domingo, 13 de novembro de 2016

Bondade não é cúmplice da fraude e da mentira


O "espiritismo" tem dessas coisas. Doutrina que no Brasil deturpou o legado de Allan Kardec através da aceitação de ideias do mistificador Jean-Baptiste Roustaing, que, como um "Eduardo Cunha" da Doutrina Espírita, foi descartado como pessoa, mas suas ideias preservadas na sua essência.

Como o governo Michel Temer preservando os conceitos retrógrados propostos ou apoiados por Eduardo Cunha, mesmo sendo este abandonado pelo presidente, o "espiritismo" que nominalmente e formalmente abandonou Roustaing manteve as "pautas-bombas" do roustanguismo que tentou transformar a Doutrina Espírita num engodo igrejista ultraconservador.

Não foi preciso usar o nome de Roustaing porque a FEB resolveu dar um jeitinho, um legítimo "jeitinho brasileiro". Chamou Francisco Cândido Xavier para adaptar detalhe por detalhe da obra roustanguista para o contexto brasileiro, o que completou o trabalho de deturpação da Doutrina Espírita, ignorando os avisos de Erasto.

Erasto avisava dos perigos da desonestidade doutrinária: textos empolados, supostas mensagens de amor, ênfase nas "boas coisas", misticismo, ideias fantasiosas, discurso envolvente. Infelizmente, essas armadilhas foram aceitas pelo "movimento espírita" no Brasil e ocorrem impunemente, usurpando nomes de falecidos ilustres.

Tudo isso é permitido. "Centros espíritas" que usam os nomes de Carlos Chagas, Auta de Souza e Humberto de Campos, pastiches musicais que usam o crédito indevido de Renato Russo são gravados e lançados no YouTube, obras literárias que usam os nomes de Getúlio Vargas e outros famosos por puro sensacionalismo, pessoas anônimas que têm suas tragédias prolongadas porque um "médium" inventou uma mensagem e botou no crédito do ente querido falecido.

Tudo isso, infelizmente, é praticado livremente, como se os "espíritas" fossem os donos dos mortos. Fraudes aberrantes são feitas aqui e ali, e a Justiça não mexe um dedo contra. Para piorar, se existe algum esforço de investigação, os "espíritas" partem para a carteirada ou para o vitimismo para dizerem que "estão sendo perseguidas pelo julgamento severo dos homens da Terra".

Fica muito fácil. Imagine alguém que possui um prestígio social. Decide então inventar um romance, para vender livros, e, querendo ganhar dinheiro, usa o nome de um falecido. Enche o enredo de lições moralistas, procurando caprichar nos "ensinamentos de misericórdia e fraternidade" e, pronto. Pode-se usar levianamente o nome de um morto, mesmo que não condiga ao estilo original dele, e se o farsante possui prestígio e é formador de opinião, tudo bem.

Não há uma punição, os juízes nem investigam. E há quem ache tudo autêntico, apenas porque as obras "falam de coisas boas" e "não" poderiam ser desonestas por isso, mesmo quando são observadas distorções graves de estilo ou aspectos pessoais em relação ao que os falecidos haviam sido ou deixado em vida.

Houve uma tentativa da Justiça acolher uma fraude literária, nada menos que o caso Humberto de Campos, usurpado por Francisco Cândido Xavier, numa das piores farsas literárias que os juízes, por uma simples bobeira, deixaram passar, favorecendo o mito do anti-médium mineiro que cresceu como uma bola de neve, fazendo com que ele passasse para a posteridade com um status de "dono da verdade" e "semi-deus".

O mais aberrante, o mais deplorável e o mais preocupante é que Chico Xavier, que sempre apresentou irregularidades em suas obras atribuídas à autoria de gente morta, seduziu familiares de Humberto de Campos através de "cartas bondosas" que eram comodamente aceitas, sem um pingo de desconfiança.

Primeiro, foi a mãe de Humberto, Ana de Campos Veras, da qual Chico Xavier usou sua esperteza para explorar o ponto fraco daquela senhora, que é a saudade do filho morto. É como tirar doce das mãos de uma criança, a astúcia teve o resultado esperado, conquistando uma vítima com algumas palavrinhas doces.

Segundo, foi o antes desconfiado Humberto de Campos Filho. que havia sido um dos autores do processo judicial contra Chico e a FEB, que depois desconversou sobre as razões da petição e aceitou aos poucos o empate judicial, desistindo de continuar recorrendo das sentenças.

Chico Xavier, esperto, chamou o filho do autor maranhense para visitar um "centro espírita" de Uberaba, em 1957, e dessa forma chamou Humberto Filho, a essas alturas jornalista e produtor de TV, ligado à TV Tupi de São Paulo que já estava complacente com o anti-médium, para ver as "obras de caridade".

Segundo relatou o próprio Humberto Filho no livro Irmão X, Meu Pai, Chico o levou para ver cozinheiras fazendo sopinha num galpão sem paredes - a sopa é um símbolo de caridade paliativa defendida por muitos brasileiros - e, depois, para ver um idoso doente num aposento. O idoso estava deprimido e se comportava de maneira patética, e Chico foi só sussurrar alguma coisa para o idoso depois sorrir de maneira debiloide para o visitante.

Isso tudo foi visto como "generosidade suprema", mas a verdade é que, através de Chico Xavier e seus seguidores, como Divaldo Franco, a ideia de bondade passou a ser usada para justificar práticas nada honestas do "espiritismo" brasileiro, quando a religiosidade permite qualquer fraude ou mentira, pastiche ou mistificação.

Na exposição recente sobre a "corrupção" do ex-presidente Lula, o procurador Deltan Dallagnol havia falado que "não tinha provas, mas tinha convicção", o que diz muito do caráter seletivo, parcial e pedante dos setores da Justiça brasileira.

