". E muitas mulheres aceitam maus conquistadores, homens nada atraentes e de personalidade medíocre ou, às vezes, sinistra, porque eles vieram com uma piada divertida, acertaram numa conversa hábil e são dotados de algum prestígio sócio-econômico.

É como se vendêssemos nossos desejos e necessidades para o mercado clandestino. Nos impressionamos por benefícios relativos, menores e frágeis, porém imediatos, porque nos impressionamos com a profissão de alguém, com seu status, sua visibilidade, ou porque um número seleto de "bacanas" quer que seja assim, por esta ou aquela vantagem que quase ninguém compreende bem mas que é imposta, até mesmo na marra, nem que seja pela pressão da trolagem na Internet.

No "espiritismo", muitos também se apegam a essa "aura" do amor e da caridade aprisionados e escravizados pela retórica, dentro do citado contexto em que os desejos e necessidades humanas são manipulados pelo egoísmo de uns poucos. Esse egoísmo manipula as palavras para nos fazer crer que são generosos, e tentam desmentir no discurso o que agem, até com certo radicalismo, na prática.

Vivemos em função do egoísmo humano, atribuímos "superioridade" àqueles que não sabem exatamente o que precisamos e traem constantemente a confiança de muitos na promessa não-cumprida de melhorias futuras. Nos apegamos ao materialismo dos diplomas, da "divindade religiosa", do poder político e econômico, da visibilidade plena da fama ou do prestígio entre seus pares.

Com isso, sofremos sem saber. Sentimos dor sem gemer, consolados porque o diploma permitiu que outrem viesse a nos prejudicar maldosamente, dizendo no entanto que agiu em seu benefício e que prometerá "estudar" os prejuízos causados para buscar uma solução melhor. Uma solução que, de preferência, seja lançada sem resolver realmente o problema.

Dos ternos e palavras eruditas de Divaldo Franco à austeridade dos milicianos, da promessa de um enigmático BRT, de um ingresso para o Rock In Rio que permite "rádios de rock" esculhambarem roqueiros através de locutores engraçadinhos, da fome disfarçada pela rodada de cerveja, da pobreza disfarçada pelo gol de um time, pelo cara chato que a mulher aceita porque é dono de uma empresa com algum bom conceito.

Isso nos faz espíritos piores, despreparados, submissos e sem consciência de nós mesmos. E é isso que o amor aprisionado do "espiritismo" brasileiro faz agravar, com a glamourização do sofrimento de um Chico Xavier também beneficiado pela visibilidade e pelo "divinismo". Ou mesmo pela versão invertida de "superioridade", através do estereótipo do "bom velhinho".

Com voz dócil e frágil, Chico Xavier nos dizia que sofrer era maravilhoso porque atraía "bênçãos futuras". E muitos se tornaram masoquistas com isso. Em troca de benefícios que não sabemos e que podem até serem blefes (que bênçãos? que BRT? que gol do time?), sofremos e sofremos mais. Porque o amor e a caridade tornaram-se prisioneiros das desculpas humanas que disfarçam atos egoístas e cruéis de uns poucos privilegiados.

sábado, 16 de maio de 2015

A ilusão de perfeição e prosperidade dos brasileiros


O Brasil é um país em crise. Desde o golpe militar de 1964, o Brasil acumulou retrocessos sucessivos dos quais as pessoas não percebem, pela ilusão de prosperidade, perfeição e felicidade em que se encontram nas suas "zonas de conforto".

A maioria dos brasileiros ainda vive o país como se estivesse no período do "milagre brasileiro" do governo do general Emílio Garrastazu Médici. Não é preciso imaginar que há também intenso reacionarismo na Internet, com internautas defendendo o "estabelecido" pela mídia, pela política e pelo mercado do entretenimento ou expressando preconceitos machistas e racistas.

Essas pessoas dotadas de muita intolerância são capazes até de criar blogues que publiquem ofensas e calúnias contra quem discordar delas, fazendo de tudo: copiando textos dos desafetos, publicando fotos íntimas ou dos tempos de infância, acrescidos de piadas maldosas e gozações violentas. E ainda ameaçam quando são advertidos.

O Brasil está há 30 anos sob regime democrático, sendo que há 26 anos é permitido ao povo brasileiro votar para presidente da República. Mas o inconsciente coletivo ainda está preso no "milagre brasileiro", para o bem e para o mal, para o conformismo dos acomodados e para a agressividade dos arrogantes e intolerantes.

Só que diagnosticar essa crise, tocar nas feridas que estão há muito tempo no nosso país, incomoda muita gente. Vide, por exemplo, a opção recreativa dos brasileiros de fugir de qualquer questionamento crítico da realidade, um medo de enfrentar os problemas e reconhecer que tudo está errado, até mesmo no lazer.

Até no uso da Internet, parece que a coisa declinou. Em vez de pessoas aproveitando a interatividade no computador para expor ideias e questionamentos, há agora o uso de telefones celulares e computadores tablets, dos quais se limitam a movimentar os dedos para ver o que há, de preferência, de mais inofensivo nas mídias sociais.

É um tal de "curtir" e escrever "kkkkkkkk" (onomatopeia para risadas histéricas) e de submeter ao deus "tecnologia", porque as pessoas mal conseguem substituir o teclado preciso dos computadores de mesa pelo tecladinho do celular em que as pessoas mal se dispõem a teclar com um único dedo alguma frase e acabam sucumbindo ao pobre e primário "internetês", que escreve "flw" e "vlw" em vez de "falou" e "valeu".

As pessoas não saem da euforia consumista e ficam presas em um lazer analgésico, quase narcótico (para não dizer escancaradamente, em casos extremos). Até para ler livros dando preferência para temas místicos, ficções de fantasia, auto-ajudas, diários sobre amenidades feitos por blogueiros da moda, enfim, tudo literatura "água com açúcar".

Há uma ilusão de prosperidade, de felicidade, de perfeição. Questionar isso causa incômodo e mal-estar, as pessoas parecem seguras na sua "zona de conforto", E aceitam bovinamente qualquer retrocesso se ele surgiu de decisões de pessoas dotadas de prestígio da fama, do poder político, da liderança de mercado ou da formação tecnocrática e acadêmica.

