segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A "fascinação obsessiva" protege os "médiuns" que deturpam o Espiritismo


Culto à personalidade, defesa de valores moralistas conservadores, apoio a políticos retrógrados, prática de Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e serve mais de propaganda ao "benfeitor"), sem falar de ideias difundidas ao arrepio do legado original de Allan Kardec.

Esses defeitos estão presentes nos "médiuns espíritas" e as pessoas não percebem. E, quando são informadas, ainda coçam a cabeça e procuram dizer "Isso não é possível". Fazem ginástica mental para alegar que isso não faz sentido e que os "médiuns", embora "catolicizem demais" o Espiritismo, cumprem, aos olhos de muitos, a prometida "rigorosa fidelidade" à Codificação.

Não, não cumprem. Comparem o conteúdo dos livros de Allan Kardec com os livros que são publicados por Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco. Façam uma leitura cuidadosa, minuciosa, desprovido de paixões religiosas. Parem de sonhar com passarinhos voando sobre flores no mundo espiritual porque isso nem de longe foi cientificamente tido sequer como plausível.

Sem essas paixões religiosas, se verá que o conteúdo que os "médiuns" brasileiros difundem contraria, de forma bastante vergonhosa, o legado kardeciano. Não adianta Divaldo expor em entrevistas na TV a teoria correta de Kardec se ele lança obras e palestras contrárias.

Ensinar bem num momento e ensinar errado em tantos outros não é ser fiel ao legado espírita original, algo comparado a um homem que faz um discurso em favor do feminismo e, depois, quando volta para casa, vai bater na mulher.

O "espiritismo" brasileiro é fruto de uma série de estragos irreparáveis. Foi a religião que mais se corrompeu pelas suas más escolhas. A liberdade e a tolerância religiosa não podem ignorar esses graves aspectos, porque o direito a fé não permite jamais que as pessoas façam o que quiserem e se livrem das consequências de seus atos.

Hoje se vive a realidade absurda dos "médiuns" serem blindados com tanta obstinação pela sociedade que já superam até mesmo os políticos do PSDB, que, pelo menos, sofrem algum tipo de repúdio social. Ser "médium" no Brasil já é uma aberração, vivendo o culto à personalidade, se promovendo com Assistencialismo e vivendo do aparato das lindas imagens e belas palavras.

"MÉDIUNS" APRONTAM E SAEM ILESOS EM TUDO

O fato de um "médium" como Divaldo Franco sair "invisível" na grande imprensa ou mesmo na imprensa de esquerda, mesmo quando foi ele que ofereceu o evento Você e a Paz para o lançamento oficial da "farinata", a "ração humana" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr., revela processos obsessivos que fazem com que a imagem adocicada dos "médiuns" se preserve a qualquer preço.

Chico Xavier foi o que mais personificou isso. De um pastichador literário - trabalho que não fazia sozinho, mas com a ajuda de Antônio Wantuil de Freitas e uma equipe editorial da FEB - a um quase Deus, o "médium" mineiro trilhou um caminho de muito oportunismo, a ponto dele, comprovado deturpador do Espiritismo, ser considerado "aproveitável" por muitos num esforço de recuperação das bases literárias. "Aproveitável" não se sabe por quê, mas "porque sim".

Ele usurpou a memória dos literatos falecidos. Não gostou de uma crítica de Humberto de Campos e esperou ele morrer para se apropriar dele e "mudar seu estilo" nas "psicografias". Foi julgado e impune por causa da seletividade da Justiça, e usou do processo de fascinação obsessiva para dominar Humberto de Campos Filho e evitar que ele continuasse os processos judiciais contra o "médium".

Como um Aécio Neves da religião, Chico Xavier aprontava e saía ileso. Era até ajudado, no caso da FEB que "tirou do caminho" o sobrinho que iria denunciar suas irregularidades "mediúnicas", Amauri Xavier. Passou por cima também do caso Otília Diogo, pois, apesar das provas de cumplicidade - fotos confirmam que Chico acompanhava a produção da farsa da suposta Irmã Josefa - , ele se saiu como "vítima".

Para complicar ainda mais, Chico Xavier passou a ser blindado pela Rede Globo de Televisão a partir dos anos 1970 e, mesmo assim, conseguia seduzir setores das esquerdas mesmo defendendo a ditadura militar e reprovando a crítica e o questionamento, pregando o "silêncio" como "voz da sabedoria" (falácia que é eufemismo de censura). Passou a ter a reputação, não se sabe por que motivo, de "progressista", suposta qualidade dada assim, de graça.

A coisa se tornou de tal forma que basta ser "médium espírita" para gozar de benefícios que se comparam a enredos como Prenda-me Se For Capaz e VIPs, baseados respectivamente nas trajetórias dos espertalhões Frank Abagnale Jr. e Marcelo Nascimento.

A aberração é tão grande que ser "médium espírita" hoje virou a fórmula para qualquer um fazer o que quiser e não ser pego de jeito algum. Pode-se até distribuir cestas básicas em campanha eleitoral que ninguém criminaliza, mesmo sob a base da lei.

Basta adquirir um casarão e jogar meia-dúzia de pobres e doentes, escrever livros atribuindo a um suposto morto com mensagens igrejeiras de "fé e esperança" e, pronto. Se Abagnale Jr. e Nascimento tivessem feito isso, estariam à beira da canonização.

O QUE É MESMO FASCINAÇÃO OBSESSIVA?

O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, fala de tipos de obsessão, nos quais se destacam dois dos mais perigosos, a "fascinação obsessiva" e a "subjugação". Geralmente a "fascinação obsessiva" domina os seguidores e adeptos, enquanto a "subjugação" domina aqueles com virtuais condições de investigar as irregularidades do "movimento espírita", como jornalistas, juristas e acadêmicos.

Muitos entendem a obsessão como um processo escancarado no qual um espírito claramente leviano e perverso, com um discurso claramente sombrio e malicioso, domina as pessoas na base da coerção e da ameaça. Ah, como as pessoas não percebem os voos altos da astúcia humana.

No "espiritismo", o que vemos é que a dominação se dá com o máximo de sutileza possível. Quase ninguém percebe, e mesmo os céticos se deixam levar pelo discurso de "fascinação obsessiva" que os "médiuns espíritas", movidos pelo culto à personalidade, difundem em seu favor.

O discurso é tão sofisticado que chega a se tornar uma pegadinha infalível que engana até mesmo pessoas com certo tipo de consciência crítica. Fora da religião, o "funk", um subproduto do comercialismo da mídia dominante, também se vale de apelos emocionais semelhantes, que pegaram as esquerdas desprevenidas. Para muitos oportunistas, basta mostrar fotos de crianças pobres sorridentes para conquistar a tão sonhada unanimidade social.

