FOTOGRAFIA IRÔNICA MOSTRA O EX-MÉDICO E FEMINICIDA FARAH JORGE FARAH SAINDO DE UM CONDOMÍNIO. A IMAGEM DIANTE DAS GRADES DA PORTA DE ENTRADA PODE SER CONFUNDIDA COM GRADES DE PRISÃO.
O suicídio de Farah Jorge Farah, ex-médico que em 2003 esquartejou uma amante, em São Paulo, depois de ter recebido sentença de prisão em regime fechado, revela a fragilidade de homens que matam mulheres, sejam elas suas companheiras, amantes ou apenas amigas e colegas de trabalho, por conta de algum ciúme doentio.
Numa sociedade bastante conservadora como a brasileira, casos de feminicídios vêm crescendo de maneira assustadora, atingindo sobretudo regiões como João Pessoa, Vitória, Goiânia, São Paulo (e as cidades do interior de seu Estado).
Contraditoriamente, a grande mídia denuncia mas "protege" os feminicidas, eventualmente definidos como "pessoas simpáticas" como se ainda pudessem ser os "bons partidos que os pais desejariam para suas filhas". É ilustrativo, por exemplo, o caso de Antônio Pimenta Neves, cujo crime de homicídio contra sua ex-namorada Sandra Gomide, em 2000, nunca foi publicado nas retrancas "policiais", mas nas retrancas de "Brasil" ou "país", relacionada aos fatos políticos de âmbito nacional.
Outro caso surreal é a reportagem sobre o crime que matou a socialite Ângela Diniz, por uma combinação de ciúme doentio e aparente homofobia (Ângela teria tido um caso com outra mulher) do empresário e "playboy" Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, no final de 1976.
As coberturas do caso na imprensa, nos últimos anos, não noticiam o paradeiro do empresário, com o passado de intenso tabagismo e consumo de cocaína que fazia preocupar os amigos já em 1977 e que faziam crer que Doca não iria chegar aos 60 anos de idade. Ele, aliás, fumou os mesmos cigarros que mataram um who is who de celebridades brasileiras e estrangeiras que tiveram evidência nos anos 1970.
Oficialmente, o paradeiro de Doca é o mesmo de 2006. Não há uma menção oficial de que ele estaria fazendo tratamento com câncer, o que, por razões lógicas, deveria ser uma doença que o acompanhasse há, pelo menos, 30 anos. Nada se comenta a respeito, mas não ocorreu a habitual "nova entrevista" com ele, que de dez em dez anos em relação à época de seu crime era entrevistado para "explicar" os motivos do assassinato. Machista ainda tem vez até para falar a sua "verdade".
Mas os anos passam e em 2006 até figuras como Paul Walker e Heath Ledger e, no Brasil, o ator José Wilker - que, provavelmente, morreu por consumir um terço do que Doca teria consumido em cigarros - também estavam vivos e em evidência. No primeiro semestre de 2006, Bussunda também estava vivo e saudável na estreia de mais uma temporada de Casseta & Planeta Urgente.
Doca parece ser a celebridade brasileira que muitos moralistas têm medo de associar a alguma sina trágica. Algo como Charles Manson nos EUA. No começo deste ano, o líder da macabra seita "hippie" que matou, entre outros, a atriz Sharon Tate em 1969, sofreu um gravíssimo problema de saúde, tendo sido noticiado como "extremamente frágil", aos 82 anos de idade. Depois dessa notícia, nada se disse a respeito.
Num contexto amalucado da grande mídia, em que páginas de fake news se multiplicam como "satélites" da grande imprensa reacionária - ela, apesar de seu suporte "empresarial" e sua conduta "profissional", está cada vez mais voltada para factoides, mentiras e juízos de valor - , Street e Manson perigam se tornar sujeitos do que a Semiótica poderia muito bem definir como "não-mortes" ou "não-tragédias".
Não é ofensivo dizer que homicidas de algum status e projeção social significativos possam morrer um dia. Como também não é ofensivo dizer que eles podem adoecer gravemente um dia, ou morrer prematuramente, se for o caso. Ainda mais se eles é que criam, em seus organismos, condições para contrair doenças, sofrer acidentes trágicos etc.
A sociedade conservadora é que tenta defini-los como "fortes", acreditando que um ato de tirar a vida de outro é apenas um "desabafo", com alguma "motivação", e depois o criminoso fica calminho e se torna um "cara legal". No caso dos feminicidas, há setores da sociedade que os defendem sob a desculpa da "defesa da honra masculina" ou da punição a quem "trai os valores da Família e do Amor (sic)".
Esse conservadorismo permitiu até que um comercial sobre uma marca de televisão, transmitido nos intervalos do Jornal Nacional, fizesse apologia ao feminicídio. Um menino, na saída de um cinema, gritava: "A mocinha morre no final. E quem matou foi o marido!". Denúncias obrigaram a marca a cancelar o comercial, em 1994, muito antes da palavra "feminicídio" ser adotada pelo movimento feminista.
Os feminicidas ricos agem tomados por um acúmulo de tensões psicológicas que os fazem explodir de ódio, tremer de medo e cometer imprudências aqui e ali. Como cometem homicídios sabendo do erro que isso significa e dos danos que podem causar, sofrem as consequências mais pesadas, e procuram viver "socialmente sedados", evitando qualquer incômodo, tentando (em vão) viver mais sossegados que os familiares das vítimas, traumatizados com tão violentas perdas.
Em muitos casos, há o envelhecimento físico evidente. No julgamento de 1981 que o livrou da cadeia, Doca Street já estava visivelmente envelhecido para seus 47 anos, parecendo 20 anos mais velho até para os padrões da idade na época, quando não se imaginava que homens desta idade tivessem a aparência de "garotões" de hoje em dia.
Recentemente, foram divulgadas imagens recentes com o juiz paulista afastado Marco Antônio Tavares, condenado por ter assassinado a esposa em 1997 e que recebe uma remuneração de R$ 27,5 mil, mesmo depois de deixar o cargo. Ele estava visivelmente envelhecido para seus 62 anos de idade. Até o cantor Kid Vinil, falecido na mesma idade, parecia mais jovial.
Há muitos casos dando indícios de fragilidade dos feminicidas, conjugais ou não. Enquanto estava foragido antes de ser incluído nas listas da Interpol, o promotor Igor Ferreira, que mandou matar a esposa Patrícia Longo, em 1998, apresentava, segundo testemunhas, sinais de abatimento físico e magreza extrema. Ao deixar a cadeia em 2016, o pai do promotor disse que o filho "estava bem", soando como aqueles eufemismos que sugerem que "alguém está doente e precisa de repouso".
Os feminicidas conjugais não têm um levantamento oficial para definir o nível e a frequência das tragédias que eles sofrem. Infere-se que os feminicidas têm apenas 80% de expectativas de vida dos brasileiros comuns, e que as tragédias associadas a feminicidas são, além do suicídio, o infarto, o câncer e os acidentes de trânsito. Em certos casos, eles também podem ser assassinados por outros.
O que se pode concluir é que a atitude de certos homens de tirar as vidas de suas mulheres encontram raízes nos valores conservadores e nas desigualdades sociais. Casais errados se formam pelas conveniências sociais, e valores machistas ainda prevalecem até no imaginário de mulheres com algum senso de feminismo. O machismo procura se impor pela violência, mas não consegue esconder também o seu lado trágico e frágil. O caso Farah Jorge Farah é um precedente disso.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
O que é mesmo a Escola Sem Partido "espírita"?
PASSANDO A BORRACHA NO QUESTIONAMENTO DO ALUNO.
Sabemos que as forças conservadoras defendem um modelo de pedagogia chamado Escola Sem Partido, um projeto educativo no qual só se ensinam coisas "básicas" como leitura, escrita e algum ofício ou profissão, sem que se estimule o debate da realidade e as transformações da sociedade brasileira.
O projeto é desenvolvido a partir de propostas trazidas, em separado, pelo político Magno Malta e pelo advogado Miguel Najib. Seu embrião foi uma proposta legislativa de 1996, mas o projeto em si é de 2004 e tornou-se público depois que o ator Alexandre Frota o apresentou para o ministro da Educação do governo Michel Temer, José Mendonça Filho.