É uma ilusão de perfeição que se fundamenta na "perfeição da imperfeição", da apologia dos erros, da vaidade em cometer erros, da satisfação pela acomodação, da falta de autoconsciência das pessoas, que faz com que ninguém saiba o que realmente quer ou precisa, mas tudo fica nisso mesmo.

Por outro lado, porém, há as tensões, os ódios, as raivas, os crimes e violências de pessoas que têm dificuldade de digerir as pressões cotidianas e não aceitam os impasses e problemas que surgem. Ameaçados de deixarem a "zona de conforto", se vingam de uma maneira ou de outra, mostrando seu reacionarismo extremo ou sua violência ignóbil.

Quem é rico parece que não quer dar emprego a quem precisa. Quem é inteligente não se acha interessado em ampliar conhecimentos ou compartilhar questionamentos sobre qualquer coisa trazidos por outrem. Ninguém quer mobilizar-se a não ser impulsionado pela mídia ou pelo mercado. A apatia é geral, mas é uma apatia "feliz" e "tranquila", que em certas pessoas vira raiva quando é contrariada.

É uma normalidade forçada que vem desde os tempos do AI-5. Nem mesmo o golpe militar de 1964 deixou um país tão apático como o que está hoje. E essa acomodação agora atinge em doses intensas o Sul e Sudeste (até mesmo o Rio de Janeiro) antes combativos e evoluídos, agora naufragados num provincianismo de deixar qualquer matuto da Região Norte ficar de queixo caído.

Tudo porque há uma contraditória situação de "zona de conforto", que traz felicidade para quem está acomodado e revolta para quem é tirado de sua normalidade de conveniência. Uma passividade que parece expressar uma estabilidade próspera, mas é apenas uma normalidade aparente que acoberta desigualdades, injustiças, equívocos e arbitrariedades.

E essa situação compromete de forma grave qualquer esperança de ver o Brasil destacado na comunidade das nações, porque esse cenário de acomodação e reacionarismo só mantém o atraso que sempre rendeu uma imagem negativa do nosso país no exterior.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

"Espiritismo" despreza a vida material


O "espiritismo" despreza a vida material. Sua ideologia e sua pregação moralista fazem com que a vida material seja vista não como uma etapa de aprendizado, mas como um suplício, uma condenação. Essa visão moralista é herança do Catolicismo medieval e traz muitos problemas para quem recorre a essa religião.

A "criminalização" da vida material acaba criando condições vibratórias ruins, às quais as pessoas que têm muito o que fazer na Terra tendem a viver pouco e as que nada têm vivem muito e levando seu "ócio existencial" para a velhice, tornando sua encarnação inútil.

É certo que, por outro lado, existem acidentes e incidentes na vida que ceifam a vida de qualquer um, independente de religião. São condições baseadas em adversidades e infortúnios diversos. Mas, no caso do "espiritismo", os incidentes trágicos são consequentes em muitos casos do azar que seguidores ou simpatizantes sofrem, e que seriam facilmente evitáveis.

A própria pregação moralista do "espiritismo", seu caráter punitivo, uma espécie de Taylorismo religioso ou uma "Terceirização da fé" que transforma o ser vivente não em alguém pronto para contribuir para o progresso da humanidade, mas em um infeliz a aguentar qualquer tipo de barbaridade e suplício sob o pretexto de "obter progresso moral" na encarnação.

Como no Taylorismo, o cidadão "espírita" é sujeito a todo tipo de sofrimento e limitações bastante severas. Um exemplo é quando pessoas de notabilíssima inteligência não conseguem de forma alguma obter emprego, nem com rezas e, quando fazem tratamento espiritual, não só perdem até as oportunidades de arrumar um bom trabalho como ainda arrumam inimigos em um incidente qualquer.

As pessoas mais evoluídas acabam sendo as mais condenadas. Ou sucumbem a sofrimentos e limitações severas, ou sua vida é abreviada por uma tragédia casual. Mas quando as pessoas possuem um caráter ainda grosseiro e cruel, o "espiritismo" adota uma postura diferente.

Pessoas que cometeram crimes ou atos desonestos, ou que contribuem para o retrocesso da humanidade, acabam ganhando a "sorte grande" e passam a ter um prazo de até 95 anos para fazer o que quiserem, na melhor das hipóteses transformando sua inutilidade em exemplo de sucesso para novas gerações.

"ESPÍRITAS" SÓ VEEM O AMANHÃ. E O HOJE?

É muito fácil os "espíritas" desprezarem a vida material presente e acharem que tudo é punição e infortúnio. Alguns até tentam dizer que "nem sempre é assim" e que "não estamos aqui para sofrer", embora, contraditoriamente, exaltam um Chico Xavier que faz apologia ao sofrimento, como se ser espírita fosse sinônimo de ser masoquista.

Segundo eles, a vida material não tem importância. Parece que todos somos uns zumbis que comemos, alimentamos e fazemos algo pela nossa sobrevivência. Sendo assim, a impressão que se tem é que o "espiritismo" brasileiro ainda está preso na pré-história, achando que só estamos aqui para comer e beber algo e sobrevivermos para sofrermos qualquer coisa.

Eles imaginam que, na vida futura, todos poderão fazer aquilo que não puderam fazer na encarnação presente. Isso é uma grande ilusão. A própria vida terrena nos traz uma amostra disso, quando a distância do tempo faz com que as mudanças sejam bastante drásticas.

O "espiritismo" é contraditório. É materialista mas despreza a vida material. Se diz espiritualista mas despreza as missões do espírito numa encarnação. E seus líderes não têm noção que, embora exista a reencarnação, cada encarnação é única em planos de vida e atividades.

Se uma pessoa faz uma coisa na vida e, de repente, morre, digamos, aos 30 anos de idade, as oportunidades dela fazer a mesma coisa aos 30 anos na próxima encarnação - provavelmente a partir de um prazo de 40 anos - se tornam praticamente nulas, porque muita coisa muda, e em muitos anos há mais mudanças ainda.

