sábado, 21 de novembro de 2015

A tragédia de Mariana e a crise do Brasil

LAMA SE ESPALHOU POR UM BAIRRO INTEIRO DE MARIANA (MG), DESTRUINDO CASAS, DESABRIGANDO MULTIDÕES E CAUSANDO MAIS DE DEZ MORTES.

A tragédia de Mariana é considerada um dos piores desastres ambientais da História do Brasil, e também um dos piores desastres associados ao descaso de uma empresa, no caso a Samarco, uma das sócias da Vale (antiga Companhia Vale do Rio Doce), que não fez a manutenção necessária da barragem para conter o acúmulo de rejeitos deixado pela mineradora local.

Um bairro inteiro foi praticamente destruído. Até o momento da redação deste texto, onze mortos foi o saldo oficial divulgado. Multidões de desabrigados perderam praticamente tudo, com um prejuízo incalculável. A lama foi tanta que ela atravessou as fronteiras de Minas Gerais e pode se dirigir para o Oceano Atlântico, pelo Estado do Espírito Santo.

A tragédia simboliza o canto de cisne de uma época, vinda desde o "milagre brasileiro" da Era Médici, da tecnocracia prepotente, que se julgava com mais direitos e menos deveres, da supremacia da Economia privatista, do Estado concentrador de decisões, do poder empresarial ditando normas para a cultura e o entretenimento, dos projetos mastodônticos que vão de hidrelétricas e mineradoras de grande porte até grandes eventos musicais.

O Brasil cheio de pompa e ambição, um Brasil que maquiava, com espetáculos e projetos megalomaníacos, o atraso social que agora reage como uma explosão, está em crise, inaugurada com o fracasso da Copa de 2014 que incluiu até uma derrota por sete gols contra um, da parte da Seleção Brasileira de Futebol, cuja corrupção nos bastidores passou também a ser revelada ao público.

Mesmo em tempos democráticos e sob o governo do Partido dos Trabalhadores, a perspectiva do "milagre brasileiro" da Era Médici, do "Brasil grande", do espetáculo e da pompa em detrimento da qualidade de vida, da regra "informal" da opinião pública ficar em silêncio para favorecer o desenvolvimento econômico, resistiu durante muitos anos.

A ideia de um desenvolvimento feito às pressas, dando cobertura nova a bolo mofado, sob o silêncio da opinião pública e sujeito ao arbítrio dos tecnocratas, foi responsável por tantas realizações megalomaníacas nas quais o cidadão era só o espectador passivo do qual se esperavam aplausos.

Os desabrigados de Mariana são um dos aspectos sombrios desse desenvolvimento apressado, em que responsabilidades são o que os tecnocratas menos querem saber de si, e o poder privado faz o que quer e age quando quer. Um Brasil que ainda pensa como na Era Médici, copiando o desenvolvimentismo da época de Juscelino Kubitschek mas subtraindo deste o lado humanista.

Há também a truculência digital dos troleiros (trolls), jovens aparentemente modernos que se revelam retrógrados e estúpidos, ainda dotados de preconceitos sociais diversos que os fazem humilhar com comentários ou atitudes machistas, racistas ou fascistas contra aqueles que pensam diferente dos encrenqueiros virtuais ou que não compartilham de seu antiquado sistema de valores.

Até o transporte coletivo brasileiro está preso a paradigmas da ditadura militar - o sistema implantado no Rio de Janeiro há cinco anos, atolado em paradigmas ditatoriais da Era Médici e tendo atropelado a lei para impor aos passageiros trajetos reduzidos para forçar baldeação, dupla função de motorista-cobrador e pintura padronizada nas empresas para confundir os passageiros no seu esforço cotidiano de ir e vir. Uma "mobilidade urbana" que desmobiliza e complica as coisas.

A única coisa que mudou é a demagogia. O discurso demagógico há muito se transformou, deixando de lado a oratória rebuscada dos comícios da República Velha ou o monótono discurso solene militar do período ditatorial.

Hoje os demagogos adotam o discurso pseudo-intelectual contemporâneo (neste caso, se igualam aos rebuscados de 100 anos atrás, mas em outro contexto), e, em certos casos, até o palanque torna-se diferente. Mário Kertèsz, um dos maiores demagogos baianos, péssimo radialista, pior ainda como jornalista, usa o rádio e a revista como seu "palanque" midiático.

Mas mesmo nos palanques tradicionais da política, a demagogia muda. Eduardo Paes, o grande demagogo baiano, chega a ofender portugueses com o discurso de defesa da pintura padronizada nos ônibus e engana os suburbanos quando diz que a pequena praia no Parque Madureira é para "unir o povo carioca". Mas no seu discurso atrapalhado, mas engenhoso, já se hospedam em sua retórica jargões como "acessibilidade", "sustentabilidade" e "mobilidade".

A demagogia administrativa também foi um recurso dos técnicos da Samarco para tentar minimizar a culpa da empresa pelo rompimento da barragem. Os administradores são sempre "corretos", ou, quando erram, "cometem falhas naturais" e "dentro do esperado". Sempre surgem promessas como "realização de estudos", "garantias" de procedimentos a serem tomados etc.

Enquanto isso, a "boa sociedade" boicotava amigos, e as instituições se recusavam a dar emprego ou divulgação a trabalhos de quem tem o senso crítico afiado. Alarmistas, eles se apressavam a não dar ouvidos a "gente incômoda" que lhe mostra o reflexo forte da realidade, a não divulgar seus trabalhos na rede, a não lhes dar empregos, a não convidá-los para o reencontro de ex-colegas de escola etc.

Assustados com a ideia de crise, corriam as pessoas da "boa sociedade" para a "felicidade" virtual dos vídeos hilários na Internet (tipo "pato mordendo focinho de um leão" e "sogra levando tombo na borda da piscina"), dos selfies auto-reverentes e dos livros para colorir ou das brochuras de youtubers "filosofando" demais sobre tolices como espinha na cara.

