segunda-feira, 7 de março de 2016

A surpreendente atualidade do livro de Attila Paes Barreto

ATÉ AGORA, NINGUÉM SEPAROU, OFICIALMENTE, O ESCRITOR HUMBERTO DE CAMPOS DE SEU OBSESSOR, CHICO XAVIER.

A contundente atualidade do livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto, um brilhante trabalho de jornalismo investigativo que mereceria ser lançado hoje nas livrarias, sofre o terrível desprezo num contexto de um Brasil culturalmente imbecilizado.

Em vez desse livro, original de 1944, ser lançado hoje ou, no mínimo, disponibilizado para download em arquivo PDF, uma série de bobagens favoráveis a Francisco Cândido Xavier é despejada em quantidades industriais nas livrarias "espíritas" ou nas seções específicas em livrarias comuns.

O esquecimento quase absoluto, digamos numa porcentagem de 99,99%, do livro de Paes Barreto, é algo bastante surreal, mas compreensível num contexto em que o jornalismo investigativo, no Brasil, é praticamente morto, limitado a pastiches sensacionalistas ou a coberturas caluniosas e fraudulentas feitas apenas para "incriminar" o Partido dos Trabalhadores sem apresentar provas.

A situação do "espiritismo" brasileiro é tão aberrante que adeptos de Chico Xavier, tomados do mais cego e histérico fanatismo, chegam mesmo a dizer "deixa ele mentir" e "deixa ele ser charlatão" - usa-se o termo no presente, porque, mesmo falecido há 14 anos, o "médium" influencia seus seguidores até hoje - sob o pretexto de que ele era "bondoso" e "ajudava muita gente".

Mas, para um "médium" que lançou uma acusação indevida e depreciativa contra as pobres vítimas da tragédia de um circo em Niterói - fato que completará 55 anos em dezembro deste ano - de terem sido "romanos sanguinários", e que defendia a ditadura militar no momento em que ela se revelava bem mais cruel e desumana, não pode ser considerado "o homem mais bondoso do Brasil".

O "médium" que, além de tantas irregularidades, expôs as tragédias familiares de pessoas anônimas, tirando-as de sua privacidade com a fama sensacionalista das supostas cartas de entes queridos mortos - na verdade forjadas pela própria imaginação de Chico Xavier, usando o recurso da "leitura fria", tirado do ilusionismo circense - , também teve suas crueldades.

Uma delas foi praticamente expressar sua obsessão doentia por Humberto de Campos. O autor maranhense, membro da Academia Brasileira de Letras, havia escrito, em 1932, no Diário Carioca dois artigos - na verdade, uma resenha em duas partes, devido a limites de espaço - de Parnaso de Além-Túmulo, no qual faz uma declaração irônica.

Ele aparentemente alegava semelhanças entre os poemas presentes no livro de Chico Xavier, mas deixava subentendido que essa era a "primeira impressão" de quem lê essa obra pela primeira vez. A ideia, no entanto, é usada pelos "espíritas" como suposta legitimação de Humberto da "mediunidade" de Chico Xavier.

Mas o ponto que deve ter desagradado Chico Xavier - então um jovem com intenções arrivistas de ascensão social - foi que Humberto de Campos, com seu habitual senso de humor, havia reprovado a concorrência de "obras de autores mortos" ao trabalho literário dos vivos.

Não se sabe por ironia ou por conta das "elevadas energias" de Chico Xavier, Humberto de Campos faleceu pouco depois, com apenas 48 anos, em 1934. Um ano depois, o "médium" teria inventado um sonho no qual Humberto se destacava de um grupo de pessoas e perguntava a Chico: "Você é o menino do Parnaso?". Era o pretexto para uma suposta parceria.

A "parceria" acabou causando uma revolta (de motivos justos e consistentes) dos meios intelectuais mais sérios. que viram, na obra atribuída ao "espírito Humberto de Campos", irregularidades bastante severas. O "Humberto de Campos" da pretensa psicografia destoava da obra do autor deixada em vida, por vários aspectos.

A escrita, embora pretensamente erudita, não era elegante e era muito rebuscada, diferente dos textos cultos mas acessíveis que Humberto publicou em vida. A temática, que em vida era voltada a temas culturais diversos, na "obra espiritual" se limitava praticamente a temas bíblicos ou lamentos de cunho moralista e igrejista.

Mas o pior são os vícios de linguagem, a narrativa cansativa, os textos maçantes. Nada de Humberto de Campos havia nos livros trazidos por Chico Xavier. Nada. Mas tentou-se um processo judicial que em nada resultou, o mito de Chico Xavier cresceu como um câncer e hoje Humberto de Campos só é lembrado como se tivesse sido um subproduto do "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba.

CHICO XAVIER BENEFICIADO PELA IMPUNIDADE

Isso é tenebroso. Chico Xavier é o maior caso de impunidade que se deu a uma pessoa no país. Uma impunidade que foi às últimas consequências. Pior: Chico Xavier praticamente virou o "dono do Brasil", e alvo da mais desesperada obsessão e do mais neurótico apego de seus seguidores fanáticos.

Attila Paes Barreto deu sua contribuição com o livro em que desmascarava Chico Xavier. Um livro de temas interessantes, com revelações contundentes que não podem sucumbir ao esquecimento. Um livro que deveria ser lançado hoje, queiram ou não queiram os chiquistas, porque a verdade vale muito mais do que uma adoração cega a um homem.

Os próprios "espíritas" se esquecem dos alertas de Erasto, que previu o inimigo interno da Doutrina Espírita, ou seja, alguém que destruiria a doutrina de Allan Kardec agindo não de fora, mas dentro de seus círculos. E todas as caraterísticas dos avisos alarmantes de Erasto se encaixam perfeitamente em Chico Xavier, e outras ainda correspondem exatamente a Divaldo Franco.

São caraterísticas de deturpação doutrinária, como ideias mistificadoras que vão contra a coerência científica de Kardec, textos rebuscados e prolixos, concepções levianas e sem nexo com a realidade, suposições de coisas que nem sabemos da existência (como as "cidades espirituais") e até mesmo a presunção de definir "datas fixas" para a transformação da humanidade, a brincadeira predileta de Divaldo Franco.

Em vez das pessoas se prevenirem contra tais embustes, elas glorificam os embusteiros e, o que é pior, criam-se aberrações de posturas que se tornaram intensas diante da hegemonia da postura "dúbia" do "movimento espírita" nos últimos 40 anos: exaltar Allan Kardec na teoria e seguir os deturpadores na prática.

O mais incrível: os "espíritas" dúbios ainda recorrem a Erasto, felizes da vida, como se Erasto estivesse no lado deles. Só que os "espíritas", em vez de preferirem rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira, preferem aceitar a mentira chamada Chico Xavier e recusam mil verdades que estivessem mais de acordo com a lógica e o bom senso.

O mais grave de tudo isso é que juristas, jornalistas, editores, acadêmicos e outras profissões que poderiam agir para desmascarar Chico Xavier, Divaldo Franco e outros deturpadores da Doutrina Espírita, ficam de rabo preso, hipnotizados pelos estereótipos de religiosidade e filantropia associados a esses figurões do "espiritismo" brasileiro.

Isso mostra o quanto o Brasil regrediu. Em 1944, os meios intelectuais poderiam desmascarar Chico Xavier apontando argumentos consistentes que comprovam que as supostas psicografias não eram mais do que fraudes literárias.