O "espiritismo" só pensa em "superar o egoísmo" e resolver "conflitos", mas nunca em estimular a criatividade, o senso crítico, o raciocínio investigativo, a expressão do prazer. Ele se limita a ver a missão de evolução humana aos aspectos moralistas e religiosos, como se a vida fosse uma coisa "qualquer nota" e a irritabilidade e a agressividade possam ser eliminadas por si só.

Só que muitas das irritações e agressões existentes possuem raízes. Os problemas existem suas origens e razões, mas o "espiritismo" só se lembra de aspectos morais genéricos. A doutrina não pensa a individualidade humana, porque criminaliza o prazer, condena o raciocínio crítico, e acaba vibrando mal contra pessoas criativas, independentes e arrojadas.

Enquanto isso, pessoas que cometem homicídios, por exemplo, arrastam suas vidas até os 85, 90 anos, apenas pelo único esforço de fazer seus nomes e suas condições materiais terem boa reputação, sendo "bonzinhos" aos olhos da Terra, como se não tivessem que enfrentar os efeitos de seus atos malignos.

Talvez estes tivessem até maior mérito de falecerem cedo, antes de inspirar ou cometer novos crimes, antes de vitimar sem necessidade mais pessoas e fazendo com que suas condições materiais - nomes, posses, status - se perdessem antes que significassem alguma associação leviana à imagem de sucesso e prestígio pessoal.

Mas pessoas que cometem esses crimes ou outros referentes à corrupção, ou então que contribuem para todo tipo de retrocesso social, acabam sendo premiados porque o "espiritismo" vê em todos eles agentes de "reajustes espirituais" ou "resgates morais", desculpas que os "espíritas" usam para as pessoas sofrerem demais e aguentarem qualquer coisa ruim.

O "espiritismo" brasileiro desconhece que a Natureza determina para as pessoas um prazo de 80, 90 anos de vida, para realizar coisas em prol de algum progresso social. Prefere ver pessoas que se esforçam por melhorias morrendo o mais cedo possível e outras que perdem tempo com nulidades ou ruindades vivendo longamente, tornando inútil ou nociva a encarnação.

Para o "espiritismo", a vida material não tem valor, apesar de, contraditoriamente, avaliar as coisas de forma materialista (como acreditar, por exemplo, que na "pátria espiritual", haverá um hospital com o tamanho de um shopping center). O único valor da vida terrena é o da punição da vontade humana, com base naquela ideia muito difundida de "quanto pior, melhor".

O "espiritismo" vê as coisas apenas pela perspectiva da religião, e prefere apostar no futuro, reduto do incerto e do duvidoso, para a resolução dos problemas da humanidade. São permitidos os piores suplícios, até acima das capacidades dos sofredores de aguentar qualquer coisa, em prol de uma "vida futura" que não se sabe como será. Acreditar dessa forma é um grande erro.

Enquanto isso, essa doutrina deixa de trazer respostas e soluções coerentes para a vida presente. E quem se apoia nessa crença é obrigada apenas a sofrer "com amor e resignação", não se sabe até quando, sempre adiando qualquer esperança de melhoria.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Feminicidas conjugais desprezam sua própria tragédia

O DIPLOMATA ESPANHOL JÉSUS FIGÓN MATOU A ESPOSA (E) E SIMPLESMENTE FICARÁ IMPUNE.

Recentemente, o diplomata espanhol Jésus Figón, de 64 anos, que trabalhava num serviço de segurança em Vitória (ES), se apresentou à polícia e confessou ter assassinado a esposa, a capixaba Rosemary Justino Lopes, com três facadas, no apartamento onde moravam na cidade.

Numa época em que o feminicídio é tardiamente reconhecido como crime hediondo, o dado assustador é que Jésus simplesmente não parecia destinado sequer a ser condenado à liberdade condicional. Beneficiado pela imunidade do cargo, ele em princípio viveria como se não tivesse cometido crime algum, podendo viajar sem precisar avisar à polícia.

E isso era certo até que o Governo Federal brasileiro solicitou ao governo da Espanha o cancelamento da imunidade do diplomata, pedido aceito pelas autoridades do país europeu. Com isso, Jésus pode, se comprovada sua participação no crime, ser condenado como um criminoso comum.

O feminicídio é um dos tipos mais graves de homicídio, porque corresponde ao ato de tirar a vida de mulheres por motivos quase sempre fúteis (como o fato da vítima recusar-se a ser estuprada). E o feminicídio conjugal (antes denominado "crime passional") é considerado ainda o pior dos feminicídios, porque não raro se sustenta com desculpas moralistas.

O aspecto mais surreal é que o feminicida conjugal ainda se beneficia com a blindagem da sociedade e dos valores moralistas ainda fundamentados no machismo. A "legítima defesa da honra" é a desculpa mais conhecida e custou a vida de milhares de mulheres durante muitas décadas.

A raiz disso é que a sociedade brasileira defende a união de pessoas sem afinidade. Sobretudo quando padrões machistas, como o homem valorizado pelo poder do dinheiro ou pela força física, estão em jogo. Ideologicamente as mulheres são induzidas, pela midia e pelo mercado, a desejar esse padrão masculino, mas não raro pagam com a vida quando percebem que esse tipo não vale a pena.

TABAGISMO EXCESSIVO FAZIA AMIGOS DE DOCA STREET (E) SE PREOCUPAREM COM SUA SAÚDE JÁ NA ÉPOCA DO SEU CRIME.

No machismo, o homem é considerado o sujeito e a mulher tem um valor praticamente decorativo, sendo um misto de troféu, animal doméstico e reprodutora de filho. Por outro lado, o homem, tomado de vaidade, esquece de amar realmente sua mulher, e quando ela reclama da falta de amor e decide se separar, neste caso ela corre o risco de ser morta por "traição", apenas porque quer o divórcio.

O caso mais famoso de feminicídio conjugal envolve o empresário e antigo playboy da alta sociedade paulista, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, que matou a namorada, a socialite mineira Ãngela Diniz, em 28 de dezembro de 1976, em Armação de Búzios (RJ).

Por curiosa ironia, a cidade de Búzios é vizinha do atual município de Casimiro de Abreu, nome do famoso poeta ultrarromântico fluminense, que viveu entre 1837 e 1860 e que simboliza o universo masculino oposto ao de Doca Street. São os homens solitários leitores de Werther que entram em profundo contraste com o machista sanguinário do personagem literário Woyzeck.

