quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As Mães de Maio, as Mães de Acari e o verdadeiro ativismo


Enquanto muitos brasileiros confortados veem suposto ativismo nas atividades de Francisco Cândido Xavier, principalmente no que se refere às mães dos entes queridos falecidos, que gerou até filme - As Mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Helder Gomes - , outros casos de mães que perderam filhos mostra um quadro bem mais realista de ativismo e luta por direitos humanos.

No caso de Chico Xavier, as mães encaram as tragédias de seus filhos de forma quase sempre comum, geralmente pelo uso de drogas, suicídio ou mortes violentas (acidentais ou criminosas), e são expostas à exploração sensacionalista das "cartas mediúnicas" das quais há dúvidas se foram realmente escritas ou ditadas (os "espíritas" se enrolam quando não conseguem dizer se as psicografias foram escritas ou ditadas por um falecido).

Nada que lembre um ativismo social de verdade, até porque as "psicografias" não trouxeram benefícios reais às famílias, expuseram suas tragédias de forma levianamente prolongada e causou até desavenças familiares sem necessidade.

Quando comparadas com outras tragédias, de cunho político, observa-se uma grande diferença, que são os casos das mães da Praça de Maio (Plaza de Mayo), na Argentina, e as mães das vítimas da Chacina de Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

As Mães de Maio são as mães de desaparecidos de toda forma durante o período da ditadura militar na Argentina, entre 1976 e 1983. Tanto podiam ser os desaparecidos políticos, assassinados e com seus cadáveres escondidos pelas forças da repressão, como as crianças filhas de presos políticos que eram tiradas de suas famílias de origem para serem adotadas por famílias de militares e outros associados ao regime.

O nome se refere a uma das principais praças de Buenos Aires, ponto de partida para manifestações contra o extravio de filhos de prisioneiros políticos e também do desaparecimento de muitos destes durante o chamado "Processo de Reogranização Nacional", como se chamava a ditadura argentina. Os protestos chamaram muita atenção do mundo e renderam livros e documentários.

As Mães de Acari, por sua vez, correspondem às mães de um grupo de jovens, moradores da favela de Acari - situada no entorno entre os cruzamentos da Av. Brasil e da Via Dutra, no bairro homônimo vizinho à Pavuna - , no subúrbio carioca, que haviam sido sequestrados por policiais em 1990 e até hoje desaparecidos.

Foi em 26 de julho de 1990. Onze amigos, dos quais sete menores de idade, estavam passando alguns dias em um sítio no bairro de Suruí, em Magé, na Baixada Fluminense, quando um grupo de homens que se anunciavam como policiais os sequestraram, pedindo dinheiro e joias. Os onze detidos nunca tiveram seus corpos encontrados.

As mães das vítimas passaram a se manifestar pedindo punição aos policiais. Elas também davam depoimentos nas delegacias para dar informações sobre o crime. Algumas dessas mães foram depois assassinadas em circunstâncias misteriosas, dando forte indício de "queima de arquivo", diante desse episódio que ilustra o problema da violência policial crônico nas grandes cidades.

Curiosamente, às Mães de Acari se juntaram a outras Mães de Maio, nome dado porque, em maio de 2006, a violência policial exterminou, em apenas uma semana, mais de 500 jovens pobres da cidade de São Paulo, tidos como "bandidos" apesar de não apresentarem antecedentes criminais.

As Mães de Maio brasileiras visitaram, certa vez, o Rio de Janeiro para se manifestarem ao lado das mães cariocas e, a essas alturas, já não eram mais as mães de maio, mas de todos os meses. Em 2015, cinco jovens trabalhadores e estudantes que comemoravam conquistas nessas áreas foram assassinados por policiais que os teriam aparentemente confundido com "bandidos".

É ilustrativo que, em um dos protestos das Mães de Acari, cartazes protestam contra o "esquecimento", ou seja, contra a impunidade do caso, que prescreveu em 2010 (deixou de ser crime condenável por ter completado duas décadas de ocorrência). No "espiritismo" brasileiro, costuma-se recomendar o "esquecimento", afinal as vítimas é que são "culpadas".

Daí o lado "anjo do inferno" de Chico Xavier, que sempre se voltou para o conformismo, a resignação e ao sofrimento "em silêncio". Era a ideologia do "quanto pior, melhor" aplicada à fé religiosa: aceitar as desgraças com fé e fazendo orações, de preferência calado, "esquecer" e "amar", acreditando numa bonança que geralmente só chegaria após túmulos serem tampados ou as cinzas serem jogadas em algum lugar.

Isso mostra o quanto, no lado das tragédias familiares em episódios políticos - a violência policial é um crime político, porque são homens a serviço do Estado - , o ativismo se encontra fora do âmbito religioso. Além disso, a "caridade" de Chico Xavier fez muito mal às famílias, porque expôs sem necessidade as tragédias pessoais que poderiam terem sido resolvidas na privacidade.

Já as tragédias das Mães de Maio, argentinas e brasileiras, e das Mães de Acari, têm sua razão de serem expostas de forma prolongada, por ser uma violência política e porque elas protestam para chamar a atenção da opinião pública quanto ao Estado repressivo, um problema que poucos percebem e que durante muito tempo significou impunidade para seus responsáveis.

É, portanto, um problema de direitos humanos, que cabe ser mostrado à sociedade. Não tragédias comuns e individuais, como no caso das mães atendidas por Chico Xavier e similares, que poderiam se situar no sossego da privacidade, para que os que estão vivos pudessem seguir com suas vidas particulares com um mínimo de sossego possível.

Mostrar as tragédias da violência política, portanto, era um serviço de utilidade pública para a sociedade, para denunciar crimes e clamar por justiça. Já mostrar as tragédias "espíritas" só serve para promover o "espiritismo" e seus supostos médiuns, como publicidade ostensiva que agrada muito o já perverso sensacionalismo midiático, sempre se apoiando no pitoresco e sobrenatural.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Latifundiário decide pela mobilidade urbana no RJ

A RICA FAMÍLIA PICCIANI. RAFAEL, O SECRETÁRIO DE TRANSPORTES CARIOCA, ESTÁ SEM PALETÓ.

A religiosização no Rio de Janeiro impede os fluminenses de verificarem as coisas. O deslumbramento diante de fenômenos nem tão admiráveis assim e de medidas nem tão benéficas, baseado na visão teológica da autoridade e de alguém bem-sucedido em qualquer coisa (na fama, no dinheiro e na formação acadêmica) faz com que absurdos sejam aceitos sem questionamento, em prejuízo até de quem acredita neles.

Se, no rádio, temos o aberrante caso da Rádio Cidade, que mantém o nome mas renega sua história original, que nada tem a ver com o pastiche de rádio de rock trabalhado pela emissora, isso num Rio de Janeiro que já teve emissoras infinitamente bem melhores, e se o paradigma de "cultura de vanguarda" está na retaguarda do "funk", então há muita coisa errada no Estado do Rio de Janeiro.

É uma crise de valores, não apenas financeira ou institucional. Na verdade, um conjunto de crises, que faz com que os fluminenses, assustados, reagissem da pior maneira possível. Rompem com amigos que não compreendem as convicções pessoais da "boa sociedade" do RJ. Deixam de seguir blogues "contestadores demais". Fogem para consumir uma "cultura água-com-açúcar" e por aí vai.