A decadência da tecnocracia revela a catástrofe humana de uma cidade do interior mineiro, rural, com gente simples sofrendo, muito diferente da classe média feliz das mídias sociais, da "juventude rebelde" anestesiada pelas ondas pasteurizadas da Rádio Cidade carioca, do "ativismo" blasé de Luciano Huck, do futebol carioca "sempre vitorioso", da moçada irreverente que ri até de senhoras levando tombo para se esquecer daquele "chato insuportável" que mostra a realidade.

De que adianta uma grande mineradora que não cuida direito de seus dejetos e deixa ocorrer um desastre ambiental sem precedentes, uma catástrofe natural que dizima um bairro inteiro, com a lama dos rejeitos se comportando como se fosse a lava de um vulcão em erupção?

Mariana parece dar um recado a Belo Monte, embora seu projeto fosse outro, uma hidrelétrica, mas mesmo assim a trazer impactos ambientais negativos, a expulsar indígenas e interioranos em geral, a afetar a diversidade biológica e tudo o mais. E o recado também serve à transposição do Rio São Francisco, uma alteração brusca de seu curso natural, que só favorecerá latifundiários locais.

A grande mídia divulga o desastre, mas tenta minimizar os efeitos da tragédia. Ou, quando muito, a explora como se fosse um drama novelesco, sem que a responsabilidade de uma empresa fosse devidamente denunciada. E tenta trazer a "paz social" dominante, a "paz sem voz" que muitos acham "necessária" para garantir o desenvolvimentismo de fachada sem que viva alma desse um pio.

Enquanto as pessoas de Mariana continuam sofrendo depois de perderem suas casas e estabelecimentos diversos e verem seus amigos, familiares e vizinhos morrerem, a "boa sociedade" se recolhe feliz para mais vídeo-cassetadas, para mais youtubers falando e escrevendo bobagens e sob a certeza de que algum dos quatro times cariocas estará em bom desempenho num torneio. Acham muito ver Luciano Huck bancar o "benfeitor dos pobres" e acham que o país vai mudar com isso.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

José Bonifácio, abolição e o ufanismo "espírita"


Há muita fantasia na história do "movimento espírita" e, relacionada ao final do Segundo Império, muitos dados nebulosos e mistificadores cercam não só personalidades "espíritas", como também figuras políticas conhecidíssimas, como o imperador Dom Pedro II.

No que se refere à abolição da escravatura, que no fundo não foi mais do que uma iniciativa inócua que só causou o desequilíbrio social que gera efeitos até os dias atuais, o "espiritismo" faz a maior festa, e até hoje investe em uma mitificação que nem os historiadores defendem mais.

Até hoje o 13 de Maio de 1888 é coroado pelos "espíritas" como uma "data crucial" para o que acreditam ser o início de um "novo tempo de fraternidade e luz". Com um deslumbramento que chega ao ponto do patético, os "espíritas" até hoje exaltam a Princesa Isabel, Dom Pedro II e outros figurões, sobretudo o próprio dirigente "espírita" Adolfo Bezerra de Menezes.

Há que se admitir que o livro A escravidão no Brasil e as Medidas que Convém Tomar para Extingui-la sem Dano para a Nação, que dr. Bezerra lançou em 1869, é um bom trabalho, com ideias válidas para eliminar a escravidão. No entanto, isso não faz Bezerra um grande líder abolicionista, até porque, fora de sua religião, seu papel histórico é considerado menos expressivo.

Não bastasse as atuações de nomes como José do Patrocínio e os irmãos André e Antônio Rebouças, os três negros emancipados, e de nomes como Joaquim Nabuco, terem sido mais viscerais, ainda no primeiro quartel do século XIX a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva, estadista do Primeiro Império, é bastante expressiva na sua posição abolicionista.

Conhecido como o Patriarca da Independência - foi José Bonifácio que estabeleceu os acordos parlamentares que consolidaram a emancipação política do Brasil, não um Dom Pedro I montado num burrico e seu "grito no Ipiranga", que foi apenas um ato simbólico -  e habilidoso articulador político, de atuação considerada arrojada para a época, o estadista já se manifestava a favor da extinção da escravidão.

Naquela época, cerca de 1823, o Reino Unido já pressionava para o Brasil abolir o trabalho escravo, mas o lobby que grandes proprietários de terras tinham na sociedade, influenciando até os intelectuais da época, impedia que alguma coisa fosse feita nesse sentido.

José Bonifácio tinha uma visão de mundo considerada contemporânea no seu tempo, uma época em que as pessoas levavam tempo para perceber as necessidades e demandas da vida moderna. Bem intencionado, ele não podia no entanto realizar a Abolição, porque a pressão dos grandes fazendeiros, o "empresariado" do Brasil na época, era muitíssimo grande.

Sabemos que o trabalho de libertação dos negros escravos sempre foi gradual, paliativa e inexpressiva. Medidas legislativas foram feitas, como a Lei do Ventre Livre e a Lei do Sexagenário, que pouparam crianças e idosos de sofrerem a sina da escravidão.

Depois de José Bonifácio, foi necessário mais de meio século para que a escravidão fosse declarada oficialmente extinta. No entanto, até hoje existem focos de trabalho escravo no interior do Brasil, envolvendo não apenas negros, mas mestiços em geral ou qualquer um que seja ligado às classes populares e esteja a procura de um emprego.

A situação do negro não melhorou e os senhores do engenho, para se vingarem do fato de não terem sido indenizados pelo Império, apoiaram a República e financiaram um golpe que instaurou o atual sistema de governo no Brasil.

Devemos esclarecer algumas coisas sobre a abolição que os "espíritas" ignoram. Em especial a postura hesitante do imperador Dom Pedro II em extinguir o trabalho escravo. Sua filha, Isabel, era apenas a "funcionária" de plantão e ela não foi a "ativista da Abolição" como os "espíritas" tanto acreditam, mas alguém que assinou um documento resultante da luta de muitos parlamentares.