A Escola Sem Partido é uma causa defendida por evangélicos, e seu caráter conservador pelo menos permitiu que se conhecesse o sentido da educação que poucos conheciam, que era o ensino indo além de meros processos de aprender a ler, escrever e trabalhar. Mas o projeto é também sutilmente apoiado pelos "espíritas", rendendo um trocadilho com a sigla do projeto com as três primeiras letras de "espiritismo".
Nas redes sociais, um seguidor do "médium" Divaldo Franco que se infiltrou numa comunidade de ateus (?!), talvez para fazer proselitismo, tentou defender o ídolo "espírita" dizendo que "já é bom demais" a Mansão do Caminho ter um projeto educacional que apenas ensine a ler, escrever e trabalhar.
Fanático, o rapaz queria defender o prestígio do seu ídolo, tentando rebater questionamentos mais lógicos, coisa muito comum em ambientes como o Facebook e o WhatsApp, onde pessoas conservadoras ou reacionárias, mesmo não estando com a razão, fazem a chamada "ginástica intelectual", tentando rebater o máximo possível qualquer questionamento, arrumando desculpas para qualquer coisa.
Analisando a realidade, observa-se que o "espiritismo" brasileiro reduziu-se a meros artifícios linguísticos, ideológicos e pragmáticos. Além de todo um embelezamento de palavras nas palestras nos "centros espíritas" e nas publicações do gênero, observa-se recursos como o falacioso "bombardeio de amor", o demagógico Assistencialismo e a asséptica Escola Sem Partido.
Paciência. A sociedade brasileira revelou-se bastante conservadora. Até o conceito de bondade que muitos acreditam é inspirado em novelas que trazem lições moralistas bastante conservadoras, por mais que apresentem conteúdo "subversivo" ou "escandaloso". Mas a ideia de bondade vem também de contos de fadas narrados de maneira bem conservadora nas infâncias de muitos brasileiros.
E o que é a Escola Sem Partido "espírita"? Sabe-se que o discurso da Escola Sem Partido é bem sutil, como é também da Teologia do Sofrimento, outra causa defendida pelos "espíritas". Dissimula-se tudo, num país em que até estupradores, se forem de boa aparência e boa classe social, escapam da cadeia alegando que as vítimas gritaram com eles na ocasião do assédio. Quantas armadilhas podem apresentar um discurso cheio de palavras aparentemente bem intencionadas e agradáveis?
A Escola Sem Partido, no conjunto da obra, não transformará a Educação como um todo numa sucursal da Escola Superior de Guerra. Não, o Exército que agora exerce função de polícia nas ruas do Grande Rio não será designado para "botar ordem" no ensino público. O que ocorrerá é a retomada dos velhos padrões hierárquicos de ensino, cancelando a mudança de relações entre professores e alunos que se desenvolvia a partir dos anos 1960, antes do golpe militar.
Nesse velho padrão pedagógico, o professor é considerado um possuidor do saber. O saber não é algo socialmente compartilhado, de maneira horizontal - igualmente entre pessoas - , mas transmitido de forma vertical - de cima para baixo, com o saber sendo de "propriedade" do professor - , o que significa distinção hierárquica, um velho padrão social que o Método Paulo Freire buscava superar.
Não há, portanto, o estímulo aos debates sociais. O aluno tem que se fazer crer que aquilo que o professor transmite está certo, que o docente está sempre com a razão e que as transformações sociais são absolutamente uma expressão de patologias sociais trazidas pela liberação dos instintos humanos.
COMO O "ESPIRITISMO" ADOTARIA A ESCOLA SEM PARTIDO?
A Escola Sem Partido pode, e já é, acolhida pelo "espiritismo" na sua essência. Claro que os "espíritas", dissimuladores, se fazem de "progressistas" e nunca irão assumir, na cara dura, que acolhem esse projeto de retomada conservadora na Educação. Mas, na prática, os "espíritas" demonstram estarem afinados com o ultraconservadorismo vigente desde 2016, vide o otimismo com que a doutrina aborda os sombrios tempos atuais.
Muito do conteúdo da Escola Sem Partido já era defendido em livros de Emmanuel lançados por Francisco Cândido Xavier. O próprio Chico Xavier é expressão de uma sociedade ultraconservadora, reacionária, beata e moralista, não cabendo sequer a menor cogitação de que o "médium" era uma figura "progressista" e "avançada", como muitos incautos chegaram a fazer, na sua boa-fé.
Emmanuel sempre condenava o questionamento, uma postura que, sabemos, era contra os postulados espíritas originais (Kardec defendia o debate e não temia ser ele mesmo questionado), mas eram de profunda e explícita concordância por parte de Chico Xavier, ele mesmo um inimigo do bom senso e do questionamento crítico e lógico, um anti-espírita por excelência.
O aspecto principal da Escola Sem Partido é evitar o debate sócio-político, mas permitir a manutenção de crenças religiosas, não obstante fantasiosas. O projeto tem como pretexto evitar conflitos e garantir a transmissão de "valores sociais positivos" e "respeito à hierarquia", mas tem como efeito danoso uma compreensão atrofiada da realidade, através de convicções e, frequentemente, crenças surreais, como o "mar se partindo" na época de Moisés.
No "espiritismo", o que está em jogo é manter as crenças igrejeiras, a hierarquia conservadora, a beatitude religiosa e o misticismo da fé. Como uma religião dissimuladora, há o discurso de que a doutrina brasileira "permite o debate público e a apreciação das transformações sociais", e em várias casas e atividades "espíritas" há arremedos de debates como forma de manter o aparato de racionalidade do "movimento espírita" brasileiro.
Mesmo assim, os "debates" são anódinos, mais parecendo os próprios "debates" permitidos pela própria Escola Sem Partido, dentro dos limites em que os alunos enunciam situações adversas para que o professor explique o "equívoco" das mesmas e fazer prevalecer o projeto pedagógico dominante.
Nota-se que os "espíritas" sempre costumam fugir de acusações de adotarem posturas ultraconservadoras. No caso da Teologia do Sofrimento, corrente católica medieval que faz apologia da desgraça humana como forma de "chegar mais rápido ao Céu", os "espíritas" defendem suas ideias, mas reagem com "muita tristeza" quando alguém os declara adeptos desta corrente do Catolicismo.
Mas os próprios partidários católicos da Teologia do Sofrimento também usam as mesmas desculpas dos "espíritas": "não defendemos o sofrimento das pessoas, mas o lado positivo do sofrimento humano". As alegações neste sentido são as mesmas e o malabarismo das palavras tenta relativizar o que era declarado taxativo e firme na véspera.
Na Escola Sem Partido, é a mesma coisa. Os "espíritas", mais uma vez, se sentem "horrorizados" com "tão infeliz associação", mas os próprios partidários evangélicos da Escola Sem Partido também negam que "estejam desestimulando o debate entre alunos", apenas defendendo que "não haja doutrinação ideológica por parte de grupos de esquerda, comprometidos com a guerrilha (sic) e com a militância político-partidária".
Em muitos casos, nem as alegações que os "espíritas" fazem para desmentir suas posturas conservadoras, abertamente praticadas mas nunca assumidas no discurso, são originais. Se os palestrantes "espíritas", com sua natural choradeira, desmentem que estejam aderindo à Teologia do Sofrimento ou à Escola Sem Partido, as explicações usadas são exatamente as mesmas que os partidários das duas causas defendem para estabelecer sua validade social.
Mas a prática mostra que o "espiritismo", que se reduziu a uma religião igrejista que recupera não os postulados kardecianos originais, mas os velhos e obsoletos paradigmas do Catolicismo jesuíta que prevaleceu no Brasil colonial, tem profunda simpatia com a Escola Sem Partido.
Seja defendendo o sofrimento ou "pregando a esperança", os "espíritas" estão solidários com a retomada conservadora atual. Defendem as reformas conservadoras de Michel Temer, definiram os "coxinhas" com roupas da CBF como "intuídos por espíritos superiores" (vá entender que um sujeito como Kim Kataguiri foi intuído por benfeitores espirituais) e acham que o Brasil entrou em "período de regeneração".
