MARCOS FALCON, PRESIDENTE DA ESCOLA DE SAMBA PORTELA - Vítima de pistolagem cometida à luz do dia.
O Rio de Janeiro se provincianizou de vez. Depois de um linchamento em Ipanema, que matou um vendedor ambulante, num episódio típico de cidade do interior que nunca foi urbanizada, agora é a pistolagem ocorrendo em plena tarde, num bairro destacado da Zona Norte.
Na Madureira onde as autoridades cariocas planejavam uma "Zona Sul de mentirinha", criando uma pequena praia com funcionamento limitado - abrindo às 9h, contrariando recomendações médicas - para uma demanda suburbana que, citando Tim Maia, vai do Leme ao Pontal, um homicídio típico de interior paraense aconteceu em plena tarde, anteontem.
O carismático presidente da Escola de Samba Portela, Marcos Falcon, de 52 anos, foi assassinado por pistoleiros dentro de seu comitê de campanha, do qual ele era candidato a vereador, em torno de 16 horas, próximo à Rua Maria José, numa área movimentada do referido bairro. Os pistoleiros pareciam tranquilos e conseguiram fugir.
A pistolagem ocorrida ontem é apenas mais um episódio de uma onda que está atingindo candidatos a cargos políticos na Baixada Fluminense e nos subúrbios do Rio. É um cenário típico do Norte brasileiro, em tempos ditatoriais, quando o coronelismo que apoiava o regime militar praticamente fazia a "limpa" nas zonas rurais, exterminando quem "trazia problemas para os donos das terras".
A gente até conta os dias para ver quando eles serão capturados - consta-se que eram quatro - pois, até a edição deste texto, ninguém foi preso. A título de comparação, um assalto que aconteceu em Aracaju, semanas atrás, numa emissora de rádio, a 103 FM, ocorreu na noite de sábado, com a cidade quase sem movimento nas ruas, e em quatro dias quatro suspeitos foram presos.
O carioca pensa que é brincadeira quando se fala que o Estado do Rio de Janeiro sofre um processo avassalador de decadência, atingindo níveis dramáticos. Parece até que há uma epidemia da Síndrome de Riley Day que faz os cariocas não sentirem mais dor nem noção de graves problemas, com famílias indo felizes para restaurantes diante de um fedorento caminhão de lixo estacionado com seu odor tóxico contaminando os alimentos.
A decadência não é apenas questão de máquina administrativa. Não é questão de falta de dinheiro, porque uma crise não se define tão somente por problemas financeiros, aliás a grana curta é justamente um aspecto menor de uma crise que envolve práticas, mentalidades, visões de conjunto etc.
O Rio de Janeiro decai por muitos e muitos aspectos. Não é uma campanha negativa, afinal, gostaríamos de nunca escrever textos como estes, mas cabe denunciar os piores erros para chamar a atenção das pessoas. A decadência carioca se dá sobretudo por causa de um espírito coletivo de pessoas que, em nome da ética, foram capazes de eleger gente como o deputado Eduardo Cunha, que com muito trabalho (mas também muita hesitação) foi afastado do poder.
Ninguém questiona, ninguém se mobiliza, as pessoas dependem de um Jornal Nacional, de um jornal O Dia, de um Cidade Alerta ou Brasil Urgente para tomar alguma posição na vida. Pouco importa se, na saída de casa, com os ônibus com a terrível pintura padronizada, pessoas com muito sono - sobretudo quando vêm de uma noite com futebol e gritaria de torcedores - , têm dificuldade de discernir o ônibus que vai para Marechal Hermes do que vai para Água Santa.
Ninguém questiona essa aberração sobre rodas que esconde empresas, favorece a corrupção e confunde os passageiros que, acordando com sono e com muitos compromissos pessoais, ainda têm que saber a diferença de uma Matias de uma Verdun, de um Redentor e uma Real Auto Ônibus porque tudo agora tem a mesma pintura, ainda mais com o irritante design de embalagem de remédio.
E não se pode questionar porque, pelo autoritarismo carioca, contestar a pintura padronizada nos ônibus é garantia de reação furiosa de busólogos reacionários - que se comportam como se valorizassem mais tanques do Exército do que ônibus - capazes de criar blogues de difamação gratuita para insultar quem discorda de suas ideias retrógradas.
Mas a decadência carioca que já preocupa com a arrogância narcisista dos fumantes, com o desabastecimento viciado de produtos que demoram a serem repostos nos supermercados - como se o Rio de Janeiro não fosse um dos centros de fabricação e distribuição de produtos - , com a gritaria animalesca de fanáticos por futebol ainda prepara a "monocultura" que se concentrará em dois produtos, o "funk" e o "sertanejo".
E isso quando as relações sociais acabam pautadas pelo consumismo, em que pessoas se encontram para cada uma se isolar no entretenimento supérfluo do WhatsApp e no espetáculo consumista de frequentar boates e lanchar nas piores lanchonetes (que se autoproclamam "restaurantes"!) comprando felizes os combos explosivos que caem como bombas nos estômagos.