A assinatura do documento foi um fato menor, diante dos esforços que os parlamentares tiveram bem antes de 1888. Também seria simplório dizer que foi o trio Pedro II - Isabel - Dr. Bezerra que, conforme acreditam os "espíritas", teriam sido os maiores ativistas da Abolição, porque sua participação foi bem menor. A de Joaquim Nabuco foi bem mais expressiva.

E ver que ainda tem muito a se resolver no problema da negritude brasileira. Há poucas semanas, a prestigiada e talentosa atriz, Taís Araújo, com toda sua popularidade, foi vítima de terríveis ofensas raciais. Isso reflete o atraso que o Brasil ainda sofre em relação ao mundo, e ver que boa parte da juventude "irada" ainda vive no tempo dos velhos engenhos é preocupante.

A realidade mostra que a fantasia "espírita" a respeito da Abolição, neste dia em que se lembra a morte do lendário ativista negro Zumbi dos Palmares, não faz sentido e que os problemas que vivem o Brasil o impedem de ser o tão sonhado "coração do mundo" que o "movimento espírita" tanto desejou para o país. E mostram que a visão da História pelos "espíritas" é muito, muito defasada.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Moralista, mídia não costuma mostrar o outro lado dos homicidas


No último dia 11, um motorista piauiense de 57 anos viajou 440 km de seu Estado de origem para São Paulo só para assassinar a ex-mulher. Lourenço de Oliveira, de 57 anos perseguiu a ex-mulher, Benedita Andreia Alves, e, armado de revólver, a matou com tiros, mesmo depois dela tentar se esconder num micro-ônibus no Morumbi.

O caso teria sido mais um da chamada "defesa de honra" machista, não fosse por um detalhe: após o crime, Lourenço, durante a fuga, sofreu um acidente vascular cerebral, caindo poucos metros do local do homicídio. Levado para um hospital, ele não resistiu e acabou falecendo.

Nos últimos dois anos, esse é o terceiro feminicídio de motivação conjugal cujos assassinos morrem sem cometer suicídio. Dois rapazes que assassinaram namoradas já haviam falecido, na fuga, em desastres de carro, um em Florianópolis e outro em Brasília. Isso mostra o outro lado de quem comete homicídio, não somente os feminicidas, mas quem tira a vida de outro em geral.

Os homicídios dessa natureza, em que seus autores aparentemente não mostram algum antecedente criminal, são motivados por pressões diversas que afetam a saúde psicológica e até a física. Em muitos casos, os homicidas consomem algum tipo de droga ou álcool, ou são fumantes inveterados. A tragédia não existe apenas nas vítimas, o próprio homicida também produz seu drama, sua tragédia.

É surpreendente, porém, que a grande mídia quase não explore esse lado e houve denúncias de que homicidas como o ex-promotor de Atibaia, Igor Ferreira, o ex-médico Farah Jorge Farah, que assassinaram respectivamente esposa e amante, e o fazendeiro Darly Alves, mandante do assassinato do ativista Chico Mendes, teriam recebido tratamento diferenciado por certos veículos de comunicação, a exemplo do lendário Doca Street, há cerca de dez anos.

A ideia que se tem, quando homicidas são entregues à impunidade, é que tudo que eles fizeram na vida foi tirar a vida de alguém, passar uns poucos dias na cadeia e voltar para casa. Tudo fica na mesma, exceto no lado das vítimas.

No entanto, num país em que as pressões sociais se tornam mais intensas, como o Brasil, e o machismo passa por um inferno astral, apesar de resistir a todo preço - tanto pelos feminicídios que acontecem aos montes quanto pelas "mulheres-objetos" que apelam demais na mídia - , assim como o coronelismo sofre sua decadência, o homicídio traz ao seu autor um futuro de incertezas dolorosas.

No caso de dois tipos de homicídio marcados pela impunidade, como os crimes latifundiários e os feminicídios conjugais (antes considerados "crimes passionais"), o sistema de valores conservador ainda protege sutilmente os homicidas, porque eles são "guardiões" de valores tidos como "tradicionais" relacionados à Família e à Propriedade.

Daí a "legítima defesa de honra" e "legítimo direito à propriedade", que protegem machistas e coronelistas aos quais nenhuma tragédia lhes pode ser apontada, por soar "ofensiva" e "cruel demais" para quem "já sofreu muito na vida". Como se o relativo sofrimento dos homicidas devido ao ódio da sociedade a eles fosse comparável aos irreparáveis danos que causaram às vítimas e seus familiares e amigos.

A esses dois tipos de homicídio, geralmente a grande mídia não costuma noticiar seus óbitos. Para todo efeito, maridos ou namorados "traídos", pistoleiros e fazendeiros mandantes, cometem seus crimes, passam uns dias na prisão, enfrentam julgamento e depois voltam para casa tranquilos. Se no meio do caminho um feminicida ou jagunço morrem de infarto, a imprensa silencia.

Daí que uma parte "conceituada" da grande imprensa não noticiou a tragédia do feminicida que sofreu AVC. Como não iria noticiar as inúmeras tragédias de feminicidas, que exterminam moças inocentes ou esposas momentaneamente irritadas, para não causar euforia nas feministas nem frustração e apreensão aos machistas.

As tragédias acontecem pelo natural desequilíbrio de contextos, por diversos motivos. Se observarmos o paradeiro de muitos "criminosos passionais" que agiram entre 1977 e 2000 e que não se suicidaram na ocasião dos seus crimes, a quantidade desses homens que já faleceu, se não é enorme, chega a surpreender.

Os feminicidas conjugais têm até suas causas de mortes potenciais: infartos, câncer e acidentes de trânsito. Não há um estudo para observar quantos realmente morrem, na faixa dos 45 aos 65 anos, desses problemas, mas há um nada desprezível número de homens, aparentemente de boa e saudável aparência e que haviam assassinado suas esposas ou namoradas, que morreram antes de completar 50 ou 60 anos de idade.