"NEOPENTECOSTAIS", POR PIORES QUE SEJAM, SÃO MAIS SINCEROS QUE OS "ESPÍRITAS"

Hoje, infelizmente, se permite que se montem "centros espíritas" usando nomes das "vítimas" de Chico Xavier, como Humberto de Campos e Auta de Souza, ou mesmo de outros nomes associados em suposições derivadas, como o médico Carlos Chagas que, por ter sido atribuído a uma suposta encarnação de André Luiz (na verdade, personagem fictício com o nome do finado irmão de Chico Xavier), também teve o nome usado para um "centro espírita".

Tudo virou bagunça e o "espiritismo" cometeu crimes sérios de falsidade ideológica aqui e ali. Isso é muitíssimo grave e mostra o desrespeito dos mais deploráveis contra os espíritos que passaram por aqui e que nem sempre foram reconhecidos pela sua contribuição artística, intelectual e, simplesmente, humana.

O que o "espiritismo" fez em seus 131 anos, de responsabilidade não só de "centros espíritas" menores mas também de muito "peixe grande" que só recebe adoração e devoção dos mais extremos, o põe para abaixo das piores seitas neopentecostais, que com todos os retrocessos sociais que defendem, pelo menos são muito mais sinceros em suas mistificações e visões surreais do mundo.

Perdidos num sucessivo malabarismo discursivo, em que tentam dizer uma coisa e fazer outra, dizer uma coisa e dizer outra e arrumar desculpas aqui e ali que, separadas, parecem até convencer as pessoas, mas juntas, se chocam em contradições preocupantes, os "espíritas", tão vangloriosos em defender a ética, acabam cometendo desonestidades doutrinárias das mais nocivas.

E é por isso que há a necessidade de lançamento do livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto. Um livro urgente, cheio de revelações consistentes, e que só incomodam as pessoas que ficam presas na complacência viciada a ídolos religiosos, como os antigos adoradores de totens que até Moisés e Jesus de Nazaré tanto reprovaram.

domingo, 6 de março de 2016

No Brasil, se deturpa até a cultura nerd

VINGANÇA DOS NERDS E SE BEBER, NÃO CASE - Respectivamente, o original e a deturpação da cultura nerd.

No Brasil, costuma-se deturpar tudo. Doutrina Espírita, radialismo rock, feminismo, mobilidade urbana, tudo tem seu sentido original desvirtuado em nome de uma "novidade" que é sempre dilapidada e distorcida para não romper com paradigmas velhos, o que dá ao "novo" um aspecto estranho em relação ao original e uma maior proximidade ao que está "velho".

É aquela coisa. Deturpa-se uma novidade para não ameaçar estruturas velhas, e aí a novidade acaba buscando mais proximidade com o sistema de valores que poderia romper do que à verdadeira novidade que surgiu lá fora. Vide o "espiritismo" que se fundamenta em valores antiquados trazidos pelo Catolicismo do Brasil colonial, de herança portuguesa e medieval.

Até a chamada "cultura nerd", termo que anda eventualmente em moda na grande mídia - sobretudo quando ocorrem eventos como o Campus Party, espécie de "primo pobre" do San Diego Comic Con - , é deturpada até eliminar toda a essência original.

E como surgiu o termo nerd? Em inglês, a palavra significa "lerdo". Originalmente, era uma gíria que os valentões da escola se referiam pejorativamente a tipos de rapazes desajeitados, embora muitíssimo inteligentes, que tinham problemas na vida amorosa e tinham uma vida quase reclusa.

Com a cultura contemporânea, vieram artistas e famosos que se tornaram conhecidos pelo estilo de vida nerd: Buddy Holly, a banda estadunidense Devo e o cantor britânico Morrissey. Embora o perfil de nerd seja marcado pelo jovem franzino de óculos com aros grossos, nem todo rapaz de óculos é necessariamente um nerd.

Aliás, filmes como Vingança dos Nerds (Revenge of the Nerds) descreveram e popularizaram o perfil do nerd e as humilhações que eles recebiam dos valentões da escola. O filme foi um dos mais populares dos anos 80.

Tempos depois, porém, o perfil nerd passou a ser deturpado, em menor escala nos EUA do que aqui no Brasil. O nerd passou a ser o fanfarrão que não gosta de fazer barba nem de ficar em forma, mas passa muito tempo na Internet e gosta de revistas em quadrinhos e seriados de ficção científica.

Filmes como Se Beber Não Case (The Hangover) já começavam a trabalhar uma visão deturpada do nerd, tirando dele alguns aspectos que lhes são próprios, como a dificuldade amorosa e o fato de viverem reclusos e solitários. O "nerd" passa a ser um fanfarrão "bem de vida".

E como o Brasil sempre toma gosto da deturpação, confundindo entender mal com ter originalidade, o conceito de nerd foi alterado de tal forma que hoje ele está mais próximo dos valentões que espancaram os verdadeiros nerds do que suas vítimas propriamente ditas.

Ser nerd, no Brasil, tornou-se algo anti-nerd. Um fanfarrão grosseiro, um brutamontes afeito a piadas grotescas, um garanhão que fala errado e comete pequenas gafes, um garotão que mais parece líder de turma e que se acha "nerd" só porque fica mais de quatro horas diante de um computador ou um smartphone.

A "nova definição", que como em toda deturpação sempre põe o "novo" em bases velhas, mostra um "nerd" à semelhança dos que antes humilhavam os nerds, e a grande mídia sentiu a onda ao colocar o truculento Rafinha Bastos (que, durante a gravidez da cantora Wanessa Camargo, fez comentários sexualmente levianos) como "nerd", na capa de uma revista da Editora Abril, a mesma que edita a ultrarreacionária Veja.

Para piorar, muitos praticantes de trolagem, de forma ao mesmo tempo arrogante e leviana, se autoproclamavam "nerds" só porque falavam palavrões, publicavam piadas, se comportavam como psicóticos nas mídias sociais etc. Psicopatas digitais que tentam se definir como o oposto que são, já se definiram como "alternativos" seguindo o mais rasteiro do mainstream e se autoproclamavam "esquerdistas" defendendo visões de extrema-direita.

Os próprios troleiros continuam fazendo bullying com os verdadeiros nerds (os que não podem mais serem definidos como tais) e impondo a eles papéis humilhantes: desejar mulheres fúteis (como as "boazudas" siliconadas), ver filmes de pancadaria, torcer por futebol e viver a vida só se embriagando, como alcoolistas.

O jogo das aparências, como também ocorre no Brasil, em que a forma deturpada tenta alguns clichês da expressão original para se passar por "autêntica" - como um produto falsificado que imita as caraterísticas do original - , também faz os falsos nerds tentarem alguns aparatos.

É aí que, por exemplo, alguns blogues supostamente associados à "cultura nerd" tentam falar de temáticas nerds, como colecionar bonecos de Star Trek dentro de embalagens, ver comédias juvenis no sábado à noite com um copo de achocolatado em pó e biscoitos recheados, ser perito em Ciências e falar em física quântica numa conversa entre amigos etc.

Só que aparências, neste caso, só acobertam a essência, que lhes é oposta. E é o que vemos no "espiritismo" brasileiro, em que tão confusamente se defende o "respeito rigoroso a Allan Kardec", no discurso, enquanto na prática o pensamento do pedagogo francês é desrespeitado o tempo inteiro.

