quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O "espiritismo" abandona o sofredor no momento mais difícil


A julgar pelos apelos insistentes que os "espíritas" fazem aos sofredores, se constata, com um realismo contundente, que o "espiritismo", por sua natureza deturpada e moralista, abandona os desafortunados na sua hora mais difícil.

Os mensageiros "espíritas", dos festejados "médiuns" aos "poetas alegres" que pululam em supostas psicografias, sempre demonstram algum descaso com a natureza particular do sofrimento, achando que possuem respostas prontas para os problemas.

A reação é sempre típica do descaso humano. Quando, no primeiro momento, o sofredor conta sua angústia, seus problemas difíceis de resolver e sua incapacidade de intervir no próprio destino, acumulando desgraças de toda ordem, o "espírita" começa sempre dizendo para a pessoa aceitar as dificuldades e "acreditar em Deus".

No segundo momento, quando o sofredor reafirma sua queixa - para desespero dos "espíritas", que pelo jeito odeiam gente queixosa - , o "amigo espírita" então tenta mudar seu discurso, ele que com seu juízo de valor acreditava estar com a palavra final. Uma "palavra final" que se emenda o tempo inteiro.

O "espírita" então tenta contra-argumentar: "Calma, amigo! Talvez você tenha alguns desejos equivocados e não necessite dos projetos de vida que sempre fracassam. Reveja tudo o que você quer, entre em reforma íntima". Vale lembrar que "reforma íntima" é um termo muito usado pelos "espíritas" para defender a "auto-conformação" das pessoas ante as dificuldades da vida.

Alguns, ainda tomados de juízo de valor, despejam o comentário um tanto pernicioso: "Sabe qual é o seu maior inimigo? Você! Combata-se e perceba as belas coisas da vida!". Esse papo de "inimigo de si mesmo" revela que o "espiritismo" criminaliza a individualidade humana, como se dissesse a uma ovelha negra: branqueie seu pelo e se junte ao resto do rebanho.

Sim, porque como a pessoa pode se auto-valorizar e cultivar o amor próprio, se ela é "inimiga" de si própria? Essa rotulação, típica do perverso juízo de valor dos "espíritas", só faz o sofredor ficar deprimido ou irritado. Ou então levá-lo ao suicídio, justamente um ato tão reprovado pelos "espíritas".

Os argumentos então se "evoluem". Tentam cultivar a alegria ao angustiado, pedindo para olhar para a Natureza, pensar em coisas lindas, olhar para o céu azul enquanto sofre uma desgraça pesada, ver os passarinhos voando depois do choque de uma grande frustração e por aí vai.

"Ah, desculpe, rapaz! Aquela mulher é do perfil da Emma Watson e ela se casou com outro? Não se preocupe, tem outra que até tem perfil de mulher-fruta, mas, pense bem. Se ela mostra aquele corpo exagerado, é para ela sustentar a mãe pobre e o afilhado. Veja que bom!", diz o "espírita", com uma certa hipocrisia, a um rapaz sofredor.

Em última instância, os "espíritas" que agem assim recorrem à oração, tentam de tudo. Mas o seu primeiro juízo de valor mostrou a intenção: é o "espírita" achar que conhece mais as necessidades e os desejos do sofredor do que ele próprio.

E os conselhos dados em muitos casos são previsíveis e já foram atendidos. Afinal, o sofredor já havia feitos todas as tentativas, sem recorrer ao conselho alheio: melhorando energias, tendo jogo de cintura, criando iniciativas, se esforçando com otimismo, perseverando, mudando estratégias, abrindo mão de certas vontades e tudo o mais. Se fracassou em tudo isso, aí a culpa não é do sofredor e ele não vai repetir a fórmula que acabou não dando certo.

Daí que, em que pese a suposta dedicação dos "espíritas" àquele que sofre, nota-se que existe o abandono na essência. Quando se começa dizendo para a pessoa "suportar o sofrimento", isso revela um juízo de valor bastante severo.

E as adaptações de conselhos só refletem o descaso com o outro, em que o "conselheiro espírita" sempre condiciona sua tarefa aparente de ajudar o outro com suas convicções e preconceitos pessoais. Isso sim é desprezar o sofrimento do outro, com suas motivações individuais próprias.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Como é mesmo a "fase dúbia" do "movimento espírita" brasileiro?

DIVALDO FRANCO É O MAIOR BENEFICIADO DA "FASE DÚBIA" DO "ESPIRITISMO" BRASILEIRO.

O que é a "fase dúbia" ou "tendência dúbia" do "espiritismo" brasileiro? É uma fase em que o "movimento espírita" assume uma dupla identidade, sob a desculpa de adotar uma postura "equilibrada" e "conciliatória". É uma fase com cerca de 40 anos de vigência, e que foi marcada por graves contradições doutrinárias, causando mais confusão do que equilíbrio.

O termo parece ofensivo para os "espíritas", mas é realista. Afinal, observa-se a coexistência tanto de conceitos igrejistas com ideias cientificistas, dentro de um movimento feito para agradar gregos e troianos, ou melhor, "científicos" e "místicos", embora sob a supremacia destes últimos.

Há raízes históricas que levam à ascensão da fase dúbia do "movimento espírita", e que mostram mais um jogo de interesses do que realmente uma postura equilibrada, até porque o equilíbrio deveria se dar com o menor número de contradições possível, mas o "espiritismo", nas últimas quatro décadas, só agravou as contradições, maiores do que quando os "espíritas" pelo menos se assumiam adeptos do roustanguismo.

As raízes se dão desde o Pacto Áureo de 1949, organizado pelo Congresso da FEB no Rio de Janeiro, em que a cúpula da Federação "Espírita" Brasileira decidiu tudo sem ouvir as federações regionais. Apesar de sediada no Rio de Janeiro, durante anos capital federal, a FEB privilegiava mais a federação regional paulista, a FEESP.

Por outro lado, a postura roustanguista se tornou cada vez mais alvo de denúncias do grupo "científico" que integrava a FEB, mas divergia da orientação dominante no "movimento espírita". Nomes como Deolindo Amorim, José Herculano Pires e Carlos Imbassahy, o pai, denunciavam os arbítrios da corrente roustanguista do "movimento espírita".

No meio do "tiroteio" se encontrava Francisco Cândido Xavier, o maior astro do "movimento espírita", um sujeito arranjado "de fora", porque era um beato católico dotado de dons paranormais e que havia sido excomungado pela igreja de Pedro Leopoldo, mais pela paranormalidade do que pelas crenças católicas, já que Chico Xavier professava crenças ortodoxas e até medievais, como fervoroso beato do interior.

