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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Disputa judicial nos bastidores da FEB diante da tentativa de excluir o roustanguismo de seu Estatuto

LUCIANO DOS ANJOS, NOTÁVEL ADEPTO BRASILEIRO DE JEAN-BAPTISTE ROUSTAING.

COMENTÁRIO: O presente artigo, de Wilson Garcia, revela os bastidores da Federação "Espírita" Brasileira, e as lutas pela exclusão da obrigatoriedade dos estudos da obra de Jean-Baptiste Roustaing do Estatuto da FEB.

O texto, dotado de informações jurídicas, aponta detalhes nesse longo texto sobre o caso do roustanguismo da FEB, a questão da fusão da Federação "Espírita" do Estado de São Paulo (FEESP) e da União da Sociedade Espírita (USE) local. É preciso lê-lo com paciência, de preferência imprimindo para permitir uma leitura pausada e detalhada do texto.

Nó de marinheiro

Wilson Garcia, com consultoria jurídica de Milton Medran - Expediente On Line - Publicado em 12 de junho de 2015.

As relações entre o Pacto Áureo, Roustaing, a mística do “Deus, Cristo e Caridade” e a última assembleia da Feb que frustrou os planos de Antônio Cesar Perri de Carvalho de reeleger-se para novo mandato presidencial.

Quem leu os autos do litígio jurídico entre Luciano dos Anjos e a Federação Espírita Brasileira (Feb), iniciado em 2003 e concluído em 2013, há de perguntar se o ardoroso roustainguista estava no melhor do seu juízo ao publicar, em 2009, um texto em que se vangloria de ter vencido todas as etapas, até então, da pendenga jurídica da qual, na verdade, sairia derrotado. Caso seja positiva a resposta, restará questionar: o que desejava ele, objetivamente, uma vez que ao dar publicidade ao texto estava dando um verdadeiro nó de marinheiro no assunto, nó que só se sustenta enquanto suas quatro pernas estão presas?

Vamos aos fatos.

Em 2003, o então presidente, Nestor Masotti, costurava a eliminação do Estatuto da Feb do parágrafo que a compromete com a difusão e o estudo da obra de Jean Baptiste Roustaing, aproveitando-se da necessidade de adequação do Estatuto ao Código Civil Brasileiro. O argumento era de que a doutrina de Roustaing mais divide do que une os espíritas e, por consequência, o Conselho Federativo Nacional (CFN).

O parágrafo, único, consta do artigo primeiro e está assim descrito: “Além das obras básicas a que se refere o inciso I, o estudo e a difusão compreenderão, também, a obra de J.-B. Roustaing e outras subsidiárias e complementares da Doutrina Espírita”.

Tudo indica que Masotti conseguiria seu intento não fosse a providencial atitude de Luciano dos Anjos que, procurado, concordou em ser o porta-voz dos adeptos do bastonário francês, ingressou na justiça e obteve liminar em processo cautelar, cuja notificação à Feb chegou a tempo de obrigar a assembleia, já reunida, a retirar da pauta o item correspondente a Roustaing. Sustentaram Luciano e seus companheiros, para a obtenção da liminar, sem audiência da parte contrária, ser aquele item cláusula pétrea, portanto inamovível. Explica-se: a concessão de uma liminar, adiantando provisoriamente o atendimento de um pedido presente na ação principal e sem a instauração do contraditório, é possível quando o requerente alega duas situações juridicamente tratadas por estas expressões latinas: a existência do “fumus boni juris”, ou seja, a fumaça do bom direito; e do “periculum in mora” (perigo de demora), hipótese em que o risco de retardamento da decisão final possa trazer dano de impossível ou difícil reparação. No caso, o juiz, liminarmente, entendeu estarem presentes esses dois requisitos e concedeu a medida, que sempre é provisória, e cuja manutenção irá depender do exame a ser feito mais profundamente no decorrer da ação.

A partir de então e durante longos 10 anos a questão rolou nos tribunais até ser concluída em 2013, com o julgamento de todos os incidentes processuais e do mérito do pedido. Para Luciano dos Anjos, no entanto, a Feb teria sido derrotada em todos os recursos interpostos, como se pode ler no texto que publicou em 2009:

“Durante a tramitação da ação, a FEB já perdeu quatro vezes: I – Contestou a liminar concedida que suspendeu os efeitos da estranha assembleia-geral realizada em 25-10-2003. Concomitantemente, recorreu, em segunda instância, ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, através de agravo de instrumento, para cessar a liminar. Perdeu; 2 – Em resposta à apelação interposta, resultando provimento em favor de Luciano dos Anjos, interpôs embargos infringentes no Tribunal de Justiça. Perdeu; 3 – Interpôs agravo interno desta decisão. Perdeu; 4 – Interpôs recurso especial cível perante o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que foi inadmitido. Perdeu; 5 – Acaba de interpor agravo de instrumento em recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, na mais recente tentativa de reverter a situação. Processo em andamento”.

Em fins de 2013, quando o processo efetivamente se encerrou, Luciano não se manifestou e em maio de 2014, dia 3, veio ele a falecer. As perdas que ele atribuiu à Feb são estranhas, mesmo em se tratando de manifestação quatro anos antes do encerramento do processo. Vejam-se as peças por ordem cronológica. Ao que consta, Luciano teria obtido apenas uma vitória parcial, que lhe valeu sustar provisoriamente a votação do item na assembleia de 2003 que retirava Roustaing do Estatuto da Feb. Foi pela medida liminar interposta, concedida pelo magistrado que a recebeu e entendeu ser-lhe devida. Todos os recursos processuais interpostos ao longo desse tempo por Luciano buscaram fazer, sem êxito, com que aquela liminar fosse mantida. Alegava que a decisão prolatada na ação principal, e que lhe fora inteiramente desfavorável, não tinha revogado a liminar prolatada na ação cautelar. Essa tese foi sucessivamente rejeitada, pois a decisão prolatada na ação principal termina por fazer com que a ação cautelar perca o objeto.

Mesmo com esse entendimento claramente exposto nas decisões, parece que a medida insistentemente repetida pelo autor da ação acabou prevalecendo não apenas para a ocasião, mas de forma extensiva, uma vez que, apesar de haver vencido o processo, a Feb não utilizou, ainda, o direito de alterar quando e onde desejar o seu Estatuto, pois a decisão final não reconhece nenhuma cláusula pétrea no referido documento, senão aquelas que dizem respeito às determinações do Código Civil Brasileiro. E a alegação de cláusula pétrea era o principal argumento do processo movido por Luciano dos Anjos e os recursos que interpôs a cada decisão do Tribunal contrária aos seus interesses.

O histórico do processo deixa isso bem claro:

1. Luciano dos Anjos entrou na justiça com solicitação de medida cautelar contra a Feb. O objetivo maior era impedir a realização da assembleia geral, especialmente a discussão e votação da supressão da obrigatoriedade do estudo e difusão da obra de Roustaing sob o argumento de que o item constituía cláusula pétrea. Dizia Luciano que o artigo 73 do Estatuto limita a reforma estatutária somente a questões de ordem administrativa, “vedando, portanto, as de natureza básico-doutrinárias sob pena de nulidade”.
2. A liminar concedida atendeu em parte ao desejo de Luciano, ou seja, entendeu o magistrado que a assembleia deveria se ater apenas às modificações exigidas pelo Código Civil Brasileiro, vedando-lhe tratar da questão Roustaing. Luciano fez ainda um esforço para estender a liminar à realização da assembleia como um todo, o que lhe foi negado.
3.Apesar de tentar cancelar a liminar parcial, a Feb não alcançou seu intento.
4. A manutenção da liminar, que teria curta duração, como se verá, deu a Luciano a sensação de êxito no seu intento. Mesmo assim, não satisfeito, entrou ele com recurso, alegando “falsidade documental”, entre outros, objetivando anular os efeitos da assembleia, no que não obteve sucesso.
5. Em suas alegações na demanda principal, a Feb argumentou: “não existe motivo a impedir a reforma do estatuto, pois o art. 73 representa apenas regra de competência a fim de promover a alteração estatutária. Afirma também que a proposta de reforma do estatuto não tem como objetivo se afastar das bases teóricas do espiritismo, pugnando pela improcedência do pedido do autor”. Com isso, obteve a revogação da liminar obtida por Luciano dos Anjos lá no início do feito.
6. Numa nova tentativa frustrada, Luciano alegou que a Feb havia perdido um prazo processual na ação principal, o que não foi reconhecido.
7. Em decisão subsequente, o magistrado declarou formalmente “a perda da eficácia da liminar”, já que o exame do mérito na ação principal havia determinado a extinção daquele processo cautelar. Com essa decisão julgou extinto aquele feito.
8. Luciano dos Anjos recorre sob a alegação de que a perda do efeito da liminar não extingue a ação principal, no que consegue, provisoriamente, sucesso.
9. Entretanto, nova decisão em juízo recursal declarou a ação principal improcedente e a perda do objeto da ação cautelar, ocasionando outra derrota para Luciano dos Anjos.
10. Luciano entrou com novo recurso, insistindo na sustentação de que “o julgamento conjunto da ação cautelar e a correlata ação principal ofende a autonomia do processo acessório (cautelar), razão pela qual pugna pelo prosseguimento do processo cautelar até o trânsito em julgado da ação principal”.
11. Tal recurso sustenta o seguinte: no processo principal, Luciano requer a declaração de nulidade da Assembleia de 25 de outubro de 2003 com base na afirmação de falsidade documental da sua Ata. Para ele, houve arbitrariedades do tipo “descumprimento da medida cautelar, tendo sido votado o seu novo estatuto alterando o art. 73; omitiu, ainda, diversas intervenções dos sócios inconformados com as decisões de Nestor Masotti e, finalmente, alegando que a Ata da Assembleia padece de falsidade.
12.A Feb, em suas contrarrazões, nega a alegada falsidade ou que tenha descumprido a liminar, “afirmando que a alteração estatutária se limitou a adequar o estatuto aos ditames do Código Civil”, no que foi acolhida pelo órgão julgador. Luciano, teve, mais uma vez, uma derrota.
13. Não satisfeito, Luciano dos Anjos entra com novo recurso, afirmando, entre outros argumentos, a necessidade de ouvir-se os sócios da Feb em relação à assembleia, mas a decisão toma em consideração as próprias palavras de Luciano, em fase anterior, em que além de não requerer a produção de provas orais, dispensou-as por entender ser desnecessária ao caso.
14. Ainda assim, entendeu a decisão que as manifestações orais durante a assembleia, não constantes da Ata, visavam tão-somente reforçar que o parágrafo único do art. 1º não poderia entrar em discussão em virtude da liminar, o que de fato não ocorreu, não havendo, portanto, nenhuma nulidade.
15. Nessa quadra do processo e já se considerando derrotado em sua demanda, Luciano dos Anjos usa do artifício de inverter o chamado “ônus de sucumbência” sob o argumento de que foi a Feb que deu origem à causa. Ou seja, desejava passar à Feb as custas do processo, algo que vinha de encontro às suas afirmações públicas de que não desejava obter nenhum ganho material com o processo, o que, em suma, pode ser entendido como não querer causar prejuízo material à instituição de sua veneração.
16. Luciano dos Anjos interpõe um agravo de instrumento junto ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, buscando reverter as decisões anteriores. Em decisão de 4 de fevereiro de 2014, o Tribunal negou provimento ao agravo.
17.Cumpre reproduzir, para clareza, a decisão prolatada em 11 de setembro de 2013, favorável à Feb, cuja ementa (síntese do acórdão) ficou assim: “Apelação cível. Alteração de estatuto de associação religiosa. Possibilidade de ausência de disposição acerca do caráter imutável da norma. Nos 78 artigos que compõem o estatuto não existe qualquer cláusula limitadora do poder de reforma, além do comando do art. 73, imposto para adequar-se à norma do art. 19 do Código Civil de 1916, vigente na época, que estabelecia no capítulo referente ao registro de pessoas jurídicas, o modo como seria reformável no tocante tão somente à administração. Atualmente o dispositivo corresponde ao artigo 46, incisos III e IV do CC/02. Recurso desprovido”.

