quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
"Centros espíritas" de Salvador podem afastar até pessoas afins da vida amorosa
Sendo uma doutrina deturpada e marcada pela desonestidade ideológica - a alegada "fidelidade" aos postulados de Allan Kardec não procede, diante de tantas práticas e crenças igrejistas, além de irregularidades na aparente mediunidade - , o "espiritismo" brasileiro é uma fonte de energias maléficas que as paixões terrenas da religião não conseguem disfarçar.
Recebemos reclamações de rapazes que fizeram tratamentos espirituais em dois "centros espíritas" de Salvador, o "Paulo e Estêvão", situado em Amaralina, e o "Bezerra de Menezes" (antigo Núcleo Assistencial Cavaleiros da Luz) e localizado no Uruguai. Note-se que ambos os "centros" se situam em áreas bastante perigosas da capital baiana.
Três rapazes amigos - um deles nos enviou e-mail contando o caso - , em suas vidas particulares, estavam se relacionando com moças com as quais tinham muita afinidade pessoal, e tinham uma vida profissional em ascensão. Eles recorreram aos "centros espíritas" em busca de fortalecimento e proteção pessoal, e obedeceram a todas as recomendações para enfrentar tratamentos espirituais.
De repente, num espaço de seis meses, tudo começou a desandar. Dois deles perderam o emprego, e tiveram dificuldade de encontrar uma ocupação, e um deles foi aconselhado por mais de uma pessoa a trabalhar numa empresa acusada de corrupção, mas considerada "prestigiada" pela a cada dia menos confiável grande imprensa. Dos outros dois, um (autor do e-mail) foi vítima de um sério caso de cyberbullying na Internet por causa de uma pequena discordância que irritou um valentão.
Mas a situação só se tornou pior. Uma das garotas com a qual um dos rapazes mantinha contato permanente na universidade, sumiu sem qualquer aviso. A garota do rapaz que foi aconselhado a trabalhar numa empresa corrupta se casou com outro homem, depois de quatro meses de sumiço. A do outro rapaz, vítima de cyberbullying, morreu num acidente de carro no feriado da Semana Santa.
A vida dos rapazes, que prometia ser digna e satisfatória, sem luxos mas com muita dignidade, se reverteu para oportunidades de valor muito duvidoso. O rapaz que foi vítima de cyberbullying e perdeu a pretendente só recebeu uma proposta de emprego num jornal comunitário, cujo editor recebia ameaças de bandidos que dominavam uma comunidade.
Os tratamentos eram feitos nos dois "centros". Os dois rapazes, o que teve a pretendente morta e o que viu sua pretendente "desaparecer" sem aviso, fizeram tratamento em Amaralina, e o outro, no Uruguai. Os infortúnios ocorreram em espaços de oito meses a dois anos.
Na vida amorosa, ocorreu até uma situação surreal. Os três rapazes, que nunca se identificaram com o sensualismo grotesco do "pagodão" e das chamadas "periguetes" e nunca estabeleceram energias de atração desse universo, passaram a ser assediados por moças do tipo, em situações diferentes para cada um.
Para piorar as coisas, não se tratavam apenas de simples paqueras, de moças achando os rapazes bonitos e atraentes, o que, pelo menos, seria aceitável, mas elas os olhavam com a certeza absoluta que os conquistariam para o casamento. E olha que eles sempre reagiam com indiferença, mas elas sempre faziam assédio, chegando ao ponto de, no caso do rapaz que viu uma colega pretendente "sumir de repente", uma delas ficar gritando, assanhada: "Vem cá, gostoso!".
Isso era terrível, porque não havia atração por parte deles a esse padrão de vida. Eles até respeitavam, não tinham o repúdio elitista que se vê a esse meio, mas eles sempre consideravam que aquilo não era a "praia" deles, de maneira consciente e imparcial. Mas também nenhum deles tinha vontade de participar daquele meio, e ficavam constrangidos com as "novas pretendentes" que passaram a atrair, com as quais nenhuma afinidade pessoal eles tinham.
O rapaz que foi vítima de cyberbullying, perdeu tragicamente sua pretendente e nos enviou o e-mail (evidentemente, os três rapazes se abstiveram de dizer seus nomes, se limitando a dizer que moram na Região Metropolitana de Salvador) conversou com uma frequentadora do "centro" de Amaralina dizendo que estava sofrendo muito azar.
Essa frequentadora, no entanto, tentou fazer o rapaz crer que os infortúnios "provavam" que o tratamento espiritual estava "dando certo" e que o que ele está sofrendo é ação de "irmãozinhos incomodados" que não querem seu sucesso.
Contraditória, a senhora, ao saber que o rapaz passou a ser assediado por "periguetes" sem qualquer afinidade pessoal, aconselhou, com aparente bondade, para o rapaz pegar uma delas e estabelecer o diálogo, moldando a personalidade dela ao mostrar coisas boas e valores sublimes da vida. Ela tentou argumentar com palavras bonitas. O rapaz não concordou, mas também não quis responder, fingindo que aceitou o conselho.
Mas, no seu íntimo, quando voltava para casa, o rapaz refletiu consigo mesmo, mentalmente: "Como é que vou obrigar uma garota dessas a ser como eu quero? Ela tem suas crenças, suas convicções, seus hábitos! Eu teria que ensiná-la a falar, a pensar, a ouvir coisas diferentes! Isso é difícil! Eu nada tenho a ver com ela, não sei o que ela quis de mim! Não vou aceitá-la, até porque moldá-la ao sabor de minhas vontades não tem a menor graça, mesmo que ela se disponha a ceder para me agradar!".