E assim o Brasil confunde deturpação com originalidade, o que compromete a real compreensão das novidades de fora e um melhor condicionamento para adaptá-las à realidade nacional. Entende-se mal o que é de fora e não se entende o que ocorre aqui dentro, e, sem entender o nacional e o estrangeiro, assimila-se mal o que é de fora com a abordagem confusa do que se tem dentro. Com isso, o Brasil continua sendo antiquado mesmo quando tenta parecer novo.

sábado, 5 de março de 2016

O endeusamento dos logotipos de governos nos ônibus e a divinização dos tecnocratas do Transporte


A sociedade do Estado do Rio de Janeiro paga o preço caro da religiosização e do endeusamento das coisas. No transporte coletivo, que envolve o direito de ir e vir e o deslocamento das pessoas sobretudo entre a casa e o trabalho, ou entre a casa e os estudos, os prejuízos surgiram e cresceram em virtude de secretários de Transportes aos quais foram atribuídos "poderes divinos" e decisões "irreversíveis", como se fossem mandamentos moisaicos.

É o preço caro da aceitação bovina. Com o transporte coletivo, vieram os intragáveis ônibus com pintura padronizada, porque muitos acreditavam que o simples carimbo de um logotipo de prefeitura nas frotas de ônibus, com diferentes empresas exibindo uma mesma pintura, iria trazer o milagre da "mobilidade urbana" com ônibus refrigerados, alongados e de chassis de marcas suecas (Volvo e Scania), como se isso fosse, por si só, sinônimo de transporte coletivo perfeito. E não é.

Afinal, ônibus refrigerados, com chassis sueco e alongados (como BRTs) podem ser sucateados, circular com parafusos soltos, enguiçar no meio do caminho. As arbitrariedades que a Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro (SMTR), em todas as suas gestões (Alexandre Sansão, Carlos Roberto Osório e, agora, Rafael Picciani), impuseram e se acumularam ao longo de seis anos transformaram a antiga Cidade Maravilhosa (que há tempos não faz jus a esse título) num caos.

Hoje autoproclamado "progressista", já que a família Picciani decidiu "apoiar" Dilma Rousseff para garantir as verbas públicas para o Rio de Janeiro, sem precisar tocar na fortuna desses familiares, Rafael Picciani está atuando de forma comparável ao prepotente deputado federal Eduardo Cunha, que antes era apoiado pelos seus familiares e com quem romperam em seguida.

EDUARDO CUNHA TAMBÉM QUERIA "RACIONALIZAR" E "OTIMIZAR" O MERCADO DE TRABALHO, COM TERCEIRIZAÇÃO

É só observar o discurso "técnico" de Rafael Picciani. Ele reduz percursos de linhas, extingue outros percursos, e diz que está "otimizando" e "racionalizando" o sistema de ônibus. Se esquece do amplo fluxo de automóveis e acha que, com menos ônibus nas ruas, o trânsito irá "fluir melhor". Com o fim de linhas funcionais, substituídas por "alimentadoras" e "troncais", o povo está sofrendo terríveis infortúnios. Os cariocas não sabem, mas Eduardo Cunha, quando queria, por exemplo, terceirizar o mercado de trabalho, também apelou para o mesmo discurso "otimizado" de seu antigo protegido Rafael Picciani.

Não bastasse a confusão de pegar um ônibus padronizado - o ônibus da linha 232 tem as mesmas cores do da linha 378 - , as pessoas agora são obrigadas a pegar mais de um ônibus, enfrentar o desconforto do segundo, terceiro ou até quarto ônibus, e, com menos ônibus nas ruas e trajetos mais curtos, as esperas ficaram mais longas e os passageiros sofrem mais transtornos.

Uma passageira chegou a ser vítima de assalto enquanto esperava um ônibus. Teve que apelar para o carro do pai para levá-la e buscá-la ao trabalho.
Outra passageira teve que viajar em pé, antes de passar pelo torniquete, para "economizar" a memória do Bilhete Único, porque o itinerário da linha "alimentadora" esgota a validade do cartão eletrônico, e ela iria desembarcar com a obrigação de pagar mais uma tarifa.

Passageiros estão pagando mais por um serviço cada vez pior. Os ônibus estão sucateados. Cobradores de ônibus foram em massa para o olho da rua por causa da dupla função do motorista-cobrador. Ônibus com pintura padronizada favorece o troca-troca de empresas por linhas, ou mudanças de nomes e de razões sociais - empresas são extintas e criadas sob o véu da pintura padronizada - , e os passageiros são os últimos a saber.

Só que ninguém combate a pintura padronizada, nem o Movimento Passe Livre põe o problema em sua pauta. A medida que "esconde" as empresas de ônibus da população, a pintura padronizada favorece a corrupção político-empresarial, aumenta a burocracia na hora de transferir carros de uma zona de bairros para outra, encarece os custos devido à repintura e traz sérios prejuízos para os passageiros.

Mesmo assim, as pessoas acham que a pintura padronizada "nada tem a ver" com os problemas. Acreditam que "papai do céu" fará com que, mesmo sob esse "baile de máscaras" do transporte coletivo, a situação vai melhorar.

TEOLOGIA DO SOFRIMENTO NA "MOBILIDADE URBANA"

Será preciso que se adote a padronização também em embalagens de cerveja e camisas de times de futebol para o pessoal sacar o problema? Imagine cervejas de diferentes marcas, como Itaipava, Brahma, Bohemia ou mesmo as estrangeiras Heineken e Budweiser, terem uma mesma embalagem da Anvisa? E o Flamengo e o Fluminense jogando exatamente com o mesmo uniforme, com o logotipo da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ). As cervejas ficarão mais "saudáveis" por causa da embalagem padronizada? Os times cariocas ficarão mais competitivos porque exibirão um único uniforme?

O grande problema é que há o endeusamento dos logotipos de prefeituras e, em outros casos, de governos estaduais, nas frotas de ônibus. Como se um logotipo de prefeitura fosse uma espécie de Jesus e Jaime Lerner, o Deus, sendo o secretário de transportes de plantão, mesmo se for um ricaço como Rafael Picciani (que nunca viajou de ônibus na vida), seus sacerdotes divinos.

É esse endeusamento que faz as pessoas não reagirem contra arbitrariedades porque pensam que elas são "sacrifícios necessários" para "benefícios futuros". Sim, a Teologia do Sofrimento embarcou na ideia da "mobilidade urbana" e impôs o martírio dos ônibus padronizados, de motoristas sobrecarregados entre o volante e o dinheiro das passagens, dos trajetos reduzidos, do Bilhete Único que se esgota rápido, das longas esperas de ônibus que fazem a alegria de ladrões, dos ônibus lotados.

A "batina medieval" da pintura padronizada, o calvário da população enfrentando longas esperas por ônibus, veículos lotados e mais gastos em passagens, esperando pelo milagre supérfluo dos ônibus refrigerados, com motor de marca sueca e comprimentos longos (como BRTs), mostra o terrível processo da religiosização, quando ela envolve secretários de Transportes tecnocráticos que são transformados em "deuses" e "possuidores da verdade absoluta".

Aí as pessoas acreditam que não se pode voltar atrás, cancelando a pintura padronizada e devolvendo às empresas de ônibus o direito e o dever de apresentar a identidade visual (que traz maior responsabilidade da empresa, quando mostra uma "cara" própria) ou reativando linhas longas desativadas pela "integração do Bilhete Único". Acham que os tecnocratas do Transporte sempre são "sábios" e agem "em benefício" das pessoas, mesmo quando trazem prejuízos, que muitos acreditam serem "sacrifícios necessários" (Teologia do Sofrimento).