O caso de Doca Street - que, em outra ironia, veio da mesma São Paulo de outro poeta ultrarromântico, Álvares de Azevedo (1831-1852) - , pela impunidade que representou sob a assistência do advogado Evandro Lins e Silva (num dado negativo à sua trajetória progressista), que garantiu a liberdade condicional em 1981, impulsionou uma grande onda de feminicídios semelhantes.

Esses feminicídios vieram como epidemias e dominaram, pelo menos da forma como eram intensamente noticiados na imprensa, por pelo menos 15 anos. A cada caso de liberdade condicional de homens que mataram suas mulheres, inspirava novas ocorrências, pela certeza de impunidade que seus praticantes acreditavam ter.

A coisa é tão grave que esses assassinos, por mais que tivessem cometido crimes com crueldade, saíam da prisão para viver na mais plena impunidade, conquistando novas namoradas e tudo, como se nada grave eles tivessem feito. Há feminicidas que passaram até a viver fora do Brasil, sem que houvesse algum pedido de extradição.

A blindagem social, ou mesmo da grande mídia, apesar de seu aparente repúdio à prática, indica a imagem adocicada com que tentavam trabalhar de dois homicidas, o promotor Igor Ferreira da Silva e o médico Farah Jorge Farah, sendo aquele mandante do assassinato da esposa Patrícia Aggio Longo, e este envolvido no assassinato e esquartejamento de uma amante.

Entregues à impunidade, os dois ainda apareceram em noticiários da imprensa, mesmo através de depoimentos de terceiros, como o pai de Igor, com os assassinos soltos prometendo ser "pessoas legais", como se os crimes que cometeram tivessem tanta importância como quebrar um copo de requeijão depois do uso.

O problema é que os feminicidas se acham "eternos", Acham que sua impunidade está acima de tudo, e que "sofreram demais" com a revolta da sociedade em relação aos crimes que cometeram. Só que nada se compara com o sofrimento das famílias das vítimas e o que se vê é que os feminicidas, sobretudo os conjugais, ignoram sua própria tragédia.

Todo segmento da sociedade têm suas tragédias prematuras ou quase. Na tecnologia da Informática, tivemos o caso de Steve Jobs, fundador da Apple, morto aos 56 anos. Até coveiros e agentes funerários têm sua vulnerabilidade. Os feminicidas conjugais é que ignoram suas tragédias e suas vulnerabilidades e reivindicam uma vida linearmente tranquila até, pelo menos, 95 anos de idade.

Não é bem assim. Os machistas que matam suas mulheres são até muito mais trágicos do que se pode imaginar, e têm até o dobro da sombra trágica que costuma-se associar aos poetas ultrarromânticos. O problema é que os valores moralistas protegem os machistas e dizer que eles também têm sua tragédia soa para muitos ofensivo e depreciativo.

DIZER QUE UM FEMINICIDA CONJUGAL ESTÁ "DOENTE" É TIDO COMO "OFENSIVO"

Exemplo disso são os rumores que existem na Internet de que Doca Street já esteja sofrendo de um tumor maligno no pulmão e estaria até mesmo em tratamento de quimioterapia. Isso condiz com noticias dadas na imprensa, uma semana após Doca ter matado Ângela, no qual seus melhores amigos estavam preocupados com a saúde dele, pelo fato dele fumar excessivamente. Uma edição de Manchete de janeiro de 1977 mostra um desses casos.

Ele teria tido um passado de badalações da gente rica, em que se fumava demais, se embriaga muito e se consumia muita maconha. Doca Street personificou o espírito do tempo de festas e bacanais que, pelo rápido e antecipado obituário de celebridades - uma grande maioria de astros da disco music, por exemplo, já faleceu - , indicava os descuidos da saúde e, sobretudo, a glamourização do cigarro.

Doca já aparecia envelhecido no julgamento que, em 1981, lhe garantiu a liberdade condicional e fez a festa de outros machistas com sede de sangue feminino a ser derramado pelas "defesas de honra", com 47 anos, mesmo nos padrões biológicos da época, ele parecia dez anos mais velho, provavelmente com um pulmão mais envelhecido ainda.

Só que as reações de muitos internautas a esses rumores revelam a estranha reputação de homens que tiram a vida de suas mulheres e querem depois viver "plenamente sossegados" (um privilégio que as famílias das vítimas não têm). Sim, porque dizer que um feminicida que fumou demais está no fim da vida aos 81 anos é "ofensivo" e "depreciativo". Se, em vez de feminicida, fosse um músico de rock essas mesmas pessoas estariam torcendo para que ele morresse.

O que levou a esses rumores certamente não foi o ódio ou a raiva de fulano ou sicrano, embora hoje os feminicidas conjugais, se vissem as mensagens publicadas na Internet, se assustariam com as ameaças de morte constantemente recebidas. Há quem, sarcasticamente, desejasse a Jésus Figón "passar umas férias" no Iraque ou no Afeganistão, onde constantemente ocorrem atentados a bomba.

O que leva a isso é a própria limitação do corpo físico. Tenha-se paciência, o corpo de um feminicida não é mais resistente do que de uma pessoa sem atos violentos graves. Um feminicida não é um "deus", seu corpo físico se degrada como os de todos nós. E, se cometeu abusos contra a saúde, seu corpo decai mais ainda. Não nos parece que Pimenta Neves seja mais resistente a uma overdose de remédios do que Heath Ledger, apesar de sua aparente sobrevida de 15 anos.

O próprio machismo faz seus seguidores serem mais vulneráveis às doenças. Eles resistem muito ao exame da próstata, vários deles dirigem carros sob ingestão de álcool e sua dieta alimentícia é das piores possíveis. Se um machista considerado de caráter "bom" está sujeito a morrer cedo por doenças, não é o outro que assassinou a própria mulher que estará a salvo, mesmo sofrendo os mesmos riscos.

