segunda-feira, 27 de março de 2017

Eduardo Cunha viveu dias de Humberto de Campos


Eduardo Cunha, o ex-deputado, está vivo. E muito vivo, e bem disposto. Disposto a denunciar seus antigos aliados no governo que ajudou a instalar, o do presidente Michel Temer, se caso o ex-presidente da Câmara dos Deputados não for beneficiado por alguma liberdade condicional.

Mas Eduardo Cunha desempenha papéis de um "morto". Ele não exerce mais a vida política e até o cartaz que ele tinha quando comandou a sessão de abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, foi reduzido a nada.

Político inexpressivo, ele foi eleito em 2014 para o cargo de deputado federal simbolizando uma onda conservadora que há tempos domina o Estado do Rio de Janeiro, unidade federativa brasileira marcada por um profundo processo de decadência, não apenas política, econômica e policial, mas também sócio-cultural envolvendo diversos aspectos.

Só para se ter uma ideia, é a região com maior número de cyberbullies no Brasil e cujo reacionarismo permitiu que fossem eleitos nomes como Jair Bolsonaro e o próprio Eduardo Cunha, e por isso a crise que atinge o Rio de Janeiro, Estado e capital, a colocam há um bom tempo em situação vergonhosa para o resto do Brasil, perdendo a reputação de vanguarda que antes cariocas e fluminenses expressavam para todo o país.

A outra experiência de "morto" de Eduardo Cunha, no entanto, é inusitada. Um livro chegou a ser lançado, meses depois da promessa do ex-deputado em lançar um livro fazendo denúncias sobre os bastidores do impeachment e do cenário político nacional.

Intitulado Diário da Cadeia, o livro foi editado pela Record e apresenta como crédito de autoria a expressão "Eduardo Cunha (Pseudônimo)". O ex-deputado Eduardo Cunha negou que tenha escrito a obra e acionou a Justiça do Rio de Janeiro para impedir a distribuição do livro pela Record, recolher exemplares que já foram enviados às livrarias e retirar qualquer referência a Eduardo Cunha na página da editora.

A editora retirou imediatamente as referências do site e tentou recurso para revogar a decisão. Na ação judicial, o peemedebista declarou não ser responsável pelo livro e considera a obra "gravíssima tentativa de ganho comercial a partir de sua reclusão". Cunha acrescenta que, sem a "identificação que possibilite o conhecimento da autoria", a obra "ofende o preceito da vedação ao anonimato".

A juíza Ledir Dias de Araújo também menciona a vedação ao anonimato e diz que o caso não é coberto pela proteção a pseudônimos. "A obra foi escrita como se tivesse sido pela pessoa do autor da ação, o que ele nega. Logo, não se pode ter a presente obra como lícita", conclui a magistrada, que pediu para a Record identificar e qualificar o autor. Por sua vez, o editor da Record, Carlos Andreazza, admitiu que o livro é uma obra de ficção.

O advogado de Eduardo Cunha, Ticiano Figueiredo Oliveira, diz que a decisão "é justa porque não fere o entendimento do Supremo (Tribunal Federal) em relação às biografias, mas deixa claro que o uso de pseudônimo para fraudar uma autobiografia deve ser coibido".

HUMBERTO DE CAMPOS

Evidentemente, a situação foi facilitada porque Eduardo Cunha está vivo, podendo pessoalmente mover uma ação contra um livro apócrifo. Além disso, evidentemente Diário da Cadeia não mostra "mensagens de amor" e nem usa como desculpa o "pão dos pobres", o que permite que a Justiça brasileira, ainda muito hesitante em relação a problemas religiosos, suspender a comercialização do livro.

Menos sorte teve Humberto de Campos, o eminente escritor maranhense que chegou a ser membro da Academia Brasileira de Letras, bastante popular em seu tempo, mas hoje condenado a um semi-esquecimento, até pelas circunstâncias que envolveram seu nome.

Humberto teve seu nome usurpado dois anos após seu falecimento. O primeiro livro, Palavras do Infinito, de 1936, parodiava o livro Memórias, que havia sido lançado em 1933, mas já apresentava as diferenças gritantes que uma simples leitura atenta consegue separar, sem dificuldade, a obra do Humberto que esteve entre nós daquela atribuída ao suposto espírito.

Entre essas diferenças, está o conteúdo por demais igrejista que destoa da temática laica do autor maranhense. Mas a própria forma de escrita também aponta diferenças, pois a escrita do suposto espírito é pesada, melancólica e cansativa de ser lida, enquanto a que Humberto deixou em vida era ágil, de leitura prazerosa e linguagem culta, mas bastante acessível.

A sorte é que o suposto médium Francisco Cândido Xavier, protegido do ambicioso Antônio Wantuil de Freitas, já havia se tornado uma figura pitoresca quando lançou uma suposta antologia poética de "autores do além". Uma obra intitulada Parnaso de Além-Túmulo, que foi remendada cinco vezes, pondo em xeque a tendência natural de "obra acabada da espiritualidade".

A atribuição de obra coletiva alimentava o sensacionalismo, principalmente pelo "FlaXFlu" ideológico que se deu ao omitir que o livro havia sido obra coletiva, sim, mas de Chico Xavier, Wantuil, editores e redatores da Federação "Espírita" Brasileira e consultores literários cariocas. Portanto, uma multidão terrena forjando uma obra que imitava autores do passado, já falecidos, mas bem longe de refletir os respectivos estilos pessoais, apontando falhas graves neste sentido.

O "FlaXFlu" se deu sob a atribuição de que Chico Xavier "fazia tudo sozinho". Isso garantia o sensacionalismo em qualquer das duas hipóteses: se a "psicografia" era uma fraude, Chico seria "muito sofisticado" para representar diversos estilos literários. Se fosse autêntica, Chico seria reconhecido como "amigo de literatos do além". Ponto para o sensacionalismo tramado pelo senso marqueteiro de Antônio Wantuil.

Com Humberto de Campos, o sensacionalismo foi só aumentado, diante de um nome literário de sucesso, mas com fama secundária. Não se escolheria Machado de Assis, porque seria ir longe demais e despertaria suspeitas. Mas a própria escolha de Humberto causou problemas e Chico Xavier teve apenas a sorte de ter uma Justiça seletiva, muito hesitante diante de ídolos religiosos.