Também se encontrou nesse "tiroteio" Divaldo Franco, jovem baiano que, no final da década de 1950, já como organizador da Mansão do Caminho, iniciou carreira como suposto médium. Assim como Chico Xavier, Divaldo professava o roustanguismo de maneira enrustida, nunca assumida, e, embora sejam ligados à cúpula da FEB - Chico, por exemplo, era cria do presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, que agia como se fosse empresário do "médium" - , divergiam da postura centralista.

Eis que, quando Divaldo Franco iniciou seus trabalhos "psicográficos", pela sua inexperiência resolveu plagiar Chico Xavier, este já um plagiador de longa data. Foi um dos membros da cúpula da FEB, Luciano dos Anjos, denunciar tais atividades, que tornou-se aguda a crise no "movimento espírita", no decorrer da década de 1960.

Com isso, entrou em conflito a direção central da FEB e os dirigentes regionais. Como Jean-Baptiste Roustaing era o maior nome defendido pela direção da FEB, o nome de Allan Kardec passou a ser enfatizado como uma formalidade, como se fosse o paraninfo de um partido político dissidente. Mas isso não representava uma tendência dos "espíritas" regionais recuperarem as bases doutrinárias kardecianas para valer, muito pelo contrário.

A partir de 1963, Chico Xavier e Divaldo Franco, tendenciosamente, divulgaram supostas mensagens do médico e ex-presidente da FEB, Adolfo Bezerra de Menezes - que oficialmente permaneceu no plano espiritual, mas tudo indica que ele está em sua segunda encarnação após deixar a vida material em 1900 - , supostamente arrependido do roustanguismo e voltado aos postulados originais de Kardec.

A prova, no entanto, de que a promessa de recuperação das bases doutrinárias originais era conversa para boi dormir estava na forma com que o suposto Bezerra de Menezes definiu tal promessa, através da expressão "kardequizar", uma clara corruptela do termo "catequizar", que era o método com que os jesuítas do Brasil colônia adotavam para converter os indígenas para o Catolicismo.

Essa era a senha para a fase dúbia do "movimento espírita", que parecia ensaiar um distanciamento do grupo de Wantuil, o "mentor" terreno de Xavier, já que o presidente da FEB já se tornava idoso e, em 1970, se aposentava, doente, encerrando um ciclo que se fechou oficialmente com sua morte, em 1974.

Enquanto surgiam escândalos associados às fraudes de materialização respaldadas por Chico Xavier, e as relações entre este e Divaldo pareciam estremecidas, o "movimento espírita" ainda acentuava seu roustanguismo quando, nos anos 1970, se planejou uma deturpação ainda mais radical na tradução da obra de Allan Kardec, plano denunciado, até em programa de rádio, por José Herculano Pires.

Chico Xavier chegou a apoiar esse plano, mas, como era amigo de Herculano ("amigos, amigos, negócios à parte", vale lembrar), voltou atrás. Com o fim da era Wantuil, e, mais tarde, a falência da TV Tupi - emissora que blindava o "movimento espírita" na mídia - , o "movimento espírita" iniciava um novo ciclo com a fase dúbia, já sob o suporte midiático da Rede Globo de Televisão.

Com isso, criou-se uma postura cheia de contradições, mas com um discurso engenhoso e, em aparência , conciliador, que deixou de lado o "alto clero" da FEB, isolando o grupo liderado pelo sucessor de Wantuil, Francisco Thiesen, e Luciano dos Anjos. Roustaing seria descartado da mesma maneira que, recentemente, foi o ex-deputado Eduardo Cunha: ideias aproveitadas, idealizador deixado de lado.

Criou-se então uma postura dúbia: a apreciação das bases doutrinárias originais era politicamente correta, com a aparente evocação de fatos e personalidades científicos e filosóficos que, no entanto, soa pedante e temperada de muito misticismo esotérico. Misturava-se alhos com bugalhos confundindo ideias kardecianas com outras que lhes são opostas e associadas aos nomes de Emmanuel e André Luiz, entre outros.

A "mediunidade" continuava sendo o faz-de-conta dos simulacros que deixam dúvidas quanto à veracidade das mensagens ditas espirituais, porque apresentam muitas falhas em relação a aspectos pessoais dos autores mortos alegados.

Pior: ela crescia e o número de "médiuns" se tornou maior nessa época, algo muito estranho porque a lógica diz que essa atividade é complexa e diferenciada demais para que houvessem tantos especialistas assim. Em tese, todo mundo poder ser médium (embora o termo correto seja "paranormal"), mas poucos conseguem ter a concentração e a ação responsável para isso.

Daí que, quando surge um monte de "médiuns", é arrivismo. E aí a fase dúbia do "espiritismo", como se não bastasse o igrejismo propagado em palestras, "psicografias" e até romances "mediúnicos" - arremedos ruins de novelas da TV - , deu margem a muitas contradições, misturando cientificismo com moralismo medieval, lançando mão de profetismo barato, pedantismo intelectual etc.

Hoje essa fase se encontra em declínio, porque não consegue mais resolver suas contradições. Palestrantes misturam alertas de Erasto sobre os deturpadores da Doutrina Espírita com recados oportunistas e mentirosos trazidos pelo espírito-símbolo da deturpação, o jesuíta Emmanuel. Daí o nome "fase dúbia" ou "tendência dúbia", que fez do "espiritismo" brasileiro a religião mais contraditória do Brasil.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Religião está semeando mais amargura e ódio do que amor entre as pessoas


A religião poderia ser válida como uma cultura que transmite fantasias e sonhos, e quando é expressa nos seus templos, pode se tornar um entretenimento saudável. Mas quando a religião interfere na realidade e quer intervir até mesmo na atividade intelectual e científica, cria sérios problemas.

O que um estudo que aponta que religião favorece o suicídio, manifestações de ódio contra a ex-primeira-dama Marisa Letícia e os juízos de valor de uma professora carioca e uma pediatra mato-grossense têm em comum? Muita coisa.

Uma pesquisa do Instituto Psiquiátrico de Nova York constatou que a religião é um fator que eleva o risco de pessoas deprimidas cometerem suicídio. É bom deixar claro que a pesquisa científica intrigou os cientistas, que pensavam que a religião ajudava as pessoas a saírem da depressão e evitarem o suicídio.

Normalmente, se costuma acreditar que a religião evita as pessoas de se suicidarem. Recentemente, um artigo do palestrante "espírita" Richard Simonetti, "Os que matam a esperança", falava da "vantagem" em acreditar em Deus, dentro da abordagem religiosa que descreve o autor.

