domingo, 24 de abril de 2016

Estão cortando a conexão da Internet. Que tal sermos "médiuns"?


As empresas de telefonia anunciaram que estão limitando as conexões de banda larga na Internet, criando um retrocesso ao que já nem era tão perfeito assim: a conexão na rede mundial de computadores, que já era precária e, de vez em quando, caía para "manutenção".

A medida consiste no seguinte: limitar a transmissão de dados pela Internet. Ou seja, a conexão só permanece quando se consomem menos dados, como páginas de textos, de carregamento mais simples e com menos gasto de informação (no sentido dado pela Informática).

Em outras palavras, se alguém investir em transmissão pesada de dados, como ver vídeos e fazer upload (transmissão do computador para a rede, sobretudo quando se quer deixar pastas ZIP no Google Drive), a Internet se torna mais lenta, quando não é cortada. Em muitos casos, o internauta fica um dia inteiro sem conexão de Internet.

A desculpa utilizada pelas empresas era de que a Internet ficou "congestionada" por causa do uso intenso dos celulares, principalmente por meio de WhatsApp. Só que a restrição acaba prejudicando quem realmente precisa da Internet para transmitir conhecimentos, conhecer amigos, utilizar serviços e até mesmo se divertir de maneira saudável.

RICOS SÃO BENEFICIADOS

Os beneficiados serão os mais ricos, que podem pagar para ter uma Internet mais veloz e sem limites de transmissão de dados. Quem é pobre é que sairá em prejuízo. E quem vive no interior nem tem banda larga, depende de pequenos provedores que oferecem serviços de conexão por telefone ou por rádio, consideradas mais antiquadas e lentas.

Para ver um vídeo de um curso na Internet, a pessoa com menos poder aquisitivo não terá condições. Da mesma maneira, ela não pode guardar arquivos ZIP no Google Drive, para esvaziar seu computador para uma futura manutenção.

Mas o encrenqueiro que faz trolagem na Internet e sua "galera" (ou quadrilha?) de adeptos têm todo o dinheiro para ter uma Internet rápida para criar páginas ofensivas de quem discorda de seus pontos de vista reacionários - que vai desde modismos ditados pela mídia a valores de extrema-direita - e despejar desaforos e bobagens violentas sem o risco da conexão cair.

Pessoas que também fazem uso supérfluo de WhatsApp, vendo aquela enésima videocassetada, em que a sogra de alguém leva um tombo na borda de uma piscina, ou um bebê dublando um cantor veterano. Ou então pessoas fazendo playback de outros no SnapChat e fazendo alterações digitais de seu rosto, para ficar, por exemplo, com olhos esbugalhados.

O Brasil já está sucumbindo, aos poucos, à supremacia da chamada plutocracia, o poder feito pelos ricos e para eles. A verdade é que a decisão atende a interesses de lucros dos grandes empresários de telefonia, que haviam recebido, no distante governo de Fernando Henrique Cardoso, de presente a aquisição de antigas estatais da telefonia, de âmbito federal ou estadual.

Os telefones celulares também se restringiram. Uma recarga de R$ 10 só dura cinco dias. Mal dá para fazer um pequeno negócio e deixar o telefone para contato porque a pessoa pode até receber chamadas, mas não poderá fazê-las por muito tempo. Terá que pagar mais para continuar podendo ligar para outro para dar o "retorno".

CONTATOS COM O ALÉM-TÚMULO? DIFÍCIL...

Diante dessas limitações, a gente, aqui neste blogue que critica o Espiritismo, perguntamos se as pessoas se interessam a trocar a Internet pela paranormalidade, que muitos entendem, equivocadamente, como "mediunidade" (o sentido de mediunidade só se dá quando o contato com os mortos se resulta numa mensagem trazida aos vivos; o contato com o além, por si, não é mediúnico).

Será que teremos concentração para fechar os olhos e entrar em contato com as pessoas do além-túmulo, em busca de novidades e outros interesses? Será que temos condição de entrar em transe e permitir que almas usem nossos corpos para escrever suas mensagens?

Infelizmente, não. Se a conexão da Internet anda falha e lenta, a nossa "conexão" com o além-túmulo é praticamente inexistente. Se há esse dom, ele é muitíssimo raro. E não parte de figuras "conceituadas" como Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier.

Afinal, em que pese Divaldo e Chico Xavier serem considerados "grandiosos" na tarefa, descobriu-se que eles também praticaram o faz-de-conta, não correspondendo sua "mediunidade" em tarefas confiáveis. As mensagens trazidas por eles mostram os estilos pessoais dos "médiuns" e a mesma propaganda religiosa, independente do morto ter sido beato religioso ou ateu.

O Brasil sofre esses dois infortúnios porque sempre se comportou como uma eterna Ilha de Vera Cruz. Um país isolado que vê o mundo conforme seu umbigo, que tem medo de romper com velhos paradigmas e prefere dissolver novidades dentro do caldo amargo e podre de valores retrógrados.

Daí a supremacia de uns poucos ricos e poderosos que ditam tudo para o país: desde o que deve ser considerado uma visão política ideal até o que deve ser tido como "verdadeira cultura popular". A plutocracia define tudo, até que mulheres devem ser solteiras ou se a imprensa pode ou não noticiar os falecimentos de feminicidas ricos.

Diante disso, as pessoas são desestimuladas a querer a verdade dos fatos, a transparência das leis, o rigor da ciência, a interpretação lógica dos fenômenos, e em muitos momentos as convicções pessoais e as fantasias agradáveis que permitem que visões antipopulares ou anti-realistas prevaleçam até mesmo sob a coerência e a objetividade dos fatos.