Com isso, as pessoas são sempre prejudicadas e, quando muito, as autoridades e os tecnocratas só fazem "pequenos ajustes". Eles apenas alteram as coisas de forma paliativa, "solucionando" sem eliminar os problemas, como colocar logotipos pequenos de empresas ou permitir pequenas exibições de nomes, sobretudo em letreiros digitais.

Rafael Picciani, o "Eduardo Cunha sobre rodas", pensa em fazer possíveis "ajustes" nas linhas esquartejadas. Sempre no seu discurso "correto", com alegações pretensamente racionais, que apenas mascaram todas as mistificações e o jogo do status quo que o deslumbramento da religiosização traz, transformando pessoas autoritárias em divinas, apenas por questões de poder e visibilidade. As pessoas se prejudicam com posturas assim e acabam sofrendo as piores consequências de deixar que pessoas assim decidam pela população, na medida em que as autoridades e os tecnocratas desconhecem a verdadeira noção de interesse público.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Trolagem na Internet: nota zero em respeito humano

O ATOR NIZO NETO, COMO SEU PTOLOMEU DA ESCOLINHA DO PROFESSOR RAIMUNDO.

A trolagem na Internet foi longe demais. Diante do drama dificílimo do ator Nizo Neto, filho de Chico Anysio com a vedete Rose Rondelli e conhecido dublador de Matthew Broderick em Curtindo a Vida Adoidado, Jon Cryer em A Garota de Rosa Shocking e Sean William Scott em American Pie, os sádicos internautas não conseguem ter um pingo de respeito.

Desde o dia 23 de fevereiro, Nizo, mais conhecido como o Seu Ptolomeu da Escolinha do Professor Raimundo e integrante do elenco do humorístico Zorra, da Rede Globo, enfrenta a dor de ter um filho desaparecido há vários dias. Rian Brito, visto pela última vez no referido dia. O corpo de Rian, que era músico, foi encontrado numa praia em Quissamã, no Norte fluminense.

Diante da natural preocupação de um pai com um filho desaparecido (antes do corpo ser encontrado), Nizo foi vítima de piadinhas grosseiras e palpites não só desnecessários como jocosos sobre o paradeiro de Rian.

Com muita razão, Nizo ficou irritado e chamou os internautas que fizeram tais "gracinhas" de imbecis. O meio-irmão e parceiro Bruno Mazzeo, solidário a Nizo, também pediu respeito aos internautas.

A trolagem foi longe demais, e isso numa época em que se divulgou a frase de Humberto Eco, falecido no mês passado, sobre a imbecilidade nas mídias sociais. Eco lamentava que, em outros tempos, o imbecil só falava em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade, mas hoje o "idiota da aldeia" quer ter o mesmo direito à palavra de um Nobel da Paz.

Eco havia dito que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, e o drama existente na Internet é que o idiota da aldeia foi promovido a portador da verdade. Pior: o fato de vários desses imbecis serem "divertidos" e terem "senso de humor", mesmo pessoas com algum nível de esclarecimento dão ouvidos a ele e acabam o apoiando até nas trolagens.

DEFESA DO "ESTABELECIDO" E DE PRECONCEITOS SOCIAIS

As trolagens da Internet, no Brasil, revelaram duas posturas básicas dos imbecis digitais que preferem perder o tempo humilhando os outros: uma é soar como uma espécie de "cão-de-guarda" do "estabelecido", outra é manifestar o zelo de antigos preconceitos sociais.

No primeiro caso, internautas costumam "bagunçar" contra quem não aceita medidas e fenômenos estabelecidos pelo poder da mídia, da política, da tecnocracia e do mercado. A ideia é ridicularizar quem contesta ideias e procedimentos trazidos por pessoas dotadas de status (fama, diploma, dinheiro e comando), manifestando confiança cega em modismos e pretensas novidades.

A programação "roqueira" (extremamente ruim) da FM carioca Rádio Cidade, a pintura padronizada nos ônibus (quando diferentes empresas de ônibus têm o mesmo visual), a música popularesca (como o "funk" e o "sertanejo") e a gíria "balada" popularizada por Luciano Huck são algumas das "bandeiras" defendidas pelos troleiros (trolls).

No segundo caso, os preconceitos sociais se referem a papéis pré-estabelecidos para os diversos extratos da sociedade. Para eles, negros só têm que ser jogadores de futebol e funqueiros, rebolar e tocar percussão. Nerds só podem namorar mulheres siliconadas. Gays não podem ser deputados federais, se limitando a serem estilistas de moda ou coisa parecida.

Se essas minorias sociais rompem com os papéis pré-estabelecidos pela sociedade conservadora, os troleiros partem para a agressão. Eles não toleram sequer cabelos crespos ou cacheados, que na sua cegueira preconceituosa definem como "cabelo de esponja de aço).

Ataques racistas, machistas e homofóbicos foram despejados na Internet. Personalidades como as atrizes Sheron Menezzes, Cris Vianna e Taís Araújo, a jornalista Maria Júlia Coutinho e a professora universitária Lola Aronovich foram vítimas de tais ataques.

Em muitos desses ataques, troleiros combinam com "amigos" em comunidades da Internet para mandar mensagens em grupo, num horário previamente marcado, forjando um bate-papo digital (chat) em que, num primeiro momento, ironias são escritas, que depois se evoluem para gozações e daí para ameaças ou ofensas ainda mais pesadas.

Os troleiros, não obstante, também organizam páginas caluniosas contra as vítimas, chegando a ponto de usar fotos pessoais destas ou copiando indevidamente textos e outras atividades relacionadas. Um exemplo do que um troleiro é capaz de fazer é reproduzir uma foto de infância da vítima com a mãe e colocar na legenda: "É essa a puta"?

Mas a coisa não pára por aí. Os psicopatas digitais chegam mesmo a ultrapassar os limites das agressões digitais, combinando com um grupo de rapazes a ir para onde seus desafetos declararam morar para intimidá-lo e esperar ele chegar para fazer alguma agressão.

TROLEIROS VIRAM "VIDRAÇA"

Fanáticos pela programação "roqueira" da Rádio Cidade - emissora que foi pioneira em ser reduto de troleiros e antecipou o reacionarismo hoje visto na Jovem Pan de São Paulo, já que os "ouvintes roqueiros" desejavam, entre outras coisas, o fechamento do Congresso Nacional e a extinção do Poder Legislativo - chegaram a divulgar uma emboscada, "convidando" desafetos a irem para uma festa onde um locutor da Rádio Cidade atuava como DJ.

Um busólogo desesperadamente fanático pela pintura padronizada nos ônibus cariocas e histérico defensor de Eduardo Paes, que em sua insanidade não aceitava sequer críticas à Transmil (extinta empresa marcada por sua frota sucateada e velha, mas controlada por "peixes grandes" da política e do Judiciário fluminenses), chegou a ir várias vezes a uma cidade onde moravam desafetos.

As visitas, no entanto, eram tão frequentes que, segundo relatos, os milicianos que controlam o sistema de vans começaram a observar o busólogo "valentão" (cuja aparência robusta seria confundível com um miliciano rival) e, sem reagir, apenas o olhavam como quem faz marcação. Segundo se diz, quase que o busólogo brigão abriu seu peito para os fuzis da "máfia das vans", já associada ao assassinato de uma juíza.