Só falta os "espíritas" definirem algum dos dois filhos homens de Jair Bolsonaro como "reencarnação de Emmanuel" para a farra ficar completa.
Sabemos que as forças conservadoras defendem um modelo de pedagogia chamado Escola Sem Partido, um projeto educativo no qual só se ensinam coisas "básicas" como leitura, escrita e algum ofício ou profissão, sem que se estimule o debate da realidade e as transformações da sociedade brasileira.
O projeto é desenvolvido a partir de propostas trazidas, em separado, pelo político Magno Malta e pelo advogado Miguel Najib. Seu embrião foi uma proposta legislativa de 1996, mas o projeto em si é de 2004 e tornou-se público depois que o ator Alexandre Frota o apresentou para o ministro da Educação do governo Michel Temer, José Mendonça Filho.
A Escola Sem Partido é uma causa defendida por evangélicos, e seu caráter conservador pelo menos permitiu que se conhecesse o sentido da educação que poucos conheciam, que era o ensino indo além de meros processos de aprender a ler, escrever e trabalhar. Mas o projeto é também sutilmente apoiado pelos "espíritas", rendendo um trocadilho com a sigla do projeto com as três primeiras letras de "espiritismo".
Nas redes sociais, um seguidor do "médium" Divaldo Franco que se infiltrou numa comunidade de ateus (?!), talvez para fazer proselitismo, tentou defender o ídolo "espírita" dizendo que "já é bom demais" a Mansão do Caminho ter um projeto educacional que apenas ensine a ler, escrever e trabalhar.
Fanático, o rapaz queria defender o prestígio do seu ídolo, tentando rebater questionamentos mais lógicos, coisa muito comum em ambientes como o Facebook e o WhatsApp, onde pessoas conservadoras ou reacionárias, mesmo não estando com a razão, fazem a chamada "ginástica intelectual", tentando rebater o máximo possível qualquer questionamento, arrumando desculpas para qualquer coisa.
Analisando a realidade, observa-se que o "espiritismo" brasileiro reduziu-se a meros artifícios linguísticos, ideológicos e pragmáticos. Além de todo um embelezamento de palavras nas palestras nos "centros espíritas" e nas publicações do gênero, observa-se recursos como o falacioso "bombardeio de amor", o demagógico Assistencialismo e a asséptica Escola Sem Partido.
Paciência. A sociedade brasileira revelou-se bastante conservadora. Até o conceito de bondade que muitos acreditam é inspirado em novelas que trazem lições moralistas bastante conservadoras, por mais que apresentem conteúdo "subversivo" ou "escandaloso". Mas a ideia de bondade vem também de contos de fadas narrados de maneira bem conservadora nas infâncias de muitos brasileiros.
E o que é a Escola Sem Partido "espírita"? Sabe-se que o discurso da Escola Sem Partido é bem sutil, como é também da Teologia do Sofrimento, outra causa defendida pelos "espíritas". Dissimula-se tudo, num país em que até estupradores, se forem de boa aparência e boa classe social, escapam da cadeia alegando que as vítimas gritaram com eles na ocasião do assédio. Quantas armadilhas podem apresentar um discurso cheio de palavras aparentemente bem intencionadas e agradáveis?
A Escola Sem Partido, no conjunto da obra, não transformará a Educação como um todo numa sucursal da Escola Superior de Guerra. Não, o Exército que agora exerce função de polícia nas ruas do Grande Rio não será designado para "botar ordem" no ensino público. O que ocorrerá é a retomada dos velhos padrões hierárquicos de ensino, cancelando a mudança de relações entre professores e alunos que se desenvolvia a partir dos anos 1960, antes do golpe militar.
Nesse velho padrão pedagógico, o professor é considerado um possuidor do saber. O saber não é algo socialmente compartilhado, de maneira horizontal - igualmente entre pessoas - , mas transmitido de forma vertical - de cima para baixo, com o saber sendo de "propriedade" do professor - , o que significa distinção hierárquica, um velho padrão social que o Método Paulo Freire buscava superar.
Não há, portanto, o estímulo aos debates sociais. O aluno tem que se fazer crer que aquilo que o professor transmite está certo, que o docente está sempre com a razão e que as transformações sociais são absolutamente uma expressão de patologias sociais trazidas pela liberação dos instintos humanos.
COMO O "ESPIRITISMO" ADOTARIA A ESCOLA SEM PARTIDO?
A Escola Sem Partido pode, e já é, acolhida pelo "espiritismo" na sua essência. Claro que os "espíritas", dissimuladores, se fazem de "progressistas" e nunca irão assumir, na cara dura, que acolhem esse projeto de retomada conservadora na Educação. Mas, na prática, os "espíritas" demonstram estarem afinados com o ultraconservadorismo vigente desde 2016, vide o otimismo com que a doutrina aborda os sombrios tempos atuais.
Muito do conteúdo da Escola Sem Partido já era defendido em livros de Emmanuel lançados por Francisco Cândido Xavier. O próprio Chico Xavier é expressão de uma sociedade ultraconservadora, reacionária, beata e moralista, não cabendo sequer a menor cogitação de que o "médium" era uma figura "progressista" e "avançada", como muitos incautos chegaram a fazer, na sua boa-fé.
Emmanuel sempre condenava o questionamento, uma postura que, sabemos, era contra os postulados espíritas originais (Kardec defendia o debate e não temia ser ele mesmo questionado), mas eram de profunda e explícita concordância por parte de Chico Xavier, ele mesmo um inimigo do bom senso e do questionamento crítico e lógico, um anti-espírita por excelência.
O aspecto principal da Escola Sem Partido é evitar o debate sócio-político, mas permitir a manutenção de crenças religiosas, não obstante fantasiosas. O projeto tem como pretexto evitar conflitos e garantir a transmissão de "valores sociais positivos" e "respeito à hierarquia", mas tem como efeito danoso uma compreensão atrofiada da realidade, através de convicções e, frequentemente, crenças surreais, como o "mar se partindo" na época de Moisés.
No "espiritismo", o que está em jogo é manter as crenças igrejeiras, a hierarquia conservadora, a beatitude religiosa e o misticismo da fé. Como uma religião dissimuladora, há o discurso de que a doutrina brasileira "permite o debate público e a apreciação das transformações sociais", e em várias casas e atividades "espíritas" há arremedos de debates como forma de manter o aparato de racionalidade do "movimento espírita" brasileiro.
Mesmo assim, os "debates" são anódinos, mais parecendo os próprios "debates" permitidos pela própria Escola Sem Partido, dentro dos limites em que os alunos enunciam situações adversas para que o professor explique o "equívoco" das mesmas e fazer prevalecer o projeto pedagógico dominante.
Nota-se que os "espíritas" sempre costumam fugir de acusações de adotarem posturas ultraconservadoras. No caso da Teologia do Sofrimento, corrente católica medieval que faz apologia da desgraça humana como forma de "chegar mais rápido ao Céu", os "espíritas" defendem suas ideias, mas reagem com "muita tristeza" quando alguém os declara adeptos desta corrente do Catolicismo.
Mas os próprios partidários católicos da Teologia do Sofrimento também usam as mesmas desculpas dos "espíritas": "não defendemos o sofrimento das pessoas, mas o lado positivo do sofrimento humano". As alegações neste sentido são as mesmas e o malabarismo das palavras tenta relativizar o que era declarado taxativo e firme na véspera.
Na Escola Sem Partido, é a mesma coisa. Os "espíritas", mais uma vez, se sentem "horrorizados" com "tão infeliz associação", mas os próprios partidários evangélicos da Escola Sem Partido também negam que "estejam desestimulando o debate entre alunos", apenas defendendo que "não haja doutrinação ideológica por parte de grupos de esquerda, comprometidos com a guerrilha (sic) e com a militância político-partidária".