A decadência do Rio de Janeiro se observa nas ruas sujas e empoeiradas, na nuvem de poluição que toma conta da vista da Baía da Guanabara, das ruas com aspectos de velhas, dos fios elétricos amontoados e uns caídos no chão, oferecendo risco mortal para os transeuntes, da falta de logística do mercado, da baixa visão do mundo dos cariocas (salvo honrosas exceções, que nem aparecem na mídia), e com uma criminalidade que corre solta à luz do dia.
Isso não é complexidade de vida urbana moderna. Até porque os problemas nessa ordem não atingem a gravidade que se observa hoje. O Rio de Janeiro, seja o Estado e sua outrora imponente capital, decai como se estivesse em queda livre, com um surto de provincianismo que assustaria até caipiras isolados do Norte do Brasil. É hora do Rio de Janeiro se mexer, deixar a arrogância de lado e sair de sua zona de conforto. Há muitos erros, gravíssimos, a serem combatidos.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
A sordidez do moralismo religioso
Com a efetivação do retrógrado governo de Michel Temer e a consagração de um factoide como um suposto "segundo milagre" para a canonização de Madre Teresa de Calcutá, o "espírito do tempo" do moralismo religioso revela seu lado de sordidez e hipocrisia.
Denúncias de que Madre Teresa teria sido cruel com os "assistidos", tão cruel que não deixava sequer médicos trabalharem em suas casas nem familiares buscarem seus parentes para levá-los a hospitais, derrubam a "inabalável" ideia de que a freira albanesa é a "caridade personificada", sendo usada até como paradigma de generosidade, filantropia ou humildade.
A sordidez do moralismo religioso, que aprisiona o sentido de bondade submetendo-o ao rótulo religioso, permite tanto que governos "laicos" - mas também apoiados por várias seitas religiosas, como o neopentecostalismo e o "movimento espírita" - como o de Michel Temer se consagrem com uma pauta bastante amarga para o povo brasileiro.
Uma pauta que inclui o prolongamento da aposentadoria, num país em que a meia-idade e a velhice mais precisam do lazer, e não do trabalho, para repensar a vida. Ou então que exigirá do trabalhador maior carga horária, enquanto cancela encargos e garantias sociais. Além de receber menos, o trabalhador ainda perderá o direito ao atendimento na saúde pública, pagando planos de saúde privada cujas tarifas caras servem mais para abastecer o luxo dos médicos de nome.
Sofrer é bom? Para a religião, parece que é. E nada como o "espiritismo", religião que, até mais que a própria Igreja Católica, recicla valores do Catolicismo medieval português - difundido pelo movimento jesuíta no período colonial, lembrando que padres, freiras e sorores jesuítas são "mentores" de muitos "centros espíritas" - , para revelar seu vínculo com a Teologia do Sofrimento.
O palestrante religioso chega, em primeira instância, dizer que o sofrimento serve para "reajustes espirituais", jargão que corresponde à expressão católica "purificação dos pecados", e, em seu discurso supostamente racional, o mensageiro de ocasião apela para o sofredor "não reclamar da vida" porque é "na pior das desgraças que a bênção de Deus se instala na alma do sofredor".
Pura hipocrisia. Esse discurso é tão hipócrita que, em primeiro momento, o ideólogo "espírita" é austero e taxativo em seu julgamento de valor. Ele diz que "o sofrimento (por si só) dignifica" - quando o que realmente dignifica é o esforço do sofredor para superar uma desgraça - e diz que a pessoa tem que aceitar o sofrimento, abandonar suas "paixões" e se convencer que o "pior inimigo" do sofredor é ele mesmo.
Isso evidentemente pega muito mal. A apologia do sofrimento, em primeira instância, revela o julgamento moralista severo do "espírita", que se gaba em ser o "dono da verdade" e o possuidor da "palavra final", mas que é criticado por ignorar que as pessoas têm suas necessidades individuais e que a individualidade não é sinônimo de materialismo nem frescura.
Evidentemente, diante das críticas, o "espírita" que se acha (sem assumir, todavia, no discurso) "possuidor da verdade", no entanto, tenta mudar o seu discurso. Ele tenta argumentar que "ninguém veio para sofrer" e o que o sofredor vive são "provas" que são "necessárias para sua superação".
O "espírita" que ficou severo demais no primeiro momento tenta ceder no segundo. Isso já lhe tira o mérito da "palavra final", embora ele sempre insista no seu exército de palavras "bonitas" para tentar vencer a batalha retórica, sob a desculpa de que o referido palestrante, por falar palavras-chave como "amor" e "fraternidade" e, em tese, estar no lado de Jesus e Deus, pode sim, "estar" com a verdade.
E o que ele tenta dizer mais? Ele tenta enrolar dizendo que o sofredor deveria "conhecer novas habilidades", ter "autoconhecimento", "confiar em Deus" e "buscar novas soluções". Quanto a esta última sugestão, isso até é óbvio, porque é sempre do instinto de alguém sofrer buscar uma solução de superação. Outra pessoa aconselhar essa tarefa, além de não acrescentar coisa alguma, chega a ser até chato de se ouvir. Não se aconselha algo que já está sendo feito.
