terça-feira, 4 de outubro de 2016
As cobranças extremas do alpinismo social
Para quem não atingiu o alto da pirâmide, num país liderado pela plutocracia que é o Brasil, todo tipo de cobrança é válido. Pouco importam sobrecargas, pressões diversas, retrocessos, imposições e ameaças, o que está embaixo e sofre mais têm que fazer tudo e ainda por cima sorrir.
Como alguém que, no alto da montanha, enxerga a cidade lhe parecendo uma miniatura e a multidão reduzida a um monte de pontinhos minúsculos, a pessoa que está no alto da pirâmide por uma questão de status, seja idade, condição financeira, status social, religioso, político, jurídico, midiático e lúdico (no caso, a fama e a popularidade), vê a pessoa que está embaixo como um nada qualquer.
Para quem está em cima, o que está embaixo não sofre. O sofrimento do outro, do ponto de vista de quem tem algum privilégio, ainda que não seja o econômico, tem pouca importância, as angústias e limitações são muito mais do que frescuras e as incapacidades, uma demonstração de preguiça.
Numa retomada de ideais ultraconservadores em que o indivíduo perde a importância numa multidão reduzida a um "gado", a individualidade, erroneamente confundida com o egoísmo, é condenada num cenário em que os verdadeiros egoístas é que ditam as normas e obtém vantagens descomunais.
Isso é ruim. A metáfora da "competição igual" entre desiguais, que faz, por exemplo, no mundo animal, o peixe não poder atingir, pulando, o topo de uma árvore, e uma girafa atingi-lo sem a escalada que é necessária a um macaco, é muito ilustrativa nos tempos de hoje.
Quem não está no topo da pirâmide e sofre depressão, tem em sua frente um monte de limitações, um monte de impasses etc, mas tudo isso é considerado "frescura" ou "bobagem" para quem está no lado de cima. Na competição do dia a dia, qualquer peixe pequeno pode dar um salto e atingir o topo de uma grande árvore. Se não conseguir, é "covarde" e "não tem ambição em vencer na vida".
O Brasil está afogado em retrocessos depois que Michel Temer assumiu o poder e as forças conservadoras tentam transformar o futuro numa síntese de vários momentos obscurantistas do passado: em certos momentos, lembrando os tempos dos generais Médici e Geisel, em outros da República Velha, em outros o Brasil colonial e, em mais outros a Idade Média do "velho mundo".
É fácil cobrar de quem não está no alto, e cobrar mais e demais. Cobrar e impor barreiras, dizer para a pessoa agir e pôr mais obstáculos, brincar com o espírito de iniciativa de quem não obteve algum privilégio, como se atirasse bolas de neve contra alpinistas.
Mas quem está em cima não está preparado para encarar o temporal, quando o alto da pirâmide social é aberto e não possui abrigo. Esquecem os que estão no alto da pirâmide que as cobranças lhes são muitíssimo maiores e mais extremas, mas eles tentam, nas suas zonas de conforto, jogar o fardo mais pesado para quem está embaixo.
A burocracia, as conveniências sociais, o autoritarismo jurídico, o reacionarismo político, a truculência digital de quem se acha o "rei" nas redes sociais, as exigências descabidas, o moralismo severo, é muito fácil quem estar "em cima" cobrar demais de quem está "no lado de baixo".
O mais cruel e desumano é quando se cobra e não se cria condições para a pessoa se esforçar. Ou, se elas existem, estão ao lado de dificuldades pesadas e baixa chance de êxito. Numa ideologia moralista, é maravilhoso quem está embaixo se esforçar demais, dar murro em ponta de faca, se sobrecarregar em mil iniciativas.
Para quem está em cima, se a pimenta arde nos olhos, a pessoa é que tem que adaptar seu olhar e fingir que a ardência não existe. Se alguém pisou no calo, não se pode sequer gemer. Se a pessoa dirige um carro numa pista escorregadia e com uma neblina na frente, a ideia é aumentar a velocidade, mesmo.
"Meter a cara", "ter jogo de cintura", "dar duro de si mesmo", "ralar mesmo". Tudo isso é lindo trazido por um moralista que não tem noção das dificuldades de uma pessoa, e está ali como expectador dos sacrifícios alheios, não esperando vencedores, mas esperando pessoas ferradas e em algum sufoco sobrevivendo e ultrapassando obstáculos intransponíveis.
As pessoas que estão na pirâmide social por algum critério, da idade à fama, do cargo político ao prestígio religioso, mais parecem a plateia de uma arena, vendo um gladiador sobrevivendo ao combate do inimigo ou à fome voraz de um leão. Mil vezes mais desumano é aquele que cobra demais de quem não pode fazer, e achar que suas dificuldades são frescuras.
Até o "espiritismo" é assim. O palestrante sempre dizendo que o sofrimento é "fácil", algo que todo ideólogo da Teologia do Sofrimento faz. Ele enrola dizendo que desgraças são "aprendizados" e nunca está disposto a medir o desafio conforme a capacidade de quem encará-lo. Para ele, tanto faz macacos e peixes serem designados para saltar ao topo de uma árvore. Esforço, para o remediado, é qualquer nota.