Daí que o Brasil perdeu a conexão com o mundo, em termos de ideias, valores e práticas. E, com a complacência natural às elites e seus valores "estabelecidos", as pessoas agora têm limitação até para usar a Internet. Mas isso não influi a "boa sociedade" que sempre tem acesso para ver suas bobagens nas mídias sociais, pelo celular.

sábado, 23 de abril de 2016

O constrangimento familiar nas supostas mensagens espirituais


O "espiritismo" brasileiro é marcado por irregularidades. E elas são ou foram cometidas até por gente "gabaritada", o que faz dessa doutrina um movimento religioso pouco confiável. A mediunidade de faz-de-conta, que mais parece uma propaganda religiosa, chega mesmo a causar constrangimentos até mesmo na histeria de quem acredita nelas.

Imagine uma mãe de um jovem que morreu cedo por algum motivo e que recebe, num "centro espírita" considerado "conceituado", uma mensagem atribuída ao filho, que faz ela acreditar na sua veracidade, e depois se revela que essa suposta psicografia foi uma farsa, forjada pelo "médium" tido como de grande credibilidade, mas de práticas que, na verdade, são muito duvidosas.

Quanto constrangimento deve haver, quantas ilusões derrubadas.
Quanta vergonha e quanto remorso devem haver entre as famílias, prolongando suas dores e tragédias diante de um sentimento confuso de esperança e desespero, em que um simples recebimento de supostas mensagens espirituais é algo tão incerto e pouco confiável!

Mediunidade, no Brasil, tornou-se uma prática desmoralizada. Virou uma piada na qual qualquer um põe a mão na testa, fecha os olhos e rabisca qualquer coisa num papel. Como prática, virou uma mensagem qualquer nota em que o suposto espírito diz que sofreu, mas está bem, cita alguns familiares e depois faz propaganda religiosa.

A coisa está tão ruim que não adianta o simples conhecimento teórico da teoria lançada por Allan Kardec. Há quem leia O Livro dos Médiuns, na tradução de Herculano Pires, entenda bem a teoria, é capaz de expô-la de maneira correta e exemplar e, mesmo assim, não conseguir praticar a mediunidade.

As pessoas são ludibriadas pelas figuras sensacionalistas e espetacularizadas de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, ídolos religiosos que inspiram nos seus seguidores um apego doentio, sobretudo quando eles se passam por pretensos filósofos (mesmo postumamente, no caso de Chico Xavier). A partir deles, a mediunidade acaba sendo muito mal ensinada e mal compreendida.

Tomadas pela emoção, as pessoas se deixam levar por muita confusão, e perdem a vigilância diante de mensagens duvidosas que, apenas por algumas semelhanças banais e, às vezes, algumas mais sutis, são tidas como verídicas,
quando nelas se ocultam diferenças que contradizem a natureza pessoal do falecido.

No caso de Ryan Brito, a justificativa dada pela mãe, a atriz Márcia Brito (a Flora Própolis da Escolinha do Professor Raimundo, versão anos 90), era de que o "médium", Fernando Ben, investia em "caridade". Virou lugar comum justificar o "espiritismo" irregular pelo bom-mocismo, pode-se até mentir visando o "pão dos carentes".

Tudo isso nem de longe segue as precauções dadas por Allan Kardec. Nenhum conselho dado por ele, para verificar, com muita cautela, a autenticidade ou não das mensagens ditas "espirituais". Em vez disso, a primeira mensagem que aparece e que traz "palavras de amor" é tida como autêntica, mesmo se apresentar irregularidades em relação aos aspectos pessoais do falecido.

Isso causa uma grande frustração, porque, no Brasil, o que se pratica é uma "mediunidade" de faz-de-conta, com o "médium" fingindo que recebe um morto e escrevendo uma mensagem qualquer, contanto que apareça sempre as tais "palavras de amor" e transmitam "mensagens positivas" e não raro de propaganda religiosa, que servem para dissimular a fraude e não despertar desconfianças.

Num dado momento, alguém aponta a irregularidade na mensagem "espiritual", comparando, sobretudo, com outras mensagens "psicográficas" transmitidas, refletindo não os diferentes estilos de personalidades dos finados, mas tão somente o estilo pessoal do suposto médium. Daí a frustração que não raro causa desentendimentos entre as famílias.

A péssima escola de Chico Xavier criou essa bagunça toda, reduzindo a mediunidade a uma atividade sem a menor confiabilidade. E, para piorar, da forma como ela é feita estimula o sensacionalismo, a ostentação das tragédias familiares e os desentendimentos entre crédulos e desconfiados numa mesma família. Com isso, a religião que diz unir, o "espiritismo", provoca, de propósito, a desunião.

Daí a ilusão que todo o verniz de "bondade" traz ao "espiritismo". Uma doutrina malfeita não vira boa por causa da "bondade". O bom-mocismo é o recurso dos calhordas para obter credibilidade. E os que não conseguem seguir com rigor, na prática - é inútil dizer e caprichar no discurso - , as lições de Kardec, usam dessa alegação de "bondade" para tentar convencer as pessoas e desviar o foco de uma finalidade nunca alcançada.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Rio de Janeiro e a decadência que não é sentida

QUEDA DE CICLOVIA E ESTOURO DE TUBULAÇÃO DA CEDAE, NO RIO - Probleminhas de cidade grande?

Praia de Copacabana. Jovens felizes contam piadas com jeito de quem não liga para os problemas do Rio de Janeiro. Veem no WhatsApp vídeos engraçados e diários de internautas alucinados, considerados "youtubers", falando de amenidades cotidianas. Parecem viver num paraíso, na contraditória busca de perfeição numa realidade imperfeita. Se alguém for furtado na esquina, pouco lhes importa.