No entanto, as seitas religiosas, que mais pedem para as pessoas aguentarem desgraças do que as ajudam a resolverem problemas na vida, cada vez mais estão estimulando o suicídio, em vez do contrário. E mesmo o "espiritismo", cada vez mais identificado pela Teologia do Sofrimento, mais contribui para estimular do que para intimidar o suicídio de alguém.

Uma pessoa passa por dificuldades extremas, daquelas que fazem com que uma pessoa não tenha controle sobre seu próprio destino e vira "brinquedo" das circunstâncias infelizes. Vai o "espírita" conhecer um caso do tipo e seu palestrante, "bondoso", pede para a pessoa "confiar em Deus" e "nunca reclamar da vida", sob a desculpa de "não atrair más energias" e o sugere para ver os passarinhos cantando na árvore, o rio correndo no seu curso etc.

Quando sofremos desgraças imensas, não é por preguiça. Em muitos casos, as pessoas se esforçam demais para nada, sobretudo na busca de um emprego em que o que aparece não está de acordo com sua vocação e está até relacionado a contextos infelizes (patrão prepotente, empresa corrupta etc.). E os sofredores já olham passarinhos na janela, rio correr, céu azul, se esforçam com alegria e fé, fazem jogo de cintura, semeiam otimismo etc. O que os "espíritas" aconselham o sofredor já fez.

O problema é quando tudo isso é feito em vão e as circunstâncias infelizes se acumulam e as barreiras da vida são intransponíveis. O "espírita", meio como um "amigo da onça", sugere para a pessoa "reavaliar seus desejos", "rever suas habilidades", pois, com seu juízo de valor, o conselheiro da hora alega que o sofredor "talvez não saiba o que quer na vida" e lhe aconselha uma "reforma íntima". É aí que o "espírita" cria, ainda que sem querer, as condições para o sofredor se matar.

Outro caso de falha religiosa está nas mensagens de ódio nas redes sociais, em que pessoas que se dizem "cidadãs de bem", "defensoras da Família" e devotas "do poder de Deus", praticam cyberbullying e difundem visões reacionárias que, não raro, revelam-se vingativas ou expressam preconceitos sociais muito cruéis.

As campanhas de ódio contra a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, mulher do ex-presidente Lula, que recentemente sofreu um acidente vascular cerebral, revelam que os reacionários, que costumam criminalizar tudo relacionado ao PT, em que Lula é criminalizado até por respirar, apelam para a "justiça divina" para o infortúnio sofrido pela professora aposentada Marisa.

Mas isso também cria juízos de valor como o da professora carioca Denise Oliveira, que definiu como "justiça divina" a morte de uma menina de dois anos por bala perdida. A menina era filha de um policial militar. A mensagem, publicada no Facebook, gerou péssima repercussão. Denise tentou se desculpar, mas os pais da menina resolveram processá-la na Justiça.

Um outro caso se deu em Rondonópolis, Mato Grosso. quando uma pediatra se recusou a atender uma criança por causa de outro juízo de valor. A menina foi vítima de estupro e a pediatra se recusou a atendê-la porque a menina "estava pagando" por erros de "vidas passadas". A médica chegou a dizer que a menina "passava uma energia sexual" para um tio que a estuprou. A pediatra, que foi processada, se declarou "espírita".

Grupos fascistas e terroristas existentes no mundo inteiro também revelam um modus operandi religioso. A Klu Klux Klan, grupo racista e fascista dos EUA, declara-se uma seita religiosa. O Estado Islâmico também. O nazi-fascismo se inspirou nos princípios do Catolicismo medieval e seus tiranos eram vistos como "messiânicos". Pessoas ultraconservadoras veem retrocessos ou arbitrariedades sociais como se fossem "fórmulas milagrosas".

A pós-verdade, que permitiu que, com base em apelos à emoção e argumentos duvidosos, que se aprovasse a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e a vitória eleitoral do reacionário Donald Trump, para a Presidência dos EUA. É a mesma pós-verdade que vemos na religião, em que as convicções de caráter subjetivo e emocional tentam se sobrepôr à realidade objetiva dos fatos.

No "espiritismo", a pós-verdade teve atuação pioneira, protegendo o "médium" Francisco Cândido Xavier, que de um pastichador de livros ganhou uma reputação de semi-deus devido aos apelos à emoção. De fraude em fraude, de juízo de valor a juízo de valor, de conservadorismo a conservadorismo, o "médium" de Minas Gerais quis ser unanimidade em tudo, e os brasileiros aceitam numa boa, ignorando que seu método, o "apelo à emoção", é reconhecidamente uma falácia.

A religião cria fanatismos, moralismos severos, e faz as pessoas se iludirem da superioridade social que não têm. Mesmo os "espíritas" parecem confiar num caminho curto para o céu, se esquecendo que seus juízos de valor podem levar as pessoas ao suicídio, o que, para os palestrantes que ficam dizendo para ninguém se suicidar, é uma constatação constante. Imagine um "espírita" voltar ao mundo espiritual e tomar conhecimento que alguém se suicidou sob sua influência?

Manifestos de ódio e atos de violência e assassinatos cometidos por "gente de bem" geram efeitos drásticos até para seus autores. Homicidas que tinham noção do risco de seus atos e não conseguem sossego pessoal sequer na impunidade. Ou valentões digitais que sofrem atentados a bala depois de tanto ofender e brigar com desafetos. Ou pessoas fazendo juízo de valor em nome da religião, e que são processadas por danos morais.

Isso revela o quanto a submissão religiosa e o vício de reduzir a bondade a uma pequena obrigação institucional de um movimento religioso trazem muitos equívocos e riscos. O apego à religião como fenômeno acima da realidade objetiva está fazendo o Brasil agravar sua crise em níveis preocupantes, o que faz muitos especialistas falarem em convulsão social.

A submissão da fé e o império da pós-verdade - quando pessoas tentam malabarismos retóricos para justificar suas convicções - está criando sérios problemas para a humanidade no mundo inteiro, e principalmente no Brasil, em que tais ações crescem a cada dia, e podem trazer efeitos devastadores não só para as vítimas, mas também para seus algozes.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Religião, apelo à emoção e estrelato

MICHAEL JACKSON, SÍMBOLO DA MITIFICAÇÃO HUMANA NA MÚSICA POP.

