ALGUÉM TERIA CORAGEM PARA DIZER A ESSES ESCRAVOS A NÃO RECLAMAR NEM GEMER DE DOR, FAZENDO "SOL ÍNTIMO" DENTRO DE SUAS ALMAS SOFRIDAS?
É muito fácil os "espíritas", lá de suas mesas de doutrinárias, nos seus palanques de palestras e tudo o mais, dizer que os sofredores cometem frescuras quando reclamam da vida e não se conformam com as limitações que os infortúnios pesados lhes impõem.
Ficam dizendo, não sem uma ponta de orgulho mas tentando forjar uma generosidade paternal, que "nada cai do céu" e que os infortúnios são uma espécie de aprendizado como forma de "extinguir a presunção" e livrar as pessoas da "cupidez" e do "sensualismo". Dizem para eles confiarem em Deus e "aguentar a barra" até que as "bênçãos futuras" venham, nem que seja após o tampar do túmulo.
Muito fácil. Só que muitos se esquecem que, lá nos círculos religiosos, o "conselheiro" é o "eu", e é muito mais fácil dizer ao "outro" para suportar o sofrimento do que ao "eu". Os "espíritas" reclamam quando são acusados de roustanguistas, mistificadores e charlatães, se dizendo "vítimas de intolerância e perseguição de verdadeiras feras em formas humanas".
No entanto, quando é o sofredor que busca um auxílio e luta para sair de sua situação de desgraças, os "espíritas" não compreendem. Se o sujeito reclama da vida amorosa, quando atrai mulheres sem afinidade com ele, os "espíritas" dizem que é para ele aprender a superar as diferenças. Se é para trabalhar em um local pouco confiável, os "espíritas" lhe dizem que é para o sujeito fazer um trabalho honesto e ajudar a empresa a mudar de imagem.
O "espiritismo", repetimos, não compreende individualidades. Se perde no discurso vago de "pedir fraternidade", numa sociedade complexa e desigual. A realidade é muito complicada para que a vida se resuma apenas num cessar de brigas e num segurar de mãos.
Não há como perdermos tempo dando as mãos e cantando hinos religiosos, se as desigualdades e injustiças acontecem. Além disso, soa perverso quando se cobra aos sofredores aguentar suas desgraças sem reclamar, enquanto ninguém fala para os privilegiados conterem e moderarem seus abusos.
Prestemos atenção. O famoso "orador espírita", Divaldo Franco, até mais do que Chico Xavier, tem um apetite redobrado de estar ao lado dos poderosos. A exemplo da Madre Teresa de Calcutá em revelações trazidas por Christopher Hitchens.
Junto a políticos e aristocratas, Divaldo Franco despeja sua verborragia bajulatória, sem cobrar das elites coisa alguma de caridade, nem moderação a seu luxo, se limitando apenas a "pedir paz e fraternidade", coisas tão genéricas e tão vagas.
Chega a ser sádico quando um "espírita" pede ao sofredor para não reclamar, não expor seu sofrimento, até por acreditarem que a ajuda virá "do nada". Isso é cruel sobretudo quando se pede para o sofredor "mudar seus pensamentos", criar "esperança" em sua alma e sorrir mesmo quando a alma se sente "esmagada" por circunstâncias tão cruéis.
Imaginemos no tempo da escravidão. Escravos sendo açoitados por capatazes de senhores de engenhos. Humilhados por capatazes irritados e frios, amarrados e deitados. Será fraterno pedir aos escravos "mudarem os sentimentos", "sorrirem para a vida" sem reclamar, não gemer de dor e ter fé em Deus nas "belas bênçãos" que poderão ter no futuro?
Será que a "religião da bondade" e seus "purificados" ídolos farão "choro de crocodilo", dizendo que os escravos "merecem perdão", mas, no fundo insensíveis, lhes pedirão para suportar as desgraças porque elas são "um valioso aprendizado"?
Existem limitações, dificuldades e empecilhos que, em boa dose, até servem para moderar os impulsos das pessoas que, em primeiro momento, não sabem a medida de suas necessidades, seus méritos, suas vocações e seus desejos. Quando há um limite imposto a eles através de um imprevisto, isso pode se tornar um excelente aprendizado para a vida.
Todavia, quando as limitações se tornam excessivas e danosas, e as pessoas sofrem dificuldades excessivas e de difícil solução, não é pedindo para "criar esperanças" e "mudar os pensamentos" que esses infortúnios serão resolvidos com mais facilidade.
Afinal, os sofredores já fazem sua parte. Quando apelam para o auxílio "espírita", mesmo que seja apenas pela prece, eles já mudam os pensamentos, depositam fé e esperança, tornam-se alegres e resignados, se animam a superar suas dificuldades e fazem todo um esforço para tal finalidade.
No entanto, as desgraças se tornam mais pesadas, novas encrencas surgem do nada, as dificuldades existentes continuam existindo, e as mínimas oportunidades para superá-las, com todo o esforço feito, até com perseverança, lhes escapam de alguma forma como água correndo pelas mãos.
O "espiritismo" é que acaba trazendo azar, pela sua própria natureza de religião marcada por contradições e pela desonestidade doutrinária, que atraem espíritos levianos. Daí ser inútil que os "espíritas" reclamem, da parte dos sofredores, de sua falta de esperança e otimismo. Porque esperança e otimismo os sofredores tiveram, mas as circunstâncias é que fizeram eles ficarem em vão.
domingo, 17 de abril de 2016
sábado, 16 de abril de 2016
A sádica defesa do "espiritismo" pelo sofrimento
Está confirmado que Francisco Cândido Xavier é adepto da Teologia do Sofrimento. A corrente católica que prega que os sofredores tenham que suportar suas desgraças de maneira resignada visando "acelerar" o progresso moral e garantir as "bênçãos futuras" teve em Chico Xavier seu defensor mais entusiasmado, e isso pode ser comprovado pelas palavras que ele deixou sobre sofrimentos e angústias.