Para comparar sobre as mortes por tabagismo, três exemplos. Chico Anysio, ainda ativo em 2011, pelo seu passado tabagista faleceu em 2012 antes de completar 81 anos de idade. Em 2004, Leonel Brizola, boatos sobre envenenamento à parte, tinha um histórico tabagista apenas regular e morreu quando estava com 82 anos. José Wilker, que fumou muitíssimo menos que Doca Street, morreu de infarto aos 70 anos incompletos.

Por que será que é ofensivo alertar para as tragédias dos homens que mataram suas mulheres? Sob a perspectiva espiritual, o que morrerá é apenas a roupagem física e social que lhes garante privilégios e poder, benefícios meramente materiais. O prolongamento da vida para esses homens seria até arriscado, simbolizando um conflito emocional muito grande.

CONSCIÊNCIA DA TRAGÉDIA

A falta de consciência da tragédia não os torna invulneráveis. Por sorte, a imprensa não faz obituário de feminicidas. Mas se percebermos bem, se garimpar os paradeiros somente dos feminicidas conjugais que não se suicidaram, muitos se assustarão ao ver que até rapazes de boa aparência que mataram suas belas namoradas também já estão falecidos por algum infarto, acidente de trânsito ou outra tragédia da qual eles não se preveniram.

Muitos desses atos são cometidos pela ação do álcool ou das drogas, mas mesmo o estado sóbrio não é livre da degradação física. O simples rancor e, em muitos casos, o ineditismo do ato criminoso, cria as pressões emocionais que podem levar ao homem que matou sua mulher a sofrer um infarto fulminante.

Por outro lado, o prolongamento da vida para esses homens, além de representar um atenuante para seus atos - ele pode assassinar a esposa a sangue frio na juventude, que depois virará um "bom velhinho", diminuindo a gravidade dos atos e de seus efeitos - , pode significar um mau exemplo a ser perpetuamente seguido por futuros assassinos que ignoram o lado sombrio desses atos.

Além do mais, as pressões da sociedade fazem com que os valores machistas que justificam esses atos se tornem decadentes e a "proteção social" que os feminicidas conjugais tinham para seus atos está chegando ao fim.

Mas se caso Doca Street, Pimenta Neves e outros morrerem, o que ocorrerá é apenas o fim de seus nomes "sujos na praça" e do status confuso que eles representavam. Com a reencarnação, eles poderão renascer e criar uma encarnação mais limpa, conscientes de não cometerem mais crimes contra a vida.

A consciência da tragédia lhes será um aprendizado e tanto para evitar que atentem contra outrem e contra si próprios. Morrendo, eles terão a oportunidade de se melhorarem com uma nova vida, sem a mancha dos malefícios da vida anterior.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Caso de ex-falsificador de quadros é um puxão de orelha nos "médiuns" da pintura


Chuva em Salvador. Não, não é um auto-retrato surreal de Salvador Dali, mas a chuva da capital baiana. Só que, ao lado da tempestade que causou deslizamentos e mortes na famosa cidade (que foi capital do Brasil nos tempos do Brasil colonial até 1763), mostra uma outra "tempestade" que, desta vez, causa "deslizamentos" na Cidade da Luz, no bairro de Pituaçu.

Pois enquanto José Medrado realiza espetáculos de "pinturas mediúnicas", que mostram a mesma caligrafia de assinatura e os mesmos traços toscos que mal conseguem imitar os estilos originais dos pintores falecidos, um alemão que era conhecido como o maior falsificador de quadros do mundo decidiu, depois de deixar a prisão, pintar quadros próprios.

Wolfgang Beltracchi, de 64 anos, faislficava quadros de vários pintores consagrados, como Max Ernst, Heinrich Campendok, Max Pechstein, Fernand Léger, André Derain, procurando imitar os seus estilos com o máximo de perfeição.

Com sua fiel esposa Helene Beltracchi, ou Helen, como era conhecida nos tempos de fraudes, combinavam toda uma farsa que conseguiu até certo momento enganar algumas das mais conceituadas galerias de arte.

Helen chegou a participar de uma farsa em que fez se passar por sua própria avó para inventar a estória de que esta havia comprado uma coleção de quadros do galerista alemão Alfred Flechtheim, na década de 1930. Para isso, Wolfgang e Helen pegaram papéis de cuchê da época e neles imprimiram fotos em preto e branco dela, vestida a caráter e editada para parecer afetada pelo tempo.

A farsa foi desmontada por acaso. Ao examinarem a cópia falsificada do quadro Rotes Bild mit Pferden (1914), de Heinrich Campendonk, constataram que foram utilizados pigmentos de branco titânio, que não existia na época em que a moldura foi produzida.

Com isso, Wolfgang foi detido e condenado a seis anos de prisão, e Helen a quatro. Depois de sair da cadeia, ele decidiu deixar a falsificação para se tornar um pintor de suas próprias obras. Deu seu depoimento ao documentário A Arte da Falsificação (The Art of Forgery), de 2014.

Com seus quadros próprios, em que Wolfgang se desprende da obrigação de copiar os estilos de outros pintores e desenvolver seu próprio estilo, foi montado o repertório para a exposição intitulada Liberdade, em exibição na galeria Art Room 9, em Munique, na Alemanha.

Através desse exemplo, ficamos refletindo o quanto pessoas com alguma capacidade de pintura tentam enganar as pessoas com uma suposta "mediunidade", "recebendo" pinturas na penumbra dos auditórios "espíritas", criando um chamariz sensacionalista para sua suposta filantropia.

Alegando receberem obras inéditas de artistas falecidos, os "médiuns" brasileiros da pintura nem são muito habilidosos, não conseguindo enganar com pinturas que apresentam sérios problemas de estilo em relação aos pintores originais, e das quais os "pictopsicógrafos" não medem escrúpulos em apresentar uma mesma assinatura: a deles mesmos.

Não raro essas pinturas só mostram um mesmo estilo: o dos supostos "médiuns", e José Medrado, de acordo com análises, não consegue trabalhar a diferença entre Monet e Manet, criando um mesmo estilo de pintar de vasos de flores a crianças.

Seria muito mais edificante que, em vez de forjar uma pintura mediúnica que não existe, fossem feitos quadros de autoria própria assumida, obras próprias, sem usar os nomes de ilustres falecidos mas tão somente o de seu modesto autor, porque, embora isso chame muito menos atenção das pessoas, é infinitamente muito mais honesto e sincero.