Pois como, num país de tratamento desigual, como o Brasil, em que o Lula que prometia progressos sociais para o país é visto como "criminoso" e Chico Xavier, usurpador dos mortos, é visto como "espírito iluminado", também "não tem provas, mas tem convicção" de que as obras "mediúnicas" seriam "autênticas".

Só que a bondade, ao ser associada a práticas irregulares e bastante duvidosas, se mostra bastante perversa, anulando o sentido de bondade como uma virtude que não contradiz a honestidade. E é analisando esse ponto delicado que os "espíritas" querem sempre evitar os avanços do raciocínio questionador, com o medo de serem desmascarados pela sua desonestidade doutrinária e suas fraudes associadas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

As elites dominantes e o medo das perdas iminentes


2016 será conhecido como o ano em que setores retrógrados da sociedade, que estavam associados a todo tipo de status quo, de uma simples faixa etária (ou seja, os mais idosos) ao machismo ou ao poder do dinheiro e do armamento.

Depois que a presidenta da República, Dilma Rousseff, foi definitivamente afastada do poder, depois que o então presidente interino Michel Temer, com apetite acima do aceitável, propôs inúmeros retrocessos políticos, desfazendo a marca da antecessora, outra surpresa desagradável foi a vitória do "azarão" Donald Trump, um dos ícones da extrema-direita estadunidense.

O surto reacionário que tomou conta do planeta não se ascendeu pelas qualidades positivas, mas por um clima de catarse que contagiou as classes dominantes que, com seu discurso apaixonado de "revolta contra tudo que está aí", uma espécie de diarreia moral de setores retrógrados ou antigos da sociedade que não representaram um sinal positivo de qualidade, muito pelo contrário.

Só a eleição de Donald Trump, por exemplo, revela o desprezo às inúmeras denúncias de mulheres que teriam sofrido assédio sexual do empresário. No Brasil, políticos comprovadamente envolvidos em corrupção simbolizam a "recuperação ética" e um projeto maligno de cortes de gastos públicos, a PEC do Teto, é festejado por setores da sociedade como um "projeto necessário e urgente para o crescimento do país".

Isso cria um cenário perigoso que já era manifesto por ataques racistas de internautas nas redes sociais, indiferentes ao fato de que o racismo é crime inafiancável, e o extremo reacionarismo dos chamados "fascistas digitais" e seu cyberbullying antecipou a tendência atual de pessoas retrógradas achando que podem tudo.

É um cenário perigoso até para mulheres, que no Brasil sofrem o horror de voltar os "crimes de honra", feminicídios moralistas movidos por ciúmes doentios, num contexto social em que ninguém, nem mesmo a imprensa, se prepara para as mortes de Doca Street (com histórico de tabagismo inveterado e consumo de cocaína no passado) e Pimenta Neves (diabético, com câncer na próstata e histórico de overdose de remédios).

É até irônico o medo que a sociedade machista e setores solidários têm em não ver Doca Street vivo para comentar os 40 anos do assassinato de Ângela Diniz, daqui a um mês. Há poucos dias, o músico Leonard Cohen, com a mesma idade de Doca, 82 anos, faleceu meses após lançar novo disco e declarar que estava pronto para morrer. De repente, matar uma namorada cria um "diferencial" para os assassinos, contra os quais qualquer hipótese de tragédia soa como um palavrão.

Os mesmos que pregam "morte aos petistas" se sentem ofendidos por serem informados que feminicidas também adoecem e morrem. Fácil é aceitar que mulheres morram aos 25, 30 anos assassinadas por seus maridos, mas difícil é aceitar que eles também morrem (em vários casos prematuramente) e são bem mais frágeis, até pelas fortes pressões emocionais que sofrem após o crime. No país que perde um Domingos Montagner, também não há garantia segura que os promotores Igor e detetives Pacífico da vida cheguem vivos aos 60 anos de idade.

Não se pode sequer se preparar para a perda dos "heróis" da plutocracia, mesmo os anti-heróis que cometeram crimes visando o "direito à propriedade", a "defesa da honra" ou mesmo uma simples demonstração de poder. Pelo menos, nos EUA, uma moça se fez de namorada do psicopata Charles Manson numa relação que depois se revelou uma pegadinha, com a jovem dizendo que só o namorou para montar um mausoléu dele, como se dissesse que psicopatas também podem morrer um dia.

Mas a sociedade retrógrada não quer perdas. Ela retomou o poder querendo demais, querendo retomar os antigos privilégios num apetite que nem mesmo em tempos reacionários como o macartismo nos EUA, nos anos 1950, ou o golpe de 1964 no Brasil, não mais com a compostura de seu reacionarismo cujas posturas extremas eram mais clandestinas, como ordenar massacres de estudantes como em Tlatelolco no México, em 1968.

O apetite reacionário é comparável ao do nazi-fascismo alemão e italiano nos anos 1930. O clima de hoje é de uma retomada de setores conservadores numa combinação entre politicamente correto e politicamente incorreto, sem escrúpulos em criar rupturas legais e jogar fora conquistas sociais históricas nem em prevalecer no poder acumulando escândalos e gafes. De repente a moralidade tornou-se uma ficção e o que se vê são moralistas sem moral subindo facilmente ao poder.

O clima contagiou de tal forma que mesmo o "espiritismo" brasileiro, que muitos acreditavam ser uma doutrina de vanguarda, a cada vez mais assume, não no discurso, mas pelo menos na prática, sua inclinação à Teologia do Sofrimento, e sinaliza seu apoio ao conservadorismo sócio-político atual, simbolizado pelas obras recentes do "médium" Robson Pinheiro, que tenta atribuir um anti-petismo doentio de seus romances reacionários às "intuições espirituais".