Até mesmo Auta de Souza e Humberto de Campos foram usados pelo "bondoso médium" para "apoiarem" a Teologia do Sofrimento, eles que não estão mais aí para reclamar do uso leviano de seus nomes. "Antes de maldizer a própria sorte, Pensa nos tristes de alma consumida, Que vagueiam nas lágrimas da vida, Sem migalha de amor que os reconforte", escreveu Chico Xavier usando o nome da poetisa potiguar.
Já no livro Reportagens de Além-Túmulo, Chico Xavier, com o auxílio de seus colaboradores da FEB, usando o nome de Humberto de Campos, descreveu uma senhora resmungona estereotipada, que reclamava "demais" da vida e não aceitava servir de "capacho do Destino", e que por isso fazia afastar amigos, colegas de trabalho e familiares.
Nada mais perverso do que adotar posturas moralistas e ultraconservadoras e ainda usar nomes de pessoas falecidas para "assinar embaixo". Isso faz de Chico Xavier um sádico, pois, não bastasse a sua defesa da perversa Teologia do Sofrimento - que defende o sofrimento para os sofredores, mas nunca o faz para os privilegiados - , tentou usar pessoas que já não estão entre nós para representar causas que são apenas dele.
Não há garantias que Auta e Humberto pensariam igualzinho Chico Xavier. Se os dois têm esse vínculo forçado às ideias chiquistas, isso é cruel. É muito fácil para um suposto médium, que na verdade produz mensagens de sua própria imaginação, botar na conta dos outros suas convicções pessoais.
Imagine como é traiçoeiro um suposto médium forjar uma multidão do além "assinando embaixo" os pontos de vida dele, como alguém que cria assinaturas falsificadas para forjar um abaixo-assinado e forçar a realização de uma reivindicação pessoal.
Daí ser assustador que uma pessoa como Chico Xavier seja considerado "pessoa pura" com todos os clichês de "bondade" e "humildade" que mais parecem propaganda publicitária, dessas que mentem para convencer as pessoas a comprar aquele produto.
A sua Teologia do Sofrimento, influência de um Catolicismo explícito que os "espíritas" acham "normal" e "até saudável" em Chico Xavier, acaba se propagando quando nomes como Allan Kardec, Humberto de Campos, Auta de Souza, Irma de Castro "Meimei" Rocha e tantos outros são vinculados a uma visão moralista do sofrimento como "presente de Deus".
Isso não bastasse Emmanuel que pedia para ninguém questionar e, da parte de Divaldo Franco, Joana de Angelis não suportava ver pessoas tristes por muito tempo. O conformismo ante o sofrimento é defendido pelo "espiritismo" dentro dessa relação sado-masoquista entre ideólogos e praticantes.
OS PIORES QUEIXOSOS SÃO OS QUE NÃO QUEREM OUVIR QUEIXAS DOS OUTROS
Prestemos atenção. Na imaginação de Chico Xavier, seja com seu nome ou usando os nomes de Auta, Humberto, Meimei, o fictício André Luiz e outros, a pessoa que contesta os problemas da realidade é uma pessoa "insuportável", que vê seus amigos, familiares e colegas o abandonarem, por causa dos resmungos "exagerados".
Só que vejamos o outro lado. As pessoas abandonam o queixoso porque não querem arcar com os problemas que ele divulga. São tantos problemas que as pessoas se afastam, em vez de tomarem consciência do problema.
Na verdade, as pessoas que abandonam o queixoso são muito mais queixosas do que ele. Seus aborrecimentos diante do queixoso as fazem mais queixosas do que ele, reagindo com abandono como se quisessem, num gesto de indiferença, resumir todo o repertório de resmungos rabugentos que essas pessoas dariam ao contestador.
As pessoas que não suportam essas queixas é que usam suas aparentes alegrias e sua conformação para camuflar consciências mais revoltadas do que a do queixoso, ao qual lhe falta ação para resolver parte dos problemas que divulga para a sociedade.
Ou seja, as pessoas não querem assumir problemas e preferem viver felizes na água-com-açúcar de suas fantasias e na ilusão de que podem sobreviver a qualquer prejuízo que lhes vier. Vivem iludidas em suas conformações, que muitas vezes são ódios e revoltas adormecidos como um vulcão não-extinto aparentemente inativo.
Quantos pais e mães cobram demais dos filhos e reclamam demais deles? Quantos patrões exigem demais do empregado e lhe cobram habilidades que ele não foi preparado para fazer? Quantas mulheres exigem demais do tipo de homem para casar? Quantas outras pessoas fazem mil restrições ou estabelecem critérios rigorosos demais para outrem?
Será que os que abandonam o queixoso estão sempre certos? E se o que eles fazem é, na verdade, fugir de um bom conselheiro, de um denunciante valioso, correndo para os primeiros refúgios de fantasia e ilusão, onde a alegria e a paz forçadas num mundo de injustiças se expressam passivamente?
Em muitos casos, é a negligência dos confortáveis que, em primeiro momento, abandonam o queixoso aparente mas, depois, sofrem os efeitos desse desprezo, quando os imprevistos trazem aos negligentes as adversidades que se recusaram a ouvir daquele que "reclamava demais".
O próprio "espiritismo", moralista, conservador e querendo a paz forçada das pessoas caladas e dos problemas que só se "resolvem" pela "força de Deus" - se é que essa fórmula mística resolve - sofre uma grave crise quando reprova as contestações e questionamentos que lhe tirariam a sossegada ilusão de trair o pensamento de Allan Kardec e, mesmo assim, fazer pretensos juramentos de fidelidade a ele. Os queixosos poderiam deixar a máscara cair.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Aceitar a deturpação do Espiritismo por causa da "bondade" é perigoso
Há uma reação constante na Internet de pessoas que até admitem a deturpação do Espiritismo feita pela doutrina brasileira, mas fazem blindagem em favor de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco por causa da "bondade" e da "caridade".