Afinal, a pessoa que está remediada na vida não imaginou que, um dia, ela pode perder seus benefícios e sua posição social confortável e ter de encarar na própria pele as dificuldades pesadas, angustiantes e de dificílima superação, mesmo não tendo condições para isso? Cobrar demais dos outros é fácil, difícil é assumir as próprias cobranças.
domingo, 2 de outubro de 2016
A estranha "caridade" da Teologia do Sofrimento
Estranho padrão de "caridade" da Teologia do Sofrimento, a corrente medieval da Igreja Católica que, no Brasil, foi adotada pelo "movimento espírita" através de Francisco Cândido Xavier. A ideia de glamourizar o sofrimento e pedir para o sofredor não só aceitar suas desgraças mas, se possível, ajudar algum algoz, parece "positiva", mas não é.
Servir a quem já comete abusos e se afoga na cegueira de seus privilégios e de sua ganância nem de longe é considerado caridoso. Veremos os dois lados desse ritual de "caridade" e "misericórdia" que o discurso religioso serve para o deleite de seus seguidores, iludidos com a doçura plena das palavras.
De um lado, a pessoa sofrendo desgraças sucessivas, praticamente se esforçando em vão para superá-las. De outro, o privilegiado orgulhoso, que abusa de sua situação confortável para explorar os outros, enquanto detém seus benefícios pessoais com um egoísmo preocupante.
O sofredor serve o privilegiado, mas não a simples colaboração natural ou ajuda espontânea, mas algum ato subserviente. Não é um serviço, é uma servidão. E o que acontece no discurso religioso diante de situação tão humilhante?
O discurso religioso exalta, glorifica, aplaude. O sofredor está "purificando sua alma", obtendo o passaporte das bênçãos - sabe-se lá o que isso significa - e a "superação" se realiza com esse ato de subserviência e servidão. Pode ser duro escrever isso, mas para o discurso religioso, escravidão é "caminho para a libertação".
Ficamos imaginando como tiranias seriam vistas se seus déspotas usassem das palavras melífluas que os palestrantes religiosos fazem. Os governos fascistas passariam imunes à contestação pública se seus tiranos usassem um discurso dócil no qual o sofrimento humano era apenas um meio de "purificar as almas"?
Madre Teresa de Calcutá se revelou uma megera quando jornalistas sérios, a partir do trabalho do hoje falecido Christopher Hitchens, revelaram que suas "casas de caridade" abrigavam doentes, bebês e idosos em condições altamente degradantes, incluindo enfermos graves expostos ao contágio uns aos outros e a reutilização de seringas que só eram limpas com água de torneira (que já não é o primor de higiene).
Teresa foi considerada santa, por um motivo bastante absurdo. De dois supostos milagres, sua santificação se apoiou apenas no segundo, um factoide de um engenheiro brasileiro que disse ter sofrido um coágulo cerebral fatal e se curou por causa de uma medalhinha e umas preces. A Teresa que em vida deixava os doentes morrerem virou santa por uma suposta cura, em circunstâncias bastante estranhas.
Ela é adepta da Teologia do Sofrimento, que pelo jeito anda em alta no Brasil, embora muitos nem sequer sabem desse conceito. Mas, na prática, quando se deseja que alguém sem privilégios sofra demais para conseguir algum benefício, isso é Teologia do Sofrimento, um "prazer pelo sofrimento alheio" justificado por uma retórica de moralismo religioso.
Chico Xavier também difundiu a Teologia do Sofrimento. Em várias de suas frases, Chico revelava-se sádico e perverso: "não comunicar sofrimento aos outros", "aceitar as desgraças sem reclamar", "servir ao algoz com misericórdia e respeito", "sofrer amando para receber as bênçãos futuras" são algumas das sínteses da "filosofia" (sic) do anti-médium mineiro.
E é esse estranho padrão de "caridade" que faz com que os palestrantes religiosos, supostos mediadores dos conflitos entre sofredores e privilegiados, se envaideçam com a posse que presumem eles da verdade e da palavra final, sentindo a ilusão de que a condição de "servos de Deus" lhes garanta algum lugar no reino dos puros.
Eles acham que o equilíbrio moral virá quando pessoas que sofrem desgraças tolerem privilegiados que abusam de seus direitos, como se o evitamento de conflitos garantisse a paz social da humanidade. Mas isso é apenas botar a sujeira debaixo do tapete, e adiar a solução de injustiças para mais uma encarnação não é confiança na eternidade, antes fosse uma preguiçosa procrastinação.
O discurso religioso se revela uma grande farsa, porque essa "caridade" só serve para alimentar ainda mais as vaidades pessoais dos privilegiados, enquanto não garante muitas vantagens para o sofredor, que não raro continua nas suas severas limitações pessoais, obtendo pouco resultado nos seus esforços dentro dessas condições desumanas.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
A religião "espírita" e os infortúnios
Diante de sua inclinação, nunca assumida, à Teologia do Sofrimento, o "movimento espírita" tem dificuldades de entender a complexidade humana. O atraente desfile de palavras bonitas tenta sugerir que tudo é fácil, que dificuldades são apenas "desafios" e "aprendizados", sem saber o nível das dificuldades de cada pessoa.
Tanto faz abrir mão de talentos, da própria individualidade. É fácil dizer para a pessoa abrir mão até do que é necessário, e, pelo jeito que estão cidades poluídas e cheias de fumantes como Rio de Janeiro e São Paulo, não se tem direito sequer para respirar um ar mais saudável.
O Brasil vive uma realidade bastante maluca, com uma Justiça (Poder Judiciário e Ministério Público) fazendo uma atuação pouco confiável, movida pelas conveniências que fazem as condenações e investigações serem tendenciosas e parciais, favorecendo apenas representantes das chamadas "classes dirigentes", cuja identificação forçada pelo povo brasileiro é obra de intensa campanha da mídia patronal associada.