Daí o caso gerou empate e Chico Xavier, que havia seduzido a mãe do falecido escritor, Ana de Campos Veras, não tardou também a usar de seus métodos de manipulação da mente humana para dominar o filho do mesmo nome do autor maranhense, convidando para a "emboscada do bem" que foi uma doutrinária e uma caravana em Uberaba, no Triângulo Mineiro, em que o "médium" explorou a fascinação obsessiva (condenada por Allan Kardec) ao abraçar o antes cético Humberto Filho.

Diante disso, Humberto de Campos, em sua obra deixada em vida, foi aos poucos condenado ao esquecimento, e rebaixado a uma "propriedade" de Chico Xavier. Os livros "espirituais" publicados sob seu nome destoam explicitamente do estilo pessoal do saudoso literato, facilitando reconhecimento de fraude. Mas as obras, pelo prestígio religioso do "médium", são publicadas impunemente até hoje. Humberto de Campos não está aí para reclamar.

sábado, 25 de março de 2017

Chico Xavier foi um engenhoso truque de marketing

WANTUIL DE FREITAS - O "CRIADOR" DE CHICO XAVIER.

Muitos se derretem diante do mito de Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier. Sem qualquer motivo lógico e objetivo, o mito dele é adorado pelos caprichos da emoção extrema vinculada às paixões religiosas, através de estereótipos de bondade, humildade e generosidade que as pessoas acolhem sem questionar.

Poucos sabem e menos ainda estão dispostos a admitir que o mito de Chico Xavier nunca passou de uma grande estratégia de marketing, primeiro montada minuciosamente pelo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para atrair dinheiro e público para a federação.

Essa constatação choca muitos e os leva às lágrimas soluçantes. "Não, não é isso, Chico, todo amor e bondade, truque publicitário?", dirá o menos raivoso dos chiquistas. "Preste atenção na obra dele antes de dar qualquer julgamento", diria um "espírita" ainda mais dedicado.

Sim, prestamos atenção na obra de Chico Xavier e chegamos a essa conclusão: é estratégia de marketing, sim. Um sujeito que começou como um beato católico envolvido em pastiches literários (que não eram feitos por ele sozinho, vale lembrar) para se transformar, em mais de meio século, em um quase-deus, só pode ser fruto de uma engenhosa estratégia de marketing.

É surpreendente que as pessoas que tanto adoram Chico Xavier não adorem também Antônio Wantuil de Freitas, seu "mentor" terreno. Foi Wantuil que transformou o "médium" num popstar da religiosidade, criando uma "pegadinha" que deu certo durante mais de sete décadas.

Se você prestar atenção em Chico Xavier, abrindo mão de paixões religiosas - mesmo aquelas que se disfarçam sob um verniz de objetividade e razão - e de tantas idealizações que fantasiam demais o anti-médium mineiro, se verá que ele nunca foi mais do que um católico ortodoxo e ultraconservador, cuja obra "mediúnica" é cheia de irregularidades e cuja "bondade" não trouxe efeitos concretos e amplos para a sociedade.

Foi Wantuil que fez o mito de Chico Xavier crescer, fazendo-o passar por cima de qualquer escândalo. Wantuil tinha um senso publicitário muito esperto, e ainda teria feito um recurso muito comum para arrivistas: recorreu à umbanda, fazendo "despachos" para limpar o caminho para a ascensão vertiginosa de uma causa, alcançando níveis nunca cogitáveis em situações normais.

Casos como os do DJ de "funk", o DJ Marlboro, e o empresário Mário Kertèsz também indicam que também fizeram "despacho" para se ascenderem acima até mesmo do que poderiam alcançar se se esforçarem para tanto. O direitista Kertèsz chegou a cooptar as esquerdas da Bahia para seu domínio e DJ Marlboro conseguiu se infiltrar em eventos de vanguarda, lembrando que o "funk" não é mais do que um ritmo dançante puramente comercial e de retaguarda.

Wantuil teria tido a ideia da antologia poética que uma grande equipe de editores da FEB e consultores literários bolou, sob a redação de Chico Xavier e do próprio Wantuil. Tornou-se conhecido como Parnaso de Além-Túmulo que, em que pese as semelhanças genéricas feitas à primeira vista com os estilos originais dos autores mortos alegados, nota-se em todos os poemas a expressão de linguagem e pensamento pessoais de Chico Xavier e, às vezes, de Wantuil.

O sensacionalismo da antologia poética era um gancho para faturar em cima de uma polêmica forjada, sendo que criar controvérsia é um ótimo marketing para atrair visibilidade. A confusão garante muito mais fama e prestígio do que a própria busca por unanimidade. E Parnaso de Além-Túmulo tornou-se ainda mais sensacionalista depois que ganhou uma resenha de duas partes feita por Humberto de Campos, ainda vivo em 1932.

E foi uma revanche de Chico Xavier - que não gostou de Humberto ter desaconselhado a existência de uma produção literária do além - que impulsionou outra sugestão de Wantuil, a de usar o nome do autor maranhense para alimentar mais sensacionalismo, uma ação estratégica que só não usurpou o nome de Machado de Assis para não pegar mal, preferindo um escritor popular, mas de prestígio mais mediano e pouco conhecido pelo chamado leitor médio.

Afinal, já basta que um escritor fundador da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac, tenha tido seu nome incluído no Párnaso, sob protestos de intelectuais renomados, que identificaram sérios pastiches e graves erros de expressão poética. Um crítico literário, João Dornas Filho, havia afirmado, com indignada ironia:

"Olavo Bilac, um homem que no estágio de imperfeição nunca assinou um verso imperfeito, depois de morto ditou a Chico Xavier sonetos inteirinhos abaixo dos medíocres".

O próprio mito de que Chico Xavier lançava livros sem colaboradores - fato desmentido por Alceu Amoroso Lima, que constatou que Parnaso de Além-Túmulo foi concebido por uma equipe de editores e redatores - criava um "Fla X Flu" ideológico, no qual se sustentava o seguinte maniqueísmo:

1) Se Chico Xavier realizou pastiches dos mais diversos estilos e expressões literárias, então ele, que era um caipira de mediana formação escolar, teria um suposto talento de intelectual dos mais sofisticados, merecendo a entrada na Academia Brasileira de Letras, como diziam alguns;

2) Se Chico Xavier realmente fez psicografia, então ele tinha excelentes relações com os espíritos das mais renomadas personalidades literárias, o que o faria possuidor de ampla cultura autodidata, através da comunicação com o "outro lado".