Usar a fraude para produzir sensacionalismo é algo que nem o pretexto da caridade resolve. Pelo contrário, quadros como esses são leiloados e vendidos com preços caros, adquiridos por colecionadores que levam gato por lebre. Pensam levar um novo trabalho trazido por um pintor do além e levam uma obra mediana que de forma acanhada só expressa o estilo do "médium".

Daí o exemplo de Wolfgang Beltracchi representar um grande puxão de orelha para os supostos médiuns da psicopictografia. Para não dizer um grande soco na barriga dos que enganam as pessoas se passando por recebedores de pinturas do além. A Cidade da Luz estremece.

terça-feira, 12 de maio de 2015

"Espiritismo" e a desculpa dos erros


"Quem nunca errou, que atire a primeira pedra", conta o registro da Bíblia de um suposto episódio (na verdade fictício, segundo pesquisas históricas, por ser uma inserção católica da Idade Média) envolvendo Jesus e uma adúltera.

Mais recentemente, outras frases mais simplificadas se relacionaram com os erros humanos, como o tal "Quem nunca...?", da qual criou até uma "tribo" chamada "quenunca", por conta do episódio envolvendo a embriaguez de uma conhecida atriz de teatro, cinema e TV.

Os "quenuncas" são aliás um subproduto dessa interpretação errada da consciência dos erros. Que todas as pessoas erram, isso é verdade, embora dizer isso tenha se tornado um chavão. Mas o problema não é esse risco de errar, que com certeza deve ser compreendido pela complexidade social em que vivemos, mas a apologia ao erro que o exagero dessa ideia pode causar.

Há uma grande diferença entre uma pessoa que erra sem querer e mantém a consciência tranquila, evitando se traumatizar com o erro que cometeu, e outra que comete algum erro pior e sai por aí orgulhosa dizendo "Quem nunca...?", fazendo publicidade de seus próprios delitos?

É aí que há o perigo da apologia do erro, tão perigosa quanto condenar severamente os erros mais inocentes. A permissividade do erro já ocorre muito na humanidade, principalmente no Brasil, e até práticas cruéis como o homicídio forjam justificativas de acordo com as conveniências.

Os machistas praticam homicídio contra mulheres, o feminicídio, alegando "legítima defesa da honra". O coronelismo latifundiário mata trabalhadores, desempregados e até missionários sob a desculpa da "defesa da propriedade". A ditadura militar assassinou milhares de cidadãos brasileiros por causa do "combate à subversão" e "repressão ao comunismo".

Se atos de extrema covardia são justificados assim dessa forma, então se estimula a bebedeira e o uso de drogas, e castigar os pulmões com cigarro até que, na meia-idade, uma quimioterapia seja feita em vão e o que resta do fumante convicto é a saudade que deixará para seus amigos, parentes e colegas.

OS ERROS "ESPÍRITAS"

A apologia ao erro é uma boa desculpa para medíocres e incompetentes passarem no teste. Isso vem desde a escola, quando pessoas que não querem nem conseguem aprender fazem o possível para passar de ano, com as chamadas "colas".

Essa apologia é boa para que facínoras, algozes, calhordas e canalhas de outrora cheguem à posteridade muitas vezes embarcando em causas que espontaneamente nunca se identificariam nem se interessariam em seguir. São marionetes das conveniências, capazes de transformar em obsessão uma causa da qual nem sonhando eles desejariam seguir outrora.

No "espiritismo", os erros fazem com que figuras como Francisco Cândido Xavier sejam mantidas em seu pedestal pelas paixões terrenas de seus seguidores. O anti-médium praticamente empastelou a doutrina de Allan Kardec, autor que Chico Xavier nunca teve o menor interesse em seguir, mas ao qual se tornou tendenciosamente vinculado.

Tudo se justifica para aceitar erros vergonhosos. As conveniências medem e manipulam a avaliação dos erros humanos. Dependendo de quem erra, os erros graves são aceitos por conta de certas condições de favorecimento social, distinções de caráter materialista ou simbólico feitas para alimentar e assegurar as vaidades pessoais.

Daí o fato de muitos homicidas terem deixado a cadeia porque gozam de um importante status social. Latifundiários que fazem a regra de suas terras não seriam punidos pelos seus crimes. Feminicidas ricos levam a melhor até na conquista de novas namoradas, passando a perna em muitos nerds ou poetas dotados do mais sincero e respeitoso cavalheirismo.

E, no caso "espírita", um Chico Xavier que às vezes se comportava de forma hesitante e, em outras, apoiava abertamente fraudes, e que deturpou a Doutrina Espírita e cometeu pastiches literários, é endeusado e promovido a "líder" por conta de valores e símbolos associados a um estereótipo que envolve velhice, pobreza, bondade e caridade.

Esse estereótipo, que alimenta vaidades pessoais dos seguidores de Chico Xavier com um jogo de contrastes ideológicos entre pobreza/riqueza, ignorância/sabedoria, fraqueza/força, silêncio/voz e pequeneza/grandeza, faz com que muitos elitistas se apoiem nessa figura para disfarçar seus ódios, desprezos e maus tratos contra idosos e humildes de carne e osso que vivem no seu cotidiano.

Permitindo a complacência com os erros de Chico Xavier, que foram muitos e gravíssimos, porque entregaram a Doutrina Espírita a um rol de atividades desonestas e enganadoras, permite-se que, promovendo-o a líder de tudo, a um quase Deus e a um "dono da verdade", se autorize qualquer mediocridade, qualquer corrupção, qualquer delito ou até mesmo crime.

Sim, porque no caso do crime, é através da ideologia de Chico Xavier que os atos criminosos, dos roubos aos genocídios, sejam justificados como atos de "reajustes espirituais", impondo a culpabilidade das vítimas e atenuando a culpa dos criminosos, que só "pagarão pelo que fizeram" daqui a uma ou duas encarnações.

Chico Xavier é um dos símbolos máximos da apologia ao erro, porque ele cometeu vários e preocupantes. Ele explorava as tragédias dos jovens mortos e expunha as famílias a situações vexatórias, se aproveitando das tristezas alheias, e renegando o sossego e a privacidade que essas famílias precisam para refletir sobre a perda de entes queridos.