Mesmo tendo recorrido a instância superior em Brasília e, mais uma vez, receber a negativa de acolhimento do seu recurso, a decisão acima surge como aquela que decreta o encerramento moral do processo e seu trânsito em julgado, isto é: Luciano dos Anjos tem a decisão definitiva e insuscetível de modificação, que coloca por terra seu argumento de cláusula pétrea para o parágrafo que aponta para a presença da difusão e estudos da obra de Roustaing no Estatuto da Feb. Uma vez que isso ficou assentado, pode a Feb alterar quando e como quiser o seu documento maior, sem nenhum constrangimento. A questão que fica no ar é se esse propósito retornará em algum momento e, também, se essa questão estatutária é de fundamental importância para o Espiritismo enquanto doutrina.

OS MITOS DO ESTATUTO E OS PAULISTAS NA FEB

O Estatuto da Feb seria comum, ou seja, semelhante a qualquer outro não fosse pelos mitos que se criaram em torno dele, especialmente sobre a questão Roustaing. Para desfazê-lo o processo de Luciano dos Anjos contra a instituição acabou colaborando ao proporcionar um maior acesso ao texto do Estatuto e colocar por terra as fantasias criadas ao seu derredor, como aquela que tornava obrigatória a crença na doutrina do advogado francês para acesso ao quadro associativo. Pode, em algum momento do passado, ter sido verdadeira a obrigação, mas ela não consta do Estatuto, como também o comprovam as mudanças ocorridas na Feb, especialmente a partir da assunção ao cargo de presidente de Francisco Thiesen, pelas mãos do qual espíritas não roustainguista ou com dúvidas sobre a crença tiveram assento no Conselho Superior.

É verdade que a chegada desses indivíduos estranhos ao contexto febiano, dominado pela ideologia roustainguista, acendeu a luz vermelha naqueles que perceberam aí um imenso perigo. O pragmatismo thieseano levou-o a entender a necessidade de ceder em algum momento para ampliar as bases da Feb, não apenas via CFN, mas principalmente pelo convencimento de lideranças expressivas a se tornarem sócios efetivos da instituição, ao mesmo tempo em que também acendiam a cargos de grande visibilidade.

Alguns desses líderes galgaram postos chaves, outros ficaram a meio caminho, mas todos, sem distinção, viram aumentar o seu cacife político em termos gerais, pelo simples fato de serem diretores da Feb. Paulo Roberto Pereira da Costa[1], por exemplo, a quem se atribuía a crença roustainguista, era egresso da Federação Espírita de São Paulo, aonde fora vice-presidente e chegou a assumir a presidência na ausência de Carlos Jordão da Silva. Foi ele dos primeiros a chegar à Feb pelas mãos de Thiesen. Se rezava na cartilha de Roustaing, era ao mesmo tempo tido como paulista, o que certamente lhe valia o selo de desconfiança da parcela maior dos membros do Conselho Superior.

Outro que chegou cedo, antes até de Paulo Roberto, foi Altivo Ferreira, que assumiu a condução da revista Reformador. Também foi levado por Thiesen e, não sendo roustainguista, acreditava que poderia realizar um trabalho eficiente e ao mesmo tempo contribuir para a distensão. Sobreviveu aos mandatos de Thiesen, Juvanir e Nestor, afastando-se por força da idade e da saúde.

Nestor João Masotti era, pode-se dizer, um político talhado, como mostrara em seus mandatos presidenciais na Use de São Paulo, para os quais, pelo menos o primeiro, fora conduzido no vazio de uma disputa intensa em que o principal candidato – Eurípedes de Castro, dentista e ex-deputado – falecera às vésperas do pleito. Nestor sequer era candidato, mas seu nome surgiu como solução da crise.

Desde então, Nestor tratou de acomodar os ânimos e distribuir os cargos de forma a contemplar os diversos interesses, o que lhe permitiu conduzir a Use prezando pela harmonia possível, mas contando com um secretário de peso, que lhe fora essencial: Antônio Schiliró, que mais à frente se torna também presidente da Use.

No âmbito político-ideológico, porém, Nestor teve de enfrentar dois grandes conflitos e viver dias de grande conturbação: primeiro, quando pouco tempo depois de sua posse, o projeto de fusão da Federação de São Paulo com a Use, há anos gestado pelas duas instituições ao nível da cúpula, recebe um golpe final. Em assembleia da Use muito conturbada, onde o assunto não constava da pauta, mas foi apresentado e votado, o projeto foi vetado de forma definitiva.

O resultado disso foi a elevação dos ânimos políticos a um nível máximo. A Feesp passou a alegar que a Use traiu os acordos que vinham sendo gestados há anos, acusando Nestor Masotti de fragilidade no comando da Use e atribuindo-lhe a culpa total pelo fato de deixar que a assembleia, onde o tema da fusão seria apenas objeto de relatório, o debatesse e votasse pela sua extinção. Internamente, Nestor foi alvo da desconfiança dos setores mais radicais, que temiam pudesse ele mais à frente ceder às pressões e deixar o projeto da fusão retornar.

Nestor, porém, obedeceu às decisões da referida assembleia e buscou conciliar os dois lados, sempre, no entanto, defendendo os direitos da Use. Isso o levou a serenar os ânimos internos com a acomodação dos diversos interesses, contando sempre com a credibilidade que Antônio Schiliró desfrutava, por seus muitos anos de condução da Use como Secretário Geral.

Outro instante de grande tensão vivido por Masotti foi quando da decisão da Feesp de, em represália à Use, aprovar um novo Estatuto em que oficializava sua vontade de desenvolver ainda mais a sua área federativa, estabelecendo claramente o confronto. A Use, então, se viu obrigada a responder às acusações que lhe foram imputadas e a buscar meios próprios de sobrevivência, uma vez que, até então, abrigava-se em prédio cedido pela Feesp, tendo suas principais despesas custeadas por esta.

Essas e outras experiências deram a Nestor uma maior capacidade de conviver com os diferentes interesses dentro do movimento espírita brasileiro e facilitaram em muito seus passos futuros.

Na segunda metade dos anos 1980 Nestor vê seu futuro em Brasília, para onde se transfere. Com a experiência adquirida em São Paulo, é guindado a diretor da Feb pelo então presidente Francisco Thiesen. Após integrar várias diretorias, Nestor ascende ao posto maior em 2001, substituindo Juvanir Borges de Souza, que comandou a Feb por cerca de 12 anos.

Nestor vai presidir a antiga instituição por vários mandatos e há quem afirme que sua longa trajetória ali só foi possível graças à sua capacidade de dividir o poder entre os diferentes aliados, de modo a manter-se no cargo. Alguns o criticam exatamente por essa postura, afirmando que Nestor formou uma espécie de triunvirato, ou seja, cabia-lhe as funções políticas e de representação, enquanto que as funções financeiras e administrativas estavam entregues a dois diretores, os quais possuíam total liberdade e eram originários do quadro mais conservador do Conselho Superior.

Na esteira de Nestor, mais um nome de São Paulo chegou à Feb: Antônio Cesar Perri de Carvalho, que desenvolveu carreira acadêmica na Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde fora, inclusive, pró-Reitor e chegou a disputar a reitoria. Cesar havia ocupado a presidência da Use por dois mandatos, destacando-se com propostas de modernização da instituição e, por isso mesmo, tendo de enfrentar a ala mais conservadora que, em muitas ocasiões, quase inviabilizara o mandato de Nestor.

Após ocupar vários cargos na Feb, Cesar Perri viu-se guindado ao posto máximo em virtude da grave doença de que foi acometido o então presidente Nestor Masotti, e de sua renúncia posterior ao cargo. Era seu vice-presidente imediato. Concluído o mandato, Cesar Perri é eleito presidente e prossegue com propostas de abertura da Feb que já havia iniciado, numa linha de pensamento semelhante à que empregara na Use.

As gestões de Nestor e Cesar Perri na Use dão uma mostra significativa do modus operandi de cada um. Em lugar de se opor à ala conservadora, Nestor sempre preferiu compor para governar, ou seja, entregava parcelas do poder aos diferentes setores de interesse. Perri, ao contrário, tinha em mente a ideia de modernização e nem sempre se importava de enfrentar os interesses contrários, desde que seu projeto se mostrasse necessário. Enquanto os conservadores travavam as diversas ações que julgavam prejudicar o destino da Use, obrigando Nestor a usar de enorme paciência para não paralisar tudo, Cesar Perri buscava formas de colocar em funcionamento projetos que, se levados a votação, encontrariam resistências muito grandes, podendo fracassar antes de serem executados. Preferia correr riscos a ficar refém dos conservadores.