Daí que, no Rio de Janeiro, os livros mais vendidos são de temáticas que não contribuem para a ampliação do conhecimento: humor besteirol (em que a piada vale mais pela grosseria do que pela graça), auto-ajuda, religião e ficções de aventura. Neste último caso, é muito mais fácil enfrentar estudantes-vampiros, monstros e bonecos de Minecraft do que enfrentar a realidade ou admitir que a cultura no Brasil está em séria crise.

No Estado em que o fanatismo por futebol é fator regulador das relações sociais - quem não gosta de futebol, no Estado do Rio de Janeiro, é vítima de discriminação e das represálias do assédio moral até no ambiente de trabalho - , o provincianismo fluminense tornou-se um fenômeno pouco conhecido das pessoas.

Há uma imagem equivocada de ver que o Estado do Rio de Janeiro só se define pelas praias de Ipanema e Copacabana, pelos prédios da Av. Pres. Vargas, pelo luxo (hoje já não tão luxuoso assim) da Barra da Tijuca, ou, quando muito, dos subúrbios da Baixada Fluminense ou do bucolismo de Cabo Frio, Petrópolis, Parati e Campos dos Goytacazes.

Iludidos com essa imagem de "cosmopolitismo", imponente ainda que caótico, do Estado do Rio de Janeiro, ainda visto como "referência" para todo o país, o povo fluminense parece sucumbir ao mesmo destino trágico do povo paulista, que vê o Estado de São Paulo decair e sua capital, antes imponente, viver tantas tragédias e dramas que demonstram sua decadência vertiginosa.

A decadência do eixo Rio-São Paulo não é efeito "normal" da complexidade urbana. Nota-se que as duas capitais e seus respectivos Estados estão vivendo, nos últimos 25 anos, surtos de provincianismo que não eram imagináveis sequer no auge da ditadura militar, vindo sobretudo de meios acadêmicos e empresariais comprometidos com a decadência sócio-cultural e com grupos políticos que adotam métodos coronelistas que seriam típicos da República Velha.

É só perceber que os grupos políticos do PSDB paulista e do PMDB carioca lançaram o que pode ser entendido como "neocoronelismo". Práticas autoritárias baseadas em convicções pessoais que se justificam falsamente pelo pretexto do "interesse público" são feitas à revelia da lei e da consulta popular prevalecem de maneira indefinida, decaindo vários serviços de maneira dramática.

No caso do Estado do Rio de Janeiro, nem o verniz populista do prefeito da capital, Eduardo Paes, que parece repetir os apelos demagógicos de Luciano Huck (empresário e apresentador de TV que virou dublê de ativista social, mas permite campanhas preconceituosas em sua grife de roupas), consegue afastar o ranço coronelista do grupo político, responsável direto pela crise que assola o Estado.

HÁ CORONELISMO LATIFUNDIÁRIO NO RJ

E a "boa sociedade" que rompe com os amigos porque eles não curtem futebol, não estão no WhatsApp e não têm dinheiro para gastar todo fim de semana com os ônibus de locais distantes só para aparecer no bar onde "a galera" se reúne, não percebe que a crise estadual revela aspectos sombrios que os fluminenses em geral desconhecem.

Por exemplo, há coronelismo latifundiário no Rio de Janeiro. Antes de ser a versão tropical das máfias estadunidenses, os banqueiros do jogo-do-bicho são latifundiários e muitos dos crimes cometidos são comparáveis aos de grandes fazendeiros no interior do país.

Há quem pense que só existem piscinões no interior do Estado do Rio de Janeiro e que seu território é uma gigantesca Ipanema cercada de pequenos Maracanãs e Praças Tiradentes dotadas de pequenas Candelárias, com centros das cidades que são metade Méier, metade Barra da Tijuca.

Não. Existem grandes fazendas de gado no Estado do Rio de Janeiro, existem grandes proprietários de terras e há um coronelismo tão rigoroso quanto o do Pará. Alguns crimes políticos que envolvem autoridades de municípios da Baixada Fluminense ou do Centro-Norte do Estado são dignos do interior paraense, e a pistolagem rola solta em cidades como Magé, Guapimirim e Rio das Ostras.

Mas o dado mais insólito está no tipo de mobilidade urbana que está sendo imposto desde 2010 pelas autoridades cariocas. Com um espírito de transparência política digno dos tempos das capitanias hereditárias, ou seja, nenhuma transparência, se impôs ônibus com pintura padronizada (que confundem os cidadãos), dupla função de motorista-cobrador (que sobrecarrega motoristas e traz riscos aos passageiros) e itinerários reduzidos.

Pois a coisa é mais grave ainda com o projeto de paulatinamente acabar com a ligação direta entre a Zona Norte e a Zona Sul - temporariamente suspensa devido a uma ação do Ministério Público, até as autoridades darem uma "explicação técnica" sobre a medida (o que as autoridades cariocas sabem é dar desculpas; só falta mesmo explicar as agressões de certos políticos contra as próprias mulheres pelo pretexto de que eles só queriam matar os mosquitos do vírus zyka que voavam sobre elas).

Além de esconder uma intenção, nunca assumida pelos políticos, de discriminação social, já que o fim das linhas diretas da Zona Norte para a Zona Sul, com a gradual redução de percursos - as linhas do Leblon, por exemplo, foram reduzidas para o ponto da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, ou pelo entorno do Mourisco, em Botafogo - , é para dificultar o acesso da população suburbana à Zona Sul, "limpando" as praias para receber mais turistas, a medida traz muitas outras complicações.

Tudo isso é decidido desde 2010 por uma elite de tecnocratas - dos quais se destaca o pouco confiável Alexandre Sansão, que não parece ser um bom representante dos interesses do povo que usa ônibus, e é discípulo do ditatorial Jaime Lerner, lobo autoritário vestido de pele de cordeiro progressista -  e adotado por políticos como o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani.

O que a "boa sociedade" fluminense, aquela que rompe com os amigos só porque eles não curtem futebol e "reclamam demais" das coisas e foge da realidade lendo livros religiosos ou de besteirol e aventura tolos, não percebe é que Rafael é de uma conhecida família de latifundiários originária do município de Rio das Flores, que não parece ser um combo com miniaturas de Ipanema, Maracanã, Praça Tiradentes e Candelária instalados no seu perímetro.

Rafael é filho do presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), Jorge Picciani, e irmão de Leonardo Picciani, líder do PMDB da Câmara dos Deputados. Os três declararam, em 2014, ter, juntos, uma fortuna de cerca de R$ 27 milhões, segundo levantamento de O Estado de São Paulo. Rafael e Leonardo ainda têm dois irmãos, Felipe e Arthur, este criança.

Os três Picciani que participam ativamente do jogo político - Felipe atua como espécie de administrador do espólio da família - têm grandes propriedades no interior fluminense e atuam no ramo da pecuária e do agronegócio. Extremamente ricos, eles só romperam com Eduardo Cunha e passaram a defender Dilma Rousseff (os Picciani fizeram campanha eleitoral para Aécio Neves) visando o ditado "largar os anéis para preservar os dedos".

Também o apoio a Dilma não é incondicional. Além de seguirem a orientação nacional do PMDB, os Picciani também apelam para que o Governo Federal arque com as contas do Estado do Rio de Janeiro, depois que a farra do PMDB carioca (Paes, Cabral Filho, Pezão, Picciani, Carlos Roberto Osório etc) com empreiteiros, dirigentes esportivos e olimpicos, empresários etc, criou um grande rombo nos cofres públicos estaduais e em seus respectivos municípios envolvidos.