Em tese, "centros espíritas" se situam em áreas de altos índices de criminalidade para estabelecer um trabalho assistencial e trazer energias positivas para esses lugares. No entanto, a prática revela o contrário e o que se vê, pela própria natureza deturpada, contraditória e irregular do "espiritismo" brasileiro, são os "centros" que acabam sendo depósitos de energias maléficas.
É como em hospitais psiquiátricos e mesmo em penitenciárias que, na teoria, são feitos para dar tratamento humanizado aos internos. Diante da incompetência, das debilidades e dos deslizes morais, tais instituições acabam sendo dominadas pelos internos, que pelo seu mau comportamento se tornam violentos e prepotentes, criando uma curiosa tirania vinda daqueles que deveriam ser tratados e se tornam tipo feras indomáveis.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Não se pode enganar as pessoas por amor
O maior problema do "espiritismo" brasileiro é a sua desonestidade doutrinária. Nas últimas décadas, passou a renegar as raízes roustanguistas, em nome de uma falsa promessa de recuperar as bases kardecianas. A chamada fase dúbia, no entanto, só conseguiu agravar o apelo igrejista que herdou dos tempos em que assumiu sua predileção por Jean-Baptiste Roustaing.
O "espiritismo" usou de uma malandragem para permitir essa fase dúbia, na qual a hipocrisia adotada pelo "movimento espírita" se acentuou, com as federações regionais agindo pior do que o "alto clero" da FEB. Usando das tradições de religiosidade do brasileiro, forjou-se um suposto "espiritismo autêntico" altamente catolicizado.
É só ver o quanto, na fase dúbia, os romances "espíritas" passaram a fazer mais sucesso, o igrejismo de Francisco Cândido Xavier esteve no auge, o de Divaldo Franco entrou em plena ascensão e as "casas espíritas" passaram a contar ainda mais, em suas palestras, estórias "lindas" de "amor e superação" que pairam entre contos de fadas e milagres católicos.
A desonestidade do "movimento espírita" ainda está no caso da "mediunidade" de faz-de-conta, que não passa de propagandismo religioso, praticamente um mershandising. Até mensagens atribuídas a ateus falecidos carregam um apelo igrejeiro um tanto suspeito. Todos pedindo para "unirmos pela fraternidade em Cristo", sem variações.
Que religiões como o catolicismo e o protestantismo apresentam casos de irregularidades, tudo bem. No caso deste último, as seitas neopentecostais simbolizam, por exemplo, um arrivismo movido a acúmulo financeiro através dos "dízimos" colhidos de fiéis, que tempos depois se "converte" (olha em trocadilho) em compras de redes de televisão e rádio.
Mas ver que o "espiritismo" se autoproclama "honesto" com "mediunidade" de faz-de-conta e um igrejismo que contraria o pensamento de Allan Kardec é chocante. E ver que essa desonestidade doutrinária e prática é sustentada pelo aparato da filantropia preocupa, e muito.
Há até mesmo uma versão "espírita" do "rouba mas faz": "Deturpa mas é bondoso", "entende mal Kardec mas ajuda muita gente", "Contraria os postulados espíritas mas trazem mensagens de amor e fraternidade" são as desculpas mais tipicamente utilizadas.
Combinar desonestidade com amor não faz a desonestidade ficar mais honesta. Não se engana as pessoas por amor. Enganar pressupõe uma traição, uma armadilha, uma forma de lesar alguém através de um modo traiçoeiro de dominação. Supor que todo esse processo possa ser feito "por amor" ou pelo "pão dos necessitados" não torna a coisa mais honesta. E isso fica até pior.
Na suposta mediunidade, se observam quadros falsificados, curas feitas com métodos duvidosos, psicografias que não refletem os estilos pessoais dos autores mortos alegados, psicofonias que mais parecem espetáculos de imitação humorística, e tudo isso acrescido de ideias que os brasileiros estão acostumadas a serem associadas a Allan Kardec, mas que o pedagogo francês em nenhum momento se atreveria a defender ou aprovar.
Isso é grave. Aliás, não é apenas grave. É gravíssimo. Tudo isso descrito no parágrafo anterior é desonestidade doutrinária, algo que não pode usar o "amor" para atenuar seu caráter deplorável e apelar para a aprovação e o consentimento da sociedade. Amor e caridade não podem ser cúmplices da desonestidade. Se o amor é pretexto para enganar alguém, com certeza isso não é amor.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Conto da Gata Borralheira e o moralismo "espírita"
A religião é um arremedo de conto de fadas para adultos. Um arremedo piorado, no qual se perde o despretensiosismo da alegoria literária, na medida em que a religião tenta exercer supremacia na realidade objetiva das pessoas.
Por isso é que as pessoas, talvez diante de neuroses ou dramas muito mal resolvidos da infância, procuram a beleza conselheira perdida nas antigas estórias infantis, mas corrompidas por uma ilusão de racionalidade que faz a fé religiosa, por mais fictícia que possa parecer, deseje ser mais realista que a realidade.
E é isso que faz os contos de fadas terem uma grande vantagem. Elas trazem lições de vida ou mesmo avisos de alerta que se distanciam dos receituários moralistas que as estórias religiosas, sem excluir o "espiritismo", trazem para as pessoas "crescidas".