Há uma sordidez nesse moralismo, porque os religiosos, que acham que "conhecem a verdade" e "estabelecem contato com o oculto", não compreendem a complexidade da vida humana. Não sabem que indivíduos têm necessidades diferentes e elas não podem ser vistas como meros caprichos materialistas ou paixões mundanas.
O que há de mais sádico é que os "espíritas" acham que, por existir a vida espiritual e por haver várias encarnações, se pode aceitar que uma encarnação de cerca de 80 anos seja desperdiçada em desgraças e numa degradação da vida em que o indivíduo não molda suas vontades e desejos, mas simplesmente os anula, já que as desgraças são tantas e os esforços para superá-las, inúteis, que o sofredor se reduz a ser um mero brinquedo das circunstâncias adversas.
Isso é muito sórdido. E, se percebermos que o "espiritismo" admira Madre Teresa de Calcutá quase como um ícone da doutrina, faz sentido que a doutrina que se diz kardecista mas nada tem a ver com Allan Kardec seja uma "fábrica de sofredores", transmitindo energias pesadas naqueles que seguem com devoção tal doutrina brasileira.
A religião acaba sendo a fortuna simbólica dos aristocratas da fé e é isso que muitos não conseguem entender quando Jesus de Nazaré fazia duras críticas aos sacerdotes do seu tempo, por práticas extravagantes, preceitos e valores que, ironicamente, são feitos justamente por aqueles que seguem o antigo ativista. Os hipócritas de hoje evitam serem comparados aos hipócritas do passado, bajulando aquele que justamente condena a hipocrisia, independente de que época e pessoa vier.
sábado, 24 de setembro de 2016
O religioso, o sofrimento e os juízos de valor
O Brasil vive uma restauração conservadora preocupante, através do governo de Michel Temer e sua agenda voltada para o obscurantismo social e para o elitismo financeiro. E os religiosos aproveitam isso para se mostrarem triunfantes, sem precisar perder tempo com coitadismo.
Quem está dotado de algum status quo superior, ainda que esteja decaindo em qualidade intelectual e moral, está tentando se impor de maneira desesperada, através de três recursos: investimentos financeiros, brechas jurídicas e persuasão midiática.
Os religiosos, que em si se acham portadores do combo "Deus, Jesus e bondade" que os faz se considerarem "donos da verdade absoluta", tentam pregar a Teologia do Sofrimento de alguma forma, sem no entanto assumir esse nome, que pode assustar os mais ingênuos.
Eles tentam pregar que o sofrimento é "positivo", que ele "leva a pessoa para o caminho da superação" e tudo o mais. Aí a pessoa sofre desgraças sucessivas, sobrevive com extrema dificuldade e, quando, por sorte, atinge a prosperidade, seu exemplo serve para a exploração leviana e ostensiva de religiosos que alimentam suas vaidades às custas do sacrifício alheio.
Há juízos de valor que fazem os religiosos dizerem que o sofredor tem que deixar de ser ele mesmo, buscar outras opções de afirmação pessoal e deixar de lado as necessidades mais essenciais. Se só resta a capacidade de respirar, é a "graça de Deus". Mas, num Rio de Janeiro cheio de fumantes por tudo quanto é canto, deve-se abrir mão até de respirar...
No "espiritismo" brasileiro, sua doutrina não conhece devidamente os conceitos de reencarnação e vida espiritual, apenas tendo uma compreensão superficial que só serve para dar falso diferencial a seu igrejismo medieval,
Isso é grave. Gente que mal sabe o que é vida espiritual se acha no direito de dar seu pitaco ao sofredor que sofre desgraças sucessivas e limitações difíceis de serem superadas. Fala nos tais "resgates espirituais" e ainda diz para a pessoa abrir mão de seus desejos e necessidades. Se o cara tem vocação para ser servidor público e não consegue, então vá ser flanelinha de rua.
Os religiosos não sofrem. É fácil para eles cobrar austeridade dos outros, renúncia à individualidade, confundida com "paixões terrenas" ou "caprichos materialistas". Temos uma encarnação estimada em 80 anos e tanto faz para os religiosos que tudo se desperdice em desgraças gravíssimas, e, no caso dos "espíritas", achar que, se perde uma encarnação, não faz mal, tem outra depois.
Só que nenhuma encarnação é igual a outra. São outros contextos, outras situações, outros impasses. Uma mesma cidade pode mudar muito em cinquenta anos, as oportunidades não se repetem. O Rio de Janeiro de 1958 tornou-se até pior 58 anos depois. Não há como exigir, por exemplo, um cenário de Bossa Nova como no passado ou que uma cantora de axé-music cante com a mesma doçura intensa de uma Sylvia Telles.
Os religiosos que recebem medalhinhas, condecorações, têm representantes no Congresso Nacional, são cortejados pela grande mídia patronal, são intocados pela Justiça por mais que cometam erros gravíssimos, eles não sabem a natureza de quem sofre infortúnios.