Castelo. Pessoas vão animadamente ao McDonald's almoçar ou lanchar fast food de qualidade duvidosa, feito por trabalhadores degradados, que sofrem exploração e são muito mal remunerados, expostos a fornos e fogões calorentos à mercê de um acidente de trabalho, e sua rotina profissional não possui garantias de proteção dignas.

O Rio de Janeiro vive um cotidiano surreal. A cidade, assim como o resto do Estado do Rio de Janeiro, decai de forma vertiginosa e uma boa parcela da sociedade parece indiferente, achando que esses problemas são "naturais num contexto de cidade complexa e moderna".

O carioca parece estar disposto a desenvolver um estereótipo de insensível, uma imagem nacional pejorativa na qual o habitante de qualquer cidade do Estado do Rio de Janeiro é incapaz de sentir a gravidade de um problema e fica arrumando desculpas ou artifícios para acreditar que tudo está bem.

ANDANDO PARA TRÁS

Só que a decadência do Rio de Janeiro, Estado e capital, não é um acidente da pós-modernidade, um problema próprio de cidades complexamente modernas. Nada disso. O Rio de Janeiro se torna uma região provinciana, e os problemas indicam não uma normalidade da vida complexa das grandes metrópoles, mas um retrocesso que fez Estado e capital andarem para trás, até mesmo em relação ao antes atrasado Nordeste, que começa a reagir contra décadas de coronelismo.

O Rio de Janeiro decai em proporções trágicas. Até linchamento típico de cidade do interior das mais atrasadas houve na outrora cosmopolita Ipanema. A capital que trouxe a Bossa Nova insiste com o grotesco do "funk", que ainda por cima promoveu sua demagogia num evento anti-impeachment, em Copacabana, um prato cheio para os reaças da cidade quererem mesmo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O Rio de Janeiro passou a ser um antro de conformismo, alienação, reacionarismo e prepotência em diversos aspectos. Diante do risco da cidade do Rio de Janeiro se manter como referencial e modelo a ser seguido pelo resto do Brasil, o país pode caminhar para trás.

O Estado é o que deu, ao Congresso Nacional, parlamentares irresponsáveis e reacionários como os deputados federais Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha, este presidente da Câmara dos Deputados e futuro vice-presidente de um provável governo Michel Temer, este oriundo de outro Estado do Sudeste marcado pela decadência vertiginosa, São Paulo.

Em muitos aspectos, o Rio de Janeiro tornou-se um Estado provinciano, deixando para trás anos de imponência cultural, modernidade social e relativas promessas de melhorias para a sociedade, dos quais só resta a sombra do que havia sido a Cidade Maravilhosa.

Culturalmente, a supremacia do "funk" que ameaça até mesmo o samba, como se já não bastasse o pastiche que os sambistas têm que encarar que é o "pagode romântico" - que ainda investe em pastiches de "samba de verdade" como Péricles e Grupo Revelação - , é um amontoado de referenciais sociais retrógrados embalado por uma mesmice sonora precária e grotesca.

Isso é um grande retrocesso diante da antiga imponência da Bossa Nova, que há cerca de 55 anos mostrava beleza artística, graciosidade poética e uma criatividade musical ímpar, como trilha sonora daquele Rio de Janeiro que não existe mais, e que todavia muitos insistem que continua existindo, mesmo com seus "probleminhas cotidianos".

MÍDIA

Mas até o rock sofre com a hegemonia mercadológica da canastrona Rádio Cidade, sem tradição nem competência e muito menos vocação para o rock, mas que se acha "dona do segmento", falando em "rock de verdade" tendo uma equipe sem qualquer envolvimento real no ramo.

Com uma programação extremamente ruim e repetitiva, a Rádio Cidade sofre o dado surreal da complacência dos roqueiros autênticos, que nos últimos tempos experimentaram as opções da Kiss FM (quando tentou uma afiliada no RJ) e a rádio digital Cult FM, indiferentes ao empastelamento da cultura rock que a Rádio Cidade e sua superestrutura empresarial e sua sintonia fácil e ampla faz contra a cultura rock local.

O Rio de Janeiro é a sede da Rede Globo de Televisão, mas curiosamente quatro nomes da mídia paulistana tornam-se influentes no gosto e no modo de falar, viver e pensar dos cariocas: Luciano Huck com suas gírias (como "balada") e seus valores juvenis, William Bonner com sua visão de mundo, Fausto Silva com valores da música e do comportamento geral, e Galvão Bueno (apesar de carioca, começou no rádio paulista) com o fanatismo pelo futebol.

O fanatismo pelo futebol, no Rio de Janeiro é tão grave que, quando é transmitida uma partida durante a noite, os torcedores, diante de um gol realizado pelo seu time, gritam como brutamontes perturbando as pessoas que dormem à noite para acordarem cedo no dia seguinte. E isso como se não bastasse o fato de que torcer por futebol ser obrigatório nas relações sociais, pois quem não gosta de futebol sofre discriminação social no Rio de Janeiro.

Com esse quadro midiático, juntamente com a imprensa popularesca como os tabloides Meia Hora e Expresso, a degradação cultural no Rio de Janeiro ganha um tempero especial, juntando populismo e uma falsa modernidade carioca, que é caricatura do que a outrora Cidade Maravilhosa foi um dia.

TRAGÉDIA

O Rio de Janeiro também tornou-se a cidade da exclusão social, com a expulsão de moradores de casas populares ou de tribos indígenas no antigo prédio que seria o Museu do Índio, para construção de prédios olímpicos ou de valor turístico-consumista, ou de pistas de BRT e outras obras faraônicas.

É também a cidade que impôs a pintura padronizada nos ônibus, a dupla função do motorista-cobrador e outras mazelas do transporte coletivo, obedecendo a uma lógica tida como "moderna", mas essencialmente ditatorial e nociva para a população.