Mas é o país em que os "ancestrais" do juiz Sérgio Moro deixaram passar um pastiche literário deplorável, a apropriação de Francisco Cândido Xavier sobre o prestígio de Humberto de Campos, através de um empate jurídico diante da omissão em debates questões autorais - a obra do "espírito Humberto" não condiz com o estilo do autor maranhense - , existe o império da incoerência e do absurdo.
O mito de Chico Xavier se agigantou a partir daí, num processo descontrolado. E isso se dá num contexto em que o Brasil está perto de sofrer um quadro político fascista e cada vez mais pessoas se destacam com atos sanguinários, truculentos e fascistas.
Da pistolagem que matou, à luz do dia, o ex-presidente da Portela, Marcos Falcon, a um vídeo gravado por um homem matando a mulher e os filhos, passando por um truculento rapagão de elite, Cláudio Roberto Baldaque, que agrediu o senador Lindbergh Farias e sua esposa, fora os vários homicídios atingindo candidatos a cargos eletivos deste ano, nota-se que o país está numa situação terrível.
Não é falta de Chico Xavier nem de Divaldo Franco que o mundo está assim. Como os dois nunca passaram de farsantes e dissimuladores religiosos - católicos ortodoxos fantasiados de espíritas autoproclamados "autênticos" - , eles trouxeram, através das energias malignas de Emmanuel e Máscara de Ferro, as vibrações pesadas que simplesmente estão derrubando o país.
O "movimento espírita" não é falso porque eu ou você dissemos, mas pelas escolhas equivocadas e contraditórias que teve, e que se agravaram quando, nos últimos 40 anos, se adotou oficialmente a postura dúbia, que é a de bajular Allan Kardec e praticar igrejismo, embora sob o verniz do "espiritismo autêntico".
Nunca comparação ligeira, é como se comparássemos Jean-Baptiste Roustaing ao deputado Eduardo Cunha, diante da falsa impressão de que o respectivo algoz foi tirado de circulação. Mas o legado roustanguista existe, mesmo quando é dissimulado em mentiras cada vez mais descaradas, deturpações tão graves que já deturpam Erasto, deturpam o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos e deturpam até as críticas à própria deturpação, como numa falsa concordância.
O "movimento espírita" construiu seus postulados com base não em Allan Kardec, mas em Roustaing. Já se criou um falso espírito de Kardec, apelando para que se lesse Roustaing. As bases ideológicas são roustanguistas e Chico Xavier claramente adaptou o roustanguismo para o contexto brasileiro, e isso está muito mais do que explícito em seus livros.
Assim como Temer é Cunha e Cunha é Temer, ou seja, o legado de Eduardo Cunha está em Michel Temer e no provável sucessor de eleição indireta, Roustaing é Chico Xavier e Chico Xavier é Roustaing. Os três volumes originais (quatro, na edição da FEB) de Os Quatro Evangelhos gerou os mais de 400 livros que levam a assinatura de Chico Xavier.
Xavier até levou às últimas consequências as deturpações de Roustaing. Ou seja, foi adiante e até longe demais com o roustanguismo. E, prestando atenção nos livros de Chico Xavier, tudo isso se revela uma farsa diante da leitura mais atenta e sem as paixões do deslumbramento religioso, porque sua suposta inclinação ao pensamento kardeciano se dissolve facilmente ao identificar o conteúdo roustanguista e extremamente igrejeiro da bibliografia chiquista.
A exemplo da farsante Madre Teresa de Calcutá - que transformou suas "casas de caridade" em reles depósitos de flagelados - , Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento. Enquanto Madre Teresa dizia que o sofrimento era um "presente de Deus", Chico Xavier dizia para o sofredor "sofrer amando" e "sem mostrar sofrimento aos outros".
Os infortúnios são tolerados pelos palestrantes "espíritas" que, ignorando injustiças e desigualdades, apenas dizem para os sofredores "aceitarem o sofrimento", e, com seu juízo de valor, dizer que as desgraças são "apenas desafios e aprendizados".
Pouco importam os abusos dos algozes, o desprezo da sociedade - o próprio Chico Xavier revela seu caráter desumano condenando as pessoas que se queixam da vida porque perturbam o sossego dos afortunados da sorte - , os "espíritas" apelam para os sofredores "aceitarem o sofrimento", serem "felizes" e buscarem "soluções próprias" para tais dificuldades.
Os "espíritas" desprezam a vida material e nem por isso deixam de ser materialistas. Pelo contrário, são materialistas justamente por isso: porque querem deixar a brutalidade da vida material intocável à interferência humana, que só a individualidade e as condições diferenciadas de emancipação humana podem permitir.
Os "espíritas" querem a vida "qualquer nota", como se tanto fizesse para eles que um sofredor se transforme em brinquedo das adversidades cotidianas. E por isso eles fazem seu juízo de valor: o sofredor sofre "por merecer", a desgraça é "aprendizado", o infortúnio é "desafio" e tanto faz a pessoa não ter sequer o necessário, basta olhar passarinhos e rio correndo, como queria Chico Xavier.
Isso desqualifica mais e mais os "espíritas", que cada vez mais sentem o vazio de seus apelos "positivos", trazendo uma pregação igrejista que se torna cada vez mais repetitiva, sem graça, sem trazer estímulo algum e, pelo contrário, só fazendo os sofredores pensarem em coisas horríveis como o suicídio. Em suma: o moralismo "espírita" mostra o quanto seus pregadores são "remediados demais" para entender as limitações e problemas do outro.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Rio de Janeiro em decadência preocupante
MARCOS FALCON, PRESIDENTE DA ESCOLA DE SAMBA PORTELA - Vítima de pistolagem cometida à luz do dia.