As pessoas ainda precisam aprender a respeito de sua emotividade e das noções idealizadas de "bondade", voltadas mais a uma estória de fadas do que de um processo concreto de ajuda ao próximo. Precisam ver que, por exemplo, não é só a cultura pop que pega emprestada da religião o ato de adorar os ídolos, mas o caminho inverso.

Não é preciso aqui detalhar paralelos de Michael Jackson com astros da religiosidade como Madre Teresa de Calcutá e Francisco Cândido Xavier. Eles também são construídos como astros pop, mas uma série de ilusões garantidas pelo mito da religiosidade omitem esse processo e fazem com que tudo pareça espontâneo e natural.

No "espiritismo" brasileiro, então, nem se fala. Além da ilusão de religiosidade que garante, aos olhos da Terra, o Paraíso a determinadas figuras "sagradas" - que no retorno ao mundo espiritual levam um choque ao saber que tal "oportunidade", tida como certa, não se deu - , há ainda outra ilusão resultante do hábito do brasileiro de dissimular as coisas: a ilusão de uma "racionalidade" e "objetividade" que não existem.

Isso garante uma dupla ilusão. A ilusão da religiosidade, que garante aos deslumbrados da Terra a "garantia" de que seus ídolos irão para um "mundo perfeito", após o fim da vida. E a ilusão da racionalidade, que dá um verniz de "objetividade" e "lógica" nas paixões da fé religiosa que o "espiritismo" copia da Igreja Católica.

SUPERFICIALISMO

A revista Seleções, edição brasileira da conservadora revista estadunidense Reader's Digest, em sua edição de janeiro de 2017 publicou um artigo de Sanghamirta Chakraborty, intitulado "Toque de Mãe", sobre uma visita feita a Madre Teresa de Calcutá à residência dela, na cidade indiana do seu famoso codinome, em 1989. A visita teria sido feita por ela para acompanhar uma amiga que precisava entrevistá-la para uma reportagem.

O artigo não traz novidades e apenas reforça a mitificação em torno de Madre Teresa. É algum daqueles relatos que, se envolvessem, em vez de ídolos religiosos, astros da cultura pop, como atores e cantores, seriam apenas reportagens ou artigos comuns, a ocupar as biografias dos idolatrados. Mas como se tratam de ídolos religiosos, cada relato desses é visto como atestado de pretensa superioridade espiritual destas personalidades.

Um trecho do artigo segue aquela visão deslumbrada de justificar as coisas com nada. É o deslumbramento religioso que faz as pessoas afirmarem alguma grande virtude sem trazer informações objetivas nem precisas, dando declarações que não vão além do "achismo" e, lembrando o caso do promotor brasileiro Deltan Dallagnol, da "força-tarefa" da Operação Lava Jato, é feito "sem provas, mas com muita convicção". Vejamos:

"(...) Sempre morei nesta cidade em que Madre Teresa adotou como sua, na qual construiu uma instituição que salvou milhões, lhes deu uma vida decente ou dignidade da morte. Éste é o lugar de onde ela inspirou milhões de pessoas a serem voluntárias e fazerem doações à sua causa. Eis aqui uma mocinha americana que viajou milhares de quilômetros para vê-la, E eu, eu estou aqui o tempo todo.

É claro que Madre Teresa também já teve seu quinhão de críticas, geralmente de quem vê um 'plano' por trás da ajuda aos pobres. Mas não foi por isso que não tentei. Li sobre seu trabalho e vi na televisão. Mas nunca me passou pela cabeça vir visitá-la".

Note-se que, tanto em aspectos positivos (a suposta caridade de Madre Teresa através da Congregação das Missionárias da Caridade) nem em aspectos negativos (como o tal "'plano' por trás da ajuda aos pobres") há dados precisos e objetivos. Não se fala como é a "vida decente ou dignidade da morte", revelando omissão de dados, mas também há o desprezo pela acusação de impor condições sub-humanas aos alojados pela "santa". Ambas as coisas são descritas de maneira vaga.

A narração da visita apenas parecia uma conversa amistosa que se encerrou com as tais "bênçãos". E um relato semelhante se observa através das respostas de internautas a um risível artigo de "Filosofia Imortal" sobre uma improcedente "confirmação" de "previsões" de Chico Xavier em 1969, sobre visitas de extra-terrestres em bases estadunidenses ocorridas antes, em 1964 e 1967:

"Eu tive a honra de conhecer pessoalmente o Chico Xavier, um homem simples, sábio e caridoso, talvez o mais caridoso que já conheci em todas as historias de pessoas em nossa era, faturou milhões com sua obra e doou cada centavo. Tenho visto simpatias, previsões e muitos outros relatos falsos que são atribuídos ao Chico,contrariando exatamente um dos pilares da doutrina que é a desmistificação e a fé com raciocínio. Muitos falam de Chico sem nenhum embasamento da realidade do que ele foi e representa para nossa evolução de caráter, fraternidade e humildade. Não é atoa que ele se considerava apenas um cisco no processo de evolução necessária para chegar a Jesus. Quer entender Chico? Então esqueça os fenômenos e apegue-se a caridade!".

O deslumbrado chiquista fala que tenta dar um verniz "realista" ao relato do contato pessoal com o anti-médium mineiro, criando falsas argumentações, pois trata Chico, comprovado deturpador da Doutrina Espírita, como se fosse "espírita autêntico" e, confuso, o internauta se apega a mitos, se recusando a questionar ou analisar fenômeno.

Esse é um tipo de sujeito que põe o mito acima do ser humano. Mas tenta fazer rodeios para que sua visão seja a mais "realista" e "consistente". Diferente dos católicos comuns, que ao menos assumem estarem tomados de emoção, os "espíritas" tentam parecer "racionais", "objetivos" e "coerentes". Fazem todo um engodo de argumentos "objetivos" para tudo terminar numa reles emotividade religiosa.

Imaginamos se esse contato pessoal com ídolos religiosos também não mostra as mesmas ilusões que o contato com um astro da música pop ou do cinema de Hollywood. Nestes casos, há um distanciamento entre a imagem idealizada da celebridade e a sua vida pessoal, e, embora as fantasias dos fãs sejam grandes, há uma consciência, por menor que seja, desse distanciamento, já que o admirador não faz parte da vida pessoal da celebridade, sendo quase sempre um estranho.

No contado com ídolos religiosos, porém, o devoto religioso tem a ilusão de que "furou o cerco" do mito e "penetrou na profundidade da realidade". O devoto acredita que, conhecendo pessoalmente o ídolo religioso, "penetra na sua intimidade" e se torna "beneficiado" pelo que entende como a "realidade do bem", ignorando que ele entrou em contato não com uma "figura humana", mas como um mito, com todo o seu distanciamento que não pode ser subestimado.