O problema é que, se os setores ultrarreacionários da humanidade retomaram o poder à força, muito menos por suas virtudes e mais por uma catarse ultraconservadora doentia, isso significa que defeitos muito mais acentuados se mostram existentes e até surpreendentemente comuns que fazem com que os atributos de superioridade social mostrassem qualidades opostas a tais posições.

A questão da superioridade da idade, do dinheiro, do poder econômico, do poder político, da fama, do diploma, da visibilidade, do prestígio tecnocrático, do prestígio religioso, revela-se cada vez mais uma grande ilusão, na qual seus detentores fazem tudo para prevalecer seus interesses e pontos de vista, sem perceber a transformação profunda dos tempos.

De grisalhos senhores que se comportam como moleques birrentos defendendo velhas convicções a políticos que cometem graves atos de corrupção (como Romero Jucá, um dos "homens fortes" do governo Temer) e permanecem no poder impunemente, passando por ídolos religiosos que, com seu balé de palavras bonitas, se esforçam sempre para ficar com a palavra final em tudo, as elites parecem viver seu momento de plenitude, mas não com inabalável segurança.

Elas são sustentadas pela combinação entre a resignação social da maioria da sociedade, o poder financeiro das grandes empresas, a atuação tendenciosa das leis que favorecem os privilegiados e uma estrutura midiática que estabelece um padrão dominante de agir, pensar e querer a ser determinado à sociedade em geral.

Até pelo fato de que a plutocracia (o "universo" que envolve todo tipo de status quo no contexto atual, que vai de moralistas religiosos a delinquentes digitais) não reconquistou o poder com qualidades positivas e sua qualidade moral e pragmática é pior do que antes, quando o moralismo, por mais sanguinário que secretamente seja, era um pouco mais elegante, o cenário atual é de incertezas até para os protagonistas do momento reacionário de hoje.

Mais impulsivos e permissivos em suas atrocidades, os plutocratas são mais gananciosos e nem todos concordam com tudo. Há direitistas LGBT e outros homofóbicos. Há direitistas na mídia que condenam o cyberbullying, mesmo vindo de reacionários anti-PT. Neopentecostais e "espíritas" podem ser igualmente conservadores, mas religiosamente não se bicam, praticamente só se unindo em causas como a reprovação de aborto, mesmo para casos de gravidez sob estupro.

As qualidades que permitiram a retomada ao poder já estão também gerando disputas de egos, arrogância e imprudência extrema, teimosias e retrocessos tão graves que assustam até alguns conservadores convictos. Além disso, posta à situação "marginal", as forças progressistas começarão a reagir massivamente pela Internet e por passeatas, e uma pequena amostra nisso está em curso no Brasil de Michel Temer.

Escolas ocupadas por estudantes dos quais não se esperava uma reação contra a PEC do Teto - já intitulada PEC da Morte ou PEC do Fim do Mundo pelos cortes de gastos a serem feitos em duas décadas - e juristas e economistas sérios divulgando na Internet os gravíssimos e devastadores equívocos a se esperar da "gloriosa ponte para o futuro" do governo Temer.

Portanto, os reacionários reconquistaram o poder à força e se acham numa momentânea plenitude de seus atos e perspectivas. Mas pela falta de qualidades positivas eles também se tornam vulneráveis, até de maneira pior do que os esquerdistas que foram expulsos do poder.

A tragédia da plutocracia está em forçar a ganância e o conservadorismo para onde os novos tempos e novas demandas não permitem mais, e forçar uma volta ao passado dessa forma trará aos plutocratas uma tragédia sem precedentes, pois o perecimento de um mundo no qual eles julgam ser eterno está se avançando rapidamente, sem controle.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O "espiritismo" brasileiro e a "força" que fraqueja


Já dissemos que alguma coisa estranha chama a atenção. Os "centros espíritas", no Brasil, costumam estar localizados em lugares de profunda decadência, o que não pode ser uma coincidência nem uma casualidade.

Em Salvador, por exemplo, o "centro espírita" Paulo e Estêvão, frequentado por um público em maior parte aristocrático, vindo da Pituba, Caminho das Árvores, Ondina e Rio Vermelho, se situa na beira do perigoso "triângulo da violência" dos bairros de Nordeste, Santa Cruz e Vale das Pedrinhas. Recentemente, o bairro do Vale das Pedrinhas teve seu acesso fechado por causa de intenso tiroteio.

A localização de "centros espíritas" em lugares perigosos é tida pelos seus defensores como um "meio de trazer luz a locais miseráveis e degradantes", o que, em tese, poderia ser uma hipótese plausível e dotada de coerência, se não fosse a natureza decadente do "movimento espírita" em nosso país.

O "movimento espírita" tem como sua prática maior a desonestidade doutrinária. A coisa ficou pior ainda, porque, pelo menos em outros tempos, a herança de Jean-Baptiste Roustaing (espécie de "deputado Eduardo Cunha" do Espiritismo) era bem mais assumida.

Só por causa de um chilique de roustanguistas menores e ligados a federações regionais, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, com a cúpula da FEB, depois que o dirigente Luciano dos Anjos denunciou que Divaldo começou sua "mediunidade" plagiando livros do já plagiador de carteirinha Chico Xavier, veio a postura dúbia que vigora no movimento há pelo menos 40 anos.

Hoje a desonestidade doutrinária se torna ainda mais cínica e escancarada, na medida em que se promove o falso equilíbrio entre o cientificismo de Allan Kardec e o igrejismo roustanguista, já sem o nome de Roustaing sendo pronunciado e talvez até desconhecido de muitos "espíritas".