A ideia que tais pessoas têm é admitir que os dois lançaram, sim, ideias que contradizem o pensamento de Allan Kardec, mas ambos são respeitáveis e conceituados por causa da "caridade" que está oficialmente associada a eles.
Essa visão, difundida como um mantra nas mídias sociais, por pessoas desesperadas que não têm condições de serem bondosos por conta própria e que precisam de dois estereótipos de "bons velhinhos" para personificar a bondade e a caridade que não entendem, é dotada de muitos equívocos.
Primeiro, porque a "caridade" de Chico Xavier e Divaldo Franco é aquém do que o discurso alardeia em favor deles. A "caridade" de Chico Xavier é nebulosa e, em certos casos, perniciosa. A de Divaldo Franco é muito inócua e sem eficiência definitiva.
Chico Xavier havia doado o faturamento dos direitos autorais e das vendas dos livros para a Federação "Espírita" Brasileira. Isso não é caridade. Isso significa que os dirigentes da FEB ficam com o dinheiro, a exemplo dos sacerdotes do Vaticano no caso de Madre Teresa de Calcutá, que deixou de investir na sua "filantropia" para encher os cofres dos chefões da Igreja Católica.
Além disso, casos de doações de dinheiro são muito vagos e imprecisos. E, no caso da divulgação de "psicografias" de anônimos falecidos, houve crueldade na exposição sensacionalista das tragédias familiares como na produção de mensagens apócrifas tão "confiáveis" quanto trotes telefônicos dados por sequestradores ou estelionatários.
Já Divaldo Franco só ajudou uma parcela ínfima de menos de 0,1% da população de Salvador, o que, em níveis nacionais, é muito mais vergonhoso para o título de "maior filantropo do Brasil" dado a ele, diante de uma dimensão de 200,4 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE em 2013.
Seu projeto educacional também é, qualitativamente, frouxo, por ser um programa até correto de alfabetização e curso profissionalizante, mas que nada faz para estimular o senso crítico da pessoa, mas para inserir nela valores igrejistas, muitos deles conservadores, já que é notória a influência católica de Divaldo, que acredita, por exemplo, que Deus tem a forma de um homem.
Mesmo também agindo de forma paliativa, o Bolsa-Família do Partido dos Trabalhadores ajudou muito mais gente que a "caridade" dos dois "médiuns". E, com toda a má reputação que possui, o Movimento dos Sem-Terra tem projetos educacionais que dão um banho em transformação nas mentes humanas sobre o projeto "revolucionário" da Mansão do Caminho.
Afinal, o MST ensina as pessoas a lerem, escreverem e trabalharem, mas ensina também a ter consciência crítica do meio em que vive, de forma que as pessoas possam também agir contra os abusos dos poderosos, sobretudo os grandes proprietários de terras, em boa parte improdutivas ou levianamente produtivas. O sujeito aprende a ler, escrever e trabalhar, mas não se transforma num "brinquedo de Deus".
DETURPAÇÃO NÃO É TRAVESSURA
O que as pessoas não conseguem entender é que a deturpação da Doutrina Espírita não é uma travessura de moleques querendo brincar com o pensamento de Allan Kardec porque é "divertido". Esse processo já revela um rol de mentiras perniciosas e, como se trata de uma forma de enganar e distorcer as coisas, ela já em si desmerece qualquer pretexto de "bondade" alegado.
É até estranho que, num país em que a presidenta Dilma Rousseff sofre campanha para cassação de seu mandato sem que alguma acusação precisa seja feita contra ela e seu antecessor Luís Inácio Lula da Silva, deturpadores severos como Chico Xavier e Divaldo Franco ainda tenham esperança de embarcar numa hipotética recuperação das bases kardecianas, mesmo que só por enfeite.
O que eles fizeram foi de extrema gravidade. Afinal, o que Chico e Divaldo fizeram não foi inserir os "bons ensinamentos cristãos" na doutrina kardeciana, mas corrompê-la com ideias medievais, misticismo barato, fantasias esotéricas e pretensas profecias.
Eles corromperam o Espiritismo, desmoralizaram a mediunidade, que reduziu-se a uma fórmula fácil do faz-de-conta - a pessoa finge que recebe mensagens do além e, para dissimular a fraude, insere mensagens religiosas e "fraternas" - e ainda por cima deturparam o conceito de médium ao se tornarem estrelas, virando o centro das atenções e bancando dublês de "filósofos" para uma sociedade de incautos.
Não é pouca coisa. Analisando tecnicamente e de forma isenta os trabalhos "psicográficos" de Chico Xavier, observa-se falhas quanto aos aspectos pessoais do suposto autor espiritual e as semelhanças quanto ao estilo pessoal do "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba.
O que isso pode indicar de falsidade ideológica é algo sem tamanho. Só mesmo atribuindo a ingenuidade e precariedade da Justiça da época (1944) para ninguém culpar Chico Xavier e a FEB de apropriação indébita da obra de Humberto de Campos.
Está tudo claro. Leiam os livros originais de Humberto de Campos - alguns deles estão no portal Domínio Público - e comparem com os livros "espirituais". A diferença textual é grotesca, a disparidade de estilos é aberrante.
A escrita original de Humberto é fluente, concisa, culta mas acessível, um neoparnasiano com os pés no Modernismo, de narrativa constantemente descontraída. Já a escrita do "espírito Humberto de Campos" é pesada, melancólica, pretensamente erudita mas com sérios erros de linguagem (como cacófatos do tipo "chama maria" e "que cada") e narrativa carregadamente igrejista.
ESQUECENDO OS AVISOS DE ERASTO
Não são molecagens aceitáveis. O que Chico Xavier fez de deturpação, pastiche e fraude é muito, muito grave. E Divaldo Franco foi na carona, inclusive fazendo plágios de plágios, de início copiando Chico Xavier quando este já copiava de outrem. E, ideologicamente, Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento católica, de forma bastante explícita. Divaldo ia de carona, embora mais sutil.