Claro. Elogiar Dilma Rousseff para que ela pague as contas do governo fluminense e da prefeitura carioca é uma maneira habilidosa de fingir apoio, porque os Picciani não irão pagar as contas do rombo, até porque foram eles que participaram do saque dos cofres públicos para as contas pessoais dos envolvidos na farra político-empresarial.

Só a fortuna de Rafael Picciani, o mesmo rapaz que jura só agir para "otimizar" e "racionalizar" o transporte coletivo, alegando promover melhor fluidez no trânsito carioca (com mais automóveis?), aumentou cinco vezes entre 2010 e 2014, tornando-se um secretário de Transportes com um patrimônio avaliado em R$ 9,8 milhões. cerca de 2,6 milhões de vezes a atual tarifa de ônibus no valor de R$ 3,80.

Sim, a mobilidade urbana é decidida por um homem que entende mais de gado do que de ônibus. E mostra o quanto as pessoas no Rio de Janeiro divinizam a incompetência, desde que tenha o manto do diploma, da fama, do dinheiro ou do poder. E o rico Picciani ainda fala que não promove discriminação social ao decidir pelo fim da ligação direta Zona Norte - Zona Sul, um malefício que está claro no cotidiano da população dos bairros suburbanos.

Enquanto isso, a pequenina "praia artificial" de Rocha Miranda, dotado de uma pequena piscina cercada de areia e chuveirões apelidados de "cachoeiras", mal consegue compensar o fim do acesso fácil de multidões de trabalhadores para as praias da Zona Sul e Zona Oeste e ainda tem horário limitado, que é de, pasmem, 9h da manhã às 20h. Nem dá para fazer caminhada matinal e nem fazer luau com os amigos

"Otimização"? "Mobilidade"? "Respeito ao cidadão"? A "boa sociedade" fluminense nem liga. Se ela mantiver inabaláveis seus hábitos de consumismo, tudo bem. É só romper com os amigos que "reclamam demais" e se refugiar nas fantasias garantidas pelo consumismo que transforma o povo do Rio de Janeiro em bonecos da mídia e do mercado a se servirem como marionetes de autoridades, empresários e publicitários.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"Espiritismo" tenta dissimular Teologia do Sofrimento


"Seja feliz", "Viva o dia a dia", "Aproveite a vida pelo que ela tem de melhor", "Não se desespere no sofrimento", "Confie que você será feliz um dia", "Sorria e agradeça por estar vivo". Tantos apelos feitos nos eventos e publicações "espíritas" e nos relatos "otimistas" de seus oradores e escritores, o "movimento espírita" dá a impressão de que promove o bem estar e a prosperidade.

Mas isso é uma grande ilusão. As pessoas que se envolvem nessa religião acabam sofrendo alguma desgraça. É a mãe que se cura do câncer mas vê sua melhor filha morrer tão cedo, é o sujeito que compra uma casa num lugar valorizado e ela é arrombada, é o rapaz que faz tratamento espiritual para obter emprego e é vítima de trolagens na Internet por pouca coisa, é o jovem que, feliz, vai a um grupo jovem num "centro espírita" e depois é assaltado.

Que "boas energias" são essas, que prometem benefícios e trazem azar? A culpa é sempre das próprias pessoas que sofrem? Ou é a religião que, doutrinariamente confusa e contraditória, acaba desenvolvendo energias negativas pelas más sintonias que acaba exercendo com sua desonestidade doutrinária?

A segunda hipótese é bastante desagradável e produz lágrimas em muita gente, mas é mais realista. Afinal, os sofredores não podem ser os culpados sempre, como a pessoa que tem que andar sobre uma corda e não sobre uma ponte e deixa os objetos que segura caírem, por causa do malabarismo arriscado que até o vento faz derrubar de repente.

E, não bastasse a desonestidade doutrinária do "espiritismo" brasileiro, que alega "fidelidade absoluta" a Allan Kardec e "respeito rigoroso" ao seu pensamento, mas comete aberrantes traições doutrinárias, a doutrina brasileira professa a Teologia do Sofrimento, através de Francisco Cândido Xavier.

TEOLOGIA DO SOFRIMENTO

Para muitos, é chocante identificar em Chico Xavier ideias próprias da Teologia do Sofrimento, mas o conteúdo diz muito. Ele sempre falava do silêncio como a "voz dos sábios" e pedia para os sofredores aguentarem calados suas desgraças, não mostrando seus sofrimentos para os outros e orando quietos num canto sem chamar a atenção de outrem.

A desculpa é de que o sofrimento é uma forma de "expiação" e o sofredor que aguentar sozinho e calado suas desgraças será premiado com as "bênçãos futuras", uma visão bem semelhante à ideia católica de sofrer para "receber as graças da vida eterna".

Isso é Teologia do Sofrimento. Algo bem anti-cristo, porque, ao se inspirar no martírio de Jesus Cristo (alcunha que Jesus de Nazaré recebeu num ritual promovido pelo seu primo João Batista) como um acontecimento "positivo", os religiosos, embora se definam como "cristãos", acabam ficando do lado dos imperadores religiosos que condenaram o ativista judeu à crucificação.

É bem semelhante ao que Madre Teresa de Calcutá declarava. Ela dizia que o sofrimento era um "presente de Deus" e um "caminho para se chegar ao Céu". Chico Xavier comparava o sofrimento a uma "prova escolar" e o sofredor que aguentasse calado as piores desgraças era premiado com "bênçãos futuras" dentro da perspectiva de procrastinação religiosa.

Madre Teresa, cujas irregularidades foram investigadas pelo falecido jornalista Christopher Hitchens, havia deixado os doentes e infelizes à mercê das próprias desgraças porque se baseava na Teologia do Sofrimento, o "holocausto do bem", como forma de "purificar as almas faltosas". Ela foi definida como "anjo do inferno" por isso.

Já num Brasil estranho que virou "palco" para um falso milagre de Madre Teresa, já que um outro milagre, envolvendo uma indiana, revelou-se uma farsa, Chico Xavier é visto como "ativista" e "progressista" quando dizia para os desgraçados sofrerem em silêncio, fingirem que estão felizes e acreditarem que um dia serão "salvos", nem que seja postumamente.

Dá para perceber que a invenção de Nosso Lar, uma espécie de grande complexo habitacional e hospitalar que lembra os condomínios de hoje, cercados de comércio, ambientes de entretenimento e hospital, foi uma forma de fantasiar o mundo espiritual - que Kardec alertou ser um enigma muito difícil de se desvendar - para que as pessoas sofram felizes acreditando num "paraíso" após a morte.

É uma visão cruel, supor uma "cidade espiritual" diante da incerteza do além-túmulo. É certo que há vida no além-túmulo, mas somos incapazes de supor o que é a vida espiritual, e é muito perigoso acreditar num lugar esplendoroso como Nosso Lar se, no dia em que cada pessoa morrer, é pouco provável que ela encontre a beleza narrada sobre a suposta colônia.

A Teologia do Sofrimento "espírita", não bastasse essa fantasia que não passa de conversa para boi e pessoa sofredora dormirem, ainda faz julgamento de valor que soa muito hipócrita para uma doutrina que, ignorando as recomendações de Kardec, não estuda devidamente a natureza das reencarnações e da vida espiritual: atribuir uma "reencarnação romana" para justificar o sofrimento de alguém.

A ideia é "explicar" as desgraças pesadas e quase sempre irresolúveis vividas por alguém com uma suposta encarnação passada, geralmente na Idade Média ou no auge do Império Romano, em que a vítima dos infortúnios de hoje teria sido um sanguinário dessas épocas, como se a raiz do sofrimento fosse uma atrocidade que o atual sofredor havia cometido na referida encarnação.

