segunda-feira, 13 de março de 2017

"Espiritismo" e os limites que impõe à Ciência


O "espiritismo" brasileiro, como tenta se passar por uma adaptação da Doutrina Espírita de Allan Kardec, apesar da raiz ter-se fundamentado nos postulados do deturpador Jean-Baptiste Roustaing, tenta manter todo um jogo de aparências para se aproximar, aos olhos dos incautos, da essência do Espiritismo original francês.

Portanto, o "espiritismo" brasileiro faz tudo para parecer uma doutrina intelectualizada, amiga da Ciência e da Filosofia, defensora do pensamento questionador e da análise científico-filosófica, em prol da busca do Conhecimento.

Mas isso é apenas uma aparência e um simulacro, pois, no conteúdo dado pelo "espiritismo" brasileiro, observa-se que seus postulados mais estabelecem limites do que amplitudes ao pensamento científico-filosófico, e as restrições não são muito difíceis de serem identificadas.

Observando os textos "espíritas" que evocam temas científicos ou filosóficos, notamos que as retóricas seguem um caminho comum, o de passar a introdução e o desenvolvimento do referido texto (podendo ser artigo, livro ou documentário, entre outras formas textuais) trazendo uma aparência de intelectualizado, para no final trazer uma conclusão igrejista e pretensamente "pacifista" (no sentido igrejeiro do termo) e "fraternal".

A intenção do "espiritismo", quando aborda personagens, fatos e conceitos científicos, é usar a Ciência para sustentar seu igrejismo. Dentro desses limites, a Ciência é sempre bem vinda, quando ela se serve aos caprichos da fé religiosa, sob o pretexto de "promover a fraternidade e a união entre as pessoas", ideia que é eufemismo para o ato de atrair fiéis a esta doutrina igrejeira.

Quando a Ciência não ultrapassa os limites impostos pela Religião, os "espíritas" apoiam a atividade científica totalmente. Quando filósofos se ocupam em temas arbitrários, como o Ser e o Existir, ou quando denunciam a opressão explícita das ações bélicas que devastam cidades, o "espiritismo" bate palmas e apoia amplamente.

Da mesma forma, quando cientistas pesquisam doenças de difícil cura, como AIDS e vários tipos de câncer, ou, em outras áreas, fazem cálculos sobre as relações entre miséria e produtividade industrial, os "espíritas" aceitam livremente.

É certo que, nos casos das doenças, existe a aparente concorrência da "medicina mediúnica", feita de maneira improvisada e adotando métodos duvidosos nos quais se sonega o diálogo entre a Ciência da Terra e a espiritualidade, preferindo práticas "inexplicáveis" de cirurgias, nas quais se insere uma tesoura ou faca, às vezes contaminadas, no estômago de alguém, para tirar um caroço que se acredita ser um tumor.

Mesmo assim, o "espiritismo" não pode reagir com intolerância à "medicina da Terra". Até porque vemos episódios como o "médium" goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, tendo que recorrer à "ciência terrestre" para se curar de um câncer. "Barbeiro corta o próprio cabelo?", indagou João de Deus, quando se perguntou por que ele não fez autocirurgia.

Quando a Ciência, no entanto, passa a invadir os terrenos da Religião e questiona os paradigmas da fé e do misticismo, os "espíritas" já reagem com alarmismo. Termos maledicentes como "intoxicação do intelectualismo", "impaciência da Ciência" e "overdose de raciocínio" surgem de "espíritas" revoltados, que se sentem ameaçados em ter seus dogmas e ritos contestados pelo raciocínio questionador e investigativo.

Mesmo diante de irregularidades desmontadas pela lógica e pela coerência das investigações questionadoras, como é o caso de supostas psicografias como o famoso caso Humberto de Campos, os "espíritas" tentam camuflar as irregularidades dizendo que as "diferenças de estilo" são "meras impressões" terrenas diante da "linguagem universal do amor".

Chegam os "espíritas" a argumentarem que, se uma mensagem "psicográfica" difere do estilo ou mostra algum aspecto pessoal diferente do morto a que se atribui autoria, é porque "certos detalhes escapam das condições limitadas do raciocínio humano", como se confundisse falta de lógica com mistérios que a Ciência "não consegue resolver".

Ainda no caso Humberto de Campos, o que se observa é que o estilo que se nota nas obras "espirituais" que levam seu nome é totalmente diferente do estilo deixado pelo autor em vida (mesmo em publicações póstumas). E isso é fácil de observar comparando obras trazidas por Francisco Cândido Xavier com o acervo original de Humberto de Campos.

Mas como Chico Xavier é a pessoa mais blindada do país, qualquer irregularidade relacionada a ele é aceita por seus seguidores sem reservas. E nota-se, nas suas pregações ideológicas, um aspecto que facilmente pode ser identificado como contrário aos postulados originais de Allan Kardec.

Note-se que, em seu tempo, Allan Kardec sempre convidava as pessoas para o debate e o questionamento. Ele se oferecia para ser questionado, mas mediante argumentos lógicos. Chegou mesmo a dizer que, se for comprovada alguma ideia no Espiritismo que não estiver de acordo aos procedimentos lógicos da Ciência, que preferisse a Ciência ao Espiritismo.

Kardec lidava com um dado novo, a Ciência Espírita, no qual se esforçou em codificar e entender com o maior nível de abrangência possível e procurando dar aos conhecimentos uma contemporaneidade de entendimento.

Como legado, criou o C. U. E. E., Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos, para atualizar e ampliar as compreensões da Ciência Espírita, pois em seu tempo os recursos de Comunicação, por exemplo, ainda estavam limitados à fotografia. O rádio, a televisão, o cinema e a informática surgiram depois do falecimento do pedagogo francês.

Isso é muito diferente de Chico Xavier, que, do contrário de Kardec, renegava o debate. O anti-médium brasileiro passou o tempo todo apelando para as pessoas não questionarem, não contestarem, não julgarem, embora contraditoriamente dizia "apoiar a busca e a transmissão de Conhecimento".

Xavier criou um engodo conceitual marcado de misticismo religioso e moralismo conservador, e toda aquela promessa vã de "transmitir Conhecimento" não passou de conversa para boi dormir.

Diante de tantos equívocos conceituais e de prática "mediúnica", Xavier pedia para "ninguém contestar" até por causa própria, visando salvar sua pele, no seu arrivismo de, como "astro do espiritismo no Brasil", se ascender como ídolo religioso e virar unanimidade nacional, se aproveitando dos paradigmas de religiosidade muito comum entre os brasileiros.