Os juízos de valor parecem lindos e sábios quando tomados do verniz de falsa superioridade em que se apoia a retórica religiosa. Crueldades imensas podem ser legitimadas por um discurso dócil, paternal, que sugere que até mesmo o holocausto pode ser um "sacrifício necessário" a ser aceito sem queixumes, sob a desculpa de que haverá "outra vida" e "bênçãos futuras" mais adiante.
Não é o religioso que perde a casa por causa de uma tempestade. Não tem um parente morto em um assalto, não leva um fora de uma mulher que ele considera ideal, não perde o emprego no qual estava preparado para exercer, não sofre impasses que dependem de uma overdose de pais-nossos para serem resolvidos.
O religioso está aí, com seus desfiles de palavras bonitas, formosas e eloquentes, um desfile fashion da cosmética retórica das boas frases. E os "espíritas" são os que mais investem nesses desfiles, principalmente agora, no governo Temer, em que apelos desesperados pelo conformismo alheio diante dos retrocessos pesados que virão são dados.
Usando como pretexto ideias como "Deus", "Jesus" e "caridade", os "espíritas" se acham beneficiados pelo juízo de valor que fazem e pela palavra final que acreditam possuir. Acham que um bom desfile de palavras bonitas irá resolver as coisas da vida, mas aí a gente se lembra de um famoso ditado popular.
Assim como, segundo a alegoria, no inferno há uma abundância de boas intenções, nele também repousam as mais belas palavras. E o "umbral" dos "espíritas" é onde residem as mais lindas palavras e os mais belos exemplos que, na verdade, só conseguem mostrar o quanto sofredores deram duro para obter algum benefício e isso só serve para alimentar as vaidades paternalistas dos palestrantes do "espiritismo".
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
A catástrofe do cenário político do Brasil de hoje
A situação que o Brasil vive hoje é simplesmente assustadora. E mais assustadora porque a sociedade considerada "mais influente" permance na sua indiferença, como pais de família que acham que o incêndio a atingir os quartos de dormir deles e dos filhos fossem apenas uma festinha com churrasco.
O quadro é caótico e o Brasil está à deriva. Setores do Poder Judiciário, do Ministério Pùblico e da Polícia Federal movidos pela compreensão tendenciosa e parcial das leis e pela condenação seletiva apenas de suspeitos "mais incômodos". Uma grande mídia de rádios e TVs decadentes, e de uma imprensa que cada vez mais esquece seu compromisso com a informação, publicando mentiras aberrantes e descaradas.
Capitais que sofrem sérios retrocessos sociais como Rio de Janeiro e Curitiba cada vez mais perdem a condição de servirem de "cidades-modelo" para qualquer coisa no país. Nem para popularizar campeonatos de cuspe à distância como se fossem a "última palavra do entretenimento" no Brasil essas capitais, e muito menos São Paulo, servem mais.
Desde que toda uma campanha para derrubar Dilma Rousseff, com base em acusações infundadas e muito vagas, referentes a práticas que seriam normais a qualquer presidente da República, o Brasil não só não resolveu sua crise econômica como a fez se agravar e, o que é mais grave, a ela acumulando uma série de crises de natureza política, social, institucional, jurídica e midiática.
Existe até a crise cultural, que há muito tempo fez a chamada cultura popular se degradar com fenômenos da música, da imprensa, das (sub)celebridades etc patrocinados pela mídia oligárquica e patronal como se fossem "representantes autênticos" das classes populares e apoiados por uma intelectualidade associada e pseudo-progressista.
O Brasil vive uma verdadeira catástrofe no qual as forças retrógradas sociais se extasiaram com a volta aos "bons tempos" (leia-se Era Geisel, quando a sociadade brasileira estava, aos olhos da plutocracia, num patamar ideal). Até a onda de feminicídios conjugais, que já intensificava desde 2013, voltou a todo o vapor, fazendo a festa de machistas que "brincam" com facas, revólveres ou, às vezes, venenos.
E toda essa catástrofe, que faz com que especialistas sérios afirmem que o Brasil entrou na Idade Média, deixa as pessoas indiferentes vivendo uma felicidade assustadora, não pelo suposto otimismo ou esperança que possam representar, mas pelo desprezo ou pela ignorância de coisas piores que já estão acontecendo e outras que têm sua vinda anunciada para 2017.
A degradação do mercado de trabalho, a entrega das riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e projetos legislativos que tentam reverter os avanços e as conquistas sociais obtidos nos últimos 80 anos - embora se fala até na revogação da Lei Áurea, são a tônica desse "novo" país que se desenha com o fim da Era PT no Governo Federal.
Aliás, a revogação da Lei Áurea, que parece piada de Stanislaw Ponte Preta, não é tão anedótica assim. A "bancada do Boi" (ruralista) no Congresso Nacional pretende transformar em lei a PEC 3842, que retira as expressões "jornada exaustiva" e "condições degradantes de trabalho" das definições de crime de "trabalho escravo".