Um exemplo é o conto da Gata Borralheira, também conhecida como Cinderela, cuja origem remete a uma estória contada na China por volta de 860 antes da nossa era. Órfã de um comerciante rico, Cinderela vivia com a madrasta e as meias-irmãs da jovem, e, apesar de sua bela aparência, diferente da aparência grotesca das outras três, a Gata Borralheira vivia uma vida miserável.
Bondosa e paciente, a Gata Borralheira tinha que fazer as tarefas domésticas, diante de tantas humilhações das três algozes, e quando podia se refugiava no quarto para conversar com os bichinhos da floresta.
Certa vez, a jovem foi costurar um vestido para ir ao baile do Príncipe, com os retalhos de roupas que recolheu no lixo, e criou um vestido modesto, mas bonito. Chorou e, de repente, depois de tantas orações, apareceu uma senhora que se identificou como "fada-madrinha" e fez uns arranjos na vida da moça. Transformou seu traje de serviço em vestido de gala, os bichos se tornaram homens, um chofer e seus assistentes, e uma abóbora foi transformada em carruagem.
A fada-madrinha só advertiu que a moça, rebatizada Cinderela, voltasse para casa quando desse a meia-noite, para que o encanto não fosse desfeito aos olhos das pessoas. Ao chegar ao baile, Cinderela viu várias mulheres dançando, cada uma em sua vez, com um príncipe, Ele, impressionado com a beleza da jovem moça, a convida para dançar. Os dois se sentem atraídos pela afinidade pessoal e física.
De repente, no auge do baile, o relógio bate meia-noite. A Cinderela não tem tempo para ir embora sem que o encanto fosse desfeito na ocasião, e ainda deixou um dos sapatos de cristal no caminho, enquanto ia embora andando com seus bichinhos e uma abóbora.
Aí o príncipe, vendo que um sapatinho brilhante foi abandonado na escadaria de acesso ao salão, a pegou e resolveu testar o calçado em diversas mulheres, cujos pés eram muito grandes para caber na pequena sandália.
Chegando à casa da madrasta e suas duas filhas, sem perceber que lá vivia a enteada Cinderela, o Príncipe foi testar o pequeno sapato nos pés das três. Era pequeno demais para pés graúdos e feios. O Príncipe, de repente, viu uma moça parecida com Cinderela fazendo a faxina e as outras disseram a ele que é só uma serviçal sem valor. Mas o Príncipe ordenou para que se chamassem a moça para experimentar o sapato e as três, a contragosto, cederam.
Diante do êxito do teste, Cinderela e o Príncipe se reconheceram, se apaixonaram e ele a convidou para arrumar as coisas e se mudar para o casal viver junto. A madrasta e suas filhas ficaram arrasadas. Consta-se que a relação de Cinderela com o Príncipe resultou num casamento harmonioso e estável.
TEOLOGIA DO SOFRIMENTO?
Os "espíritas" festejam. Para eles, é um delírio ver alguém encarar sofrimentos e humilhações, suportando a arrogância e o arbítrio dos algozes, e depois sair dessa com um benefício. À primeira vista, o conto da Cinderela é um prato cheio para os "espíritas" dizerem que se trata de um caso de superação, como tantos outros trazidos pela literatura de Francisco Cândido Xavier e seus séquitos.
É verdade que o conto da Gata Borralheira traz várias interpretações. Mas, tomando a narrativa tradicional e dispensando o aspecto da oração, pois a forma mais conhecida e popular do conto mostrava que a moça apenas chorava depois de ter o vestido rasgado, se vê que as situações mudam quando se observa o conto sob a ótica da metáfora.
Em primeiro lugar, o conto é uma metáfora das injustiças sociais representadas pelos privilegiados, a madrasta e suas duas filhas biológicas, e pela desafortunada, a Gata Borralheira. O Príncipe, dispensando o detalhe de ser um poderoso aristocrata, até pela personalidade humanista descrita no conto, representa o progresso social e a qualidade de vida.
Note-se que, do contrário da moral "espírita", a madrasta e suas filhas não saíram beneficiadas, assim como a Gata Borralheira não mudou os seus valores para ser beneficiada. Além disso, um outro aspecto pode deixar os "espíritas" bastante decepcionados.
Trata-se dos benefícios provisórios do feitiço da fada-madrinha. Ela transformou bichinhos em homens e abóbora em carruagem, além de transformar o vestido sujo e miserável em roupa de gala. Mas tudo isso com validade para meia-noite. Isso é metáfora para a caridade paliativa, de duração efêmera, algo que se agrava se considerarmos que Cinderela orou.
Por outro lado, levamos em conta que Cinderela não ficou satisfeita com sua situação. A moral "espírita" pede para as pessoas se resignarem com as desgraças, e em certas mensagens até se alegrarem com tais infortúnios.
Além disso, os benefícios permanentes não vieram da ação da fada-madrinha, mas do esforço do Príncipe, que achou um sapato de cristal e o pegou, uma metáfora para a solidariedade de alguém progressista com a pessoa que não aguenta mais sofrer. E o fato do sapatinho ter servido em Cinderela e não em outras mulheres revela que o benefício não é aproveitado da mesma forma por todos, havendo quem pudesse aproveitá-lo melhor, com dignidade e apreço.