No caso dos "médiuns" dominando os seguidores, há uma analogia de caraterísticas da "fascinação obsessiva" de espíritos dominando médiuns na obra de Allan Kardec, pois o processo de dominação é exatamente o mesmo. Conforme o capítulo 23, item 239, de O Livro dos Médiuns:

239. A fascinação tem conseqüências muito mais graves. Trata-se de uma ilusão criada diretamente pelo Espírito no pensamento do médium e que paralisa de certa maneira a sua capacidade de julgar as comunicações. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito consegue inspirar-lhe uma confiança cega, impedindo-o de ver a mistificação e de compreender o absurdo do que escreve, mesmo quando este salta aos olhos de todos. A ilusão pode chegar a ponto de levá-lo a considerar sublime a linguagem mais ridícula. Enganam-se os que pensam que esse tipo de obsessão só pode atingir as pessoas simples, ignorantes e desprovidas de senso. Os homens mais atilados, mais instruídos e inteligentes noutro sentido, não estão mais livres dessa ilusão, o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga.

Dissemos que as conseqüências da fascinação são muito mais graves. Com efeito, graças a essa ilusão que lhe é conseqüente o Espírito dirige a sua vítima como se faz a um cego, podendo levá-lo a aceitar as doutrinas mais absurdas e as teorias mais falsas como sendo as únicas expressões da verdade. Além disso, pode arrastá-lo a ações ridículas, comprometedoras e até mesmo bastante perigosas.(1)

Compreende-se facilmente toda a diferença entre obsessão simples e a fascinação. Compreende-se também que os Espíritos provocadores de ambas devem ser diferentes quanto ao caráter. Na primeira, o Espírito que se apega ao médium é apenas um importuno pela sua insistência, do qual ele procura livrar-se. Na segunda, é muito diferente, pois para chegar a tais fins o Espírito deve ser esperto, ardiloso e profundamente hipócrita. Porque ele só pode enganar e se impor usando máscara e uma falsa aparência de virtude.

As grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança. Mas através de tudo isso deixa passar os sinais de sua inferioridade, que só o fascinado não percebe; e por isso mesmo ele teme, mais do que tudo, as pessoas que vêem as coisas com clareza. Sua tática é quase sempre a de inspirar ao seu intérprete afastamento de quem quer que possa abrir-lhe os olhos. Evitando, por esse meio, qualquer contradição, está certo de ter sempre razão.

No contexto brasileiro, a dominação que Allan Kardec se refere aos espíritos sobre os médiuns se equipara, com exatidão, à de "médiuns" - que se afastaram da função intermediária e quase anônima dos médiuns espíritas originais - sobre seus seguidores. Os aspectos denunciados por Kardec são exatamente os mesmos.

Deve-se prestar atenção ao último parágrafo do item 239, no qual "grandes palavras como caridade, humildade e amor a Deus servem-lhe de carta de fiança". Até isso Kardec já preveniu as pessoas deste perigo. Mas, infelizmente, mesmo os críticos da deturpação do Espiritismo estão mais preocupados em proteger os deturpadores, movidos por esse traiçoeiro aparato de "amor e caridade".

Há até mesmo o uso de desculpas como "intolerância religiosa", apelos como o vitimismo - nos quais os deturpadores fingem "aceitar os ataques em silêncio", dizendo-se "pacientes e humildes diante da ira da sociedade contra o trabalho do bem" e "confiantes a Deus, seu único apoio no momento em que as pedras se voltam a eles". Criam todo um teatro do coitadismo, como meio de forçar a comoção pública com sua pose de pretensos "derrotados" que oculta seu poder dominador e privilegiado.

Os "espíritas" apelam até mesmo para a estratégia mais perigosa, o "bombardeio de amor", no qual se forja um clima de emotividade intensa e falsa intimidade hospitaleira. Isso mostra o quanto a "fascinação obsessiva" protege os "médiuns" e atrai a confiança cega de seus seguidores, e a "subjugação" a subordinação de quem poderia questionar e investigar mas se submete ao domínio de forma convicta.

Dessa forma, cria-se um impasse no qual os alertas de Allan Kardec forçam o "espírita" brasileiro a optar pela aceitação desses alertas ou a rejeição a eles pela submissão aos "médiuns". A cada dia as circunstâncias forçam os brasileiros a terem que escolher entre Kardec e os deturpadores. Não se pode ficar com os dois. Não há fraternidade entre o bom senso e o contrassenso. Ou é uma coisa ou outra. É hora de cair das nuvens.

domingo, 19 de novembro de 2017

Por que a "geração 74" tomou o poder no Brasil?


O que faz surgirem estranhezas como um velho reacionarismo contaminando a juventude, a partir de grupos como o Movimento Brasil Livre? O medo de ver velhos feminicidas morrerem, mesmo na velhice plena? Ou o medo de ser cancelada uma simples padronização visual nos ônibus, voltando cada empresa a exibir sua identidade visual? Ou a leviandade de cancelar as conquistas trabalhistas históricas, criando uma "reforma" que só beneficia os patrões?

São loucuras que ainda são acrescidas, nessa novela surreal enlouquecida que se tornou o Brasil, com um "médium espírita" oferecendo seu evento para o lançamento oficial de um composto alimentar duvidoso condenado pelos movimentos sociais e pelas entidades sérias de saúde pública, e depois saindo de fininho beneficiado pelo "silêncio" da imprensa em geral.

E que situação enlouquecida é essa em que vive o Brasil? Explica-se isso pelo fato de que, desde 2016, a "geração 74", de privilegiados sociais do decorrer da década de 1970 - 1974 é o ano em que se combinou a herança do "milagre brasileiro" do general Emílio Médici com a "democracia com limites" proposta pelo sucessor Ernesto Geisel - , retomou o poder e se impõe como "dona" do presente e do futuro do nosso país.

A situação se compara à da "geração Nixon" dos EUA que se ascenderam durante a vitória eleitoral de Richard Nixon, em 1969, que em parte elegeu Donald Trump, se reúne em grupos reacionários que vão do Tea Party à Klu Klux Klan, apoia a truculência policial contra negros e tem muito medo de ver o psicopata Charles Manson (que prestou serviço à sociedade reacionária ao promover uma chacina que desmoralizou os hippies em 1969), já em idade avançada, falecer de repente.

Recentemente, Manson foi internado em estado grave, pela segunda vez este ano. Aparentemente, ele continua vivo até o momento de edição de nosso texto, ainda que esteja já com 83 anos de idade. Por sorte, a prisão lhe prolongou a vida, porque, se tivesse saído da prisão, na época da sentença perpétua dada em 1971, Manson, pelo seu estilo de vida, já teria morrido entre 1994 e 1997, talvez até antes.