Ambas as teses se disputavam em polêmicas, embora a segunda saísse quase sempre vitoriosa. Mas ambas não resolvem os problemas da irregularidade nas expressões literárias trazidas pelo "médium". Mesmo assim, elas foram um prato cheio para alimentar o sensacionalismo em torno de Chico Xavier.

E aí, foram forjados projetos "filantrópicos", pois o assistencialismo - prática tendenciosa de caridade, mais para promover o benfeitor do que os benefícios aos necessitados - é um ótimo meio de abafar críticas e receber a blindagem da chamada sociedade civil, e aí o mito sensacionalista de Chico Xavier aos poucos desenvolveu esse estereótipo igrejeiro e institucional, quase burocrático, de "bondade".

Wantuil procurou passar por cima de vários escândalos: procurou abafar os escândalos ligados à materialização e psicofonia; fez campanha contra o livro de jornalismo investigativo de Attila Paes Barreto, O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia; teria feito mandinga para afastar quem pudesse denunciar as irregularidades de Chico Xavier; e apoiou a campanha difamatória contra o sobrinho Amauri Xavier, que iria fazer semelhantes denúncias.

O então presidente da FEB teve um senso de oportunidade e oportunismo e lançou até mesmo o chamado "apelo à emoção" - Argumentum Ad Passiones, termo que voltou à moda nos debates intelectuais por conta do fenômeno da pós-verdade (seria Chico Xavier pioneiro desta forma de falácia?) - para fazer ascender ainda mais seu pupilo, se deixando valer das fraquezas emocionais de muitos brasileiros, que os fazem cair às tentações das paixões religiosas.

O que Wantuil não fez a FEB faria depois com a ajuda da Rede Globo, corporação midiática famosa por tantas manipulações no consciente e inconsciente coletivo. E aí vem a imagem mais conhecida de Chico Xavier, associada ao "amor e caridade", construída a partir de um discurso midiático inspirado no que a BBC, por meio de Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá.

As pessoas deveriam cair na realidade. Deixar as paixões religiosas e perceber que muito de sua adoração a um ídolo religioso se deve a uma retórica bem construída em diversas etapas, um processo de manipulação ideológica em que a emoção encontra um campo de abordagem ilimitado, em que a própria realidade lógica é posta em xeque, pois o que valem são as fantasias do "coração". Ver que, neste caso, prevalece o absurdo e a fantasia, é que é chocante.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Deturpação e roupagem científica


Dois textos - um deles até cita o nosso blogue - mostram o quanto o estranho fenômeno de Francisco Cândido Xavier, a pessoa mais blindada na História do Brasil, é sempre beneficiado por ressalvas aqui e ali. Como deturpador da Doutrina Espírita, no entanto, Chico Xavier não mereceria se tornar ídolo nem ser glorificado ou receber atenuantes aqui e ali do seu currículo deturpador.

Ele personifica os perigos que já haviam sido alertados no século XIX pelo espírito de Erasto, que exigiu maior vigilância quando o espírito ou o "médium" mistificador vier com "coisas boas". Os "espíritas" e simpatizantes da doutrina brasileira fingiram concordar com o grave conselheiro espiritual, mas foram surdos aos seus alertas.

Tudo virou uma construção de discurso de "bondade", que muitos pensam ser um exemplo de realidade iluminada, depositária de sentimentos de otimismo, esperança e progresso. do qual Chico Xavier e, por associação, Divaldo Franco e similares, se tornam seus símbolos. A partir deste discurso, não se permite desqualificação, quando tudo apenas descrição de passagens polêmicas de suas trajetórias.

Um texto publicado na revista Ipotesi, da Universidade Federal de Juiz de Fora, edição de julho a dezembro de 2012, mostra um texto de Alexandre Caroli Rocha, pesquisador de obras "espíritas" e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, intitulado "Complicações de uma estranha autoria (O que se comentou sobre textos que Chico Xavier atribuiu a Humberto de Campos)".

Caroli tenta parecer neutro nas suas pesquisas. O texto é correto na forma discursiva de uma monografia, além de eficaz no aparato de neutralidade que garante o sono tranquilo da classe acadêmica. No entanto, a polêmica de Caroli se torna incompleta e inócua, por pelo menos dois aspectos:

1) Ele subestima a análise textual como recurso de verificação de veracidade ou fraude. Acha que os problemas das supostas psicografias devem ser considerados apenas se avaliar o fenômeno mediúnico e o processo da vida após a morte.

2) Ele ignora que a polêmica em torno da suposta psicografia de Chico Xavier foi incompleta, porque ficou no maniqueísmo da fraude e da "sobrecarga" de pastiches, desprezando o fato de que as imitações envolvendo vários autores mortos se deram por colaboração de terceiros, já que Chico tinha colaboradores na cúpula da FEB, na equipe editorial da federação e nas orientações de consultores literários.

3) Caroli parece quase taxativo em definir Chico Xavier apenas como "autor empírico" e não como "autor intelectual" dos textos, como se tivesse uma posição discretamente parcial, a favor da atribuição das "psicografias" aos autores espirituais alegados, deixando de lado o aspecto textual e esperando que uma teoria sobre o "além-túmulo" pudesse dar alguma "explicação".

Quanto ao primeiro item, a própria deturpação que atinge o Espiritismo no Brasil impede que sejam estudadas corretamente as questões de vida espiritual e paranormalidade. Cria-se uma mediunidade de faz de conta que só divulga propaganda religiosa em mensagens de valor bastante duvidoso. E se sonha uma vida espiritual através de cidades idealizadas, as "colônias espirituais", das quais não há uma hipótese cientificamente provável.

Evidentemente, a análise textual é um ponto de partida, mas ela é suficiente para apontar indícios de fraudes quando se conhece a biografia e os estilos de personalidade dos mortos em questão. O que também se deve analisar, e isso Caroli não parece se preocupar, é que não são as semelhanças, em si, que atestam veracidade nas obras ditas mediúnicas, mas a ausência de alguma diferença comprometedora.