Como é que chegam as pessoas para dizer que "pelo menos eles promoviam a caridade"? São pessoas incapazes de serem bondosas por conta própria ou de procurarem outros exemplos de bondade e caridade e dependem de dois senhores retrógrados para personificar, ainda que de maneira discutível, conceitos consagrados de "amor e bondade".
Daí o grande perigo de aceitar Chico Xavier e Divaldo Franco como "exemplos de caridade". Esse "atenuante" a dois deturpadores da Doutrina Espírita demonstra que os espíritas brasileiros, autênticos ou bastardos, se esqueceram dos avisos do espírito de Erasto, dados na época de Kardec.
Erasto disse que é possível que os inimigos internos do Espiritismo apresentem, em suas mensagens, algumas coisas boas, mas é aí que se deve tomar maior cautela, porque elas podem servir de apoio para a transmissão de ideias e conceitos levianos. Pode se considerar as atividades no mesmo sentido das mensagens citadas por Erasto.
Isso significa que Erasto recomendou não ter a menor complacência quando os deturpadores da Doutrina Espírita mostram algum aspecto de bom-mocismo. Ele alertou que os deturpadores podem até mesmo forjar humildade, fingir misericórdia absoluta ou mesmo ficarem em silêncio diante de contestações severas. Podem até mesmo reagir chorando, quando desmascarados.
Por trás da complacência, o que se observa são atividades e ideias confusas que prevalecem. Divaldo Franco personifica o escrevinhador de textos rebuscados advertido por Erasto. E Chico Xavier, o propagador das ideias levianas em território brasileiro, enquanto Divaldo espalha a mistificação pelo mundo.
O fato deles terem feito um péssimo serviço para o Espiritismo é suficiente para que não se tenha complacência com eles nem se relativize seus erros. Eles já fizeram coisa grave, retrocedendo o pensamento inovador de Kardec a um igrejismo barato, de conceitos medievais.
Se as pessoas estão complacentes com Chico Xavier e Divaldo Franco, então essas pessoas também estão equivocadas, por subordinarem a ideia de "bondade" a duas figuras religiosas retrógradas. E acabam indo por um caminho muito perigoso.
Afinal mesmo os espíritas com alguma inclinação para as bases doutrinárias, ao consentir com a "bondade" de Chico e Divaldo, será tentado a ouvi-los e apreciar suas obras, afinal eles são considerados "puros" e "bondosos". Aí é que se quebra o ovo da serpente.
Isso porque, num primeiro momento, elogiamos a "caridade" de Chico e Divaldo. Felizes com seu "bom exemplo", seremos tentados a ouvi-los e ler suas obras. Daqui a pouco estaremos legitimando até as mistificações de Emmanuel e, depois, vamos sonhando em construir parques de diversões em Nosso Lar. Esse é o grande perigo dos que querem recuperar as bases kardecianas mantendo Chico e Divaldo nos seus pedestais.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Um suposto texto de Humberto de Campos que parece escrito por colaboradores da FEB
Um dos pontos tendenciosamente utilizados pelos defensores de Chico Xavier para inocentá-lo de acusações de pastiches literários é a suposição de que, na tese da acusação, ele teria realizado sozinho tal tarefa. Com isso, acreditavam os seguidores e simpatizantes que o "médium" nunca iria imitar uma grande variedade de estilos, porque seria sofisticação demais.
Analisando profundamente os fatos, vemos que Chico Xavier realizou pastiches e plágios literários, sim. Mas ele nunca agiu sozinho. Ele teve a supervisão de Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira, e contou também com uma equipe editorial da própria FEB e consultores literários fora da instituição.
O texto a seguir parece "correto", para quem observou aspectos bem toscos nos demais textos atribuídos a Humberto de Campos. Com toda certeza, Humberto nunca teria escrito o texto, como nem todo o livro Reportagens de Além-Túmulo, de 1943, até pela linguagem bastante sisuda e pesada.
Tenta-se, no entanto, um "capricho" na elaboração dos textos e o Capítulo 4, "Espíritos Protetores", é um caso. É possível que Chico Xavier, já em compromissos como ídolo religioso ascendente e ocupado com a obra Nosso Lar, daquele mesmo ano, pouco contribuiu para este livro, já que nota-se que boa parte do trabalho foi completado por Wantuil e outros editores.
Em uma carta de 1947, Chico Xavier já agradecia a Wantuil e outros editores da FEB - é citado o "médium" Luiz da Costa Porto Carreiro Neto - pela revisão dos textos para a sexta edição de Parnaso de Além-Túmulo, e a carta que vazou essa informação foi acidentalmente divulgada pela "médium" e seguidora de Chico Xavier, Suely Caldas Schubert.
Deixamos aqui o texto abaixo reproduzido, com um conteúdo igrejista que Humberto de Campos, por mais que falasse de religião, nunca abordaria, e que pode ter sido escrito a várias mãos pela equipe editorial da FEB, num livro em que a presença de Chico Xavier pode ter sido menos expressiva como escritor, ocupado ele com a elaboração, publicação e repercussão de Nosso Lar.
==========
ESPÍRITOS PROTETORES
Atribuído supostamente a Humberto de Campos - Divulgado por Francisco Cândido Xavier, em Reportagens de Além-Túmulo, FEB, 1943.
Jehul, elevada entidade de uma das mais belas regiões da vida espiritual, foi chamado pelo caricioso apelo de um nobre mensageiro da Verdade e do Bem, que lhe falou nestes termos:
- Uma das almas a que te vens devotando particularmente, de há muitos séculos, vai agora ressurgir nas tarefas da reencarnação sobre a Terra. Seus destinos foram agravados de muito em virtude das quedas a que se condenou pela ausência de qualquer vigilância, mas o Senhor da Vida concedeu-lhe nova oportunidade de resgate e elevação.