O Rio de Janeiro se provincianizou de vez. Depois de um linchamento em Ipanema, que matou um vendedor ambulante, num episódio típico de cidade do interior que nunca foi urbanizada, agora é a pistolagem ocorrendo em plena tarde, num bairro destacado da Zona Norte.
Na Madureira onde as autoridades cariocas planejavam uma "Zona Sul de mentirinha", criando uma pequena praia com funcionamento limitado - abrindo às 9h, contrariando recomendações médicas - para uma demanda suburbana que, citando Tim Maia, vai do Leme ao Pontal, um homicídio típico de interior paraense aconteceu em plena tarde, anteontem.
O carismático presidente da Escola de Samba Portela, Marcos Falcon, de 52 anos, foi assassinado por pistoleiros dentro de seu comitê de campanha, do qual ele era candidato a vereador, em torno de 16 horas, próximo à Rua Maria José, numa área movimentada do referido bairro. Os pistoleiros pareciam tranquilos e conseguiram fugir.
A pistolagem ocorrida ontem é apenas mais um episódio de uma onda que está atingindo candidatos a cargos políticos na Baixada Fluminense e nos subúrbios do Rio. É um cenário típico do Norte brasileiro, em tempos ditatoriais, quando o coronelismo que apoiava o regime militar praticamente fazia a "limpa" nas zonas rurais, exterminando quem "trazia problemas para os donos das terras".
A gente até conta os dias para ver quando eles serão capturados - consta-se que eram quatro - pois, até a edição deste texto, ninguém foi preso. A título de comparação, um assalto que aconteceu em Aracaju, semanas atrás, numa emissora de rádio, a 103 FM, ocorreu na noite de sábado, com a cidade quase sem movimento nas ruas, e em quatro dias quatro suspeitos foram presos.
O carioca pensa que é brincadeira quando se fala que o Estado do Rio de Janeiro sofre um processo avassalador de decadência, atingindo níveis dramáticos. Parece até que há uma epidemia da Síndrome de Riley Day que faz os cariocas não sentirem mais dor nem noção de graves problemas, com famílias indo felizes para restaurantes diante de um fedorento caminhão de lixo estacionado com seu odor tóxico contaminando os alimentos.
A decadência não é apenas questão de máquina administrativa. Não é questão de falta de dinheiro, porque uma crise não se define tão somente por problemas financeiros, aliás a grana curta é justamente um aspecto menor de uma crise que envolve práticas, mentalidades, visões de conjunto etc.
O Rio de Janeiro decai por muitos e muitos aspectos. Não é uma campanha negativa, afinal, gostaríamos de nunca escrever textos como estes, mas cabe denunciar os piores erros para chamar a atenção das pessoas. A decadência carioca se dá sobretudo por causa de um espírito coletivo de pessoas que, em nome da ética, foram capazes de eleger gente como o deputado Eduardo Cunha, que com muito trabalho (mas também muita hesitação) foi afastado do poder.
Ninguém questiona, ninguém se mobiliza, as pessoas dependem de um Jornal Nacional, de um jornal O Dia, de um Cidade Alerta ou Brasil Urgente para tomar alguma posição na vida. Pouco importa se, na saída de casa, com os ônibus com a terrível pintura padronizada, pessoas com muito sono - sobretudo quando vêm de uma noite com futebol e gritaria de torcedores - , têm dificuldade de discernir o ônibus que vai para Marechal Hermes do que vai para Água Santa.
Ninguém questiona essa aberração sobre rodas que esconde empresas, favorece a corrupção e confunde os passageiros que, acordando com sono e com muitos compromissos pessoais, ainda têm que saber a diferença de uma Matias de uma Verdun, de um Redentor e uma Real Auto Ônibus porque tudo agora tem a mesma pintura, ainda mais com o irritante design de embalagem de remédio.
E não se pode questionar porque, pelo autoritarismo carioca, contestar a pintura padronizada nos ônibus é garantia de reação furiosa de busólogos reacionários - que se comportam como se valorizassem mais tanques do Exército do que ônibus - capazes de criar blogues de difamação gratuita para insultar quem discorda de suas ideias retrógradas.
Mas a decadência carioca que já preocupa com a arrogância narcisista dos fumantes, com o desabastecimento viciado de produtos que demoram a serem repostos nos supermercados - como se o Rio de Janeiro não fosse um dos centros de fabricação e distribuição de produtos - , com a gritaria animalesca de fanáticos por futebol ainda prepara a "monocultura" que se concentrará em dois produtos, o "funk" e o "sertanejo".
E isso quando as relações sociais acabam pautadas pelo consumismo, em que pessoas se encontram para cada uma se isolar no entretenimento supérfluo do WhatsApp e no espetáculo consumista de frequentar boates e lanchar nas piores lanchonetes (que se autoproclamam "restaurantes"!) comprando felizes os combos explosivos que caem como bombas nos estômagos.
A decadência do Rio de Janeiro se observa nas ruas sujas e empoeiradas, na nuvem de poluição que toma conta da vista da Baía da Guanabara, das ruas com aspectos de velhas, dos fios elétricos amontoados e uns caídos no chão, oferecendo risco mortal para os transeuntes, da falta de logística do mercado, da baixa visão do mundo dos cariocas (salvo honrosas exceções, que nem aparecem na mídia), e com uma criminalidade que corre solta à luz do dia.