A falsa apreciação da Ciência e da Filosofia servem apenas para sustentar "intelectualmente" os dogmas religiosos do "espiritismo" brasileiro. Servem, também, para garantir a fachada do "movimento espírita" como uma doutrina "intelectualizada", forjando um diferencial na competição religiosa diante dos evangélicos neopentecostais e de modernas correntes da Igreja Católica como a Renovação Carismática.

Mas, provando seu conservadorismo, o "espiritismo" brasileiro estabelece limites para o pensamento científico-filosófico, apenas atualizando, com leve concessão, a discriminação da atividade científica e intelectual pelo Catolicismo da Idade Média, não mais banindo tal atividade, mas estabelecendo restrições à sua ação.

Assim, a Ciência e a Filosofia só são bem vindas quando se limitam às suas especialidades ou colaboram para confirmar dogmas e ritos religiosos do "espiritismo" igrejeiro. Quando se recusam a essa última tarefa, essas duas áreas do Conhecimento humano são amaldiçoadas pelos "espíritas", que no seu juízo de valor acusam o ato de pensar como "excessivo" quando se coloca a lógica acima da fé, o saber acima da crença.

sábado, 11 de março de 2017

Chico Xavier usou Humberto de Campos Filho para abafar processo judicial


O processo dos herdeiros de Humberto de Campos contra Francisco Cândido Xavier e a FEB poderia ter saído vitorioso. As supostas psicografias de Chico Xavier revelam claramente irregularidades de estilo e outros aspectos relacionados aos autores mortos alegados, que apenas uma leitura atenta pode comprovar a fraude, para desespero de Alexandre Caroli Rocha, um "especialista em análise textual" que se recusava a fazer análise textual para verificar as "obras mediúnicas".

No entanto, havia dois problemas. Um foi o enunciado da ação judicial, que pedia à Justiça analisar se havia veracidade ou não nas obras "psicografadas" sob o nome de Humberto de Campos. Outro era a compreensão estreita dos juízes que avaliaram o caso, que apenas usaram como base teórica a questão dos direitos autorais.

No primeiro problema, a situação complicou para os herdeiros. Afinal, no caso da "psicografia" ser considerada autêntica, os familiares receberiam o dinheiro dos direitos autorais, participando do lucro da venda dos livros sob o nome do escritor. No caso de ser considerada fraude, Chico Xavier e a FEB teriam que indenizar os familiares do falecido autor. Isso fez os "espíritas" definirem, injustamente, os herdeiros de Humberto de Campos como "gananciosos" e "mercenários".

No segundo problema, os juízes, limitados a essa interpretação estreita, só entenderam o caso como uma questão de quem se responsabilizaria pelos direitos autorais de obras ditas "do além-túmulo". Algumas interpretações remetem ao "médium" a responsabilidade dos direitos, na condição de "autor empírico", o que seria uma festa para Chico Xavier, apesar do processo ter gerado num empate técnico.

Em todo caso, o empate fez o mito de Chico Xavier crescer e, com a memória curta das pessoas, que consagram imagens e estereótipos tardios e dóceis de quem esconde um passado mais sombrio, esse mito passou a crescer de forma descontrolada, a ponto de, praticamente, muitos considerarem a ideia de "verdade" privatizada: seu proprietário é Francisco Cândido Xavier e seus discípulos e herdeiros mais próximos.

O que poucos se lembram é que os herdeiros de Humberto de Campos, representados pelo advogado Milton Barbosa - o advogado da FEB, por outro lado, foi Miguel Timponi - , chegaram a recorrer da sentença, enquanto Chico Xavier teria que eliminar o nome de Humberto para "evitar maiores dissabores", usando, a título de paródia, o pseudônimo "Irmão X", imitação parcial de um dos pseudônimos que Humberto havia lançado em vida, o Conselheiro XX.

Sob o novo nome, Chico Xavier lançou o livro Lázaro Redivivo, em 1945, o primeiro dessa nova fase, na qual o nome de Humberto de Campos só era "reconhecido" nos meios "espíritas". A obra, todavia, dava sequência à usurpação que o anti-médium mineiro fazia do autor maranhense, transformando-o num "deprimente sacerdote" que nada tinha a ver com o estilo original do finado escritor.

Mas Chico Xavier, ao longo de pouco mais de uma década após o julgamento do processo de 1944, construiu seu arrivismo sob a ajuda de Antônio Wantuil de Freitas (pelo menos o antigo presidente da FEB poderia ser endeusado pelos chiquistas, não é mesmo?) e várias experiências foram feitas até a oportunidade de atrair para si o cético Humberto de Campos Filho.

Chico Xavier já usurpou a falecida jovem professora Irma de Castro Rocha, a Meimei, a ponto de atrair a cumplicidade do viúvo desta, Arnaldo Rocha (hoje já falecido). Partiu para supostas práticas de psicofonia e materialização, como forma de alimentar ainda mais o sensacionalismo da imagem do "médium". E começava a trabalhar livros "científicos" ao lado de Waldo Vieira, antigo menino prodígio da suposta mediunidade.

Diante disso, a FEB também procurou abafar e condenar ao esquecimento o livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, do jornalista Attila Paes Barreto, lançado em 1944 e que revelava detalhes sobre as irregularidades da trajetória do "médium". Excelente trabalho de jornalismo investigativo, o livro, porém, é oficialmente visto como "rancoroso" e está fora de catálogo, tornando-se uma preciosa raridade.

FASCINAÇÃO E ASSISTENCIALISMO

E aí chega-se a 1957 e Chico Xavier resolve convidar Humberto de Campos Filho para assistir a uma doutrinária (missa "espírita") num "centro espírita" de Uberaba. Então produtor de TV, o filho do autor maranhense havia demonstrado seu ceticismo quanto às supostas psicografias do pai, chegando a dizer que não autorizaria o uso do nome do escritor, em entrevista à Revista da Semana, de 08 de abril de 1944, respondendo à seguinte pergunta:

"- Mas encarando a questão seriamente. Acha concebível que aqueles livros tenham sido escritos por seu pai?

- Claro que não. Tanto assim que evitamos tocar no assunto e nunca demos a nossa permissão para a publicação desses livros a meu pai. Frequentemente apareciam delegações espíritas ou padres católicos e até representantes de outras religiões, todos querendo convertê-lo. Ele a todos recebia e ouvia com a devida consideração, mas era só. Nunca foi espírita."

Postura muito diferente ele escreveu no livro Irmão X, Meu Pai, que Humberto Filho lançou em 1997, quando descreveu o seu parecer, nesta época, sobre o desfecho do processo que ele, sua mãe e seu irmão Henrique moveram contra o "médium" e a FEB, 53 anos atrás:

"A causa não deveria terminar senão do jeito que terminou: praticamente um empate técnico. Os herdeiros nada obtiveram senão a retirada do nome do escritor daqueles livros. Em uma conotação com o pseudônimo que Humberto de Campos usou na série de onze livros com estórias galantes e humorísticas - Conselheiro XX - os livros psicografados por Chico Xavier passaram a ter a assinatura de Irmão X".