"NÃO MERECEMOS SOFRER, MAS SOFREMOS O QUE MERECEMOS"

Pensando assim, refletimos o que é o "espiritismo", que diz que as pessoas "não merecem sofrer", mas de vez em quando julgam que as mesmas pessoas "sofrem o que merecem", pode nos mostrar a respeito das reputações de quem diz que "ninguém nasceu para sofrer", se comparadas com a "iluminada" reputação de Chico Xavier.

Os palestrantes, escritores e oradores "espíritas" costumam dizer que as pessoas "não vieram para a vida para aguentar desgraças", mas "para serem felizes e viver o que a vida lhes traz de melhor". Pregam a todo momento esse "otimismo" e não hesitam em ilustrar textos com paisagens de céu brilhando e silhuetas de pessoas felizes de braços abertos louvando o céu e o sol.

Chico Xavier já acreditava que as pessoas, embora "mereçam ser felizes", deveriam aguentar o sofrimento em silêncio, porque "tudo passa" e depois virão as "graças da vida futura", ou seja, benefícios geralmente tardios ou póstumos.

Ai fazemos o jogo das reputações, do status quo, já que, infelizmente, no Brasil prevalece quem tem maior status, ou seja, mais poder de influência garantido pelo dinheiro, pelo poder político, pela visibilidade, pela formação acadêmica, pelo cargo de liderança, pelo carisma simbólico trazido sobretudo por algum lobby social, mercadológico ou midiático.

Com isso, perguntamos quem tem maior status. Palestrantes quase anônimos que dizem que "não viemos para sofrer" ou Chico Xavier que disse para "aguentarmos as desgraças em silêncio" e conformarmos com o sofrimento em prol de "bênçãos futuras", mesmo que póstumas?

Chico Xavier costuma ter maior status. Afinal, ele é considerado um "mestre" entre os "espíritas", através de um mito que foi construído engenhosamente por Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira, que primeiro desenhou o "carisma" do "médium" mineiro, mas depois, com a morte do dirigente, seus sucessores apelaram para a Rede Globo (e esta, indiretamente, para Malcolm Muggeridge), para reforçar e renovar o mito do caipira de Pedro Leopoldo.

Portanto, embora o "espiritismo" tente dissimular a Teologia do Sofrimento - é ilustrativo, por exemplo, que o Correio Espírita, periódico fluminense, mostre tantos textos sobre "busca da felicidade" e "esperança na vida", a "palavra final" sempre fica com quem tem maior status social, e, com isso, "ficamos" com Chico Xavier defendendo o sofrimento como se fosse "dádiva divina".

Isso é mais uma das tantas e tantas contradições que se observa no "movimento espírita", uma doutrina que diz uma coisa e faz outra e, às vezes, diz uma coisa e depois diz outra completamente diferente, jurando "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" a Allan Kardec mas o traindo abertamente com o mais explícito igrejismo. Realmente isso não pode dar em boas energias.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

C.U.E.E. nunca aprovaria "mediunidade" brasileira


Da forma como é feita a "mediunidade" brasileira, é quase sempre uma bagunça. Mensagens apócrifas que refletem apenas o estilo do "médium", e que apenas "valem" pelas "palavras de amor" transmitidas. Técnicas de manipulação de linguagem como a "leitura fria", que os chamados "auxílios fraternos" dos "centros espíritas" fazem para colher informações sutis de cada falecido e seus relacionados, também permitem a verossimilhança de muitas dessas mensagens.

Quando se tratam de personalidades famosas, a bagunça se torna mais notória. Surgem "médiuns" que se tornam "donos" de cada morto de ocasião. É como se cada um destes supostos médiuns tivessem um "morto de estimação", e representassem os respectivos falecidos através de uma suposta missão de divulgar as "mensagens fraternais do além-túmulo".

Tomados pela emotividade extrema garantida pela fé cega - que, se dizendo "raciocinada", é ainda mais cega por crer numa racionalidade que não existe - , os "espíritas" não verificam as irregularidades. Basta uma mensagem começar como "querida mamãe" e, pronto, é "autêntica psicografia". A pieguice que uma doutrina igrejista como o "espiritismo" brasileiro produz é assustadora, e o êxito em seduzir e manipular corações e mentes é mais espantoso ainda.

Só que, prestando muita atenção, o "espiritismo" brasileiro é uma das poucas doutrinas, talvez a única, que não segue seu precursor. Que há deturpações no marxismo - vide a corrente stalinista da antiga União Soviética, por exemplo - , do pragmatismo de Charles Peirce e no pensamento liberal humanista dos iluministas franceses, isso é notório. Mas o "espiritismo" chega a ser pior, exagerando na dose de sua deturpação.

Afinal, as outras ideologias - exceto o stalinismo - exercem alguma proximidade com seus precursores, algum vínculo ideológico, por menor que seja. Mais próximo do nível de deturpação do "espiritismo" brasileiro está o stalinismo, porque ele deturpou cruelmente o pensamento de Karl Marx ao transformar a sociedade socialista numa ditadura militaresca, estatista e opressora.

E por que o "espiritismo" não segue Allan Kardec? Porque, com tantas alegações tendenciosas de "fidelidade absoluta" ao pedagogo francês, os "espíritas" cometem procedimentos e trabalham ideias que são claramente reprovadas por Allan Kardec, o que se observa de maneira explícita nos livros e artigos que ele publicou ao longo de sua vida.

Um dos sistemas que ele elaborou foi o Conselho Universal dos Ensinos dos Espíritos. Era uma forma da coerência das pesquisas kardecianas não se perderem com o falecimento do Codificador, estabelecendo um roteiro muito cuidadoso para analisar supostas comunicações espirituais.

Segundo o C. U. E. E., uma mensagem espiritual só pode ter sua autenticidade tida como provável - Kardec achava praticamente impossível atribuir veracidade absoluta a uma mensagem espiritual, considerando-a, no máximo, sua probabilidade - se for divulgada por diferentes médiuns que vivem distantes entre si e não tenham qualquer vínculo, mesmo indireto, entre eles.

Mas isso é só começo de conversa. Afinal, Kardec recomendava cautela quanto ao conteúdo de cada mensagem, aconselhando comparar cada uma com a personalidade do falecido e outras informações a ele relacionadas. A cautela também se dava em relação às mensagens em si, e todo o procedimento é feito para evitar qualquer tipo de contradição em relação à natureza pessoal do falecido.

Infelizmente, não é isso que acontece no Brasil. Publica-se qualquer coisa, e, como "palavras de amor" e "mensagens positivas" são transmitidas, todo mundo aceita. Os "centros espíritas" criam até uma encenação, ilustrando as mensagens com fotos de crianças sorridentes ou com fundos musicais piegas, para estimular a emotividade.

Daí que surgem "médiuns" que se dizem "especializados" por cada morto. Há até mesmo acordos de exclusividade entre os supostos médiuns, para um não evocar a personalidade assumida por outro. Isso contraria o C.U.E.E. por não admitir a autonomia de um espírito nem o processo necessário de um espírito se manifestar em diferentes fontes para permitir análise sobre o conteúdo de cada mensagem.

Só que essas "mensagens de amor e paz" desobedecem, de maneira chocante para muitos, as recomendações de Allan Kardec e de seu C. U. E. E.. Primeiro, porque não há qualquer tipo de verificação, muito pelo contrário. O menor questionamento de veracidade irrita muitos "espíritas" e os faz alegarem "falta de fé", "intolerância religiosa" ou até "desrespeito ao médium, que se dedica ao trabalho do bem".