Mas até os mercados também sucumbiram a esse contexto. Numa Economia que vê lojas fechando em grande quantidade, há também o pouco caso com a logística, já que muitas lojas e mercados mais parecem mercadinhos do interior, demorando duas semanas para repor estoques de produtos. E isso quando o Rio de Janeiro é sede ou filial de muitos distribuidores de produtos situados nos grandes centros.

O retrocesso atinge Niterói, que parece resignada com seu aspecto interiorano, sofrendo com mais lojas fechadas, e nem de longe lembrando a antiga capital do Estado do Rio de Janeiro. A situação surreal da cidade feliz em se tornar capacho da famosa cidade vizinha à frente da Baía da Guanabara é algo preocupante, porque Niterói quer ser uma cidade do interior que nem as cidades do interior têm coragem sequer em pensar ser.

A tragédia carioca também é outro reflexo desse retrocesso. Acidentes e incidentes violentos matam centenas de pessoas, incluindo incêndios, balas perdidas de tiroteios, desastres de ônibus, entre outros males. É até espantoso que muitos cariocas fiquem indiferentes à decadência do seu Estado, porque qualquer um é vulnerável nesse quadro todo.

Recentemente, uma tubulação da CEDAE, empresa de saneamento estadual, estourou no Maracanã. Um casal que passava numa moto caiu e teve que ser ajudado para sair da área alagada. Dias depois, uma parte de uma ciclovia em São Conrado despencou, deixando pelo menos dois mortos. Imagine se fosse a Auto-Estrada Lagoa-Barra, que apresentou rachaduras, caísse e centenas e centenas de pessoas morrendo sob os escombros ou jogadas ao mar.

A crise que passa o Estado do Rio de Janeiro não é uma mera crise econômica ou política. É uma crise de valores, uma acomodação que o Estado do Sudeste sofreu e os males acumulados sobretudo desde o período da ditadura militar, como a ascensão da contravenção e do crime organizado.

Os declínios graduais dos últimos 45 anos se acumularam em vícios e males que só se tornaram intensos na última década, e é assustador como muitas pessoas não sentem essa decadência ou tentam minimizar como se fossem "problemas comuns e esperados". Pois essa decadência acontece sem controle e de forma inesperada, e quem não sente isso é o que mais corre o risco de sofrer a tragédia diária que transforma o Rio de Janeiro no Estado mais decadente do Brasil.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O discurso do "funk carioca" dialogando com o de Chico Xavier


País insólito o Brasil, que sempre tenta trabalhar o novo com bases velhas. O "espiritismo" brasileiro, tão tido como futurista, se fundamentou em bases velhas do Catolicismo português, que estabeleceu a formação religiosa brasileira e, em plena era da Revolução Industrial, mantinha valores medievais em seu conteúdo.

Ficamos analisando as supostas "profecias" de Francisco Candido Xavier sobre a tal "data limite", com seu pretenso futurismo, quando o "médium" praticamente é visto como "senhor do nosso destino", e que muitos querem que seja o "maior brasileiro de todos os tempos" na marra.

Plagiador e pastichador de livros, forjador de falsas psicografias, mistificador religioso dos mais retrógrados, moralista severo, defensor da ditadura militar quando até Carlos Lacerda havia passado a se opor ao regime, Chico Xavier no entanto é visto como se fosse o "dono do Brasil", quase um líder totalitário que exerce o poder simbolicamente post-mortem.

O caixeiro e escrevinhador de imitações de estilos alheios - mas não sem a colaboração de outros escritores da FEB e de consultores literários a seu serviço - tornou-se "dono do nosso futuro", como se não fosse suficiente ser o "dono dos mortos", mesmo quando a turma do além-túmulo se mantém incomunicável para os brasileiros vivos, já que o "médium" escreve tudo da própria imaginação.

Ficamos comparando o discurso de Chico Xavier com outro que mantém a mesma persistência de persuasão, o mesmo coitadismo, o mesmo falso futurismo, o conservadorismo travestido de falso prgressismo, o do "funk carioca", considerando seus derivados como o "funk ostentação" paulista.

Recentemente, o "ativista" do "funk", MC Leonardo, apadrinhado pelo cineasta José Padilha, do Instituto Millenium, tentou apelar para um pretenso esquerdismo progressista no artigo da Caros Amigos, "Tá tranquilo, tá favorável" (Chico Xavier adoraria esta frase), tentando empurrar a aceitação do "funk" pelos esquerdistas nos tempos em que a presidenta Dilma Rousseff sofre o risco de perder o mandato. Até a edição deste texto, a votação do impeachment ainda não ocorreu.

MC Leonardo, conhecido, com seu parceiro MC Júnior, pelo sucesso "Rap das Armas", tenta dissimular o vínculo do "funk" com a Rede Globo, que sempre existiu, dizendo que o ritmo se "fortaleceu" como a Internet. Mas se até Kim Kataguiri, Jair Bolsonaro e o Pato da FIESP se "fortaleceram" com a Internet...

DISCURSO ANÁLOGO

Aliás, tanto Chico Xavier e o "funk carioca" são "crias" da Rede Globo, tais como Fernando Collor e Sérgio Moro. Todos de alguma forma existiam e atuavam antes da "mão invisível" da "Vênus da Família Marinho", mas seus mitos foram trabalhados e fortalecidos pela famosa corporação da rede televisiva, as Organizações Globo.

A grande diferença é que, diferente de Sérgio Moro e, em parte, de Fernando Collor - que não conseguiu convencer se passando por "herói libertário" de um possível revival dos anos 90 (que nos traria, sob o rótulo de "grandes personalidades", nomes como Gugu Liberato, Solange Gomes e até Guilherme de Pádua) - , o "médium" e o ritmo carioca não têm seu vínculo com a Globo reconhecido por várias pessoas.