Isso não é complexidade de vida urbana moderna. Até porque os problemas nessa ordem não atingem a gravidade que se observa hoje. O Rio de Janeiro, seja o Estado e sua outrora imponente capital, decai como se estivesse em queda livre, com um surto de provincianismo que assustaria até caipiras isolados do Norte do Brasil. É hora do Rio de Janeiro se mexer, deixar a arrogância de lado e sair de sua zona de conforto. Há muitos erros, gravíssimos, a serem combatidos.
O Rio de Janeiro se provincianizou de vez. Depois de um linchamento em Ipanema, que matou um vendedor ambulante, num episódio típico de cidade do interior que nunca foi urbanizada, agora é a pistolagem ocorrendo em plena tarde, num bairro destacado da Zona Norte.
Na Madureira onde as autoridades cariocas planejavam uma "Zona Sul de mentirinha", criando uma pequena praia com funcionamento limitado - abrindo às 9h, contrariando recomendações médicas - para uma demanda suburbana que, citando Tim Maia, vai do Leme ao Pontal, um homicídio típico de interior paraense aconteceu em plena tarde, anteontem.
O carismático presidente da Escola de Samba Portela, Marcos Falcon, de 52 anos, foi assassinado por pistoleiros dentro de seu comitê de campanha, do qual ele era candidato a vereador, em torno de 16 horas, próximo à Rua Maria José, numa área movimentada do referido bairro. Os pistoleiros pareciam tranquilos e conseguiram fugir.
A pistolagem ocorrida ontem é apenas mais um episódio de uma onda que está atingindo candidatos a cargos políticos na Baixada Fluminense e nos subúrbios do Rio. É um cenário típico do Norte brasileiro, em tempos ditatoriais, quando o coronelismo que apoiava o regime militar praticamente fazia a "limpa" nas zonas rurais, exterminando quem "trazia problemas para os donos das terras".
A gente até conta os dias para ver quando eles serão capturados - consta-se que eram quatro - pois, até a edição deste texto, ninguém foi preso. A título de comparação, um assalto que aconteceu em Aracaju, semanas atrás, numa emissora de rádio, a 103 FM, ocorreu na noite de sábado, com a cidade quase sem movimento nas ruas, e em quatro dias quatro suspeitos foram presos.
O carioca pensa que é brincadeira quando se fala que o Estado do Rio de Janeiro sofre um processo avassalador de decadência, atingindo níveis dramáticos. Parece até que há uma epidemia da Síndrome de Riley Day que faz os cariocas não sentirem mais dor nem noção de graves problemas, com famílias indo felizes para restaurantes diante de um fedorento caminhão de lixo estacionado com seu odor tóxico contaminando os alimentos.
A decadência não é apenas questão de máquina administrativa. Não é questão de falta de dinheiro, porque uma crise não se define tão somente por problemas financeiros, aliás a grana curta é justamente um aspecto menor de uma crise que envolve práticas, mentalidades, visões de conjunto etc.
O Rio de Janeiro decai por muitos e muitos aspectos. Não é uma campanha negativa, afinal, gostaríamos de nunca escrever textos como estes, mas cabe denunciar os piores erros para chamar a atenção das pessoas. A decadência carioca se dá sobretudo por causa de um espírito coletivo de pessoas que, em nome da ética, foram capazes de eleger gente como o deputado Eduardo Cunha, que com muito trabalho (mas também muita hesitação) foi afastado do poder.
Ninguém questiona, ninguém se mobiliza, as pessoas dependem de um Jornal Nacional, de um jornal O Dia, de um Cidade Alerta ou Brasil Urgente para tomar alguma posição na vida. Pouco importa se, na saída de casa, com os ônibus com a terrível pintura padronizada, pessoas com muito sono - sobretudo quando vêm de uma noite com futebol e gritaria de torcedores - , têm dificuldade de discernir o ônibus que vai para Marechal Hermes do que vai para Água Santa.
Ninguém questiona essa aberração sobre rodas que esconde empresas, favorece a corrupção e confunde os passageiros que, acordando com sono e com muitos compromissos pessoais, ainda têm que saber a diferença de uma Matias de uma Verdun, de um Redentor e uma Real Auto Ônibus porque tudo agora tem a mesma pintura, ainda mais com o irritante design de embalagem de remédio.
E não se pode questionar porque, pelo autoritarismo carioca, contestar a pintura padronizada nos ônibus é garantia de reação furiosa de busólogos reacionários - que se comportam como se valorizassem mais tanques do Exército do que ônibus - capazes de criar blogues de difamação gratuita para insultar quem discorda de suas ideias retrógradas.
Mas a decadência carioca que já preocupa com a arrogância narcisista dos fumantes, com o desabastecimento viciado de produtos que demoram a serem repostos nos supermercados - como se o Rio de Janeiro não fosse um dos centros de fabricação e distribuição de produtos - , com a gritaria animalesca de fanáticos por futebol ainda prepara a "monocultura" que se concentrará em dois produtos, o "funk" e o "sertanejo".
E isso quando as relações sociais acabam pautadas pelo consumismo, em que pessoas se encontram para cada uma se isolar no entretenimento supérfluo do WhatsApp e no espetáculo consumista de frequentar boates e lanchar nas piores lanchonetes (que se autoproclamam "restaurantes"!) comprando felizes os combos explosivos que caem como bombas nos estômagos.