No caso dos "donos dos mortos", nota-se que isso contraria frontalmente o Conselho Universal, por consistir num único indivíduo que se diz médium representar um determinado falecido. Desta maneira, não se pode testar diferentes manifestações espirituais, porque só "existe uma", a do "médium" oficial, o que trai a função originalmente intermediária que deveria ser a do médium.

No Brasil, médium é o centro das atenções, não tem função intermediária. Logo, não é médium, porque não serve de "meio", não é o "canal" de um processo comunicativo entre um falecido (emissor) e um encarnado (receptor). Em muitos casos, o "médium" é o emissor da mensagem, e o falecido torna-se o "canal" simbólico para personificar os apelos religiosos da suposta mensagem espiritual.

Em muitos aspectos, a suposta mensagem espiritual destoa da natureza pessoal do falecido. E aí as pessoas não conseguem entender. Afinal, poucos sabem que a veracidade não se verifica tão somente pelas semelhanças, mas pelas diferenças que possam destoar algum aspecto pessoal.

Se uma mensagem supostamente espiritual apresentar dez semelhanças e mostrar até dados sutis que condizem com a vida pessoal do falecido, se uma única diferença for notada que contradiga um outro aspecto pessoal qualquer, a veracidade é derrubada e não há "querida mamãe" nem "vamos nos unir na paz em Cristo" que possam salvar de forma alguma.

É isso que complica as coisas. Mas os "espíritas" brasileiros continuam presos na cegueira da emotividade religiosa e isso prejudica a real compreensão da coisa. Levam gato por lebre e aceitam tudo porque "é tão lindo", como no comercial do celular. São enganados sem saber e, por isso, são prejudicados com a exploração leviana que os "médiuns" brasileiros, mesmo os mais "tarimbados", fazem dos falecidos.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O Brasil viciado


O Brasil não consegue se desapegar de seus vícios. Até agora, as únicas propostas dadas pela sociedade para os muitos problemas brasileiros são o aumento da religiosidade - espécie de "mundo da fantasia" dos adultos - , o escapismo para livros "água com açúcar" (obras de besteirol, livros religiosos e ficções de aventuras) e o repúdio ao Partido dos Trabalhadores.

Todas propostas inócuas, que não atingem as zonas de conforto de uma população que ainda está presa aos últimos entulhos da ditadura militar, em que valores que envolvem do machismo à hierarquia familiar, do neoliberalismo à fé religiosa, são praticamente os mesmos de 1974, época em que o país vivia a mudança dos governos dos generais Emílio Médici e Ernesto Geisel.

Os paradigmas continuam os mesmos da época. O pragmatismo econômico da Era Médici continua valendo hoje, através de um crescimento econômico ancorado em incentivo ao capital privado e, sobretudo, estrangeiro, e à realização de projetos de grande porte ou de valor duvidoso.

Houve a fracassada Transamazônica, naquela época. A usina hidrelétrica de Belo Monte já era um projeto da Era Médici e está em andamento hoje. A transposição do Rio São Francisco também segue a lógica tecnocrática da época. E mesmo o sistema de ônibus implantado em várias capitais e regiões de cidades segue a lógica ditatorial de Jaime Lerner e seus ônibus padronizados.

ATÉ ÍDOLOS MUSICAIS REMETEM A PERIÓDOS POLÍTICOS CONSERVADORES

Na música brasileira, críticos musicais badalados sonhavam em manter ou reforçar o quadro de separatismo em que a MPB e o antigo patrimônio musical das classes populares é isolado no gosto pessoal das elites acadêmicas e financeiras mais rigorosas.

O povo deixava de ter seu próprio patrimônio musical, passando a ter como "sua cultura" um engodo que mal consegue misturar pastiches de ritmos brasileiros com pop estadunidense e que especialistas chamam de brega-popularesco, ou seja, uma categoria musical surgida com os primeiros ídolos cafonas (bregas) e que se consolidou com o poder radiofônico e mercadológico que a apoia.

Não por acaso, o recente revival de ídolos "populares" da "nossa música" reflete essa inclinação da sociedade brasileira em apreciar governos conservadores. O resgate de nomes musicais esquecidos e o contexto em que eles fizeram sucesso demonstra essa inclinação conservadora da sociedade e da intelectualidade associada.

Numa pesquisa realizada em páginas da Internet e sítios da grande imprensa, os ídolos musicais revalorizados tiveram suas ascensões em governos conservadores: quase toda a ditadura militar (exceto o governo Figueiredo, quando o brega liberou o caminho para o Rock Brasil) e os governos José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

O conservadorismo social e o apego à mediocridade sócio-cultural e a má digestão de valores novos, como o feminismo e a causa LGBT, além de um mercado de trabalho que discrimina justamente quem tem talento mas não parece ter "jogo de cintura" (os patrões agora preferem funcionários comediantes do que gente criativa para o trabalho), simbolizam essa situação.

O feminismo é ainda condicionado aos limites estabelecidos pelo machismo, num Brasil que tem medo de ver feminicidas morrerem. A emancipação feminina sempre encontra uma barreira na sociedade machista que define qual tipo de mulher que deve ser solteira ou não.

De um lado, mulheres siliconadas que tratam o corpo como uma mercadoria erótica, se "sensualizando" de maneira ininterrupta, forçada e repetitiva, em que até sentar diante do pôr-do-sol é desculpa para a "musa" exibir roupas curtas e "caprichar" no decote. Mulheres que não têm medo de expressar o papel caricato e pejorativo da mulher solteira, vista pelo "sistema" como uma vadia que só quer saber de "mostrar demais" o corpo ou se envolver em curtição e noitadas.

De outro lado, mulheres dotadas de inteligência e opinião, que sabem opinar por conta própria, que se vestem de forma discreta e possuem bons referenciais culturais, têm que estar vinculadas, até mesmo quando nem precisam disso, com maridos que, de preferência, exerçam algum cargo de comando ou liderança.

A causa LGBT é trabalhada pela intelectualidade cultural mais badalada de maneira caricatural. Gays vestidos de drag queens fazendo falsetes e caras e bocas. Feministas temperamentais de seios de fora com o corpo pintado de frases de efeito, como um panfleto humano. Detalhes sensacionalistas que pouco colaboram para a compreensão da diversidade sexual e afetiva do país.

BRASIL SÓ ENTENDE O NOVO DESDE QUE NÃO ROMPA COM O VELHO

O Brasil não consegue compreender o novo, que sempre é assimilado sem romper com o velho. Até na cultura jovem do rock, implantou-se uma "rádio de rock" mantendo o nome e a estrutura profissional de uma emissora de pop convencional (estilo que nada tem a ver com o rock), a carioca Rádio Cidade que completará 40 anos em 2017 renegando sua própria origem pop e insistindo num perfil rock caricato feito por gente que não entende do gênero.

O país anda viciado, preso em velhos paradigmas. O Brasil tem um dos piores sistemas de comunicação do mundo. Nos EUA, com todo o comercialismo voraz da indústria cinematográfica, lá se pode questionar até o próprio comercialismo. O monopólio de empresas é questionado até em desenhos da poderosa Warner Bros, como a fictícia ACME da série Looney Tunes.

Aqui, mesmo as desigualdades sociais das classes populares não podem ser questionadas. O cinema brasileiro é sempre obrigado a mostrar uma "periferia sofrida, mas feliz", As redes de televisão impõem até os hábitos, as escolhas, os vestuários e até as gírias que as pessoas devem usar.