Pelo contrário, os dois mitos, com toda a sombra da Rede Globo que os protege, tentam sobreviver à revelia dessa associação, explícita e verídica, porém dificilmente assumida pela sociedade. Pessoas que se declaram opositoras do poder midiático tentam aceitar e apreciar tais mitos como se eles estivessem fora desse contexto, o que não é verdade.

Afinal, tanto Chico Xavier e o "funk carioca" evocam um discurso paternalista em relação às classes pobres. É um discurso positivista, diferente do rancor verbal de veículos como Jornal Nacional ou de gente como Merval Pereira e um Arnaldo Jabor nas histerias anti-petistas. Só que esse discurso positivista é confundido por muitos como esquerdismo, como se tratar o povo pobre com paternalismo soasse algo progressista. Mas não é.

Nota-se que, por trás desse discurso "generoso", que evoca uma aparente felicidade que faz as elites dormirem tranquilas - a classe média alta "progressista", de vez em quando, mostra seus preconceitos elitistas de classe média alta - , há um conteúdo bastante conservador, latente em suas palavras "positivas".

Aparentemente, Chico Xavier e o "funk carioca" trafegam em mãos opostas, o primeiro com sua religiosidade associada a "valores morais elevados", o segundo com sua licensiosidade associada à "liberdade dos instintos". No entanto, a essência dos dois discursos é rigorosamente a mesma.

Ambos sutilmente apelam para a Teologia do Sofrimento, da resignação da inferioridade social. Chico Xavier dizia para os sofredores não reclamarem e aceitarem suas desgraças sob o pretexto de que isso trará as "bênçãos" prometidas. É como se Chico Xavier desenhasse a sociedade medieval em solo brasileiro, e o "funk" ficasse com os festejos pagãos (o "carne-vale") dessa sociedade.

Já o "funk" faz apologia da ignorância, glamouriza a pobreza, e trata as favelas de maneira espetacularizada, algo que seria facilmente contestado por Guy Debord e Jean Baudrillard, se eles fossem vivos e conhecessem o gênero, mas aqui é aceito até de maneira ferrenha por uma considerável parcela de intelectuais.

A reboque do "funk", temos um suposto feminismo feito com bases machistas. O erotismo obsessivo da Mulher Melão (Renata Frisson) e Mulher Melancia (Andressa Soares), adotado também de forma politicamente correta por Valesca Popozuda, segue as bases ideológicas da "mulher-objeto", trabalhada como um suposto rito de "libertação" da mulher-coisa do "jugo masculino".

Só que esse discurso é falso. A mulher-objeto continua sendo mulher-objeto, embora queira ser "gente". E, fora desse âmbito, observa-se que o "funk" trabalha estereótipos racistas travestidos de anti-racismo, tratando o povo negro de maneira estereotipada e caricatural.

Chico Xavier e o "funk" pegam desprevenida uma opinião pública que não conhece a realidade do povo pobre. A opinião pública é enganada pelas retóricas em que pobres sofredores têm que viver "felizes" e a ascensão social tem que ser feita mantendo os paradigmas de dominação, que ambos os discursos expressam consentimento e conivência.

Por trás de ambos os discursos, há a imposição dos papéis que os pobres são obrigados a desempenhar, muitas vezes de forma restritiva e opressiva, embora as retóricas apelem para um pretenso ufanismo, do "orgulho de ser pobre" e do sofrimento como "presente de Deus".

Musicalmente, o "funk" é considerado por especialistas como de ferrenho rigor estético, apenas nivelado por baixo. Seu mercado musical é tão perverso quanto o McDonalds, por trás da imagem "disneyficada" dos fetiches funqueiros. Há uma hierarquização nunca assumida oficialmente, entre os DJs e também empresários, "líderes" do processo, e os MCs e dançarinas, os "porta-vozes" do espetáculo.

BLINDAGEM FERRENHA

Outro aspecto é o coitadismo. Chico Xavier, quando era criticado, fazia pose de vítima, reagia em "silêncio", fazia-se de "perseguido" resignado, como que num ataque às avessas, tentando vencer o adversário se passando por um derrotado. Até quando intelectuais e cientistas estão com a razão, Chico tentava vencê-los pelo coitadismo que seduz os seguidores do "médium".

O "funk" também apela para o coitadismo se dizendo "discriminado" pelas elites, enfatizando no discurso a falsa postura de "vítima de preconceito" por ser "a expressão das periferias", "som de preto e pobre". É uma retórica verossímil mas dotada de muita hipocrisia.

O que também chama a atenção também é a blindagem ferrenha, quase inabalável, dos dois discursos. Não há uma denúncia oficial de irregularidades envolvendo Chico Xavier, da mesma forma que ninguém tem coragem de contestar o "funk", a não ser os detratores de sempre, movidos apenas por aspectos emocionais.

Os funqueiros são considerados "santos" e aceitos, em muitos casos por boa-fé, por uma parcela de intelectuais progressistas que, com uma certa ingenuidade, acreditam que o "funk" expressa uma nova etnografia similar a dos antigos grupos indígenas e africanos, ignorando que o ritmo carioca esconde uma severa lógica de mercado e um apetite midiático que anula seu alegado valor artístico-cultural.

O rigor estético se refere ao fato de que as músicas do "funk" são quase sempre iguais umas às outras. Muda apenas o "vocalista", pois até as sampleagens são iguais. O MC não pode compor melodias nem tocar instrumentos, tem que cantar mal e se limita apenas a segurar o microfone.

Os DJs é que combinam mudanças, seja para agradar turistas e antropólogos, seja para dizer que "o ritmo evolui artisticamente", dentro de uma série de demagogias conhecidas mas não assumidas como tais. Mudanças feitas somente de acordo com as demandas de mercado.