Isso sugere que o conto da Cinderela revela uma realidade muito mais complexa do que o moralismo "espírita". Se dependesse do "movimento espírita", Cinderela permaneceria desgraçada, se limitando apenas a ser amiga do Príncipe, que se casaria com uma das meias-irmãs da jovem e todos viveriam felizes para sempre em situações mais desgraçadas. A Teologia do Sofrimento só quer ver alegria na desgraça.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
"Espíritas" ainda esperam pela retratação de seus questionadores
O "espiritismo" vive um ciclo vicioso. A cada contestação, uma campanha de defesa e uma forte blindagem. A deturpação da Doutrina Espírita, alertada pelo espírito Erasto nos tempos de Allan Kardec, teve um terreno fértil na sociedade brasileira, emocionalmente mais fraca e dotada de uma capacidade limitada de compreensão do mundo em volta.
Isso favorece o vai-e-vem das crises do "movimento espírita". Se um ídolo "espírita" é denunciado e isso vira escândalo, é só ele exibir fotos de crianças pobres tomando sopa e velhinhos doentes para ele ser blindado e as críticas serem abafadas.
O Brasil fechou os ouvidos a Erasto, que alertava para as vigilâncias serem ainda mais rigorosas quando os deturpadores da Doutrina Espírita mostrarem coisas boas. Não foi por falta de aviso que os brasileiros sucumbiram a um balé de palavras bonitas que tomou conta do "movimento espírita" brasileiro e toda sorte de dissimulações.
Em vez disso, giramos em círculos. Nos esforçamos para denunciar as irregularidades do "movimento espírita", e no entanto elas são facilmente rebatidas porque os "espíritas" são...bonzinhos. Uma complacência a tantos erros e tantos equívocos que nem mesmo a lógica e o bom senso alertados por Allan Kardec são levados a sério.
Somos induzidos a aceitar que "todo mundo erra e os 'espíritas' são bonzinhos", engolindo qualquer falácia que transforma os deturpadores do legado de Kardec em proprietários da verdade, em muitos casos estando até acima dos próprios conceitos trabalhosamente trazidos pelo pedagogo francês.
É muito preocupante. Os deturpadores tiveram suas vitórias no Brasil, vivem na impunidade, a ponto de duas condições únicas para alguém nunca ser punido no Brasil é ser filiado ao PSDB e ser "espírita".
Se é do PSDB, pode criar seu esquema de corrupção gigantesco que, se um delegado chamar um tucano, é só para tomar um cafezinho e jogar conversa fora. Se um sujeito cria um pastiche literário grosseiro, usurpa o nome de algum ilustre falecido e diz que é "mensagem espírita", não há indício de plágio, pastiche ou falsidade ideológica que faça um juiz dar uma sentença judicial contra o farsante, se ele é declarado "espírita".
A ideia de "espiritismo" como pretensa bondade mais cria prejuízos do que lucros. Afinal, é aquele padrão conservador de "bondade", preso ao institucionalismo religioso e dotado de efeitos sociais limitados, tanto quantitativos como qualitativos. É a "caridade paliativa" que mais serve para propaganda do aparente benfeitor do que para realizar uma ajuda mais efetiva aos necessitados.
Isso cria uma "carteirada" que permite qualquer deturpação. E não se limita apenas a uma abordagem "catolicizada" na qual as queixas mais pedestres sobre a deturpação na Doutrina Espírita se limitam à inserção de fantasias milagreiras, ritualísticas ou fantasiosas que inexistem na obra deixada por Kardec.
A deturpação vai mais longe e vai sobretudo na suposta mediunidade produzida por gente na verdade sem concentração para um contato mais aprofundado com os espíritos do além. Mesmo os "conceituados" e "confiáveis" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco apresentaram gravíssimas irregularidades nas suas "obras mediúnicas" que desmereceriam, sem a menor hesitação, toda a reputação em dimensões divinas que os dois recebem de seus seguidores.
O vitimismo e o triunfalismo são sempre as "cartas do Coringa" nas mangas dos deturpadores do Espiritismo. Qualquer denúncia de irregularidade, gerando escândalos e impacto negativo, é rebatida com o suposto médium ficando cabisbaixo e fingindo tristeza, fazendo todo tipo de drama e geralmente não reagindo. Seus seguidores é que acabam espumando raiva e disparando comentários furiosos, enquanto seus "líderes" ficam calados, cabisbaixos, encenando vitimismo.
Em 2010, uma peça sobre as polêmicas do meio intelectual relacionadas a Parnaso de Além-Túmulo, o fraudulento livro de poemas de Chico Xavier que foi remendado cinco vezes, contradizendo a aura de "obra de benfeitores espirituais" (que, esperaríamos, tivesse sido acabada na primeira edição), mostrava atores encenando debates acalorados quando, de repente, de maneira piegas e chorosa, surgem imagens de Chico Xavier com sorriso tristonho, "psicografando" ou em cenas de "caridade".
As pessoas se deixam levar a tais sensações, o que mostra que mesmo muitos ditos "ateus" ainda têm uma "pedagogia" emocional herdada do Catolicismo mais devoto. Ainda se apegam a perspectivas emocionais e dogmáticas que aprenderam através de paradigmas católicos e pelas fantasias dos contos de fadas, que atrofiam a compreensão da realidade.
O mais grave é que tudo isso é dissimulado, as pessoas justificam sua pieguice com desculpas "objetivas" e "racionais" aqui e ali, o que faz do Brasil o paraíso da "pós-verdade", quando convicções das mais delirantes são impostas como se fossem "verdades indiscutíveis". E isso garante a prevalência do "espiritismo" deturpador, suas fraudes "mediúnicas", seu misticismo igrejeiro e seu moralismo conservador. E tudo isso às custas de um bom-mocismo.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Brasil e o moralismo seletivo de parte da sociedade
Pouco tempo atrás, faleceu, vítima de Acidente Vascular Cerebral, a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva. Ela era mulher do ex-presidente Lula, uma das pessoas mais hostilizadas e desmoralizadas do país, ele mesmo atingido por boatos violentos e calúnias das mais assustadoras.