A gíria "balada", por exemplo, parece ter vindo da "novilíngua" da Oceânia, o país fictício e tirânico do livro 1984 de George Orwell. tamanha a falta de embasamento e contexto social do termo, que vagamente define desde festa de DJs a jantar entre amigos. Chegou perto: a gíria foi criada por Luciano Huck e popularizada pela Rede Globo e pela reacionária Jovem Pan (conhecida pejorativamente como Klu Klux Pan).

As pessoas deixam de ter seu caminho e até os livros mais vendidos e as peças de teatro mais vistas segue esse país viciado: os livros oscilam quase sempre entre uma "mensagem positiva" religiosa e um relato "divertido" do besteirol da moda. As peças de teatro, entre comédias brasileiras americanizadas e franquias de estórias infantis da Disney (até no Teatro da UFF, em Niterói, foi programada uma dessas franquias).

O mais espantoso nesse quadro de crise de valores, de crises sociais diversas, é que as pessoas acabam reagindo da pior maneira: recusando-se a admitir essa crise. Deixam de seguir blogues, rompem com amigos, despejam comentários irritados do tipo "não é bem assim", tentando fazer crer que tudo está às mil maravilhas.

Para todo efeito, Wesley Safadão é o novo Tom Jobim e a nova Garota de Ipanema tem o perfil da Mulher Melão. Se você questionar isso, é "preconceituoso", "chato", "pessimista", perderá amigos, não terá seguidores da Internet e seu ingresso no mercado de trabalho é dificultado o máximo.

Também, com o mercado se espelhando mais no Pânico na TV para procurar um profissional ideal, achando que aprender uma habilidade profissional é mais fácil do que contar piadas para colegas, com os gerentes de recursos humanos fazendo malabarismos e usando desculpas para evitar contratar profissionais "talentosos demais" (que depois tirariam antigos patrões de seus cargos altos), qualquer frescura é feita para não se aceitar alguém para o emprego.

No Rio de Janeiro, o fanatismo pelo futebol carioca e por um dos quatro times (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo) é a medida das relações sociais e, pasmem, é pretexto para assédio moral em muitos ambientes de emprego. Parece absurdo, mas não torcer por um desses times e nem gostar de futebol é motivo potencial para alguém ser discriminado por amigos e colegas de trabalho.

Pais de família presos a velhas hierarquias familiares e homens de meia-idade que não conseguem mais trazer grandes lições de vida também refletem essa situação terrível, em que a crise de valores é algo tão grave quanto as epidemias de dengue, zyka e chikunguya pelo mosquito aedes aegypti.

Afinal, são gerações que também se acostumaram com a normalidade forçada da Era Médici e Era Geisel, e que fazem parte do inconsciente coletivo que, de uma forma ou de outra, quer recuperar esses momentos políticos como cães que correm atrás do próprio rabo.

DIFÍCIL PROGRESSO

E assim fica difícil o Brasil se progredir. Foi moleza derrubar o legado da Era Vargas ao longo dos tempos, seja durante a ditadura militar ou mesmo no período de FHC. Derrubar paradigmas de um país que tentava se progredir foi fácil, causando retrocessos profundos que causam efeitos até os dias atuais.

Difícil é romper com a normalidade forçada e os valores pragmáticos trazidos por esses dois governos militares - o pragmatismo econômico e tecnocrático da Era Médici e o minimalismo sócio-cultural da Era Geisel. Valores que perecem mas cuja noção de obsolescência muitos se recusam a admitir e até se irritam quando convidados a assumir tal realidade.

Dessa forma, o Brasil vê suas antes potenciais chances de se tornar desenvolvido se distanciarem cada vez mais. O progresso brasileiro, antes uma possibilidade trazida pela condição virtual de país emergente, torna-se hoje uma utopia difícil de se realizar, com o país no pódio entre os mais ignorantes do mundo.

Já se fala até mesmo da saída do Brasil dos BRICs, já que outros países começam a crescer mais rápido como potência, como a Coreia do Sul e a Tailândia. O velho Brasil que não quer se livrar de velhos entulhos morais, econômicos, políticos, administrativos e culturais terá que assistir quieto à ascensão de outros países ao desenvolvimento em vários aspectos. E nem para "coração do mundo" o Brasil servirá, diante desse quadro tão viciado.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Suposta médium britânica envia mesma "psicografia" a clientes diferentes. Brasil já viu esse "filme"

LILLYANNE - "SINTONIA" COM O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO?

Segundo notícia do Daily Record divulgada no Brasil por O Globo, uma "médium" é acusada de enviar uma mesma mensagem para clientes diferentes, através de cartas "psicográficas" atribuídas a pessoas falecidas.

Lillyanne é o nome da "vidente", que é muito conhecida por suas aparições constantes na televisão britânica. Ela foi denunciada por Karen Brannigan, escocesade 47 anos, que havia perdido a mãe em setembro de 2015 e teria recorrido à consulta da "médium" para saber se a falecida enviou alguma mensagem espiritual.

Karen era advertida pelo marido a não cometer tal "loucura", mas ela decidiu fazer a consulta. Teve que pagar o equivalente a R$ 225 para que a suposta médium se comunicasse com a mãe da escocesa. Assim que recebeu a mensagem, percebeu uma grande estranheza.

A mensagem nada tinha de familiar. Ela não viu elemento algum que pudesse lembrar a personalidade da mãe. Diante dessa reação, ela foi procurar alguém que também havia feito uma consulta a Lillyanne, e encontrou uma inglesa de Gloucestershire que apenas se identificou como Sue (nome que, ironicamente, coincide com o verbo da língua inglesa que quer dizer "entrar com processo").

Sue então mostrou a Karen a carta que a inglesa havia recebido atribuída a um ente falecido. Karen ficou surpreendida com a semelhança das cartas, sendo exatamente a mesma mensagem, havendo apenas a diferença de datas.

Diante da denúncia, a filha de Lillyanne (nome artístico da "vidente" Paula Barstow) disse que foi uma "falha administrativa e um "caso isolado". Mesmo assim, as duas lesadas resolveram processá-la por danos morais.

E NO BRASIL?

As irregularidades que foram feitas no "movimento espírita", em que a ciência de Allan Kardec é muitíssimo bajulada no discurso, mas ignorada na prática, faz com que a prática mediúnica seja ainda muito menos confiável.

O episódio britânico é muito presente, quase uma totalidade no Brasil, diferindo apenas pelos "serviços" serem sempre gratuitos - os "espíritas" têm outros meios de arrecadação financeira, como vendas de livros e o próprio lobby que trabalha com a mídia e a alta sociedade - e as mensagens sejam bastante sutis.

Mesmo figuras oficialmente tidas como "conceituadas" e "confiáveis", como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, apresentam episódios desse tipo. Chico Xavier, sobretudo, já que as mesmas denúncias contra Lillyanne também foram feitas contra o "médium" mineiro, mas como a Justiça no Brasil é frouxa, a impunidade rola solta nesse país, sobretudo quando ela repousa sob o manto da fé religiosa.

O processo de Chico Xavier era bastante sutil. Nos livros "psicográficos", havia plágios e pastiches. Nos plágios, havia o cuidado de não plagiar livros inteiros, mas apenas trechos deles, que também não eram rigorosamente copiados. Eram "reescritos" com trocas de posições entre palavras e parágrafos.