E é isso que traz energias negativas, que pegam de surpresa até quem se delicia com seus postulados medievais. Uma reciclagem do lixo medieval descartado pela Igreja Católica, um lixo que remete ao pior do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, resulta nesse mercado das "palavras de amor" que adoça almas e envenena vidas e traz mau agouro para muitas e muitas pessoas.

As contradições em que se envolve o "movimento espírita" trazem essas energias maléficas. Isso choca muita gente, que se recusa a admitir isso, acha que as más energias surgem "por acaso" e imaginam que o "espiritismo" brasileiro só traz "luz e paz". Mas, paciência, contradições graves trazem energias confusas e, não obstante, malignas.

E a gente observa também o quanto os "espíritas" dizem e desdizem o tempo inteiro. Dizem valorizar a ciência, mas impõem limites para o pensamento científico, impedindo-o de questionar a fé religiosa. Apelam para que a opinião pública e até o meio jurídico aceitem as pretensas psicografias (plágios e pastiches ligerários), psicopictografias (pastiches de artes plásticas) e psicofonias (falsetes) como se fossem autênticas apenas pela suposta mensagem fraternal que transmitem.

Isso faz até mesmo o movimento ter desentendimentos internos. A tese da "data-limite" de Chico Xavier, por exemplo, não é defendida por todos os adeptos do "bondoso médium". Pelo contrário, há quem ache tudo isso um blefe para autopromoção de alguns "espíritas". Outro dado a observar é que a Teologia do Sofrimento, pregada por Chico Xavier, não é corroborada por José Medrado, que defende a Teologia da Prosperidade, inspirada nos neopentecostais.

E aí vemos a contradição maior: a "força" que fraqueja. Ver uma figura tão festejada como Divaldo Franco, nos momentos de crise, se limitar a pedir para "orarmos", é deplorável. Neste sentido, ele se iguala ao terrível Silas Malafaia, que pediu a mesma coisa. Divaldo fala para os ricos e nunca teve coragem de fazer qualquer cobrança a eles para o combate às desigualdades sociais.

O "espiritismo" aliás tem essa omissão. Promove uma "caridade" que nunca ajuda de verdade, nunca traz resultado profundo algum, mas apenas a resolução superficial da miséria extrema e da ignorância total, com efeitos meramente paliativos e limitados, sem mexer nas estruturas de injustiças sociais que permanecem intatas.

O "espiritismo" se diz "forte" mas fraqueja. Nos tratamentos espiritiais, os pacientes contraem mais azar e adversidades piores do que as que sofreu antes e os "espíritas" dizem que tais tratamentos "deram certo", mas os "irmãozinhos pouco esclarecidos" (eufemismo para espíritos obsessores) simplesmente "se sentem incomodados e querem atrapalhar".

Não existe isso da coisa "dar certo" quando dá errado. Se a coisa dá errado, é porque não deu certo. Nos tratamentos espirituais, e o paciente contrai mais azar, mais infortúnios e mais ciladas do que antes, simplesmente esses tratamentos fracassaram, deram errado, resultaram em um grande prejuízo. Num país um pouco mais sério, desculpas assim dariam num grande processo por danos morais, que obrigaria os "espíritas" a darem uma grande soma financeira como indenização.

A profecia da "data-limite" é um outro exemplo maluco. Tanto Chico Xavier e suas testemunhas, como Geraldo Lemos Neto, quanto Divaldo Franco, se enrolaram nas alegações de que a Terra passará por regeneração ou por conflitos entre o Bem e o Mal.

Contraditoriamente, chegam a dizer que a Terra passa por regeneração e atingirá o ponto de luz em tal ano. Chega tal ano e nada acontece. Tão "fortes" e "triunfantes", os "espíritas" usam como desculpa o fato de que os tais "irmãozinhos pouco esclarecidos" impediram o trabalho, e por isso a tão prometida entrada na prosperidade foi adiada para outro ano.

É a mesma coisa com os "centros espíritas". Localizados em áreas de alta periculosidade, ou em lugares de práticas abjetas - o Irmã Rosa, em Niterói, é vizinho a um circuito de bares, redutos da mais doentia embriaguez - , essas instituições usam como pretexto a "disposição" de "melhorar" tais lugares.

Mas esses lugares não melhoram e, muitas vezes, até pioram. Tão marcadas pela influência "iluminada" dos "maiores médiuns" Chico Xavier e Divaldo Franco, lugares como a cidade mineira de Uberaba, cidade adotiva do primeiro, e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, onde fica a Mansão do Caminho do segundo, são redutos de miséria e violência em índices bastante preocupantes.

Sejamos diretos e sem enrolação. Se o "espiritismo" tivesse mesmo a força que diz ter, tudo isso teria sido resolvido prontamente. Mas não. Em vez disso, os "espíritas" demonstram fraqueza, porque o próprio movimento optou por uma performance contraditória, como se fosse um sub-Catolicismo à paisana, e essas contradições atraem as piores energias espirituais, e o próprio consentimento "espírita" a isso só o faz permitir que as energias malignas prevaleçam.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Divaldo Franco e a Escola Sem Partido


O "movimento espírita" apoia a Escola Sem Partido. Um projeto educacional que diz rejeitar a "doutrinação" da ideologia esquerdista, do pensamento crítico e da compreensão questionadora da realidade, mas que sempre acolhe a doutrinação religiosa, diante do respeito dado à formação religiosa dos alunos, que devem ser preservadas intocáveis por essa proposta.