Da mesma forma, é rotineiro que, nos hospitais, pistoleiros a serviço do latifúndio (ou então ao "coronelismo" urbano do jogo-do-bicho), entre 35 e 64 anos, adoeçam gravemente e morram em leitos hospitalares, e não surpreende que, muitas vezes, um jagunço aparenta ser mais velho do que sua idade sugere. Muitos se alimentam mal, bebem e fumam constantemente.

Mas até que ponto a mídia, ainda dotada de preconceitos machistas ou coronelistas, admitirá as tragédias naturais que pessoas que tiram vida de outrem, cometendo o mais terrível ato de egoísmo que se conhece na humanidade, contraem para elas mesmas?

Será que elas transmitirão o futuro feliz de pistoleiros que mataram sindicalistas, missionários, ativistas etc, comprando uma fazenda bonitinha que nem nos contos infantis e viver ali serenamente o resto de seus dias?

E o feminicida será um vovô tranquilo que tentará explicar para seus netos por que teve que "se livrar" da vovó que não está mais para contar as suas histórias? Isso depois dele, livre da cadeia, posar de coitadinho e conquistar fácil novas namoradas?

O homicida não é alguém que conquista a sorte grande porque obteve liberdade condicional, mas também não é um antropófago que, através da eliminação de sua vítima, "soma" para si a vida que o outro não pode prosseguir? Tirar a vida do outro não é ter mais vida, e sim contrair um drama pessoal. E se o homicida é uma pessoa que descuidou da saúde, não será o cadáver alheio que irá lhe trazer a cura das doenças que naturalmente virão.

Poucos homicidas conseguem superar suas situações e aceitar seus dramas. Poucos sobrevivem, se não sem o peso da consciência, mas pelo menos com corajosa autocrítica. No entanto, a maioria sucumbe à sua tragédia, não um suicídio literal, mas uma "morte à prestação" depois que, contra suas vítimas, ofereceram a "morte à vista" da maneira mais precipitada possível.

O que se observa também são os esforços, em maior parte vãos, dos homicidas limparem seus nomes e suas condições materiais. O caso de Guilherme de Pádua (feminicida não-conjugal, até porque matou a esposa de um outro) é típico, com as tentativas dele "anular" sua pena e "limpar" sua reputação material, ainda que se contentando hoje a ser uma subcelebridade a se alimentar de polêmicas baratas.

Quando alguém tira a vida do outro, mata também sua reputação pessoal. A vida de quem mata outrem também não é a mesma, e os esforços para "limpar a barra" e salvar suas condições materiais - nome, status social, antigos feitos sócio-profissionais etc - tornam-se vãos, porque tudo isso desaparece com o óbito.

A ajuda da mídia em transformar alguns feminicidas conjugais e mandantes de crimes em "pessoas legais", mostrando um patético Farah Jorge Farah com mochila de estudante, torna-se inútil. O ideal é um homicida aceitar os efeitos de seus prejuízos e reconhecer suas derrotas humanas, e esperar seu óbito para depois optar por uma reencarnação mais limpa, quando haverá a consciência do mal que é abreviar a vida de outrem.

Um homicida mata de forma irrecuperável sua própria reputação. Quando ele mata alguém, ele também "se mata" simbolicamente. Não pode reconquistar o status anterior, depois que eliminou a vida de alguém. Cabe ele aceitar a falência que seu nome passou a representar para si e esperar que, em outra vida, não repita o gravíssimo erro.

Talvez a nova encarnação seja uma oportunidade 100% nova que compensará, com novo nome e novas condições sociais, o "perecimento em vida" da existência atual.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Cariocas se revelam intolerantes e conservadores

BRIGA E LINCHAMENTO CAUSARAM A MORTE DE UM VENDEDOR NO BAIRRO CARIOCA DE IPANEMA.

O que tem em comum os arbítrios das autoridades cariocas, a trolagem na Internet, o fanatismo pelo futebol local e a violência nas ruas da ex-Cidade Maravilhosa? Eles mostram diversos aspectos que revelam o atraso e o conservadorismo que envolvem uma parcela influente do povo do Estado do Rio de Janeiro.

Não se pode dizer se é maioria, mas o que se observa é uma parcela bastante influente. Afinal, numa trolagem, geralmente são duas ou três pessoas que fazem, mas como eles recebem a simpatia de colegas em comunidades específicas nas mídias sociais e carregam uma reputação de "divertidos" e "descontraídos", eles recebem a adesão de muita gente nos seus atos de truculência digital.

Recentemente um grupo de cerca de 300 pessoas participaram de um luau na Praia do Arpoador, que fica entre Copacabana e Ipanema. Um vendedor de gelo entrou em discussão e depois morreu linchado por uma multidão na altura da Rua Gomes Carneiro, que liga a Praça General Osório, em Ipanema, ao entorno da Av. Nossa Senhora de Copacabana e Rua Barata Ribeiro.

A informação oficial é que o vendedor assediou duas mulheres, uma delas casada. O marido chegou-se a ele e as três pessoas discutiram com um vendedor. Ele teria sido visto pegando uma barra de ferro. O casal e a amiga foram chamar um grupo de pessoas. Houve briga, discussão, o vendedor foi linchado e morreu. Os linchadores fugiram. Suspeitos foram detidos, horas depois.

É um cenário de truculência dentro de um cenário explosivo na outrora Cidade Maravilhosa, que vive retrocessos sem controle temperados pelo arbítrio político do PMDB carioca. Só no caso do transporte coletivo, o Ministério Público já investiga as mudanças impostas para as linhas de ônibus nos últimos meses. já que se aponta falta de estudos e de consideração das necessidades dos passageiros.