O medo de ver assassinos ricos morrerem antes dos 90 anos é uma tônica dessa estranha sociedade nos EUA e Brasil. Se, por exemplo, um feminicida morre de infarto aos 55 anos, ninguém noticia - a não ser que ele sofra o mal no meio da rua, diante de tanta gente, porque aí não dá para esconder (ou alguém teria coragem disso?) - e ele só será declarado oficialmente morto após completar 93 anos de nascimento.

O que será que move essa sociedade que parece ser "invulnerável" e até "imortal"? A "geração 74" é a geração dos Illuminati contemporâneos? Diz a lenda que os Illuminati são um conjunto de diversos grupos sociais, reunidos sob critérios que vão do machismo ao jornalismo conservador, passando pela religião aos grupos paramilitares, sob o compromisso de estabelecer um modelo "ideal" de sociedade.

A "geração 74" sempre quis destruir ou enfraquecer o Brasil dos anos 1960 (1960-1964) e suas tentativas de recuperar e ampliar os progressos sociais nos anos 1980 e 2000. É identificada com valores medievais, sendo alguns membros mais radicais inclinados ao fascismo, e só admitem a modernização em aspectos formais, como o vestuário, a tecnologia, o vocabulário etc.

É uma geração que mistura o autoritarismo da Oceânia, a nação tirânica do livro 1984 de George Orwell com o autoritarismo "benevolente" do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, e que deseja uma democracia controlada no Brasil, movida pelo trabalho precarizado, pela caridade paliativa que mais expõe seus executores do que traz benefícios aos necessitados, e por uma "liberdade cultural" limitada que não permite questionamentos aprofundados.

Ela tomou o poder porque mantém sob controle os processos financeiros, hospitalares, técnicos, tecnológicos, publicitários, coercitivos, jurídicos e midiáticos, ou de outra natureza, que os fazem sobreviver a incidentes incômodos ou ameaçadores. São os privilegiados da sorte, cujos privilégios variam do porte de arma ao prestígio religioso, do poder financeiro à visibilidade pública, do caráter tecnocrático ao domínio jurídico.

E O "ESPIRITISMO"

Cada vez mais se comprova o apoio do "movimento espírita" aos movimentos conservadores dos mais diversos. De um longo caminho que indicou o apoio de "espíritas" (a partir da FEB e com o respaldo de Francisco Cândido Xavier) ao golpe de 1964, manifesto pela participação da religião na Marcha da Família Unida com Deus pela Democracia (fato registrado pelo historiador Jorge Ferreira) ao apoio ao governo Michel Temer, vai um longo caminho.

Esse caminho inclui tanto o próprio Chico Xavier apoiando, com indisfarçável prazer, a ditadura militar em sua pior fase (a título de comparação, o maior apoiador do golpe militar, o jornalista Carlos Lacerda, estava na oposição), sepultando a imagem de "progressista" associada de forma equivocada ao "médium", quanto o entusiasmado encontro do "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, com o presidente Michel Temer.

A atitude explícita de Divaldo Franco em usar o Você e a Paz, na sua edição paulista, para o lançamento oficial da "farinata" ou "ração humana" do decadente João Dória Jr., poderia até ter rendido um escândalo de gigantescas proporções dentro do "movimento espírita" não fosse o silêncio absoluto da imprensa. Nem a mídia de esquerda, normalmente mais informada que a hegemônica e de centro-direita, levou em conta esse fato e, dos religiosos, só criticou o católico dom Odilo Scherer.

Isso porque Divaldo entrou numa grande enrascada, como o rei de um jogo de xadrez que foi pego num xeque-mate. Divaldo, tido como "humanista", apoiou um complexo alimentar condenado por sanitaristas e ativistas sociais sérios, e o "médium" não sai inocente de sua grave decisão porque ambos os argumentos o deixam em grande desvantagem.

Se Divaldo agiu sem saber e desconheceu a gravidade do caso da "farinata" (feito com restos de comida e potencialmente nocivo à saúde humana), isso derrubou sua fama de "sábio", de suposto vidente de fatos futuros e de orador ilustre capaz de responder a todo tipo de questão da vida. Imagine um "médium" tido como capaz de ter respostas para tudo (o que rendeu os dois volumes de Divaldo Responde) não ter respostas para uma "comida estragada" disfarçada de complexo nutricional.

Se Divaldo agiu sabendo, isso derruba a sua fama de "humanista", porque apoiou um projeto alimentar que previamente - em relação ao dia do evento Você e a Paz - era condenado por nutricionistas, especialistas em saúde pública em geral e pelos movimentos sociais, ao consentir que João Dória Jr. lançasse a tal "farinata". Também derrubou a imagem de Divaldo como "caridoso", já que há denúncias de que o alimento de Dória teria envenenado internos em Jarinu.

Isso não é boato nem fofoca. Foi dado por uma imprensa conservadora, o jornal O Estado de São Paulo, que divulgou uma denúncia de que em uma instalação da Missão Belém, parceira do prefeito de São Paulo e da empresa Plataforma Sinergia na criação da "farinata", ocorreram várias mortes de internos, vários deles ex-moradores de rua, por efeito de desnutrição, desidratação, vômito e diarreia por suposta dieta a base de "farinata". Teriam sido usados como "cobaias" do produto.

As pessoas não perceberam isso, que demonstra o entrosamento dos "espíritas" com o atual momento. Serão eles também integrantes da plutocracia, ou dos "Illuminati" da "geração 1974"? A imprensa deixou perder uma boa oportunidade de analisar isso, achando que o apoio do "espiritismo" brasileiro ao governo Temer e seus associados "nada tem a ver", apenas sendo uma "formalidade de um espírito movido pelo perdão".

Não. Isso significa que os "espíritas" estão, sim, afinados com o momento de retomada conservadora. A complacência dos brasileiros, mesmo muitos progressistas ou de esquerda, esquece que Chico Xavier sempre pregou o silêncio em detrimento do questionamento, sendo um anti-Kardec convicto, e, o que é pior, um "médium" ultraconservador e até reacionário que fez "escola" para o verborrágico Divaldo Franco (um professor aos moldes da Escola Sem Partido) e o latifundiário João de Deus.