Há poucos meses, dois jovens da alta sociedade, ao verem o compositor Chico Buarque deixar um restaurante após jantar com o amigo e cineasta Cacá Diegues, cercaram o autor de "Apesar de Você" e "A Banda" através de declarações do tipo "Petista, vá morar em Paris. O PT é bandido", iniciando uma grave discussão.

Com tantos episódios desse tipo, vieram então os "engraçadinhos" que não respeitam a angústia de um pai, independente dele ser famoso ou não, sofre em ter um filho desaparecido e depois encontrado morto. Um pai assim perde o sono com tal angústia e tristeza, e os internautas não conseguem perceber isso quando despejam comentários jocosos ou irônicos.

Diante de tantas situações, os "valentões" que um dia eram os "detentores da verdade absoluta" na Internet e faziam impor seu "mundinho" de convicções pessoais e ídolos e valores pré-estabelecidos, "na moda" ou "de sucesso", passam a virar "vidraça" quando até mesmo um famoso escritor e estudioso em Comunicação chama os "miguxos" de imbecis.

Se irem longe demais, os troleiros um dia sofrerão até atentados nas ruas, sofrendo represálias pela "zoação" sem limites. Com nota zero em respeito humano, os troleiros costumam brigar com quem querem, mas receberem reações de quem não desejam nem esperam tais atitudes.

E não é pelo preconceito à histeria juvenil e nem uma declaração de um idoso defendendo velhas convicções. Até porque, mentalmente, Umberto Eco era bem mais moderno e tinha uma visão muito mais aberta que os jovens troleiros, que na verdade são pessoas de mentalidade medieval travestidas de rebeldes de discurso agressivo, vocabulário arrojado e comportamento cínico.

Na verdade, os "velhos" são os troleiros que, como lembra a letra de "A Dança", de Renato Russo, se achavam "tão modernos" por uma questão de idade, mas passando essa fase, tanto faz eles serem considerados antiquados ou não. Os troleiros de hoje são os equivalentes do deputado Eduardo Cunha amanhã.

quinta-feira, 3 de março de 2016

"Espiritismo" instrui muito mal os pais de família


OS PAIS DE FAMÍLIA SÃO ESTIMULADOS PELO "ESPIRITISMO" A VER SEUS FILHOS DESTA FORMA.

O "espiritismo" brasileiro infantiliza os adultos, criando neles perspectivas exageradas sobre a vida. Através de um conteúdo ideológico cheio de mitos, dogmas, pretensiosismos e fantasias, o "espiritismo" cria nos adultos um modo atrofiado de ver a vida, mesclando ideias conservadoras, fantasias infantis e uma série de falsos argumentos pretensamente racionais.

Os pais acabam tendo expectativas exageradas aos filhos, achando que eles são super-heróis e capazes de resistir a tudo, com isenção emocional e capacidade descomunal de jogo de cintura para aceitar qualquer coisa e enfrentar qualquer dificuldade.

Os pais são induzidos ao envaidecimento da experiência material do tempo cronológico. Se acham simbólicos detentores da verdade, da sabedoria e de uma experiência de vida que nem sempre foi acertada. E ainda mais num contexto muito complicado em que o Brasil vive hoje, sem grandes mestres para dar serenas lições de vida.

MEIA-IDADE INSEGURA

É chocante e nem sempre aceitável, mas bastante verídica a situação de que pessoas chegam aos 60 anos praticamente impotentes de dar, da forma organizada, constante e segura de gerações anteriores, lições definitivas de vida e de experiência.

Pessoas chegam aos cabelos brancos, à experiência profissional à beira da aposentadoria, em vários casos passando por cargos de liderança, e ganham seus primeiros netos, mas são tão inseguros em passar uma lição de vida quanto adolescentes de 15 anos. Chega-se à meia-idade com a insegurança que só se imaginava nos tenros anos da adolescência.

Isso parece estranho, mas tem seu contexto histórico que escapa aos limites simplórios da religião. Afinal, quem está na casa dos 60, 65 anos nasceu na primeira metade dos anos 1950 ou no começo da segunda metade. Quando entraram na faculdade, o Brasil viveu a pior fase da ditadura militar e essa geração era proibida de expressar suas ideias e sonhos.

Daí que eles tiveram um ensino superior que só lhes ensinava a saber trabalhar e ganhar dinheiro. Na época era impossível estimular e desenvolver um idealismo humanista e os projetos de realização pessoal se limitaram tão somente a obter um emprego, se casar e ter filhos.

No atual estado de incompreensão das coisas, dizer que as finalidades da pessoa são apenas ganhar dinheiro e formar família parecem satisfatórias e perfeitas, mas a verdade é que a vida tem outras necessidades, outras questões, que o período ditatorial havia proibido aos brasileiros de desenvolverem, sob pena de serem presos, torturados e até mortos.

Com essa castração, os jovens de 1969-1978, época de vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), perderam todo o período de trabalhar seus ideais e se transformaram em pais caretas, em trabalhadores workaholic, e chegaram já aos 50 anos, cerca de dez anos atrás, bastante confusos e apressados. Queriam ter 50 anos com bagagem mental de 75, para compensar a juventude perdida.

CONFUSÃO DIANTE DAS TRANSFORMAÇÕES DA VIDA

Os pais de família acabam se tornando confusos, e hoje as pessoas na casa dos 60 anos, em vez de serem impelidas a ensinar a experiência de vida, estão reaprendendo a viver. Pessoas grisalhas e dotadas de cargo de comando são hoje obrigadas a repensar o lazer e até a alimentação, e, em vez de transmitir valores mais antigos, são obrigados a repensá-los e adquirir valores novos.

Os "coroas" são cada vez mais obrigados a "rejuvenescerem", um processo que era considerado doloroso, desagradável e repulsivo para as pessoas de meia-idade. Ter 60, 65 anos e, em vez de ter a bagagem mental de 75, 80, ter que apreciar referenciais de 25,30 anos, tornou-se a regra que deixa os "coroas" ainda mais transtornados.

Eles são aconselhados não apenas a atualizar seus equipamentos eletrônicos e outros utensílios como passam a repensar gostos e hábitos. Um homem que hoje tem entre 62 e 65 anos, que na juventude ouvia Eagles e Led Zeppelin e, aos 50 anos, "descobriu" Frank Sinatra, terá que seguir seu começo de velhice redescobrindo Renato Russo e trocar as festas de gala pelos festivais de rock.

Para quem tem entre 50 e 65 anos, ter uma bagagem de pessoa idosa é uma grande tentação. É como um adolescente testando a direção de um automóvel ou ganhando o ingresso para ir a uma casa noturna pela primeira vez. Mas o processo acaba sendo desvantajoso, ainda que os "coroas" achem que "têm direito" de parecerem "velhos de verdade".

O risco de doenças relacionadas à gordura e ao uso de cigarro e álcool, as dores nas articulações provenientes no uso excessivo de sapatos "elegantes" - como as sandálias de salto muito alto que fazem as mulheres se sentirem como se estivessem na corda bamba e os sapatos de verniz com solas duras que fazem os homens preferir a vaidade pessoal ao conforto dos pés - , além de outras frescuras adultas, andam causando decadências e até mortes entre as pessoas de meia-idade.