O que mais espanta é que, nas redes sociais, muita gente "comemorou" a morte de Marisa Letícia e há quem diga que o marido "está na fila". O ódio seletivo dos anti-petistas revela um país de moralismo tendencioso movido pelas conveniências.
Só para se ter uma ideia, essas mesmas pessoas não se indignam com os escândalos que acontecem no governo Michel Temer e que são de arrepiar os cabelos. A escolha do fluminense Wellington Moreira Franco para um cargo estratégico do atual governo, aparentemente "semelhante" à escolha de Lula como chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, não causou a menor revolta popular.
Quando Lula fazia cerimônia de posse para a Casa Civil - ato anulado depois por pressão do juiz Sérgio Moro e decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - , criou-se um grande movimento de protesto organizado pelo Movimento Brasil Livre e outros grupos, pedindo a saída de Dilma Rousseff. Naquela época, a nomeação de Lula era vista como uma "afronta ao povo brasileiro", segundo a visão conservadora difundida na época.
Quanto à nomeação de Moreira Franco, falou-se que ele "já estava no governo" e que "era uma formalidade que vai fortalecer a República", ninguém reagiu, e a imprensa apenas deu lacônicas notícias dizendo que o ex-governador do Rio de Janeiro é citado várias vezes em delações da Operação Lava Jato. Os membros do governo Temer usaram como desculpa o fato de que "todos são delatados" e isso "não abala" o cenário político no poder.
Vivemos um período de seletividade ética. As pessoas que "comemoram" morte de petistas nas redes sociais são as mesmas que se arrepiam quando um assassino rico está gravemente doente. Isso segue um padrão moralista que chega a dar tratamentos diferentes a pessoas que, por exemplo, anunciam estar em estágios avançados de câncer.
Se o portador de câncer é um ator de teatro de vanguarda, a sociedade moralista se resigna e até reza para ele sair vivo desta, mas se ele morre, ela se conforma. Se o portador de câncer é um músico de heavy metal, a sociedade moralista já torce para ele "bater as botas" o mais rápido possível. Agora, se ele é um homem rico que cometeu um feminicídio conjugal e está impune, a sociedade moralista se sente ofendida, achando que o câncer é "mimimi" e o rapaz está "firme e forte".
É estranho isso. Afinal, não são pessoas rancorosas e vingativas que pressentem tragédias com feminicidas, que, pelo ato que cometeram - mataram namoradas ou esposas - , sabendo do risco de suas atitudes, são os mais vulneráveis a pressões emocionais e instintivas que é bem menos provável que pessoas assim pudessem viver mais do que 60 anos de idade. Muitos que alertam isso são amigos e pessoas que mais amam os referidos homens, e sabem que homicidas não são invulneráveis.
Pelo contrário, são pessoas que aceitam linchamento de pobres que furtam gado de fazenda, de vendedores ambulantes que, acidentalmente, derrubam o retrovisor de um carrão por um manuseio, sem querer, de sua caixa de produtos, é que acham "preconceituoso" dizer que um feminicida rico, por ter fumado demais ou por aparecer extremamente magro e abatido, pode falecer de repente (e, se falece, não ganha uma nota na imprensa, apesar de ser figura de grande repercussão).
Marisa Letícia, por ser esposa de um carismático líder político que contraria os interesses da mídia dominante, podia, segundo a sociedade moralista seletiva, morrer pelas pressões emocionais que ela não causou e que, a contragosto, contraiu pela campanha caluniosa da grande imprensa e da Internet. Mas um empresário, médico, jornalista ou promotor que assassinou a esposa por ciúmes não pode morrer pelas pressões emocionais causadas pelas consequências de seus próprios atos?
A seletividade moral também faz com que páginas virtuais de jornalismo investigativo e questionamento de valores estabelecidos, porém obsoletos e injustos, tenham mais risco de serem banidas do que páginas de calúnias e ofensas, cujos autores demonstram um claro rancor e se apropriam de maneira leviana e difamatória do material produzido pelas suas vítimas.
No Brasil se vê cada vez mais se multiplicarem casos de pessoas expressando pontos de vista elitistas dos mais ofensivos, algo inimaginável até três anos atrás. Pessoas que já defendem abertamente a redução de salários, a venda das riquezas brasileiras para empresas estrangeiras, o fim da educação pública - a educação gratuita seria um "privilégio" de escolas religiosas comprometidas com o projeto medieval Escola Sem Partido, das neopentecostais às "espíritas" e a privatização de tudo.
Claro que esse reacionarismo sempre esteve latente desde a década de 1990, por conta de retrocessos vividos pela grande mídia - da multiplicação de programas policialescos de TV até o reacionarismo gradual da emissora paulista 89 FM, que virou a "Jovem Pan do rock", sem falar da Rede Globo da revista Veja e outros - , e se intensificou nos tempos do Orkut, com sociopatas entrincheirados até em comunidades como o inócuo "Eu Odeio Acordar Cedo". Mas hoje o pessoal foi longe demais.
Até na busologia existe caso de blogue de calúnias, feito por um ex-funcionário de prefeitura da Baixada Fluminense frustrado de não ter seguido carreira política nem ter integrado o governo do então prefeito carioca Eduardo Paes. O infeliz havia resolvido criar sua página para, de etapa em etapa, desfazer seus desafetos um a um até sobrar ele para comandar a busologia carioca.