Outro texto é "Pela Autenticidade de Parnaso de Além-Túmulo - Em Defesa de Chico Xavier", de Jorge Caetano Júnior, que se declara umbandista, tem livro publicado no Clube dos Autores - cada vez mais dominado por publicações religiosas, apesar de seu caráter independente - e se diz "imparcial" e "preocupado com questões técnicas e bases teóricas". Ele cita um texto deste blogue a respeito do Parnaso de Além-Túmulo de Francisco Cândido Xavier.

Ele tenta dar um argumento estranho para contestar nossa constatação de fraude no livro, como se confiasse cegamente em Chico Xavier. Considerando nossa avaliação como "errônea", ele tenta dar seu argumento, mais bondoso com o "médium" do que dotado de qualquer lógica ou bom senso:

"Digo erroneamente, já que, em nenhum momento, o médium assumiu em nome próprio a autoria dos poemas constantes do livro. Fosse mistificação, como poderia ser plágio? Seria um estranho caso de plágio às avessas, onde o plagiador atribui produção própria a terceiros".

Apenas o fato de uma pessoa "nunca assumir em nome próprio" a autoria dos poemas constantes, em si, não é atestado de que as autorias espirituais alegadas sejam verdadeiras. A tese de "plágio às avessas" também é muito estranha e confusa, porque é evidente que o interesse do suposto médium em usar terceiros para levar vantagem sobre uma obra "mais inusitada".

Quanto ao fato de um suposto médium "ter razão" só porque disse que não fez isso ou aquilo que lhe é atribuído mediante provas consistentes, vale lembrar de uma pergunta do espírito Erasto em O Livro dos Médiuns na seguinte questão, no capítulo 20, "Influência Moral dos Médiuns":

"6. Se as qualidades morais do médium afastam os Espíritos imperfeitos, porque um médium dotado de boas qualidades transmite respostas falsas ou grosseiras?

— Conheces todos os segredos da sua alma? Além disso, sem ser vicioso ele pode ser leviano e frívolo. E pode também necessitar de uma lição, para que se mantenha vigilante".

Embora Jorge Caetano também usasse uma roupagem "científica" no seu texto, ele parece bem menos objetivo. E confunde críticas e questionamentos a Chico Xavier com ataques pessoais. Jorge tenta ser "imparcial" e criticar o ufanismo de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, mas sonha em ver Parnaso de Além-Túmulo reconhecida como "obra autêntica".

Não se deve querer ou desejar que um livro de pastiches seja autêntico. O livro sofreu vários remendos, o que é inadmissível para um livro que se lança como uma mensagem acabada da espiritualidade. Se a obra fosse mesmo autêntica, teria se encerrado logo na primeira edição, ou, quando muito, tendo havido apenas uma outra edição para acréscimos em vez das correções ocorridas.

O que Jorge esqueceu é que, em maio de 1947, o próprio Chico Xavier "confessou o crime" quando, em carta a Antônio Wantuil de Freitas, agradeceu a ele e a um editor da FEB pela revisão dos textos para a edição definitiva do livro poético, admitindo o "médium" não ter tempo para analisar os "originais". E essa revelação se deu por acidente, trazido por uma adepta de Chico, Suely Caldas Schubert, no livro Testemunhos de Chico Xavier.

Jorge tenta alegar "autenticidade" através de "semelhança impressionante" sobre os diversos poemas publicados. E ele também se fundamenta no mito de que Chico Xavier fazia sozinho os livros quando se percebe que, na FEB, havia uma equipe editorial, e as imitações poéticas eram feitas a várias mãos e sob a consultoria de especialistas literários.

Evidentemente Chico Xavier não imitaria sozinho um número grande de poetas. Mas, em que pese as "semelhanças impressionantes", elas constituem em imitação. Ou alguém aceitaria uma "Auta de Souza" escrevendo com o estilo de Chico Xavier? Ou um Olavo Bilac perdido sem a métrica necessária? Vão dizer que Olavo Bilac ficou tão tomado de amor que se esqueceu do próprio estilo, ou doou o seu talento para a "caridade" e foi expressar a "linguagem universal do amor"?

A semelhança não é indicativo de veracidade. Em muitos poemas, há, mesmo sob semelhanças aparentemente mais fortes, contradições que põem em xeque a veracidade da obra. E, se ele parece impressionado com a "semelhança" entre o poema "Saudades", de Casimiro de Abreu, e "Terra", atribuído ao seu espírito, em que pese o lirismo deste, nota-se que a semelhança é de pastiche, mesmo, até porque não há como ver o estilo pessoal de Casimiro nele. Vejamos:

Trecho do poema “Saudades” de autoria de Casimiro de Abreu:

Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de silêncio,
De tristezas e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário
Que nos enche de pavor.

Trecho do poema “A Terra” atribuído ao Espírito Casimiro de Abreu:

Se há noite escura na Terra,
Onde rugem tempestades,
Se há tristezas, se há saudades,
Amargura e dissabor,
Também há dias dourados
De sol e de melodias,
Esperanças e alegrias,
Canções de eterno fulgor!

A Terra é um mundo ditoso,
Um paraíso de amores,
Jardim de risos e flores
Rolando no céu azul.
Um hino de força e vida
Palpita em suas entranhas,
Retumba pelas montanhas,
Ecoa de Norte a Sul.

Se botasse o poema "Terra" na autoria de, digamos, Gonçalves Dias ou Castro Alves, também se diria que é "o estilo pessoal de cada um deles". A estrutura poética que Jorge Caetano tanto define como "do estilo de Casimiro" é bastante superficial em temática para se assegurar alguma veracidade.

Há uma frase de Raimundo Magalhães Júnior, conhecido escritor do século XX, a respeito das imitações. E olha que ele foi tido pela FEB como um dos que "atestaram a veracidade mediúnica" de Chico Xavier, estando, a princípio, entre os neutros. Disse ele:

"Quem ler durante 60 dias, noite e dia, dia e noite, apenas Euclides da Cunha, escreverá no estilo de Euclides sem notável esforço, sem fazer uma ginástica mental muito dura."

Infelizmente, os partidários de Chico Xavier se usam até de roupagem científica ou intelectual para defender um "médium" que condenava o pensamento intelectual e o ato de questionar e contestar. Um caipira conservador, deturpador da Doutrina Espírita, e que é blindado como não se podia imaginar nos tempos de Kardec.