Isso comprova o quanto o "espiritismo" brasileiro rompeu com Allan Kardec, apesar de tantas e tantas e tantas bajulações ao professor francês, preferindo seguir com o igrejismo roustanguista que tanto empolgou os "espíritas" brasileiros, e cada vez mais voltado para ser uma atualização do antigo Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia puxando o projeto neo-medieval do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", que recriará sob novo contexto o Império Romano e o Catolicismo medieval.

sábado, 18 de novembro de 2017

João Dória Jr. suspende farinata. Mas o estrago já foi feito


É possível que as pessoas se empenhem em esquecer a terrível "farinata" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr., e busquem reabilitar o deturpador Divaldo Franco e seu evento Você e a Paz, deixando tudo para lá, inclusive o silêncio da mídia, diante do envolvimento de um "espírita" no apoio ao duvidoso projeto.

Esta semana o prefeito da capital paulista anunciou o cancelamento da "farinata" - que foi alvo de inquérito até do Ministério Público de São Paulo - e a substituição do alimento pelo programa "Alimentação Saudável", no qual priorizará no investimento em alimentos produzidos por pequenas propriedades de agricultura familiar para serem fornecidos nas escolas públicas e instituições religiosas.

Certo. O programa é copiado do que o antecessor Fernando Haddad, do PT (partido ideologicamente oposto do de Doria, PSDB), já fazia com maior amplitude, mas menos danoso. Pode ser um oportunismo político, mas é uma medida mais benéfica para a população. Mas isso não quer dizer que o caso "farinata" não produziu seus danos.

O estrago já foi feito. João Dória Jr., o arcebispo dom Odilo Scherer e a executiva da Plataforma Sinergia, Rosana Perrotta, são seus responsáveis oficiais do engodo, e respondem diretamente pelos atos de concepção do produto, feito ao arrepio das normas de nutrição e até de higiene e saúde pública.

Mas Divaldo Franco não pode escapar pela porta dos fundos, beneficiado pelo silêncio da imprensa, no qual nenhum jornalista teve o cuidado de refletir por que o nome de Divaldo e o do Você e a Paz apareciam na camiseta do prefeito de São Paulo. Aquilo não era coisa tipo um adolescente vestindo uma camiseta do grupo Nirvana, mas um vínculo de imagem, um esforço de associação do "médium" e seu evento à "farinata".

Como anfitrião do evento que lançou oficialmente a "farinata", Divaldo também tem que arcar com as consequências. Nem a firmeza caraterística de Allan Kardec o "médium" baiano seguiu, preferindo deixar o produto ser lançado sem qualquer apresentação de exames técnicos e documentos comprovando sua qualidade.

Divaldo Franco entrou em contradições até com a sua reputação de "sábio" e "humanista", porque apoiou um produto que os movimentos sociais definiram como "ofensa à dignidade humana". Como suposto "cientista", Divaldo não sabe que o Guia Alimentar para a População Brasileira desaconselha que um regime de alimentação saudável priorizasse um composto processado, em forma de biscoito ou granulado, recomendando alimentos em estado e qualidade próximos aos oferecidos pela Natureza.

Divaldo passou a situação como "desinformado" ou "complacente" com o produto, o que derrubou de vez a reputação do "médium", que meses antes havia feito um juízo de valor bastante severo contra refugiados do Oriente Médio, supondo que eram "reencarnação de antigos colonizadores" e alegando que eles retornavam à Europa "para retomar os tesouros do Velho Mundo".

Tal juízo de valor pode indicar, até mesmo, intolerância religiosa, não bastassem os potenciais danos morais que podem ser causados a indivíduos ou famílias que tomarem conhecimento dessa declaração do "maior orador espírita".

Certamente, a "farinata" passa mas a indigestão causada pelo episódio causaram um arranhão em Dória, Scherer, Perrotta e Franco, pelas posturas que tomaram e pela inicial insistência com que tentaram empurrar um produto condenado por entidades de saúde e movimentos sociais.

No caso de Divaldo, sua imagem de "ativista" foi derrubada quando foi apoiar um projeto alimentar condenado pelos verdadeiros ativistas sociais. E mais, o episódio mostra o quanto se agravou a crise no "espiritismo" brasileiro, sempre perdido em suas más escolhas.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Faz sentido apenas expor a teoria original de Allan Kardec?

NEM A LEITURA DAS TRADUÇÕES DE JOSÉ HERCULANO PIRES FARIA OS DETURPADORES DO ESPIRITISMO ESTAREM EM DIA COM ALLAN KARDEC.

O "espiritismo" brasileiro acumulou muitos problemas que foram escondidos debaixo do tapete. A opção igrejeira do roustanguismo fez com que uma série de más decisões fossem feitas, e, diante de muitos impasses, resultar em posteriores dissimulações.

Hoje o "espiritismo", na prática, se afastou de Allan Kardec. O professor de Lyon foi reduzido a um objeto de bajulação e sua apreciação se dá por conta de traduções catolicizadas das editoras FEB e IDE, o que não corresponde ao pensamento original da Codificação.

A hipocrisia acabou reinando entre os "espíritas" que cometem traições gravíssimas a Allan Kardec, mas juram de pés juntos que são "rigorosamente fiéis" a ele, algo que só pode ser definido como leviandade.

Não estamos dizendo isso por intolerância religiosa, mas por intolerância à farsa, à mentira e à dissimulação. A liberdade religiosa não pode ser usada como desculpa para que se cometam traições e deslizes e depois se esconda a sujeira debaixo do tapete.

Os "espíritas" fazem o que querem, mas querem sair pela porta dos fundos. São beneficiados pelo mito de que só podem ser responsáveis por seus atos quando eles são positivos e acertados. Mas, quando se tratam de erros e atitudes danosas, eles fogem de qualquer responsabilização mesmo quando dizem "assumir seus erros". Só que "assumem" para não serem punidos, e isso mais parece uma demonstração de orgulho: "Quem nunca errou na vida? Todos erram, nós somos que mais erramos na vida!".

Não há autocrítica e os "espíritas" se corrompem em vaidades imensas. Reduzem o suado trabalho de Allan Kardec a um engodo, desmoralizando o trabalho do pedagogo, que investiu nas pesquisas sem apoio alheio, senão o de sua esposa, e tirando o dinheiro do próprio bolso, diferente dos festejados "médiuns", que vão fazer turismo sob patrocínio de empresas ou desviando o dinheiro da caridade, só para falar coisas inócuas para os ricos e receberem medalhas dos poderosos.

O "espiritismo" chega a ser mais vergonhoso do que as seitas "neopentecostais". Elas, de fato, são retrógradas, obscurantistas e muitos de seus pastores, em suas pregações, parecem ensandecidos, mas o neopentecostalismo pelo menos não comete desonestidade doutrinária. A desonestidade pode ser pelo âmbito financeiro, cometendo estelionato religioso arrancando dinheiro dos fiéis. Mas eles, pelo menos, assumem que seus valores são retrógrados e voltados ao Velho Testamento.