Isso é muito grave porque, através da reforma trabalhista do governo de Michel Temer, os patrões terão seus abusos autorizados por lei, como descumprir obrigações trabalhistas, fazer prevalecer seus interesses nos acordos coletivos de trabalho, pagar menos salários aos trabalhadores e forçá-los a trabalhar mais horas por mais anos de serviço, se aposentando (e mal) mais tarde.
É assustador o masoquismo um tanto alienado das pessoas, que pensam agir com esperança e otimismo diante desse cenário desolador. Acham que basta ter fé para sobreviver a qualquer retrocesso, e que podem entender a realidade sem poder compreender metade de sua natureza complexa, que nunca é difundida pela grande mídia nem pelo status quo plutocrático de hoje.
É assustadora a situação de catástrofe que atingirá o Brasil em dimensões trágicas. Atingirá não só as classes populares ou os novos agentes sociais - como a sociedade LGBT - mas as alegres elites felizes na areia da praia, que mal saberão que a felicidade cega das festas de hoje pode gerar uma ressaca trágica amanhã. O Brasil entrou em colapso e isso afetará sobretudo quem não está sequer preparado a admiti-lo.
É uma situação grave, com um país desgovernado por um presidente que chegou ao poder de maneira institucionalmente violenta, passando por cima das leis e sob a corrupção de setores legislativos e jurídicos.
É um quadro político aberrante, para o qual nenhum otimismo preguiçoso poderá resolver, pois o que vem por aí será duro demais para a "fé-licidade" cega das pessoas passar por cima. O Brasil está muito abaixo para poder passar por cima de nuvens trovejantes.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
O Rio de Janeiro de torcedores barulhentos, poluição e gente fumando muito
O Estado do Rio de Janeiro sofre uma decadência vertiginosa nos últimos tempos. Com muito sacrifício teve que desfazer, relativamente, da presença do deputado Eduardo Cunha no cenário nacional. Relativamente, porque há o risco da influência nefasta do ex-presidente da Câmara dos Deputados continuar existindo nos bastidores da política.
O Rio de Janeiro sofreu uma série de retrocessos e sucumbe também por causa do conformismo do seu povo, não de todo ele, mas de uma maioria influente, que parece viver num "paraíso" enquanto o Estado se transforma num inferno.
Já na saída de casa os cariocas têm que dobrar a atenção ao pegar os ônibus padronizados, com empresas se escondendo por trás de uma pintura única, confundindo os passageiros que ainda têm que enfrentar acidentes de ônibus cada vez mais constantes e perigosos. Um deles, há poucos dias, em Brás de Pina, deixou 23 feridos, quatro deles com gravidade.
Os cariocas estão aceitando qualquer coisa, embora também seu conformismo revele indiferença e descaso a tudo. Contraditoriamente, a juventude estava satisfeita com a existência de uma "rádio rock" medíocre, a Rádio Cidade, mas de tão ocupados com WhatsApp e festas com "sertanejo", também deixaram a rádio morrer de podre, sem deixar muita saudade.
O Rio de Janeiro assiste a um cenário político neocoronelista e a pistolagem da Baixada Fluminense é uma realidade, com vários pré-candidatos a cargos políticos assassinados. A violência corre solta nas zonas suburbanas e favelas e houve até arrastão no novo túnel Marcello Alencar, no Centro da outrora Cidade Maravilhosa.
Mas as pessoas estão felizes no Rio de Janeiro, uma alegria que já é viciada, sem motivo, marcada apenas por "glórias passadas" - a paisagem tropical, o status de capital sócio-cultural, os antigos holofotes do mundo inteiro e o glamour que só existiu, de fato, em 1958 - , sem saber que tudo mudou, e para pior.
Ou então, quando sabem, se comportam como determinados senhores que transformam problema em piada porque não são eles que sofrem tais infortúnios. Lendo as manchetes de jornais, esses senhores esnobes parecem despejar uma ponta de ironia quando falam sozinhos diante dos jornais nas bancas: "o Rio de Janeiro não tem jeito, mesmo".
Como nos filmes de Buñuel, o antes glamouroso carioca, famoso por sua cordialidade, passou a dar lugar a um estereótipo grosseiro reforçado por um comportamento dominante nas ruas e nas redes sociais. Cariocas que já não se importam com o fedor de fezes de cachorros ou de carros de lixo muito mal conservados - na "preguiçosa" Salvador, na Bahia, caminhões de lixo circulam sem exalar mau cheiro - também demonstram comportamento agressivo, sarcástico e ameaçador.
O que chama a atenção nesse cenário trágico do Rio de Janeiro é que a decadência atinge todos os aspectos, que vão muito mais que a crise econômica e de segurança que aparecem nos jornais, e se manifestam até em famílias felizes que vão para o restaurante diante de um caminhão de lixo exalando fumaças de fedor tóxico ou entram entusiasmados ao McDonald's comprar combos de valor nutricional duvidoso de funcionários que trabalham em condições subumanas.