A Escola Sem Partido, idealizada por Miguel Najib e pelo senador Magno Malta, tem origem evangélica, sendo oficialmente lançado em 2004 mas já proposto no Congresso Nacional em 1996. É um projeto que, na prática, retoma os antigos paradigmas educativos que vigoraram até o começo da década de 1950. O projeto foi acolhido pelo Ministério da Educação do governo Michel Temer e será aproveitado pela reforma do ensino médio proposta por seu governo.

Eram padrões pedagógicos em que o ensino era hierarquizado. O professor era visto como um aristocrata do saber e os alunos, submissos aprendizes de lições anódinas que serviam apenas para a vida prática dentro dos limites da sociedade conservadora. Nada de pensar criticamente o mundo, mas, quando muito, usar o raciocínio apenas para resolver cálculos matemáticos ou fórmulas de equações químicas ou físicas.

Mas muito do projeto Escola Sem Partido condiz, e muito, no pensamento do "movimento espírita". As ideias encontram afinidade no pensamento de Emmanuel e também se encaixam no projeto educacional da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco.

O trecho a seguir, do tema Importância da Evangelização Infantil - Seara Infantil (os termos "evangelização" e "seara" são jargões católicos), Divaldo Franco se dirige à cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, trazendo argumentos que possuem surpreendente afinidade com a Escola Sem Partido, já que as semelhanças programáticas com base nos argumentos dos defensores da ESP são impressionantemente expícitas.

Nota-se que tanto Divaldo Franco descreve a "doutrinação" no sentido religioso, tarefa que é aceita pela Escola Sem Partido, embora num discurso mais sutil. A ESP defende que crenças religiosas sejam preservadas, por mais fantasiosas que sejam. E o projeto educacional da Mansão do Caminho segue a doutrinação religiosa, ensinando coisas como as "crianças-índigo", uma analogia sutil à ideia católica da "profecia do menino Jesus".

Portanto, a "doutrinação" que se condena, nesse projeto pedagógico, é a evocação de personalidades esquerdistas - como Ernesto Che Guevara ou mesmo o ex-presidente Lula - e de novos fatores sociais, como a formação de famílias cujos pais são do mesmo sexo. Isso é visto como "doutrinação esquerdista" e "manipulação política" pelos defensores da Escola Sem Partido, que segue uma orientação mais conservadora.

Vejamos alguns trechos do manifesto de Divaldo Franco, reproduzidos da seleção feita pelo seu seguidor Orson Peter Carrera. O conteúdo das ideias de Divaldo apresenta uma contundente afinidade com a reforma educacional do governo Michel Temer e com o ideário da Escola Sem Partido que a gente até pergunta se esse projeto também não seria "espírita".

05. Existem condições mínimas para que alguém possa desempenhar a tarefa de evangelização? Quais seriam?

Não pretendemos estabelecer regras de comportamento doutrinário, que já se encontram muito bem apresentadas no corpo da Doutrina Espírita, e, em particular, na excelente página “o homem de bem” e a seguir “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec.

Não obstante, a pessoa que deseje desempenhar a tarefa de Evangelização Espírita Infanto-Juvenil deve possuir conhecimento da Doutrina Espírita e boa moral como embasamento para a tarefa que pretende. Como necessidade igualmente primordial, deve ter conhecimentos de Pedagogia, Psicologia Infantil, Metodologia, sem deixar à margem o alimento do amor, indispensável em todo cometimento de valorização do homem. Aliás, a programação para a preparação de evangelizadores infanto-juvenis tem tido preocupação em oferecer esses elementos básicos nos encontros e Cursos que são ministrados periodicamente em diversas regiões do país sob a orientação da FEB.

06. Que papel cabe aos espíritas de um modo geral, isto é, àqueles que não atuam diretamente na Evangelização Espírita Infanto-Juvenil, para o crescimento e maior êxito dessa tarefa?

O de divulgar este trabalho importante, estimulando os pais para que encaminhem, quanto antes, os seus filhos à preparação e orientação evangélico-espírita, de modo a contribuírem significativamente para os resultados que todos esperamos. Da mesma forma, exemplificarem, levando os filhos às aulas hebdomadárias e mantendo, no lar, a vivência espírita, que ainda é a melhor metodologia para influenciar mentes e conduzir sentimentos.

07. Que orientação os Amigos Espirituais dariam aos pais espíritas em relação ao encaminhamento dos filhos à Escola de Evangelização dos Centros Espíritas?

Informa-me Joanna de Ângelis que, na condição de pais e orientadores, temos a preocupação de oferecer a melhor alimentação aos filhos e aos nossos educandos; favorecê-los com o melhor círculo de amigos; vesti-los de forma decente e agradável; encaminhá-los aos melhores professores, dentro da nossa renda; proporcionar-lhes o mais eficiente médico e os mais eficazes medicamentos quando estejam enfermos; conceder-lhes meios para a manutenção da vida; encaminhá-los na profissão que escolham... É natural que, também, tenhamos a preocupação maior de atendê-los com a melhor diretriz para uma vida digna e um porvir espiritual seguro, e esta rota é a Doutrina Espírita. Portanto, encaminhemo-los às Escolas de Evangelização dos Centros Espíritas, ou, do contrário, não estaremos cumprindo com as nossas obrigações.

08. Que recursos poderiam ser, ainda, acionados para expandir a tarefa de Evangelização Espírita Infanto-Juvenil?

Maior e mais constante contato entre evangelizadores e pais, a fim de os conscientizar da alta responsabilidade que a estes últimos diz respeito, pedindo ajuda e num intercâmbio frequente, já que ambos são interessados na formação moral e espiritual da criança e do jovem. Seria, também, muito válido, que os resultados da Evangelização Espírita Infanto-Juvenil fossem mais divulgados nos Centros Espíritas e se insistisse mais na colocação de que todo bem feito à infância se transforma em bênção no adulto.

sábado, 5 de novembro de 2016

A onda de retrocessos do Brasil dos últimos tempos


O Brasil está passando por uma situação extremamente delicada. As elites estão felizes, porque o cenário político do PT, contra o qual reagiram com rancor acima dos limites socialmente imagináveis, praticamente se encerrou. E isso com o agravante de que se tratam de elites supostamente esclarecidas, bem educadas e pacíficas.