Terão sido tais diferenças entre os dois últimos paulistas presidentes da Feb a razão da longevidade de Nestor e da brevidade de Cesar Perri no cargo? Seria precipitado afirmar que sim, pois tudo indica que diversos outros elementos estão presentes aí. Apesar de seu temperamento conciliador, não se pode esquecer que Nestor colocara seu cargo em perigo em 2003, com a tentativa frustrada de tirar Roustaing do Estatuto da Feb. Mexera ele com algo que poderia ter causado sua destituição do cargo, mas, ao contrário disso, Nestor permaneceu e se reelegeu outras vezes.

Segundo se informa, Cesar Perri tinha por objetivo permitir maior autonomia ao Conselho Federativo Nacional (CFN) que, tradicionalmente, era mantido e dirigido pelo presidente da Feb com mão de ferro, amparado no Regimento Interno que lhe dá poderes totais. Seria pensamento seu deixar que o CFN, na prática, se auto gerisse, a partir das decisões de seus membros na escolha dos representantes dos cargos ou na decisão pelos projetos de interesse da maioria.

Ações desse tipo, se não amparadas em alterações do Regimento Interno, correm sempre o risco de serem impedidas legalmente, senão de forma aberta, pelo menos através dos mecanismos políticos disponíveis. Ante a possibilidade de ver o CFN fugir do controle da Feb e vir algum dia a se tornar plenamente independente, é perfeitamente previsível o surgimento de movimentos contrários a gerar conflitos de difícil solução.

Por outro lado, consta que Cesar Perri, tão logo se vira empossado no cargo, iniciara mudanças, implantando um novo modelo de gestão, o que, sempre que ocorre, implica em redução de poder que afeta interesses. Então é de se perguntar se Cesar Perri tinha noção clara e ampla do que essas ações gerariam no centro nervoso do poder da instituição, o seu Conselho Superior.

A tradição em curso na Feb, de reeleger seu presidente indefinidamente, teria levado Cesar Perri a acreditar que, apesar dos diversos interesses contrariados, a própria força dos fatos se incumbiria de aplacar os descontentes e respaldar seu objetivo de continuar na presidência, repetindo o que, de certa forma, ocorreu na Use? Contaria ele, ainda, com o fato positivo gerado pelo clima de abertura do CFN, tornando-o mais ágil e atuante, como fator capaz de desfazer qualquer movimento contrário à sua permanência?

O fato é que o Conselho Superior da Feb, de forma surpreendente para Cesar Perri e a maioria dos seus aliados, tomou a decisão de eleger um outro presidente, colocando por terra sua pretensão. Pouco tempo antes da eleição surgiram os primeiros sinais de que algo ocorria nos bastidores e mexia com o clima interno. Cesar Perri parecia estar sendo alertado de que estava prestes a perder o poder, diante de uma realidade inexorável: a grande maioria de seus aliados o queriam, mas estes não tinham voto no Conselho Superior. O tempo era curto demais para reverter o quadro. Cesar Perri não percebeu o momento político em ebulição ou não lhe deu a devida atenção senão quando já nada mais podia fazer.

Poucos dias antes do pleito pipocaram notícias preocupantes sobre o andamento do processo eletivo; após a assembleia, acusações envolvendo questões éticas sérias foram feitas contra o próprio Conselho da Feb. O fato é que o poder voltou às mãos dos adeptos de Roustaing.

Quanto a isto, parece não restar muitas dúvidas. De repente, um nome, presente há muito tempo no Conselho Superior, mas desconhecido do próprio movimento espírita, acende ao poder máximo. Sua primeira entrevista à imprensa tem duas versões: a que foi publicada e a que de fato deu. Na primeira faz, fundamentalmente, sua apresentação pessoal e busca acalmar os ânimos. Mas na parte que não foi ao ar fala de Roustaing e sua importância para o Espiritismo na visão dos adeptos do advogado francês.

MUDANÇAS PERIFÉRICAS E AS RAÍZES DO PODER

O que é pouco para alguns pode ser demasiado para outros. A recente tentativa frustrada de reeleição de Cesar Perri à presidência da Feb pode ser, apenas, a ponta do iceberg que parecia estar afundando, mas que volta a emergir nos mares gelados da ação roustainguista.

Segundo fontes seguras, pode-se raciocinar em termos de duas possibilidades para o episódio. A perda de espaço da ideologia roustainguista parecia acentuar-se nos últimos anos, perda essa que teve início, de fato, com a estratégia Thiesen de incluir lideranças de outros estados no corpo diretivo da Feb e sua certeza de que os ganhos seriam maiores que as perdas. Essa seria uma das causas da mudança de rumos.

Por outro lado, o episódio da tentativa de retirada de Roustaing do Estatuto da Feb, em 2003, certamente acendeu a luz vermelha, podendo ter sido visto como o começo de uma ação mais incisiva e desastrosa para o futuro dessa ideologia.

Sabe-se que a presidência de Perri alterou a forma como o comando era exercido na diretoria da Feb ao tempo de Masotti. Perri teria instituído um tipo de gestão em que o poder centrado na figura do presidente tem sua condução rígida e mesmo quando este distribui os cargos, não deixa de controlar os diversos projetos de cada área. Essa forma, baseada também em gestão por orçamentos, significa na prática limitação do poder dos que estavam acostumados a exercer seus cargos com maior autonomia. Essa teria sido, e penso que apenas aparentemente, a principal razão para uma mudança interna e no Conselho Superior.

Aqueles que urdiram o movimento de retomada do poder por parte dos roustainguistas podem ter agido pelas razões acima, mas principalmente pelo medo da perda da ideologia, tão centenária quanto a própria instituição. Se esta ideologia está na essência das preocupações, pode-se questionar se ela constitui, na atualidade, em preocupação dominante e real e se, extinguindo-a do estatuto se estará fazendo um movimento concreto na direção da mudança da própria Feb, mudança que seja de fato tão profunda quanto capaz de permitir que o cenário se altere na medida da necessidade do movimento, onde autonomia e liberdade possam de fato ser exercidas pelas federativas e demais setores ligados ao CFN.

Não se pode encarar a realidade sem um olhar pragmático, do contrário as ilusões tendem a encobrir a verdade. A questão Roustaing já teve sua época fecunda e divisionária, ocasião em que os críticos dela se batiam contra sua presença por entenderem, com certa razão, que ela sustentava uma situação negativa, altamente prejudicial ao progresso do Espiritismo. Pergunta-se: essa situação se mantém?

Qualquer estudo de ordem cultural há de mostrar que a questão roustainguista, embora ainda constitua uma mancha na doutrina legada por Kardec, há muito deixou de ser o fator principal, pois, não podendo ser contida quando orientava a formação da cultura febiana, já não representa hoje, por si mesma, o nó da questão, porque a cultura febiana da religiosidade exacerbada, da centralização da doutrina num cristianismo baseado em hábitos antigos que deveriam ser eliminados se espalhou de tal forma que aquilo que era dominante intramuros tornou-se dominante no movimento oficial.

Não estamos mais diante de uma ideologia exercida pela Feb apenas dentro de seus domínios institucionais; é o movimento como um todo que se deixou contaminar, em nome da paz e da união encarecida por figuras exponenciais como Bezerra de Menezes espírito. Se consultado, Herculano Pires denominaria, com ironia, mas também com acentuado censo crítico, esse movimento de paz de remanso, águas paradas propícias à formação do lodo que aos poucos consome todo o oxigênio da liberdade.

Sob esse ponto de vista, a Feb cedeu e as federativas estaduais também cederam; a Feb assumiu o risco de sofrer abalos em sua ideologia central e o movimento espírita como um todo resolveu colocar a mão na bandeira da paz, desfraldada inteligentemente pela Feb, sem se incomodar e talvez com certa dose de ingenuidade de estar agindo em benefício da doutrina. Preocupava-se mais com as chamadas de atenção do Bezerra de Menezes espírito, na sua pregação pela unificação. E mesmo não desejando, fez do processo unificacionista um processo, também, uniformizador, que ajuda e asfixia ao mesmo tempo.

Boa parte dos que assumiram comando na Feb a partir da gestão Thiesen não professava e não veio a professar o ideário de Roustaing; a maioria absoluta dos espíritas brasileiros sequer conhece o roustainguismo e não o professa. Mas essa não é mais a questão principal. O que está na essência da cultura febiana e, aí sim, orientado pela doutrina de Roustaing, é esse cristianismo embolorado que se opõe à proposta kardequiana e que reduz o emprego da razão para as questões da crença. Quando isso se assenta, o crer por crer retorna dominante e desaloja o crer por saber, especialmente quando os principais esforços são direcionados à divulgação da proposta do homem novo idealizado. O Cristo assumiu o lugar de Jesus, o homem. Este se dirige à razão, aquele se reveste simbolicamente de um corpo fluídico.

Assim, sem necessidade de conhecer e assumir intencionalmente o roustainguismo, o movimento espírita o divulga na forma de uma cultura subsumida, numa permanente exaltação dos atributos formais do Cristo em livros, palestras, seminários e congressos, até mesmo em mensagens nas redes sociais, repetitivas, padronizadas, enquanto o homem Jesus, que Kardec privilegia, fica subjugado pela força da massa dos frequentadores obedientes às lideranças sonhadoras, que ainda esperam pelo paraíso, como se vê na recente Carta de Santos que a Use publicou.

O episódio da não reeleição de Cesar Perri à presidência da Feb reacendeu em alguns um questionamento antigo, em vista da circulação de mensagens pesadas à atitude dos membros do Conselho Superior da instituição: as federativas estaduais seriam capazes de dar início a um processo de enfrentamento da casa de Ismael, via CFN? Segundo as poucas vozes que se manifestaram, o CFN corre um sério risco de perder importantes avanços conquistados, especialmente nos últimos anos da presidência de Cesar Perri. Entre esses avanços estariam mais poder de decisão e grau de liberdade maior, que permitiriam ao próprio CFN determinar, por decisão própria, seu futuro.

Não há sinais de que isso possa ocorrer e se ocorrer desmentirá a própria história de quase setenta anos do chamado Pacto Áureo, que não registra nenhum movimento de tal magnitude, embora fosse mais fortemente contestado por expressivas lideranças nas primeiras décadas de sua formalização. Essas lideranças, contudo, eram poucas e agiam em nome pessoal.

Na última entrevista dada pouco antes de seu desencarne, o médico Luís Monteiro de Barros, que participou com Carlos Jordão da Silva das tratativas que levaram à assinatura do Pacto Áureo, reclama do descumprimento do acordo feito pelo então presidente da Feb, Wantuil de Freitas. E o fez de forma enfática, porque já não acreditava mais na promessa de autonomia do CFN.