No entanto, seu estereótipo de "bom velhinho" o faz com que seus seguidores, em suas diversas correntes, dos "chiquistas puros" (que só veem ele como filantropo, "médium" e conselheiro religioso) a outros que lhe atribuem qualidades surreais, o coloquem sempre como alguém superior, atribuindo qualidades que vão do "missionário" ao "cientista político".

Sim, Chico Xavier passou a ser um gancho para fantasias idealistas ou delírios surreais. E virou ele mesmo um símbolo máximo da apologia ao erro, sendo a única pessoa que pode cometer até erros graves, mas que é isento de responsabilidade total sobre os mesmos, ainda que os tivesse feito de propósito.

Tanto que ele tornou-se o único a ser aceito pela falsidade ideológica das mensagens por ele difundidas, e o único que foi oficialmente autorizado a se apropriar indevidamente de um autor morto, Humberto de Campos, produzindo obras que destoam totalmente do estilo do falecido autor maranhense.

Em nome das "palavras de amor" trazidas pelo mineiro que simbolizava o estereótipo do "caipira humilde", para depois ser visto como o "bom velhinho", Chico Xavier usou e abusou da credulidade alheia e, mesmo assim, ganhou foros de "autoridade máxima" do nosso país, promovido a "líder absoluto" de tudo, sem ter mérito natural para isso.

E agora o "espiritismo" tenta salvar sua doutrina e a figura de Chico Xavier, alegando que "tem consciência" dos erros cometidos. Mas tudo isso é desculpa para tudo permanecer na mesma, para que os erros continuem já que eles são confortavelmente aceitos. As pessoas que fazem apologia aos seus erros se acham certas, e acabam atirando pedras no bom senso e na coerência.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sistema de ônibus do RJ dá exemplo do egoísmo e da mentira extremos

PARA FORÇAR O APOIO DA POPULAÇÃO À TENEBROSA PINTURA PADRONIZADA NOS ÔNIBUS, AUTORIDADES CARIOCAS LHES "PRESENTEIAM" COM ÔNIBUS REFRIGERADOS, COMO O DA ESQUERDA.

Egoísmo, mentira, demagogia, chantagens, pretensos agrados, prepotência. Implantado há cinco anos, o modelo de sistema de ônibus no Rio de Janeiro, que requenta o decadente modelo implantado na ditadura militar em Curitiba e, infelizmente, se amplia para o resto do país, é o mais evidente exemplo de como é capaz de fazer o egoísmo e a mentira humanos.

Sem oferecer qualquer tipo de vantagem real para a população, o modelo - ancorado na medida arbitrária e sem qualquer benefício para a população da pintura padronizada nas frotas de ônibus, que faz com que diferentes empresas tivessem o mesmo visual, confundindo a população e mascarando a corrupção político-empresarial - é defasado, ineficiente e danoso, mas continua prevalecendo.

Não é difícil ver sua decadência, não só nas notícias diárias da imprensa como na própria pesquisa cotidiana. É só passar um tempo na Av. Passos, no Centro da Cidade Maravilhosa, logradouro onde ficava a antiga sede nacional, e hoje sede fluminense, da Federação "Espírita" Brasileira, no local chamado de "Casa-Máter do Espiritismo", para sentirmos o problema.

Empresas de diferentes consórcios - na prática, desculpa para a Prefeitura do Rio de Janeiro impor seu logotipo em empresas particulares, como o fazendeiro manda pôr, em chapa quente, a marca de sua fazenda para o gado bovino - rodam pela avenida com ônibus completamente sucateados, com as latarias amassadas e até arranhadas e sacudindo como se fossem caminhões de ferro-velho.

Pode ser a São Silvestre e a Vila Isabel do consórcio Intersul (Zona Sul, Centro e Tijuca), ou a Acari e Rubanil do Internorte (Zona Norte), a Redentor e a Futuro do Transcarioca (Barra, Jacarepaguá e região de Madureira) ou a Pégaso e a Bangu do Santa Cruz (baixa Zona Oeste), todos rodam com tremedeiras, como se tivessem parafusos soltos.

A medida foi anunciada em dezembro de 2009 por um Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, que anunciou uma medida chocante e arbitrária: os ônibus passariam a ter pintura padronizada, ou seja, diferentes empresas de ônibus teriam que adotar o mesmo visual, causando transtornos e prejudicando a população em todos os aspectos.

Cinicamente, o prefeito alegou que a medida acabaria com a "poluição sonora" e "organizaria" o sistema de ônibus, atitude que se revelou bastante mentirosa. Sem consultar a população, a pintura padronizada, que puxava um modelo de medidas anti-populares, Paes chamou a base aliada para fazer uma votação "às escuras" na Assembleia Legislativa fluminense para aprovar a medida.

A pintura padronizada, que confunde a população em todos os sentidos e camufla irregularidades diversas e relacionadas à corrupção político-empresarial - só para se ter uma ideia, a pintura padronizada dos ônibus de Brasília facilita até a circulação de ônibus piratas - , foi implantada oficialmente em meados de 2010, com um constrangido Eduardo Paes posando para fotos diante de um ônibus mostrando a pintura de um dos consórcios.

Foi um festival de mau-caratismo, de egoísmo e mentiras de um modelo de sistema de ônibus e mobilidade urbana que se tornou até assassino (entre os vários passageiros mortos por acidentes envolvendo ônibus, teve até atleta olímpico e produtora da Rede Globo).

"MOBILIDADE" MEDIEVAL

A "idade das trevas" (alusão à Idade Média), definida por um busólogo (entusiasta de ônibus) que discorda do modelo, se completou ainda quando um grupo de busólogos antes discordantes passou a apoiar a medida esperando favorecimento político por parte de um secretário de Transportes, Alexandre Sansão.

Um desses busólogos, que era ligado a um projeto assistencial na Baixada, era dos mais exaltados e, segundo denúncias de vários internautas, chegou a criar blogue de ofensas e calúnias contra vários desafetos. Em 2008, ele havia feito comentários racistas contra um outro busólogo, em desavenças criadas depois de uma aparição em um programa de TV paga.