É triste que haja polêmicas assim, preocupando com a deificação de Chico Xavier, a ponto de rotular como "ataques" os questionamentos que o cercam. O Brasil é um país provinciano mesmo, preso em paixões religiosas, supostamente espiritualistas mas dotadas de abordagens materialistas. Ignorando coisas importantes como o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos e os alertas de Erasto, as pessoas são "espíritas" substituindo o cérebro pelo coração e pelo umbigo.

Assim, se protege demais um deturpador, e ainda se idealiza a "autenticidade" de um livro que sofreu reparos suspeitos. e ainda teve a revelação do próprio Chico Xavier de que o livro tinha a colaboração dos editores da FEB. Se revelar aspectos estranhos, obtidos à luz da análise, sobre Parnaso de Além-Túmulo, é "fazer ataque", então o problema não é nosso, mas naqueles que sentem medo quando os questionamentos avançam contra dogmas e totens consagrados por muitos.

terça-feira, 21 de março de 2017

O apego doentio aos entulhos sociais

O ANO QUE NÃO ACABOU, NO BRASIL.

O Brasil teima em não sair de 1974. Os retrocessos que pretendem recuperar, pelo menos, os padrões de democracia controlada e conservadorismo ideológico que vigoraram na transição dos governos dos generais Emílio Médici e Ernesto Geisel, que as elites julgam ser um período "equilibrado", estão à tona.

O apego aos entulhos sociais, aos valores retrógrados, ao ultraconservadorismo e a um misto de moralismo com truculência, revela o quanto o Brasil força uma marcha-a-ré existencial desesperada e sem freio, como se fosse um carro desgovernado andando para trás e descendo uma ladeira.

O cenário político de Michel Temer, que consiste numa gororoba que, mesmo num verniz "democrático", mistura vários momentos da ditadura militar, seja a implantação de projetos econômicos excludentes como os do governo Castelo Branco, seja a crise dos tempos do governo João Figueiredo, ilustra muito isso.

A decadência de vários setores associados a um privilégio social, do dinheiro à fama, do porte de armas ao prestígio religioso, revela o quanto velhos paradigmas estão prestes a cair e isso apavora muita gente. A zona de conforto de uma sociedade que acha que podia tudo está prestes a ruir, mas a ilusão de que a decadência pode ser contornada prevalece.

As redes sociais estão tomadas de profundo reacionarismo social. A vida política, combinando esquemas de corrupção e implantação de medidas impopulares. Na religião, o moralismo severo, a caridade paliativa que traz mais cartaz ao "benfeitor" do que benefícios aos necessitados.

As elites privilegiadas acham que podem tudo, que podem contornar as crises, que estão acima dos obstáculos. E isso é assustador, porque o "espírito do tempo" do Brasil hoje é uma espécie de "frente ampla" para o retrocesso, havendo a chamada "revolta do bolor".

É um apego doentio a paradigmas de moralismo, licensiosidade, impunidade, truculência, sempre garantindo os privilégios de uma sociedade conservadora que demonstra seus interesses injustos e movidos por conveniências.

Isso não é novo e faz com que ideias e movimentos novos aplicados no Brasil sempre sejam filtrados por algum aspecto das ideias e movimentos que deveriam ser obsoletos. É como se o "novo" negociasse com o "velho" para vigorar no Brasil, fazendo com que novidades acolham aspectos obsoletos, como edifícios novos construídos em andaimes velhos.

Um exemplo é o próprio feminismo, que precisa ser duplamente negociado com o machismo. Se a mulher não quer ser um objeto sexual, terá que se "emancipar" sob o patrocínio conjugal de um marido poderoso. Se ela topa ser um objeto sexual, ela fica dispensada da companhia de um marido ou namorado. É um artifício no qual o machismo sempre arruma jeito para sobreviver num cenário de aparente emancipação da mulher.

De um lado, a pornografia das musas "populares". Do outro, o obscurantismo religioso. De um lado, a repressão da Justiça a atividades em prol de informações sobre temas mais delicados. De outro, a impunidade de páginas ofensivas na Internet.

No "espiritismo", o que se vê é a radicalização de algo que já existia desde antes da fundação da FEB, o roustanguismo que era entusiasmado e ultimamente anda velado numa postura falsamente kardeciana.

Provando se aproximar cada vez mais do Catolicismo medieval por conta da defesa da Teologia do Sofrimento, o "espiritismo" parece apelar para o neo-roustanguismo, embora mantenha as evocações oportunistas e tendenciosas do nome de Allan Kardec.

Mantendo, no entanto, as contradições tão conhecidas nos últimos 40 anos, quando o "movimento espírita" tenta vender uma falsa imagem de "autenticamente kardeciana", é de praxe que os "espíritas", hoje tão criticados, esperem mais uma vez por uma retratação.

Isso porque o próprio "espiritismo" reflete a situação em que se vive, quando o Brasil, que sempre foi conservador, radicalizou essa postura nas últimas décadas, porém de forma mais explícita de 2016 para cá.

Temos que nos alertar porque a onda de ultraconservadorismo no Brasil é tanta que há quem ache 1974 uma época futurista demais, fazendo com que muitos pensem até em revogação da Lei Áurea, do Sete de Setembro ou até anular os progressos da vinda da família real portuguesa. Há quem queira ver o Brasil nas velhas condições coloniais e provincianas, diferindo apenas em contextos mais gerais.

domingo, 19 de março de 2017

"Nem todos os que dizem 'Senhor, Senhor' entrarão no Reino dos Céus"

DE TANTA DETURPAÇÃO, OS "ESPÍRITAS" ACABAM SE NIVELANDO AOS SACERDOTES FARISEUS TÃO REPROVADOS POR JESUS.

A deturpação da Doutrina Espírita feita no Brasil causou tantos estragos que representou um retrocesso em relação ao legado de Allan Kardec. Aliás, um retrocesso grave, do qual explicaremos em outra oportunidade, por não só ter feito uma afronta ao trabalho do pedagogo francês, mas também pelos valores medievais que a doutrina brasileira assimilou com muito gosto.

Sob a desculpa de "valorizar a religiosidade brasileira", os "espíritas" fizeram uma marcha-a-ré de tal forma que, assimilando o legado jesuíta do Catolicismo do Brasil colonial, mergulharam fundo na Idade Média e seus palestrantes acabam personificando a mesma extravagância dos antigos sacerdotes que haviam sido reprovados por Jesus de Nazaré em suas diversas conversas com as pessoas.