Em muitos casos, nem as alegações que os "espíritas" fazem para desmentir suas posturas conservadoras, abertamente praticadas mas nunca assumidas no discurso, são originais. Se os palestrantes "espíritas", com sua natural choradeira, desmentem que estejam aderindo à Teologia do Sofrimento ou à Escola Sem Partido, as explicações usadas são exatamente as mesmas que os partidários das duas causas defendem para estabelecer sua validade social.
Mas a prática mostra que o "espiritismo", que se reduziu a uma religião igrejista que recupera não os postulados kardecianos originais, mas os velhos e obsoletos paradigmas do Catolicismo jesuíta que prevaleceu no Brasil colonial, tem profunda simpatia com a Escola Sem Partido.
Seja defendendo o sofrimento ou "pregando a esperança", os "espíritas" estão solidários com a retomada conservadora atual. Defendem as reformas conservadoras de Michel Temer, definiram os "coxinhas" com roupas da CBF como "intuídos por espíritos superiores" (vá entender que um sujeito como Kim Kataguiri foi intuído por benfeitores espirituais) e acham que o Brasil entrou em "período de regeneração".
Só falta os "espíritas" definirem algum dos dois filhos homens de Jair Bolsonaro como "reencarnação de Emmanuel" para a farra ficar completa.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Dissimulação: um dos maiores pecados dos "espíritas" brasileiros
Um dos maiores males cometidos pelos "espíritas" em toda sua trajetória, e que contribui para a crise irremediável de sua doutrina - que, mesmo calcada no Catolicismo medieval, busca, em certos momentos, aproximações estratégicas com os neopentecostais, sobretudo no que se refere à Escola Sem Partido - , é a dissimulação.
Desde a "fase dúbia" (oficialmente denominada "kardecismo") adotada nos últimos anos, em que a promessa de recuperar as bases espíritas originais foi apenas "conversa para boi dormir" dada por roustanguistas (inclusive "médiuns"!) para levarem vantagem no sabor das circunstâncias, a dissimulação foi uma caraterística inerente do "movimento espírita" brasileiro.
Pratica-se o roustanguismo mas renega-se o nome de Jean-Baptiste Roustaing. Critica-se a "vaticanização" do "movimento espírita", mas seus críticos são os que mais a praticam, devotamente. E quantos que reprovam os "imperadores Constantinos" que aparecem nas entranhas do "movimento espírita" que deveriam se olhar no espelho!
Assim como, no ensinamento de Jesus de Nazaré, fala-se que "nem todos os que dizem 'Senhor! Senhor!' entrarão no reino dos céus", nem todos os que alegam "fidelidade absoluta" e "respeito rigoroso" à obra de Allan Kardec são realmente kardecianos autênticos (rejeita-se o termo "kardecista", por ele ter sido apropriado pelos próprios deturpadores).
Pelo contrário, os piores farsantes são aqueles que arrumam desculpas imensas por seus atos e dissimulam o tempo todo para dar uma impressão de que não cometem os delitos a que comprovadamente estão associados. Eles sempre adotam procedimentos, práticas e opiniões os quais desmentem diante da pior repercussão de seus atos.
Quantas dissimulações se escondem nas palestras "espíritas" em que corre o mel das palavras que agradam e distraem muita gente? Quantas dissimulações ocorrem diante de depoimentos, artifícios e tantas atividades que os "espíritas" se empenham para esconder erros, posturas obscuras, julgamentos de valor e tantas coisas inconvenientes e até ilícitas?
É o suposto médium que cria quadros falsos mas, de contatos em contatos na alta sociedade, alicia uma crítica de arte de considerável prestígio no seu meio para atribuir "autenticidade" a obras que se vê claramente fraudulentas.
É outro suposto médium seduzindo o herdeiro de um morto usurpado numa suposta psicografia ao convidar a vítima para uma doutrinária e para acompanhar, como espectador, um ostensivo espetáculo de Assistencialismo em que muita festa é feita para doar uns mantimentos que se esgotam em três semanas, enquanto os festejos duram até um ano por cada "caridade" realizada.
MITÔMANOS
Os "espíritas" dissimulam tanto as coisas que a doutrina brasileira popularizada por Francisco Cândido Xavier virou a religião da mitomania. A mitomania é um problema psicológico que faz com que uma pessoa, querendo levar alguma grande vantagem pessoal ou se livrar de encrencas por graves erros, passa a mentir sem o menor escrúpulo.
O livro Parnaso de Além-Túmulo de Chico Xavier acabou sendo o ponto inicial desse processo de mitomania que contagiou o "médium", um dos maiores arrivistas de toda a História do Brasil, ao se tornar uma coleção de pastiches feitas pelo "médium" sob a colaboração do próprio presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, e da equipe de editores e redatores do periódico da federação, o Reformador.
Num país maluco e desinformado como o Brasil, que comete o erro grosseiro de recorrer ainda mais à religião para resolver as crises vividas pelo país nos últimos anos (um pastor, fanático evangélico, tornado parlamentar, insatisfeito de haver FMs evangélicas em todo o país, quer impor canções religiosas em absolutamente todas as rádios do país), mitomania em nome do "pão dos pobres" tem status de "verdade indiscutível".
Em nome da religião, sem excluir o caso "espírita", as pessoas são capazes de mandar a lógica e a coerência às favas, iludidas que estão pelas percepções surreais que aprendem através da mística religiosa, desde factoides sensacionalistas como o "mar se partindo" do tempo de Moisés (na verdade, era apenas uma baixa de maré) e as mediunidades fake que apelam para "sermos irmãos".
Isso é muito ruim. Criar um terreno onde a fantasia e a mistificação estabelecem supremacia diante da realidade é extremamente negativo e é compreensível que pessoas que se prendem a essas crenças religiosas sob a alegação de que estão "protegidas por energias elevadas" são as que se tornam mais violentas e odiosas diante do menor questionamento.
Em certos casos, muitos dissimulam, no caso dos "espíritas". Comentários em tom de irônica candura são feitos como "o irmão está alterado", "o amigo está obsediado, dominado por outros amigos pouco esclarecidos", dados em aparente doçura por pessoas que, no íntimo, haviam espumado de raiva e rosnado palavras de puro rancor.
Ah, o que o "espiritismo" mostra de dissimulações, desde, pelo menos, 1932, quando a deturpação da Doutrina Espírita passou a ter Chico Xavier como propagandista, quantos e tão pesados volumes de livros seriam publicadas para registrar tantos exemplos! E é assustador que, apesar disso, os "espíritas" ainda estufam o peito dizendo que praticam e respeitam a coerência e o bom senso. Mais dissimulação...
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Humberto de Campos Filho sofreu assédio moral por Chico Xavier?
GRAVURA DO ESCRITOR HUMBERTO DE CAMPOS PUBLICADA NO JORNAL A MANHÃ, EM 1943.
Que Humberto de Campos Filho, o jornalista e produtor de TV que herdou o nome do falecido autor maranhense, foi seduzido pelo "médium" Francisco Cândido Xavier, isso é uma verdade que só os beatos religiosos e os complacentes com o "espiritismo" brasileiro em geral não querem admitir.
Assim que morreu Dona Catarina Vergolino de Campos, viúva de Humberto, Chico Xavier, ao saber do interesse do filho pelo "espiritismo" brasileiro, até pelo lobby que a religião tinha na TV Tupi, já existente no Rio de Janeiro e em São Paulo na década de 1950, resolveu "convidar" o produtor para uma doutrinária no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.
Era uma "emboscada" motivada pelo pretexto da "caridade". Mas uma armadilha movida pelo maior deturpador do Espiritismo, um "médium" que reduziu o legado kardeciano a nada, rebaixando a novidade espírita a uma retomada do velho Catolicismo jesuíta medieval sob novo rótulo, que foi feita para tentar abafar processos judiciais recorrentes dos herdeiros do autor maranhense.
Chico Xavier foi um manipulador de corações e mentes dos mais habilidosos e traiçoeiros. A ele estão associadas técnicas como hipnose, Argumentum Ad Passiones (ou "apelo à emoção"), Assistencialismo (caridade fajuta que não traz resultados profundos, mas a promoção pessoal do "benfeitor") e até coitadismo ou vitimismo, já que Chico, quando duramente questionado, costumava, em sua esperteza, reagir em silêncio, posando-se de "vítima", para forçar a comoção pública.
Deturpador e oportunista, o "médium" que usurpou os grandes nomes de nossa literatura para produzir sensacionalismo, confusão e se autopromover com a bagunça que provocou, era também famoso pelo olhar maligno dos tempos de juventude, comprovada por uma foto com ele olhando de frente, publicada por O Globo em 1935. Ele foi também o que mais fez crescer e se consolidar a "vaticanização" que atingiu o Espiritismo no Brasil.
Processado pelos herdeiros de Humberto de Campos em 1944, Chico Xavier viveu seus dias de Aécio Neves e Michel Temer quando foi beneficiado pela seletividade da Justiça, que não conseguiu compreender que as "psicografias" atribuídas ao escritor maranhense destoavam claramente em estilo do acervo que o também acadêmico havia deixado em vida.
Só uma leitura mais atenta é suficiente para evidenciar as diferenças. O estilo original de Humberto de Campos era bem escrito, culto mas coloquial, com narrativa descontraída e ágil. A do "espírito Humberto" é melancólica, prolixa e rebuscada, pesada de se ler, excessivamente igrejeira e moralista, deixando muito claro um estilo que o escritor maranhense nunca seria capaz de expressar.
Embora haja eventuais plágios da obra de Humberto ou pastiches parciais de suas prosas, o que se observa na suposta psicografia trazida por Chico Xavier é que o estilo está mais para um arremedo ruim dos textos dos quatro evangelistas do Novo Testamento (Marcos, Lucas, Mateus e João) nas traduções em português que conhecemos. No conjunto da obra, quase nada de Humberto de Campos se encontra nas obras supostamente espirituais que levam seu nome.
De uma forma muitíssimo estranha, estão fora de catálogo os livros originais de Humberto de Campos. Indagamos até que ponto o lobby do "movimento espírita" no Brasil pode influir no mercado literário. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro é blindado pela Rede Globo, ele virou a "religião da Globo" e Chico, o "padroeiro da Globo". O poder midiático pode ter dado uma ajudinha para fazer os livros originais desaparecerem para dificultar leituras comparativas.
"ME ACEITE QUE EU SOU BONZINHO"
E tudo isso se deu porque Humberto de Campos Filho, que poderia ter mantido seu ceticismo, preferiu se render ao bom-mocismo do "médium", em um espetáculo anual, aparentemente de "caridade", que nunca trouxe resultados profundos e definitivos de transformação social, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro.
A reunião doutrinária no Grupo Espírita da Prece e a caravana ostensiva só para fazer meros donativos - uma clara demonstração de Assistencialismo e não de Assistência Social, como alardeiam os "espíritas" - , que em 1957 teve a participação de Humberto de Campos Filho como espectador e convidado, pode ter sido um grave exemplo de assédio moral, através da modalidade de apelo religioso.
No fim da doutrinária, Chico foi abraçar Humberto e, usando um tom melífluo de fala, o envolveu emocionalmente, fazendo-o chorar. Depois fez um falsete que deixou a vítima desnorteada, pensando ser a voz do pai, seduzido pela técnica de manipulação mental através do modo mais perigoso de Argumentum Ad Passiones, o "bombardeio de amor".
Considerado uma novidade em termos de estudos sobre a falácia discursiva, o "bombardeio de amor" é confundido por muitos brasileiros como uma forma saudável de acolhimento das pessoas, pelo aparente tom íntimo e generoso que tal apelo emocional traz, causando sensações de conforto, agrado profundo e alegria.
Mas especialistas em análise de discurso e de manipulação da mente afirmam que o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), é um dos mais perigosos tipos de Ad Passiones, tipo de argumentação já considerado falacioso.
O "bombardeio de amor" é uma espécie de mancenilheira emotiva, uma referência à árvore mancenilheira, considerada muito bonita e de frutos deliciosos, mas altamente venenosa em toda sua estrutura, sejam as folhas, o tronco, a seiva e as frutas, trazendo efeitos mortais no organismo.
A atuação de Chico Xavier - que completou a técnica de convencimento sobre Humberto Filho com uma amostra de atividades de Assistencialismo - apresenta caraterísticas de assédio moral, como se estivesse dizendo para aquele que iria processá-lo: "Me aceite que eu sou bonzinho".
Isso é extremamente grave, e faz manchar o "espiritismo" brasileiro como um todo, porque usar o "amor" e a "caridade" como pretextos para se aceitar ações desonestas ou oportunistas é muito mais grave do que tais desonestidades e oportunismos em si, porque são meios de forçar a aceitação pública e estimular a credulidade, o deslumbramento cego e o fanatismo.
Que Humberto de Campos Filho, o jornalista e produtor de TV que herdou o nome do falecido autor maranhense, foi seduzido pelo "médium" Francisco Cândido Xavier, isso é uma verdade que só os beatos religiosos e os complacentes com o "espiritismo" brasileiro em geral não querem admitir.
Assim que morreu Dona Catarina Vergolino de Campos, viúva de Humberto, Chico Xavier, ao saber do interesse do filho pelo "espiritismo" brasileiro, até pelo lobby que a religião tinha na TV Tupi, já existente no Rio de Janeiro e em São Paulo na década de 1950, resolveu "convidar" o produtor para uma doutrinária no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.
Era uma "emboscada" motivada pelo pretexto da "caridade". Mas uma armadilha movida pelo maior deturpador do Espiritismo, um "médium" que reduziu o legado kardeciano a nada, rebaixando a novidade espírita a uma retomada do velho Catolicismo jesuíta medieval sob novo rótulo, que foi feita para tentar abafar processos judiciais recorrentes dos herdeiros do autor maranhense.
Chico Xavier foi um manipulador de corações e mentes dos mais habilidosos e traiçoeiros. A ele estão associadas técnicas como hipnose, Argumentum Ad Passiones (ou "apelo à emoção"), Assistencialismo (caridade fajuta que não traz resultados profundos, mas a promoção pessoal do "benfeitor") e até coitadismo ou vitimismo, já que Chico, quando duramente questionado, costumava, em sua esperteza, reagir em silêncio, posando-se de "vítima", para forçar a comoção pública.
Deturpador e oportunista, o "médium" que usurpou os grandes nomes de nossa literatura para produzir sensacionalismo, confusão e se autopromover com a bagunça que provocou, era também famoso pelo olhar maligno dos tempos de juventude, comprovada por uma foto com ele olhando de frente, publicada por O Globo em 1935. Ele foi também o que mais fez crescer e se consolidar a "vaticanização" que atingiu o Espiritismo no Brasil.
Processado pelos herdeiros de Humberto de Campos em 1944, Chico Xavier viveu seus dias de Aécio Neves e Michel Temer quando foi beneficiado pela seletividade da Justiça, que não conseguiu compreender que as "psicografias" atribuídas ao escritor maranhense destoavam claramente em estilo do acervo que o também acadêmico havia deixado em vida.
Só uma leitura mais atenta é suficiente para evidenciar as diferenças. O estilo original de Humberto de Campos era bem escrito, culto mas coloquial, com narrativa descontraída e ágil. A do "espírito Humberto" é melancólica, prolixa e rebuscada, pesada de se ler, excessivamente igrejeira e moralista, deixando muito claro um estilo que o escritor maranhense nunca seria capaz de expressar.
Embora haja eventuais plágios da obra de Humberto ou pastiches parciais de suas prosas, o que se observa na suposta psicografia trazida por Chico Xavier é que o estilo está mais para um arremedo ruim dos textos dos quatro evangelistas do Novo Testamento (Marcos, Lucas, Mateus e João) nas traduções em português que conhecemos. No conjunto da obra, quase nada de Humberto de Campos se encontra nas obras supostamente espirituais que levam seu nome.
De uma forma muitíssimo estranha, estão fora de catálogo os livros originais de Humberto de Campos. Indagamos até que ponto o lobby do "movimento espírita" no Brasil pode influir no mercado literário. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro é blindado pela Rede Globo, ele virou a "religião da Globo" e Chico, o "padroeiro da Globo". O poder midiático pode ter dado uma ajudinha para fazer os livros originais desaparecerem para dificultar leituras comparativas.
"ME ACEITE QUE EU SOU BONZINHO"
E tudo isso se deu porque Humberto de Campos Filho, que poderia ter mantido seu ceticismo, preferiu se render ao bom-mocismo do "médium", em um espetáculo anual, aparentemente de "caridade", que nunca trouxe resultados profundos e definitivos de transformação social, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro.
A reunião doutrinária no Grupo Espírita da Prece e a caravana ostensiva só para fazer meros donativos - uma clara demonstração de Assistencialismo e não de Assistência Social, como alardeiam os "espíritas" - , que em 1957 teve a participação de Humberto de Campos Filho como espectador e convidado, pode ter sido um grave exemplo de assédio moral, através da modalidade de apelo religioso.
No fim da doutrinária, Chico foi abraçar Humberto e, usando um tom melífluo de fala, o envolveu emocionalmente, fazendo-o chorar. Depois fez um falsete que deixou a vítima desnorteada, pensando ser a voz do pai, seduzido pela técnica de manipulação mental através do modo mais perigoso de Argumentum Ad Passiones, o "bombardeio de amor".
Considerado uma novidade em termos de estudos sobre a falácia discursiva, o "bombardeio de amor" é confundido por muitos brasileiros como uma forma saudável de acolhimento das pessoas, pelo aparente tom íntimo e generoso que tal apelo emocional traz, causando sensações de conforto, agrado profundo e alegria.
Mas especialistas em análise de discurso e de manipulação da mente afirmam que o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), é um dos mais perigosos tipos de Ad Passiones, tipo de argumentação já considerado falacioso.
O "bombardeio de amor" é uma espécie de mancenilheira emotiva, uma referência à árvore mancenilheira, considerada muito bonita e de frutos deliciosos, mas altamente venenosa em toda sua estrutura, sejam as folhas, o tronco, a seiva e as frutas, trazendo efeitos mortais no organismo.
A atuação de Chico Xavier - que completou a técnica de convencimento sobre Humberto Filho com uma amostra de atividades de Assistencialismo - apresenta caraterísticas de assédio moral, como se estivesse dizendo para aquele que iria processá-lo: "Me aceite que eu sou bonzinho".
Isso é extremamente grave, e faz manchar o "espiritismo" brasileiro como um todo, porque usar o "amor" e a "caridade" como pretextos para se aceitar ações desonestas ou oportunistas é muito mais grave do que tais desonestidades e oportunismos em si, porque são meios de forçar a aceitação pública e estimular a credulidade, o deslumbramento cego e o fanatismo.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Arrivismo: uma receita de sucesso?

O Brasil tem um hábito estranho. É a teimosia de aventureiros de qualquer causa se projetarem através de uma trajetória cheia de graves erros, impasses e encrencas, e depois de conquistar o que queriam, passam a bancar os "certinhos", menos por aprenderem as lições do que por saberem o que fazer para levar vantagem.
Há muitos exemplos nesse sentido, o que faz com que uma parcela de pessoas, de uma forma associadas a valores retrógrados, se aventurem em alguma causa considerada de vanguarda, buscando obter visibilidade, causar impressão e obter privilégios, além de evitar ser tragado por alguma decadência que tornasse os valores retrógrados originais obsoletos.
Esse é um tipo muito comum do que se considera ser o arrivismo, um método de ascensão social movido pelas conveniências e pelas ambições, nem sempre por métodos ou posturas corretos. É um tipo de aventureiro social que busca atingir uma meta da qual não se identifica necessariamente, mas da qual depende de um vínculo permanente para obter vantagens pessoais.
Isso não deve ser confundido com as mudanças eventuais que pessoas que antes defenderam valores ultrapassados adotam ao perceber que os valores mais avançados valem mais a pena. Mas o contexto pode discernir as pessoas que, originalmente defensoras de valores ultrapassados, mudam por verdadeiro aprendizado e outras que apenas embarcam em valores avançados para obter visibilidade e prestígio social.
No entanto, num Brasil marcado pelas acrobacias retóricas que fazem com que até direitistas se apropriando de causas de esquerda se esforcem para parecer "esquerdistas exemplares", e fazem muitos machistas violentos conseguirem conquistar novas namoradas surpreendentemente inteligentes, emancipadas e feministas, os arrivistas sempre vestem a capa daqueles que "aprenderam novos valores e mudaram de verdade".
Quantas atitudes hipócritas, que deixam passar algum posicionamento mais retrógrado, surgem de repente, fazendo o arrivista se arrepiar diante de uma ameaça de encrenca, pondo sua causa oportunista a perder. Quantos impulsos do caronista vindo da retaguarda aos "excessos" dos vanguardistas são dados, criando sérios problemas que, com muito custo, o arrivista tenta abafar e passar por cima.
O Brasil é um país em que o penetra luta para ser o convidado vip de uma festa. O país tem o vício de sempre negociar novidades com forças velhas, não tem uma tradição de romper com valores obsoletos, preferindo condicionar valores novos sempre ao agrado de forças retrógradas que querem permanecer no poder, com uma parcela delas se apropriando e buscando um vínculo tendencioso com o novo.
O arrivista tenta parecer flexível, volúvel, como um canastrão circunstancial. O canastrão é um incompetente que finge que quer aprender tudo, se dizendo pronto para qualquer aventura. E o arrivista é uma espécie de "canastrão de vanguarda", aquele que fura a fila da realidade para se aventurar numa causa em que não se identifica mas na qual deseja ter vínculo permanente por pura vantagem.
O Espiritismo foi vítima desse vício brasileiro. E criou arrivistas como Francisco Cândido Xavier, um católico ortodoxo que passou a ser, de maneira bem arrivista, um suposto guia da doutrina originária da França.
Retrógrado e ultraconservador, Chico Xavier foi o maior arrivista do Brasil, ele mesmo criando confusões, agindo errado, às vezes por influência de outrem, mas não raro sob decisão e vontade próprias, com a exata consciência de seus atos.
Ele deturpou a Doutrina Espírita de forma gravíssima, com efeitos devastadores e danosos, emporcalhando o legado espírita original e desqualificando o trabalho árduo que, no passado, foi feito por Allan Kardec. Foi algo feito, sim, com muito propósito, e não pode ser visto como acidente, porque foi feito para um público muito grande e durante muitos anos e através de muitas obras.
A deturpação do Espiritismo por Chico Xavier e seguidores, dos quais se destaca Divaldo Franco, não pode, de forma alguma, ser considerada "um errinho de nada" ou um efeito acidental de incompreensão. Se fosse realmente uma mera incompreensão, porque essa "incompreensão" foi mantida durante muito tempo e espalhada para multidões através de um grande acervo de obras?
Os dois "médiuns" já haviam sido alertados da deturpação há muito tempo. Eles mesmos "catolicizaram" o Espiritismo com muito propósito e consciência plena de seus atos. Se tivessem cometido um acidente de incompreensão, não teriam lançado tantas obras, por muito tempo e com grande repercussão, com conteúdo abertamente igrejista e moralista conservador.
Mas, como arrivistas, os "médiuns" também tentaram dissimular - o arrivista é alguém que costuma dissimular muito suas posturas, até para ocultar aspectos retrógrados de sua personalidade e seus pontos de vista - e eles tentaram expor, na aparência discursiva, a correta teoria kardeciana, como se quisessem "provar" que "aprenderam a lição".
A complacência social acaba cedendo e danoso é aquele vanguardista que dá ouvidos a um arrivista, dando-lhe visibilidade às custas de um figurão mais moderno e avançado. O "espiritismo" brasileiro, mesmo com conteúdo medieval, igrejista, mistificador, mitificador e cheio de devaneios religiosos retrógrados, conseguiu, de arrivismo em arrivismo, passar uma falsa imagem de "progressista", "científico", "racional" e "moderno", aliciando os mais modernos setores da sociedade civil.
Isso é muito ruim, porque o arrivista, num dado momento, acaba sempre freando e evitando as transformações sociais necessárias, minimizando seus efeitos e mantendo intatas as estruturas de poder vigentes. Mesmo que personalidades retrógradas possam ir à ruína, a ação de arrivistas minimiza esses danos, na medida em que permite que aventureiros das novas causas sempre apareçam para levar vantagem e fingir solidariedade ao "novo".
E é isso que, no caso do "espiritismo", cria a doce ilusão de que os próprios deturpadores atuarão na recuperação das bases doutrinárias espíritas originais. A promessa de "aprender a lição" volta à tona, diante da profunda crise vivida pelo "movimento espírita", e existem até arrivistas que forçam a barra, apelando, da boca para fora, para "não só aprender Kardec, mas viver Kardec no dia a dia!".
Sim, existem demagogos que forçam a barra em simular uma postura "plena" da causa que não se identificam. Quantos "espíritas" falam mal da "vaticanização" que eles mesmos praticam, com muito entusiasmo! Quantos deturpadores falam em "viver Kardec", e que, com sua dramaticidade oratória, muitas vezes pomposa mas em outras "mais simples", evocam aquilo que nem se dispõem a fazer, que é a recuperação das bases espíritas originais.
É sempre a mesma desculpa da raposa prometer reconstruir o galinheiro. E quantas raposas se fazem de moradoras do galinheiro, como se já tivessem nascido galinhas! Esse é o problema do arrivismo que sempre brecou as transformações sociais, mantendo o Brasil num atraso social que não só tem dificuldades de ser mantido como ameaça retroceder cancelando os poucos avanços sociais conquistados ao longo dos tempos.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
A imagem "higienista" da mulher solteira no Brasil
Algo está muito estranho na divulgação da imagem da mulher solteira pela mídia. Uma imagem forçadamente hedonista, espetacularizada, e que se volta, praticamente, para apenas um lado da pirâmide social, o lado de baixo, nas classes populares, através de uma suposta liberdade difundida pelo mercado do entretenimento.
Recentemente, as rádios estão tocando "Tô Solteira de Novo", continuação de um antigo sucesso da funkeira Valesca Popozuda, "Agora Eu Tô Solteira", um estranho hino de solteirice que, sabemos, não cabe na vida das solteiras comuns, e é mais um exemplo de como a mídia trabalha uma imagem caricatural e espetacularizada da mulher solteira.
As pessoas deveriam parar para pensar e perguntar se uma solteira de verdade se preocuparia em ostentar este estado civil. A coisa é praticamente exclusiva no Brasil, mas não existe só no "funk", mas também no "sertanejo", onde existe o suposto empoderamento do "feminejo", com letras supostamente anti-machistas.
A imagem da solteira trabalhada por esses sucessos do entretenimento popular é tão caricata, voltada ao narcisismo, à curtição e à hipersexualização, que internautas com senso crítico muito afiado ficam perguntando se essas cantoras são realmente solteiras ou estão criando tipo para vender sensualidade.
Observa-se, também, que a imagem da mulher solteira só se dirige às classes populares, havendo um contraste entre as famosas que ficam solteiras com mais facilidade e outras que investem em casamentos estáveis, criando um duplo condicionamento do feminismo brasileiro aos valores machistas dominantes no Brasil onde feminicidas"nunca morrem".
ACORDO MACHISTA
Feminismo, no Brasil, tem que estabelecer um acordo com a ideologia machista, de forma que as conquistas da mulher brasileira sejam minimizadas, ou, quando muito, controladas pela figura masculina.
Observa-se um duplo acordo. Num deles, a mulher que não quer fazer o papel de objeto sexual e quer buscar experiências de vida que não dependam de apelos sensuais ou sexistas esteja sempre associada à figura de um marido ou namorado, geralmente um empresário ou um profissional liberal (médico, advogado, economista).
A mulher que quer "fugir" de sua imagem sexualizada, só se sensualizando conforme o contexto, mas podendo se desvincular dessa imagem a maior parte do tempo, transmitindo ideias e valores culturais mais relevantes, precisa ser "vigiada" pela figura do marido, geralmente um sisudo homem associado a um cargo de liderança e sucesso econômico.
Por outro lado, a mulher que permanece em valores machistas, seja a pobre coitada que só vê novelas, ouve "pagode romântico" e brinca de ser "mãe" com seu pequeno afilhado, ou a siliconada de glúteos avantajados que apela para um sensualismo obsessivo que, mesmo em outros assuntos, há o vínculo forçado do sexo e da sensualidade, a solteirice é permitida e o vínculo à figura do marido ou do namorado é simplesmente dispensado.
Observemos quem são as mulheres que tendem a ser casadas e as que tendem a ser solteiras com maior facilidade. A disparidade de discursos e condições é aberrante e mostra o quanto a ideia de ser solteira é desigual, pendendo mais para as classes populares, enquanto que, nas classes média e alta a ideia é enfatizar a vida de casada e a formação de uma família tradicional (marido, mulher e filhos).
No grupo das casadas, predominam atrizes de TV que se tornam referência para um público feminino de classe média. Há também modelos de grifes, sobretudo "supermodelos". Há também jornalistas de TV, ex-VJs da MTV, influenciadoras digitais ligadas à moda e outras famosas de perfil mais intelectualizado ou próximo disso e sem um apelo sensual obsessivo.
Já no grupo das solteiras, predominam subcelebridades vindas de reality shows, cantoras de gêneros popularescos, modelos siliconadas de marcas de menor expressão, musas fitness de apelo popularesco, dançarinas de ritmos como "funk" e "pagodão" e "musas" de times de futebol. Embora parte delas se autoproclame "feminista", elas são patrocinadas por empresários machistas do entretenimento "popular" ou até por dirigentes esportivos.
Essas solteiras usam um discurso pronto, previamente estabelecido e não raro contraditório. Num momento dizem que são "solteiríssimas" ou "solteiras e felizes", dizendo que "não arrumam namorado por causa do foco no trabalho (?!)", noutro se dizem "carentes" e usam o bordão surrado de que "os homens fogem de medo". Não conseguem se decidir se estão felizes solteiras ou se estão à procura de um "príncipe encantado".
DESIGUALDADE SOCIAL
A imagem "higienista" que está por trás desse mercado de sensualismo obsessivo, abordado por uma imagem caricatural da mulher solteira, emerge como um problema sério por trás dessa distribuição desigual da mídia do entretenimento entre solteiras e casadas.
Nem precisamos destacar a realidade irônica desse processo. No âmbito popularesco, mulheres que mantinham casamentos estáveis se divorciam de repente, com muita facilidade, em favor da "sensualidade". Já entre as mulheres "de elite", famosas mantém casamentos estáveis, mas aparecem quase sempre sozinhas nos eventos, sugerindo "vida de solteira" patrocinada pelos respectivos maridos.
O que está em jogo nesta distribuição desigual é que o "sistema", no qual se executa uma indústria do entretenimento difundida pela grande mídia, conservadora e mercenária, estabelece um "controle social" por trás dessa imagem da mulher solteira restrita apenas ao chamado "povão".
Há um jogo ideológico por trás, no qual o entretenimento "popular" desestimula a mulher a formar família e ter filhos, ou, tendo algum, se separa e não contrai mais novo matrimônio. A ideia é desestimular a renovação de gerações nas populações de origem negra, índia ou mestiça, criando um discurso de "liberdade" que "desobriga" as jovens mulheres que consomem música popularesca a serem mães.
Mas a perversidade não pára por aí. A ideia de evitar que casais heterossexuais se formem, combinando referências masculinas e femininas para as crianças (que praticamente crescem sem o convívio diário da figura paterna), longe de ser uma questão de "liberdade sexual", é na verdade uma forma de evitar com que a formação de casais seja uma referência nas classes pobres, evitando a solidariedade popular a partir do lar.
A imagem do homem é bombardeada pela mídia popularesca de maneira bastante negativa: bêbado, infiel, criminoso, violento, malandro, insensível. Isso é difundido largamente pela mídia policialesca, mas é reforçada pelas músicas de conflitos amorosos que são bombardeadas pelas rádios por meio dos sucessos populares.
O mais grave disso é que homens de etnia negra, índia e mestiça são alvos dessa exploração negativa de imagem, inserindo um racismo sutil nas próprias comunidades, fazendo mulheres igualmente negras, índias e mestiças se envolverem amorosamente com homens afins.
Novidades como a causa LGBT são bombardeadas nas classes populares que, pela baixa escolaridade e pela manipulação midiática e religiosa, não conseguem compreender sua natureza. Amestradas pelo cativeiro midiático de rádios e TVs e educada ideologicamente por seitas evangélicas e sua mídia associada (a Rede Record é a principal delas), as classes pobres não conseguem entender a causa LGBT que lhes chega de maneira exótica e espetacularizada.
O grande problema é que a união de pessoas do mesmo sexo, uma realidade melhor assimilada pelas classes médias, digerida de maneira confusa pelas classes populares, revela seu caráter "higiênico", porque é um amor que não gera filhos biológicos, "congelando" assim o crescimento populacional das classes pobres, não com o objetivo de evitar a superpopulação, mas antes fazer desaparecer, gradualmente, populações de origem negra e índia ou mestiças.
Isso é que está em jogo quando, nas classes mais abastadas, se estimula o casamento, até mesmo por conveniência, revelando, por outro lado, casais sem afinidade cujas esposas reclamam dos defeitos de seus maridos sisudos. Casais afins são desencorajados nas classes populares, mas, nas classes abastadas, há até o ato de "carregar casamento", desestimulando os divórcios de casais divergentes.
Diante disso, a desigual distribuição de solteiras e casadas no Brasil, uma realidade aberrante, pois, no Primeiro Mundo, isso não existe - as solteiras da Europa, por exemplo, se assemelham em perfil às casadas intelectualizadas do Brasil - e nem as solteiras dos países mais evoluídos ficam preocupadas em ostentar sua solteirice.
Lá fora, uma vez tornada solteira, a mulher toca a vida para a frente e busca novos campos de interesse, como História, Artes Plásticas, Viagens etc. Embora de vez em quando se sinta estimulada a se sensualizar, exibindo um decote no vestido durante os eventos sociais, a solteira do Primeiro Mundo não se preocupa o tempo todo em exibir uma imagem hipersexualizada.
A imagem caricatural da solteira brasileira esconde também preconceitos sociais, porque a abordagem hipersexualizada envergonha as mulheres mais abastadas. Também envolve preconceitos sociais, uma vez que a imagem da mulher solteira está associada a um lazer obsessivo e à busca do estereótipo de objeto sexual que intimida as mulheres realmente emancipadas, não só do machismo, mas da hipersexualização.
Enquanto as mulheres das classes pobres veem na solteirice trabalhada pela mídia "popular" um pretenso ideal de liberdade, as mulheres mais abastadas e instruídas se sentem constrangidas com tais abordagens, se apressando em se casarem com os primeiros homens poderosos e influentes que encontrarem em restaurantes e casas noturnas chiques.
domingo, 17 de setembro de 2017
"Espiritismo" não pratica caridade, se promovendo com a caridade dos outros
Principal justificativa dos deturpadores do Espiritismo para continuarem prevalecendo e abafarem os efeitos drásticos de seus atos, a "caridade" é tida como a sua maior qualidade. No entanto, até ela pode ser uma farsa, se observarmos bem.
Sabe-se que a chamada "caridade espírita" consiste em mero Assistencialismo. Embora os "espíritas" definam sua aparente filantropia como "Assistência Social" (a caridade que provoca transformações sociais profundas e definitivas), o que se vê, todavia, na prática, é Assistencialismo, caridade paliativa, reduzida a aspectos pontuais e provisórios ou, se efetivos, bastante superficiais e medíocres, na qual o que mais está em jogo é o prestígio e a promoção pessoal do "benfeitor".
Mas, não bastasse essa "caridade" ser mero Assistencialismo, gerando mais holofotes para os "espíritas" do que transformações sociais para os mais necessitados, na verdade essa "caridade" não é praticada pelas instituições "espíritas", mas pelos fiéis, frequentadores das "casas espíritas".
Sim, isso mesmo, o que rende acaloradas discussões nas redes sociais, sobretudo sobre "médiuns" que vivem do culto à personalidade - apesar de se autoproclamarem "símbolos máximos da humildade humana" - , não passa de uma grande perda de tempo.
Além de deturparem o Espiritismo, difundindo, em nome de Allan Kardec, ideias contrárias a seus ensinamentos, os "médiuns" são famosos por uma caridade que não praticam. Eles apenas se promovem com a caridade dos outros: médicos, professores, cozinheiros, ou donativos enviados por terceiros.
Os "médiuns" apenas se ostentam, a exemplo dos donos de agências de publicidade que não criam as próprias campanhas, mas se consideram "autores" das campanhas que empregados e outros subordinados fazem, ficando sempre com os louros dos trabalhos dos outros.
Os "médiuns" e outros palestrantes "espíritas" fazem turnês por todo o país, em certos casos pelo mundo afora, acumulando tesouros terrenos como medalhas e condecorações, vendendo livrinhos marcados por um aparato de belas palavras repleto de devaneios igrejistas e moralistas, e muitos acreditam que esses palavreadores do "movimento espírita" são símbolos máximos de caridade. Falam até em "vidas totalmente dedicadas ao amor ao próximo", o que é uma grande falácia.
O que ocorre é que o cidadão em comum é que doa seus objetos e os voluntários aderem ao trabalho mal remunerado (isso quando há alguma remuneração), se doando para alimentar a vaidade pessoal do figurão "espírita", que quase sempre está no exterior fazendo discursos para ricos e poderosos, em troca de prêmios por uma suposta caridade e pelo balé de palavrinhas enfeitadas.
Isso é muito grave, porque os ídolos do "movimento espírita" produzem uma retórica na qual eles estão associados a uma imagem de "filantropos" que fascina muita gente e cria legiões de defensores fanáticos, capazes de se envolverem em bate-bocas nas redes sociais, na defesa desesperada de seus ídolos religiosos, pouco se importando se os mais necessitados estão sofrendo ou não ou se os mantimentos doados no mês passado já se esgotaram, voltando a miséria de antes.
A coisa chega ao nível deplorável, porque os "médiuns" causaram uma série de deturpações da Doutrina Espírita, consistindo numa grave traição ao trabalho árduo e penoso que Allan Kardec desenvolveu em seu tempo.
Os "médiuns", além da traição doutrinária (algo que não é acidental, pois feito durante anos, para um grande público e em grande projeção) rompem com sua função intermediária, atraindo para si o culto à personalidade. Viram "grifes" para supostas ações mediúnicas, em muitos casos bancando os "donos" de determinadas personalidades mortas.
Não bastasse isso, a tão festejada "caridade" que está tão associada a essas "criaturas tão puras" é, na verdade, uma ação de terceiros, em muitos casos não vindo de um centavo sequer dos bolsos dos "pensadores espíritas", que, pelo contrário, ainda são pagos por empresas e por parte do dinheiro da caridade para fazer turnês e ficar fazendo belas verborragias para ricos e poderosos em estabelecimentos nobres e hotéis de luxo no Brasil e no exterior.
Ver que essa "caridade" é o maior motivo desses deturpadores é preocupante. A reputação deles acaba se alimentando com essa farsa, fazendo com que os questionamentos fossem abafados em tudo. Até as "mediunidades" fake são aceitas porque seus "médiuns" são "caridosos", pouco importando se a suposta mensagem espiritual foge drasticamente do estilo pessoal do morto em questão.
Precisamos questionar até mesmo essa "caridade". As pessoas ainda pensam a "bondade" como se estivessem pensando a vida como se fosse um conto de fadas ou uma novela da Rede Globo. Ignoram o quanto há autopromoção e arrivismo entre os deturpadores da Doutrina Espírita, que usam de todos os artifícios para se tornarem unanimidade mesmo nas suas piores irregularidades. As pessoas levam gato por lebre e não percebem.
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