Temos que analisar os escaninhos da emotividade religiosa, dos apelos à emoção e das pós-verdades. E também a forma como se vê a "bondade" e a "caridade", quando se exalta, até com certo exagero, atividades que apenas ajudam muito pouco, dando ao "benfeitor" um cartaz e uma glorificação que estão aquém aos resultados de sua pálida filantropia.

A roupagem "realista" do "espiritismo" brasileiro mais parece um segundo verniz para o da devoção religiosa. Se esta já não estabelece diferença entre mito e realidade, aquela, concordando com a primeira, vai mais além, não estabelecendo diferença entre emoção e razão.

O deslumbramento dos católicos já é um problema que o apelo à emoção, ou o Argumentum Ad Passiones, se torna uma falácia bem sucedida. Entre os "espíritas" é um problema mais grave ainda, pois se protege sob a máscara da "fé raciocinada", desculpa para que mitos sejam sustentados por argumentos falsamente objetivos. É esse deslumbramento, que se apoia no pretexto da "bondade", que protege os deturpadores que corromperam o trabalhoso legado de Allan Kardec.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Usar a "bondade" para atenuar a deturpação espírita é mais grave do que se pensa

CHICO XAVIER SEGUINDO O ROTEIRO DE MALCOLM MUGGERIDGE, SOB AS BÊNÇÃOS DA REDE GLOBO

Usar a "bondade" e a "caridade" para atenuar e dissimular a deturpação da Doutrina Espírita não pode ser visto como uma qualidade positiva, mas um processo tendencioso e traiçoeiro de abrir caminho para a mistificação ainda mais intensa, diante da fábrica de consenso que o aparato filantrópico garante num país emocionalmente vulnerável que é o Brasil.

A "caridade paliativa" deve se tornar, em breve, um dos mais complicados problemas dos anos 2020, porque é uma "bondade" que pouco ajuda, que coloca o benfeitor à frente dos beneficiados, uma "caridade" feita mais para arrancar lágrimas do público do que para realmente acabar com a miséria e as injustiças sociais.

O "espiritismo" deturpador, que finge apreciar e respeitar Allan Kardec mas foge de seus postulados - "fuga" muito bem dissimulada com traduções grosseiras das obras kardecianas, que deturpam o conteúdo original - , é ainda mais grave e mais pernicioso quando se apoia na "caridade" para forçar a aceitação de seus conceitos igrejistas e ultraconservadores.

É bom lembrar que a aparente caridade pode, muitas vezes, ser fachada de intenções levianas. Quantas aparentes filantropias servem para a "lavagem" de dinheiro de corruptos e até de mafiosos? E o famoso crime eleitoral, de fornecer cestas básicas? Isso também não poderia ser visto como "caridade" e todos aceitassem livremente que o candidato que investisse nessa trapaça seja unanimemente visto como "caridoso"?

Infelizmente, as pessoas até se tornam cegas e um tanto agressivas quando se referem à "caridade espírita" como "transformadora" e "revolucionária". Se prestarmos atenção nos resultados, vemos que ele não merece metade dos fogos e artifícios que se jogam para seus pretensos filantropos, que usam dessa medida não para mudar a sociedade, mas para permitir que fossem aceitos pela sociedade com suas deturpações doutrinárias.

O Brasil fechou os ouvidos a Erasto, o espírito que se comunicou para um médium a serviço de Allan Kardec, que alertou sobre os supostos médiuns traiçoeiros. Ele admitiu que estes podem às vezes trazer coisas boas, mas ele recomendou, neste caso, maior cautela, porque essas coisas boas podem servir de fachada para que eles transmitam ideias levianas e obscurantistas.

Os brasileiros ainda têm uma ideia medieval do que é "bondade", reduzida a um subproduto da religião que serve mais para colocar o filantropo acima da filantropia, criando uma "caridade" que ajuda pouco e não mexe no sistema de desigualdades sociais em que vivemos.

É uma "bondade" de cativeiro, de alojar pessoas humildes com o aparente intuito de ajudá-los em tudo, mas sob o preço do proselitismo religioso e do controle moral dentro de um sistema de valores em que se recomenda nunca confrontar com os abusos dos detentores de poder. Uma "caridade" que nada interfere nos abusos que acontecem na sociedade desigual que é a brasileira, só servindo como um espetáculo para arrancar lágrimas da plateia.

É absurdo que Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco sejam vistos como "ícones máximos da bondade" porque os dois são os piores deturpadores da Doutrina Espírita em toda sua história. Trouxeram conceitos que entram em séria colisão com os ensinamentos originais de Kardec, corrompendo-os em prol de preconceitos igrejistas e até esotéricos e obscurantistas.

Chico Xavier fez pastiches literários, plágios, expôs as famílias que perderam entes queridos ao sensacionalismo da mídia, enganou muita gente, fez juízo de valor, caluniou os amigos de Jair Presente, humilhou as humildes vítimas do incêndio de um circo em Niterói e ofendeu os humildes agricultores e operários que se organizam politicamente, e ainda defendeu generais e torturadores a pretexto da "preparação de um reino de amor".

Como um cara desses pode ser considerado "puro"? É por causa daqueles clichês de pretensa caridade, que foram copiados do documentário de Malcolm Muggeridge sobre Madre Teresa de Calcutá, que mostram apenas uma "caridade" que só serve para deslumbrar o público do que realmente ajudar o próximo? Se as pessoas acham que isso é "bondade plena e transformadora", é sinal que estão vendo novelas e comerciais de TV demais.

E Divaldo Franco? o que dizer dos festejos em excesso em torno desse deturpador que espalhou a mentira igrejista para o resto do mundo? Ser considerado "maior filantropo do Brasil" por ajudar, e ainda assim, de maneira qualitativamente medíocre, menos de 1% da população brasileira é um absurdo, como é o fato de Divaldo nunca recorrer às elites para cobrar alguma colaboração, mas para bajular e fazer elogios bastante viscosos aos detentores do poder!

Tudo isso mostra que a ideia de "bondade", quando ela serve para acobertar os erros dos deturpadores, se torna não uma caridade, mas um delito ainda mais grave, caraterizando no truque que é conhecido como "bom-mocismo", quando alguém dotado de alguma esperteza forja "boas qualidades" para enganar e seduzir as multidões.