Afinal, desde que o governo Dilma Rousseff entrou em crise, o que se viu foi a sensação de uma parcela da sociedade em se achar no direito de defender os mais assustadores preconceitos sociais: defendem valores machistas, homofóbicos, racistas (apesar de tal postura ser considerada crime inafiancável) e até mesmo escravagistas.

A catarse coletiva, que vem de onde não podemos imaginar, que é de uma sociedade supostamente organizada e civilizada, é ainda comandada por uma grande imprensa que passou a mentir, por um sistema jurídico que manipula as leis conforme interesses escusos e por movimentos religiosos que preferem apelar para as pessoas aguentarem desgraças em prol das "bênçãos futuras".

É um Brasil inseguro, vulnerável, abusivo, um verdadeiro caos. É como se a sociedade brasileira sofresse uma infecção generalizada combinada a um câncer em estado terminal. E o que mais assusta é que as elites são justamente as que reagem felizes ao atual momento, achando que já estão recuperando o glamour perdido, vivendo seu entretenimento com "alegria" e "positividade".

Não há como pensar em "positividade" num cenário desses. É muito fácil pensar em jardins floridos, coraçõezinhos pulpitantes, botar ilustrações de pessoas alegres na relva abrindo os braços diante de um céu ensolarado, quando temos a ameaça de cortes nos investimentos públicos que simplesmente farão as despesas familiares se estrangularem cada vez mais.

A hipocrisia de uns e a boa-fé de outros, que apoiam essa sociedade ultraconservadora, esse "mundo cão" que se é obrigado a aceitar, que acham que o ministro da Fazenda do governo Temer, Henrique Meirelles, virá no próximo mês fantasiado de Papai Noel para dar presentes para o pessoal que se mobilizou nas ruas pelo "Fora PT", é ilustrativa dos últimos tempos.

Pais que apoiam governos conservadores impondo a seus familiares cortes de gastos até do que é necessário, acompanhando, na vida doméstica, o propósito sombrio da PEC do Teto (PEC 241, transformada em PEC 55 na tramitação do Senado).

Em contrapartida, teremos o avanço da saúde privada em que as mensalidades não incluem tratamentos delicados e complexos de saúde, mas sempre incluem a "bolsa-granfino" para médicos de renome na alta sociedade adquirirem sua coleção de ternos e gravatas para circular nos eventos de gala ao lado de suas estonteantes esposas.

O cenário brasileiro de hoje é devastador. Isso não é exagero e nem é discurso de gente derrotista, catastrofista ou coisa parecida. Não é, portanto, relato de desesperançosos doentios, mas de gente realista, que vê a coisa rumar para ameaças cada vez mais sombrias, como a ascensão de grupos fascistas no Brasil.

A vitória eleitoral de Marcelo Crivella, "bispo" da Igreja Universal do Reino de Deus, e a provável tendência da Rede Globo se aliar ao "movimento espírita" para neutralizar o poder de Edir Macedo no berço da rede televisiva dos Marinho, revela que o cenário ultraconservador tende a se acentuar cada vez mais.

Inúmeros retrocessos sociais se observa desde que internautas combinavam campanhas coletivas de difamação contra gente que discordava de valores pré-estabelecidos, de modismos midiáticos trazidos pela mídia reacionária, arbitrariedades políticas impostas até na mobilidade urbana, a velhos valores de supremacia racial ou masculina.

Isso cresceu como bola de neve e o Rio de Janeiro, antes uma sedutora vitrine de novidades e inovações, passou a ser socialmente reacionário, comprovando, pelas urnas, a escolha de gente retrógada, como Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro e seus familiares e, agora, Crivella. A cidade do "funk" e dos ônibus "padronizados" provou que hoje rejeita a diversidade e o progresso sociais.

Há preconceitos e intolerâncias no lado de cima da pirâmide social. Por boa ou má-fé. Por boa-fé, no caso de pais de família cobrarem demais dos filhos sacrifícios descomunais para vencer na vida, como se valorizasse mais o sacrifício do que a conquista de alguma meta. E, por má-fé, pelo interesse de defensores da PEC 241 de evitar benefícios para as classes populares.

No mercado de trabalho, existe o preconceito com pessoas de talento que não seguem estereótipos sociais dominantes. E nem quando se admite portadores de limitações físicas diversas se supera esse quadro, pois são apenas ações excepcionais, ou então movidas por ideais politicamente corretos ou visando abatimentos ou isençõs fiscais.

As elites é que sofrem a perda de privilégios e quer forçar a recuperação dos mesmos apelando para rupturas sociais diversas, que permitem transmitir calúnias, difamações, afrontas à lei, moralismos perversos, mistificações e tudo o mais.

No "espiritismo", por exemplo, a cada vez seus palestrantes estão perdendo os escrúpulos em fazer apologia ao sofrimento, usando o mesmo discurso dos partidários católicos da Teologia do Sofrimento, corrente católica apoiada por gente como Madre Teresa de Calcutá e que aos poucos começa a substituir a tendência dúbia, que era o "kardecismo autêntico" de conteúdo igrejista, vigente desde 1975.