A decadência do Rio de Janeiro se observa nas ruas sujas e empoeiradas, na nuvem de poluição que toma conta da vista da Baía da Guanabara, das ruas com aspectos de velhas, dos fios elétricos amontoados e uns caídos no chão, oferecendo risco mortal para os transeuntes, da falta de logística do mercado, da baixa visão do mundo dos cariocas (salvo honrosas exceções, que nem aparecem na mídia), e com uma criminalidade que corre solta à luz do dia.
Isso não é complexidade de vida urbana moderna. Até porque os problemas nessa ordem não atingem a gravidade que se observa hoje. O Rio de Janeiro, seja o Estado e sua outrora imponente capital, decai como se estivesse em queda livre, com um surto de provincianismo que assustaria até caipiras isolados do Norte do Brasil. É hora do Rio de Janeiro se mexer, deixar a arrogância de lado e sair de sua zona de conforto. Há muitos erros, gravíssimos, a serem combatidos.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
A sordidez do moralismo religioso
Com a efetivação do retrógrado governo de Michel Temer e a consagração de um factoide como um suposto "segundo milagre" para a canonização de Madre Teresa de Calcutá, o "espírito do tempo" do moralismo religioso revela seu lado de sordidez e hipocrisia.
Denúncias de que Madre Teresa teria sido cruel com os "assistidos", tão cruel que não deixava sequer médicos trabalharem em suas casas nem familiares buscarem seus parentes para levá-los a hospitais, derrubam a "inabalável" ideia de que a freira albanesa é a "caridade personificada", sendo usada até como paradigma de generosidade, filantropia ou humildade.
A sordidez do moralismo religioso, que aprisiona o sentido de bondade submetendo-o ao rótulo religioso, permite tanto que governos "laicos" - mas também apoiados por várias seitas religiosas, como o neopentecostalismo e o "movimento espírita" - como o de Michel Temer se consagrem com uma pauta bastante amarga para o povo brasileiro.
Uma pauta que inclui o prolongamento da aposentadoria, num país em que a meia-idade e a velhice mais precisam do lazer, e não do trabalho, para repensar a vida. Ou então que exigirá do trabalhador maior carga horária, enquanto cancela encargos e garantias sociais. Além de receber menos, o trabalhador ainda perderá o direito ao atendimento na saúde pública, pagando planos de saúde privada cujas tarifas caras servem mais para abastecer o luxo dos médicos de nome.
Sofrer é bom? Para a religião, parece que é. E nada como o "espiritismo", religião que, até mais que a própria Igreja Católica, recicla valores do Catolicismo medieval português - difundido pelo movimento jesuíta no período colonial, lembrando que padres, freiras e sorores jesuítas são "mentores" de muitos "centros espíritas" - , para revelar seu vínculo com a Teologia do Sofrimento.
O palestrante religioso chega, em primeira instância, dizer que o sofrimento serve para "reajustes espirituais", jargão que corresponde à expressão católica "purificação dos pecados", e, em seu discurso supostamente racional, o mensageiro de ocasião apela para o sofredor "não reclamar da vida" porque é "na pior das desgraças que a bênção de Deus se instala na alma do sofredor".
Pura hipocrisia. Esse discurso é tão hipócrita que, em primeiro momento, o ideólogo "espírita" é austero e taxativo em seu julgamento de valor. Ele diz que "o sofrimento (por si só) dignifica" - quando o que realmente dignifica é o esforço do sofredor para superar uma desgraça - e diz que a pessoa tem que aceitar o sofrimento, abandonar suas "paixões" e se convencer que o "pior inimigo" do sofredor é ele mesmo.
Isso evidentemente pega muito mal. A apologia do sofrimento, em primeira instância, revela o julgamento moralista severo do "espírita", que se gaba em ser o "dono da verdade" e o possuidor da "palavra final", mas que é criticado por ignorar que as pessoas têm suas necessidades individuais e que a individualidade não é sinônimo de materialismo nem frescura.
Evidentemente, diante das críticas, o "espírita" que se acha (sem assumir, todavia, no discurso) "possuidor da verdade", no entanto, tenta mudar o seu discurso. Ele tenta argumentar que "ninguém veio para sofrer" e o que o sofredor vive são "provas" que são "necessárias para sua superação".
O "espírita" que ficou severo demais no primeiro momento tenta ceder no segundo. Isso já lhe tira o mérito da "palavra final", embora ele sempre insista no seu exército de palavras "bonitas" para tentar vencer a batalha retórica, sob a desculpa de que o referido palestrante, por falar palavras-chave como "amor" e "fraternidade" e, em tese, estar no lado de Jesus e Deus, pode sim, "estar" com a verdade.
E o que ele tenta dizer mais? Ele tenta enrolar dizendo que o sofredor deveria "conhecer novas habilidades", ter "autoconhecimento", "confiar em Deus" e "buscar novas soluções". Quanto a esta última sugestão, isso até é óbvio, porque é sempre do instinto de alguém sofrer buscar uma solução de superação. Outra pessoa aconselhar essa tarefa, além de não acrescentar coisa alguma, chega a ser até chato de se ouvir. Não se aconselha algo que já está sendo feito.
Há uma sordidez nesse moralismo, porque os religiosos, que acham que "conhecem a verdade" e "estabelecem contato com o oculto", não compreendem a complexidade da vida humana. Não sabem que indivíduos têm necessidades diferentes e elas não podem ser vistas como meros caprichos materialistas ou paixões mundanas.
O que há de mais sádico é que os "espíritas" acham que, por existir a vida espiritual e por haver várias encarnações, se pode aceitar que uma encarnação de cerca de 80 anos seja desperdiçada em desgraças e numa degradação da vida em que o indivíduo não molda suas vontades e desejos, mas simplesmente os anula, já que as desgraças são tantas e os esforços para superá-las, inúteis, que o sofredor se reduz a ser um mero brinquedo das circunstâncias adversas.
Isso é muito sórdido. E, se percebermos que o "espiritismo" admira Madre Teresa de Calcutá quase como um ícone da doutrina, faz sentido que a doutrina que se diz kardecista mas nada tem a ver com Allan Kardec seja uma "fábrica de sofredores", transmitindo energias pesadas naqueles que seguem com devoção tal doutrina brasileira.
A religião acaba sendo a fortuna simbólica dos aristocratas da fé e é isso que muitos não conseguem entender quando Jesus de Nazaré fazia duras críticas aos sacerdotes do seu tempo, por práticas extravagantes, preceitos e valores que, ironicamente, são feitos justamente por aqueles que seguem o antigo ativista. Os hipócritas de hoje evitam serem comparados aos hipócritas do passado, bajulando aquele que justamente condena a hipocrisia, independente de que época e pessoa vier.
sábado, 24 de setembro de 2016
O religioso, o sofrimento e os juízos de valor
O Brasil vive uma restauração conservadora preocupante, através do governo de Michel Temer e sua agenda voltada para o obscurantismo social e para o elitismo financeiro. E os religiosos aproveitam isso para se mostrarem triunfantes, sem precisar perder tempo com coitadismo.
Quem está dotado de algum status quo superior, ainda que esteja decaindo em qualidade intelectual e moral, está tentando se impor de maneira desesperada, através de três recursos: investimentos financeiros, brechas jurídicas e persuasão midiática.
Os religiosos, que em si se acham portadores do combo "Deus, Jesus e bondade" que os faz se considerarem "donos da verdade absoluta", tentam pregar a Teologia do Sofrimento de alguma forma, sem no entanto assumir esse nome, que pode assustar os mais ingênuos.
Eles tentam pregar que o sofrimento é "positivo", que ele "leva a pessoa para o caminho da superação" e tudo o mais. Aí a pessoa sofre desgraças sucessivas, sobrevive com extrema dificuldade e, quando, por sorte, atinge a prosperidade, seu exemplo serve para a exploração leviana e ostensiva de religiosos que alimentam suas vaidades às custas do sacrifício alheio.
Há juízos de valor que fazem os religiosos dizerem que o sofredor tem que deixar de ser ele mesmo, buscar outras opções de afirmação pessoal e deixar de lado as necessidades mais essenciais. Se só resta a capacidade de respirar, é a "graça de Deus". Mas, num Rio de Janeiro cheio de fumantes por tudo quanto é canto, deve-se abrir mão até de respirar...
No "espiritismo" brasileiro, sua doutrina não conhece devidamente os conceitos de reencarnação e vida espiritual, apenas tendo uma compreensão superficial que só serve para dar falso diferencial a seu igrejismo medieval,
Isso é grave. Gente que mal sabe o que é vida espiritual se acha no direito de dar seu pitaco ao sofredor que sofre desgraças sucessivas e limitações difíceis de serem superadas. Fala nos tais "resgates espirituais" e ainda diz para a pessoa abrir mão de seus desejos e necessidades. Se o cara tem vocação para ser servidor público e não consegue, então vá ser flanelinha de rua.
Os religiosos não sofrem. É fácil para eles cobrar austeridade dos outros, renúncia à individualidade, confundida com "paixões terrenas" ou "caprichos materialistas". Temos uma encarnação estimada em 80 anos e tanto faz para os religiosos que tudo se desperdice em desgraças gravíssimas, e, no caso dos "espíritas", achar que, se perde uma encarnação, não faz mal, tem outra depois.
Só que nenhuma encarnação é igual a outra. São outros contextos, outras situações, outros impasses. Uma mesma cidade pode mudar muito em cinquenta anos, as oportunidades não se repetem. O Rio de Janeiro de 1958 tornou-se até pior 58 anos depois. Não há como exigir, por exemplo, um cenário de Bossa Nova como no passado ou que uma cantora de axé-music cante com a mesma doçura intensa de uma Sylvia Telles.
Os religiosos que recebem medalhinhas, condecorações, têm representantes no Congresso Nacional, são cortejados pela grande mídia patronal, são intocados pela Justiça por mais que cometam erros gravíssimos, eles não sabem a natureza de quem sofre infortúnios.
Os juízos de valor parecem lindos e sábios quando tomados do verniz de falsa superioridade em que se apoia a retórica religiosa. Crueldades imensas podem ser legitimadas por um discurso dócil, paternal, que sugere que até mesmo o holocausto pode ser um "sacrifício necessário" a ser aceito sem queixumes, sob a desculpa de que haverá "outra vida" e "bênçãos futuras" mais adiante.
Não é o religioso que perde a casa por causa de uma tempestade. Não tem um parente morto em um assalto, não leva um fora de uma mulher que ele considera ideal, não perde o emprego no qual estava preparado para exercer, não sofre impasses que dependem de uma overdose de pais-nossos para serem resolvidos.
O religioso está aí, com seus desfiles de palavras bonitas, formosas e eloquentes, um desfile fashion da cosmética retórica das boas frases. E os "espíritas" são os que mais investem nesses desfiles, principalmente agora, no governo Temer, em que apelos desesperados pelo conformismo alheio diante dos retrocessos pesados que virão são dados.