As lideranças comprometidas com o Pacto Áureo nunca foram capazes de enfrentar o comando da Feb, apesar de sabidamente serem contra muitas das atitudes e interesses de seu presidente. Nem de forma pública, nem no plano interno. Esperavam candidamente que a Feb, numa atitude elevada, desse a carta de alforria do CFN, para que este, por seus membros, definisse a melhor forma de gerir seu destino.

Wantuil de Freitas e os que o substituíram, contudo, tinham em mente outra coisa: aumentar o poder da Feb, contornando os conflitos e apaziguando as ovelhas. Estavam cientes de que era esse poder que os instrumentalizaria para a construção daquilo que de fato importava: a cultura febiana, manifesta no dístico “Deus, Cristo e Caridade”.

A questão agora já não é saber se o CFN mudará, mas se a cultura do movimento espírita encontra tempo e razão para também mudar.

[1] Paulo Roberto Pereira da Costa foi, também, vice-presidente da Use no mandato de Antônio Schiliró, que sucedeu a Nestor Masotti.

quarta-feira, 9 de março de 2016

"Bom moço" Luciano Huck não ajuda piloto que o salvou de acidente


Espécie de "Chico Xavier moderno" no sentido de usar a bondade como estratégia de marketing, o apresentador e empresário Luciano Huck foi desmascarado pela Rede Record quando um de seus programas entrevistou o piloto Osmar Frattini, que salvou o apresentador, a colega e esposa Angélica e os filhos de um acidente aéreo grave.

Enquanto Luciano Huck declarava na mídia que "foi salvo por Deus", ele se esqueceu que o piloto fez uma manobra arriscada, diante de um acidente aéreo no Mato Grosso do Sul, em maio de 2015, para salvar todos os ocupantes. Angélica e o marido tiveram ferimentos leves. Os filhos saíram ilesos, assim como o piloto.

O acidente poderia ter matado toda a família, pois o avião chegou a bater num poste. A habilidade do piloto, experiente, embora não tivesse enfrentado um acidente do tipo, fez com que tudo ocorresse bem e tudo não passasse de um grande susto.

Apesar disso, Osmar foi suspenso pela MS Táxi Aéreo até que as investigações sobre o acidente sejam encerradas, e seu salário foi reduzido a 80 %, o que impossibilita o piloto a sobreviver nesse tempo todo.

A única gentileza que Osmar recebeu de Luciano Huck foi um panetone no fim do ano e um tapinha nas costas. Muito pouco para quem poderia ter recebido uma ajuda mais significativa. E Osmar nem exige que seja sustentado, ele apenas quer trabalhar e não viver de esmolas dos outros.

Mesmo assim, Luciano Huck, tão afeito a "ajudar as pessoas" no seu programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo de Televisão, poderia ter dado alguma assistência, algum amparo significativo, para o piloto que o salvou, até porque, se não fosse a habilidade de Osmar, Luciano Huck e Angélica simplesmente teriam falecido e causado comoção nacional em seus fãs.

Isso mostra o quanto a ideia estereotipada de bondade é bastante discutível. As pessoas que exercem seu "ativismo de sofá" adoram tipos estereotipados de "filantropos" no espetáculo da bondade que é reduzida a uma mercadoria de consumo de emoções e devoções baratas.

É como se faz com Francisco Cândido Xavier, um escritor de pastiches literários que virou um "semi-deus" às custas do marketing religioso, do mercado voraz da fé religiosa, criando um pretenso bom-mocismo feito para tranquilizar as pessoas na ilusão das falsas ajudas que não transformam muito a sociedade, causando mais deslumbramento do que melhorias sociais.

Chico Xavier fez acusações levianas e infundadas contra as vítimas (humildes!!!!) de um incêndio de um circo em Niterói, usou o nome de Humberto de Campos para proveito pessoal, defendeu a ditadura militar, apoiou fraudes como as de Otília Diogo e ainda despejou comentários furiosos contra os amigos do falecido Jair Presente. Bondade?

É por isso que o mercado da bondade cria mitos que nem sempre são verídicos. Ajudas de fachada, mais paliativas que transformadoras, que não cicatrizam feridas, não melhoram, apenas diminuem as dores extremas, como o paracetamol e a aspirina que Madre Teresa de Calcutá, sem assistir devidamente aos doentes e desamparados, dava apenas para "minimizar as dores" e manter as pessoas no sofrimento.

As pessoas que não conseguem ser bondosas de verdade apelam para essa "bondade de ficção" que esconde pontos sombrios e traiçoeiros. E é isso que se vê no caso de Luciano Huck, que apenas imita programas tendenciosos transmitidos em Miami para forjar uma "caridade" espetacularizada, hipócrita, falsa e mentirosa, baseada em clichês que mais deslumbram do que ajudam.

Daí que uma ativista feminista e negra se recusou a participar do Caldeirão do Huck especial sobre o Dia Internacional da Mulher. É porque ela vê que Luciano só aborda as causas sociais de maneira superficial e tendenciosa. E, ainda por cima, chegou certa vez a oferecer mulheres para turistas estrangeiros, como se elas fossem mercadorias sexuais. Bondade?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Luciano dos Anjos: um ex-roustanguista que denunciou irregularidades da FEB


Há cinco dias, faleceu aos 81 anos o jornalista e escritor Luciano dos Anjos, que havia sido uma curiosa figura no Espiritolicismo que depois passou a denunciar as irregularidades cometidas pela Federação "Espírita" Brasileira.

Jornalista com passagem em publicações como a revista Cruzeiro - a mesma da reportagem de 1944 feita por David Nasser sobre Chico Xavier - e na Rádio Mayrink Veiga, Luciano era tudo aquilo que poderia se esperar de um espiritólico exemplar.

Leitor e admirador entusiasmado de Jean-Baptiste Roustaing, amigo de Chico Xavier, Divaldo Franco, Guillon Ribeiro (tanto o pai que traduziu deturpadamente os livros de Kardec, quanto o filho) e o chefão da FEB, Antônio Wantuil de Freitas. Membro da cúpula da FEB, ele ainda foi editor da revista O Reformador, o "diário oficial" da federação.

A essas alturas, depois de contribuir até na modernização de capas dos principais livros da FEB, Luciano passou a sentir o clima de divergências e conflitos na entidade. Um escândalo de uma federação regional "espírita" de fazer uma tradução, ainda mais deturpada que a da FEB, dos livros de Allan Kardec foi denunciado por José Herculano Pires e caiu como bomba no "movimento espírita".

Wantuil acabaria falecendo pouco depois, em 1974, e dissidências se formaram. Luciano havia lançado o livro O Atalho, que, entre outras coisas, reprovava o processo de "igrejificação" promovido pela FEB, o que irritou os dirigentes da instituição e provocou a saída de Luciano, que depois formou o Grupo dos Oito, uma dissidência do "movimento espírita", em 1976.

Luciano também é conhecido pelo livro lançado em 2006, a Anti-História das Mensagens Co-piadas, em que analisa um caso de plágio em 1962, feito por Divaldo Franco, de um texto publicado por Chico Xavier onze anos antes, e que foi um dos piores escândalos ocorridos no período de auge do "espiritismo" da FEB. O caso chegou a ser noticiado pelo Fantástico da Rede Globo de Televisão.

quarta-feira, 23 de março de 2016

A origem da fase "dúbia" do "movimento espírita"


Qual a origem da fase "dúbia" do "movimento espírita", na qual os membros alegam "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" a Allan Kardec, mas continuam praticando a deturpação de raiz roustanguista?

A origem teria sido um livro que o dirigente Luciano dos Anjos, originalmente um roustanguista entusiasmado, publicou, intitulado A Anti-História das Mensagens Co-Piadas. baseado nas primeiras denúncias, em abril de 1962, de plágios cometidos por Divaldo Franco sobre obras de Francisco Cândido Xavier, que já são os pastiches que conhecemos.

A partir de divulgação de panfletos e outras denúncias, levando-se em conta que Divaldo Franco lançou o primeiro livro "mediúnico" em 1959, mesmo os espíritas autênticos, como Herculano Pires e Deolindo Amorim, estavam preocupados com a situação que comprometeria a reputação dos dois "médiuns".

Em uma atitude complacente, os dois espíritas autênticos não conseguiram evitar a crise, que depois foi relatada no livro de Luciano dos Anjos, um dos que divulgaram as mensagens. O escândalo partiu de cartas de Chico Xavier que dizia que Divaldo estava agindo sob influência de "espíritos inferiores" para realizar tais plágios e "atacar o movimento espírita pela retaguarda".

Maiores detalhes podem ser obtidos aqui. A certeza é que, juntando as várias crises e confusões no "movimento espírita" - naquela década de 1960, marcada pela estranha morte do sobrinho de Chico Xavier, Amauri e do referido plágio de Divaldo, haveria depois o escândalo de Otília Diogo - , abalaram a cúpula do "movimento espírita".

Chico Xavier, na referida carta, se mostra bastante perplexo com a atitude de Divaldo Franco e escreve que ele não pode ser inocentado pelo que fez, porque conforme a mensagem, o baiano teria feito isso várias vezes. É claro que Chico vem com sua falsa modéstia, no final deste parágrafo, e faz um vínculo tendencioso pessoal à Doutrina Espírita:

"Por que razão esse propósito deliberado de arrasar com as mensagens dos nossos Benfeitores Espirituais, recebidas por meu intermédio, desfigurando-as, descaracterizando-as, ferindo-as, transfigurando-as? Não posso inocentá-lo, porque isso acontece há muito tempo e ele possui bastante auto-crítica para reconhecer que as entidades que se valem dele para isso estão entrando numa atitude, francamente abusiva por desrespeitosa ao Espiritismo e à Mediunidade, a ponto de sacerdotes católicos-romanos já estarem se manifestando pela imprensa indagando se sou eu ou ele o mistificador. De mim mesmo nada valho e estou pronto a receber por bençãos quaisquer injúrias que seja assacadas contra a minha pessoa, entretanto, no assunto, é a Doutrina Espírita que está sendo desprestigiada e dilapidada".

Infere-se que, pelo fato de Luciano dos Anjos ter feito repercutir o escândalo quando ele, com um certo trabalho, seria abafado dentro de seus bastidores, o "movimento espírita" passou por um impasse que significou uma retomada de posição, não necessariamente favorável às bases doutrinárias originais.