Há também o contexto de Niterói, cidade que chegou a ser capital do Estado do Rio de Janeiro durante décadas enquanto o Rio de Janeiro era capital do país e da Guanabara. Com a fusão imposta pela ditadura militar, o município do índio Arariboia só agora se resignou em ser uma cidade de um provincianismo doentio, conformada em ser um mero quintal caipira da vizinha do outro lado da Baía da Guanabara.
No Grande Rio, se vê gente berrando, em pleno final de noite, por causa do fanatismo do futebol carioca, que, por causa de seus poderosos dirigentes, os "cartolas", sempre arrumam um jeito para os quatro times cariocas (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo) saírem vitoriosos. Não podem "comprar" vitórias o tempo todo, para não despertar desconfiança, mas começa a ser notória a indústria de manipulação de resultados que sempre põe os quatro clubes em boas posições nas tabelas.
O fanatismo do futebol é tratado como uma ideologia totalitária, que se torna fator determinante para as relações sociais a ponto de haver discriminação e constrangimentos sociais contra quem nem sequer curte futebol. Um sentimento doentio, que faz com que torcedores berrem feito trogloditas quando o respectivo time favorito faz um gol numa partida.
E isso vai sobretudo nas quartas-feiras à noite, e mesmo quando um jogo se arrasta até 23h45, se houver um gol a favor do time carioca envolvido, a gritaria é ensurdecedora, com pessoas berrando de maneira estridente, ignorando que há pessoas querendo dormir para trabalhar no dia seguinte.
E isso se torna grave quando houve rumores de que o governo Michel Temer iria aumentar a carga horária de trabalho, o que forçaria as pessoas a dormir e acordar bem mais cedo. Diante da pressão da sociedade, Temer e sua equipe ultimamente andaram tentando desmentir o fim ou diminuição de vários direitos trabalhistas.
Mesmo assim, isso não justifica que o fanatismo doentio e obsessivo dos torcedores de futebol lhes dê direito de gritar nas altas horas da noite, de maneira cega, sem observar o direito do outro, que precisa de silêncio para dormir. Para piorar, os torcedores, só por "pirraça", chegam a ficar em silêncio em um bom momento de jogo, até que o gol faça voltar, do nada, a irritante barulheira.
O Rio de Janeiro é considerado Estado onde existe maiores abusos e maior intolerância vindas de jovens de classes abastadas ou mesmo de classe média que sempre corroboram com os interesses dos mais ricos ou de setores sociais retrógrados. Para piorar, os retrocessos ocorridos no território fluminense não impedem do Estado ser considerado "modelo" para o país, o que pode ser um risco de medidas e hábitos retrógrados e viciados serem "exportados" para o resto do país.
Um dado grave no Grande Rio é que a poluição chega a superar a Grande São Paulo. Segundo relato da agência de notícias Reuters, o ar do Rio de Janeiro é "sujo e mortal", e é na ex-Cidade Maravilhosa que se mostra a maior parte das mortes relativamente prematuras que atingem brasileiros, por causa de doenças respiratórias, cardíacas ou vários tipos de câncer.
Observa-se até estranhas "neblinas" na paisagem carioca vista de Niterói ou vice-versa. As duas cidades vizinhas mostram um ar tão sujo que basta andar pelas ruas e depois experimentar cheirar a palma da mão ou o braço para sentir um odor parecido com fumaça de carro ou de nicotina. Mesmo não-fumantes têm esse odor, o que é uma séria ameaça à saúde.
Mas o pior é a arrogância que uma boa parcela de cariocas tem para fumar cigarro. Os niteroienses, por conseguinte, seguem o mau exemplo. Uma quantidade considerável de pessoas fumando nas ruas, com a fumaça e o odor contagiando não-fumantes, que se tornam fumantes passivos com sério risco de morrerem pelo cigarro que por si não fumaram.
A coisa chega a ser tão ridícula que os vaidosos fumantes - que parecem ter dinheiro de sobra para comprar os terríveis maços que contém até veneno de rato como uma de suas substâncias - chegam, só de sacanagem, a andar quarteirões só com o cigarro na mão, e, em ruas quase fechadas, tragam os cigarros soltando uma fumaça que incomoda quem está ao lado.
Isso já é um cenário trágico, de catástrofe, e prova que o Rio de Janeiro está decadente, como o restante do Sul e Sudeste brasileiros, regiões antes associadas ao desenvolvimento social e econômico, mas que sofreram surtos violentos de provincianismo e ultraconservadorismo que reflete até no decadente cenário político que vivemos, com o decadente governo de Michel Temer.
Todo esse cenário decadente de plutocratas no poder, com tucanos esperançosos em devorar ainda mais o dinheiro público com privatizações e outros mecanismos, é servido a todo o Brasil como um presente de grego das elites do Sul e Sudeste que, em nome da moralidade, permitiram a ascensão de políticos como Eduardo Cunha, que ajudaram a pôr o Brasil na deriva de hoje.
domingo, 18 de setembro de 2016
O "espiritismo" também "não tem provas, mas convicções"
O que poderia ser um "golpe certo" contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva acabou se tornando uma grande gafe. O discurso do procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, com seus simplórios esquemas gravados em arquivos de Power Point, que foram alvo de muitas gozações nas redes sociais.