As elites não querem ceder. É muito fácil as pessoas "de cima" cobrarem demais dos que estão em baixo. Mas são as elites que, no alto da "pirâmide", estão sujeitas às trovoadas sociais, e são elas que mostram suas graves crises, sua sordidez, sua imaturidade na meia-idade e na velhice, sua miséria na riqueza financeira, sua burrice sob diplomas, sua mentira disfarçada de informação, sua grosseria disfarçada pela etiqueta, sua perversidade sob o verniz da bondade etc.

As pessoas "de cima" é que têm mais que perceber o lado "de baixo", em vez de pedir de volta antigos privilégios, cobrar demais de quem não tem e criar ou apoiar barreiras sociais, abrir mão de lucros exorbitantes, não usar a religião para ter a posse da verdade e não usar o poder para governar apenas para uns poucos.

Se caso não ocorrer e as pessoas "de cima" não cederem de suas convicções, a crise pesará mais nelas, porque a instabilidade vivida pelos brasileiros pode prejudicar, em primeiro momento, os mais pobres e desfavorecidos, mas os efeitos a médio prazo atingirão, de maneira mais grave e sem controle, os privilegiados que se achavam portadores de alguma superioridade social. Não há como dar marcha-a-ré ao tempo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Globo pode fazer parceria com "movimento espírita" para enfrentar Crivella e Record


A senha foi dada semanas atrás. Se valendo do carisma e da alta visibilidade da atriz Camila Pitanga, estrela da controversa novela Velho Chico, ela foi indicada por alguém da emissora para agradecer à sobrevida a um acidente que matou seu colega de cena, Domingos Montagner, viajando para um distante "centro espírita" em Goiás.

Em tese, a ideia era recorrer ao "médium" João de Deus - aquele que não teve coragem de fazer autocirurgia para retirada de um câncer (talvez ele precisasse de umas aulas com o espírito do dr. Leonid Rogozov) - apenas para Camila agradecer o fato de estar viva.

No entanto, não se acredita que ela tenha feito promessas a qualquer ente "espírita" e, além disso, ela é ateia e ideologicamente de esquerda. O "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, é rico proprietário de terras e é blindado pela mídia direitista, tendo sido capa da revista Veja, conhecida por suas posturas extremamente reacionárias.

O próprio "movimento espírita" sempre se alinhou para a direita, vide o exemplo de Francisco Cândido Xavier. A atitude de Chico Xavier sempre foi explícita, por conta de suas ideias moralistas, calcadas na medieval Teologia do Sofrimento católica, e, além disso, defendeu a ditadura militar e esculhambou, diante de uma grande plateia e milhares de telespectadores, movimentos organizados por pessoas humildes como operários e camponeses.

Recentemente, o mais festejado "médium" do movimento, Robson Pinheiro, iniciou uma série de livros supostamente psicografados que tentam dar uma "base espiritual" aos preconceitos que o astro da literatura "espírita" tem em relação ao PT e aos movimentos esquerdistas, atribuindo a mentira de um suposto gangsterismo político, reforçando mentiras descaradas que, no Brasil, são lançadas pelas páginas emporcalhadas da revista Veja.

Livros como O Partido - Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha - Foro de São Paulo (Foro de São Paulo é nome de um congresso de partidos esquerdistas latino-americanos ocorrido em 1990 e realizado pelo Partido dos Trabalhadores) revelam que, não bastassem as lorotas que se bombardeiam contra Lula e Dilma Rousseff, ainda se atribui a eles e a líderes como Nestor e Cristina Kirchner, Evo Morales, Hugo Chavez e Nicolas Maduro (Nestor e Hugo já estão no além) malignas influências espirituais.

Só que Robson Pinheiro deu um tiro no pé quando atribuiu às manifestações anti-Dilma suposta intuição de espíritos superiores. Tais manifestações têm como organizadores grupos como Revoltados On Line. O "espiritismo" diz abominar a revolta humana.

Além disso, as "iluminadas" manifestações eram feitas por gente que demonstrava profundo ódio político e exibia até suásticas nazistas, defendia o golpe militar contra Dilma e alguns manifestantes chegavam a cometer grosserias como baixar as bermudas e exibir os traseiros. Duas senhoras foram vistas descansando com um cartaz escrito "Por que não mataram todos em 1964?".

POR QUE "ESPIRITISMO" E NÃO CATOLICISMO?

Com a vitória de Marcelo Crivella, "bispo" da Igreja Universal do Reino de Deus, para a Prefeitura do Rio de Janeiro, município que foi o berço da Rede Globo de Televisão, a empresa da família Marinho terá que ter muita cautela na hora de fazer oposição ao novo prefeito.

Isso porque a Globo não pode se opor a Crivella como se opõe, por exemplo, a Lula e Dilma Rousseff. A menor tentativa pode representar uma reação enérgica da Rede Record, que rebaterá na forma de reportagens escandalosas contra a Rede Globo.

O crescimento da Record e da Igreja Universal no Rio de Janeiro pode significar um dilema difícil para a Globo. Além disso, a ascensão da religião evangélica terá que fazer com que a Globo tenha que fazer concorrência sem parecer escancarada na competição.

Daí que o Catolicismo poderá até ser usado pela Globo, mas apenas eventualmente. Nota-se que a Globo anda usando mais o "movimento espírita" do que a Igreja Católica para sua dramaturgia religiosa, até pela roupagem aparentemente modesta e descompromissada que os "espíritas" apresentam, além do fato do "espiritismo" brasileiro ter praticamente o mesmo conteúdo doutrinário do Catolicismo, em muitos casos sendo mais católico do que os católicos propriamente ditos.

De 2010 para cá, dos filmes religiosos co-produzidos pela Globo Filmes, apenas Maria Mãe do Filho de Deus, de Moacyr Góes, se destacou. Os demais são "espíritas", dois deles ligados a Chico Xavier, como Chico Xavier - O Filme e As Mães de Chico Xavier, além de ...A Vida Continua e Nosso Lar, baseados em livros atribuídos ao "espírito André Luiz".