Já nas cartas "mediúnicas", o que se observa é que as mensagens são padronizadas, tendo quase sempre o mesmo apelo religioso, mas não rigorosamente copiadas. Elas variavam no aspecto formal do texto, só seguiam o mesmo roteiro, que mais parece uma adaptação do fictício drama de Nosso Lar em narrativas ligeiras e, no final, o mesmo apelo "fraterno" e "cristão".

Para "preencher" cada mensagem com a respectiva informação pessoal, há relatos de que parceiros de Chico Xavier haviam recorrido à "leitura fria", prática derivada da hipnose e do ilusionismo circense que consistia numa entrevista dada em tom intimista que colhia informações sutis do entrevistado, através de declarações, comentários e até de reações psicológicas de qualquer tipo.

Com Divaldo, identifica-se a mesma coisa, até pelo fato do baiano ser discípulo do mineiro. E tudo isso criou uma escola ruim de mediunidade, que praticamente desmoraliza esse dom, fazendo com que a comunicação com os espíritos do além, no Brasil, fosse vista como um processo duvidoso e sem confiabilidade, em que pesa a credibilidade que a prática tem entre os seguidores do "espiritismo".

Portanto, o episódio de Lillyanne talvez seja eventual em lugares como a Grã-Bretanha. Lá, em que pese obras duvidosas como A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), de George Vale Owen, suposta psicografia que presumia um "mundo espiritual" em relatos fantásticos - a obra forneceu elementos para Nosso Lar - , há uma preocupação maior em se estudar a mediunidade com seriedade e cautela.

Aqui também existem pessoas preocupadas em estudar de forma séria a mediunidade, mas elas são muito mais raras e não se encontram no meio do "movimento espírita". E sofrem tanto preconceito por parte dos "espíritas", que não confundem autênticos e farsantes e acreditam que todos são "honestos", quando de detratores mais radicais, que duvidam até de um único ponto coerente trazido por Allan Kardec.

Assim, o que se observa é que, se comunicar com as almas do outro mundo é um processo raro e difícil no Primeiro Mundo, no Brasil torna-se praticamente impossível, diante das noções erradas que Chico Xavier e Divaldo Franco trouxeram com seus maus exemplos de mediunidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A sociedade com medo


A julgar pela baixa visibilidade e pela adesão pequena e instável de páginas na Internet com conteúdo bastante questionador, e pelo conteúdo "água com açúcar" dos livros que lideram as vendas no mercado literário, nota-se que o Brasil tornou-se um país de pessoas com muito medo.

Pessoas evitando amizade com aqueles que "criticam demais" as coisas. Pessoas evitando ler livros cujo conteúdo questiona o "estabelecido". Pessoas deixando de ler páginas da Internet que derrubam dogmas ilógicos e absurdos, porém socialmente consagrados. Pessoas que se dizem "evoluídas" e "de boas energias" que têm surtos de raivas diante de várias questões lançadas por outrem sobre a vida.

Esse quadro é muito diferente do que ocorre no Primeiro Mundo. Em vários aspectos. Lá, overdose de informação é considerada um grande mal que sobrecarrega as mentes das pessoas e impede a melhor assimilação do conhecimento. Aqui, ela é desculpa para a "liberdade de informação" da grande mídia.

A indústria do entretenimento alerta para a mediocrização cultural e os mecanismos fraudulentos de promover a fama de gente com pouco ou nenhum talento, com intelectuais sérios questionando isso e sendo respeitados por muitos. Aqui, todo esse quadro é tido como "maravilhoso" e mesmo acadêmicos, jornalistas e intelectuais consagrados acham que defender gente com pouco talento é "combater o preconceito", uma tese comprovadamente improcedente.

Mas a situação é aberrante até quando se refere a homicidas famosos. Uma jovem moça se fez de namorada de Charles Manson, conhecido psicopata que comandou uma chacina em 1969, para alertar que ele, com mais de 80 anos, está no fim de sua vida (sim, homicidas também morrem). Ela disse que namorava ele para lhe dar de presente um mausoléu para expor o cadáver embalsamado do assassino da atriz Sharon Tate.

Aqui, fala-se que é "preconceito" e "calúnia" dizer que velhos homicidas também adoecem e morrem. Alertar que homicidas que ingeriram remédios em excesso ou, no passado, fumaram demais e consumiram cocaína, estão no final da vida quando atingem a casa dos 80, causa muita revolta (!) em vários setores da sociedade, que pede para "respeitarmos os velhinhos" em vez de supor doenças que "não existem" (embora, no fundo, estejam provavelmente em estágio bem avançado).

E por que tantas coisas acontecem? É porque o Brasil construiu um sistema de valores conservador, que começa a perder sentido nos tempos atuais, um "país" que foi "construído" a partir da Marcha da Família Com Deus pela Liberdade, em 1964, que criou paradigmas moralistas, culturais, tecnocráticos, políticos e midiáticos que hoje sofrem um perecimento avançado. Admitir isso cria mal estar e muitas pessoas preferem boicotar amigos mais questionadores do que mudar de opinião.

A "fuga em massa" para os "livros para colorir" e outras obras literárias "água com açúcar", desde o "youtuber" que "filosofa" sobre masturbação até a velha auto-ajuda religiosa, para as canções de amor, para as comédias teatrais insossas e inócuas, para a mesmice popularesca da TV aberta, fora os memes e vídeos "divertidos" no WhatsApp, refletem essa sociedade marcada pelo medo de hoje.

QUEM TEM QUE CEDER SÃO OS MAIS ARROJADOS

O Brasil é um país bastante conservador. Em várias situações da vida, a sociedade exige que os mais arrojados é que cedam de seus pontos de vista, que não sigam adiante na sua compreensão do mundo. Que "não andem muito para a frente" e deem alguns "passos para trás", se querem receber alguma consideração ou oportunidade.

Hoje, mesmo num contexto democrático, está muito difícil se livrar de paradigmas apodrecidos que só tiveram sentido nos anos 1970, época dos governos militares dos generais Emílio Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979).

Naqueles tempos, havia uma ilusão de "equilíbrio social" que garantia a "paz sem voz" de uma sociedade abastada que queria manter seus privilégios e benefícios e uma grande maioria que "se virasse" diante de tantos infortúnios. Como se manter desigualdades sociais fosse "equilíbrio" e estabelecer um "meio-termo" entre censura e liberdade, à maneira conservadora, fosse um "nível ideal" de expressão democrática.

Muitos textos, principalmente religiosos, sempre apelam para as pessoas mais arrojadas "mudarem seus pensamentos". Sempre ceder em prol do "estabelecido", aceitando um conceito conservador, mesmo que este seja em verdade obsoleto. Daí os apelos de "aceitação", "conformação", "silêncio" e tantas outras castrações "saudáveis" ao pensamento.

Não se trata de conter neuroses e abusos. Afinal, a sociedade conservadora não consegue resolver os contrastes entre o mais moralista e o mais fútil. A sociedade do fanatismo religioso é a mesma da permissividade extrema do "funk". O Brasil de Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro é o país de Solange Gomes e Mulher Melão. Não há o verdadeiro equilíbrio, o "equilíbrio" corresponde, na verdade, a uma aceitação de contradições que trazem sossego para uma minoria de privilegiados.

Pessoas privilegiadas não podem ceder. Os conservadores só cedem quando as conveniências e as pressões da vida pedem. Mas não costumam ceder de verdade, mesmo quando direitistas históricos ou convictos de repente posam de "esquerdistas sinceros" em busca de vantagens pessoais aqui e ali.