Como Chico Xavier, o "funk" tenta se passar por "futurista". Assim como Chico Xavier é visto como "profeta do futuro", sendo visto por muitos como o "único guia viável do futuro do Brasil", o "funk" tenta se vincular ao contexto da música eletrônica e das manifestações modernistas, de forma oportunista, tendenciosa e falsa.

Afinal, muitos dos valores que o "funk carioca" e seus congêneres (como o "funk ostentação") difundem são retrógrados e impõem medidas consideradas paliativas e emergenciais como "permanentes", como a prostituição e a residência em favelas, transmitindo a ideia latente e perversa de que o "pobre tem que ficar como está, ou se evoluir nos limites de suas condições".

É mais ou menos que diz a "bondade" de Chico Xavier, pregando uma caridade paliativa que, quando traz alguma mudança, é sempre evitando mexer no sistema de classes e nas injustiças e desigualdades sociais existentes.

Desse modo, a opinião pública deveria prestar atenção nesses dois discursos, o da "filosofia" de Chico Xavier e da "etnografia" do "funk". Por trás do discurso "positivo", conceitos bastante conservadores e retrógrados são difundidos sob a máscara do "progressismo", transformando o país em refém de ideias antiquadas fantasiadas de "modernas".

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Brasil desgovernado

DOIS DOS MAIORES BENEFICIADOS PELO IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF.

A votação da Câmara dos Deputados pela abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff pode ter sido, para muitos, um momento histórico da vitória da democracia sobre a "roubalheira" do Governo Federal.

No entanto, diante de investigações incompletas e precipitadas, em que as denúncias contra Dilma e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva mais parecem fofocas de tão vagas e imprecisas, o que se viu foi a consagração da histeria anti-petista que tomou conta do país.

Tudo virou uma questão de ódio contra o PT. Não que fosse proibido fazer oposição ao Partido dos Trabalhadores e fazer duras críticas a Lula e Dilma, mas o que se viu foi um processo doentio de intolerância e rancor, em que o raciocínio objetivo era a última coisa a se cogitar fazer por parte desses anti-petistas doentios.

E isso é preocupante. Por coisas muito mais graves, Divaldo Franco e Francisco Cândido Xavier são aceitos com o mesmo fanatismo, mas por meio de uma outra emoção. Deturpadores da pior espécie da Doutrina Espírita, desonestos quando se autoproclamavam "fiéis" a Allan Kardec enquanto cometiam traições aberrantes ao seu pensamento, eles são protegidos pelos estereótipos.

Sim. É o mundo das aparências que tanto dispara rancor a Lula e Dilma e apela pela complacência mais absoluta a Divaldo e Chico Xavier. Estereótipos são feitos para criar um pretenso maniqueísmo, por conta da aparência física e de outros aparatos ideológicos envolvidos.

Lula tornou-se famoso pela sua figura aparentemente rude de um homem ao mesmo tempo roliço e robusto, com um rosto de feições supostamente duronas, um discurso enérgico e uma origem social precária. Dilma tem a aparência da senhora austera, lembrando a governanta de uma casa, com jeito de durona e voz grave.

Muito diferente das aparências de Chico Xavier e Divaldo Franco, que, por mais que personificassem tipos ainda mais antiquados do que os do "operário bronco" de Lula e da "governanta durona" de Dilma, ainda contam com o apoio, um tanto ingênuo e submisso, de uma boa parcela de brasileiros.

É o estereótipo de Chico Xavier como um caipira inocente, como era até certo tempo, e que foi somado ao de um velhinho frágil e doente. E Divaldo Franco, maquiado à maneira dos aristocratas dos anos 1930, personificando o "bom professor" nos moldes dos anos 1940, verborrágico e grandiloquente, que ainda causam muitas saudades nos brasileiros mais conservadores.

CONSERVADORISMO

Em ambos os lados, há um conservadorismo convicto que, no lado dos ídolos religiosos, está escondido sutilmente em mentes aparentemente progressistas, como a de pessoas que não imaginam que Chico Xavier havia defendido a ditadura militar no auge desta e o "bondoso médium" teria provavelmente defendido a saída de Dilma da presidência da República, por "falta de amor ao próximo".

A sociedade brasileira ainda é altamente conservadora. Mesmo quando, no âmbito político e econômico, ou mesmo em alguns valores morais, alega postura progressista, nos âmbitos cultural e religioso mostram um sutil conservadorismo, em muitos casos, disfarçado pela postura progressista em outras áreas.

Com isso, o Brasil não consegue sustentar governos progressistas e o de Dilma Rousseff tornou-se frágil pelo apego a projetos políticos e econômicos conservadores, sobretudo com a condescendência a uma mídia reacionária que, fortalecida com as verbas federais, desenvolveu munição pesada para desmoralizar a presidenta, que acabou sustentando os que depois decidiram derrubá-la.

Diante de uma campanha midiática atroz, o Congresso Nacional foi estimulado a votar pelo impedimento político, sendo 367 votos a favor da abertura do processo de impeachment e 137 contra, além de outros nove, entre abstenções e ausências.

Tudo isso movido pela mesma "paixão cega" que criminaliza Lula e Dilma mas permite que Divaldo Franco e Chico Xavier façam suas fraudes, invistam em falsidade ideológica, protegidos pela aparência de "divulgadores da mensagem cristã" e pretensos filantropos.

São apenas desvarios emocionais, devaneios moralistas que se julgam acima de qualquer objetividade, e que fazem o julgamento de valor mais pelo que as aparências inspiram de "simpático" ou de "antipático" na sociedade.

As pessoas foram dormir tranquilas e felizes, sem saber que o Brasil ficou desgovernado, com a aprovação do impeachment. É como um viajante que dorme feliz quando o ônibus, percorrendo uma rodovia escura, roda em altíssima velocidade e mal consegue enxergar o caminhão que lhe está na mão oposta, na curva.