Ele até tentou colaborar com a plutocracia. Com seu juízo de valor e uma linguagem duvidosa no âmbito jurídico - mas compreensível se percebermos o quanto Gilmar Mendes e Sérgio Moro também fazem com as leis, manipulando-as tendenciosamente - , Dallagnol definiu Lula como "comandante máximo da corrupção" e usou adjetivos nada objetivos como "maestro" e "general".
Sobre a acusação de que Lula seria proprietário de um triplex no Guarujá - na verdade um modesto apartamento de classe média, do qual Lula e Marisa desistiram de comprar - , Dallagnol partiu para a gafe: "não temos provas, mas convicções".
A mídia de direita tentou desconversar, dizendo que "não foi exatamente isso que foi dito", mas se juntar as peças do quebra-cabeça discursivo do homem do esquema simplório do Power Point, verá que é justamente isso: condena-se alguém sem provas, mas por "pura convicção" de que esse alguém é culpado.
No "espiritismo", vemos a mesma coisa, só que "pelo bem". Vide Richard Simonetti, um dos "sábios" palestrantes "espíritas" que havia atribuído levianamente ao ateísmo um estímulo ao suicídio no seu artigo "Os que matam a esperança", que em determinado trecho diz, através destas palavras:
"Admitindo que haja leis que regem a Natureza, pergunta-se: quem as instituiu? Quem as sustenta? É só usar o bom senso para perceber que a presença de um Criador se impõe, por mais sofisticados sejam os raciocínios dos que pretendem justificar a existência do ovo sem a galinha, do Universo sem Deus.
O grande problema é que, como diz a sabedoria popular, para aquele que crê nenhuma prova é necessária; para o que não crê, nenhuma prova é suficiente.
E na medida em que a Humanidade segue pelo perigoso caminho da Ciência sem Deus, amplia-se o número dos que afundam no materialismo, com perturbadora concepção de que a vida termina no túmulo".
Buscando misturar um suposto cientificismo dotado de muito pedantismo e um igrejismo convicto, Simonetti tenta parecer neutro, mas na sua retórica, quando compara que "para aquele que crê nenhuma prova é necessária" e "para o que não crê, nenhuma prova é suficiente", estabelece uma preferência à primeira opção.
A criminalização do raciocínio questionador já se observou sobretudo no caso de Francisco Cândido Xavier e suas obras mistificadoras, quando a crescente observação de irregularidades nas atividades "mediúnicas" do anti-médium mineiro faziam os "espíritas" ficarem preocupados com tamanhas repercussões.
Daí que o próprio Chico Xavier sempre pregava, através de suas palavras dóceis ou pelo ditado do espírito de Emmanuel, para que ninguém questionasse, ninguém reclamasse, ninguém contestasse. Muita gente acha isso muito lindo, mas há um motivo nada nobre nesses apelos, que é o de Chico Xavier salvar sua própria pele.
As observações sobre irregularidades nas obras "psicográficas", sejam livros que envolvem nomes de autores famosos falecidos, se acumularam com provas consistentes, agravando ainda mais os escândalos e deixando Chico Xavier em grande desvantagem.
O marketing religioso que, por sorte, encontra respaldo na sociedade, é que permitiu que Chico Xavier contornasse os obstáculos usando de coitadismo e triunfalismo, no primeiro caso se posando de vítima, no segundo achando que será um vencedor através de muitas derrotas.
Daí que se percebe o apelo medieval do "tóxico do intelectualismo", dos "males da ciência", da "overdose de raciocínio" e do "perigo de pensar". Acham que o pensamento científico, por estar sujeito a erros, não pode ir adiante, mas isso se compara a alguém que, por tropeçar uma vez, é proibido de continuar andando.
O caso de Humberto de Campos, nome associado à maior farsa literária que foi beneficiada pela impunidade, já mostra o jeito "Dallagnol" do "movimento espírita", que, embora se autoproclame "simpatizante" da Ciência e do pensamento questionador, sempre reage com indignação medieval quando os questionamentos atingem o terreno da fé religiosa dos "espíritas".
Daí que os "espíritas" gostam dessa ideia de "não ter provas, mas convicção". Logo a doutrina que se diz "ligada à lógica e o bom senso" os desrespeita, de maneira constrangedora, quando aceita obras irregulares em nome de mitos, dogmas e totens relacionados aos estereótipos de "bondade" e "caridade".
A aceitação de Chico Xavier, mito religioso patrocinado pela mesma Rede Globo que aplaudiu Dallagnol e seu Power Point de aluno de primeira série, preocupa diante dessa carteirada religiosa e da complacência com irregularidades, quando elas são feitas sob o pretexto da "bondade" e outras qualidades semelhantes.