Caluniar virou moda, para uma sociedade que mal consegue digerir conceitos de moralismo repressivo com os de liberdade de expressão. Essa má digestão que gera uma disenteria moral violenta, reflete o medo que uma parcela da sociedade tem com as mudanças nos tempos e com a perda total de paradigmas e privilégios que faziam mais sentido em meados dos anos 1970.
O medo de ver um outro tipo de presidente da República no poder. Ou o medo de ver gente menos arrivista passando a perna nos ambiciosos doentios. Ou ver aquele feminicida rico e relativamente jovem, que acabou de sair da cadeia, ser encontrado morto em casa porque sofreu um infarto fulminante por ter visto, na televisão, uma antiga canção que embalava o namoro dele com sua vítima. Ou o medo de ver outros valores mais dignos derrubando privilégios antes imbatíveis.
E o pior é que, na religião, como as vingativas seitas neopentecostais e o complacente "espiritismo", nota-se mais um consentimento a esse cenário de horror do que mesmo lamento e pesar. Os neopentecostais preocupados em voltar aos tempos bíblicos de um Deus "genocida" e os "espíritas" pedindo para os sofredores aceitarem e até agradecerem algozes pelas desgraças vividas. Para piorar, o juízo de valor "espírita" de supor uma "vida passada" ao sofredor é de um cinismo chocante.
Afinal, os "espíritas" simplesmente emporcalharam o legado de Allan Kardec, com um roustanguismo muito mal disfarçado com pretenso Espiritismo de conceitos igrejeiros e uma concepção medieval e ultraconservadora de "bondade", que é restrita ao assistencialismo. Uma "caridade" que só serve para justificar a produção de mensagens fake "espirituais" e a divulgação de conceitos deturpados que envergonhariam Kardec.
Até pelas responsabilidades que deveria assumir na prática, e não numa teoria marcada pelo balé de belas palavras, os "espíritas" estão em situação ainda mais grave, pelas contradições que esconde por baixo do tapete, enquanto aguardam que os críticos da deturpação espírita se retratem e aceitem os "médiuns" dotados de culto à personalidade como "espíritas autênticos, mas mal informados", apenas pelo pretexto da filantropia e das palavras bonitas.
Se a bondade se reduz a essa exploração feita pelo prestígio religioso, com simulacros de filantropia que ajudam muito pouco e só servem para dar cartaz ao "benfeitor" da ocasião, às custas da comoção coletiva e pelo mel das palavras, então não conseguiremos sair desse cenário calamitoso em que se vive o país, marcado pela raiva e pelo moralismo seletivo.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
O que o palestrante "espírita" diria sobre a pimenta nos olhos dos outros?
O "espiritismo" virou a religião da Teologia do Sofrimento, mais do que o Catolicismo medieval que o criou. Isso porque seus postulados dão muita ênfase à "vida futura" apenas como pretexto para que pessoas fiquem desperdiçando encarnações inteiras acumulando desgraças.
O popular ditado "pimenta nos olhos dos outros é refresco" cai muito bem nos palestrantes "espíritas", que na maioria das vezes não conhecem o sofrimento do outro, eles que vivem fazendo turnês e recebendo prêmios por conta de seu espetáculo de palavras bonitinhas.
Alguns palestrantes se atrevem, arrogantes com a ilusão da posse do saber a que se julgam ter, a dizer que é muito bom "atravessar o rubicão", jogar uma encarnação inteira no lixo sob o pretexto de que virão outras encarnações e que a vida espiritual é eterna.
E isso é muito irônico, porque, aos algozes, quando estes são de elite, são sempre defendidos, na "moral espírita", através da teoria do fiado. Os algozes cometem "das suas" e têm a oportunidade de "limpar o nome" mesmo causando danos irreversíveis, como se causar danos a outras pessoas fosse o mesmo que quebrar uns copinhos de vidro sem muito valor, desses em que se serve pinga nos bares.
Enquanto algozes cometem abusos mas têm a chance de seguir em frente, recuperar ou manter privilégios e encerrar a vida como se nada tivesse acontecido, os sofredores têm que acumular desgraças e ainda são desaconselhados a reclamar da vida. Depois a gente diz que o "espiritismo" brasileiro censura e os "espíritas" ficam choramingando de tristeza.
Como o palestrante "espírita" irá comentar a "pimenta nos olhos dos outros"? Será que fará declarações do tipo: "Enquanto você reclama da pimenta que arde no teu olho, sua falta de fé lhe nega a oportunidade da ardência lhe dar uma nova visão na vida. Ah, quanto reclamais do admirável tempero que lhe traz sabor nos teus olhos"?
É muito fácil defender o sofrimento usando palavras bonitas. Depois que Madre Teresa de Calcutá ter virado "santa" fazendo o que fez com os doentes, expondo-os ao contágio, na fome e sem higiene, e tratados com seringas contaminadas, perguntamos se muitos considerariam que os tiranos merecessem o Nobel da Paz apenas sustentando suas atrocidades com o aparato da filantropia e das palavras de amor.
Depois que, com a retomada ultraconservadora no mundo e sobretudo no Brasil, pessoas se sentiram na liberdade de mostrar seus aspectos mais cruéis, pode-se esperar tudo. E ver que os "espíritas" fazem apologia ao sofrimento humano, confundindo acumulo de desgraças com "rico aprendizado", é bastante chocante. Mas é algo que não podemos esconder só para manter as aparências do deslumbramento religioso e dos bonzinhos de fachada.