Humberto chegou a atribuir o processo aos interesses pessoais de Milton Barbosa, acusado de manipular a viúva do escritor e mãe do produtor, Catarina Vergolino, a "dona Paquita", e ainda alegou que o episódio "só serviu para fazer propaganda do Espiritismo", entendido aqui o "espiritismo" deturpado no Brasil.

E o que fez Humberto mudar de opinião? Não bastasse ele trabalhar num meio televisivo, em que há um lobby de profissionais "espíritas" - vários simpatizantes de Chico Xavier, como Augusto César Vannucci, Nair Bello, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Ana Rosa, e, mais recentemente, Carlos Vereza - , ele ainda se rendeu aos encantos do manipulador de mentes que era o anti-médium mineiro.

A narrativa de Humberto, ainda que pareça "linda" aos leitores tomados de muita paixão religiosa, revela três armadilhas usadas por Chico Xavier para seduzir Humberto Filho e conquistar sua confiança (ou credulidade, ou, digamos, boa-fé): o apelo à emoção, a fascinação e o assistencialismo.

As três estratégias são consideradas perigosas. O apelo à emoção (Argumentum Ad Passiones) estava no aparato "comovente" da doutrinária e outras atividades que Chico mostrou a Humberto Filho. É considerado um tipo de falácia, e um dos mais perigosos, recentemente associado à pós-verdade, fenômeno no qual mentiras e meias-verdades "confortáveis" estabelecem supremacia sobre a realidade lógica e objetiva.

A fascinação, ou fascinação obsessiva, é um tipo de obsessão descrito por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns. É considerado um tipo grave, ainda que em nível inferior ao da possessão. Na fascinação obsessiva se trabalham ideias e paradigmas supostamente sublimes para veiculação de ideias e práticas mistificadoras que trazem ideias desprovidas de coerência, lógica e bom senso. Em muitos casos o Ad Passiones é um instrumento usado ela fascinação obsessiva.

A fascinação obsessiva, na narrativa que reproduziremos abaixo de Irmão X, Meu Pai, se manifesta sobretudo no abraço de Chico Xavier em Humberto de Campos Filho, no qual Chico lança mensagens "carinhosas" e faz um falsete que fez o filho "suspeitar" se era a voz do autor maranhense. Vale lembrar que Chico teria seduzido Humberto Filho também pela linguagem tenra usada nas supostas cartas do "espírito Humberto de Campos".

O assistencialismo, também visto como uma prática negativa de "caridade tendenciosa", em que a ajuda ao próximo é quase sempre inócua, feita mais para promover a imagem do "benfeitor", que tira vantagem dessa "filantropia", é visto no caso pela caravana de Chico Xavier, que dá à suposta caridade um caráter ostensivo, quando se percebem que os propósitos são bem inócuos e meramente paliativos (doação de mantimentos). Algo que apenas resolve parcialmente o problema.

Segue então o texto que deve ser lido sem qualquer paixão religiosa, mas com um criterioso senso crítico para percebermos como Humberto de Campos Filho caiu na "doce emboscada" armada por um dos maiores deturpadores da Doutrina Espírita para abafar qualquer risco de ser novamente processado:

"Chegamos a tempo de conseguir entrar na sala superlotada, onde pouco depois, começaria a sessão, com a presença de Chico. Lá pelas tantas, vozes partidas da mesa, por ele presidida, pediam que Humberto de Campos Filho se aproximasse para falar com o médium. É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinhosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.
   No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos.
   Sem mais nem menos, tive a nítida impressão de que estava em alguma cidade da Galileia, nos primórdios do cristianismo.
   Em um enorme galpão, sem paredes laterais, senhoras e moças, alegres e sorridentes preparavam a sopa que, mais tarde, seria distribuída entre os pobres. Pilhas de cenouras, montes de batatas, iam sendo descascadas e levadas para os caldeirões que, a um canto, fumegavam cheirosamente.
   Ao cair da tarde, nos incorporamos à caravana, liderada pelo Chico, que ia distribuir sacolas de mantimentos pelos casebres da periferia. Ao lado do Waldo Vieira, caminhamos naquele pôr-de-sol, com a certeza de que uma legião de espíritos luminosos também caminhavam conosco. Lá  pelas tantas, Chico entrou numa palhoça, de um só cômodo. Ficamos à porta, com espaço bastante para ver Chico sentar-se na beirada de uma cama estreita e miserável. Nela estendido, um pobre velho, pouco mais que um monte de ossos, sob uma cabeça coberta por uma grande barba e cabelos desgrenhados. O coitado fez menção de erguer-se mas Chico, colocando a mão no seu peito, não deixou. De onde estávamos não era possível ouvir o que ele dizia. Mas o que disse fez o pobre homem se transformar em um enorme sorriso, cheio de gratidão e alegria. E, ao mesmo tempo, sentimos uma onda de perfume, de jasmins colhidos naquele instante, invadir completamente aquela tapera..."

quinta-feira, 9 de março de 2017

O grande mal de reprovar a deturpação e proteger o deturpador


Isso é que dá não ouvir os conselhos de Erasto. Mesmo os críticos da deturpação espírita adotam posturas tão melindrosas e hesitantes que eles acabam caindo na tentação bastante perigosa da complacência, do consentimento com o erro.

O governo Michel Temer é a expressão de uma série de posturas contraditórias que antes adormeciam no inconsciente das pessoas, presas em paixões materiais ou simbólicas - as paixões religiosas se incluem em tudo isso - , nos quais os privilégios sociais diversos se revelam qualidades frágeis diante de tantos e tantos escândalos que não devem ser subestimados.

O "espiritismo" também é um subproduto disso, e o Brasil tornou-se um terreno fértil e bem sucedido para os deturpadores da Doutrina Espírita. Tanto que a maior parte dos debates sobre a deturpação do conteúdo do Espiritismo feita no Brasil é sempre feita de forma a proteger o deturpador, o que é uma grande e perigosa armadilha.

Se Francisco Cândido Xavier, um dos maiores e gravíssimos deturpadores, o "inimigo interno" alertado um século antes pelas mensagens do espírito Erasto, tem alguma grande qualidade, foi sem dúvida alguma a de levar vantagem em tudo usando o prestígio religioso e técnicas de manipulação da mente através do Ad Passiones, o "apelo à emoção".