O medo da "boa sociedade", que contamina setores de classe média ou mesmo parte das classes populares, torna-se expresso na grande mídia, nas redes sociais e nas ruas. O "fim da infância" do Brasil faz a sociedade ter medo de abrir mão de velhos dogmas, antigos paradigmas e velhos costumes.

Daí que contextos conservadores e supostamente "moderados", como os do governo de Castello Branco (1964-1967), Médici e Geisel e os governos civis derivados dessa visão conservadora, de Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), são desesperadamente defendidos no momento em que sofrem um grande desgaste.

A sociedade, na medida em que reage com medo aos questionamentos diversos, se refugiando na recreação virtual do WhatsApp, ou no desprezo a pessoas que lhes são "estranhas", demonstra profunda insegurança, e isso também afeta os religiosos, que perdem a antiga supremacia num momento em que a competição religiosa se torna mais acirrada.

E SE CHRISTOPHER HITCHENS FOSSE BRASILEIRO?

O Brasil se apega ao seu "mofo" numa casa prestes a cair. Tanto acostumada com o "cheiro de bolor" trazido pela ditadura militar, que criou um mau hábito do Brasil nunca abrir mão do conservadorismo mesmo quando ocorrem mudanças e novidades, a sociedade agrava sua insegurança e seu alarmismo, sem saber aceitar a atual situação.

O arrivismo dos incompetentes que vai além de uma simplória "corrupção política" trazida pela grande mídia, indo pela mediocrização cultural que domina mais reservas de mercado, pelo conformismo social diante das irregularidades da vida, se culmina com a ilusão de que, com mais misticismo, as pessoas terão melhorias de vida.

As pessoas têm muito medo de ver totens serem derrubados de uma hora para outra, ficando inseguras diante da falta de referenciais de "sucesso" e "prestígio". Imagine Luciano Huck, Fernando Henrique Cardoso, Ivete Sangalo e Jaime Lerner deixarem de ser os "deuses" da adoração humana comum?

Até pouco tempo atrás, internautas no Twitter tratavam o medíocre cantor de axé-music, Saulo Fernandes (genérico vocal de Rogério Flausino, do já não muito conceituado Jota Quest), como se fosse um "deus", colocando o prenome Saulo entre os trend topics (temas mais populares) do portal das mídias sociais.

A religiosização é um mal que existe sobretudo na região Sul e Sudeste, em que o deslumbramento da fé é "exportado" até para medidas e ícones sem relação litúrgica. A programação de rock da FM carioca Rádio Cidade, que demonstra ser incompetente para o gênero, é vista com histeria divina pela sua minoria abastada de ouvintes. Mas até a pintura padronizada nos ônibus de várias cidades faz um simples logotipo de prefeitura ser alvo de "fanatismo divino".

A histeria religiosa nesses fenômenos não-religiosos se dá quando o menor risco da Rádio Cidade tocar um pop mais descompromissado, ser visto por seus ouvintes como uma catástrofe. Da mesma forma, liberar para diferentes empresas de ônibus de São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, ou mesmo o Rio de Janeiro, a exibir as respectivas identidades visuais causa traumas em muita gente. Há quem prefira perder a mãe do que ver se encerrar a pintura padronizada nos ônibus de tais cidades.

E, dentro do âmbito religioso, imaginemos se tivéssemos uma pessoa influente como teve Christopher Hitchens até cinco anos atrás, nos EUA e Reino Unido (se bem que, postumamente, Hitchens continua influindo na sociedade de hoje). Imaginemos Hitchens sendo brasileiro e investigando as irregularidades de Francisco Cândido Xavier.

O mito de Chico Xavier até chegou a ser combatido. Houve um processo judicial, e pessoas como Attila Paes Barreto, Milton Barbosa e Osório Borba fizeram alertas sobre as fraudes literárias cometidas pelo "médium" de Pedro Leopoldo. Não faltou oportunidade para matarmos o mito de Chico Xavier no seu nascedouro, cortando um mal pela raiz.

Mas em dado momento o medo prevaleceu e a complacência com Chico Xavier, motivada por razões materialistas - o apego a uma imagem MATERIAL de um caipira humilde, depois acrescida do paradigma do idoso doente, que nunca iriam sugerir a de um farsante espertalhão - , e a mistificação prevaleceu sobre a lógica e o bom senso.

Se hoje um Christopher Hitchens aparecesse para recuperar os questionamentos hoje esquecidos de um Paes Barreto e um Borba, chamando Chico Xavier de "anjo do umbral", a sociedade brasileira reagiria com seu natural horror moralista, apegado, repetimos, a estereótipos meramente materiais do "velhinho humilde e frágil", "demonizando" Hitchens e dizendo que ele estava "obsediado" e agindo por "calúnia e difamação".

Os chiquistas demonstram-se dotados de apetites medievais para a fé religiosa que professam, e eles preferem que Chico Xavier seja admirado à revelia de provas, enquanto cobram provas excessivamente rigososas para quem quiser questionar seu mito. E, o que é pior, quando as provas são apresentadas, mesmo com fartura e rigor lógico, os chiquistas não aceitam e as julgam como "maledicentes". Nem Franz Kafka descreveria tamanho surrealismo.

O medo da sociedade está em fazer perder um modelo de país, de vida social, de valores políticos, econômicos, culturais e técnicos, faz com que pessoas deixem de seguir blogues, boicotem amigos, acusem indevidamente fulano e sicrano - a histeria anti-PT é um exemplo disso - e que tentem abraçar os valores e os totens apodrecidos que não querem largar.

Daí que o medo faz as pessoas fugirem para as coisas "agradáveis", entre o bonapartismo psicótico de Jair Bolsonaro e o erotismo obsessivo e forçado da Mulher Melão, entre as "doces mensagens" de Chico Xavier e os comentários raivosos dos Revoltados On Line, entre o "silêncio da prece" e as xingações públicas das trolagens, entre o acobertamento de empresas de ônibus pela pintura padronizada e a ostentação plena dos uniformes de times de futebol.

É um Brasil que não se resolve e não quer se resolver. Que abomina a lógica e o bom senso, quando eles ameaçam totens e dogmas consagrados, por mais reacionários e inúteis que sejam. Um país que confunde contradição com equilíbrio e que está mostrando suas aberrações mais profundas.

É um país em que um rapaz que escreve mal, como o reacionário Kim Kataguiri, é contratado como colunista da outrora sofisticada Folha de São Paulo. Também, é o Brasil do medíocre Merval Pereira que integra a Academia Brasileira de Letras. Um país que prefere se apegar ao obscurantismo religioso do que abrir as mentes para discutir novos problemas.

Um país que aceita a ilógica das religiões que põem a fé sobre a razão (mesmo a "espírita" age assim) e que aceita, em pleno século XXI, que mulheres façam suas carreiras apenas mostrando seus corpos, como reles objetos.

Um país que fica entre a vulgaridade do "funk" e o roquinho de guitarras monocórdicas e vocais sonolentos que impera numa Rádio Cidade sem história nem tradição para o rock, mas que a fé religiosa, "exportada" para fora do âmbito litúrgico, quer que permaneça representando o gênero.

Afinal, não há lógica, não há competência, não há história, só pretensões, abusos, contradições e tantos absurdos. Só que questioná-los é, no Brasil apegado ao conservadorismo, correr o risco de perder amigos, seguidores na Internet, oportunidades de trabalho e aceitação da sociedade em geral. Um país velho se sente ofendido quando lhe dizem para abandonar seus entulhos. Triste.
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