Os "espíritas" seguem muitas contradições. A principal delas é alternar seu igrejismo entusiasmado, sua "vaticanização" convicta na prática mas nunca assumida no discurso, com eventuais exposições, aparentemente corretas, da teoria espírita original.

A interpretação correta dos textos de Allan Kardec, no entanto, não é garantia que os "espíritas" estejam realmente sendo fiéis aos postulados espíritas originais. Em muitos casos, há até mesmo uma alternância contraditória, em que num momento os "espíritas" expõem as ideias kardecianas autênticas (ainda que com base em traduções igrejeiras), em outro "soltam a franga" e expõem o mais derramado igrejismo.

Geralmente os "espíritas" só querem soar "corretos" em momentos mais discretos, mas dos quais são voltados a um público mais criterioso. São entrevistas em programas de TV - em boa parte, por assinatura - , canais da Internet, periódicos diversos e bastidores de seminários.

Mas quando se tratam de congressos "espíritas", lançamentos de livros e outros eventos nos quais existe um acolhimento mais caloroso das pessoas, eles ostentam o mais escancarado igrejismo, marcado por uma visão, herdada do Catolicismo medieval, sobre temas como religiosidade, fraternidade e caridade. Aí se mostram os "Constantinos" que em outros momentos fingem rejeitar a "vaticanização do Espiritismo".

Essa atitude contraditória revelou o fracasso da promessa que os deturpadores do Espiritismo fizeram, há mais de 40 anos, que é a de "aprender melhor o legado deixado por Kardec". Uns, exageradamente, falavam até em "viver Kardec", mas eram os primeiros a manter a deturpação em dia. O fracasso se deu porque a simples exposição das ideias kardecianas não impediu que seus expositores, em outras situações, manifestassem sua paixão pela deturpação igrejista.

São contradições assim que mancham o "espiritismo" brasileiro, que agora vive a sua mais aguda crise, agravada por circunstâncias recentes, como o apoio de Divaldo Franco à "farinata" de João Dória Jr.. E mostra o quanto a promessa de "aprender Kardec" não foi mais do que uma conversa para boi dormir.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

É mais fácil dizer que Papai Noel não existe do que apontar erros em "médiuns espíritas"


A sociedade anda apavorada ao saber que Divaldo Franco esteve associado à "farinata" de João Dória Jr., pelo fato de que o terrível alimento - que derrubou a já péssima reputação do prefeito de São Paulo - foi oficialmente lançado pelo evento Você e a Paz, que, apesar do patrocínio da Arquidiocese de São Paulo, é organizado por iniciativa do próprio "médium" baiano.

Sim, "médiuns espíritas" são dotados da mais absoluta blindagem. E isso deve porque eles são a suposta personificação de qualidades humanas fantásticas observadas em contos de fadas. Os estragos que a "fascinação obsessiva", através dos apelos emocionais do "bombardeio de amor" (um tipo de falácia marcado pelo excesso de emotividade e de afeto tendencioso), causou nos brasileiros foram devastadores.

Sabe-se que a "fascinação obsessiva" foi claramente reprovada por Allan Kardec, que a definiu como um tipo perigoso de obsessão, não tanto quanto a "subjugação". É a "fascinação obsessiva" que garante a adoração e a blindagem dos "médiuns" brasileiros por toda a solidariedade, a não ser da parte de juristas, jornalistas e acadêmicos, estes movidos pelo tipo mais perigoso, a "subjugação".

Isso porque a "fascinação obsessiva" é um tipo de submissão tomada de encanto, mas que não chega a interferir na consciência humana, dotada de aparente autonomia de ação. Já a "subjugação" é pior, porque é uma subordinação completa, porque nem mesmo a lógica, o bom senso e a coerência conseguem deter. A "subjugação" é uma "fascinação" em sua forma radical e ainda mais submissa ao espírito dominador.

"Fascinados" pela imagem "dócil" dos "médiuns", jornalistas, juristas e acadêmicos se recusam a investigá-los de maneira objetiva, criando simulacros de "investigação" que só servem para forjar alguma "polêmica" e, depois, deixar os "médiuns" intatos, mesmo quando se comprova seus erros e suas irregularidades.

Só para citar um exemplo, o caso de Humberto de Campos, cuja propriedade intelectual foi levianamente usurpada e empastelada pelo "médium" Francisco Cândido Xavier - que, em seu tempo, foi uma espécie de Aécio Neves da religião, com ranços "filantrópicos" de Luciano Huck - , foi um caso aberrante de impunidade, cujo ridículo da situação poderia ter sido apenas um capítulo do FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, de Sérgio Porto / Stanislaw Ponte Preta.

Mas não. Enquanto a obra original de Humberto, que havia sido um escritor bem popular no seu tempo, foi deixada de lado, oficialmente fora do mercado literário, as obras fake trazidas por Chico Xavier, que claramente destoam do estilo original do autor maranhense, continuam sendo lançadas e até divulgadas em feiras literárias, por causa de mensagens supostamente espiritualistas de claro conteúdo igrejeiro, de profundo agrado a uma parcela conservadora e moralista da sociedade.

Isso é uma leviandade e mostra o quanto os "médiuns espíritas", que se julgam até "acima de Kardec", são tomados da mais absoluta blindagem e não podem ser questionados, porque muitas pessoas reagem chorando e apelando para o discurso vitimista de "perseguição aos homens de bem". A imagem trazida pela "fascinação obsessiva", com um mundo de cor e fantasia, fala muito alto. Em blindagem, os "médiuns" superaram até mesmo os políticos do PSDB, famosos por tal situação.

Fica difícil dizer aos adultos que os "médiuns espíritas" são traidores da Doutrina Espírita. Imagine então identificar em Chico Xavier e Divaldo Franco como "inimigos internos do Espiritismo"? Isso é fato, porque os dois apresentam caraterísticas que haviam sido alertadas como negativas em O Livro dos Médiuns. Mas as pessoas vão correr para seus quartos e chorar copiosamente, diante de tão "infeliz acusação".

Isso é bem pior do que dizer a uma criança que Papai Noel não existe. A essas alturas, a criançada, que usa a Internet e tende a ser melhor informada das coisas - não por conta da poluição mental das redes sociais, mas por páginas informativas que as crianças, divergentes dos vícios dos jovens adultos, poderão consultar - , já deve perceber que o "bom velhinho" geralmente é um personagem interpretado por algum ator ou outro profissional durante os eventos natalinos.

Já dizer que os "médiuns espíritas" são charlatães, deturpadores do Espiritismo, criam obras "mediúnicas" fake - imagine Auta de Souza "perdendo" seu estilo feminino para "voltar" com o mesmo estilo de Xavier? - , praticam a "caridade" fajuta do Assistencialismo, são "vaticanizadores" da Doutrina Espírita etc, isso faz os adultos chorarem aos soluços ou espumar de raiva rancorosa.