Muitos acham o "apelo à emoção" uma atitude linda e saudável, mas ela é das mais doentias e sombrias. Vale lembrar que especialistas de diversos campos do Conhecimento, como a Linguística e a Psicologia, consideram o Ad Passiones um tipo de falácia, que é a transmissão de um tipo de ideia mentirosa ou falsa através de um processo de persuasão que dê ao interlocutor a impressão de que tal ideia é verdadeira.

Enquanto as pessoas ficam incomodadas quando as críticas contra Chico Xavier, Divaldo Franco e afins se tornam mais enérgicas, confundindo-as com "ataques", nos esquecemos dos alertas urgentes que Erasto havia trazido, que é ter maior vigilância quando espíritos mistificadores passam a transmitir "coisas boas".

Aceitamos os deturpadores porque eles oferecem um espetáculo de "filantropia" e "palavras de amor" que serve para o entretenimento fútil de pessoas que não conseguem ser bondosas por conta própria, precisando de um ídolo religioso para simbolizar um estereótipo de "bondade" que pode não ser real, mas traz simbologias que deixam as pessoas comovidas, desperdiçando lágrimas com esse verdadeiro marketing da caridade.

Há falhas gravíssimas, erros dos mais preocupantes que, num país menos imperfeito, faria com que seus praticantes não fossem poupados por uma vírgula sequer das desculpas que, no Brasil, se dá tão ferrenhamente aos deturpadores da Doutrina Espírita, a ponto deles gozarem de forte blindagem. Aqui, para qualquer farsante ganhar impunidade absoluta, basta ser rico, do PSDB e "espírita", ou pelo menos qualquer um dos três requisitos.

Poucos percebem os erros aberrantes que envolvem as estrelas do deturpado espiritismo brasileiro. As pessoas são tomadas de um processo obsessivo chamado "fascinação", já descrito em O Livro dos Médiuns de Allan Kardec.

Relendo o caso do "abraço" de Chico Xavier a Humberto de Campos Filho, antes bastante cético quanto à suposta psicografia atribuída ao espírito do pai, o que se observa não é um lindo exemplo de misericórdia, alegria e caridade, mas uma combinação de artifícios que envolveram caridade paliativa (também conhecida como "assistencialismo") e a fascinação obsessiva. Vejamos o que Humberto descreveu em Irmão X: Meu Pai:

"Chegamos a tempo de conseguir entrar na sala superlotada, onde pouco depois, começaria a sessão, com a presença de Chico. Lá pelas tantas, vozes partidas da mesa, por ele presidida, pediam que Humberto de Campos Filho se aproximasse para falar com o médium. É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinhosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.

   No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos.

   Sem mais nem menos, tive a nítida impressão de que estava em alguma cidade da Galileia, nos primórdios do cristianismo.

   Em um enorme galpão, sem paredes laterais, senhoras e moças, alegres e sorridentes preparavam a sopa que, mais tarde, seria distribuída entre os pobres. Pilhas de cenouras, montes de batatas, iam sendo descascadas e levadas para os caldeirões que, a um canto, fumegavam cheirosamente.

   Ao cair da tarde, nos incorporamos à caravana, liderada pelo Chico, que ia distribuir sacolas de mantimentos pelos casebres da periferia. Ao lado do Waldo Vieira, caminhamos naquele pôr-de-sol, com a certeza de que uma legião de espíritos luminosos também caminhavam conosco. Lá  pelas tantas, Chico entrou numa palhoça, de um só cômodo. Ficamos à porta, com espaço bastante para ver Chico sentar-se na beirada de uma cama estreita e miserável. Nela estendido, um pobre velho, pouco mais que um monte de ossos, sob uma cabeça coberta por uma grande barba e cabelos desgrenhados. O coitado fez menção de erguer-se mas Chico, colocando a mão no seu peito, não deixou. De onde estávamos não era possível ouvir o que ele dizia. Mas o que disse fez o pobre homem se transformar em um enorme sorriso, cheio de gratidão e alegria. E, ao mesmo tempo, sentimos uma onda de perfume, de jasmins colhidos naquele instante, invadir completamente aquela tapera..."

Dentro do moralismo e do deslumbramento religioso e elitista de muitos, a tendência é achar que esse trecho revela uma demonstração de amor ao próximo, perdão, reconciliação e todas as qualidades positivas que alguém pode imaginar. Só que isso é enganoso, no contexto de que Chico Xavier é um sério e gravíssimo deturpador da Doutrina Espírita. Confrontemos com os alertas trazidos pelo espírito de Erasto, em O Livro dos Médiuns:

"Os médiuns levianos, pouco sérios, chamam, pois, os Espíritos da mesma natureza. É por isso que as suas comunicações se caracterizam pela banalidade,a frivolidade, as idéias truncadas e quase sempre muito heterodoxas, falando-se espiritualmente.(8)  Certamente eles podem dizer e dizem às vezes boas coisas, mas é precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé.

Deve-se então eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou.

As comunicações dessa natureza só são perigosas para os espíritas que agem isolados, os grupos recentes ou pouco esclarecidos, porque, nas reuniões de adeptos mais adiantadas e experientes, é inútil a gralha  de se adornar com penas de pavão, pois será sempre impiedosamente descoberta".

No Brasil, a tarefa de médium já é corrompida pelo "culto à personalidade". Vejamos o que isso significa, antes que pessoas se revoltem na atribuição desta qualidade sombria a pessoas "de notável humildade" como Chico Xavier e Divaldo Franco.

O culto à personalidade ou o culto de personalidade geralmente é usado na propaganda política. É uma estratégia baseada na exaltação das virtudes, reais ou supostas, de um referido líder, assim como a divulgação positiva de sua figura.

Esse processo pode ser usado também em outros âmbitos. Em Salvador, temos o exemplo, no rádio baiano, da pessoa de Mário Kertèsz, um pseudo-radiojornalista que havia sido político lançado pela ARENA (partido da ditadura militar) e que é popularmente conhecido como o "Paulo Maluf baiano", por conta de sua atuação política que misturava arrivismo com corrupção. Na Rádio Metrópole FM, a figura de Mário, proprietário da emissora, é cultuada de maneira quase divinizada.

Na religião, há muitos exemplos de culto à personalidade ocorridos em seitas diversas. E o "movimento espírita" não está livre de tal constatação, uma vez que a figura do "médium" já é corrompida pelo fato de que ele deixa de ser um mero intermediário para ser não só o centro das atenções, mas objeto de adoração que chega ao ponto do mais cego fanatismo.

Notem que os "médiuns", eles em si deturpadores de tudo relacionado à Doutrina Espírita - como a veiculação de valores que entram em conflito com os postulados kardecianos e a suposta mediunidade que não passa de um faz-de-conta para propaganda religiosa da doutrina igrejeira a que se reduziu "nosso espíritismo" - , tentam, pelo menos, três apelos para conquistar a confiança das pessoas de senso moral pouco vigilante:

1) AD PASSIONES - Fazem todo tipo de apelo à emoção: "estórias lindas", "casos de superação pessoal", além de supostas atividades filantrópicas que pouco ajudam e mais parecem promover o "benfeitor" às custas dos mais carentes. Na narrativa aqui reproduzida de Humberto de Campos Filho, nota-se que a "caravana" mais chama a atenção pelo exibicionismo do que pela caridade, pouca, que realiza, pois investe apenas em ações meramente paliativas, até positivas, mas insuficientes.

No apelo à emoção, o "médium" sempre lança um repertório ideológico que arranca comoção das pessoas. Algo que parece lindo e saudável, moralmente revigorante, mas tal impressão é enganosa e perigosa. Tão enganosa que, diante do menor questionamento, os seguidores dos "médiuns" explodem de raiva, revoltados, até com muito ódio, diante da menor desilusão. 

Esse apelo produz paixões religiosas que acabam alimentando a vaidade e o prestígio de "médiuns" que se valem dessa mitologia que os cercam, de pretensos filantropos, sob a qual constroem seu prestígio, seu poder e, diante da prática dissimuladora tão comum no Brasil, exercem seu domínio transmitindo uma suposta imagem de humildade e comedimento.

2) COITADISMO - O coitadismo ou o vitimismo faz a festa dos deturpadores. Se torna uma espécie de "contra-ataque" pelo avesso. O arrivista Chico Xavier sempre usava do coitadismo para levar vantagem nos escândalos que produziu. Sim, isso mesmo. Afinal, em vez de se lançar como poeta de produção própria, foi Chico Xavier usurpar os nomes dos literatos mortos e a partir daí gerou muita e muita confusão. 

Mas aí, diante das críticas severas que recebeu, o esperto Xavier fazia uma manobra, que é não reagir a essas críticas. "Não vamos botar querosene nesse incêndio", dizia ele, em várias ocasiões. Ele se fazia de vítima, bancava o coitadinho e isso era ótimo para forjar humildade. Era também o uso da Teologia do Sofrimento em proveito próprio, se promovendo pelo silêncio mediante o sofrimento, mas desta vez com chance de levar alguma vantagem.

O coitadismo faz a festa dos deturpadores da Doutrina Espírita de forma a fazê-los triunfantes diante da imagem de vítimas que força a piedade dos outros. Com isso, desvia-se o foco da distorção dos postulados da doutrina de Allan Kardec de forma que até os que reprovam a deturpação poupem os deturpadores. 

É um processo inverso do dos políticos do PT, tidos como "criminosos sem crime", porque a deturpação do Espiritismo, tido como um "crime sem criminosos". No caso do PT, se culpa pessoas que não cometeram crime e mesmo assim são criminalizadas. No "espiritismo" brasileiro, absolve-se pessoas que cometeram crime (de falsidade ideológica, por exemplo, no caso da usurpação de pessoas mortas para produção de mensagens) e, mesmo assim, são inocentadas.

3) ASSISTENCIALISMO PARA LEVAR VANTAGEM - Vamos comparar o que ocorre nas campanhas eleitorais das cidades do interior. Candidatos em campanha realizando fornecimento de cestas básicas, com o objetivo de impressionar a opinião pública e garantir larga vantagem em votos.

Durante a República Velha ou mesmo até recentemente, em muitas regiões do Brasil, essa prática era consentida e garantia a longevidade de domínio de oligarquias políticas regionais. Só mais recentemente, com leis de combate à corrupção, como a Lei da Ficha Limpa, essa prática tornou-se oficialmente um crime eleitoral.

No entanto, essa prática garante uma blindagem absoluta aos deturpadores do Espiritismo, de forma que a deturpação ganha um atenuante. Os brasileiros inverteram os conselhos de Erasto que havia dito: "no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé".

Em vez disso, os brasileiros preferem acreditar: "É certo que certos espíritas cometem deslizes quanto ao pensamento de Allan Kardec e até entendem tudo errado, mas devemos dar consideração a eles porque eles são bondosos e ajudam muita (sic) gente". Nada que um Ad Passiones não resolva, não é mesmo?

O GRANDE PERIGO

Reprovar a deturpação mas aceitar os deturpadores é uma armadilha bastante perigosa, porque é um caminho que acaba voltando para a própria deturpação, porque a crença de que os deturpadores são "bondosos", além de esconder todo um processo leviano de mistificação e manipulação religiosa, dá todo o cartaz a esses arrivistas da fé, que praticamente se colocam acima do próprio Allan Kardec.

Acreditar na "bondade" dos deturpadores é algo muito perigoso. Permite-se que a "bondade" possa estar a serviço da fraude, da mistificação, do arrivismo, da mentira, da incoerência. Mesmo os mais racionais críticos da deturpação espírita se sentem tentados a recuar ao verem ilustrações piegas com Chico Xavier colocado dentro de um coraçãozinho vermelho ou Divaldo Franco cercado de alegres crianças pobres.

Isso é muito perigoso e malicioso, e pode fazer com que os esforços para recuperar a coerência dos ensinamentos de Kardec sejam seriamente corrompidos. Isso por causa de armadilhas que não surgem de uma só vez, mas aos poucos. Vejamos:

a) Se você não se aprofunda nem torna rigorosos os questionamentos contra a deturpação espírita por achar que "pelo menos Chico Xavier e Divaldo Franco praticam bondade", então você torna incompletos tais questionamentos, numa postura que parece "objetiva" mas demonstra uma total hesitação e perda de vigilância. Com tal postura, os avisos de Erasto foram jogados no lixo.

b) Como você gosta de Chico Xavier e Divaldo Franco, apesar de, a princípio, admitir que eles deturparam o legado kardeciano, você então aposta algumas fichas neles e em seus similares e, com suas ressalvas aos deturpadores, você admite dar algum crédito a eles.

c) Diante disso, você, como acha que Chico e Divaldo são "bondosos" e "ajudam as pessoas", você é tantado a ler seus livros, porque eles "só podem trazer coisas boas". Lendo os livros, será levado a acreditar que suas ideias "não ofendem" e passa a ver que sonhar com "colônias espirituais" e "crianças-índigo" lhe parece mais agradável. Com isso, suas antigas críticas à deturpação acabam sendo jogadas no lixo.

Daí que, reprovando a deturpação em favor de alguma admiração aos deturpadores - ou algum respeito, diante do discurso dissimulador dos ressalvadores de plantão, que dão a impressão de "agirem sem complacência, mas de forma objetiva" - , a deturpação volta à tona e todos os esforços de recuperar as bases kardecianas acabam ficando em vão.

terça-feira, 7 de março de 2017

"Correio Espírita" cria "saia justa" ao anunciar falecimento de Jorge d'Andrea


O jornal "Correio Espírita", na edição deste mês, ao anunciar o falecimento do escritor Jorge d'Andrea, um dos mais destacados do "movimento espírita", cometeu um grande equívoco, ao anunciar que seu espírito se reencontrará com Joana de Angelis, a "mentora" de Divaldo Franco.

Jorge faleceu aos 100 anos, no mês passado. Era um daqueles palestrantes e expositores que tinham um trânsito entre os críticos da deturpação, como Deolindo Amorim (pai do jornalista e ativista de esquerda, Paulo Henrique Amorim), e os próprios deturpadores do Espiritismo, como Divaldo.

O grande problema é que o "Correio Espírita" se esqueceu do anúncio de que Joana de Ângelis - provavelmente uma "mutação" do Máscara de Ferro, obsessor de Divaldo, em uma figura "bondosa", pois o perfil da "mentora" do anti-médium baiano destoa do perfil da soror Joana Angélica, a quem se atribui oficialmente o espírito - estava se reencarnando, segundo dados oficiais.

Evidentemente, o anúncio de que algum suposto espírito da literatura "espírita" está "reencarnando" é um modo de dizer que o "espírito" está vedado para supostas psicografias de outros escritores, "fechando" a produção nas obras produzidas pelo "médium" que primeiro o "recebeu" e cujo trabalho "mediúnico" se encerrou, por causa da idade avançada. No caso de Divaldo, ele completa 90 anos daqui a cerca de dois meses.

Não é a primeira "saia justa" que se observa, neste caso em que um periódico "espírita" contradiz Divaldo ao anunciar que Jorge d'Andrea foi se reencontrar com Joana de Angelis e Adolfo Bezerra de Menezes, quando Joana foi anunciada como em processo de reencarnação e a "vida espiritual" de Bezerra não é mais do que um mero mito.

Segundo se desconfia, o dr. Bezerra de Menezes não permaneceu no plano espiritual, mas provavelmente teria reencarnado duas vezes, uma entre pouco depois de 1900 e os anos 1980, outra dos anos 1990 até hoje. Infelizmente, a biografia de Bezerra é fantasiada a ponto de fazê-lo um "Papai Noel brasileiro". E isso quando nem seus contemporâneos Rui Barbosa, Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Olavo Bilac são santificados em suas biografias.

Em outra "saia justa", Divaldo Franco, em uma suposta psicofonia, imitou o ex-presidente Deodoro da Fonseca, contradisse Chico Xavier, que havia afirmado, em 1989, que o hoje senador Fernando Collor de Mello, então candidato à presidência da República, era reencarnação do marechal que inaugurou a nossa República.

Há os casos de também se debater quem teria sido reencarnação de Allan Kardec, envolvendo palpites muito levianos e especulações das mais constrangedoras. Um dos envolvidos nessas brincadeiras é o próprio Chico Xavier. Em todo caso, todas elas ofendem a memória do professor lionês, num claro desrespeito ao seu árduo trabalho quando favorece mais os caprichos das paixões religiosas que tanto inebriam os líderes e ídolos do deturpado "espiritismo" brasileiro.

domingo, 5 de março de 2017

"Espiritismo" e pseudo-intelectualismo


Os "espíritas" brasileiros ainda estão indecisos sobre qual corrente vai prevalecer, se é a "fase dúbia", em que há o fingimento de que as bases doutrinárias de Kardec foram recuperadas, mas se pratica o igrejismo, e o neo-roustanguismo, que se fundamenta pela Teologia do Sofrimento de maneira mais explícita e sem disfarces "filosóficos".

Recentemente, diante do aprofundamento da crise no "movimento espírita", os palestrantes e articulistas estão se redobrando para tentar transformar sua doutrina igrejeira num "receituário moral", perdidos em apelar para sofredores aguentarem as desgraças ou em transmitir falsas lições em traduções catolicizadas da obra de Kardec (FEB e IDE, sobretudo).

Os ideólogos "espíritas" sempre são movidos em contradições. Tentam fazer o público crer que promover um engodo em que se misturam conceitos igrejistas do roustanguismo com apreciações superficiais do pensamento original de Kardec e descrições pedantes de temas e personalidades científicos, sob abordagens que mais parecem místicas e esotéricas.

Nos bastidores, consta-se que há um clima de muita apreensão. Afinal, as irregularidades do "movimento espírita" estão sendo amplamente denunciadas na Internet. A ameaça de derrubada de totens e o fim da blindagem que mantém os deturpadores "espíritas" na mais absoluta impunidade e no mais tendencioso vínculo com Allan Kardec já é considerada plausível.

Evidentemente, os "espíritas" reagem com seu exército de palavras bonitas. Tentam mostrar que são "bonzinhos" e reagem às críticas com aparente humildade. Mas há quem espume de raiva por dentro, ao ver que seu igrejismo não convence, mas tenta se controlar e despejar um monte de textos "iluminados" sobre "bondade", "caridade" e "perdão".

As contradições nunca se resolvem, e enquanto isso a "fase dúbia" parece exercer seus últimos suspiros, em sua última resistência. Tão "esclarecedores" textos surgem tentando dar a falsa impressão de que o "movimento espírita" expressa "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" ao legado de Allan Kardec, mesmo quando derrama um igrejismo entusiasmado e pegajoso.

Houve até desculpas de que a catolicização do Espiritismo se deu porque muitos "espíritas" haviam sido padres, freiras ou coisa parecida em encarnações anteriores e que tal postura é "saudável" por causa das "afinidades com os ensinamentos do Cristo". Só que isso não é saudável.

Afinal, por trás desse igrejismo, veiculam-se ideias e conceitos que contrariam severamente o legado de Allan Kardec. Livros e palestras trazidos por Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier são exemplos gritantes de ideias anti-kardecianas que são difundidas amplamente e de forma irresponsável, vestindo a capa da "bondade" e da "misericórdia".

As contradições do "espiritismo" brasileiro se alimentam e se sustentam, criando todo um exército de desculpas esfarrapadas que, cheios de palavras bonitinhas, convencem mais por parecerem simpáticas do que por terem qualquer sentido de lógica. É uma tática insólita, porém dotada de esperteza, a dos "espíritas" intimidarem as pessoas com bom-mocismo.

E aí vemos o pseudo-intelectualismo de muitos textos "espíritas", em que fatos, conceitos e personagens científicos são citados, de maneira um tanto pedante e tendenciosa, embora citando informações básicas aqui e ali. Um discurso que parece intelectualizado e comprometido ao conhecimento, mas que sempre termina num apelo igrejista extremado.

A invigilância dos questionadores da deturpação espírita, que não avançam mais do que defender a coerência dos postulados originais, preocupa. Afinal, as pessoas parecem se resignar na hipótese de Divaldo Franco passar a fazer palestras com base nas traduções de José Herculano Pires, como se isso trouxesse a paz e a coerência na Doutrina Espírita.

Ora, isso não traz. Divaldo Franco, assim como Chico Xavier, foram deturpadores severos da Doutrina Espírita e os conceitos que eles veicularam em seus inúmeros livros, e, de parte de Divaldo, espalhados por todo o mundo, já são suficientes para eliminar qualquer crédito a eles.

A deturpação do "espiritismo" criou impasses sérios que a coexistência artificial dos postulados originais kardecianos com ideias deturpadas e igrejeiras, embora persista diante de tanta crise, se tornam cada vez mais frágeis.

Incapaz de resolver ou explicar tais contradições, os "espíritas" se omitem e, ocupados em pregações moralistas sorridentes e pretensamente fraternais, tentam afastar a crise, embora sabe-se que o "movimento espírita" se estagnou em menos de 2% de seguidores brasileiros, segundo dados do Censo do IBGE.

O que não deve se sustentar eternamente é essa contradição de pseudo-intelectualismo e igrejismo, e não é o triunfalismo da "fase dúbia", corrente ainda hegemônica no "movimento espírita", em se achar "vitoriosa" no seu jogo duplo de fingir seguir o rigor kardeciano e praticar o igrejismo, que irá resolver a situação. A verdade é que a situação dos "espíritas", reféns de suas próprias contradições, se complica cada vez mais.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Livro de Chico Xavier e "André Luiz" mostra conceito roustanguista de Zoantropia


Um livro de Francisco Cândido Xavier mostra claramente um conceito trazido pela obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. O livro Libertação, de 1949, da "série André Luiz", que narra supostas colônias espirituais e supostos umbrais, a partir do drama de uma rebelião de "espíritos das trevas" reunidos numa entidade chamada "Dragões do Mal", é descrita uma punição já trazida pela obra de Roustaing. A obra é uma espécie de ficção científica de qualidade menor.

Ela consiste na Zoantropia, descrita no livro, não exatamente com esta palavra, mas pela descrição de formas animalescas que espíritos condenados incorporavam em seu perispírito, como o caso de uma senhora que em encarnação precedente cometeu duplo homicídio e depois suicídio. As formas animalescas foram descritas de forma repugnante, como na alegoria de demônios nas antigas ilustrações medievais. Vejam um trecho, extraído da página 84, no capítulo 12:

"Impressionado com a lição que recebíamos, contemplei a paisagem ao redor, cotejando-a com a da câmara em que Margarida experimentava aflição e tortura. Os impedimentos aqui eram muito mais difíceis de vencer. O cubículo transbordava imundície. Nas celas contíguas, entidades de repugnante aspecto se arrastavam a esmo. Mostravam algumas características animalescas, de pasmar. A atmosfera para nós se fizera sufocante, saturada de nuvens de substâncias escuras, formadas pelos pensamentos em desequilíbrio de encarnados e desencarnados que perambulavam no local, em deplorável posição.

Confrontando as situações, monologava mentalmente: por que motivo singular não operara nosso orientador no quarto da simpática senhora, que amava por filha espiritual, para entregar-se, ali, sem reservas, ao trabalho de assistência cristã? Vendo-lhe, porém, a solicitude na solução do problema
afetivo que atormentava o adversário, entendi, pouco a pouco, através da ação do mentor magnânimo, a beleza emocionante e sublime do ensinamento evangélico: 'Ama o teu inimigo, ora por aqueles que te perseguem e caluniam, perdoa setenta vezes sete'".

Note-se sempre o mesmo apelo "científico" que se encerra com um apelo igrejista. É praxe no "espiritismo" brasileiro: há, seja em trechos de livros, em livros inteiros ou em palestras e artigos, toda uma verborragia que evoca tendenciosamente fatos e personagens científicos, ou descrições supostamente científicas, e no final há sempre apelos igrejeiros de "fraternidade", "perdão" e "caridade", dentro de uma perspectiva análoga à da Igreja Católica.

É, portanto, um trecho que revela o quanto a obra é inspirada em Os Quatro Evangelhos de Roustaing, pela forma com que se fala das condenações humanas - Kardec refutava o o punitivismo na natureza das reencarnações - e pelo igrejismo em que se recorre para a "salvação humana".

SUPOSTO ESPÍRITO EM FORMA ANIMALESCA, QUE O ANTIGO ASSISTENTE DE WALDO VIEIRA, WAGNER BORGES, DISSE TER REGISTRADO EM CÂMERA.

COLABORAÇÃO DE WALDO VIEIRA

Nas obras de Chico Xavier, observa-se certas "parcerias" que desmontam a veracidade mediúnica. No caso de "Humberto de Campos / Irmão X", observa-se que os livros foram quase todos escritos, a quatro mãos, por Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB.

No caso de "André Luiz", o que vemos é que, depois dos primeiros trabalhos terem sido feitos por Chico e Wantuil, sendo Nosso Lar embasado na tradução em português, já publicada na FEB, de A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), do reverendo inglês George Vale Owen, a colaboração de Waldo Vieira, antes possivelmente limitada a sugestões, tornou-se mais tarde co-autoral.

Observa-se que George V. Owen publicou A Vida Além do Véu em mais de um volume, o que indica uma certa semelhança com o livro de Roustaing. Suposta psicografia, trazida não por um católico mas por um protestante, também revela uma interpretação da temática espírita através de paixões religiosas terrenas.

Neste caso, Chico Xavier preferiu fazer diferente, colocando suas "séries" e outros livros atribuídos a outros autores espirituais. Consta-se que, dos anos 1970 até o fim, as atividades bibliográficas de Chico Xavier tenham sido mais raras e que boa parte dos livros, dessa época, que levam o seu nome não tiveram sua participação em uma única vírgula, sendo apenas trabalhos feitos por editores da FEB nos quais Chico apenas avaliava rapidamente e aprovava.

Voltando ao caso "André Luiz", Libertação já mostra Waldo Vieira como colaborador, com o tema da Zoantropia mais tarde inserido na Conscienciologia e Projeciologia, seita criada por Waldo depois que rompeu com Chico Xavier, devido ao escândalo da fraude de Otília Diogo, a ilusionista que se passava pela irmã Josefa e outros supostos espíritos materializados. É provável que o livro ...E a Vida Continua já não tenha os dedos de Waldo nem Wantuil (já doente), mas de Chico e editores da FEB.