Jehul sorriu e exclamou, denunciando sublimes esperanças:
- É Laio?
- Sim - replicou o generoso mentor -, ele mesmo, que noutras eras te foi tão amado na Etrúria.
Atendendo às tuas rogativas, permite Jesus que lhe sejas o guardião desvelado, através de seus futuros caminhos. Ouve, Jehul ! - serás seu companheiro constante e invisível, poderás inspirar-lhe pensamentos retificadores, cooperar em suas realizações proveitosas, auxiliando-o em nome de Deus; mas, não esqueças que tua tarefa é de guardar e proteger, nunca de arrebatar o coração do teu tutelado das experiências próprias, dentro do livre-arbítrio espiritual, a fim de que construa suas estradas para o Altíssimo com as próprias mãos.
Jehul agradeceu a dádiva, derramando lágrimas de reconhecimento.
Com que enlevo pensou nas possibilidades de conchegar ao seio aquele ser amado que, havia tanto tempo, se lhe perdera do caminho!... Laio lhe fora filho idolatrado na paisagem longínqua. É certo que não lhe compreendera a afeição, na recuada experiência. Desviara-se das sendas retas, quando ele mais esperava de sua mocidade e inteligência; seu coração carinhoso, porém, preferira ver no fato um incidente que o tempo se encarregaria de eliminar. Agora, tomá-lo-ia de novo nos braços fortes e o reconduziria à Casa de Deus. Suportaria, corajosamente, por ele, a pesada atmosfera dos fluidos materiais. Toleraria, de bom grado, os contrastes da Terra. Todos os sofrimentos eventuais seriam poucos, pois acabava de alcançar a oportunidade de erguer, dentre as dores humanas, um irmão muito amado, que fora se\! filho inesquecível.
O generoso amigo espiritual atravessou as paisagens maravilhosas que o separavam do ambiente terrestre. Ficaram para trás de seus passos os jardins suspensos, repletos de flores e de luz. As melodias das regiões venturosas distanciavam-se-lhe dos ouvidos.
Esperançoso, desassombrado, o solícito emissário penetrou a atmosfera terrestre e achou-se diante de um leito confortável, onde se identificava um recém-nascido pelo seu brando choramingar. Os Espíritos amigos, encarregados de velar pela transição daquele nascimento, entregaram-lhe o pequenino, que Jehul beijou, tomado de profunda emoção, apertando-o de encontro ao peito afetuoso.
E era de observar-se, daí em diante, o devotamento com que o guardião se empenhou na tarefa de amparar a débil criança. Sustentou, de instante a instante, o espírito maternal, solucionando, de maneira indireta, difíceis problemas orgânicos, para que não faltassem os recursos da paz aos primeiros tempos do inocentinho humano. E Jehul ensinou-lhe a soletrar as primeiras palavras, reajustando-lhe as possibilidades de usar novamente a linguagem terrestre. Velou-lhe os sonos, colocou-o a salvo das vibrações perniciosas do invisível, guiou-lhe os primeiros movimentos dos pés. O generoso protetor nada esqueceu, e foi com lágrimas de emoção que
inspirou ao coração materno as necessidades da prece para a idolatrada criancinha. Depois das mãos postas para pronunciar o nome de Beus, o amigo desvelado acompanhou-a a escola, a fim de restituir-lhe, sob as bênçãos do Cristo, a luz do raciocínio.
Jehul não cabia em si de contentamento e esperança, quando Laio se abeirou da mocidade.
Então, a perspectiva dos sentimentos transformou-se.
De alma aflita, observou que o tutelado regressava aos mesmos erros de outros tempos, na recapitulação das experiências necessárias. Subtraía-se, agora, à vigilância afetuosa dos pais, inventava pretextos desconcertantes e, por mais que ouvisse as advertências preciosas e doces do mentor espiritual, no santuário da consciência, entregava-se, vencido, aos conselheiros de rua, caindo miseravelmente nas estações do vício.
Se Jehul lhe apontava o trabalho como recurso de elevação, Laio queria facilidades criminosas; se alvitrava providências da virtude, o fraco rapaz desejava dinheiro com que se desvencilhasse dos esforços indispensáveis e justos. Entre sacrifícios e dores ásperas, o prestimoso guardião viu-o gastar, em prazeres condenáveis, todas as economias do suor paternal, assistindo aos derradeiros instantes de sua mãe, que partia, da Terra, ferida pela ingratidão filial. Laio relegara todos os deveres santos ao abandono, entregando-se à ociosidade destruidora. Não obstante os cuidados do mentor carinhoso, procurou o álcool, o jogo e a sífilis, que lhe sitiaram ,a existência consagrada por ele ao desperdício. O dedicado amigo, entretanto, não desanimava.
Após o esgotamento dos recursos paternos, Jehul cooperou junto de companheiros prestigiosos, para que o tutelado alcançasse trabalho.
Embora contrafeito e subtraindo-se, quanto possível, ao cumprimento das obrigações, Laio tornou-se auxiliar de urna empresa honesta, que, às ocultas, era objeto de suas críticas escarnecedoras. Quem se habitua à ociosidade criminosa costuma caluniar os bens do espírito
de serviço.
De nada valiam os conselhos do guardião, que lhe falava, solícito, nos quais profundos recessos do ser.
Daí a pouco tempo, menos por amor que por necessidade, Laio buscou uma companheira. Casou-se. Mas, no desregramento que se entregava de muito tempo, não encontrou matrimônio senão sensações efêmeras que terminavam em poucas semanas, como a potencialidade de um fósforo que se apaga em alguns segundos. Jehul, no entanto, alimentou a esperança de que talvez a união conjugal lhe proporcionasse oportunidade para ser convenientemente ou não. Isso, todavia, não aconteceu. O tutelado não sabia tratar a esposa senão entre desconfianças e atitudes violentas. Sua casa era uma seção do mundo inferior a que havia confiado seus ideais.