No entanto, a espécie humana, dotada da capacidade de raciocínio, deve colocar a lógica e a coerência acima até mesmo do deslumbramento religioso, sob pena de ver o conceito de "bondade" corrompido diante da complacência com a fraude e com a mistificação.
Nem sempre o amor pode tudo, como no caso da cumplicidade com obras duvidosas e irregulares que envolvem falsidade ideológica, fanatismo religioso e outros vícios. Nunca se pode justificar o amor e a caridade para enganar e iludir as pessoas.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
"Espíritas" insistem em servir a dois senhores
Que coerência espírita se espera para aquele que se serve a dois senhores, apreciando o cientificismo de Allan Kardec mas exaltando o igrejismo medieval de Francisco Cândido Xavier? Nenhuma, por mais que o palestrante "espírita" da ocasião insista em falar numa coerência que ele mesmo ignora.
Jesus de Nazaré havia dito que ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Mas os "espíritas" insistem em desobedecer os ensinamentos do próprio Jesus, sobre o qual derramam palavras viscosas e gosmentas de bajulação.
Por um lado, falam da "propriedade e atualidade" dos ensinamentos kardecianos. No outro, se referem a Chico Xavier como "profeta da sabedoria universal". Num momento, dizem que Erasto tem razão. No outro, afirmam ver coerência em Emmanuel, cujo perfil Erasto reprovaria sem hesitação.
É lamentável que os palestrantes do "movimento espírita" insistam com tamanhas contradições, logo eles que se dizem os "paladinos da coerência". Chegam mesmo a dizer que as obras de Chico Xavier "ampliam" e "atualizam" os postulados da Doutrina Espírita, quando percebemos a inconsistência dessa tese tão absurda, embora agradável a muitos.
De que adianta, por exemplo, os palestrantes que juram defender o rigor científico de Allan Kardec, apelar para Emmanuel e o fictício André Luiz, cujos livros não apenas rompem com os postulados kardecianos como inserem absurdos para os quais não há uma hipótese plausível?
Sobre a suposta realidade espiritual que se observa no livro Nosso Lar, o próprio Allan Kardec renegaria esta obra, por verificar que, do mundo espiritual, não se tem qualquer ideia que possa ser considerada cogitável, pois faltam estudos sérios a respeito, como faltavam nos tempos do pedagogo francês e ainda são muito precários até os nossos dias.
Portanto, não há provas cabíveis que mereçam sequer a condição de palpites sobre a suposta existência de colônias espirituais. Além disso, a presunção dos "espíritas" da existência desses lugares, uma pretensa "compensação" para os sofrimentos e amarguras que se acumulam nas pessoas, revela um materialismo gritante.
Há até uma contradição, na qual há um desgosto com a vida material daqui, com o "mundo cão" que os próprios "espíritas" comprovam serem impotentes para resolver. Há uma ojeriza sutil a tudo que seja qualidade de vida na Terra, em que até ter um emprego de acordo com o talento de alguém é visto como "extravagância" e, namorar alguém por afinidade, uma "luxúria".
A vida "qualquer nota" defendida pelos "espíritas", que não veem individualidades e acham que todos somos uma multidão de nadas querendo fingir falsos papéis sociais, revela a insensibilidade dos "espíritas" quanto à necessidade de aproveitar a brevíssima encarnação não para aguentar desgraças, mas para buscar progressos.
Muitos "espíritas" se contradizem - contradizer é, aliás, a única coisa que fazem - quando tentam omitir a Teologia do Sofrimento, alegando que "ninguém nasceu para sofrer" e tentam verdadeiros dribles retóricos para manter a razão sempre ao seu lado, ainda que digam não ter pretensão para tal finalidade.
Acham que a pessoa "pode trabalhar seus talentos", mas não explicam por que certas pessoas só conseguem sofrer desgraças e infortúnios, e com dificuldade descomunal só conseguem superar depois de tanta dor, tanto martírio e conseguindo um benefício aquém do esperado.
Essas contradições todas partem porque os "espíritas" tentam usar Allan Kardec para explicar o igrejismo. E tudo isso com traduções malfeitas, como as das editoras FEB e IDE. Fica fácil ficar pregando através de tais traduções, pois nelas o pedagogo francês é transformado, tendenciosamente, num padre, e o que se vê nesses livros são os postulados da "igreja do padre Kardec".
Que conselhos, portando, os "espíritas" têm moral para dar? Num momento, dizem que ninguém nasceu para sofrer. Num outro, dizem que as desgraças mais pesadas são necessárias para "dissolver paixões terrenas". Num momento, exaltam Erasto, no outro louvam Emmanuel. Numa ocasião, falam em Ciência, noutra pregam a Religião.
Com tantas contradições, não há coerência que encontre morada. A palavra coerência pode ser até evocada, milhões e milhões de vezes, bajulada, acariciada, com textos enfeitados, perfumados, açucarados, ou até fazendo mil poemas a respeito. Mas, onde tem contradição e confusão, a coerência pode ser chamada aos berros que ela nunca virá. Ela não encontra morada nesses ambientes.
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