Afinal, é muitíssimo cruel defender o sofrimento do outro, dizer para o outro sofrer sem mostrar sofrimento, sem reclamar da vida. E isso é tão cruel porque o pregador religioso que diz isso é muito mais desgraçado do que qualquer tirano, porque comete a mesma atrocidade, mas se esconde pelo aparato das belas palavras, da pose paternal, e da fachada de atos filantrópicos que na verdade são fracos e só servem para ostentar o benfeitor pelo simulacro de algumas ações.
Assim, o palestrante "espírita" é justamente aquele que está muito mais distante do "caminho dos céus" que tanto sonha, mediante o balé de lindas palavras e o simulacro de bons sentimentos, um fingimento que esconde neuroses cruéis, irritações adormecidas pela etiqueta religiosa, essa "conduta" que demonstra mais ocultar maus sentimentos do que realmente acabar com eles.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Quando a vida de um 'ciberbully' se transforma numa tragédia
Era uma vez um rapaz, com boas relações sociais, razoável posição social e alguma influência entre os amigos de seu meio. Com um significativo nível de prestígio, porém, o rapaz também é um valentão da Internet. Não gosta de ver gente lhe passando a perna na ascensão social e também odeia discordâncias.
Sua grande mania é, paralelamente aos blogues "corretos" que realiza usando seu nome, desses que cortejam autoridades e estão em boa conta no status social dominante, ele cria páginas anônimas contra suas vítimas.
Ele estava discutindo com um internauta apenas por uma discordância pequena, mas de grande desagrado ao valentão. O valentão "perseguia" a vítima no Orkut, no Facebook, nos fóruns abertos de Internet, até no MSN Messenger. Até que resolveu ser mais agressivo.
Ele invadiu até petições de Internet, chamando uma meia-dúzia de amigos para participar da humilhação coletiva usando todo tipo de fake. Como a petição, organizada pela vítima, foi cancelada, o valentão resolveu fazer um blogue de calúnias e ofensas, sabendo que a vítima produz também suas próprias páginas na Internet.
Dessa forma, o valentão copiava textos, fotos e tudo o mais da vítima, no seu blogue apócrifo. Se divertia com esse lazer doentio e não se intimidava com críticas e advertências. Uma vez um amigo soube da página, e advertiu para o valentão:
- O fato de você e fulano (a vítima) discordarem seriamente de certas coisas não lhe dá direito a fazer um blogue de ofensas, ainda mais usando o material pessoal dele. Pode dar cadeia, rapaz, para com isso.
- Você não precisa me aconselhar, falou? - disse o valentão, arrogante. - Eu sou grandinho e sei me virar sozinho. Pago um advogado e consigo sair bem de qualquer enrascada. Mas eu acho que o cara (a vítima) é tão bunda-mole que não vai me denunciar, tá ligado?
O valentão começou a ser denunciado na Internet. Irritado, ele copiou o conteúdo particular que a vítima publicou depois. Uma foto de família foi usada, e o valentão, usando seu fake, comentava: "infeliz família que tem um cara desses como parente. Devem ter paciência para aturar um mala nojento desses".
Como ele recebeu crítica num fórum de Internet, o valentão, que sabia a procedência da vítima, foi para a cidade desta para intimidá-lo e ameaçá-lo, sob desculpa de tirar fotos para as redes sociais. É como se o valentão dissesse à sua vítima: "Estou na sua cidade, b*****. Cuidado comigo!".
No entanto, ele esperava a vítima e ela nunca aparecia. A vítima tomava conhecimento depois com as fotos atribuídas ao agressor publicadas na cidade de residência da vítima. O valentão, depois, continuou a reproduzir o conteúdo pessoal do ofendido. Até mandou recado para a vítima, sobre o conteúdo do calunioso blogue: "Atualizado! Vá lá: (endereço do blogue)".
Diante de protestos que continuam, quando a vítima escrevia nos fóruns sobre a maléfica iniciativa, o agressor voltava à cidade de residência da vítima. Fotografava os arredores da cidade, e, apesar da discrição, sua aparência agressiva chamava a atenção de alguns topiqueiros ligados a milícias locais que estranharam o jeito discreto mas com ar atrevido do valentão.
- Esse cara é da imprensa ou está tirando tempo para entrar na nossa área?
- Fica de olho nele. Não precisa avançar. Na primeira oportunidade, a gente dá um jeito no cara, convida para dar uma voltinha e dá um fim nele. Mas fica quieto.
A situação se repetiu umas três vezes. O valentão, de repente, viu um rapagão chegando perto dele, com ar aparentemente amigável. Este rapaz, na verdade um miliciano, logo se dirigiu a ele, fazendo uma pergunta aparentemente simples e com jeito descontraído:
- Cara, você deve ser um bom fotógrafo. Deve ser de fora, visita muito este lugar, não é.
- É, visito muito. - diz o valentão, desconfiado. Assim que ele disse, outros três homens se aproximaram do valentão, como se fossem cercá-lo, mas aparentemente tranquilos.
- Essa máquina é de profissional. Conheço ela. Eu quero que você passe ela para a gente analisar.
- Como assim? A máquina é minha, estou tirando fotos para a Internet.
- Calma. A gente quer apenas a maquininha emprestado, só para ver como funciona. A gente lhe dá uma graninha para você.
- Não, eu tenho material para publicar, vocês sabem.
- É bom seguir o conselho do cara. A gente está legal com você. - disse um comparsa do miliciano.
- Tem multidão andando na rua, faça o que a gente diz. - disse o segundo comparsa.