As Organizações Globo há muito desfizeram as antigas impressões sobre Chico Xavier, a primeira como um exótico paranormal - quando uma edição de O Globo de 1935 mostrava o "médium" olhando de frente, trazendo um semblante assustadoramente trevoso - e a segunda como um herege (Chico Xavier era um católico de ideias ortodoxas, mas, como paranormal, tinha algumas práticas heterodoxas), e viram como um bom propagandista religioso conservador.

Desta forma, depois que os Diários Associados se desfizeram de boa parte de seu espólio - a TV Tupi foi extinta e a revista O Cruzeiro entregue a outros editores, que criaram uma linha editorial distante dos tempos áureos - , o "movimento espírita", que iniciava sua fase dúbia (bajular Allan Kardec mas praticar igrejismo), teve que apelar para a Globo para uma nova blindagem a Chico Xavier.

E aí a Globo e a FEB foram favorecidos pelo mito de Madre Teresa de Calcutá, construído por um documentário britânico, Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista católico Malcolm Muggeridge fez em 1969, criando os paradigmas do que o público médio conhece como "exemplo máximo de caridade e amor ao próximo".

Tudo o que o documentário fez sobre Madre Teresa (na verdade acusada de maus tratos contra supostos assistidos) foi copiado para relançar o mito de "grande filantropo" de Chico Xavier: um marketing religioso era desenvolvido às custas de clichês de uma caridade que mais fascinava do que realmente ajudava o próximo. Uma caridade paliativa, que em verdade ajudava muito pouco.

Isso ocorreu no final da década de 1970 e havia a crise da ditadura militar, causada pelo fracasso do "milagre brasileiro". A mídia precisava domesticar a população, evitando mobilizações intensas, e a Globo viu em Chico Xavier a pessoa certa para esse processo de manipulação de corações e mentes.

Por outro lado, a ascensão de R. R. Soares e Edir Macedo, que aos poucos arrendavam horários para seus cultos eletrônicos, poderia fazê-los novos imperadores midiáticos, neutralizando o poder da Globo, que usou Chico Xavier (e todos os elementos ideológicos importados de Muggeridge) na tentativa de barrar o crescimento dos "pastores eletrônicos".

E olha que foi só em 1990 que a Rede Record foi adquirida por Edir Macedo (tio de Crivella) e o "movimento espírita" já fazia seu jogo duplo, de fingir apreciação "autêntica" do legado de Kardec enquanto mostrava um conteúdo escancaradamente catolicizado, através de Chico Xavier e Divaldo Franco, este também blindado pela Rede Globo, que o considerou "maior filantropo do país" sem ajudar sequer 0,1% da população brasileira.

A opção do "espiritismo" e não do Catolicismo se dá pela Globo para evitar que a Record aponte proselitismo religioso na "máquina global", já que os "espíritas" trazem consigo um verniz de modéstia e descompromisso que dissimulam bem o apelo religioso. Através do "espiritismo", a Globo é religiosa sem parecer explicitamente como tal.

Com a ascensão de Crivella, da Igreja Universal e da Record, a Globo poderá mexer os pauzinhos e apelar ainda mais para o "espiritismo", criando novelas ou fazendo com que seus contratados visitem "centros espíritas", como forma de propaganda tanto para a doutrina quanto para a empresa dos Marinho.

E isso não pode ser entendido como a disputa da "bondade espírita" contra o "mal neopentecostal", mas uma mera disputa religiosa sem maniqueísmos, mas com intenso e traiçoeiro jogo de interesses dos dois lados.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Por que certos sofredores acabam ficando mal-humorados?


As religiões, sobretudo o "espiritismo", não entendem por que muitos sofredores acabam reclamando muito da vida, vivendo com mau humor e angústias sem fim. Em seu juízo de valor, é muito fácil ignorar o sofrimento humano e dizer que o sofredor está de frescura e criando caso à toa.

Essa postura, aparentemente positiva mas que demonstra ser um terrível descaso, se observa mesmo até no legado de Francisco Cândido Xavier. Com suas palavras, Chico Xavier dizia para o sofredor "sofrer sem mostrar sofrimento", como se sua angústia ofendesse os outros.

Adepto da Teologia do Sofrimento, Chico Xavier era do tipo que culpabilizava a vítima. Se a pessoa demonstra angústia e tristeza, e, diante de dificuldades intransponíveis, vive de mau humor, ela é vista como "antipática", "intransigente" e "insuportável".

Muitos acreditam que essa visão é "generosa", mas é de um terrível e deplorável egoísmo. O que Chico Xavier quis dizer é que tenhamos que ser felizes à força, e aceitar os desígnios do "Alto", pouco importando se muitos de nós viram brinquedos das circunstâncias infelizes, sendo obrigadas a abrir mão até de sua individualidade para subir na vida.

Um conto sobre a "queixosa", que Chico Xavier escreveu juntamente com Antônio Wantuil de Freitas, mas sob o crédito de autoria levianamente atribuído a Humberto de Campos, revela esse egoísmo cruel e é uma apologia ao preconceito social contra as pessoas infelizes.

Dupla crueldade. Chico Xavier estimulando o desprezo a quem aparentemente "reclama demais" e lamenta servir de "capacho do Destino", e botando tudo sob a responsabilidade póstuma de Humberto de Campos, que já não estava vivo na ocasião para reagir a essa usurpação oportunista.

Que Chico Xavier pudessse ter suas opiniões, vá lá. Mas jogar suas opiniões pessoais para a responsabilidade de outras pessoas, como Auta de Souza, