sábado, 14 de maio de 2016

Nenhuma bondade compensa a desonestidade doutrinária


A desonestidade doutrinária é um dos males do "espiritismo" brasileiro. Antes sua doutrina tivesse assumido o roustanguismo de vez, porque ninguém vai para a cadeia ou para o umbral por achar Allan Kardec um chato hermenêutico. No entanto, as pessoas praticam a deturpação mas juram que estão sendo "rigorosamente fiéis" ao pedagogo francês.

Sejamos exatos. Se alguém corteja Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, já está traindo Allan Kardec. Não se acende vela para dois lados diferentes, e este aviso foi dado pelo próprio Jesus de Nazaré, que, do contrário que muitos imaginam, reprovaria severamente os dois "médiuns", chamando-os de hipócritas.

Isso não é uma constatação de gente invejosa, Nem de gente querendo a desunião, a confusão e a guerra. É só ver as obras de Chico Xavier e Divaldo Franco, e se verá que eles são deturpadores da pior espécie, não cabendo qualquer relativização.

Bondade não é desculpa para aceitar a deturpação. A bondade não pode estar a serviço da mentira, da mistificação. O corrupto que investe em filantropia está cometendo "lavagem de dinheiro" e nem por isso ele se transformou em filantropo. Mas o deturpador que finge falar com mortos e despeja ideias moralistas e igrejeiras retrógradas é glorificado pela suposta imagem de "bondade".

Aceitar os deturpadores pela suposta bondade - que, analisando bem, não trouxe resultados concretos para a humanidade, mas são exaltados pela roupagem religiosa que apresentam - é compactuar com a mentira e com as ideias levianas.

É assustador que o "movimento espírita" se beneficie com a desonestidade doutrinária, obtendo uma imunidade e uma impunidade colossais, nas quais ninguém tem coragem de investigar nem averiguar a sério.

Quando muito, finge-se investigar ou analisar, seja uma reportagem do Profissão Repórter, da Rede Globo, ou projetos acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora, tudo para fazer de conta que admite existir polêmicas e controvérsias, mas depois legitimam toda a farsa "espírita" da "mediunidade de faz-de-conta" e das pregações igrejistas.

Imagine a situação. Alguém assume um compromisso de representar e difundir um sistema de ideias. Decide depois distorcer esse sistema e transmitir ideias contrárias às originais. Ganha prestígio com tamanha enganação. Depois, mostra supostos projetos de caridade que investe ou apoia e ganha a imagem de "bonzinho". O pessoal então acredita e o deturpador passa a ter imunidade social.

Vamos comparar então com um político. Ele assume um compromisso de executar um projeto de governo que afirmou ser benéfico para a população. Eleito, descumpre muitas promessas e lesa seus eleitores. Ganha prestígio diante do status que alcançou como autoridade. Depois, mostra supostos projetos sociais que a fortuna acumulada pela corrupção aplica como "lavagem financeira".

Será que as pessoas vão aceitar? A bondade realmente está acima de tudo? Ela está acima da ética, da honestidade, da transparência? A bondade é um subproduto da moral religiosa? Este é o grande problema da ideia de bondade, estar ela subordinada à mística religiosa. O que mostra que muitos acreditam que a bondade está abaixo da religião, a virtude é apenas um artifício da fé.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Eduardo Cunha e o afastamento apenas de gente "incômoda demais"


Há uma semana, o deputado federal Eduardo Cunha teve seu mandato suspenso pelo Supremo Tribunal Federal, além de ter perdido, por essa iniciativa, o cargo de presidente da Câmara dos Deputados, perdendo a chance de ser o suplente de Michel Temer na presidência da República, durante as viagens deste.

O Brasil sempre tem "inocentes" ou "encrenqueiros" úteis para determinadas ocasiões, em que há necessidade de impor ideias ou medidas impopulares ou injustas, criando encrenqueiros de ocasião para criar baderna e, uma vez conquistada a causa retrógrada, eles são tirados do poder e até punidos de certa forma, depois que o estrago foi feito.

Eduardo Cunha, símbolo da decadência do Estado do Rio de Janeiro da decadência cultural do "funk", dos ônibus com pintura padronizada, das "rádios rock" incompetentes e de um povo que ri dos próprios problemas e já nem sente o fedor de fezes de cachorros nas calçadas ou de caminhões de lixo parando até diante de restaurantes, é um exemplo dessa tendência.

Ele foi eleito como símbolo de uma suposta moralidade reivindicada pelos cariocas, nesse cenário de decadência generalizada que atinge o Estado e sua capital. Cunha lançou ou apoiou propostas retrógradas que foram feitas em função de preconceitos moralistas religiosos ou pela ganância dos detentores do poder econômico, propostas conhecidas como "pautas-bombas".

Cunha tornou-se o "encrenqueiro útil", na medida em que se assumiu opositor da presidenta Dilma Rousseff, até comandar, em 17 de abril, a votação pela abertura do processo de impeachment. Assim que cumpriu o ritual, comandando uma votação na qual políticos corruptos deram seu voto ao "sim" (abertura do processo de impeachment), Cunha foi afastado da presidência da Câmara Federal.

É um fenômeno típico no Brasil. Escolhe-se pessoas reacionárias e desordeiras para defender uma causa reacionária e, assim que ela cumpre o papel, é dispensada quando a causa é conquistada e tida como "irreversível". E isso se dá por dois aspectos.

Primeiro, o encrenqueiro da hora agiu apenas em função de afastar os contestadores e qualquer mobilização contra a causa retrógrada em jogo. Era como um "cão-de-guarda" usado para afastar os manifestantes. Estando estes longe, ou então detidos ou mortos, o "cão-de-guarda" pode ser depois sacrificado.

Segundo, o encrenqueiro pode ser, contraditoriamente, a raiz de um futuro problema. Ele não pode ter autonomia plena, já que ele pode, depois, ameaçar os interesses do grupo que o utilizou em dada ocasião, em defesa da causa desejada, por causa de sua arrogância e prepotência que pode fazê-lo ir "longe demais".

Um exemplo dessa segunda hipótese está na política dos EUA, que primeiro apoiaram ou treinaram tiranos e terroristas como Adolf Hitler, Sadam Husseim e Osama Bin Laden. Todos eles foram protegidos do capitalismo dos EUA, conforme registram dados da imprensa das referidas épocas.

No entanto, quando eles passaram a agir por conta própria e desenvolver sua prepotência e projeto pessoal de domínio, os EUA agiram para combatê-los. Os facínoras "úteis" passaram a ser inimigos, e com isso eles foram perseguidos até serem acuados e mortos (Hitler teria se suicidado).

ROUSTAING

No "movimento espírita", o "encrenqueiro útil" foi Jean-Baptiste Roustaing. O primeiro deturpador da Doutrina Espírita havia lançado o duvidoso Os Quatro Evangelhos, livro de três volumes publicado em 1866 na França. A edição da FEB, no Brasil, conta com quatro volumes, devido ao acréscimo de notas e textos do tradutor Guillon Ribeiro.

A preferência por Roustaing era tanta que houve falsas psicografias e falsas psicofonias do espírito de Allan Kardec apelando para a "revelação da revelação" (subtítulo da obra roustanguista), divulgando mensagens que não condizem ao estilo claro e objetivo do pedagogo francês.

O conflito entre os "místicos" e "científicos" nos primórdios do Espiritismo fez com que, no Brasil, a opção mística prevalecesse, devido aos interesses de seus partidários de não fazer afronta com a Igreja Católica, havendo até artifícios para agradar os católicos, com a adaptação de muitos de seus ritos.

Assim, a "água benta" católica, por exemplo, virou "água fluidificada". O "confessionário" virou "auxílio fraterno". "Santos" viraram "espíritos benfeitores" ou "espíritos de luz", enquanto "centros espíritas" se estruturavam como verdadeiras igrejas. A reboque disso tudo, jargões católicos como "seara", "viajor", "caminheiro" e outros eram introduzidos no vocabulário "espírita".

Durante muito tempo, Roustaing era endeusado pelo "movimento espírita". Adolfo Bezerra de Menezes, em seu tempo, preferiu Roustaing a Kardec, contrariando a fama de "Kardec brasileiro" atribuída ao médico cearense. Os Quatro Evangelhos se tornaram item obrigatório de leitura segundo o Estatuto da FEB, que até hoje publica e vende seus volumes.

O roustanguismo durou muito tempo como tendência prevalecente no "movimento espírita". Figuras conhecidas como Yvonne Pereira, Luciano dos Anjos, Guillon Ribeiro ou mesmo Francisco Cândido Xavier, fizeram parte dessa fase. Sim, isso mesmo, Chico Xavier sempre foi roustanguista, embora um tanto envergonhado.

O roustanguismo de Chico Xavier era tão explícito que ele adaptou de forma surpreendente ao contexto brasileiro as lições da obra de Roustaing. Até a Teologia do Sofrimento (que faz apologia do sofrimento como "caminho para a purificação da alma") é influenciada pelo roustanguismo. Até a controversa ideia do "Jesus fluídico" (que acredita que Jesus nunca encarnou) Chico Xavier manifestou um certo interesse.

Xavier apenas descartou os "criptógamos carnudos", ideia muito desagradável (consiste em humanos reencarnarem como insetos, plantas ou mesmo vermes e micróbios), pelos animais domésticos do além. descritos no livro Nosso Lar, de 1943, inspirado em A Vida Além do Véu (The Life Beyond the Veil), do inglês George Vale Owen (provável roustanguista), lançado na FEB no calor do entusiasmo pelo autor de Os Quatro Evangelhos.

RAZÃO POLÍTICA

A crise do roustanguismo se deu por uma razão política. A FEB, com o Pacto Áureo em 1949, criou um seminário no qual só valeram as decisões centralizadas pelo presidente Antônio Wantuil de Freitas ("mentor" terreno de Chico Xavier e primeiro criador de seu mito), que não consultou as federações regionais.

Evidentemente, as causas de Chico Xavier, mineiro, e de Divaldo Franco, baiano, foram depois prejudicadas. Para piorar, um dos braços direitos de Wantuil, Luciano dos Anjos, denunciou que os primeiros trabalhos "psicográficos" de Divaldo Franco plagiavam os de Chico Xavier, que já eram em si pastiches e plágios. Chico e Divaldo quase ficaram brigados. A postura fez com que parte dos "místicos" se voltasse contra a postura centralizadora da FEB.

Dessa forma, o nome de Roustaing, vinculado à cúpula da FEB, passou a ser visto como um "palavrão". O nome de Allan Kardec passou a ser utilizado por interesses políticos, mais como um "partido dos regionalistas".

Até supostas mensagens espirituais de Adolfo Bezerra de Menezes alegando "arrependimento" com o roustanguismo foram divulgadas. O "dr. Bezerra" aparecia falando em "kardequizar", dando a deixa de que a opção por Allan Kardec não era gratuita, pois o termo usado é uma corruptela com "catequizar", o que mantém o propósito igrejeiro dos "místicos" que romperam com a cúpula da FEB.

Roustaing passou a ser um "problema" e foi então oficialmente descartado. Só o "alto clero" da FEB o aprecia, à revelia do público "espírita" que desconhece esse autor. E os dirigentes "espíritas" em geral viram que não precisavam mais de Os Quatro Evangelhos: a essência de seus volumes já havia sido devidamente adaptada à realidade brasileira por Chico Xavier e Divaldo Franco.

A deturpação da Doutrina Espírita, desta forma, sobreviveu sem o autor que causava controvérsia afirmando que humanos poderiam reencarnar até como baratas ou protozoários ou, quem sabe, o vírus da Zyka. Sem esse incômodo, permite-se hoje que se deturpe o pensamento de Allan Kardec em ideias igrejistas, mas finja-se ter "total fidelidade e respeito" ao legado do pedagogo de Lyon.

Daí vemos o surgimento da fase "dúbia" do "movimento espírita", ainda resistente a todo custo, com suas falsas juras de amor a Kardec e com sua falsa rejeição ao igrejismo (entendido como "vaticanização espírita", termo usado para desqualificar o "alto clero" da FEB), enquanto, na prática, adota uma postura abertamente igrejista e catolicizada.

A ideia de decartar uma pessoa "incômoda demais" se reflete no desprezo a Roustaing. Além dele, os "espíritas" criticam também os "peixes pequenos", que levam sozinhos a culpa das irregularidades "espíritas" (tanto na apreciação das ideias kardecianas quanto na suposta prática de mediunidade) que até Chico e Divaldo tanto praticaram, mas das quais saem "completamente inocentados", apesar das muitas provas.

Dessa forma, atribui-se o "mau espiritismo" apenas a "centros espíritas" pequenos, instituições de menor porte, iniciativas de "fundo de quintal", sem o respaldo da FEB nem de federações regionais (sobretudo estas). Os deturpadores de menor status levam a culpa, mas os deturpadores de grande porte (os "peixes grandes") continuam aí, bajulando Kardec e professando o igrejismo.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Imitando Porta dos Fundos, grupo humorístico tenta salvar "espiritismo" brasileiro


A ideia parece boa. Um grupo humorístico que promete explicar situações do Espiritismo com esquetes engraçadas, em linguagem dinâmica e situações cômicas. É o que, à primeira vista, se observa com o grupo de comediantes Amigos da Luz, que tem um canal no YouTube.

Admite-se o avanço do domínio da linguagem lançada pelo canal Porta dos Fundos, até pelo fato de que dois dos comediantes desse grupo, Fábio Porchat e Gregório Duvivier, terem participado do longa-metragem Chico Xavier - O Filme, de 2010. É possível que o próprio Porta dos Fundos tivesse feito consultoria para os humoristas "espíritas".

No entanto, o que se observa, indo mais fundo para as esquetes, que o humorismo é apenas um recurso para tentar salvar o combalido "espiritismo" brasileiro, cuja fase "dúbia" sofre uma grave crise, diante da impotência em esclarecer as contradições existentes.

Sabe-se que a fase "dúbia", que se ascendeu há 40 anos diante da crise do roustanguismo da FEB, consiste em adotar, no discurso, uma postura supostamente fiel aos ensinamentos de Allan Kardec, enquanto, na prática, se realiza a mesma deturpação igrejeira da Doutrina Espírita, uma espécie de neo-roustanguismo enrustido, dissimulado por pretensas apreciações da Ciência e da Filosofia.

As contradições envolvem sobretudo uma entusiasmada inclinação à devoção religiosa, herdada da Igreja Católica, que os "espíritas" mal conseguem disfarçar e nem se esforçam para isso. A exaltação de figuras como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco e a emotividade que se vê, por exemplo, em parentes de pessoas mortas, com uma histeria que lembra a de beatos diante de milagres católicos, é um típico exemplo dessa atitude.

Misturam-se conceitos trazidos por livros de Allan Kardec - geralmente as traduções da editora IDE, diante da má reputação da antiga cúpula da FEB (Wantuil de Freitas, Francisco Thiesen, Luciano dos Anjos e, mais atrás, Guillon Ribeiro, tradutor das edições febianas da obra kardeciana) - com pretensos ensinamentos de livros de Chico Xavier e Divaldo Franco, numa clara contradição de ideias, apesar do cuidado de não expor as mesmas de forma a vazar tais conflitos.

O grupo humorístico Amigos da Luz não atua diferente dessa tendência. Numa esquete sobre mediunidade, um médium atrapalhado tenta falar com espíritos e, de repente, aparece um tentando dar "ensinamentos" ao outro. Em dado momento, o "espírito" se comporta com o ar solene conhecido de Emmanuel, num momento em que a esquete perde seu caráter divertido para dar lugar à pregação "espírita" conhecida.

Há também uma outra esquete na qual Divaldo Franco é convidado, o que mostra o propósito do grupo, que é tentar salvar, pela via humorística, a deturpação da Doutrina Espírita e seus ídolos, como um último recurso, embora sintonizado com a atual linguagem da Internet, de manter a fase "dúbia" que tanto bajula Allan Kardec quanto esquece de seus ensinamentos mais urgentes.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Governo Michel Temer: República Velha rediviva?


Diante da campanha pelo impachment de Dilma Rousseff, cujo processo aprovado na Câmara dos Deputados foi barrado pela imprevista decisão do presidente interino, Waldir Maranhão (PP-MA), criou uma confusão política sem solução, até o momento da edição deste texto.

Há tempos anuncia-se o fim do governo de Dilma Rousseff, no seu segundo mandato como presidenta da República. Diante de uma crise econômica que, na verdade, é um reflexo da crise do mundo capitalista, Dilma, seu antecessor Lula e o Partido dos Trabalhadores tornaram-se bodes expiatórios de uma série de crises que culminou na campanha do impeachment.

O desejado novo titular, Michel Temer, vice de Dilma nos dois mandatos, revelou-se um político conservador, não bastasse ele ser um patriarca à moda antiga, um marido de uma mulher 43 anos mais jovem com uma relação conjugal típica do século XIX.

Como político do PMDB, o advogado paulista Temer também reflete o perfil asséptico do partido, na verdade o único remanescente da ditadura militar - é o antigo MDB, apenas com a letra P, de "partido", acrescida à sigla - , cujo projeto político não era muito definido, oscilando entre um populismo paliativo e um liberalismo austero.

A ascensão de Temer, antes um "decorativo" vice-presidente cujos eventuais momentos como presidente em exercício se deu desde o governo Fernando Henrique Cardoso, na condição de presidente da Câmara dos Deputados, se dá dentro de uma retomada conservadora da sociedade brasileira, que já tinha frágeis conquistas no âmbito progressista.

Era um Brasil que, culturalmente, lutava para manter paradigmas da ditadura militar, como o comercialismo da música brega e do sensacionalismo midiático "popular", através de pastiches de ritmos regionais brasileiros - o "sertanejo", por exemplo, parodia a música caipira - , musas siliconadas e apresentadores de programas policialescos de TV.

Esse mercantilismo populista era empurrado para a aceitação forçada de ativistas de esquerda, sob influência de intelectuais originalmente vinculados ao PSDB, como o jornalista paulistano nascido no Paraná, Pedro Alexandre Sanches - curiosamente, conterrâneo do juiz midiático Sérgio Moro - , travando os debates sobre cultura popular e obrigando o povo pobre a se submeter a paradigmas de pobreza, ignorância e inferioridade social, como morar em favelas e praticar a prostituição.

Embora travestida de "progressista", essa campanha em favor da bregalização cultural - feita com a ajuda de monografias e documentários - defendia uma imagem caricatural do povo pobre, "idealizada" por interesses mercadológicos e até político-ideológicos, usando o entretenimento popularesco para desmobilizar as classes populares sob a desculpa de que a diversão "já é um ativismo" em si, devido ao "mau gosto" e à "provocatividade".

Esse cenário cultural era um complemento ao poderio midiático que, mesmo ameaçado - a Rede Globo, por exemplo, perde audiência e a Veja tem um histórico recente de milhares de exemplares encalhados, influindo na crise empresarial do Grupo Abril, que desfez de boa parte de seu espólio - , aumentou seu poder de influência através de uma campanha difamatória contra Dilma, Lula e o PT.

Havia também o vandalismo na Internet através dos chamados "troleiros", espécie de "cães de guarda" de valores e fenômenos vigentes na mídia, na política e no mercado, que humilhavam pessoas que discordavam desses paradigmas. Juntamente ao zelo por valores retrogrados, os troleiros também defendiam valores racistas e machistas, causando problemas até em gente famosa.

Suas práticas, como divulgar mensagens ofensivas em série, com diferentes pessoas despejando mensagens num mesmo horário combinado, eram conhecidas como cyberbullying, e seus responsáveis acabaram chamando a atenção da polícia, por conta do teor violento dessas postagens. Alguns, mais atrevidos, chegavam mesmo a criar blogues ofensivos contra as vítimas.

A ação dos troleiros - cuja ascensão, ainda no primeiro mandato de Lula, era dissimulada por um falso esquerdismo feito para conquistar a simpatia de jovens mais avançados - impulsionou as passeatas anti-Dilma, que se multiplicaram no país, criando personagens insólitos como Batman do Leblon (que misturava o traje do herói estadunidense com um cocar de índio brasileiro) e mascotes como o Pato da FIESP.

Combinando a ação de troleiros, intelectuais pró-bregalização e jornalistas reacionários, criou-se então um contexto para enfraquecer o governo Dilma Rousseff e afastar o PT do cenário político nacional. através de um processo de inquéritos confuso e precipitado, a Operação Lava-Jato, que revelou o sucesso midiático do jovem juiz Sérgio Moro.

Diante disso, uma histeria anti-PT cresceu e usou como pretexto a crise econômica - na verdade, reflexo de um cenário mundial, combinado com os gastos excessivos do empresariado para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016 e o confisco do dinheiro pelas elites - para pedir a queda de Dilma.

Com isso, entra em cena o governo de Michel Temer e há muito é anunciado seu programa de governo, com propostas que supostamente não afetarão as conquistas sociais, mas irão impor "muitos sacrifícios", o que significa, por exemplo, um declínio da política salarial e das relações de trabalho, em que os interesses patronais terão maior prioridade sobre o dos trabalhadores.

Investimentos na Educação e na Saúde também podem ser reduzidos, não fosse o suficiente tais setores serem sempre os que menos recebem recursos públicos. Privatizações poderão atingir instituições públicas estruturais, num contexto em que o setor de telefonia, carro-chefe das privatizações dos governos de FHC, demonstram serviço bastante deficitário, ameaçando restringir as conexões de Internet.

Fala-se que o governo de Michel Temer adotará pautas apoiadas pelo político carioca Eduardo Cunha, que perdeu a função de presidente da Câmara dos Deputados e teve suspenso seu mandato de deputado federal pelo hoje decadente Estado do Rio de Janeiro, por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Aspectos da terceirização do mercado de trabalho - que promete aumentar empregos com a diminuição de salários, eliminação de encargos e fim das punições e de custos contra os abusos patronais - serão adotados por Temer, mesmo com o afastamento da influência de Cunha, aceito pelo establishment como um agressivo opositor de Dilma Rousseff, mas descartado diante do risco do então presidente da Câmara perder o controle e ir longe demais com sua prepotência política.

Fala-se em retrocesso em relação a muitas conquistas trabalhistas. A Consolidação das Leis de Trabalho, lançada em 1943 por Getúlio Vargas, será prejudicada em muitos pontos. Conquistas progressistas sofrerão recuo. Preços poderão aumentar drasticamente, prejudicando o abastecimento de famílias e indivíduos em geral. A classe média corre o risco de se pauperizar.

Muitos perguntam se o governo de Michel Temer será a República Velha rediviva. A farra política dos decadentes Estados do Rio de Janeiro e São Paulo poderá reproduzir a "política do café-com-leite" de 100 anos atrás. O paulista Temer e o prepotente e neocoronelista PMDB carioca, não mais representado por Cunha, mas dando um jeito para exercer alguma influência forte, mesmo indireta.

O que se sabe é que a crise do governo Dilma Rousseff não acabará. Pode acabar o governo, mas a crise continua, até pelo golpe político que foi feito sob o simulacro da legalidade e da ação do Judiciário.

A farra pelo fim do comando do PT no Governo Federal dará lugar a uma ressaca sócio-política que inevitavelmente criará decepções futuras e deixará a sociedade conservadora à mercê de novos impasses. Até porque a reconquista do poder lhe significará novas cobranças e responsabilidades.

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Fascinação" pelo "espiritismo" brasileiro é risco de subjugação

O MERCADO LITERÁRIO É UM EXEMPLO DE COMO INSTITUIÇÕES ESTÃO SUBJUGADAS À MISTIFICAÇÃO "ESPÍRITA".

Há um tipo de obsessão, analisado por Allan Kardec, chamado "fascinação". Nela a pessoa é tentada a seguir uma influência espiritual através do encanto, se submetendo, embora mantendo o próprio controle da consciência, aos mitos, dogmas e práticas feitas pelo espírito dominador, encarnado ou desencarnado.

As pessoas são seduzidas pelo "canto da sereia" de uma influência leviana, atraída pelas promessas de benefícios ou coisas lindas que essa influência nefasta apresenta, criando uma roupagem de algo "atraente" e "admirável". É como se manipulasse um adulto da forma como se manipula uma criança, criando um "mundo de cor e fantasia" ou então prometendo algum "presentinho" ou "aquele sorvete delicioso".

As pessoas não percebem isso e seguem um dos piores cacoetes observados no povo brasileiro, que é o de dar explicações pretensamente racionais para ideias irracionais ou concepções puramente subjetivistas. O cérebro a serviço do umbigo. E aí vemos os "espíritas" deslumbrados usando argumentos "objetivos" para suas convicções pessoais e crenças fantasiosas sobre seus ídolos.

O próprio "espiritismo" se reveste dessa roupagem. Se traveste de doutrina científico-filosófica para pregar igrejismo, moralismo retrógrado e misticismo esotérico. E isso faz com que seus seguidores sempre justifiquem suas convicções pessoais pelos argumentos supostamente objetivos.

E é isso que faz com que se permitam as contradições do "espiritismo" brasileiro. Aceita-se tudo comodamente porque as pessoas têm, em relação a essa doutrina, um sentimento de "fascinação" no sentido do tipo de obsessão que havia sido descrito por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, capítulo 23, item 239.

O caráter obsessivo se dá pelo fato de que se aceitam fantasias e deturpações em prol do apego à imagem religiosa de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, entre outros. A roupagem de "amor e caridade", perigo já advertido por Kardec, é um fator bastante observado nesses deslumbrados religiosos.

Não há investigação sobre as irregularidades "espíritas", aceita-se a deturpação da Doutrina Espírita como se o próprio Allan Kardec tivesse autorizado que empastelassem seu sistema de pensamentos, jogando o Conselho Universal do Ensino dos Espíritos no lixo, inutilizando o sacrifício árduo do pedagogo francês em prol de uns beatos festivos no Brasil.

Allan Kardec é traído o tempo todo pelos "espíritas" brasileiros. Inteiramente. É traído tanto pela declaração de pretenso respeito ao seu legado, quanto ao igrejismo ao mesmo tempo praticado e (no discurso) reprovado. Todos seguindo um igrejismo pretensamente fraternal, trocando C.U.E.E. por C.N.B.B., mas jurando de joelhos que é "absolutamente fiel" ao pedagogo francês.

E a sociedade brasileira aplaude, sem saber das armadilhas que se armam. Mas, também, só agora que as seitas neopentecostais estão sendo contestadas em larga escala, pelos movimentos sociais ou mesmo pelo poder midiático (a Rede Globo é rival da Rede Record), pois até uns dez anos atrás elas também eram consideradas intocáveis.

A desculpa toda tem como pretexto a "bondade". Virou clichê. "Eles erram, mas praticam caridade", é o que se ouve não só dos "espíritas" mas de alguns simpatizantes "laicos" e "ateus" (?!) de Chico Xavier e Divaldo Franco. Se apegam a clichês publicitários de caridade e bondade e dormem tranquilos porque os deturpadores traem Kardec mas são "bonzinhos".

INSTITUIÇÕES JÁ SÃO SUBJUGADOS AOS "ESPÍRITAS"

A imprensa, o meio jurídico, a classe acadêmica, quase todas as instituições que poderiam denunciar as irregularidades do "movimento espírita" e questionar até mesmo totens e ídolos estão subjugados a sua mística e seus mitos.


Diferente dos EUA, em que a engenhosa Cientologia - que apresenta caraterísticas comuns com o "movimento espírita", principalmente quanto aos aspectos moralistas e pelo misticismo pseudocientífico - é investigada e possuem documentários questionando a seita, o similar brasileiro apenas tem, quando muito, falsas investigações que só servem para legitimar suas práticas de valor ético duvidoso.

A imprensa apenas vai aos "centros espíritas" ver como funcionam as instituições "espíritas" na aparência, como atuam os ídolos "espíritas" e ninguém pergunta o que há nos bastidores. Ninguém fala em "leitura fria", que é a prática sutil de obter informações de parentes de mortos durante o "auxílio fraterno" como matéria-prima para pretensas psicografias.

A classe acadêmica faz monografias que, salvo poucas exceções, apenas descrevem atividades "espíritas" e apreciam teses adversas que apontam para irregularidades em Chico Xavier, por exemplo, apenas para dizer que "analisa" pontos polêmicos e no final legitima tudo o que se faz no "movimento espírita".

Até o mercado literário anda subjugado com o "espiritismo". Enquanto livros como O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, de Attila Paes Barreto, permanece no esquecimento, bobagens sobre Chico Xavier, Divaldo Franco, Bezerra de Menezes e romances "espíritas" da pior qualidade são livremente publicados.

A Justiça apenas tentou investigar irregularidades nas atividades "espíritas" e depois faz vista grossa. No caso de Humberto de Campos, se recusaram a aceitar o caso complexo do processo. E temos um "médium" tipo João de Deus, que se enriqueceu com a "caridade", é latifundiário e tudo, e a Justiça não mexe com ele, porque "faz caridade".

A "caridade" virou uma palavra que vai na contramão do "petismo". É como se "caridade" e "petismo" fossem antônimos. Cometer erros graves, praticar desonestidade, abusar de deturpação e explorar a boa-fé das pessoas com falsa mediunidade, mas se proteger da roupagem "espírita", ocorre de maneira impune, sob o pretexto da "caridade" e "bondade".

Já o "petismo", diferente de se admitir erros nos governos do Partido dos Trabalhadores, é tido cegamente como um "mal" em si, por mais que tenham medidas sociais positivas, permita a diminuição das desigualdades sociais etc.

A "bondade" só é oficialmente associada a "caridades" que "ajudam" sem interferir nas desigualdades sociais, diminuindo a miséria absoluta sem no entanto mexer com os privilégios abusivos das elites dominantes. Se ela mexe, é "guerrilha", é "baderna", é "atitude condenável".

Não se pode redistribuir renda. Isso é que está em jogo na sociedade. E mesmo setores de esquerda não conseguem perceber os malefícios que o "movimento espírita" faz quando defende a Teologia do Sofrimento católica e aposta num modelo de "caridade" que não mexe nas estruturas de poder e privilégio que influem nos grandes quadros de pobreza da humanidade.

Daí que há também essa subjugação. Setores esquerdistas se esquecem que pessoas como Chico Xavier e Divaldo Franco sempre foram extremamente conservadores, católicos à moda antiga, e também são seduzidos pela imagem de "filantropos" a eles associadas.

Ignoram que os locais "protegidos" pelos dois "médiuns", a cidade mineira de Uberaba, onde Chico viveu o resto de seus dias, e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, estão entre os locais com maiores índices de violência, em níveis bastante preocupantes.

Se os dois realmente tivessem feito algo relevante em sua "filantropia", essa violência nada teria acontecido. É inútil falar em desprezo de ensinamentos cristãos, falta de religião, deixar de ouvir os "líderes espíritas" etc, porque tanto Chico e Divaldo são muito famosos e prestigiados nesses lugares.

Esses aspectos ninguém diz. As pessoas estão "fascinadas" (no sentido de obsessão) por Chico Xavier e Divaldo Franco. As instituições já estão subjugadas, porque ninguém investiga as irregularidades "espíritas" e existe uma subjugação, uma submissão à mística e à mítica "espírita".

Isso é grave, porque se aceita a desonestidade doutrinária sob a desculpa da "bondade". Na prática, se faz com que a "bondade" seja cúmplice da mentira e da fraude, e a "caridade" a sua serva ou colaboradora. O maior medo é quando as pessoas, "fascinadas" com a mítica "espírita", passem a se subjugarem tal como as instituições.

Jesus de Nazaré ficaria envergonhado com tudo isso, porque ele foi um dos que mais combateu a hipocrisia, mesmo sob a capa da religião e do pretexto da "bondade". Allan Kardec, nem se fala, ele que é o maior prejudicado disso tudo, o maior bajulado e o maior traído, vendo que hoje o que se conhece como Espiritismo está nas mãos impunes dos inimigos internos que são vistos como "bondosos".

segunda-feira, 9 de maio de 2016

"Movimento espírita" está no modo fascinação


O desespero com que reagem os membros do "movimento espírita", cada vez mais mendigando "fraternidade" e apelando para os contestadores "não atirarem pedras" mas "mudarem os pensamentos", revela a paranoia que a tendência "dúbia", que é a de bajular Allan Kardec e praticar a deturpação igrejeira, passou a adotar nos últimos tempos.

São tantos os textos apelando para a "fraternidade", ilustrados com tantos coraçõezinhos, que causa mais preocupação e perplexidade do que tranquilidade e conforto. Afinal, são os deturpadores da Doutrina Espírita que despejam sua munição para desqualificar os contestadores.

Diante disso, nos fóruns em que se questionam a deturpação da Doutrina Espírita e seus astros, Chico Xavier e Divaldo Franco, as pessoas tentam apelar para o pretexto da "bondade", a ponto de bordões como "eles erraram, mas pelo menos praticaram caridade" sejam transmitidos e repetidos exaustivamente.

O dado surreal disso tudo é que Chico Xavier e Divaldo Franco são beneficiados pela complacência até de ateus e esquerdistas, que seriam as últimas pessoas que poderiam fazer qualquer defesa extremada e desesperada dessas duas figuras, ao mesmo tempo religiosos extremados e tementes a Deus, além de pessoas ultraconservadoras, típicos figurões da República Velha.

Como tudo pode acontecer nesse Brasil enlouquecido, em que uma presidenta da República suspeita de acusações muito mal formuladas e precariamente investigadas teve seu pedido de impeachment aprovado por um bando de parlamentares acusados (comprovadamente) de vários crimes graves, ver ateus defendendo desesperadamente Chico Xavier e Divaldo Franco é só um item a mais para o anedotário nacional.

E como os "espíritas", tão "bondosos" e que se julgam "absolutamente fiéis" que "respeitam rigorosamente" o pensamento de Allan Kardec, provaram no entanto serem ignorantes das ideias do pedagogo francês, vamos refrescar as mentes desses deslumbrados citando um trecho de O Livro dos Médiuns, na tradução de José Herculano Pires.

Esse trecho fala da "fascinação", um tipo de obsessão que contagia os "espíritas" neste momento, tomados do deslumbramento em relação à doutrina brasileira e seus ídolos, até por estarem fascinados com todo esse aparato de "bondade" e "caridade" que dela é apresentado.

Não custa ler o item 239 do capítulo 23 - DA OBSESSÃO, em que Allan Kardec descreve esse risco na atividade do médium, mas cujos aspectos também podem ser sofridos pelo simples seguidor da deturpação da Doutrina Espírita. Leiam com atenção:

239. A fascinação tem conseqüências muito mais graves. Trata-se de uma ilusão criada diretamente pelo Espírito no pensamento do médium e que paralisa de certa maneira a sua capacidade de julgar as comunicações. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo-o de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos. A ilusão pode chegar a ponto de levá-lo a considerar sublime a linguagem mais ridícula. Enganam-se os que pensam que esse tipo de obsessão só pode atingir as pessoas simples, ignorantes e desprovidas de senso. Os homens mais atilados, mais instruídos e inteligentes noutro sentido, não estão mais livres dessa ilusão, o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga.

Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas.

Compreende-se facilmente toda a diferença entre obsessão simples e a fascinação. Compreende-se também que os Espíritos provocadores de ambas devem ser diferentes quanto ao caráter. Na primeira, o Espírito que se apega ao médium é apenas um importuno pela sua insistência, do qual ele procura livrar-se. Na segunda, é muito diferente, pois para chegar a tais fins o Espírito deve ser esperto, ardiloso e profundamente hipócrita. Porque ele só pode enganar e se impor usando máscara e uma falsa aparência de virtude.

As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança. Mas através de tudo isso deixa passar os sinais de sua inferioridade, que só o fascinado não percebe; e por isso mesmo ele teme, mais do que tudo, as pessoas que vêem as coisas com clareza. Sua tática é quase sempre a de inspirar ao seu intérprete afastamento de quem quer que possa abrir-lhe os olhos. Evitando, por esse meio, qualquer contradição, está certo de ter sempre razão.

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É justamente o último parágrafo, que alerta para a ênfase que os espíritos levianos fazem com os pretextos de "caridade, humildade e amor a Deus" e que é justamente o que os deturpadores do Espiritismo, com seu exército de palavras em prol da "fraternidade", fazem.

Desviando do foco e disfarçando as irregularidades doutrinárias, tanto na transmissão de ideias quanto na prática de mediunidade, por exemplo, o "movimento espírita" tenta apelar para o bom-mocismo de maneira insistente, apelando por "fraternidade" em textos geralmente ilustrados com coraçõezinhos ou crianças sorridentes.

As pessoas que não admitem qualquer questionamento ao "movimento espírita" ou reagem com atenuantes - tipo "é, eles deturparam, sim, mas pelo menos se destacam pela bondade e amor ao próximo" - não percebem que sofrem um processo de "fascinação", apegados e obsediados a aspectos ideológicos agradáveis a respeito dos ídolos "espíritas" e seus símbolos religiosos.

Daí um Chico Xavier com uma foto inserida numa paisagem de jardim florido, ou com seu codinome estar com a palavra Amor inserida entre as duas palavras. Ou Divaldo Franco associado a projetos assistenciais tidos como "revolucionários" apenas porque têm a roupagem religiosa, embora seus resultados, em verdade, sejam bastante inócuos.

A "fascinação" permite que os deturpadores da Doutrina Espírita sejam aceitos pelo pretexto da "bondade". Muitos acreditam ser possível recuperar as bases kardecianas mantendo Chico e Divaldo no pedestal, mesmo sem que se saiba o que fazer com eles e mantendo os dois anti-médiuns apenas como enfeite.