Um ex-colaborador de Waldo Vieira, o "médium" carioca Wagner Borges, havia filmado um suposto espírito tomado de Zoantropia, ou seja, apresentando formas animalescas, o que pode dar indícios de fraude. Não há uma tese científica que pode indicar tal existência e mesmo abordagens ufológicas, quando atribuem tais seres a "extra-terrestres", são ainda bastante especulativas.

Não é impossível, no entanto, que esse "ser" seja, na verdade, alguém fantasiado - usando alguma máscara nos olhos com efeito fosforescente e usando umas asas de fantasia carnavalesca - , que corre num cenário noturno de relva diante de filmagens de baixa resolução. Com a "escola" que se tem do "espiritismo" deturpador e fraudulento, tudo se pode esperar em mentiras e armações.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Uma prova da Teologia do Sofrimento de Chico Xavier


As pessoas têm uma moral bastante viciada, que com toda certeza trava o progresso real da humanidade, principalmente num país teimoso como o Brasil. Temos abordagens antiquadas sobre bondade, superação, esperança e otimismo que mais parecem valores trazidos da Idade Média.

Deturpador máximo da Doutrina Espírita, Francisco Cândido Xavier foi o maior arrivista de toda a História do Brasil. Queria ser unanimidade a qualquer preço, e esquecemos o alerta do escritor Nelson Rodrigues, de que "toda unanimidade é burra".

Aliás, em nome de Chico Xavier, joga-se a coerência no lixo. Esquece-se os mais valiosos conselhos em nome de um mito religioso sem muita confiabilidade. Afinal, Chico Xavier é comprovadamente um deturpador da Doutrina Espírita, e nem de longe pode receber a idolatria que recebe, tratado como um Deus, por pessoas pseudo-iluminadas que, dando ouvidos ao "médium" e dublê de pensador, ficam surdos ao mundo.

Isso é um dos apegos muito mais perigosos. Chico Xavier fez coisas que a Doutrina Espírita já afirmava como perigosas e ameaçadoras. Deturpador severo, mistificador perigoso, criador de confusão, manipulador de mentes e, principalmente, um traiçoeiro sedutor de mentes humanas, através de palavras bonitas e arremedos de bondade que escondem planos perversos de desmoralizar uma doutrina que seria voltada ao Conhecimento e não ao deslumbramento igrejeiro.

Chico Xavier foi um católico ultraconservador. Beato, rezador de terços e adorador de imagens de santos (haja materialismo!), Chico Xavier era um católico ortodoxo, cujas crenças remetiam a valores da Idade Média. Sim, Chico Xavier era medieval, por mais que fingisse admitir que a Idade Média é uma fase superada da humanidade.

Mas isso é como os reacionários políticos de hoje (Michel Temer, Aécio Neves, Jair Bolsonaro etc), que também dizem que a ditadura militar é uma "página virada" de nossa história. Para buscar novos retrocessos, se tenta desvincular de processos antigos semelhantes.

Identificamos em Chico Xavier ideias próprias da Teologia do Sofrimento, a corrente medieval da Igreja Católica. E como Chico Xavier é comparado a Madre Teresa de Calcutá, ambos mitos fabricados pela aliança entre mídia e religião (Chico Xavier é protegido da Rede Globo), isso faz muito sentido, porque a Teologia do Sofrimento também era defendido pela "santa".

O fragmento que ilustra esta postagem revela o quanto a Teologia do Sofrimento também tenta trazer argumentos mais dóceis. Essa ideologia sempre apela para a pessoa aguentar o sofrimento, e, por mais que acumulasse desgraças em sua vida, nunca se atrevesse a reclamar e, de preferência, evitar até mesmo gemer de dor.

Na Teologia do Sofrimento, a pessoa tem que aguentar a opressão até acima de seus limites e de suas capacidades, desafiando a paciência até depois de suas energias se esgotarem. É o "quanto pior, melhor" da religião, que, no discurso, parece uma coisa linda para se admirar. O sofrimento é lindo quando narrado em belas palavras, mas vai o religioso encarar esse mesmo sofrimento para ver se é bom. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

CHICO XAVIER DEU CONSELHO INÚTIL

Mas aí temos a mensagem acima de Chico Xavier. Parece uma mensagem de esperança e otimismo? Parece, mas não é. É a Teologia do Sofrimento. Há a glamourização do sofrimento humano, a apologia da desgraça como um meio de atingir as "bênçãos de Deus" (será que ninguém se tocou na ideia sem pé nem cabeça da "bênção"?), e o conselho do "médium" para a pessoa esquecer os sofrimentos que o levaram a alguma superação.

Trata-se de um conselho inútil, porque a pessoa que supera seu sofrimento já se esforça para esquecê-lo. Mas mesmo que as feridas da desgraça intensa e das dificuldades graves lhe fixam na memória, nem por isso o conselho "amigo da onça" de Chico Xavier serviu para alguma coisa. A pessoa é que tem consciência de sua capacidade e não é o "médium" que, no seu juízo de valor, vai dizer se a pessoa é capaz ou não de enfrentar dificuldades extremas.

As frases de Chico Xavier, observando muito bem, não tem o menor grau de sabedoria. Ela faz o tipo do chato que quer dar pitaco no sofrimento das pessoas e ficar dizendo coisas às vezes óbvias, às vezes insuportáveis, como se quisesse interferir na dor alheia, no momento em que justamente não se deve dar mensagens desse nível.

As pessoas sofrem muito, no momento de dificuldades extremas há muita irritação, depressão, vontade de cometer suicídio ou de agredir alguém, há a tentação da maledicência e de se explodir em fúria. O "espírita" não tem ideia do quanto é ruim passar por tais frases, o sofrimento só é bonito no discurso.

Chico Xavier é esse chato. A pessoa é que tem consciência, pela sua vivência, se vai manter ou não na memória as dores desse sofrimento ou como ela vai lidar com elas. Os "espíritas", que pelo jeito não sabem o que é sofrer, não têm moral para dar juízo para coisa alguma. Não sabem o que é um pesadelo cotidiano de desgraças acumuladas de maneira descontrolada.

Esse fragmento de Chico Xavier é um daqueles que remetem ao mito fabricado por Malcolm Muggeridge. Chico quis imitar Madre Teresa, que virou "filantropa" e se deu a dizer "frasezinhas de esperança" por causa desse mito criado por Muggeridge que reduziu a ideia de "bondade" a um subproduto da instituição religiosa. Uma "bondade" que pouco ajuda, e que só serve para fazer propaganda do "benfeitor", que comemora demais com ajuda de menos.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...