- E o que é que eu ganho com isso? - perguntou o valentão.
- Tu me dá teu e-mail e a gente entra em contato, falou? - disse o primeiro interlocutor. - Toma R$ 20 de adiantamento, falou?
- Na próxima visita, você faz um passeio com a gente, que a gente vai lhe mostrar o lugar, certo? - disse, com uma certa ironia,
Os caras saíram com a máquina. O valentão teve a máquina roubada. Os rapazes ainda olharam para trás para marcar a aparência do cara. Não o mataram naquela vez, mas pensaram em sequestrá-lo e matá-lo assim que o valentão visitasse novamente aquela cidade. O que o valentão fotografou foi perdido, assim como o acervo já gravado antes na máquina, parcialmente divulgado na Internet.
Enquanto isso, o valentão, de volta para casa, percebeu que recebeu uma notificação da Polícia Federal, no Facebook. Ele pensou que era brincadeira, mas a linguagem era formal demais para achar que alguém brincava com ele. O blogue ofensivo foi denunciado no portal SaferNet e investigadores chegaram ao protocolo de Internet relacionado a sua atividade.
O cara ficou irritado e foi desabafar com os amigos. Aquele amigo que lhe advertiu lhe escreveu:
- Eu lhe falei, rapaz. Você pensava que o ciclo seria sempre o mesmo, você ofender, ser criticado e depois ameaçar?
- Eu tive a máquina roubada! Eu não recebi o conteúdo de volta, o que os caras me pagaram não é nem metade do valor da máquina. Coisa de profissional!
- Eu avisei para você não sair por aí se achando o rei da área. Você não ouve aviso. Até quando falei que Jesus lhe daria o mesmo aviso, você disse: "Jesus Cristo só serve para me abençoar e fazer o que eu peço em oração. Eu falei que sei me virar sozinho, já sou muito crescido para isso".
- Aquele dedo duro vai me ver só!
E assim o valentão repetiu a mesma prática. Reproduziu conteúdo da vítima, mais uma vez, desta vez fazendo comentários ainda mais agressivos. Vasculhou uma foto da vítima, encontrou uma da infância e reproduziu com o seguinte comentário: "O maior pecado de você foi ter nascido". Procurando o perfil da vítima no Facebook, mandou uma mensagem muito violenta e ameaçadora: "Tua casa caiu, cara! Vou te visitar e sua boca vai ficar cheia de formiga!".
Voltou à cidade onde mora a vítima e, com outra máquina fotográfica, mais modesta, foi tirar fotos para as redes sociais. Ficou mais tempo no local, porque queria compensar o conteúdo perdido com um monte de fotos, para muitas postagens.
De repente, quando ele se agachava para tirar um ângulo diferente da paisagem, dois dos quatro homens que o interpelaram se aproximaram, e mais dois da outra ocasião e mais um deram uma leve corrida para perto. O miliciano que puxou o papo na outra ocasião lhe falou:
- Calma, cara! Tá nervoso, ficou com medo? A gente adorou suas fotos, tua máquina está em minha casa. - ele não revela que apagou o conteúdo e ficou com o objeto - A gente quer dar um passeio, porque tem um bar muito legal para a gente conversar e tomar um chope.
- É mesmo? - perguntou o valentão, um tanto assustado, mas tentando aparentar calma e simpatia.
- É, pode entrar. A gente te leva de van. Esta tem ar condicionado, clima aconchegante. Vamos entrando.
Alguns homens agiam como se forçassem o rapaz a entrar no veículo. Além dos cinco homens, um sexto foi dirigir o veículo, sussurrando para o líder do grupo - o que puxou o papo - sobre para onde o veículo iria. Em voz baixa, ouviu-se algo como "cê vai pr'aquele terreno que lhe falei".
O valentão, sentado no banco de trás entre dois dos cinco homens, ficou nervoso, mas os membros do grupo lhe diziam para o cara ficar calmo. O líder do grupo insistia em dizer que o valentão deveria ficar tranquilo, ele "fazia parte da família" e o grupo iria papear tomando um chope num bar em cidade vizinha.
De fato o grupo foi para um bar tomar uma rodada de chope, comer alguma comida e jogar conversa fora. Falaram, sobretudo, sobre futebol, o que deixou o valentão até alegre. Todos pareciam rir animadamente. Quem os via, pensava que era um encontro de grandes amigos.
Quando iam embora, o líder do grupo disse que daria uma carona para o valentão, e teriam que passar por um terreno baldio porque o carro estaria estacionado numa rua do outro lado. Mas, assim que chegaram ao terreno baldio, todos pararam e pareciam pensativos, até que um deles e mais outros sacaram o revolver e apontaram para o valentão.
Acusaram o valentão de "invadir a área" controlada pelos milicianos, e o valentão tentou desmentir. Disse que só apareceu na cidade para "zoar" com um "colega", coisa "nada demais", argumento que não convenceu os milicianos, que achavam que ele estava "muito crescido" para tais "criancices". A discussão ficou séria e o valentão levou dois tiros na barriga, morrendo em seguida.
Enquanto isso, o blogue ofensivo saiu do ar, depois de várias denúncias. Até os amigos do valentão acabaram revelando a ocorrência, preocupados com a atitude abusiva do rapaz, que poderia também desmoralizar os demais. A conta do valentão foi bloqueada. Os amigos só souberam da morte do encrenqueiro pela imprensa, e comentavam sobre o que levou ele a se atrever a tanta agressividade.
O que certas valentias podem causar...
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