Tudo acaba sendo imposto no Rio de Janeiro. E a qualidade de vida também não é respeitada, mesmo com medidas paliativas como a pequena Praia de Rocha Miranda no Parque de Madureira, feita para compensar a não ida de suburbanos para o litoral carioca, ou a "programação rock" da Rádio Cidade, que o mercado impôs como canal de suposta expressão da rebeldia juvenil no Grande Rio.

A Praia de Rocha Miranda, na verdade, é uma pequena piscina cercada de areia e, ao lado dela, três chuveirões denominados "cachoeiras artificiais". É um pequeno espaço, pouco para a demanda potencial do lugar, que envolve não só a grande região de Madureira - que vai de Cascadura a Deodoro, de Vila Valqueire a Rocha Miranda - , mas também as do Méier, Jacarepaguá e Bangu.

A Rádio Cidade, na prática, é uma "rádio pop que toca rock". Sem histórico nem competência para tal - produtores e locutores não são especializados em rock, até o estilo de locução remete mais às FMs pop convencionais e a seleção musical, só de hits, é previamente decidida pelas gravadoras - , a emissora, na verdade, se compromete em abordar uma imagem domesticada do jovem roqueiro.

Esses são apenas dois de muitos retrocessos que envolvem o Estado do Rio de Janeiro e, principalmente, sua capital. É um quadro tão chocante que o conservadorismo dos cariocas já começa a reagir de maneira teimosa e intransigente, rejeitando, nas mídias sociais, amigos e seguidores que expressam algum questionamento e fazem alertas.

Reclamações existem até dentro do público de rock, mesmo o autêntico, para o qual as críticas à Rádio Cidade soam "incômodas" mesmo entre os que não compartilham de sua mentalidade comercial, iludidos com a chance de, como coadjuvantes de um mercado dominado por uma FM incompetente, possam ter os "seus espaços" e seu "mercado próprio".

O conservadorismo carioca - e, por conseguinte, fluminense - , expresso na humilhação dos troleiros na Internet ou na intransigência dos que querem "felicidade acima de tudo", é um dado crônico que faz com que muitos questionadores percam amigos, espaços de divulgação, oportunidades de emprego etc só porque se recusam a serem "felizes, apesar de tudo".

Só que essa "felicidade" esconde um mau humor de seus detentores, porque quando se é "feliz" à força, é porque há neuroses a serem acobertadas, escondidas. São problemas que se acumulam no cotidiano do Rio de Janeiro e são muito mais graves para os níveis aceitáveis de uma cidade tida como "moderna".

O Rio de Janeiro, com seu quadro extremamente chocante, chega a ser comparado aos EUA, como um cruzamento entre o Estado da Califórnia, glamouroso e litorâneo, com o ultraconservadorismo dos sulistas Texas, Tennessee e Alabama.

Semanalmente ocorrem várias tragédias. Acidentes com ônibus "padronizados", sejam convencionais, executivos ou BRTs, tiroteios em várias áreas e sobretudo na Linha Vermelha, assaltos e assassinatos à luz do dia, linchamento em Ipanema, incêndios em apartamentos com coleções de quadros, congestionamentos descomunais do tráfego, a violência digital dos internautas cariocas.

São muitos casos que se amontoam nos noticiários e vão além dos limites aceitáveis mesmo para uma zona urbana complexa e cheia de problemas. E ainda existe o assédio verbal que obriga os cidadãos que vivem no Grande Rio a torcerem por algum dos quatro times cariocas (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo), ou, na pior das hipóteses, sempre gostar de futebol, sob pena de sofrer discriminações sociais de toda forma, até mesmo demissão no emprego.

De divulgação de cartazes de grupos fascistas em Niterói até a eleição de truculentos deputados como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, passando por ciclistas mortos a facadas, crianças pobres mortas por balas perdidas e mendigos incendiados, o Estado do Rio de Janeiro parece decair de forma ainda mais humilhante que a já desastrosa decadência da Grande São Paulo do malufismo-tucanato que permitiu que até o PCC mostrasse seu poder paralelo mesmo dentro das celas de prisão.

E se a decadência do Estado do Rio de Janeiro é extremamente chocante para o país, mais chocante é o ultraconservadorismo da parcela influente, ainda que não majoritária, de cariocas e fluminenses, incomodados com a perda de reputação do Estado e de sua capital, e que reagem a essa decadência boicotando qualquer apreço ou ajuda aos próprios amigos e simpatizantes.

Ou seja, com tudo isso que acontece, internautas cariocas e fluminenses só aceitam os amigos que publicam coisas "positivas" e "engraçadas", torcem por um dos quatro times cariocas, e se preocupam em ler livros de vlogueiros "lokos" ou de obras de ficção em torno do Minecraft, que agora tornou-se a moda no mercado literário, que parece aos poucos descartar os "livros para colorir".

Os problemas se acumulam e a tragédia aumenta, e se pergunta se é preciso que um atentado como o que ocorreu em Paris, no último dia 13, aconteça em algum recanto nobre do Rio de Janeiro, para que se chame atenção para sua decadência.

Enquanto isso não acontecer, a ordem é "ser feliz" mesmo quando, numa baldeação dos trajetos Zona Norte-Centro e Centro-Zona Sul, se perca mais tempo em engarrafamentos, ou encare uma chuva de balas de fuzil voando pela Linha Vermelha.

Mesmo que seja sob o preço do preconceito social, rindo de sogras escorregando da borda da piscina em vídeos "hilários", tem que ser "feliz" no Rio de Janeiro, e ainda por cima vibrar com a vitória de um dos quatro times de futebol.

Ou então aceitar a canastrice da Rádio Cidade, pela esperança de ver o mercado roqueiro "aquecido" e um medalhão do rock se apresentando no Rio todo ano, ou criar um oceano imaginário dentro do laguinho da Praia da Rocha Miranda. Só falta achar que a Mulher Melão é discípula carioca da Audrey Hepburn, mas ainda não se chegou a esse ponto.