Desse modo, com a vida do presidente Antônio Wantuil de Freitas se encerrando - ele se aposentou em 1970 e morreu em 1974 - , sucessores como Francisco Thiesen e Luciano dos Anjos reforçaram a centralização do poder da Federação "Espírita" Brasileira, em detrimento das federações regionais.

Diante disso, é provável que a origem da atual fase do "movimento espírita" esteja no esgotamento da postura abertamente roustanguista que prevaleceu durante anos, diante do poder férreo da FEB e de Antônio Wantuil.

Contraditoriamente, sem a esperteza de Wantuil, o "movimento espírita" se dividiu entre o roustanguismo mais aberto e outro mais dissimulado. Esta segunda tendência deu origem à atual fase do "movimento espírita", em tese mais "conciliadora e equilibrada", em que supostamente se obtém o "meio-termo" entre o cientificismo kardeciano e o igrejismo da FEB.

A ideia da fase "dúbia" foi romper com o centralismo da FEB com a autonomia dos membros "espíritas", independente de vínculo ou desvínculo com a federação. E o uso do nome de Allan Kardec em detrimento de Jean-Baptiste Roustaing, longe de ser uma apreciação real da obra do professor francês, era apenas uma postura política para se contrapor ao autor de Os Quatro Evangelhos.

No entanto, agora a fase "dúbia" está em crise, porque o igrejismo apaixonado e o cientificismo frouxo e postiço não conseguem se manter em equilíbrio e, cada vez mais, os "espíritas" se contradizem dizendo uma coisa e fazendo ou dizendo outra bem diferente.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Waldo Vieira é mesmo o verdadeiro André Luiz (TEXTO ATUALIZADO)


O critério mais seguro de identificação de uma mensagem espiritual são suas caraterísticas peculiares em relação ao espírito atribuído à mesma. Ou, quando é uma mensagem de autoria duvidosa, ela guarda o estilo não do espírito falecido mas do suposto médium que atuou "em nome" dele.

No caso do suposto espírito de André Luiz, que havia sido motivo de tantas controvérsias sobre quem ele havia sido feito de fato, pesquisamos a respeito de vários textos atribuídos a ele e chegamos à seguinte conclusão: André Luiz não passa de um personagem fictício que Waldo Vieira teria trabalhado sob encomenda da FEB.

Waldo Vieira era o garoto-prodígio da aparente mediunidade, e já aos nove anos dizia ter mediunidade e colecionava livros e revistas em quadrinhos - há volumes datados do final dos anos 1930 - e já exercia um trabalho regular de aparente mediunidade aos 13 anos de idade.

A trajetória do suposto André Luiz teria ocorrido entre 1943, com o livro Nosso Lar, e durou 25 anos. Não se sabe se Waldo já começou a trabalhar diretamente com as obras de André Luiz no começo, mas há indícios de que ele, por conhecer medicina e HQ de ficção científica, pode ter sugerido a Chico Xavier aspectos pessoais que compuseram o suposto médico espiritual.

Na essência, André Luiz acabou sendo uma "brincadeira" feita por Waldo e seu então parceiro Chico Xavier através de um livro que, embora se autoproclame como uma narrativa realista do mundo espiritual, mais parece uma ficção científica de qualidade inferior.

Note-se que Nosso Lar fez grande sucesso que a Editora da FEB resolveu explorar o filão "André Luiz" e, com isso, foram produzidos outros livros sob tal codinome. O pretenso cientificismo de "André" permitiu até que a FEB criasse um "substituto" para O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, denominado Nos Domínios da Mediunidade, lançado em 1955.

Desta forma, Nos Domínios da Mediunidade se pretendeu ser uma tradução "mais moderna" do que a obra kardeciana, a pretexto de ter sido lançado 94 anos depois, além da desculpa da "adaptação brasileira", como alardeiam os chamados "espíritas" brasileiros.

POLÊMICA

Há três atribuições de quem teria sido André Luiz na vida, trazida por três correntes diversas do "movimento espírita", cada qual com sua pretensa certeza de sua tese particular, em que pese o caráter "unificador" do "espiritismo" brasileiro e de seu suposto compromisso com a coerência e o raciocínio discernitivo.

A primeira delas teria atribuído a identidade da última encarnação do suposto médico André Luiz ao cientista Osvaldo Cruz, criador das vacinas contra a febre amarela e a varíola. Foi a primeira atribuição dada por integrantes da FEB, mas desmentida depois de uma comparação com o texto de Nosso Lar.

Segundo o texto do livro, André Luiz era filho de um comerciante, enquanto Osvaldo (falecido aos 45 anos incompletos em 1917), era filho do médico veterano que serviu na Guerra do Paraguai, Bento Gonçalves Cruz (não confundir com o Bento Gonçalves da Silva, nome homenageado em cidade gaúcha, que teria sido líder da Revolução Farroupilha).

O próprio ano de falecimento de Osvaldo Cruz, 1917, contradiz com os relatos atribuídos a André Luiz, que sugerem que ele teria falecido entre 1929 e 1930, já que André teria narrado sua vida na colônia espiritual Nosso Lar em 1939 e teria levado de oito a nove anos para se firmar nessa colônia.

Há uma outra tese, atribuída ao médico e ex-dirigente esportivo, ex-presidente do Clube de Regatas Flamengo, Faustino Esporel, que havia exercido o mandato no clube em 1921. Não há muitas informações a respeito do dirigente na Internet, mas a tese foi defendida em livro escrito por Luciano dos Anjos, quando ainda estava ligado ao roustanguismo.

Aparentemente, a tese de Luciano dos Anjos parece verdadeira, como seu relato parece supor, mas há dúvidas se Esporel teria tido essa visão caricaturalmente cientificista, como a que se observa em Nosso Lar, por mais que se considere o esforço teórico de Luciano.

Apesar disso, a tese "vitoriosa" foi a de Waldo Vieira, que atribuiu a Carlos Chagas a identidade de André Luiz antes de seu falecimento, o que traz uma conexão de nove anos entre o falecimento do famoso cientista, em 1934, e a publicação de Nosso Lar, em 1943.

Mesmo assim, se a narrativa de Nosso Lar passa em 1939, esse dado cria um problema, porque, em vez de oito ou nove anos, teriam sido cinco os anos entre a morte do médico e sua estadia na colônia espiritual. Ainda assim, Carlos Chagas chega a ter suas fotos usadas como se fossem as de André Luiz.

SEMELHANÇAS TEXTUAIS

O blogue Obras Psicografadas, um dos principais espaços de questionamento dos deslizes do "espiritismo" brasileiro, publicou um texto que atribuiu a Nosso Lar e seus derivados o plágio do livro do médium protestante inglês George Vale Owen, A Vida Além do Véu, traduzido no Brasil em 1921.

Chico Xavier, provavelmente com alguma contribuição de Waldo Vieira, chegam a reproduzir, do livro de Owen, o roteiro novelesco que muitas obras "espíritas" utilizam, até mesmo quando anti-médiuns se apropriam de nomes contemporâneos como os dos roqueiros Cazuza (1958-1990) e Raul Seixas (1945-1989): sofrimento em zonas espirituais inferiores, internação em colônia espiritual e salvação da alma.

Mas o que se nota nesses livros, em que pesem os diversos plágios e as diversas identidades de celebridades - há quem afirme que André Luiz teria sido o médico fluminense Miguel Couto, apesar de falecido em idade relativamente avançada, aos 69 anos em 1934 - , é o pedantismo pseudo-científico caraterístico da Conscienciologia de Waldo Vieira.

É só observarmos os livros do ciclo Nosso Lar e as ideias difundidas por Waldo Vieira, que se desligou da FEB em 1968 e depois fundou, em Foz do Iguaçu, a Conscienciologia, pseudociência de cunho místico-psicológico. A Conscienciologia, que ainda tem uma divisão chamada Projeciologia, apresenta muitos dos aspectos pseudo-científicos descritos em Nosso Lar.

Daí que a identidade se dá através das obras, das semelhanças exatas de diferentes fenômenos. André Luiz, portanto, não teria sido mais do que um personagem de Waldo Vieira, que criou o personagem que Chico Xavier aproveitou em seus livros e "segurou" o personagem após o desligamento de seu criador, mas herdou as caraterísticas que teriam sido traçadas por Waldo.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Data-limite para os "espíritas", na verdade, foi outra


PROMESSA DE CHICO XAVIER E DIVALDO FRANCO DE "APRENDER KARDEC" NUNCA FOI CUMPRIDA.

A verdadeira data-limite para o "movimento espírita" cumprir a promessa de recuperar os postulados espíritas originais, fazendo com que os "místicos" passassem a entender o conteúdo apreciado pelos "científicos" e promovendo um equilíbrio entre Fé e Conhecimento, já aconteceu.

Não é a "data-limite" do sonho de Francisco Cândido Xavier depois da expedição de astronautas estadunidenses à Lua em 1969, da qual se fala de um prazo de cinquenta anos para a Terra buscar o caminho da paz.

Até porque esse sonho, que só foi revelado em 1986, é dotado de graves erros de abordagem histórica, geológica e sociológica. E ainda "previu" o crescimento da Petrobras, que até ocorreu, mas graças ao presidente Michel Temer (e seu indicado para a estatal, o tucano Pedro Parente) chegará em 2019 em frangalhos. Se chegar e se as multinacionais do petróleo deixarem.

Fala-se da data-limite dada aos deturpadores de aprenderem as lições racionais do Espiritismo e aprenderem, sobretudo, que não há salvação para a caridade se ela vive ao arrepio da ética e do bom senso. Todas as promessas dadas pelo "movimento espírita" de "aprender melhor Kardec" não foram devidamente cumpridas.

Expor a teoria espírita original até se expôs. Fazer elogios a figuras como José Herculano Pires e Deolindo Amorim, também. Falou-se em fatos e personalidades científicas. Falou-se em Erasto e no Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Foram evocados intelectuais dos mais renomados. Conceitos de Física, Biologia e Psicologia, ainda que de maneira um tanto pedante, foram inseridos no "espiritismo" feito no Brasil.

Mas nada disso impediu que o velho igrejismo de matriz roustanguista fosse feito, e, o que é pior, feito com muito mais entusiasmo do que nos tempos em que o sobrenome Roustaing era mais valorizado que o de Kardec. Até porque a "vaticanização" do Espiritismo feita pelos brasileiros tornou-se ainda mais entusiasmada do que nos primórdios da FEB.