Ver que os "espíritas" se inclinam mais e mais com a Teologia do Sofrimento e, com toda a bajulação que fazem para Allan Kardec e até para Erasto, se afastam de seus ensinamentos e conselhos, é muito chocante. Mas constatar isso não é demonstração de ódio nem de intolerância, e, por outro lado, os "espíritas" devem também aceitar os efeitos danosos de suas péssimas escolhas.

Prestando atenção no que Jesus, Kardec e Erasto disseram e alertaram, somos obrigados a reconhecer, até em figuras tão adoradas por muitos, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, a personificação dos vícios e caprichos dos velhos sacerdotes que se arrogavam de sua falsa humildade, sonhando com tesouros no Céu.

Todos os aspectos negativos se foram notados em Chico Xavier e Divaldo Franco: ideias excêntricas aos postulados de Kardec, textos empolados, mistificação igrejeira, culto à personalidade, e por mais modestas as cerimônias nos eventos "espíritas", elas também apresentam uma pompa não menos presunçosa do que nos ritos católicos.

Ver que a deturpação do Espiritismo não se deu por boa-fé é estranho para muitos. Mas, pensemos: se os dois "médiuns" tão adorados e festejados foram "ingênuos" na compreensão errada da Doutrina Espírita, então por que eles publicaram centenas e centenas de trabalhos, por longos anos, transmitindo essa deturpação?

Não se faz algo sem querer com centenas de livros e uma longa carreira de palestras. A verdade é que os dois "médiuns" souberam, sim, o que estavam fazendo e há registros de Chico Xavier apoiando a deturpação do Espiritismo pela FEB e um histórico de irregularidades comprova claramente essa prática infeliz.

Atualmente, os palestrantes "espíritas" seguem o mesmo caminho. E tão se arrogam da pretensa humildade e da suposta caridade que ajuda tão pouca gente e serve mais para colocar o benfeitor no pedestal, que só falam para os mais ricos para elogiá-los e nunca cobrá-los qualquer tipo de ação em favor do próximo. Não raro se ouve "espíritas" dizerem em palestras que "os ricos estão cada vez mais ajudando as pessoas", sem que algo neste sentido se fosse observado na prática.

Não estamos fazendo ataques. Estamos fazendo as mesmas críticas severas que naturalmente Jesus de Nazaré, Allan Kardec e Erasto fariam, e eles talvez fossem mais severos nesse sentido. Deixemos a mania infantil de chorarmos quando os "médiuns" mais festejados estão sendo criticados, porque praticar o erro e se esconder sob o escudo do prestígio religioso é muito fácil.

Os brasileiros costumam se deixar dominar pelas paixões religiosas, que mostram emoções muito perigosas, criando uma ilusão de felicidade, lirismo e comoção, que, uma vez desfeita, gera muita raiva e rancor. O rancor não está nos que criticam os "médiuns" brasileiros dotados de culto à personalidade, mas da reação desesperada de seus próprios defensores, feridos pela queda brusca que tiveram do céu estrelado das fantasias religiosas.

Um exemplo de como Jesus, Kardec e Erasto poderiam reprovar Chico e Divaldo está em muitos aspectos observados nas obras kardecianas. Não se recomenda traduções da FEB e IDE, que reduzem o pedagogo francês a um pároco de província, mas a de José Herculano Pires, que se mantém fiel ao texto francês original.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 18, Muitos os Chamados e Poucos os Escolhidos, Kardec, comentando passagens do Novo Testamento, corroborou os ensinamentos de Jesus que soam como uma facada nos tão aclamados e blindados "espíritas" brasileiros. Vejamos o que diz o item 9:

"Todos os que confessam a missão de Jesus, dizem: Senhor, Senhor! Mas de que vale chamá-lo Mestre ou Senhor, quando não se seguem os seus preceitos? São cristãos esses que o honram através de atos exteriores de devoção, e ao mesmo tempo sacrificam no altar do egoísmo, do orgulho, da cupidez e de todas as suas paixões? São seus discípulos esses que passam os dias a rezar, e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com os seus semelhantes? Não, porque, à semelhança dos fariseus, têm a prece nos lábios e não no coração. Servindo-se apenas das formas, podem impor-se aos homens, mas não a Deus". 

Os "espíritas" se servem das formas e se impõem aos homens de toda forma que estabelecem fascinação obsessiva entre os seguidores e traz subjugação àqueles que tentam investigá-los, como jornalistas, juristas, advogados e acadêmicos, que param no começo do caminho, intimidados pelo aparato de "bondade" que enverniza os deturpadores da Doutrina Espírita.

Lembrando das diferenças de contexto, já que os fariseus modernos capricham muito mais na forma e conseguem até mesmo usar o pretexto dos "bons sentimentos" para respaldar o igrejismo que corroeu o Espiritismo no Brasil, citemos outro trecho, deste mesmo parágrafo:

"É em vão que dirão a Jesus: “Senhor, nós profetizamos, ou seja, ensinamos em vosso nome; expulsamos os demônios em vosso nome; comemos e bebemos convosco!” Ele lhes responderá: “Não sei quem sois. Retirai-vos de mim, vós que cometeis iniquidade, que desmentis as vossas palavras pelas ações, que caluniais o próximo, que espoliais as viúvas e cometeis adultério! Retirai-vos de mim, vós, cujo coração destila ódio e fel, vós que derramais o sangue de vossos irmãos em meu nome, que fazeis correrem as lágrimas em vez de secá-las! Para vós, haverá choro e ranger de dentes, pois o Reino de Deus é para os que são mansos, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade de vossas palavras e de vossas genuflexões. A única via que está aberta, para alcançardes a graça em sua presença, é a da prática sincera da lei do amor e da caridade".

Pode ser que ações explicitamente cruéis não sejam cometidas pelos membros do "movimento espírita", mas a iniquidade existe na maneira em que os "espíritas" não só não se arrependem pela deturpação feita ao trabalhoso legado de Kardec, que deu à doutrina brasileira um caráter de profunda desonestidade em relação à obra kardeciana, como tentam camuflar seus erros e distorções através da bajulação barata ao pedagogo francês, que se intensificou nos últimos anos.

A iniquidade existe quando o "espiritismo" chega a apelar pela pieguice, através de citações tão tendenciosas de ideias de "amor", "caridade" e "fraternidade". "Sejamos irmãos pela deturpação", é o que eles acabam demonstrando. Sermos "fraternos" no erro, cúmplices na distorção dos ensinamentos de Kardec, que no Brasil se reduziu a um padreco de igreja dessas cidades do interior controladas pelo coronelismo.