Não sendo assim, as pessoas mais influentes, irritadas com suas neuroses ocultas, reagem intolerantes, agressivas e conservadoras, não dando atenção, não ajudando nem prestando afeto, boicotando a gente incômoda que tira a "boa sociedade" do Rio de Janeiro das viagens profundas da ilusão.

Há quem se irrite porque o outro lhe mostra apenas a realidade. E é isso que faz o Rio descer cachoeira abaixo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Tragédia em Paris: mais "resgate coletivo"?


O que o "movimento espírita" vai dizer sobre os atentados em Paris, ocorridos na noite do último dia 13? Que foi o reflexo da decadência do "velho mundo"? Que foi um ato de intolerância religiosa que também apronta das suas contra os "misericordiosos espíritas"? Que foi um castigo sofrido pelas vítimas que morreram cumprindo "reajustes espirituais"?

O moralismo de uma doutrina que, com toda a bajulação em torno de Allan Kardec, praticamente boicota seu pensamento e só utiliza suas palavras (ou de Erasto, ou do Controle Universal do Ensino dos Espíritos) de maneira tendenciosa, é capaz de fazer julgamentos infundados, preocupado em fazer sua doutrina prevalecer no planeta, como um novo Império Bizantino.

Quanto as vítimas, será que elas serão mais um grupo de "culpados" pelo juízo de valor "espírita", que mesmo na sua ignorância completa sobre Ciência Espírita - quase não há a tão alegada e festejada mediunidade, 99% do que se atribui a essa prática é fraude, é "mentiunidade" - , tenta até fazer apostas sobre quem foi encarnação de quem?

Com a lista inicial de 129 mortos - até o fechamento do presente texto - , a tragédia foi uma das piores dos últimos tempos, e se tratam de pessoas de diversas procedências, algumas passeando nas ruas, outras que se alimentavam ou se divertiam no restaurante Le Carillon e na boate Le Bataclan (originalmente um teatro inaugurado em 1864), que era reduto de intelectuais parisienses.

É evidente que o episódio não simboliza o declínio do "velho mundo", mas a ascensão de um fundamentalismo religioso com práticas terroristas que pretende retroceder a humanidade aos padrões das crenças de seus militantes.

No entanto, a interpretação simplória dos "espíritas", que reduz a situação a um maniqueísmo entre o desamor de uns "pobres coitados" (os terroristas) e o sofrimento dos "deserdados da sorte" (os mortos e feridos), atribui às vítimas o cumprimento de um "pagamento" comum de pecados passados.

Quem é que teria coragem de dizer que os mortos pelos ataques teriam sido gauleses sanguinários, que colocavam hereges nos estádios para serem devorados por leões, ou jogavam eles nas praças para serem queimados pelo fogo, e por isso teriam sido castigados pela tragédia contemporânea?

Recentemente, um periódico "espírita" do Rio de Janeiro comparou os imigrantes que fugiam de áreas como a Síria - dominada pelo Estado Islâmico - em direção à Europa a supostos tiranos que voltavam aos territórios onde viviam durante o Império Romano. Atribuir negros em busca de exílio a antigos tiranos soou ofensivo e sugeriu uma visão racista por parte dos "espíritas".

Sem considerar individualidades, os "espíritas" acreditam que as pessoas podem sofrer tragédias em bloco. Como se seres humanos fossem coisas, o "espiritismo" brasileiro acredita que se pode cumprir punições por atacado, multidões pagando, a pretexto de um "resgate coletivo", por um suposto pecado comum, como um gado bovino recolhido para o abatedouro.

Além do mais, a preocupação sobre esse julgamento de valor leva em conta Paris, a capital da França, o berço do Espiritismo autêntico, a cidade que foi o campo de ação do lionês Allan Kardec. Vão julgar os franceses como se eles tivessem sido gauleses sanguinários, jacobinos violentos, bonapartistas belicosos, chauvinistas autoritários etc etc etc.

Faltam estudos sérios sobre mediunidade e vida espiritual e os "espíritas" brasileiros vivem brincando. Enquanto ilustres líderes fazem apostas sobre quem eles teriam sido - vaidades pessoais atribuem uma coleção de cientistas, artistas e religiosos como "encarnações passadas" - , eles supõem que diferentes pessoas de diferentes origens teriam sido romanos medievais com sede de sangue.

Isso desvia os debates em torno de políticas estratégicas de combate ao terrorismo, Desvia a questão pela complexidade política que contrapõe o Oriente Médio ao Ocidente. E isso acaba também prejudicando os próprios "espíritas" que, pelos seus juízos de valor e pela presunção de quem foi quem em outras vidas, acaba causando ofensas pessoais sérias.

Francisco Cândido Xavier, o "adorável" Chico Xavier de seus seguidores, foi julgar as pobres vítimas do incêndio em um circo em Niterói, supondo que todos teriam sido gauleses sanguinários, e só saiu impune porque era um grande protegido da Federação "Espírita" Brasileira e pelos grandes donos da imprensa e das emissoras de televisão.

Woyne Figner Sacchetin, no entanto, chegou a ser processado quando fez o mesmo com as vítimas do acidente da TAM, em São Paulo, no ano de 2007, o que fez uma parente de três vítimas processar o "médium" e médico por danos morais. Já dá para perceber que se não fosse a baixa instrução sócio-educativa e a falta de dinheiro para pagar advogados, os familiares das vítimas do circo teriam também processado Chico Xavier.

Daí a grande diferença de hoje, em que se discute mais as coisas na Internet. É claro que se vive uma ampla resistência ao pensamento crítico, com pessoas preferindo brincar no WhatsApp, ler livros e ver vídeos "divertidos" e "positivos" (embora não dê para entender por que muitos acham "positivo" idosas gordas escorregarem na borda de uma piscina).