RELIGIÃO DE PAPALVOS

A promessa se deu diante de vários fatores. Com a era Wantuil se encerrando, já que o então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, há muito tempo na instituição, anunciou sua aposentadoria, já em 1969, por estar bastante doente. Ele faleceu cinco anos depois. Wantuil foi o descobridor do "médium" Chico Xavier e era quase o seu "empresário", a maneira dos empresários dos astros pop.

Nessa época, começou a estourar a crise na cúpula. Os herdeiros de Wantuil na equipe dirigente da FEB não eram bem vistos pelos demais membros. A FEB era acusada de centralizadora, prejudicando as ações das federações regionais, com exceção da FEESP, a federação paulista, que parecia ter mais privilégios até mesmo que as federações dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara, que não eram mais do que gabinetes da FEB.

Um dos dirigentes, Luciano dos Anjos, foi hostilizado por haver denunciado - surpreendentemente, com razão - o plágio literário feito por Divaldo Franco sobre as obras já duvidosas de Chico Xavier. Os plágios foram publicados no livro de Luciano, A Anti-História das Análises Co-Piadas, e a denúncia causou escândalo e quase provocou a inimizade dos dois "médiuns".

A denúncia ocorreu em 1962 mas ela se refletiu em 1969-1970. Além disso, surgiu a denúncia de que o lucro das vendas dos livros de Chico Xavier era destinado à fortuna dos dirigentes da FEB, um acordo que havia sido acertado secretamente por Wantuil e Chico, apesar da hipótese oficial de que o lucro era "para a caridade".

O escândalo estourou e o esperto Xavier tirou o corpo fora. Diante dessa revelação, o "médium" alegou ter "se sentido muito triste" com este fato, e então deixou de ter seus livros publicados pela FEB, recorrendo a outras editoras. Mas essa decisão se deu porque Xavier se dava bem com Wantuil, mas não se dava com os herdeiros do poder de seu mentor material. Sobretudo Luciano dos Anjos.

Houve também a publicação de uma reportagem da revista O Cruzeiro, mais de 25 anos depois de David Nasser e Jean Manzon terem escrito sobre Xavier. A reportagem revelou que a suposta médium Otília Diogo era uma farsante, tendo sido encontrado o material usado para os rituais de falsa materialização dos falecidos Irmã Josefa e dr. Alberto Veloso, antigo médico da Marinha do Brasil.

Oficialmente, Chico Xavier foi tido como "enganado" pela farsante. Passou ileso até das acusações de ter sido cúmplice e chegou-se a dizer que "cúmplice não é culpado", mas fotos dos bastidores do evento ilusionista mostram o "médium" bastante atento e desenvolto diante dos presentes, e existem registros dele observando os detalhes da armação de Otília, como se já estivesse sabendo e apoiando a fraude.

O escândalo levou ao auge o conflito entre os "místicos", que desviavam o legado kardeciano para as influências católicas, e os "científicos", que queriam a pureza doutrinária do Espiritismo original. Houve ainda a denúncia de que a FEESP iria produzir traduções ainda mais deturpadas e desfiguradas da obra kardeciana, agravando ainda mais a crise.

O escândalo foi denunciado na imprensa e no rádio pelo jornalista e tradutor José Herculano Pires - o tradutor mais fiel da obra kardeciana - , que definiu o "movimento espírita" como "seita de papalvos", e a situação se complicou.

A PROMESSA

A solução diante desse impasse foi que o "movimento espírita" se dividiu, com a cúpula da FEB ligada ao antigo grupo de Wantuil isolada. Mesmo os "místicos" ligados às federações regionais passaram a usar uma estatégia para tentar agradar os "científicos": abandonaram de vez o nome de J. B. Roustaing e passaram a eleger, tendenciosamente, Allan Kardec como seu "mestre maior".

A partir daí vieram as promessas de "não só entender Kardec, mas vivê-lo", entre tantas promessas de recuperação das bases doutrinárias. Criou-se então uma tese de que os "médiuns" Chico e Divaldo foram acusados de "catolicizar o Espiritismo" por "acidente" e "entusiasmo demais com a origem católica", não sendo considerados culpados pela deturpação doutrinária.

A tese não tem a menor coerência, porque os trabalhos de Chico e Divaldo eram longos e de repercussão muito grande para serem considerados "deturpadores sem culpa". E a promessa de "entender melhor" a Doutrina Espírita original foi uma promessa que apenas foi cumprida na aparência, e ainda assim parcialmente.

Esse "cumprimento" se deu apenas no aparato das exposições doutrinárias aparentemente corretas, mesmo quando se usam os livros kardecianos traduzidos pela FEB e IDE, que substituíram "doutrina de Jesus" por "doutrina do Salvador" e "Deus" por "Pai", respectivamente. Mesmo assim, até os alertas de Erasto e o C. U. E. E. eram evocados e, para os "científicos" como Herculano Pires, se dirigiam apenas elogios.

Esse simulacro era feito para garantir o que, aos olhos dos leigos, parecia uma doutrina perfeita. Mas por trás da embalagem "limpa" do "espiritismo" brasileiro, havia muita sujeira. O falso equilíbrio entre "científicos" e "místicos" escondia o privilégio que eles tinham, transformando os primeiros em "reféns" de um igrejismo que colocava a Ciência e a lógica a seus pés.

Essa fase denominamos de "fase dúbia", porque o igrejismo de raiz roustanguista era mantido mesmo quando Roustaing era renegado. E o aparato "científico" que passou a ter o "espiritismo" brasileiro não disfarçou o igrejismo que chegava com muito mais apetite através de romances "espíritas" e de estórias de cunho religioso supostamente ligadas à esperança e superação humanas.

Com isso, vemos que hoje até o próprio Kardec tornou-se refém dos deturpadores. E, agora, as contradições se tornam cada vez mais evidentes, e a gota d'água se deu quando Divaldo ofereceu o Você e a Paz para o lançamento oficial de um estranho composto alimentar promovido pelo prefeito de São Paulo, João Dória Jr..

O evento derrubou a reputação de "melhor discípulo de Kardec" que Divaldo carregava com um aparato mais verossímil possível. O "médium" não teve a firmeza que o pedagogo francês teria em rejeitar o estranho alimento e exigir, com firmeza, exames técnicos e documentos que comprovassem que a "farinata" não era prejudicial.

Divaldo cometeu inúmeros (e gravíssimos) deslizes e comprovou o fracasso da "fase dúbia", a ponto hoje da situação dos "espíritas" se encontrar num grande impasse. A crise só foi minimizada porque o episódio da "farinata" foi superado com a suspensão do produto e Divaldo ter sido beneficiado pelo silêncio da imprensa.

Mas o escândalo que foi abafado é só um precedente diante de tantos outros que virão, mostrando o quanto a contradição que marcou o "espiritismo" brasileiro, misturando deturpação e bases doutrinárias originais, traz problemas para o Espiritismo autêntico. O limite de cumprimento da promessa de "aprender Kardec" se esgotou e não há como prometer de novo o que se deixou de cumprir.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Caridade: o "Rouba Mas Faz" do "movimento espírita"?


Virou clichê dizer que os "médiuns" do "movimento espírita" deturpam o legado de Allan Kardec com desvios doutrinários sérios, suas obras "mediúnicas" apresentam irregularidades nos aspectos pessoais atribuídos aos mortos e, além disso, há a defesa de ideais moralistas bem conservadores, mas há o tal atenuante da "caridade".

A "caridade" virou uma desculpa para relativizar os "médiuns espíritas" de qualquer coisa. Alegações de "bondade verdadeira" ou "caridade genuína" são ditas de maneira vaga, sem provas. E isso blinda Francisco Cândido Xavier, Divaldo Franco e similares, fazendo com que o "médium espírita" fosse mais blindado do que os tucanos, como são conhecidos os sortudos políticos do PSDB.

Esse é um problema do senso comum nos últimos anos. Assim como se fala que o ex-presidente Lula "roubou os brasileiros", assim de maneira vaga, sem base em provas e pela catarse emocional, fala-se que Chico Xavier e Divaldo Franco "praticam caridade", sem perceber se realmente essas ações trazem resultados profundos e definitivos.

Na verdade, ambas as alegações, nos dois casos sem provas consistentes e baseadas apenas nos impulsos emocionais, mostram o problema dos brasileiros, em julgar a realidade com o próprio umbigo sem perceber se os supostos fatos alegados são verídicos ou não. Ter verossimilhança, ou seja, parecer-se com a verdade, não significa que seja realmente a verdade.

MITO DE "CARIDADE" FOI "FABRICADO" PELA MÍDIA. CASO LUCIANO HUCK EXPLICA

Não há motivo para usar a "caridade" como suposto atenuante para os "médiuns espíritas", acusados de fraudes psicográficas, deturpação doutrinária e ter opiniões reacionárias sobre muitos aspectos da vida social e política do Brasil.

Primeiro, pela grandeza com que os "espíritas" atribuem aos ídolos Chico e Divaldo, era para essa suposta caridade apresentar resultados REALMENTE concretos, transformadores e definitivos. Desculpas como "eles não têm tantos recursos assim e fazem por onde" não procedem, porque eles são suficientemente adorados pelas elites o que, em tese, garantiria grandes investimentos e resultados até mesmo imediatos de progresso social amplo e surpreendente.

Mas nada disso aconteceu. Pior. Lugares "protegidos" pelos "médiuns", como Uberaba, em Minas Gerais, Abadiânia, em Goiás e o bairro de Pau da Lima em Salvador, na Bahia, sofrem problemas de miséria e violência. Até pioraram nos últimos anos, e não foi desprezo aos "ensinamentos" dos "médiuns", muito pelo contrário. Eles são valorizados até o extremo dos extremos, e mesmo assim ocorrem crimes e miséria que fazem desses lugares verdadeiros umbrais terrenos.

O mito de "caridade" dos "médiuns espíritas", para quem não sabe, foi plantado pela mídia. É um modelo conservador de ajuda ao próximo: uma sutil lógica de cativeiro de pobres e doentes, sem que haja uma ruptura no sistema de hierarquias sociais nem ameace os privilégios dos mais ricos.