O grande medo é quando essa postura se radicalizar e se transformar em subjugação. Pessoas subordinadas ao prestígio dos anti-médiuns e tomando-os como "sábios" e "espíritos superiores", levando ao extremo os pretextos de "amor e bondade" que permitem que a deturpação seja feita, já que ela se declara em prol da "fraternidade".

Era esse o risco que Allan Kardec queria evitar, mas que, infelizmente, se consagrou e se consolidou no Brasil, com as pessoas, sem perceberem, se tornando apegadas e obsediadas com os mitos de Chico Xavier e Divaldo Franco, os maiores inimigos internos da Doutrina Espírita previstos pelo espírito Erasto.

domingo, 8 de maio de 2016

Desesperados, "espíritas" só pedem "fraternidade"


Com as crescentes denúncias de irregularidades na Internet, o "movimento espírita" reage em desespero e suas publicações, na imprensa e na Internet, agora se resumem a apelos desesperados de "fraternidade", "tolerância" e "mudança de pensamentos".

Assustados com os textos sobre a deturpação da Doutrina Espírita que cada vez mais crescem e repercutem, há quem peça até para "não atirar pedras", e mesmo a Teologia do Sofrimento claramente divulgada por Francisco Cândido Xavier é dissimulada por apelos do tipo "não sofra", "sorria e aproveite a vida".

Os apelos são desesperados. Há um palestrante "espírita" citando trechos de livros e artigos de Allan Kardec para pedir "fraternidade". Há evocações de Jesus, há até esquetes humorísticos apelando para não sentirmos revolta nem indignação com a vida. Todos pedindo "mudança de pensamentos", apavorados com a situação em que se encontra o "movimento espírita" brasileiro.

É claro que odiar e revoltar não é bom. Ninguém fica feliz vivendo de mau humor. Mas o problema é que a sociedade é tão complexa que o que vemos, na prática, é que as pessoas mais odiosas são justamente aquelas que são muito mais revoltadas do que aqueles que só vivem "reclamando da vida", que apenas querem chamar a atenção da sociedade para os problemas acumulados por tantos retrocessos cotidianos.

O grande problema é que o "movimento espírita", para botar debaixo do tapete os desvios conceituais em relação ao pensamento de Allan Kardec, está apelando para o "bom mocismo" e quer ser conhecido como a "religião da bondade", tentando um aparente contraponto com a raiva messiânica e moisaica dos neopentecostais que comandam os retrocessos legislativos no Poder Legislativo, sob as bênçãos do corrupto Eduardo Cunha.

Insistindo na "bondade" e na "fraternidade" como diferenciais, o "espiritismo" brasileiro teme perder adeptos e tenta abafar as críticas austeras - mas dentro do que Allan Kardec, em seu tempo, até recomendava - com apelos um tanto hipócritas como "não atire pedras" e "mude seus pensamentos".

Bondade e fraternidade não têm religião. E o Método Paulo Freire, projeto educacional hoje muito mal compreendido que vigorou durante o governo de João Goulart e foi abortado pela ditadura militar, dava um banho de fraternidade nas pregações e apelos desesperados dos "bondosos espíritas".

Isso porque a sociedade é complexa e, da forma com que o "espiritismo" brasileiro defende a fraternidade, com jargões do tipo "aceitação", "acreditar", "resignação" e "abnegação", dentro de um sistema de injustiças e abusos humanos, o apelo se torna ineficaz e inócuo.

Neste sentido, pode-se ser "fraterno" quando os sofredores são "convidados" a aceitar seus sofrimentos, "necessários" para a "evolução moral", enquanto os privilegiados continuam com seus abusos, tranquilos, enquanto os "espíritas" dizem que os detentores de privilégios abusivos "terão o que merecem" um dia.

É como descreveu o saudoso jornalista inglês Christopher Hitchens, sobre Madre Teresa de Calcutá, e que pode ser aplicado também em relação à "filosofia espírita" brasileira: não confortar os aflitos e não afligir os confortáveis.

É por isso que vemos palestrantes "espíritas" felizes da vida, junto às elites, recebendo prêmios, condecorações, troféus e medalhas, juntando um patrimônio de premiações terrenas muito grande para quem se proclamam espiritualizados. Nem para cobrar dos ricos e poderosos alguma providência para os sofredores eles se esforçam em fazer, se limitando a fazer discursos elogiosos e aduladores.

Isso é terrível. E o "espiritismo" brasileiro começa a reagir com coitadismo. Tentam desqualificar os contestadores classificando-os de "rancorosos", quando a verdade é que o "espiritismo" não assume autocrítica, não desenvolve sequer um mea culpa, defende o roustanguismo numa época e depois, sem qualquer remorso, alega "fidelidade absoluta" a Allan Kardec.

Os brasileiros se esquecem do alerta de Erasto sobre os inimigos internos da Doutrina Espírita. Pois os inimigos internos estão aí: FEB, Chico Xavier, Divaldo Franco, Emmanuel e tantos outros nomes conhecidos, cujos procedimentos e atitudes se encaixam bem nos alertas feitos por Erasto sobre os mistificadores de discursos prolixos e empolados a falar de "amor e caridade" enquanto distorcem as ideias kardecianas.

Ninguém toma cuidado e é por isso que o Brasil está confuso, retrógrado, contraditório e, sobretudo, sob crise de diversos níveis. Muito dessa convulsão social é influenciado, mesmo que de forma indireta, pela deturpação de uma doutrina vanguardista como a de Allan Kardec, reduzindo-a a um sub-catolicismo moralista antiquado e vazio.
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