Isso é muito mau. E mostra o grande absurdo que se tornou o que parece oficialmente a versão brasileira do Espiritismo. Uma doutrina que se afastou completamente do legado e até da conduta de Allan Kardec, um sujeito tão criterioso, observador e exigente que nunca teria aceito alguém divulgar a "farinata" usando o nome respeitável de um pedagogo francês.

Mas, de maneira bastante explícita, Divaldo Franco deixou que João Dória Jr. lançasse um alimento que especialistas e ativistas sérios definem como "ofensa à dignidade humana", usando o nome do "médium" e de seu evento. Divaldo deixou a máscara cair para sempre, revelando nunca ter sido discípulo de Kardec e, pior, provando nem sequer ter o espírito de firmeza e prevenção que havia marcado a pessoa do pedagogo de Lyon.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Distanciado de Allan Kardec, "espiritismo" brasileiro prova ser religião conservadora

O ATOR CARLOS VEREZA - "ESPÍRITA" E ABERTAMENTE CONSERVADOR.

O "espiritismo" brasileiro prova, cada vez mais, ser uma religião conservadora. Antes que os internautas médios tentem fazer uma "ginástica mental" e, com sua mania de argumentar com papo "cabeça" suas convicções pessoais, dizer que "isso não tem a ver", é bom prestar atenção aos fatos.

O "espiritismo" brasileiro sempre foi conservador, desde que preferiu, de forma mais aberta, o igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing ao cientificismo de Allan Kardec. Depois, porém, os "espíritas" passaram a desenvolver uma série de dissimulações, no sentido de que, mesmo praticando seu roustanguismo, deem a falsa impressão de que "aprenderam e passaram a respeitar Kardec".

Esse conservadorismo, no entanto, tornou-se mais explícito a partir de 1964, quando os "espíritas" participaram da Marcha da Família, em São Paulo, que pediu o golpe militar. Mesmo assim, prestando atenção nos maiores astros do "movimento espírita", os "médiuns" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, nota-se que ambos sempre foram pessoas extremamente conservadoras.

Chico Xavier era um caipira que, influenciado pelo ambiente social de Pedro Leopoldo, uma cidade que havia sido localidade rural na primeira metade do século XX, então um modesto distrito de Santa Luzia. Num contexto da República Velha, Xavier era um saudoso do Segundo Império. Sua educação era ultraconservadora e ele assimilou com prazer esses valores.

Xavier sempre foi conservador. Era até de direita, para infelicidade dos esquerdistas que, levados pela aparente humildade do "médium", foram apoiá-lo sem qualquer estranheza. Xavier era anti-kardeciano convicto, porque Kardec sempre defendeu o debate e o questionamento, e o "médium" (que alguns idiotas se atreveram a crer que foi "reencarnação do pedagogo francês") sempre recomendava o contrário, dizendo que o silêncio era "a voz que melhor soava aos ouvidos de Deus".

Daí não ser incoerência nem absurdo que Chico Xavier tenha defendido a ditadura militar, e logo em sua fase mais repressiva. E isso abertamente, num programa de TV de grande audiência, o Pinga Fogo, em 1971, com gravação reproduzida no YouTube, visto por milhões e milhões de pessoas.

Em 1971, parte da direita que apoiou o golpe militar estava na oposição. O maior entusiasta do golpe, o jornalista e ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, havia passado para a oposição, a ponto de fazer as pazes com seu desafeto Juscelino Kubitschek - numa lição de perdão de fazer os "espíritas" ficarem de queixo caído - e, juntos, tentar um movimento de redemocratização que só foi extinto por imposição dos generais.

Isso mostra o quanto Chico Xavier sempre foi uma figura abertamente conservadora, esculhambando, no Pinga Fogo, os movimentos operário e camponês, que são comandados por pessoas humildes. Isso tudo choca as pessoas que, movidos pelas paixões religiosas e pela fascinação obsessiva, construíram uma imagem idealizada dos "médiuns" como se fossem fadas-madrinhas de contos infantis.

Divaldo Franco também não difere muito. Mais verborrágico e dissimulado que Xavier, Franco também sempre foi conservador. Vestido à maneira dos velhos professores dos anos 1930-1940, Divaldo adota uma oratória rebuscada como se fosse um tribuno da República Velha, com ares professorais que remetem aos tempos de saber hierarquizado no qual professor e aluno eram separados pelo status quo que atribuía certo ar de superioridade ao docente.

Evidentemente, mesmo os aparentemente progressistas estranham isso. "Ué, mas o professor não é superior ao aluno, por ter mais experiência de vida e saber do que este?", pergunta um desavisado. É, mas desde as experiências trazidas por Paulo Freire, essa hierarquização havia sido quebrada, desde os anos 1960, quando o saber passou a ser democratizado e socialmente compartilhado, trazendo a realidade social para as salas de aula.

É essa quebra de hierarquia do saber que a Escola Sem Partido quer combater. Embora seja um projeto de evangélicos, identificamos na pedagogia do "espiritismo" brasileiro, em instituições como a Mansão do Caminho e a Cidade da Luz, elementos da Escola Sem Partido. Há até uma piada de que a sigla desse projeto remete às três primeiras letras de "espiritismo", o que parece, no contexto brasileiro, ter tudo a ver.

Nos últimos tempos, os "espíritas" passaram a se identificar, pasmem, com figuras decadentes e impopulares da vida política nacional, mas alinhadas com um projeto ideológico conservador. A adesão de Divaldo Franco a João Dória Jr., a ponto de oferecer o Você e a Paz para o lançamento de um estranho complexo alimentar, e a de João Teixeira de Faria, o João de Deus, a Michel Temer (político com aprovação de apenas 3% dos brasileiros), é ilustrativa.


Agora é a vez do ator Carlos Vereza, "espírita" convicto, intérprete do dr. Adolfo Bezerra de Menezes no cinema, mas também feroz crítico das esquerdas, membro do Instituto Millenium e apoiador da Operação Lava Jato. Provável suspeito de levar Camila Pitanga para o "bom caminho do Espiritismo", junto ao "coronel" João de Deus, Vereza recentemente visitou o presidente Temer para lhe prestar apoio, num encontro realizado anteontem, em Brasília.

Nesse encontro, Vereza pedia a Temer políticas de combate à "ideologia de gênero", ou seja, as mudanças sociais que estimulam as relações homoafetivas (casais do mesmo sexo). "Estão mudando toda a biologia", "estão erotizando e traumatizando nossas crianças", disse Vereza, afirmando sua postura homofóbica, por ironia, poucos dias após outro ator da Rede Globo, Luiz Fernando Guimarães (do seriado Os Normais) revelar que está casado com outro homem.