Isso piora mais as coisas porque os deturpadores da Doutrina Espírita se tornam ainda mais deploráveis, porque forçam a associação da ideia de "bondade" com atitudes desonestas, porque os deturpadores arruinaram, de propósito, o trabalhoso legado de Allan Kardec, e se tornam mentirosos quando se dizem "fiéis e rigorosos seguidores" do pedagogo francês. Não há filantropia que possa inocentar os deturpadores do Espiritismo de seus mais graves delitos.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Apego a Chico Xavier é coisa mais perigosa do que se pode imaginar


As pessoas vivem presas em paradigmas religiosos. Fica fácil alguém virar ídolo através de uma retórica de palavras bonitas, um repertório moralista cheio de juízos de valor, pretensas frases de esperança e otimismo e uma fachada de bondade institucional feita para impressionar plateias e provocar comoções baratas.

Daí que elas não imaginam o caráter perigoso do endeusamento de um dos piores deturpadores da Doutrina Espírita no Brasil, o "médium" Francisco Cândido Xavier, que fará, no final de junho próximo, 15 anos de falecimento, criando um período de intensa fascinação obsessiva.

FASCINAÇÃO E SUBJUGAÇÃO

Chico Xavier é alvo e beneficiário de dois tipos de obsessão, bastante perigosos. As pessoas em geral sentem por Chico a chamada "fascinação obsessiva", uma espécie de submissão consciente que é perigosa pela rendição quase voluptuosa ao "médium", como se as pessoas caíssem num canto-de-sereia.

O jogo da aparência, movido pelo balé de palavras bonitas e por uma caridade paliativa que menos ajuda o próximo do que deslumbra o público, reflete essa cegueira emocional, o que revela uma insegurança moral nas pessoas que precisam de um ídolo religioso, ainda que associado a preocupantes fraudes e práticas duvidosas, para simbolizar uma "perfeição" que elas não conseguem por si mesmas buscar.

No capítulo 23 de O Livro dos Médiuns (tradução de José Herculano Pires, mais fiel ao texto original), intitulado "Da Obsessão", Allan Kardec cita o exemplo da relação do médium com o espírito, mas o processo de fascinação obsessiva pode ser de qualquer pessoa para qualquer pessoa. Kardec descreve assim o processo obsessivo que é conhecido como fascinação, no item 239:

"A fascinação tem conseqüências muito mais graves. Trata-se de uma ilusão criada diretamente pelo Espírito no pensamento do médium e que paralisa de certa maneira a sua capacidade de julgar as comunicações. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo-o de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos. A ilusão pode chegar a ponto de levá-lo a considerar sublime a linguagem mais ridícula. Enganam-se os que pensam que esse tipo de obsessão só pode atingir as pessoas simples, ignorantes e desprovidas de senso. Os homens mais atilados, mais instruídos e inteligentes noutro sentido, não estão mais livres dessa ilusão, o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga.

            Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas".

Em outro trecho do mesmo item, Kardec parece adivinhar a idolatria que os brasileiros sentiriam por Chico Xavier, diante dos argumentos apresentados no parágrafo em questão. É surpreendente que toda a deturpação da Doutrina Espírita, incluindo os apelos à emoção que incluem tanto palavras bonitas como aparente filantropia. Eis o trecho que deixaria os chiquistas envergonhados, se soubessem o real sentido do alerta:

"As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança. Mas através de tudo isso deixa passar os sinais de sua inferioridade, que só o fascinado não percebe; e por isso mesmo ele teme, mais do que tudo, as pessoas que vêem as coisas com clareza. Sua tática é quase sempre a de inspirar ao seu intérprete afastamento de quem quer que possa abrir-lhe os olhos. Evitando, por esse meio, qualquer contradição, está certo de ter sempre razão".

Alguém não percebeu que muitos dos "apelos lindos" da "filosofia" (?!?!?!?!?!) de Chico Xavier sempre pediam para as pessoas nunca questionarem, não contestarem e não julgarem? Em suas obras, também se observa a criminalização do ato de pensar, quando ele ameaça os dogmas religiosos, daí termos como "tóxico do intelectualismo" e alegações dos chiquistas sobre a "overdose de raciocínio" que se revela um absurdo sem tamanho.

O próprio Chico Xavier fazia isso para salvar sua pele. A maior parte de seu trabalho "psicográfico" apresenta irregularidades fáceis de serem identificadas - a outra parte apresenta irregularidades mais sutis, mas sempre irregularidades - e a identificação das mesmas pode pôr em xeque-mate a reputação de um arrivista religioso que começou como pastichador de poemas e hoje é visto como um semi-deus.

Apegados a velhos valores moralistas, aliados a uma velha religiosidade, os brasileiros deixam passar isso. Criam em seu inconsciente uma ideologia ultraconservadora, apegada a velhos mitos e velhos dogmas, e isso favoreceu a reputação de Chico Xavier como "ícone da bondade", e muitos esquecem que essa concepção de "bondade", além de ser um subproduto da religião, beneficia mais o "benfeitor", pelo cartaz que recebe, do que o necessitado, que recebe poucos e frágeis benefícios.

Já o segundo tipo de obsessão é feita pelo meio jurídico e midiático. É a subjugação. Um tipo mais perigoso, entendido como uma obsessão semi-consciente, mas muito mais submissa e impulsiva, que soa como uma espécie de escravidão ao obsessor. Kardec trata do assunto no item 240.

"A subjugação é um envolvimento que produz a paralisação da vontade da vítima, fazendo-a agir malgrado seu. Esta se encontra, numa palavra, sob um verdadeiro jugo.

A subjugação pode ser moral ou corpórea. No primeiro caso, o subjugado é levado a tomar decisões freqüentemente absurdas e comprometedoras que, por uma espécie de ilusão considera sensatas: é uma espécie de fascinação. No segundo caso, o Espírito age sobre os órgãos materiais, provocando movimentos involuntários. No médium escrevente produz uma necessidade incessante de escrever, mesmo nos momentos mais inoportunos. Vimos subjugados que, na falta de caneta ou lápis, fingiam escrever com o dedo, onde quer que se encontre, mesmo nas ruas, escrevendo em portas e paredes.

A subjugação corpórea vai às vezes mais longe, podendo levar a vítima aos atos mais ridículos. Conhecemos um homem que, não sendo jovem nem belo, dominado por uma obsessão dessa natureza, foi constrangido por uma força irrestível a cair de joelhos diante de uma jovem que não lhe interessava e pedi-la em casamento. De outras vezes sentia nas costas e nas curvas das pernas uma forte pressão que obrigava, apesar de sua resistência, a ajoelhar-se e beijar a terra nos lugares públicos, diante da multidão. Para os seus conhecidos passava por louco, mas estamos convencidos de que absolutamente não o era, pois tinha plena consciência do ridículo que praticava contra a própria vontade e sofria com isso horrivelmente".