Recebendo três filhinhos para o jardim do lar, muito cedo lhes inoculava no coração as sementes do vício, segregando-os num egoísmo cruel.
Quando viu o infeliz envenenando outras almas que chegavam pela bondade infinita de Deus para a santa oportunidade de serviços novos, Jehul sentiu-se desolado e, reconhecendo que não poderia prosseguir sozinho naquela tarefa, solicitou o socorro dos Anjos das Necessidades. Esses mensageiros de educação espiritual lhe atenderam atenciosamente aos rogos, começando por alijar o tutelado do emprego em que obtinha o pão cotidiano. Entretanto, em lugar de melhorar-se com a experiência buscando meditar como convinha, Laio internou-se por uma rede de mentiras, fazendo-se de vítima para recorrer às leis humanas e ferir as mãos de antigos benfeitores. Acusou pessoas inocentes, exigiu indenizações descabidas, tornou-se odioso aos amigos de outros tempos.
Jehul foi então mais longe, pedindo providências aos Anjos que se incumbem do Serviço das Moléstias úteis, os quais o auxiliaram de pronto, conduzindo Laio ao aposento da enfermidade reparadora, a fim de que o mísero pudesse refletir na indigência da condição humana e na generosa paternidade do Altíssimo; aquele homem rebelde, contudo, pareceu piorar cem por cento. Tornou-se irascível e insolente, abominava o nome de Deus, sujava a boca com inúmeras blasfêmias. Foram necessários verdadeiros prodígios de paciência para que Jehul lhe lavasse do cérebro esfogueado e caprichoso os propósitos de suicídio. Foi aí que, desalentado quanto aos
recursos postos em prática, o bondoso guardião implorou os bons ofícios dos Anjos que se encarregam dos Trabalhos da Velhice Prematura. Os novos emissários rodearam Laio com atenção, amoleceram-lhe. as células orgânicas, subtraíram-lhe do rosto a expressão de firmeza e resistência, alvejaram-lhe os cabelos e enrugaram-lhe o semblante. No entanto, o infeliz não cedeu. Preferia ser criança ridícula nas aparências de um velho, a entrar em acordo com o programa da Sabedoria Divina, a favor de si mesmo.
Enquanto blasfemava, seu amigo orava e desdobrava esforços incessantes; enquanto praticava loucuras, o guardião duplicava sacrifícios e esperanças.
O tempo passava célere, mas, um dia, o Anjo da Morte veio espontaneamente ao grande duelo e falou com doçura:
- Jehul, chegou a ocasião da tua retirada!. . .
O generoso mentor abafou as lágrimas de angustiosa surpresa. Fixou o mensageiro com olhos doridos e súplices; o outro, no entanto, continuou:
- Não intercedas por mais tempo! Laio agora me pertence. Conduzi-lo-ei aos meus domínios, mas podes rogar a Deus que o teu tutelado recomece, mais tarde, outra vez...
Terminara a grande partida. A Morte decidira no feito, pelos seus poderes transformadores, enquanto o guardião recolhia, entre lágrimas, o tesouro de suas esperanças imortais. .
E, grafando esta história, lembro-me que quase todos os Espíritos encarnados têm algum traço do Laio, ao passo que todos os Espíritos protetores têm consigo os desvelos e os sacrifícios de Jehul.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
A invigilância de parte dos espíritas autênticos
Existem espíritas autênticos no Brasil, sim. Mas eles são uma minoria, não bastasse o falso espiritismo de feições igrejistas, que prevalece no país, também estar longe de ser maioria nos movimentos religiosos brasileiros.
Mesmo assim, são menos ainda os espíritas autênticos que buscam manter vigilância contra oportunistas e usurpadores do legado de Allan Kardec, péssimos aprendizes da Doutrina Espírita, desastrosos apreciadores da Ciência Espírita e tendenciosos espertalhões agindo com bom-mocismo.
Há, entre uma parcela de espíritas autênticos, aqueles que acreditam, por boa-fé, ser possível recuperar as bases doutrinárias kardecianas mantendo, no pedestal, as pessoas de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, mesmo que seja só para enfeite.
Eles não sabem o que aproveitar de Chico Xavier e Divaldo Franco, até porque questionam os conteúdos de seus livros e são obrigados a admitir que muitas ideias trazidas por tais obras contradizem muitos ensinamentos de Allan Kardec.
No entanto, eles acham "cruel demais" eliminá-los da "causa espírita" sob a desculpa de que, pelo menos, os dois "são grandes exemplos de bondade e caridade, e atuam pelo bem-estar do próximo", daí o bom-mocismo do "movimento espírita" que tenta apaziguar as críticas, usando a tática do "mau espírita, cidadão bonzinho".
BONDADE FALHA
Isso é grave. Até porque, com uma observação mais apurada, a caridade dos dois não foi nem é tão ampla assim. Divaldo comemorou demais uma filantropia que mal consegue ajudar menos de 0,1% (isso mesmo) da população de Salvador, o que, em dimensões nacionais, desmerece o título festivo de "maior filantropo do Brasil".
Só as cidades "protegidas" pelas "poderosas energias" dos dois "médiuns", Uberaba e parte de Salvador, o bairro de Pau da Lima, estão entre os locais com índice preocupante e frequente de violência, locais cuja população vive sob o signo do medo e, se reza, não é para ter uma vida melhor, mas pelo menos terminar o dia viva e sem problemas.
Paremos para pensar. A tão alardeada "caridade" dos dois astros do "movimento espírita" tem também sua responsabilidade. Se eles são tidos como "maior exemplo de bondade" e falham quando os locais sob sua influência mostram índices dramáticos de violência, então eles não têm mérito algum para tal qualidade.
Que força espiritual eles têm - Chico Xavier, de maneira póstuma - se ela se torna impotente diante da violência? Que espírito forte se espera de alguém que falha porque os espíritos inferiores não lhe deixaram agir? Qual espírito forte pode se resignar diante da tirania do opressor, mesmo com toda a confiança nas boas energias?