Usando como pretexto ideias como "Deus", "Jesus" e "caridade", os "espíritas" se acham beneficiados pelo juízo de valor que fazem e pela palavra final que acreditam possuir. Acham que um bom desfile de palavras bonitas irá resolver as coisas da vida, mas aí a gente se lembra de um famoso ditado popular.
Assim como, segundo a alegoria, no inferno há uma abundância de boas intenções, nele também repousam as mais belas palavras. E o "umbral" dos "espíritas" é onde residem as mais lindas palavras e os mais belos exemplos que, na verdade, só conseguem mostrar o quanto sofredores deram duro para obter algum benefício e isso só serve para alimentar as vaidades paternalistas dos palestrantes do "espiritismo".
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
A catástrofe do cenário político do Brasil de hoje
A situação que o Brasil vive hoje é simplesmente assustadora. E mais assustadora porque a sociedade considerada "mais influente" permance na sua indiferença, como pais de família que acham que o incêndio a atingir os quartos de dormir deles e dos filhos fossem apenas uma festinha com churrasco.
O quadro é caótico e o Brasil está à deriva. Setores do Poder Judiciário, do Ministério Pùblico e da Polícia Federal movidos pela compreensão tendenciosa e parcial das leis e pela condenação seletiva apenas de suspeitos "mais incômodos". Uma grande mídia de rádios e TVs decadentes, e de uma imprensa que cada vez mais esquece seu compromisso com a informação, publicando mentiras aberrantes e descaradas.
Capitais que sofrem sérios retrocessos sociais como Rio de Janeiro e Curitiba cada vez mais perdem a condição de servirem de "cidades-modelo" para qualquer coisa no país. Nem para popularizar campeonatos de cuspe à distância como se fossem a "última palavra do entretenimento" no Brasil essas capitais, e muito menos São Paulo, servem mais.
Desde que toda uma campanha para derrubar Dilma Rousseff, com base em acusações infundadas e muito vagas, referentes a práticas que seriam normais a qualquer presidente da República, o Brasil não só não resolveu sua crise econômica como a fez se agravar e, o que é mais grave, a ela acumulando uma série de crises de natureza política, social, institucional, jurídica e midiática.
Existe até a crise cultural, que há muito tempo fez a chamada cultura popular se degradar com fenômenos da música, da imprensa, das (sub)celebridades etc patrocinados pela mídia oligárquica e patronal como se fossem "representantes autênticos" das classes populares e apoiados por uma intelectualidade associada e pseudo-progressista.
O Brasil vive uma verdadeira catástrofe no qual as forças retrógradas sociais se extasiaram com a volta aos "bons tempos" (leia-se Era Geisel, quando a sociadade brasileira estava, aos olhos da plutocracia, num patamar ideal). Até a onda de feminicídios conjugais, que já intensificava desde 2013, voltou a todo o vapor, fazendo a festa de machistas que "brincam" com facas, revólveres ou, às vezes, venenos.
E toda essa catástrofe, que faz com que especialistas sérios afirmem que o Brasil entrou na Idade Média, deixa as pessoas indiferentes vivendo uma felicidade assustadora, não pelo suposto otimismo ou esperança que possam representar, mas pelo desprezo ou pela ignorância de coisas piores que já estão acontecendo e outras que têm sua vinda anunciada para 2017.
A degradação do mercado de trabalho, a entrega das riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e projetos legislativos que tentam reverter os avanços e as conquistas sociais obtidos nos últimos 80 anos - embora se fala até na revogação da Lei Áurea, são a tônica desse "novo" país que se desenha com o fim da Era PT no Governo Federal.
Aliás, a revogação da Lei Áurea, que parece piada de Stanislaw Ponte Preta, não é tão anedótica assim. A "bancada do Boi" (ruralista) no Congresso Nacional pretende transformar em lei a PEC 3842, que retira as expressões "jornada exaustiva" e "condições degradantes de trabalho" das definições de crime de "trabalho escravo".
Isso é muito grave porque, através da reforma trabalhista do governo de Michel Temer, os patrões terão seus abusos autorizados por lei, como descumprir obrigações trabalhistas, fazer prevalecer seus interesses nos acordos coletivos de trabalho, pagar menos salários aos trabalhadores e forçá-los a trabalhar mais horas por mais anos de serviço, se aposentando (e mal) mais tarde.
É assustador o masoquismo um tanto alienado das pessoas, que pensam agir com esperança e otimismo diante desse cenário desolador. Acham que basta ter fé para sobreviver a qualquer retrocesso, e que podem entender a realidade sem poder compreender metade de sua natureza complexa, que nunca é difundida pela grande mídia nem pelo status quo plutocrático de hoje.
É assustadora a situação de catástrofe que atingirá o Brasil em dimensões trágicas. Atingirá não só as classes populares ou os novos agentes sociais - como a sociedade LGBT - mas as alegres elites felizes na areia da praia, que mal saberão que a felicidade cega das festas de hoje pode gerar uma ressaca trágica amanhã. O Brasil entrou em colapso e isso afetará sobretudo quem não está sequer preparado a admiti-lo.
É uma situação grave, com um país desgovernado por um presidente que chegou ao poder de maneira institucionalmente violenta, passando por cima das leis e sob a corrupção de setores legislativos e jurídicos.
É um quadro político aberrante, para o qual nenhum otimismo preguiçoso poderá resolver, pois o que vem por aí será duro demais para a "fé-licidade" cega das pessoas passar por cima. O Brasil está muito abaixo para poder passar por cima de nuvens trovejantes.
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