O "espiritismo" tem uma postura dúbia em relação ao homossexualismo, sem definir claramente contra ou a favor, hesitando entre conceitos de "livre-arbítrio" e o moralismo social conservador. Mas Chico Xavier deixou vazar sua homofobia, no final dos anos 1960, quando atribuiu o homossexualismo à "confusão mental de pessoas encarnadas".

Outra bandeira dos "espíritas" associada a pautas conservadoras é a reprovação radical do aborto, do qual não admitem sequer a hipótese de estupro, já que, defensores da Teologia do Sofrimento, preferem que a vítima e o estuprador se "entendam" num "acordo fraterno".

Em compensação, os "espíritas" defendem também a criminalização da vítima (a tese dos "reajustes morais") e consideram o homicídio "menos grave" que o suicídio, pois, enquanto consideram o suicídio um "crime hediondo", o homicídio é quase sempre "culposo", supostamente movido por "antigas dívidas" entre executor e vítima. Essa pauta revela o quanto o "espiritismo" também tem seu lado punitivista.

Muitos irão argumentar que os "espíritas" dariam a mesma consideração até a João Pedro Stédile, líder do MST, se uma vez o encontrassem. Engano. Seria o mesmo que dizer que o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, ou as páginas amarelas da revista Veja, do Grupo Abril, estivessem solidárias a esquerdistas só porque abriram espaço para entrevistá-los.

Uma coisa é a consideração diplomática, uma espécie de cordialidade formal. Outra coisa é a cumplicidade, a afeição, a preferência afetiva, e nisso os "espíritas" revelam predileção explícita aos conservadores, e, como se não bastasse, a políticos decadentes, em crise de reputação, algo tão explícito que não se pode comparar a baixa reputação de Temer e Dória a Jesus de Nazaré condenado na cruz, porque Jesus era uma figura progressista.

Pior é que os "espíritas" aderem ao governo Michel Temer - que apoiavam desde sua ascensão - de forma ainda mais escancarada justamente quando ele lança as medidas retrógradas, como as "reformas" que causam a degradação do mercado de trabalho.

Isso lembra o caso de Chico Xavier apoiando a ditadura militar na sua fase mais repressiva, cometendo o descaramento de pedir para "orarmos pelos generais" (e, por conseguinte, para os coronéis, como Brilhante Ustra e Sérgio Fleury, e para instituições "de muita luz" como o DOI-CODI), que estariam criando um "reino de amor" do Brasil futuro.

Que "reino de amor" é esse que se desenvolve sob o banho do sangue de inocentes é algo que não dá para explicar. Também não dá para apelar para a "ginástica mental" dos "filósofos de Facebook" a fazer teorias persistentes para suas convicções. O "espiritismo" brasileiro mostra seu caráter conservador, uma realidade que as paixões religiosas e a fascinação obsessiva tentam a todo custo esconderem das pessoas.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Por que estamos falando muito do caso Divaldo Franco-farinata?


ALIMENTO PODERIA TER CAUSADO INTOXICAÇÃO, SE FOSSE OFERECIDO PARA ESCOLAS E INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS.

Muitas pessoas estão apavoradas, diante da associação de Divaldo Franco ao episódio da "farinata" do prefeito de São Paulo, João Dória Jr.. O estranho alimento, condenado por nutricionistas e ativistas sociais por não conter dados nutricionais conhecidos e representar uma ofensa à dignidade humana, abalou seriamente a reputação do político.

Mas a associação de Divaldo assustou as pessoas, que evitam ler as páginas que tratam do delicado assunto, tão medrosas e tomadas do mais completo e preocupante apego à imagem adocicada de um "médium", sempre envolta de flores, céu azul, nuvens brancas e sol, como se fosse uma fada-madrinha de contos de fadas. Só de ver o título, evitam ler textos que iriam derrubar suas ilusões e fantasias em torno de um mito religioso.

"Tem certeza disso? Quem foi que disse essa mentira?", arriscam-se a dizer, chorosamente, muitos. Só que essa "mentira" pode ser facilmente identificada pela camiseta apresentada por João Dória Jr. em fotos divulgadas amplamente pela imprensa em todo o país.

Portanto, foi João Dória Jr. que revelou essa associação, e, até agora, Divaldo Franco não processou o prefeito de São Paulo pelo uso de seu nome e do nome de seu evento. Dória, um representante das elites, poderia ter aparecido no evento apenas de paletó e camisa comum de colarinho.

O fato de Dória ter aparecido, no Você e a Paz, com camiseta do evento, casaco esportivo e tênis, é até irônico para sua sociedade, porque no contexto das elites existem empresários, economistas, advogados e até médicos que usam terno e sapatos sem a menor necessidade, até para comprar pão na esquina, um passeio num shopping ou para ver uma tola comédia de cinema com a esposa num domingo.

O vínculo de imagem é coisa séria. O fato de João Dória Jr. usar a camiseta do Você e a Paz e Divaldo consentir o uso do evento e de seu nome e ainda oferecer o encontro para homenagear o prefeito indica compromissos e responsabilidades graves. Admitir isso não é intolerância religiosa nem perseguição a um "homem de bem". São fatos reais e decisões graves que o prestígio religioso não pode pôr debaixo do tapete.

Não se usa o prestígio da fé para acobertar más decisões. É muito fácil dizer que um "médium", ao cometer um deslize grave, "fez sem saber". Muito provavelmente, o próprio Allan Kardec teria feito cobranças similares a Divaldo, o pedagogo francês, com sua firmeza e coerência, teria sido "tão chato" quanto nós ao cobrar responsabilidades de um "médium" que abriu seu evento para o lançamento de um alimento duvidoso e depois saiu de fininho.

POR SORTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS

O que faz nós batermos a tecla neste assunto ocorrido há um mês e, aparentemente, está superado, se deve a vários fatores. Um é o silêncio da imprensa, que fez vista grossa para a camiseta que João Dória Jr. ostentava claramente para o Brasil e para o mundo. Outro é o risco que um alimento de caráter duvidoso poderia causar, se fosse realmente lançado.

O que faz tranquilizar muitos incautos é a sorte das circunstâncias. O silêncio generalizado da imprensa evitou que se produzisse um escândalo de grandes proporções no "movimento espírita". O fato mais aberrante é que a imprensa de esquerda também compartilhou desse silêncio, porque, se fosse a imprensa conservadora, de direita, isso seria compreensível, porque esta, a partir da Rede Globo de Televisão e do Grupo Abril, faz blindagem com os "médiuns espíritas".