Até falar sobre política em festas infantis, algo que era considerado normal na vida adulta, acaba sendo doloroso para as pessoas de meia-idade, que "queimam demais" as mentes para forçar uma inteligência versátil falsa para ser mostrada em relatos sobre o que viram na televisão, nos jornais e nas revistas dos dias anteriores.

Se o contexto geral revela uma insegurança nas pessoas de meia-idade, que se mostram bastante confusas diante da transformação de valores da sociedade nos últimos anos, dentro do "espiritismo" a situação se torna ainda mais caótica.

PAIS SONHADORES DEMAIS

Os pais de família de inclinação "espírita" não conseguem perceber a complexidade de um "mundo cão" em contraste com a "bondade" de sua religião. São dois mundos que acreditam serem separados, com a desconfiança exagerada na sociedade comum e na credulidade extrema na sua seita religiosa.

Perdidos entre necessidades espiritualistas de equilíbrio moral e comportamental, e a eficiência materialista de "vencer na vida" e deixar "tudo em ordem", eles passam a ver nos seus filhos criaturas extraordinárias, dotadas de todas as capacidades de lidar com os problemas da vida.

Isso cria nos pais uma conduta ao mesmo tempo moralista, exigente demais e sonhadora, além de ter incompreensão sobre os problemas complexos da vida. Acham que os filhos deveriam ser felizes apenas porque têm casa, comida e cama para dormir, mas não percebem que os filhos também têm outros problemas que lhes angustiam.

Quando os filhos estão desempregados, os pais se perdem quando às vezes querem que os filhos trabalhem nas tarefas de casa e lutem para ter um emprego. Ficam indecisos em desejar se os filhos têm que trabalhar em casa ou trabalhar fora, e em seus surtos de cobranças extremas exigem demais dos filhos.

Pais e mães desconhecem que filhos têm vocações específicas, têm necessidades próprias, escolhas particulares. Através dos pais, o "espiritismo" transmite essa noção de vida humana "qualquer nota", em que tanto faz um sujeito com vocação para ser um intelectual se transformar num faxineiro de um hotel decadente.

Existem dificuldades pesadas, que as más energias as tornam ainda mais graves, e os filhos é que se tornam culpados por não superar essas dificuldades, pouco importando os obstáculos e outras adversidades.

Fica fácil para os adultos exigir que os mais jovens abram mão de seus talentos, de suas vocações e de seus princípios, que se sujeitem a patrões incompetentes e tirânicos e lutem demais por pouca coisa, pegar um cônjuge que estiver ao alcance imediato e levar uma vida "qualquer nota".

Os pais acabam obtendo um idealismo tardio e confuso, eles que na juventude foram proibidos de desenvolver desejos e necessidades. Eles foram educados num contexto de pesada hierarquização familiar, em que o tempo biológico, material, condiciona o nível hierárquico que não se vale necessariamente pela experiência espiritual e social, mas pela certidão de nascimento.

Daí que as energias confusas sobrecarregam os mais jovens. De vez em quando, um pai ou mãe "espírita" vê um filho morrer de repente, muitas vezes de uma tragédia de fácil prevenção. E aí os pais ficam confusos, transtornados, pois apostaram todo o futuro neles e não sabiam de suas limitações, transtornos e tudo o mais.

Aí aparece o lado sombrio do "espiritismo", que pelas suas contradições doutrinárias - é uma das poucas doutrinas que desobedece os conselhos do próprio precursor, Allan Kardec - traz energias traiçoeiras, já que as contradições acabam atraindo a ação de espíritos levianos.

É por isso que a religião "espírita" costuma sacrificar os jovens e travar o novo em detrimento da preservação dos mais velhos. Mas isso vem da própria essência doutrinária da religião brasileira, marcada pelas suas ideias ultraconservadoras e seu misticismo e moralismo medievais.

Com isso, os pais de família não são preparados pelos "ensinamentos espíritas" para promover uma família saudável, prevenir tragédias e rever seus valores adultos de vez em quando. Apegada a hierarquias familiares e desconhecendo o fato de que a família é uma instituição material e transitória, a moral "espírita" se perde no obscurantismo de seus valores antiquados e se mostra impotente em encarar as transformações do tempo de cabeça erguida.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Críticos da deturpação são complacentes à mediunidade irregular


A deturpação da Doutrina Espírita cresceu de tal forma que mesmo seus críticos, em sua maioria, se acostumaram a ela. Como a deturpação "não faz mal" e, com todas as irregularidades, o "espiritismo" brasileiro pelo menos virou a "religião da bondade" (como se bondade pudesse se limitar a uma religião), todos vão dormir tranquilos e felizes.

Como aparentemente soam "superados" os esforços de Milton Barbosa (advogado dos herdeiros de Humberto de Campos), Attila Paes Barreto, Osório Borba ou mesmo o sobrinho de Francisco Cândido Xavier, Amauri Xavier Pena, misteriosamente falecido há 55 anos (queima de arquivo?), todas as irregularidades do "movimento espírita" são aceitas confortavelmente, sem a menor chance de uma investigação séria.

O próprio mercado da visibilidade filtra possíveis investigadores. Um Christopher Hitchens brasileiro existe, realmente, mas ele é barrado na entrada dos primeiros cursos de pós-graduação, não pode lançar livros em editoras famosas - que, no âmbito do Conhecimento, só aceitam, quando muito, publicar livros sobre Segunda Guerra Mundial - e, na Internet, mal conseguem fazer blogues para serem lidos por uma dezena e meia de pessoas (e nem sempre concordando).

Documentário, então, nem pensar. Ninguém vai patrocinar filme que investiga as irregularidades de Chico Xavier. Ninguém. "Não vou vincular minha empresa a um trabalho desses contra um homem de bem", diria cada um dos patrocinadores. Até a Igreja Universal do Reino de Deus pensaria duas vezes se quiser financiar um documentário desses.

Sem respaldo, o repórter ou o cineasta investigativo fica perdido no caminho. O Brasil é um dos piores lugares para se investigar qualquer coisa. O pessoal sai babando com os trabalhos do juiz Sérgio Moro mas ele não passa de um "caçador de bruxas", duro demais com os políticos do PT, omisso com os políticos do PSDB, investigando um barquinho de Lula que pensa ser iate, ignorando o propinoduto que Aécio Neves combinava a preços extorsivos com diretores da Petrobras.

Se vemos essa atitude desigual do "herói da pátria" Sérgio Moro, imagine então, num contexto ainda mais atrasado, em que o termo "falsidade ideológica" ainda era desconhecido no meio jurídico, e por isso permitiu-se que Chico Xavier desse continuidade com sua usurpação do nome de Humberto de Campos, mesmo quando depois ele foi mal disfarçado pelo codinome Irmão X.

Embora o termo jurídico de "falsidade ideológica" corresponda à declarações falsas ou alterações fraudulentas em documentos legais, este crime poderia muito bem ser atribuído a Chico Xavier e à FEB pelo aproveitamento leviano do prestígio de Humberto de Campos e forjar uma falsa literatura do além que levava o nome do escritor maranhense.