A dúbia tendência do "espiritismo" de hoje, cujo roustanguismo enrustido tenta caprichar na bajulação em torno de Allan Kardec, não conseguirá responder de forma transparente o problema dos atentados em Paris. Eles envolvem uma complexidade de relações sociais, políticas e religiosas e, em certo sentido, a religião aparece como um dos vilões do episódio. Analisar tudo isso não é fácil.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sonho de Chico Xavier com Humberto de Campos pode ter sido uma lorota


O tão famoso sonho de Francisco Cândido Xavier citando a aparição do espírito de Humberto de Campos, ocorrido e relatado pelo anti-médium em 1935, um ano após o falecimento do notável escritor, pode ter sido um grande blefe.

Consta-se que Chico Xavier, três anos após receber as críticas do ainda vivo Humberto de Campos para o livro Parnaso de Além-Túmulo, de 1932, em que o antigo imortal da Academia Brasileira de Letras sugeria um texto irônico sob a suposta mediunidade do livro, teria sonhado com o autor, como descreve Marcel Souto Maior, no livro As Vidas de Chico Xavier:

No dia 5 de dezembro de 1934, Humberto de Campos morreu. Três meses depois, Chico teve um sonho. As cenas eram nítidas demas. Ele deparou com um grupo de desconhecidos, embaixo de uma árvore enorme e transparente como cristal, sob um céu muito azul e brilhante. Não havia casas em volta. Um dos estranhos se destacou da multidão, caminhou em sua direção, estendeu a mão e disse: "Você é o menino do Parnaso? Eu sou Humberto de Campos".

As lembranças terminaram aí, mas deixaram o rapaz cismado. Qual o sentido daquele sonho? Três meses depois, ele saberia. Textos assinados por Humberto de Campos cairiam do céu um após o outro. Em março de 1935, a mão de Chico escreveu no papel as primeiras linhas assinadas pelo ex-imortal. Sob o título "A palavra dos mortos", o escritor se apresentava como uma testemunha do "trabalho intenso das coletividades invisíveis pelo progresso humano" Nem parecia aquele acadêmico capaz de desafiar os poetas mortos a competir com os vivos de igual para igual, "reencarnados". Do outro lado, ele tratava de defender as mensagens dos espíritos como "um consolo aos tristes e uma esperança aos desafortunados".

Que sonhos absurdos e surreais podem acontecer, isso é verdade. Mas é improvável que o Humberto de Campos tenha aparecido num sonho para saudar Chico Xavier e, meses depois, "iniciava" a suposta parceria. Mesmo que Chico tenha sonhado com o autor maranhense, dificilmente seria dessa forma tão solene.

Além disso, sonhos não necessariamente apresentam profecias ou predizem a realidade. A quase totalidade dos sonhos se limita a refletir apenas as tensões e anseios individuais. Não é tendência eles se tornarem proféticos e Chico Xavier era o que menos tinha condições de ser um profeta a partir de simples sonhos dormidos.

A verdade é que Chico Xavier não gostou das críticas de Humberto de Campos, publicadas no Diário Carioca de 1932. O cronista parecia irônico quando dizia que os poemas "espirituais" se assemelhavam aos que os autores produziam em vida e reclamava da concorrência dos "autores mortos" na literatura dos vivos.

Com toda a certeza, Humberto não percebeu, na época, o absurdo ainda mais grave que é a concorrência dos livros para colorir na literatura dedicada a textos, com obras inócuas de "busca ao tesouro antiestresse" que chegam a ocupar altas colocações nas listas dos mais vendidos, tirando o lugar de escritores emergentes com dificuldade para divulgar seus trabalhos.

Mas estamos ainda nos anos 1930 e Chico Xavier teria inventado a história do sonho, para assim ter alguma motivação para usar o nome de Humberto de Campos em parte de seus trabalhos. Se Parnaso do Além-Túmulo foi um pastiche bem sucedido, Chico foi aprontar mais coisas através da usurpação do nome do falecido escritor maranhense.

As obras não condiziam ao estilo original do autor. Da prosa laica, descontraída, fluente e precisa, culta mas coloquial, simples porém bem escrita, que era o estilo de Humberto em vida, a "obra espiritual" passou a mostrar um estilo totalmente diferente e divergente ao autor.

São textos carregados, pretensamente eruditos mas cheios de vícios de linguagem, com prosa melancólica, pedante, escrita muito pesada e de leitura cansativa, narrativa sem muita fluência e com sério apelo igrejista. Nem parecia que Humberto de Campos teria sido membro da Academia Brasileira de Letras, mas da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil!

A malandragem de Chico Xavier quase custou caro. Os herdeiros de Humberto de Campos moveram um processo contra o anti-médium e a Federação "Espírita" Brasileira, com o intuito de verificar se era psicografia ou não, para assim receber indenização por direitos autorais ou por fraude.

Por sorte, os juízes, no ano do processo, 1944, não entenderam bem a questão, apesar do advogado dos herdeiros, Milton Barbosa, ter identificado deslizes grotescos na obra "espiritual", que claramente derrubariam a tese de que foi o espírito de Humberto que se manifestou.

Daí que Chico Xavier, nas suas fraudes e seus pastiches literários, saiu impune. Aliás, ocorreu coisa pior: com o tempo, Humberto de Campos passou a ser "propriedade" de Chico Xavier, criando um vínculo falso, hipócrita, tendencioso e oportunista. As pessoas leem os livros sem perceber que os textos "espirituais" de maneira nenhuma seriam escritos por Humberto.

O autor maranhense teria ficado horrorizado. Ver seu nome sendo tomado de forma fútil e leviana por Chico Xavier é assustador, e tão assustador é o fato de que Chico virou "dono" de Humberto de Campos. O que uma fraude pode fazer, quando o fraudador se veste sob a capa do caipira humilde e trabalha escrevendo mensagens de tendencioso apelo religioso.