A decadência do sistema de ônibus do Rio de Janeiro complicou ainda mais pelo fato da cidade ser ainda considerada referência para o país, apesar de sua grave crise social e seu provincianismo antes considerado inimaginável.

Tanto que o decadente modelo de sistema de ônibus, com pintura padronizada e tudo, foi empurrado para cidades como Niterói, Recife e Florianópolis, sem qualquer consulta à população e com seus sistemas piorando depois da implantação, incluindo acidentes de ônibus e transtornos causados até em BRTs, ônibus articulados que circulam em algumas dessas cidades.

Vieram malefícios diversos como a jornada profissional opressiva, em que motoristas precisam criar um meio-termo entre o cumprimento extremamente rigoroso de horários e a cidade congestionada em que se vive.

Qual o resultado? Ônibus mudando de percurso para "cortar caminho", ou então correndo em alta velocidade e provocando acidentes, outros passando ignorando passageiros que lhes acenam para pararem, ou então parando no meio da rua para embarque e desembarque de passageiros que sofrem o risco de serem atropelados.

Há também a dupla função de motorista-cobrador que sobrecarrega o trabalho de motoristas que ainda têm que cumprir horário, dar o troco correto, rodar em alta velocidade, e isso faz com que a sobrecarga os faça sujeitos a sofrer infarto ou mal súbito, tal o estresse de tanto acúmulo de obrigações.

LINHAS "ESQUARTEJADAS"

Além disso, a demagógica proposta do bilhete-único, que em tese permite que os passageiros peguem pelo menos dois ônibus pagando uma só passagem, faz com que linhas distantes sejam "esquartejadas" criando supostas "alimentadoras" que só fazem os passageiros perderem tempo e pegarem ônibus superlotados.

Um exemplo disso é a extinção de linhas funcionais cariocas, como 465 Cascadura / Gávea, 676 Méier / Penha e 952 Penha / Praça Seca, de percursos considerados exclusivos e demanda certa. As linhas foram "rachadas" em "alimentadoras" destinadas à estação de BRT Transcarioca, criando a antes impensável demanda de superlotação desses longos ônibus em que o ar condicionado não evita o sufoco da lotação excessiva.

A "mobilidade urbana" de Eduardo Paes também tendeu para diminuir terminais de ônibus e obrigar os pedestres a andarem mais. O prefeito ameaçou transformar metade da Av. Rio Branco (sentido Candelária - Aterro) num grande calçadão, mas sua imagem estava desgastada demais para arriscar mais uma arbitrariedade, cedendo a proposta até a atual, em que a avenida seria repartida entre o tráfego de ônibus e carros numa faixa e a pista de veículo leve sobre trilhos (VLT) em outra.

A pintura padronizada criou até mesmo uma tragicomédia, em que jornalistas diversos, como da Record Rio, do jornal O Dia e vários blogues na Internet, confundiram os nomes das empresas. O mito da "organização" e da "harmonia visual" caíram por terra, com ônibus circulando com aspecto de sujos e vários veículos com problemas sérios na documentação.

Isso para não dizer a corrupção político-empresarial que fez com que a CPI dos Ônibus da Câmara Municipal tivesse que ser conduzida por políticos aliados de Eduardo Paes e dos donos das empresas, para evitar que seus interesses particulares fossem comprometidos pelas investigações.

Eduardo Paes chegou a dizer, sobre a pintura padronizada dos ônibus, que não queria ver os ônibus como antes, exibindo o que ele e seus pares entendem como "poluição visual" (na verdade, a diversidade visual que tanto facilitava à população o reconhecimento imediato de cada empresa),

Já pensou se Eduardo Paes fizesse o mesmo com as pessoas? Seria a tradução exata do que os políticos de orientação nazista haviam feito na África do Sul, quando implantaram o regime de segregação racial, criando uma "padronização visual" de pessoas conforme as áreas em que elas eram autorizadas pelos poderosos a circularem.

Paes chegou a falar em "embalagens de azeite português", em alusão a uma antiga pintura da empresa Braso Lisboa (hoje "amarrada" no "consórcio" Intersul). Isso revoltou a colônia portuguesa, que se sentiu ofendida com o comentário jocoso de Eduardo Paes que, como quem morde e assopra, tentou pedir desculpas, mesmo diante da ampla divulgação do incidente pela imprensa carioca.

No entanto, sua pintura padronizada tem o aspecto de "embalagem de remédio", contraste similar ao que os busólogos" contrários à pintura padronizada são xingados pelos busólogos "patronais" de "viúvas de latas de tinta" sem saber que estes também têm o adjetivo pejorativo de "beatas de carimbo de prefeitura".

FRACASSO DO BRT

Até o BRT, estrela maior desse sistema de ônibus, se mostrou um grande fracasso, mais parecendo uma versão "micrão" dos trens de superfície do que de um tipo de ônibus alongado. Sua implantação gerou vários problemas e esse tipo de ônibus está incluído entre todos que se envolvem em acidentes, incluindo várias mortes e contabilizando uma média de 20 pessoas feridas por cada ônibus.

Há ainda denúncias de expulsão de moradores de casas populares para construção de pistas de BRT, sem dar uma compensação satisfatória. E há também denúncias de áreas ambientais que foram destruídas com o mesmo propósito. Para piorar, o Rio de Janeiro hoje é considerada a capital mais poluída do país, superando até mesmo a célebre São Paulo.

Enumerar todas as tragédias e todos os exemplos de egoísmo, desrespeito humano, descaso, mentira e falsas gratificações para forçar o apoio das pessoas (como o desnecessário Bilhete Único, que poderia ser compensado com uma política que aliviasse bem os custos do transporte) daria um livro muito grande.

Mas esta postagem é suficiente para mostrar o quanto existem pessoas egoístas, cínicas, mentirosas e demagogas que ocupam as altas esferas do poder e só estão aí para defender seus interesses e travesti-los de "respeito ao interesse público", uma daquelas grandes mentiras que nem de longe se sustentam. O direito de ir e vir tornou-se um inferno para os brasileiros, sobretudo cariocas.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...