Muita gente faz ouvidos de mercador e quer endeusar os "médiuns espíritas" por uma suposta caridade que não traz efeitos sociais expressivos. A "ajuda a muita gente" é um mito transmitido de forma vaga, como um boato solto por aí. Não há provas, não há dados precisos nem consistentes, e há idiotas que, quando falam que "as provas estão aí", apontam para o "médium", deixando claro que setores da sociedade medem a "filantropia" não pelos resultados conquistados, mas pelo prestígio religioso do suposto benfeitor.

Recentemente, temos a Rede Globo desenvolvendo uma imagem pretensamente filantrópica do apresentador Luciano Huck, que originalmente havia sido um colunista televisivo de jovens ricos e um grande divulgador do "funk" no Brasil. Ultimamente se falou que Huck se tornaria candidato à Presidência da República, mas o apresentador do Caldeirão do Huck desistiu, há cerca de uma semana.

Pois o que a Globo faz com Luciano Huck ela havia complementado com Chico e Divaldo. Os mitos "filantrópicos" dos dois foram uma invenção conjunta da FEB com os Diários Associados, como meio para abafar acusações de fraudes mediúnicas. A ideia é criar um discurso, com uma insistência hipnótica (lembrando a frase do lamentável publicitário nazista, Joseph Goebbels, de que uma "mentira reproduzida mil vezes se torna verdade") que faça todo mundo acreditar na falácia exibida.

Ações supostamente filantrópicas expressas em espetáculos comemorativos de instituições "espíritas" revelam isso. Pobres e doentes que, em geral, nunca são assistidos passam a comparecer, poucas vezes por ano, em festas "filantrópicas" bastante ostensivas, que ocorrem raras vezes ao ano e são feitas mais como propaganda dessas instituições e dos respectivos "médiuns".

Atividades filantrópicas são poucas e medíocres e, em muitos casos, servem mais para captar dinheiro público para os "espíritas" - cujas instituições são registradas como "instituições filantrópicas", portanto, sendo livres de pagar impostos - , não raro havendo superfaturamento. E isso sem falar de que tais instituições exercem o culto à personalidade, com a propaganda exacerbada do respectivo "médium" e suposto benfeitor de cada instituição.

A "caridade" é trabalhada como enredo de novela. A "dedicação ao próximo" segue os clichês do paternalismo religioso e conservador. Essa "caridade" é espetacularizada, dotada de uma mistificação e mitificação piegas. Mais uma peça de marketing do que uma realidade. É uma ajuda ao próximo de baixíssimos resultados, não por falta de recursos, mas porque o "espiritismo" brasileiro, que prega a Teologia do Sofrimento, não se interessa mesmo em ir longe e fundo nas ações filantrópicas.

PROMOÇÃO PESSOAL DO "BENFEITOR"

O que se deve chamar a atenção é que a "caridade" acaba servindo não só para a promoção pessoal dos "médiuns", mas também como "carteirada religiosa". Daí as alegações de que os "médiuns" de fato "deturpam o Espiritismo, mas pelo menos praticam a verdadeira (sic) bondade". Isso permite deixar a deturpação como está, pois a "filantropia" acaba permitindo todo tipo de abuso.

Nos anos 1970, o jornalista José Herculano Pires, autoridade do Espiritismo autêntico no Brasil, declarou, em carta para um amigo, fez um comentário sobre Divaldo que chocaria muitos que estão acostumados com a imagem glamourizada do anti-médium baiano:

"Do pouco que lhe revelei acima você deve notar que nada sobrou do médium que se possa aproveitar: conduta negativa como orador, com fingimento e comercialização da palavra, abrindo perigoso precedente em nosso movimento ingênuo e desprevenido; conduta mediúnica perigosa, reduzindo a psicografia a pastiche e plágio – e reduzindo a mediunidade a campo de fraudes e interferências (caso Nancy); CONDUTA CONDENÁVEL NO TERRENO DA CARIDADE, transformando-a em disfarce para a sustentação das posições anteriores, meio de defesa para a sua carreira sombria no meio espírita".

O trecho destacado por nós revela o motivo que devemos questionar a "caridade" dos "médiuns espíritas", porque ela é um artifício para os "médiuns" esconderem seus defeitos e suas irregularidades, não obstante muito graves. A "caridade" não deveria ser usada como "moeda" para calar a boca dos que questionam os desvios doutrinários e mediúnicos desses ídolos "espíritas". Mas, infelizmente, é usada e abusada.

ROUBA MAS FAZ E A "CARIDADE" COMO CRIME ELEITORAL

A analogia da complacência social com os "médiuns espíritas" com o mito do "Rouba Mas Faz" de certos políticos - o termo foi usado para favorecer governantes, no passado, como os paulistas Adhemar de Barros e Paulo Maluf e o baiano Antônio Carlos Magalhães - é certeira.

Esse mito se deu para garantir a mesma blindagem. Era um meio de dizer que, embora os políticos referentes fossem personalidades marcadas pela corrupção, eram aceitas por causa de realizações consideradas pomposas ou paliativas, como construção de viadutos, embelezamento de praças e programas paliativos de fornecimento de merenda escolar.

Recentemente, a Lei Eleitoral estabeleceu crime eleitoral a doação de cestas básicas ou outras vantagens em troca de votos. Isso significa que supostos atos de "caridade" feitos por motivos tendenciosos são considerados crimes, mas infelizmente são medidas similares que protegem os deturpadores do Espiritismo, que, protegidos pelo "escudo filantrópico", acabam abafando as críticas aos erros graves que eles cometem, como a traição ao legado original de Allan Kardec.

A "caridade espírita" tornou-se, então, o "Rouba Mas Faz" do "movimento espírita", porque protege até mesmo as psicografias fake, aquelas que nem de longe lembram as personalidades originais dos autores mortos alegados. Isso é terrível, e a complacência das pessoas acaba se tornando um consentimento muito criminoso.

É fácil um escrevinhador dotado de muita esperteza se passar por um morto, usar o nome de, digamos, da cantora irlandesa da banda Cranberries, Dolores O'Riordan, escrevendo em português bem brasileiro e supondo que o Brasil irá comandar o mundo na próxima década. Ou então um suposto médium que, usando o nome de Marisa Letícia Lula da Silva, apelar para quem for cristão evitar votar em Lula para prevenir de "muitos dessabores" para o país.

Basta ter uma casa e jogar uns pobres e doentes dentro, e criar um projeto assistencial medíocre, embora anunciado enganosamente como "transformador". Se até mesmo em casos como Chico Xavier e Divaldo Franco, vemos irregularidade em tudo, da mediunidade à filantropia, imagine então os mais recentes aventureiros dessa "pseudografia" que pegam os mortos da moda para inventarem mensagens igrejeiras supostamente "em nome do pão dos pobres".

Devemos questionar até mesmo a suposta caridade dos "médiuns espíritas". Sabe-se que as "cartas mediúnicas" de Chico Xavier não foram caridade, mas perversidade, num processo traiçoeiro que combinou fraudes psicográficas, exploração das tragédias familiares e promoção de sensacionalismo na grande mídia, além da própria promoção pessoal do "médium".

É hora de parar de usar a "caridade" para atenuar os erros dos "médiuns espíritas", que devem ser repudiados com muita firmeza, até porque eles se escondem no "véu da caridade" para evitar serem profundamente questionados e para manter o poder que eles têm como ídolos religiosos, que lhe garantem privilégios exorbitantes na sociedade, se não financeiros, mas, ao menos, de dominar as massas populares com um igrejismo medieval e ultraconservador.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Confusão na convenção do PSDB. Cadê a fraternidade?


Comparado com o "espiritismo" brasileiro quanto à blindagem - se bem que os "espíritas" já obtém larga vantagem - , o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira (que, apesar do nome, segue um perfil neoliberal e ideologicamente conservador), elegeu seu novo presidente nacional.

Dando fim à gestão de Aécio Neves - figura adorada pelos "espíritas" e que tinha recíproca admiração por Francisco Cândido Xavier (o "médium" sonhava com um líder político com as caraterísticas que ele mesmo, no final da vida, viu em Aécio) - , o católico Geraldo Alckmin, um dos membros da Opus Dei (corrente católica neomedieval, surgida na Espanha do ditador Francisco Franco - curiosa ironia, esse nome), foi eleito presidente do partido.

Os adeptos de Aécio Neves se esqueceram dos "princípios de fraternidade" e iniciaram um protesto, seguido de um bate-boca e ameaça de agressões, em vez de "orar em silêncio" pelo destino futuro de seu ex-comandante. Mas também até os adeptos de Chico Xavier adoram algum desentendimento, seja interno, como no caso de dizer se ele era ou não autor das supostas profecias da "data-limite", ou externo, quando reagem rispidamente a qualquer questionamento ao "médium" mineiro.

A ameaça de declínio político do senador mineiro, que perdeu o comando do PSDB, pode também representar o fim da realização de um sonho de Chico Xavier, que desejava que o futuro do Brasil estivesse nas mãos de um líder com perfil liberal, relativamente jovem e comprometido com ideais conservadores associados à paz e à solidariedade dos povos.

Aécio Neves, que visitou Chico Xavier no final de vida do "médium", se sentiu identificado com ele. Chico teve a mesma retribuição, vendo em Aécio o possível líder que em 1952 havia sido descrito por mensagem atribuída ao suposto espírito André Luiz. A aparente previsão foi divulgada no "centro espírita" Jesus de Nazareno, em Congonhas (MG), em 23 de dezembro de 1952.

Na época do falecimento de Chico Xavier, Aécio Neves - amigo de outro figurão comparado, desta vez em suposta filantropia, ao "médium", o apresentador Luciano Huck, outro fã ardoroso do religioso - havia dado depoimentos entusiasmados sobre o beato de Pedro Leopoldo e Uberaba:

"Chico Xavier é uma referência única de trabalho e solidariedade não só para os mineiros, mas para todos os brasileiros. Mesmo estando em estágio avançado de sua doença, ele continuava recebendo peregrinos que viajavam para encontrá-lo. Ele será sempre um exemplo de vida e humanidade muito importante. Ele era uma figura muito confortadora para todos, independente da religião de cada um".

"Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier".

O SONHO DE CHICO XAVIER DE VER UM CONTERRÂNEO LIBERAL GOVERNANDO O "CORAÇÃO DO MUNDO" E "PÁTRIA DO EVANGELHO" ESTÁ CADA VEZ MAIS DISTANTE. NA FOTO, AÉCIO NEVES DANDO ENTREVISTA COMO EX-PRESIDENTE NACIONAL DO PSDB.

Aécio Neves é mineiro como Chico Xavier e estabeleceu sua trajetória às custas de muita confusão. Ambos, político e "médium", são protegidos da mídia hegemônica e simbolizam valores sociais conservadores sob uma roupagem pretensamente moderna.

Apesar de seu perfil antiquado, das ideias ultraconservadoras e por ter sido um católico ortodoxo - que só cometia "heresia" na prática de paranormalidade, mais precária do que se imagina (na prática Xavier só se comunicava com os espíritos da mãe e de Emmanuel) - , Chico Xavier é visto como "moderno", "futurista" e até "progressista" por muitos seguidores, movidos pelos apelos emocionais associados a ele através das paixões religiosas.

A exemplo de Aécio, Chico Xavier cometeu muitos atos duvidosos, desde a apropriação de pessoas mortas em supostas psicografias, a exploração ostensiva e sensacionalista das tragédias familiares e o envolvimento em fraudes de materialização, não bastasse a própria deturpação do Espiritismo, com obras que deixariam envergonhado o próprio Allan Kardec, se então vivesse no Brasil.

Apesar desses atos, Chico foi blindado e, com a ajuda marqueteira do poder midiático associado à FEB, virou um "semi-deus" e um ídolo religioso marcado pelo fanatismo e deslumbramento de multidões, símbolo da catarse coletiva que retomou o poder em 2016, clamando por valores conservadores, pelo apego à fé em detrimento da razão e pela volta à submissão hierárquica, que na Economia é representada pelas "reformas" trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer.

Com a decadência política de Aécio Neves - que, se Chico estivesse vivo em 2014, teria, com certeza, apoiado o tucano na campanha presidencial - , a sociedade conservadora, na qual se insere o "movimento espírita", tenta algum esforço para lançar um candidato "jovem" e "liberal" com imagem de "conciliador" e defenda valores que apelem para o "respeito à fé" e o "apoio ao livre-mercado".

Resta agora Luciano Huck, o mais próximo do perfil sonhado por Chico Xavier (neste caso, como arremedo de filantropia que marca a trajetória de ambos), voltar atrás e reconsiderar sua candidatura à Presidência da República. Dizem rumores que sua aparente desistência é uma estratégia e que Luciano esperaria o povo pedir para ele ser presidente para ele se lançar, no próximo ano, oficialmente candidato. A "Pátria do Evangelho", neste caso, seria o "caldeirão".

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem és"

"MÉDIUNS ESPÍRITAS" AO LADO DE POLÍTICOS DECADENTES - DIVALDO FRANCO COM JOÃO DÓRIA JR., JOÃO DE DEUS COM MICHEL TEMER.

As fotos dos "médiuns espíritas" Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, ao lado de políticos em vertiginosa decadência, respectivamente João Dória Jr. e Michel Temer, nos faz refletir sobre a baixa sintonia que o "espiritismo" brasileiro, cada vez mais conservador, exerce e atrai para si.

Claro, muitos vão dizer que os "médiuns" relacionam com todo mundo "com total consideração" e vão achar que eles fariam o mesmo até se fosse com algum guerrilheiro comunista. Mas isso não faz sentido, porque em muitos casos essa "total consideração" é uma diplomacia, e há muita diferença entre relações diplomáticas e apenas gentis e outras em que os "médiuns" se sentem mais à vontade.

Simpatia não é cumplicidade. E o contexto do "espiritismo" vai no caminho do conservadorismo político, e muitas provas foram dadas nesse sentido. Se o "médium" João de Deus, por exemplo, se declara "amigo" do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, é no sentido de "amizade" também manifesto, por exemplo, por políticos conservadores como José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor. Ou por Sílvio Santos, animador e empresário carismático, mas também conservador.

O "espiritismo" comprovou ser uma religião bastante conservadora, rompendo por definitivo com a imagem pretensamente progressista que nem de longe faz sentido. Mesmo a imagem de pobres sorridentes não apresenta verossimilhança, e não dá para entender a complacência que as esquerdas, que geralmente fazem duras críticas a mitos protegidos pela mídia conservadora, dão para os "espíritas" que não escondem seu caráter retrógrado e ultraconservador.

Isso se dá pela raiz do "espiritismo" brasileiro. Ela é fundamentada em Jean-Baptiste Roustaing e seu Os Quatro Evangelhos, não há como escapar. Foi nesse livro que a doutrina brasileira que desfigurou o legado de Allan Kardec criou suas bases, e hoje o que existe é uma desonestidade doutrinária profunda, porque há toda uma pose, bastante hipócrita, de "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" aos postulados espíritas originais, diante de uma práxis que comete graves traições.

Os Quatro Evangelhos chegaram a ter um clone, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, em que o nome de Roustaing é citado com o prenome abrasileirado de "João Baptista", em grafia anterior a 1943, pois o livro é de 1938.

O livro de Chico Xavier é uma patriotada ultraconservadora, injusta e levianamente atribuída ao espírito do escritor Humberto de Campos, que em verdade seria completamente incapaz de escrever essa imoralidade. A obra define índios e negros como "selvagens" e prenuncia um país a "comandar o mundo" política e religiosamente, uma "previsão" aparentemente agradável, mas que oculta um projeto de resgatar, em solo brasileiro, tanto o Império Romano quanto o Catolicismo medieval.

Figuras como os "médiuns" Chico Xavier, Divaldo Franco e João de Deus são abertamente conservadoras. Eles remetem a um igrejismo velho, vivem do culto à personalidade, exercem em muitos a idolatria religiosa - movida pelo sentimento obsessivo da "fascinação", devidamente esclarecido em O Livro dos Médiuns (Cap. 23, item 239) - e associado a valores morais ultraconservadores.

Que "progressismo" pode se imaginar desses "mediuns"? Nenhum. A "caridade" que eles fazem é mero Assistencialismo, uma suposta filantropia que nunca traz resultados profundos, apenas "aliviando a dor" da pobreza em vez de curá-la, e só serve para a propaganda pessoal dos "médiuns". Se essa "caridade" desse certo, o Brasil teria alcançado padrões escandinavos de desenvolvimento humano, dada a aparente grandeza desses "médiuns".

Além disso, uma das provas de que o "progressismo" de um "médium" é falsa, extremamente falsa, está em Chico Xavier, que sempre pregava o "silêncio" em vez do questionamento, da queixa e da contestação. Ele mesmo era um figurão de direita, apoiou a ditadura militar, defendeu Fernando Collor de Mello e, se vivo estivesse, teria apoiado Aécio Neves em 2014.

Aécio é "alma gêmea" de Chico em termos de blindagem. O "médium" também foi beneficiado pela impunidade e seletividade da Justiça brasileira no caso Humberto de Campos, pois as pretensas psicografias que usavam o nome do autor maranhense fugiam claramente do estilo original do escritor, indicando fraude e falsidade ideológica, mas os juristas alegaram "desconhecimento das questões da mediunidade" e deixaram o caso num empate que favoreceu o "médium".

É mais ou menos o que a Justiça fez com Aécio Neves. Este, aliás, quando o "médium" faleceu, manifestou profunda admiração. "Em sua grandiosa simplicidade, ele será sempre uma referência para todos que, de alguma forma, têm responsabilidade pública. Minas, o Brasil, o mundo ficou menor com a morte de Chico Xavier", disse o hoje senador, enquanto era presidente da Câmara dos Deputados. Aécio visitou certa vez o "médium", no final da vida.

Aécio Neves e Luciano Huck são admiradores fervorosos do "médium" e gozam da afinidade energética porque os dois estão alinhados a uma ideologia considerada "moderada", mas que demonstra um conteúdo claramente conservador. O "médium" que esculhambou os movimentos operário e camponês (organizados por gente humilde!) em um programa de TV de grande audiência (Pinga Fogo, TV Tupi, 1971) só podia vibrar melhor para quem é conservador.

LUCIANO HUCK E ÁECIO NEVES, AFINADOS COM CHICO XAVIER.

Luciano Huck já havia visitado Chico Xavier no final da vida e, em 2010, comemorou os centenário do "médium" assistindo ao filme biográfico - produzido pela Globo Filmes - com sua esposa Angélica.. Mais tarde, Huck havia estado em Pedro Leopoldo, terra natal do "médium", para gravação de um quadro para o Caldeirão do Huck. Ultimamente Huck tem se inspirado no "médium" para fazer atividades "filantrópicas" no seu programa televisivo.

O que chama a atenção é que os "médiuns espíritas" acolhem políticos conservadores depois que eles se revelam desastrosos ou decadentes até entre parte da sociedade conservadora. A própria defesa de Chico Xavier à ditadura militar na sua fase mais reflexiva em 1971, é ilustrativa: o mais entusiasmado defensor do golpe militar, o ex-udenista Carlos Lacerda, havia há um tempo migrado para a oposição e participado de um movimento de redemocratização do Brasil.

Nos últimos meses, Divaldo Franco acolheu o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., quando este já era reconhecido um político decadente por suas más realizações. Divaldo consentiu que Dória divulgasse um estranho composto alimentar, feito de restos de comida, oficialmente no evento Você e a Paz, o que seria um escândalo de grandes proporções no "movimento espírita" se não fosse o silêncio absoluto da imprensa, até mesmo a de esquerda.

Depois foi a vez do "médium" goiano e também rico latifundiário, João de Deus, aparecer ao lado de Michel Temer. Diferente de personalidades diversas, João de Deus esteve mais à vontade, pois não se tratava de uma propaganda mascarada de "total consideração a todos", mas de uma grande cumplicidade. Ambos estavam internados num hospital, Temer para uma cirurgia na próstata, João para exames de avaliação na área onde foi retirado um tumor.

A aparição solidária se deu quando Michel Temer, de tão decadente, foi considerado o presidente mais impopular do mundo, segundo o instituto de análise política Eurasia Group. No Brasil, os institutos de pesquisa dão um índice de popularidade ao presidente em 3%, já considerado o mais baixo de toda a história do Brasil.

Assim como nos casos de Chico e Divaldo, um "médium" recorre a uma personalidade que até parte da sociedade conservadora não presta mais apoio. O que agrava a constatação de baixa sintonia dos "médiuns espíritas", que acolhem políticos decadentes.

E isso faz com que nos lembremos de Jesus de Nazaré, um grande crítico de gente similar aos "médiuns", como os antigos sacerdotes e escribas marcados pela falsa modéstia, pela verborragia e pela caridade de fracos resultados: "Diga-me com quem tu andas, que eu te direi quem és".
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