O Brasil está desgovernado, porque os dois maiores beneficiados por esse golpe travestido de "processo jurídico-democrático", o vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, possuem contra si acusações bem mais consistentes e precisas do que os rumores que aterrorizaram a presidenta.

Além disso, Temer e Cunha poderão implantar medidas de caráter econômico e social retrógradas, sobretudo Cunha, que presidirá a República quando Temer estiver viajando e, por isso, aproveitará esse poder para impor medidas que, simplesmente, desfazem as conquistas sociais obtidas com tanta dificuldade e luta no decorrer dos tempos.

Para os brasileiros explicitamente conservadores - como os reacionários que comemoraram a vitória de sua causa nas votações do último 17 de abril - e para outros sutilmente conservadores, "progressistas" que, entre outras coisas, acolhem um retrógrado Chico Xavier que defendia a ditadura e pregava a Teologia do Sofrimento, o Brasil parece poder resolver a crise conforme suas respectivas convicções pessoais.

Mas não. A verdade é que o Brasil ainda vai aprofundar a crise de 2013, e, perto de 2019, isso já derruba a "profecia" de Chico Xavier, de maneira definitiva. O Brasil, desgovernado e entregue a políticos corruptos (até Renan Calheiros é acusado pelo crime de corrupção), não resolverá a crise econômica de forma esperada e eficaz e ainda vai agravá-las, como agravará outros tipos de crise.

A ideia agora é esperar que contradições e dilemas novos venham, porque a sociedade mais reacionária lutou para ter Dilma Rousseff fora do poder e se empenhará para que o impedimento seja definitivo daqui a alguns meses, depois das atuações do Senado e do Supremo Tribunal Federal.

A prosperidade não veio com a vitória do impeachment na votação da Câmara dos Deputados. Pelo contrário, veio uma "solução" que era dominante mas nem por isso coerente, que só foi conveniente para uma parcela da sociedade que sente rancor pelo PT.

Mas novos problemas, novos dilemas e novos impasses virão, porque o confuso país que é o Brasil continua apegado a convicções pessoais e zonas de conforto, tentando proteger de privilégios econômicos de uns poucos à reputação de ídolos religiosos consagrados. Portanto, mais problemas virão, e é bom estarmos preparados.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Quem está "embaixo" tem que mudar os pensamentos. E quem está "em cima"?


No moralismo "espírita", recomenda-se ao sofredor aguentar todo tipo de desgraça, aceitando ser "capacho do Destino" e até mesmo servir de "brinquedo" de espíritos levianos, que fazem serem roubadas do distinto indivíduo as melhores oportunidades de crescimento e apresentam-lhe as piores oportunidades.

Confundindo desgraça com desafio, o "espiritismo" desvaloriza a vida material, acha que toda encarnação é igual e por isso imagina que a encarnação, esse espaço limitadíssimo da vida material, só serve para resolver conflitos e evitar tensões.

A ideia simplória de "fraternidade" em que o sofredor tem que aceitar os abusos do algoz, mostra o caráter desigual de um "perdão" que sempre é visto como a obrigação do sofredor, mas torna-se facultativo para o algoz, que permanece quase sempre imune nos seus abusos.

A encarnação acaba sendo um jogo em que o sofredor têm que aguentar as desgraças, mudar seus projetos e interesses de vida conforme as circunstâncias infelizes que comprometem seus mais preciosos e cuidadosos planos. E tem que mudar os interesses conforme cada infortúnio, às vezes um oposto ao outro, como se o encarnado fosse um boneco do Destino.

Por exemplo. Se um homem deixa de gostar de orgias e do mais grosseiro sensualismo feminino e passa a valorizar a mulher pelo caráter, pela delicadeza e pelo intelecto, por conta de desilusões antigas, ele vê o seu tipo ideal de mulher lhe ser inacessível e passa a atrair justamente aquelas mulheres que simbolizam as aventuras sexuais que não lhe interessam mais.

Fica muito fácil os ideólogos "espíritas", no conforto de suas instalações, na comodidade de seu prestígio religioso, dizerem para os sofredores aguentarem as desgraças, enfrentarem oportunidades erradas, encararem armadilhas e emboscadas.

"Mude o pensamento, veja no sofrimento e nos infortúnios um valioso aprendizado na vida", dizem os "espíritas" com seu ar pretensamente paternal, mas também como quem acha que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Alguém tem coragem de argumentar que jogar pimenta ou café quente nos olhos dos outros faz bem à visão?

Enquanto o sofredor vê sua vida desandar em doses surreais - na vida amorosa, por exemplo, ele não pode conquistar a antiga colega de escola, mas pode atrair para si uma "mulher-fruta" que foi casada com um chefe de milícias assassino e muito ciumento - e os "espíritas" lhe aconselham ver nas desgraças uma "nova esperança", o privilegiado fica na sua, sem mudar.

Pior, são as pessoas dotadas de alguma situação remediada que mantém preconceitos, sentimentos equivocados, critérios injustos para qualquer coisa na vida. No mercado de trabalho, por exemplo, os empregadores têm muito medo de contratar profissionais de perfil diferenciado, de excelente talento para a função desejada, se iludindo pela aparência "pouco atrativa" e pelo perfil "introspectivo".

Diante desses preconceitos, os empregadores, salvo honrosas exceções, contratam pessoas sem talento, apenas levando em conta o perfil atrativo, o jogo de cintura, o senso de humor e o jeito festivo. No Estado do Rio de Janeiro, então, os fanáticos por futebol acabam tendo preferência, como se torcer por um dos quatro times cariocas fosse melhorar a rotina de trabalho.

O homem de personalidade medíocre que chefia uma empresa e que é casado com uma mulher inteligentíssima e de personalidade diferenciada pouco importa se o perfil dela é diferenciado ou não. Ele nem se pergunta se necessita dela ou não, se ela é o amor de sua vida ou se o casamento é proveitoso para a vida dele. Mesmo assim, ele permanece como marido dela, numa rotina considerada "sem sal".

Não se mudam os pensamentos de quem "está em cima". Eles perdem a consciência de seus benefícios, que, de tão rotineiros, lhes são monótonos. Quem tem dinheiro demais, por exemplo, perde a consciência do que realmente deve gastar ou não.

O empregador acaba tendo dificuldades para escolher o profissional ideal, com seus critérios inflexíveis. No caso típico de exigir pessoas com pouca idade e muita experiência, torna-se difícil combinar juventude e anos de trabalho, o que torna a oferta de emprego não somente injusta, mas também fracassada.

Isso os "espíritas" não percebem. Eles acham que os miseráveis, os infelizes e os infortunados em geral é que têm que mudar o pensamento, achando que o sofrimento é uma "faculdade da vida" e que os acontecimentos insólitos e surreais são uma forma de "regular desejos", num caminho de suposto aprimoramento espiritual a partir de um simplório resolver de conflitos e atritos diversos.

E logo o "espiritismo" que se contradiz quando alega "fidelidade absoluta" a Allan Kardec mas trai seu legado o tempo todo, preferindo um igrejismo severo e antiquado, que é a raiz desse moralismo retrógrado que transforma a religião supostamente futurista em uma herdeira potencial do Catolicismo medieval que os próprios católicos já descartaram.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Descobridor de Chico Xavier não é considerado "santo"


O endeusamento de Francisco Cândido Xavier tem seus aspectos insólitos que mostram o quanto o deslumbramento religioso tem suas omissões. Estranha-se, por exemplo, que seu descobridor, o ex-presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, não tem a mesma adoração.

Descobridor de Chico Xavier, Wantuil, como era conhecido, presidiu a FEB durante quase trinta anos. Foi o "mentor" terreno de Chico Xavier, e trabalhou para promover a fama e o prestígio do "médium" mineiro.

Se Chico Xavier tornou-se o ídolo adorado pelos brasileiros, numa pretensa unanimidade que constrangeria o dramaturgo Nelson Rodrigues, uma boa parcela de responsabilidade se deve a Wantuil, da mesma forma que Roberto Marinho, das Organizações Globo e Malcolm Muggeridge, jornalista da BBC.

Todos eles seriam também "santos", se Chico Xavier o é. Seriam igualmente "espíritos puros", Wantuil, Marinho e Muggeridge, e deveriam ser adorados porque eles contribuíram para a consagração definitiva do "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba.

Wantuil, porque lançou e conduziu o mito de Chico Xavier, antes um mero funcionário público que era católico e paranormal, e depois foi promovido a um suposto porta-voz de personalidades do além-túmulo e de anônimos cidadãos brasileiros.

Marinho, porque as Organizações Globo, com seu poder de persuasão que atinge, dependendo do caso, até parte dos detratores dessa corporação midiática, difundiu e ampliou o mito de Chico Xavier através de uma propaganda religiosa dissimulada de documentário jornalístico.

Muggeridge, de forma indireta, porque o jornalista britânico, católico fervoroso, criou os ingredientes da mitificação filantrópica e messiânica que desenvolveu para Madre Teresa de Calcutá e que foram usados no Brasil para relançar o mito de Chico Xavier.

Se Chico Xavier é considerado um "espírito puro", seria esperado que, pelo menos, Wantuil, que o descobriu, recebesse a mesma adoração. Afinal, ele foi presidente da FEB, cargo que outro dirigente "santificado", o médico Adolfo Bezerra de Menezes, também exerceu.

E vemos em Bezerra de Menezes a personificação ideológica do "Papai Noel brasileiro", em que o mito se sobrepôs ao homem, em que fantasias ligadas ao médico "espírita" impedem a compreensão exata do político, já que o trabalho de parlamentar do dr. Bezerra só é vagamente mencionado, ele, que foi contemporâneo de Joaquim Nabuco, de fartos dados biográficos.

E por que Wantuil não pôde ser considerado "santo", nesse contexto de tanto deslumbramento religioso? Ele, em quase três décadas de atividade, lançou livros, deu depoimentos e lançou frases, se considerava um "intelectual espírita", poderia muito bem ser um ídolo religioso tal qual seu pupilo mais famoso.

E se Chico Xavier e Bezerra de Menezes ganharam narrativas fantasiosas, em detrimento de biografias mais realistas que faltam ser lançadas ou relançadas, Wantuil poderia muito bem ter ganho narrativas fantasiosas, deslumbradas, com estórias fascinantes, relatos de "amor" e "caridade".

Talvez Wantuil não tivesse o carisma necessário para tanto. Era o "chefão" da FEB, nem sempre querido por seus pares. Parecia mais um técnico que agia nos bastidores do que alguém que pudesse ser um mito religioso. E tinha um poder concentrado que discriminava as atuações das federações regionais.

No entanto, acredita-se que, no vale-tudo "espírita", capaz de transformar falecidos autores ateus em supostos pregadores religiosos, o mito de Wantuil poderia muito bem ser retrabalhado para que ele seja também considerado um "ícone da fraternidade", o "grande líder espírita", o "apóstolo brasileiro de Jesus", o "legislador do amor" ou coisa parecida.

O fato de Wantuil, com toda a responsabilidade de ser o "mentor" e "protetor" terreno de Chico Xavier e o idealizador de seu mito, não ter recebido a mesma adoração mostra o quanto o "espiritismo" apresenta também suas omissões, não fossem as contradições infinitas de seu conteúdo doutrinário. O deslumbramento religioso também é "seletivo".
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