Está mais do que claro, mais do que explícito e rigorosamente evidente, que Humberto de Campos nunca escreveu nem escreveria os livros que alegam sua "autoria espiritual". Humberto nem de longe virou parceiro de Chico Xavier e, se tivéssemos a oportunidade de entrar em contato com o verdadeiro espírito do autor maranhense, este teria dito, com a mais absoluta certeza:

- Não. Nunca conheci pessoalmente Chico Xavier, nunca me envolvi com ele e nem escrevi esses livros que dizem terem sido de minha autoria. De forma nenhuma. Sobre Chico Xavier, tudo que eu fiz foi fazer aquelas resenhas no Diário Carioca. Nada mais do que isso. Eu nunca seria capaz de escrever essas linhas, não vejo meu estilo nestas obras do Chico. Sinto muito.

ATITUDE HESITANTE

O grande problema está na maioria dos atuais críticos da deturpação da Doutrina Espírita, que se expressam sobretudo nas mídias sociais. Embora eles sejam muito bem intencionados nas críticas, chega um ponto em que eles emperram na hesitação e na complacência.

Seduzidos pelo status que pessoas como Chico Xavier e Divaldo Franco exercem sobre as pessoas, com o sedutor e traiçoeiro estereótipo de "bondade" e "humildade" que os dois transmitem através de suas imagens de ídolos religiosos, os críticos da deturpação mais comuns pecam por não levar adiante os questionamentos, seduzidos pela condescendência e até pelo medo.

Houve um que disse que a "psicografia" de Chico e Divaldo é "100% confiável". Como assim? Na dúvida, muitos imaginam que o incerto é sempre certo até prova o contrário. O duvidoso é autêntico até que venham provas investigativas vindas não necessariamente de quem tem argumentos e provas fartas e fartamente consistentes, mas de quem tenha, simplesmente, maior visibilidade.

Isso significa que teria que haver um popstar jurídico, como um Sérgio Moro, para investigar as fraudes de Chico Xavier e Divaldo Franco. Mas os dois são protegidos da Rede Globo, assim como dos barões da mídia em geral. Como é que um astro do Poder Judiciário, de atuação festejada, mas altamente discutível, iria investigar dois ídolos religiosos do establishment midiático?

O "espírita" bem intencionado, mas hesitante, que com seu medo provavelmente originário de temores religiosos de infância, disse que Chico e Divaldo são "absolutamente confiáveis" como "médiuns", reflete essa atitude surreal e aberrante que existe na sociedade brasileira.

Afinal, os espertalhões da Federação "Espírita" Brasileira sempre promoveram como "legitimação" a abstenção de escritores e intelectuais quanto à hipótese de Chico Xavier ser ou não um farsante. Monteiro Lobato, Apparício Torelly (Barão de Itararé), Agripino Grieco e outros apenas se abstiveram. não negando, mas também NÃO CONFIRMANDO a suposta mediunidade do mineiro.

É SUFICIENTE LER AS TRADUÇÕES DE HERCULANO PIRES?

O grande problema é que mesmo os críticos da deturpação do Espiritismo desconhecem o processo irregular de suposta mediunidade no Brasil. Há uma série de irregularidades que fazem a atividade mediúnica se reduzir a um faz-de-conta, um fingimento, pela falta de estudos sérios e práticas rigorosas no "movimento espírita".

Os críticos da deturpação se limitam a defender que os "espíritas" passem a ler as traduções de José Herculano Pires dos livros de Allan Kardec e ponto final. De resto, pode-se continuar até fazendo a pseudo-psicografia de apelos igrejistas, sem refletir nuances pessoais dos supostos autores do além.

É essa atitude hesitante dos críticos da deturpação que faz com que o "movimento espírita" se beneficie com sua postura "dúbia". Em tese, todos são "rigorosamente fiéis" a Allan Kardec, aceitam ler as traduções de José Herculano Pires e expressam "profundo respeito e admiração" até a personalidades polêmicas como Afonso Angeli Torteroli, defensor do cientificismo kardeciano.

Assim fica fácil. Os deturpadores da Doutrina Espírita, dos quais podemos incluir até mesmo o "bom kardecista" Divaldo Franco, podem se passar por "fiéis seguidores de Kardec", mesmo cometendo seus habituais desvios de caminho. E é aí que os críticos não conseguem ter uma postura firmemente contrária, por achar que eles são maus espíritas, mas também são "bonzinhos".

Não é suficiente ler as traduções de José Herculano Pires dos livros de Kardec. É uma medida essencial, fundamental, importantíssima, um compromisso obrigatório com a ética, a lógica e o bom senso. Mas é apenas a primeira lição, que não pode parar por aí.

Analisar esses livros é apenas um ponto de partida para outros questionamentos. É tão somente um começo. Se o crítico da deturpação espírita lê as traduções de Herculano Pires mas aceita essa "mediunidade" de faz-de-conta, com pessoas sacudindo mãos e dizendo que é "passe" - que já é uma prática duvidosa porque, em si, ela distorce os conceitos de Magnetismo nunca devidamente estudados no Brasil - e "psicografias" que não passam de propaganda religiosa, tudo ficou em vão.

O aprendizado se perdeu. Porque a boa teoria que não questiona a má prática é como um aprendizado que morreu nas palavras. E numa época em que se precisa redescobrir até antigos contestadores da deturpação, estes realmente enérgicos e rigorosos, como Attila Paes Barreto e Osório Borba, é preciso questionar não só a teoria, mas também a prática dos deturpadores.

As pessoas se apegam a estereótipos diversos, garantidos pela sedução fácil da aparência. O juiz Sérgio Moro, com sua aparência de xerife urbano dos tribunais fictícios de Hollywood, ou o arremedo de bondade e humildade de Divaldo Franco, com seu ar de "professor dos anos 1940", e Chico Xavier, com sua imagem de "caipira humilde" ou "velhinho frágil".

As pessoas se deixam levar pela aparência, e isso revela seus preconceitos, suas complacências, suas hesitações e omissões. E é tudo isso que trava o progresso do país, que não se livra de certos entulhos ideológicos, mesmo aqueles que se apoiam na suposta bondade da fé religiosa, e como consequência vemos um país confuso, em crise, causando má fama no mundo inteiro por conta de tantas irregularidades, complicações e injustiças, muitas delas extremamente graves e danosas.

terça-feira, 1 de março de 2016

"Spotlight' e o rabo preso da imprensa brasileira quanto à religião (inclusive a "espírita")

CENA DE SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS, FILME PREMIADO PELO OSCAR 2016.

O filme premiado pelo Oscar deste ano, nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Original, Spotlight: Segredos Revelados, mostra a diferença que tem entre o jornalismo estrangeiro e o brasileiro, numa sociedade experiente que se mostra no "velho mundo" que a suposta profecia da "data-limite" queria ver reduzido a cinzas.

O filme se baseia em fatos reais e conta a trajetória de uma equipe de jornalistas do Boston Globe que reuniu documentos para denunciar casos de pedofilia cometidos por padres católicos numa arquidiocese na cidade de Boston, no Estado de Massachusetts, EUA.

O trabalho, realizado a partir de 2001, recebeu o prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003. No Brasil, seu reflexo correspondeu às coberturas que o Observatório da Imprensa fez a respeito do caso, comparando com o comportamento subserviente da imprensa brasileira a vários temas, inclusive religião.

Recentemente, tivemos que pesquisar uma notícia de um jornal digital do Mato Grosso do Sul sobre o lançamento de um romance dito "mediúnico" de José Medrado, e ficamos estarrecidos com o deslumbramento que se deu tal cobertura. Aqui, em nome do status quo, se aceita qualquer mentira, se a desonestidade garante "o pão dos pobres" todo mundo aceita e ainda agradece feliz da vida.

Analisamos, de maneira objetiva, os quadros que José Medrado atribui a espíritos de pintores mortos. Sem ódio, sem rancor, sem intolerância, sem paixões contra ou a favor. Pegamos cada obra do suposto autor espiritual e comparamos com uma obra original deixada por cada um, e tivemos que constatar a fraude e a falsidade ideológica de tais obras.

Está tudo explicado em 123 e 4. Portanto, não é um trabalho de caluniar ou difamar pessoas que, aparentemente, atuam em projetos filantrópicos, mas a constatação de que, lamentavelmente, se mente e se falsifica para forjar sensacionalismo religioso e místico e assim arrancar mais dinheiro para as "obras sociais".

Fazemos o trabalho que, lá fora, os jornalistas estrangeiros fazem. Aqui a mídia é muito castradora. Imprensa reacionária, que prefere pregar aberrações como "rasgar a Constituição" e contrata um Kim Kataguiri como colunista tendo um talento medíocre digno de quem é forçado a escrever uma redação de Português na escola primária.

Aqui não se verifica nem investiga as coisas. Em nome do status quo, verdadeiros charlatães, canastrões ou canalhas são promovidos a "gênios" aqui e ali, e a eles se reserva uma imunidade que nem mesmo os agraciados do Prêmio Nobel da Paz chegam a ter no exterior.

Verdadeiros "pulhas", dependendo do prestígio que arrancaram através das relações de conveniências e jogos de interesses, os "blindados" pela grande mídia valem mais por estereótipos, situação financeira, prestígio moralista aqui e ali e outros êxitos nem tão brilhantes assim, e que revelam a face real da meritocracia, a ideologia do status quo e das conveniências sociais.

Aqui quem tem direito a voz e à visibilidade não é aquele que realmente sabe e entende das coisas. E sobretudo quando ele tenta questionar totens estabelecidos pelo poder da mídia, do mercado, da religião, da política e até do entretenimento. Questionar um ídolo religioso, nestas condições, é quase o mesmo que apedrejar uma velhinha na rua.

Temos um dos piores índices educacionais do mundo. O Brasil é o terceiro país mais ignorante do mundo e o segundo com pior sistema de ensino. Temos uma mídia ao mesmo tempo facciosa e burra - que empobrece o vocabulário substituindo "festa", "agitos noturnos" e "noitada" pelo intragável jargão "balada" e substituindo a palavra "freguês" por "cliente" - e isso reflete muito na sociedade.

Chega-se a uma aberrante atitude de preferir a mentira religiosa que idolatra seus astros "em favor do bem" do que denunciar irregularidades que estejam ocorrendo. Até hoje não libertamos um notável escritor brasileiro, Humberto de Campos, da "prisão" armada por Francisco Cândido Xavier, o "querido Chico Xavier" de seus fanáticos seguidores.

Para todo efeito, Humberto de Campos é propriedade de Chico Xavier, pouco importando as irregularidades das obras em vida e o suposto legado "espiritual" numa comparação mais atenta. Pouco importa a lógica, importa é o que a religião define como "certo".

O "espiritismo" chega a impor princípios ideológicos como "não questionar" e "não investigar", sob o pretexto de "não causar incômodos", e investe na falácia de que as "boas coisas" não precisam de provas, e que os fenômenos "espíritas" sempre atuam à revelia da lógica e do bom senso, sob a desculpa de que estão acima destas percepções.

Outra desculpa usam para isso. Que o "espiritismo" não precisa de lógica nem de bom senso porque ele em si é "a lógica e o bom senso". Pouco importa se Chico Xavier voou sobre as águas, que Bezerra de Menezes se "materializou" para furtar um caminhão de alimentos e socorrer pessoas, que Olavo Bilac, no além, se esqueceu que tinha estilo, que Auta de Souza passou a escrever igualzinho Chico Xavier, que Allan Kardec se arrependeu de sua "overdose de ciência" etc etc etc.

Tudo isso tem que ser aceito, todas as aberrações têm que ser respeitadas, e pouco importa se o alemão Wolfgang Bargmann estudou, nos anos 1940, sobre glândula pineal e antecipou descobertas científicas depois confirmadas. Pouco importa, da mesma forma, que o astrônomo Percival Lowell descrevia civilizações humanas e canais de água em Marte, ainda no século XIX. Só a Chico Xavier cabe atribuir pioneirismo, mesmo que ele tenha sido um dos últimos a saber.

Se observarmos o que é o "espiritismo" brasileiro, nota-se uma porção de ideias e fatos surreais, que atropelam a lógica e o bom senso e expressam desde a desonestidade doutrinária - se dizem fiéis a Kardec, mas o traem o tempo todo - até o ultraconservadorismo ideológico (Chico Xavier defendeu a ditadura militar num momento em que ela era mais cruel). Mas ninguém investiga.

A nossa imprensa acredita que, investigar as irregularidades do "espiritismo" brasileiro, por mais que haja objetividade, isenção e busca de lógica, coerência e honestidade, é um "trabalho cruel" movido por "maledicência, ódio, perseguição voraz e intolerância religiosa".

Christopher Hitchens soube do risco que era investigar as irregularidades de Madre Teresa de Calcutá, um mito religioso bem mais verossímil do que Chico Xavier e Divaldo Franco. Ele até sofreu ataques severos ao denunciar o lado sombrio da freira albanesa, mas depois a intelectualidade comprovou as denúncias, desmascarando o mito da "mulher que foi santa entre os vivos".

Aqui, a resistência é muito pior, mesmo quando os mitos de Chico Xavier e Divaldo Franco se revelam mais confusos do que Madre Teresa e as irregularidades dos dois, mais evidentes. Em vez disso, nota-se uma complacência submissa da imprensa brasileira a esses dois mitos religiosos, considerados "intocáveis", sobretudo Divaldo, que continua vivo e é sempre tido como o "brilhante sábio da boa palavra e das ações em prol do próximo".

A imprensa brasileira está com o rabo preso na religião "espírita". Se ela mal consegue investigar as irregularidades das religiões mais conhecidas - como a Igreja Católica e as seitas neopentecostais - , só se valendo de eventuais rivalidades (como a Globo investigando a Igreja Universal e a Record acatando denúncias sobre o Catolicismo), quanto mais o "espiritismo"!

É estarrecedor. Se houvesse aqui um "caso Spotlight", como o que inspirou o premiado filme, a sociedade "de bem" no Brasil reagiria com barulhento pavor, dizendo que é a "intriga" que move um grupo de jornalistas a "perseguir os tarefeiros do bem", como "feras soltas nas arenas de Roma" atuando "contra os cristãos".

No momento em que se torna mais urgente que se lance no mercado um livro como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, escrito por Attila Paes Barreto em 1944, com abordagens instigantes e verídicas, o mercado literário - "satélite" do mercado midiático e jornalístico dominantes no país - prefere lançar bobagens como um Data-Limite Segundo Chico Xavier (de Juliano Pozati e Rebeca Casagrande) que supõe "graves profecias" a partir de um sonho bobo durante o sono.

Infelizmente, a religião, e sobretudo a "espírita", tornou-se um escudo forte para proteger pessoas que fazem o que querem, enganam sem escrúpulos, mas se protegem através do propagandismo religioso e dos pretextos de aparente filantropia.
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