No caso brasileiro, o que existe é uma subjugação moral. A Justiça dos homens fica paralisada diante de qualquer hipótese de investigar uma fraude "espírita". Uma fraude na psicografia, na psicofonia, na pictopsicografia, nas "curas mediúnicas".

Mesmo quando irregularidades se mostram explícitas, como quadros que nem de longe refletem os estilos dos autores mortos alegados, mas, no caso de um mesmo "médium", seu estilo pessoal é facilmente identificado em pinturas supostamente de diferentes autores espirituais, não há o menor risco de haver sequer um inquérito ou uma investigação.

Criam-se até mesmo argumentos jurídicos que podem apresentar desculpas esfarrapadas dadas em "juridiquês": como por exemplo nas assinaturas, o porquê delas mostrarem apenas a caligrafia do "médium": "É porque o médium, como anfitrião da obra espiritual, se torna o responsável da assinatura, como um juiz assinando um auto, dispensando o espírito de assinar a sua própria obra, pois já lhe basta a pintura feita".

São argumentos absurdos, mas possuem uma roupagem associada à "lógica" e a "tecnicidade", trazendo uma visão falsamente objetiva das coisas. Aliás, é a partir dessa ilusão que temos um governo como o de Michel Temer, associado a um aparato de "tecnicidade", "moderação" e "técnica" que esconde práticas delinquentes que deixam o Brasil em estado de séria fragilidade institucional.

A subjugação permite que juízes, acadêmicos e jornalistas não mexam com os ídolos "espíritas". As fraudes são apenas "analisadas" só para fingir alguma polêmica, mas tudo é feito para garantir a impunidade absoluta aos ídolos "espíritas". Tudo para manter uma concepção conservadora de "bondade", linda como um conto de fadas, mas que na realidade pouco traz benefícios aos necessitados.

E ver que até a mãe e o filho de Humberto de Campos, Ana de Campos Veras e Humberto de Campos Filho, foram vítimas da fascinação obsessiva movida por Chico Xavier é chocante. E mostra o caráter muito perigoso do apego a um deturpador.

Não é difícil imaginar haver coincidência demais em tantos devotos de Chico Xavier que veem seus filhos ou outros entes morrerem de repente, em acidentes. Soa como uma grande maldição, que não deve ser minimizada pela consciência da vida espiritual, que aqui é encarada de maneira irresponsável, porque entender que o espírito vive no além-túmulo e existe reencarnação não é desculpa para jogarmos fora uma encarnação por causa de infortúnios e tragédias.

O grave deturpador que foi Chico Xavier, cujo "guia espiritual" foi o autoritário Emmanuel - segundo Kardec, espíritos autoritários são de natureza inferior - , que ainda se fazia valer da aparência física de caipira inocente, somada depois a de um velhinho frágil, representou o exemplo mais perigoso de obsessão, inspirando nas pessoas comuns a fascinação obsessiva e, nos meios jurídicos, intelectuais e jornalísticos, a subjugação.

Isso é tão perigoso que pessoas preferem ser prejudicadas do que abrir mão de seus ídolos religiosos. Cria-se um masoquismo sem necessidade, e muitos sucumbem à doença infantil do deslumbramento religioso, lembrando a metáfora de uma cidade cujo povo aceita a sua própria destruição, desde que seja mantida em pé a estátua de seu ídolo maior.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Prestígio social e a banalização do erro

ROMERO JUCÁ, MICHEL TEMER, GEDDEL VIEIRA LIMA E RENAN CALHEIROS - Eles cometem erros graves e o pessoal tranquilinho em casa?

A banalização do erro humano cria uma moral seletiva. Pessoas que cometem erros pequenos mas são desprovidas de prestígio social são seriamente criticadas, enquanto outras, que cometem erros gravíssimos e até crimes de arrancar os cabelos, são poupadas e vistas apenas como pessoas que cometem pequenas molecagens.

O Brasil começa a viver uma crise de status quo, porque é justamente nas pessoas dotadas de alguma superioridade, como na idade, no dinheiro, na fama, no diploma e no poder exercido de alguma forma é que se observam os erros mais graves e preocupantes, o que deixa os deslumbrados ainda acomodados na sua indiferença, vivendo na doce ilusão de que os "tarimbados", quando erram, apenas "erram como todo mundo".

O "errar como todo mundo", sob a desculpa de dizer "quem nunca erra?" ou "somos gente como a gente" faz com que haja essa complacência. O governo de Michel Temer, por exemplo, é uma terrível e assustadora catástrofe política e as pessoas não parecem preocupadas com isso. Até pouco tempo atrás, era o mesmo pessoal que se enfurecia só de ver a cara de Dilma Rousseff na TV.

Imagine você sendo passageiro de um navio que navega em águas revoltas num momento de tempestade e o timoneiro e a tripulação, além de cometerem delitos - digamos que eles cheguem até a furtar objetos das bagagens dos passageiros - , se desentendem seriamente a ponto de haverem casos de agressões físicas entre os conflituosos.

Imagine se o timoneiro deixa de guiar o navio por causa dessa confusão toda, que cria um caos nos bastidores e a embarcação ainda está rumando em direção a um rochedo. Você, passageiro do navio, permaneceria tranquilo numa situação dessas, acrescentando que o céu apresenta trovoadas, o ar se movimenta em vendaval e no mar se formam ondas gigantes?

A situação é como essa metáfora e o governo Michel Temer, que só pode ser considerado "governo" por uma simples formalidade, pois mais parece desgoverno, é recheado de tantos e graves deslizes e escândalos que só mesmo o surrealismo para explicar a serenidade das pessoas e a ingenuidade (ou cinismo?) de uns em rir desses escândalos, como se a tragédia fosse uma comédia?

São erros cometidos pelo próprio Temer e seus associados: Romero Jucá, Henrique Meirelles, Alexandre de Moraes, José Serra, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Aécio Neves, ou mesmo Gilmar Mendes, Carmem Lúcia e os irmãos donos das Organizações Globo (José Roberto, João Roberto e Roberto Irineu Marinho). A plutocracia política, econômica, jurídica e midiática revela erros muito graves que o status social quer que sejam vistos como "coisa menor".

Com o nível de responsabilidades que têm os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário - é bom deixar claro que até o "super-herói" Sérgio Moro tem irregularidades graves em sua trajetória - , é assustador que haja tantos e tantos escândalos, porque o Brasil é deixado à deriva num momento em crises sociais profundas, algo que mais parece véspera de catástrofe.