Cabe o país urgentemente resolver essa situação, desqualificando tudo que Chico Xavier escreveu sob o nome de Humberto de Campos, como maneira de respeitarmos o legado e a memória do grande escritor maranhense, hoje esquecido e desprezado. Cabe fazermos justiça a esse brilhante intelectual do século XX e desenlaça-lo das amarras traiçoeiras desse "encosto" chamado Chico Xavier.

domingo, 15 de novembro de 2015

Os atentados em Paris e a questão do "velho mundo"


Na noite da sexta-feira 13, de novembro de 2015, uma série de atentados ocorreram nos arredores de Paris, seja dentro de uma boate, seja no entorno de um estádio onde se realizava uma partida de futebol com a Seleção Francesa. A tragédia teve um saldo de 129 mortos e causou comoção mundial. Ela aconteceu cerca de dez meses após o atentado que matou, entre várias pessoas, 12 membros da equipe do periódico Charlie Hebdo, espécie de equivalente ao brasileiro O Pasquim.

O grupo jihadista Estado Islâmico anunciou sua autoria nos atos terroristas. O grupo tornou-se uma das maiores facções do chamado fundamentalismo islâmico, e seu potencial terrorista é dos mais violentos. O grupo tem como objetivo combater os valores da civilização, na busca, tanto saudosista quando desesperada, de retroceder a humanidade aos níveis das escrituras consideradas "sagradas" pelos jihadistas.

O problema da civilização e dos atentados terroristas é bastante complexa. No entanto, os "espíritas" não podem ver como a decadênca do Hemisfério Norte, como sugerem as supostas profecias de Francisco Cândido Xavier do sonho de 1969, que supunha que o "velho mundo" iria ser destruído, primeiro por atentados terroristas, segundo por catástrofes naturais.

Quem acompanha este blogue sabe que os relatos de Chico Xavier trazidos por Geraldo Lemos Neto, aparentemente não conhecidos na voz do próprio anti-médium, soam por demais ridículos. Acredita-se que Chico tenha dito realmente o sonho para Geraldo, e os dados conferem com o que Emmanuel teria descrito em A Caminho da Luz, livro de 1938, que haveria uma "reunião" entre os ditos "maiores líderes do universo", espíritos dos quais o único encarnado seria Chico Xavier.

A tragédia francesa, similar às ocorrentes nos EUA, Reino Unido e Espanha e o caso Charlie Hebdo, é apenas um reflexo do fundamentalismo religioso que sonha em ver um mundo regresso aos padrões primitivos da religiosidade do Oriente Médio. Não que os terroristas não se servissem de tecnologias atuais ou de utensílios modernos, mas o que lhes pesa é a volta à essência do que eles acreditam através das crenças obtidas nos livros "sagrados".

Portanto, é equivocado levar em conta a interpretação chiquista de que a tragédia seria uma "punição" contra os arbítrios antigos do "velho mundo", um "castigo" contra o histórico complexo de superioridade das antigas elites da Europa e Ásia. Não se trata de uma "queda do velho mundo" em detrimento do caminho a ser aberto para a ascensão da nação brasileira, mas um outro cenário.

Primeiro, porque o "velho mundo" ainda pode resolver seus problemas e sua longa experiência de tragédias e traumas diversos trouxe experiência para as autoridades poderem negociar o combate a esses problemas de ampla gravidade. Segundo, porque o Brasil é que está sofrendo uma séria crise, além da profunda decadência do Sul e Sudeste desenvolvidos, sobretudo o Estado do Rio de Janeiro, cidade tão vulnerável a atentados quanto Paris, Nova York ou Londres.

As próprias "previsões" de Chico Xavier, cheias de erros graves quanto a aspectos relativos à Sociologia, Geologia e História, são notórios. Supor que, numa hipótese de catástrofes naturais a atingir regiões como Califórnia (EUA) e Japão, o Chile ser poupado, é um erro, porque o país sul-americano seria também destruído na ocasião, até por completo, por fazer parte do Círculo de Fogo do Pacífico.

Por outro lado, supor que estadunidenses fossem migrar para a Região Norte, e não para o Sul e Sudeste que é sua tendência sociológica, também é equivocado. Da mesma forma que a ida dos eslavos para o Nordeste brasileiro, uma região considerada calorenta demais para esses povos.

Só esses aspectos desqualificam a "previsão" que comove tantos fanáticos por Chico Xavier, que rendeu livro e documentário, material demais que foi gasto para uma bobagem dessas. E não é a tragédia de Paris, como não foi a de Nova York em 2001, que simbolizará o declínio do "velho mundo", que poderá dar uma volta por cima mesmo em incidentes trágicos como este.

O que se observa é que o "velho mundo" não cabe no maniqueísmo fácil de Chico Xavier, que contrapõe "tiranos europeus e asiáticos" com a "alegre e fraterna nação brasileira". Europa e EUA vivem um conflito com o Oriente Médio, e não são necessariamente aliados em conflito, em que pese tiranos como Sadam Hussein e Osama Bin Laden terem surgido como colaboradores dos Estados Unidos.

A questão é muito mais complexa para que um suposto médium, em seu sonho comum de quem dorme, se ache na segurança de supor qualquer coisa de caráter geopolítico ou geológico. E se levarmos em conta que outra corrente chiquista, a de Ariston Teles, não legitima as "profecias" da "data-limite", a situação fica mais complexa.

Pior para os "espíritas" comentarem qualquer coisa sobre o trágico atentado de Paris. Mais uma tese maluca de "resgates coletivos" de antigos romanos reencarnados? Mais uma demonstração simplória de "falta de amor no coração"? Queda do "velho mundo" a abrir espaço para a ascensão brasileira?

Não. Simplesmente não. Misturar ciência política malfeita com pregações de moralismo religioso não dá certo. Daí a gafe que um periódico "espírita" fez quando acusou os imigrantes que fogem do Oriente Médio e outros países em guerra, em maioria negros e árabes, de terem sido "tiranos sanguinários" da antiga Europa.

Pegou mal o julgamento de valor de uma doutrina que pede para os outros não julgarem. A "data-limite" deixa muita gente na paciência-limite de aturar julgamentos precipitados e cruéis contra seus entes queridos.
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