Desmentem as palavras pelas ações, pois o malabarismo espetacular das belas palavras, que tanto enchem de dinheiro os palestrantes "espíritas", a pregar aos sofredores a aceitação do sofrimento, é desmentido pela prática, pois os próprios palestrantes, tidos como "sábios", nunca aceitariam as desgraças que, "bondosamente", recomendam aos outros.

Querem disfarçar a deturpação com suposta filantropia, um roteiro de pequenas caridades paliativas, que só teriam sentido em países arrasados pela guerra, onde o "pouco" parece "muito" diante do "nada", mas num país como o Brasil, em que se pode fazer mais, "pouco" é "quase nada". E, além disso, se vê que essa "caridade" é mais festejada que praticada, colocando o "benfeitor" acima até mesmo da própria ação filantrópica, ajudando mais ele do que os mais necessitados.

É chocante, mas Chico Xavier e Divaldo Franco apresentam aspectos que causariam em Jesus o mesmo constrangimento que ele sentia em relação aos sacerdotes e escribas do seu tempo. A postura extravagante, o discurso empolado, o aparato de "superioridade moral", ou mesmo a pretensa humildade que dissimula o culto à personalidade muito comum entre os "médiuns" brasileiros, tudo isso já havia sido alertado em outros tempos por Jesus, Kardec e Erasto.

O Brasil tem a mania de dissimular as coisas. O país é dominado pelas paixões religiosas, verdadeiras orgias sem sexo, sem dinheiro, sem drogas, mas tão levianas, tão entorpecentes e tão perigosas na sedução das emoções e dos instintos, em que os êxtases não são sexuais, havendo a "masturbação dos olhos" pela comoção fácil por um mero balé de palavras bonitinhas e imagens de apelo sentimentalista, alegres ou tristes.

O grande desafio é superar as paixões religiosas, em vez de apoiar a ilusão de uma minoria de homens e mulheres que, apoiados pelo prestígio religioso - que simboliza pretensas glórias tão terrenas quanto os bacanais da fortuna e da pornografia - , acham que ganharam o passaporte para o Céu ou, na pior das hipóteses, estão com o caminho encurtado para o Paraíso. E justamente eles, que aceitam e até defendem que os sofredores percam encarnações inteiras com desgraças...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Texto "espírita" faz apologia ao sofrimento e contradiz ensinamentos de Jesus


O "espiritismo" brasileiro deturpou tanto o legado de Allan Kardec que, tentando alcançar, na marcha-a-ré religiosa, as tradições do Catolicismo jesuíta brasileiro, retrocedeu para os padrões medievais do Catolicismo Apostólico Romano.

Se afastando, na prática, dos postulados originais de Kardec, apesar de seu nome ser muito bajulado pelos palestrantes "espíritas", a doutrina brasileira optou por ser uma "lixeira" da Igreja Católica. O "espiritismo" acolheu em seus postulados desenvolvidos no Brasil valores já considerados obsoletos pelos católicos, como a apologia ao sofrimento, na qual existe até uma ideologia, a Teologia do Sofrimento.

Essa ideologia não era compartilhada por todos os católicos, mas tem origem na Idade Média, através das pregações dos sacerdotes da época. Nos últimos tempos, a Teologia do Sofrimento foi difundida, no século XIX, por Teresa de Lisieux e, mundialmente, por Madre Teresa de Calcutá, no século XX.

No Brasil, ocorre uma coisa gozada. Há defensores católicos da Teologia do Sofrimento, como o padre João Mohana, já falecido, autor do livro Sofrer e Amar, mas a ideologia, sem que seu nome fosse assumido um só momento, foi popularizada não entre os católicos, mas entre os "espíritas", através de Francisco Cândido Xavier. Sim, isso mesmo, Chico Xavier, em suas obras, pregava a Teologia do Sofrimento, com suas próprias palavras.

E uma comprovação de que a Teologia do Sofrimento domina mais o movimento "espírita" do que mesmo as interpretações distorcidas das ideias de Allan Kardec é o texto que o jornalista e escritor "espírita" de Muriaé, Rogério Coelho, publicou e que, em parte, foi reproduzido na página de outro escritor, Orson Peter Carrara. Como Rogério, Carrara também expressou ideias próprias da Teologia do Sofrimento em outras oportunidades.

O texto em questão foi publicado nesta página. São argumentos próprios da Teologia do Sofrimento, já defendidos pelos católicos, que se resumem assim: "Ninguém nasceu para sofrer, mas é necessário amar o sofrimento como meio de encurtar o caminho para Deus e merecer a obtenção de bênçãos futuras". Muito bonito no discurso, mas falar é fácil.

Um trecho que chama muita a atenção no texto de Rogério é um parágrafo que, em si, é de uma preocupante gravidade. Além de confirmar a identificação com as ideias da Teologia do Sofrimento - algo que não pode ser desmentido pelos "espíritas", porque aí seria negar o que fazem - , o trecho revela uma perversidade que contradiz os ensinamentos de Jesus. Vejamos:

"Utiliza-te da sua metodologia para o mais breve triunfo que te cumpre alcançar.
Aquele que se arrepende de um mal, está aflito; aquele que se encoleriza, sofre aflição; quem persegue, padece agonia; quem inveja extremunha-se e chora; quem odeia, galvaniza-se sob o açodar da fúria e combure-se nos altos fornos do desequilíbrio que gera. Estes não serão, por enquanto, consolados.  Somente quando a consciência da dor os faça amar, submetendo-os à Divina Vontade, encontrarão na aflição a felicidade por que anelam".

Rogério caiu em contradição. Principalmente em relação ao arrependimento de um mal. No decorrer do parágrafo, o escritor contradiz a própria frase de Jesus: "Bem aventurados os que choram (aflitos), porque serão consolados", ao afirmar que "aquele que se arrepende de um mal, está aflito", e, por isso, "não será consolado", a não ser que encontre na aflição "a felicidade".

O próprio apelo de "amar o sofrimento" vai contra o Pai Nosso, oração que se atribui autoria a Jesus de Nazaré, que pede a Deus "não deixar alguém cair em tentação, mas a livre do mal". Se Jesus falava em "livrar do mal", por que se tem que "amar a desgraça" usando os próprios infortúnios como trampolim para a premiação celestial?

É muita contradição. E isso vai contra os próprios ritos católicos, expressando o quando o "espiritismo" brasileiro, na sua busca desesperada pela palavra final e pela presunção de coerência, cai em contradição o tempo todo, a partir de sua própria catolicização que o fez afastar dos ensinamentos do mesmo Allan Kardec bajulado o tempo todo.

Isso porque o próprio Catolicismo enfatiza o arrependimento pelo mal, e, fora das abordagens medievais da Teologia do Sofrimento, não há uma apologia ao masoquismo religioso do amor às desgraças. A glamourização da desgraça humana acaba indo contra os ensinamentos de Jesus, até porque a ênfase na aceitação do sofrimento se aproxima mais do moralismo severo daqueles que o condenaram ao martírio da cruz.

Evidentemente "espíritas" como Rogério e Orson vão tentando desfazer mal-entendidos aqui e ali e até renegar, se possível, a Teologia do Sofrimento, ou considerar "cruel" associar esta ideologia a Chico Xavier.

Mas o que está feito, está feito, em palavras das mais explícitas, e se observa claramente que o "espiritismo" brasileiro está mais preocupado em ser um receituário medieval de ideias moralistas católicas. Difícil desmentir isso com seu malabarismo de palavras bonitas, mas desprovidas de lógica e consistência.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Chico Xavier e o vitimismo ante as críticas duras


Criticar Francisco Cândido Xavier não e fazer ataques. É simplesmente mostrar os erros graves que ele cometeu, e que desmerecem todo o mito que as pessoas cultuam dele, movido pelas paixões religiosas.

Pouco importa se esse mito se mostra sob a imagem de um suposto profeta ou de uma pretensa reencarnação de Allan Kardec, ou se ele é apenas visto como filantropo ou, por outros, como também um filósofo. Todos esses mitos, na verdade idealizações de cunho materialista, são seriamente levianos e legitimam a reputação de um sério deturpador da Doutrina Espírita.

A atitude de coitadismo ou vitimismo, que Chico Xavier teve em vida e, postumamente, é evocada ou herdada pelos seus chorosos seguidores, revela o quanto o deslumbramento religioso e o apego obsessivo a um ídolo da fé igrejista, símbolo de uma suposta bondade que nunca produziu um resultado profundo - se tivesse, nosso país não teria sucumbido ao desastre político e social de hoje - se tornam perigosos, sendo fontes de sentimentos obsessivos de seus adeptos fervorosos.

Há que se criticar tudo no "espiritismo" brasileiro e os adeptos dessa religião, sobretudo adoradores de Chico Xavier e Divaldo Franco, podem se acostumar e pegar seus baldes por onde derramarão lágrimas de chocante desilusão. Afinal, há toda uma rede de contradições, equívocos e prejuízos que precisam ser contestados e analisados, e isso não é uma demonstração de ódio, mas de preocupação com a lógica e o bom senso.

Se for para os chiquistas se revoltarem contra o "tóxico do intelectualismo" ou "overdose de raciocínio", que tal eles manifestarem toda sua raiva contra o próprio Allan Kardec, que sempre se preocupou com o debate e a coerência e não aprovava os devaneios e demais caprichos do deslumbramento religioso?

Manifestem, da mesma forma, contra o espírito Erasto, que falou sobre os "inimigos internos do Espiritismo" e pediu vigilância quando os mistificadores transmitirem "coisas boas", porque as usam para inserir ideias desprovidas de lógica e coerência.

O coitadismo era usado por Chico Xavier para se livrar de acusações de fraude e deturpação do Espiritismo. Era um meio de forçar a comoção da opinião pública, se aproveitando da sua aparência de caipira e, depois, de velhinho doente. Ele caprichava nas poses de tristonho e falava coisas como "não vamos botar querosene nesse incêndio".

A verdade, porém, é que, em muitos momentos, Chico Xavier era incapaz de provar seus equívocos e irregularidades. A gente lê os livros "psicográficos" e vê diferentes autores "pensando igual" a Chico Xavier e estranha, mas não pode criticar nem apontar fraude, porque Chico e seus adeptos (e, nos últimos anos, apenas estes) vão cair na choradeira.

Os "espíritas" estão desesperados porque, a cada dia, lhes são cobrados posturas de coerência, lógica e bom senso que eles dizem ter mas não possuem. E a cada dia, quando criticados, eles reagem com coitadismo, chegando mesmo a comparar as críticas duras que recebem à inquisição medieval ou à arena de leões famintos nos tempos do Império Romano.

Isso é um contrassenso. Afinal, os próprios "espíritas" se revelam medievais, e isso se comprova pela natureza histórica, pela herança que receberam do movimento jesuíta do Brasil colonial, que inseriu no "espiritismo" brasileiro até mesmo a retrógrada Teologia do Sofrimento.

A "fase dúbia" do "movimento espírita", surgida sob o pretexto de equilibrar Ciência e Fé e conciliar científicos e místicos, se revelou ainda mais contraditória, na medida em que nunca se decidiu entre ser fiel a Allan Kardec e ser devoto do igrejismo. Fazia uma coisa e fazia outra, como que em vida dupla.

Outra aberração é costurar cientificismo e igrejismo com o cordão frágil da pretensa filantropia. Uma "caridade" em que se vê claramente que o "benfeitor", glorificado pelo prestígio religioso, se coloca acima dos beneficiados, que são poucos e recebem tão poucos benefícios, que os beatos do "movimento espírita" dizem ser "muitos", sem trazer dados concretos para tanto.

Não há como recorrer ao vitimismo. O "espiritismo" está sendo cobrado pelos seus erros diversos e, não raro, gravíssimos, que cometeu em sua trajetória. São erros que, quando as conveniências permitiam, eram apoiados e feitos com prazer e propósito. Mas, na medida em que são descobertos e denunciados, seus praticantes reagem com choradeira e cabeça baixa.

Isso não dá para admitir. Até porque é esse vitimismo que permitiu o prolongamento da deturpação do Espiritismo, ultimamente sob a dissimulação de suposta fidelidade ao legado de Kardec. Os "espíritas" deveriam imaginar se seria bom Allan Kardec se sentir traído e descrever, uma por uma, as irregularidades do "espiritismo" brasileiro. Vai haver mais choradeira com isso?
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