Aparentemente, a imprensa de esquerda parece ser tomada de um paulistocentrismo, uma concepção, um tanto bairrista, de coisas que acontecem em São Paulo. Essa visão faz crer, por exemplo, que o poder midiático só se expressa em empresas com escritórios na capital paulista - o que, erroneamente, credita como "mídia alternativa" a Rádio Metrópole FM, de Salvador, do barão midiático Mário Kertèsz - , embora tal ilusão, se usasse como parâmetro ter escritórios em Nova York, também faria muito veículo da grande mídia hegemônica brasileira parecer "mídia alternativa".

O paulistocentrismo permitiu à imprensa de esquerda uma certa "desinformação" de que Você e a Paz é um evento idealizado e comandado por um "médium espírita". Acreditaram, ou, talvez, fingiram acreditar, que o Você e a Paz, só por envolver mais de uma religião (o encontro acolhe setores do Catolicismo e do Protestantismo), foi um evento promovido por uma entidade católica local, a Arquidiocese de São Paulo, e o arcebispo dom Odilo Scherer pagou sozinho o apoio à "farinata".

Outro aspecto é que, simplesmente, a má repercussão evitou o lançamento da "farinata", o que, por sorte, fez com que a potencial ameaça não ocorresse, embora haja denúncias de que, numa instalação da Missão Belém em Jarinu, no interior paulista, catorze internos, vários ex-moradores de rua, teriam morrido por causa do consumo constante de "farinata", tendo supostamente servido de "cobaias humanas" do alimento feito a base de restos de comida de procedências duvidosas diversas.

QUEDA DE REPUTAÇÕES

Imagine, porém, se o alimento tivesse lançado e, pouco depois, ocorresse uma série de intoxicações alimentares de alunos da rede pública de São Paulo que passaram dias se alimentando a base de "farinata", com algumas mortes? Seria muito grave, para um "médium" que diz responder todos os assuntos, ter oferecido um evento para um composto alimentar muito perigoso.

Paciência. Vivemos tempos em que reputações andam caindo. O ator José Mayer, meses atrás, foi denunciado por assédio sexual, chocando muitos de seus admiradores. No exterior, o premiado produtor de Hollywood, Harvey Weinstein foi também denunciado por atos similares. Há poucos dias, o badalado jornalista da Rede Globo, William Waack, foi flagrado num vídeo no qual afirmava, sob risos, que "buzinar era coisa de preto".

Nenhum prestígio autoriza a pessoa a fazer o que quer. O que chamamos a atenção, e as pessoas se recusam a admitir, é que o prestígio religioso também não tem essa autorização, pouco importando se o sujeito está ou não "mais próximo de Deus".

Divaldo Franco tinha toda chance de cancelar a homenagem a João Dória Jr., se soubesse do risco que o produto que o prefeito iria lançar representaria. Também faltou a Divaldo a firmeza de um verdadeiro líder, que poderia muito bem exigir do alimento o rigor de exames e documentos confirmando se o produto era ou não uma ameaça à saúde pública. E logo Divaldo, que se julga o "maior e mais correto (sic) discípulo de Allan Kardec" no Brasil!

QUALQUER ALIMENTO NECESSITA DE EXAMES TÉCNICOS PARA CHEGAR AO MERCADO

Exigir exames e documentos não é falta de misericórdia. Todo alimento precisa desses exames técnicos. Mesmo os produtos mais conhecidos dos brasileiros, como um leite em pó ou uma salsicha de marcas bem conhecidas, não são postos no mercado sem antes haver exame rigoroso, pelo qual se obtém documentação, vistoria e avaliação pelos ministérios da Saúde e da Agricultura.

O ministério da Agricultura só autoriza a comercialização do produto se ele passar por esses exames e receber, do referido órgão, o carimbo de qualidade. Pode ser leite Ninho, salsicha Sadia, manteiga Qualy, tantos outros, nenhum deles é lançado sem passar por esses exames.

Daí que foi muito, muito grave a decisão de Divaldo Franco de oferecer seu evento para lançar a "farinata", sem ter a firmeza e o rigor de seu alegado mestre francês. Se um prefeito de Paris se dirigisse a Kardec para pedir que este lançasse um composto alimentar, é bem provável que o pedagogo exigisse uma comprovação técnica e uma documentação rigorosa a respeito, talvez dizendo as seguintes palavras:

"Tenho muita consideração à sua pessoa e à sua qualidade de amigo, mas sinceramente me recuso a atender esse favor, no desconhecimento completo que eu tenho da natureza desse alimento. Há garantias de que ele é processado com os cuidados de higiene necessários? As entidades sérias de saúde pública e nutrição já avaliaram previamente o produto? 

Eu, pessoalmente, tenho muitas dúvidas a respeito desse produto e não acredito que ele, em si, possa atender sozinho às necessidades nutricionais dos mais pobres. Vejo em Vossa Senhoria uma pessoa com a qual tenho muita consideração, mas não posso chegar ao ponto de aceitar a sua solicitação sem que eu tenha a segurança necessária da qualidade desse alimento. 

No entanto, vendo a natureza do projeto que me é apresentado, prefiro, pessoalmente, não atender ao seu pedido, pois não me cabe me responsabilizar por algo que considero bastante incerto e duvidoso. Espero que compreenda".

O que Divaldo Franco fez, foi, portanto, extremamente grave, porque ele ofereceu o evento dele para o lançamento oficial do produto. Isso não é invenção, é fato, está claro na camiseta exibida por João Dória Jr. que aparece nas fotos da imprensa. O mais grave, ainda: Divaldo permitiu o lançamento de um alimento que não só careceu de exames técnicos, como foi previamente condenado por entidades de saúde pública e nutrição e movimentos sociais que viam nele uma ofensa à dignidade humana.

Não se pode acobertar as coisas sob o pretexto do prestígio religioso. Divaldo, na intenção de evitar o risco de brigar com os parceiros católicos e evangélicos do Você e a Paz e de decepcionar o prefeito homenageado, deixou ocorrer um risco maior, que é o de oferecer o evento para o lançamento oficial de um alimento previamente condenado.

O silêncio da imprensa não inocenta Divaldo, que deve ser responsabilizado pelo seu ato. Ele terá agora que abrir mão de sua "perfeição" e que, se os brasileiros forem menos ingênuos, que devolvessem os volumes da série Divaldo Responde às livrarias, cobrando desembolso do dinheiro gasto, porque foi constrangedor um homem que diz "ter respostas para tudo" não ter respostas sobre um alimento duvidoso. Vamos pôr a realidade acima das paixões religiosas, gente?
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