Num tempo, Divaldo Franco diz, otimista, que 2012 seria uma época de muitas transformações para melhor no Brasil. Em 2010, os "espíritas" em geral festejavam que o centenário de nascimento de Chico Xavier iria impulsionar a força missionária do Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho".
E agora? Divaldo Franco, vendo a crise acontecer no Brasil, pediu aos brasileiros a orar. A mesma coisa foi pedida por Silas Malafaia, só para se ter uma ideia. A desculpa de Divaldo é que os espíritos inferiores "não deixaram" o país evoluir e estão atrapalhando o caminho.
É sempre assim. E isso os espíritas autênticos, mas sem muita vigilância, não percebem. Eles se comovem com a propaganda institucional e acreditam que dando sopinha para umas poucas dezenas de pobres irá transformar o mundo, ou que pálidos projetos educacionais que, no entanto, incluem ensinamento igrejista, irão mudar significativamente o Brasil.
Eles não percebem que a filantropia não é desculpa para se aceitar deturpadores da Doutrina Espírita, só porque "são bonzinhos". Empresas que demitem trabalhadores em massa também investem em filantropia, e em muitos casos a caridade é pretexto para a "lavagem de dinheiro" de muitos corruptos.
Os espíritas brasileiros, autênticos ou bastardos, ainda precisam prestar melhor atenção a Allan Kardec. Deveriam prestar atenção também ao espírito Erasto, que advertiu sobre os inimigos internos da Doutrina Espírita, sobretudo quando estes se armam de "coisas boas" para terem crédito entre os incautos.
Ninguém pratica mediunidade de verdade, salvo raríssimos e quase nunca noticiados pela mídia, e ninguém segue rigorosamente os conselhos de Kardec, que sempre pediu cautela na avaliação de mensagens espirituais e nos orientou sobre como verificar se elas são autênticas ou não.
Não há um estudo rigoroso. Há apenas, quando muito, um conhecimento teórico "correto", mas sem aplicação prática adequada, e o que se diz, desdiz e contradiz no "espiritismo" faz com que a doutrina merecesse outro nome: "desculpismo". Isso é que dá a falta de vigilância de uma parcela de autênticos...
terça-feira, 12 de abril de 2016
Procastinação, um princípio "espírita"?
O "espiritismo" despreza a vida material, porque acha que a encarnação é apenas uma relação simplória de conflitos, auxílios ou alianças, desconhecendo individualidades e contextos temporários. Acha que o espírito não precisa intervir na vida material, tornando-a mais proveitosa e justa, e crè que sacrifícios e infortúnios pesados podem ser suportados com prazo indefinido.
Há a desculpa de que, só porque a "verdadeira vida" está no mundo espiritual, tanto faz uma pessoa deixar de fazer uma coisa numa encarnação e adiá-la para a seguinte. A ideia de que, só porque existe reencarnação, toda encarnação pode ser igual a outra e as oportunidades permanecem as mesmas, o que não procede na prática.
Existe reencarnação, mas cada encarnação é única. Se a pessoa deixa de fazer uma coisa numa encarnação, terá dificuldades de fazê-la na encarnação seguinte. Mudam-se os contextos, os papéis sociais, os interesses.
Quando uma pessoa falece ("desencarna"), geralmente leva um tempo para reencarnar. Suponhamos uma média de dois anos. Quando reencarna, precisa de cerca de vinte anos para retomar o nível de consciência da vida que ficou latente na infância e adolescência.
Com isso, são pouco mais de vinte anos que a pessoa terá que recuperar da experiência encarnacional perdida. E se uma pessoa realizou uma grande tarefa e a deixou natimorta, ao falecer precocemente, não serão os cerca de vinte e cinco anos que terá que esperar para recobrar a consciência plena de seus potenciais que possibilitarão a façanha perdida.
Imaginemos Jimi Hendrix, o genial guitarrista estadunidense, que faleceu com 28 anos incompletos, em setembro de 1970, reencarnando por volta de 1975. É uma suposição, para facilitarmos a análise. O grande guitarrista, em tese, ganhou nova oportunidade para desenvolver o seu brilhante talento de músico, compositor e intérprete.
Todavia, o cenário que ele irá encontrar será outro. A única coisa é que as pessoas se vestirão quase de forma semelhante ao pessoal do final dos anos 1960, mais precisamente 1969. Mas a mentalidade não será a mesma. O niilismo grunge, o besteirol do poser metal, o rock transformado num grande negócio, músicos que mais parecem preocupados com a atitude do que a música.
O Hendrix reencarnado encontraria dificuldades até para procurar seus parceiros e seu meio social. Eles existem, mas têm muito menos espaço na mídia e no mercado do que em 1967, ano de ascensão do músico. E sua música excepcional pode até continuar em sua mente, mas infelizmente o pioneirismo se dissolveu diante de tantos arremedos do som hendrixiano que se produziu ao longo dos anos.
Isso é um grande drama, como tantos outros. O roqueiro que viveu os anos 1980 tinha um cenário cultural mais visceral, como o emepebista dos anos 1960. Se morrem no meio do caminho e reencarnam pouco depois, quando chegarem aos 20 anos verão as coisas diferentes e, no contexto social que conhecemos, bem piores.
Nos anos 80, havia a Fluminense FM, rádio especializada em rock, feita com pessoal especializado, locutores de estilo próprio e não tocava somente os "grandes sucessos". Três décadas depois, o que temos de "rádio rock" se chama Rádio Cidade, não tem pessoal especializado, seus locutores adotam o mesmo estilo irritante das FMs pop e o repertório se limita aos hits. Péssimo espaço para o músico de rock reencarnado divulgar seu diferenciado talento.