No Rio de Janeiro, então, a serenidade de pessoas indiferentes a isso faz com que famílias entrem num restaurante mesmo quando um caminhão de lixo fedorento, cujo ar fétido flui em contato com a comida a quilo, contaminando os alimentos, e todos vão felizes fazer sua refeição sem saber que o contato do lixo com a comida pode produzir, após a ingestão, uma intoxicação alimentar.

A felicidade dos cariocas, não só eles mas principalmente eles, é um retrato surreal do país que mergulha em gravíssimas crises, que hoje culminam com as rebeliões nos presídios que não só envolvem a chamada "nata do banditismo" nacional, mas também envolvem supostos fornecedores de entorpecentes consumidos por gente rica nas festas.

É uma situação de calamidade pública, de provocar insônias e não sonos tranquilos, de inspirar apreensão e não tranquilidade, e que não permite relativismos do tipo "todo mundo erra". Isso é até uma hipocrisia, porque as elites são tão distintas em qualidades positivas, mas quando erram têm que ser niveladas ao cidadão comum, mesmo sendo erros graves de gente rica ao lado de erros pequenos de gente pobre ou de classe média.

E O "MOVIMENTO ESPÍRITA"?

A complacência ao erro também é muito comum no "espiritismo" brasileiro. A deturpação que teve em Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco seus maiores propagandistas é uma gravidade sem tamanho que empastelou, de forma deplorável e irresponsável, o legado de Allan Kardec.

Não se trata de algo acidental ou feito sem propósito, apoiado por boa-fé ou cometido pela falta de tempo. Chico Xavier e Divaldo Franco deturparam com muito gosto e propósito o legado kardeciano, mas seus fanáticos seguidores insistem que isso foi apenas efeito de "falta de tempo para estudar" os postulados espíritas, tese muito bonita e bem articulada, mas sem veracidade nem consistência.

A "falta de tempo para estudar" não procede como motivo da deturpação "acidental" porque tanto Chico quanto Divaldo produziram vários livros cujo conteúdo contraria severamente os postulados originais da Doutrina Espírita, e não se produz farto material por causa de um "pequeno erro de atenção" ou "falta de aprendizado".

Se fosse assim, qualquer calouro de faculdade já teria pronta sua tese de mestrado, com monografia pronta na base do achismo e enfeitada com linguagem empolada. O que os dois "médiuns" fizeram é de extrema gravidade e feita de puro propósito. Eles deturparam porque quiseram e gostaram, essa é a verdade mais crua, embora difícil de ser aceita por muitos.

Chico Xavier já tinha "dez anos de espiritismo", como se atribuía oficialmente, quando elaborou o livro Nosso Lar em 1943. O livro mostra uma "colônia espiritual", coisa que Allan Kardec em nenhum momento julgou plausível em suas obras, devido à inexistência de estudos que apontassem sequer um único indício de tais lugares no mundo espiritual. A vida espiritual apenas tinha existência aceita por argumentos lógicos, mas carecia de estudos para ver como ela era.

O "movimento espírita" criou práticas que mais parecem arremedos do que se fazia na Igreja Católica, como "água fluidificada" (nome que soa redundante), em lugar da "água benta" e o "auxílio fraterno", espécie de "confessionário". Nos "centros espíritas" brasileiros, a reunião de estudo tão citada pelo pedagogo de Lyon foi substituída por uma missa em que a única ruptura ocorreu no ritual do senta-e-levanta dos ritos, além do aparato pomposo de batinas, órgão etc.

Não há um aspecto do cientificismo de Allan Kardec que tenha sido adotado. Em primeira instância, porque a FEB teve como propósito original dar preferência a Jean-Baptiste Roustaing, que criou as raízes do "espiritismo" que conhecemos. Só depois, com a fase dúbia, nos anos 1970, é que se fez um "roustanguismo sem Roustaing", supostamente fiel aos postulados originais de Kardec.

E o que acontece? Acontece que os erros dos "espíritas" também são encarados como coisinhas pequenas. O fato deles admitirem que "erram o tempo inteiro", declaração que esconde uma falsa modéstia e um medo de sofrer os efeitos de suas irregularidades, revela o quanto o prestígio religioso serve não só para alimentar vaidades pessoais, mas também de proteger contra os efeitos naturais de suas decisões e práticas desacertadas.

Não há uma tradução de um livro sequer de Franz Anton Mesmer, o estudioso de Magnetismo que inspirou o professor Rivail a estudar os fenômenos espíritas e adotar o codinome Allan Kardec, e por isso os passes, não bastasse o caráter "passebo" (trocadilho com "placebo", relacionado a supostos remédios de efeitos inócuos), se reduzem apenas a um espetáculo de sacudir de mãos no ar ou tocando no corpo de alguém.

São erros cometidos de propósito, que por isso mesmo não podem ser minimizados nem relativizados. E os erros de Chico Xavier foram de uma gravidade imensa, que derrubam, como uma onda do mar atingindo um castelo de areia, sua reputação de "iluminado" e "espírito puro". Ele causou muita confusão e isso não é culpa dos que o questionaram, porque, no caso dos pastiches literários, os fatos mostram que os críticos literários que contestavam o "médium" estavam certos.

Não há como servir de "carteirada religiosa" para minimizar os erros gravíssimos vistos no "movimento espírita". Não há como atribuir, quando uma pessoa sofre desgraças em excesso, a culpabilidade da vítima, porque isso acaba revelando um juízo de valor severo, injusto e, portanto, muito cruel dos "espíritas", algo que se torna digno de processo por danos morais.

Os erros de Chico, Divaldo e seus semelhantes são de muita gravidade. Eles envolvem tanto o desprezo conceitual aos postulados espíritas originais quanto à indisposição de obter o rigor necessário das práticas mediúnicas, que no Brasil se reduziram a um faz-de-conta usado como propaganda religiosa.

São erros graves, porque os "espíritas" assumiram responsabilidades que pressupunham a consciência de virtuais erros, o que mostra que os "espíritas", principalmente os "médiuns" tão festejados e adorados, assumiram o risco diante dos deslizes que cometeram ao longo dos anos.

Achar que, só porque "todos erram", os "espíritas" devem ser eximidos de responsabilidade e, portanto, de sofrer os efeitos drásticos de seus atos, é ainda mais deplorável, porque isso revela o orgulho e o medo de ver sua reputação ser reduzida a nada diante da revelação de tão graves erros. É como se tivessem medo de caírem do alto da escada que constroem para o Céu.
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