Nos anos 60, havia a Bossa Nova e o músico emepebista podia conviver com nomes como Elizeth Cardoso, Sérgio Mendes, Edu Lobo, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Oscar Castro Neves e outros. Se ele morre no meio do caminho e reencarna nos anos 80, tendo cerca de 30 anos hoje, quem serão os colegas de convívio?
Ele conviverá com Joelma, Luan Santana, Michel Teló, Thiaguinho, Belo e Zezé di Camargo. O mais próximo de Elizeth Cardoso que encontrará é Ivete Sangalo, que, sabe-se muito bem, está a anos-luz aquém da "Divina".
Ficamos imaginando alguns reencarnados. O que seria Newton Mendonça, reencarnando em 1965, com 51 anos atualmente, procurando um parceiro como tivera em Tom Jobim. O máximo que encontrará é um canastrão brega, pretensioso e oportunista como Michael Sullivan. Ou então, fora do mainstream, masturbadores pós-tropicalistas que são meras enciclopédias pop fajutas, como um Zeca Baleiro dos piores momentos.
E Anísio Teixeira, o grande mestre educador? Que projeto educacional ele poderá desenvolver para pessoas que veem a vida como um jogo de Minecraft e seu nível de leitura é estimulado com obras de "livros para colorir" (?!). E o que faria Leila Diniz num cenário de mulheres-frutas e outras siliconadas que confundem feminismo com livre-mercado das mulheres-objetos?
O adiamento das oportunidades, devido aos infortúnios sem controle, é um grande malefício que a moral "espírita" deixa passar. Talentos são desperdiçados pelas desgraças acumuladas, num contexto em que medíocres, estúpidos e facínoras levam a melhor e sofrem apenas provações leves, enquanto quem precisa de ajuda não tem como recorrer e é forçado a abrir mão de suas próprias habilidades.
A procastinação, que é o princípio oculto do "movimento espírita", é o ato de adiar sempre as coisas. Ignorando que os tempos se transformam e as coisas mudam, os "espíritas" pouco se preocupam em ver talentos desperdiçados pelos infortúnios e experiências adiadas para mais de vinte anos, em uma outra encarnação.
Esse é o estrago que a Teologia do Sofrimento, ideologia defendida na prática pelo "movimento espírita", mesmo que nunca seja assumida no discurso (eles costumam pregar, na teoria, o contrário), causa no seu "otimismo reencarnacional". Ignorando que existem várias vidas, mas cada uma delas é única, o "espiritismo" e seu projeto de vida "qualquer nota" se torna impotente para ajudar no crescimento dos indivíduos.
Afinal, a vida é muito mais do que uma relação de ajudas e conflitos, de paciência ou jogo de cintura, de angústias e esperanças. Na encarnação, a pessoa tem muito mais do que um simples processo de resolver divergências ou reforçar afinidades e solidariedades. As necessidades sociais tornaram a vida carnal muito complexa, e isso o "espiritismo" se recusa a compreender.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
As estranhezas em torno da mediunidade
Supostas psicografias e pinturas mediúnicas. Cirurgias mediúnicas feitas sem higiene e com métodos misteriosos. Passes espirituais feitos num simples sacudir de mãos. Essas práticas as pessoas estão acostumadas a acreditar como autênticas, verídicas e eficazes, mas revelam uma porção de estranhezas em torno do que se entende por mediunidade no Brasil.
Para começar, mediunidade não é o ato de receber espírito falecido em si. Isso é paranormalidade. A mediunidade consiste em transmitir o recado do espírito falecido para as pessoas vivas, por intermédio de um responsável.
A mediunidade inclui o processo de receber espíritos, mas não se limita a isso. Se o indivíduo recebe um espírito do além apenas para conversar com ele, como numa relação de amizade, ele não está desempenhando função de médium, está apenas praticando paranormalidade.
O que chama a atenção para a estranheza das atividades "mediúnicas" é o rápido crescimento de pessoas que supostamente possuem esse dom. Como toda prática complexa, é natural que ela seja praticada por um número muitíssimo raro e muito restrito de pessoas, que exercem o ofício sem muito alarde.
No entanto, desde que foi divulgado o fenômeno da mediunidade no Brasil, houve um número de supostos médiuns considerado muito alto para uma prática que começava a ser difundida para o grande público.
Não bastasse isso, chamava a atenção o estrelismo e a atribuição de falsos sábios, transformados em "oráculos humanos", de figuras como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, que além de deixarem a função intermediária, por virarem "grifes mediúnicas", bancavam os dublês de filósofos num país sem muito esclarecimento como o Brasil.
É tudo muito estranho. De repente, a mediunidade se banalizou de maneira rápida, o que não é típico de acontecer em práticas complexas. Afinal, embora, em tese, toda pessoa pode exercer a mediunidade, ela requer habilidades e responsabilidades que raros indivíduos conseguem desenvolver.
Para piorar, os dirigentes da FEB jogaram Chico Xavier para empastelar a prática da mediunidade, que virou uma "feira de Acari". Aparentemente, a prática se popularizou, mas o que se vê são atividades fingidas, irresponsáveis, clandestinas, de valor científico duvidoso (como nas cirurgias "espirituais"), criando um cenário que não exprime qualquer confiabilidade.
Tudo virou um caos, um engodo de mãos sacudindo, tesouras sujas perfurando barrigas, psicografias iguais umas às outras com a mesma propaganda igrejeira, pinturas que não refletem os estilos originais dos falecidos pintores. E se as pessoas acabam confiando cegamente em tudo isso, a coisa fica mais grave.
Por isso o fenômeno da mediunidade, no Brasil, está completamente desmoralizado. Nunca se fez um estudo sério e tudo se transformou numa grande brincadeira. E tomou o caminho inverso de Allan Kardec, que desenvolveu a Ciência Espírita a partir do recreio das "mesas girantes", pois o "espiritismo" brasileiro desenvolveu uma brincadeira "mediúnica" a partir da Ciência Espírita. Isso é lamentável.
Assinar:
Postagens (Atom)






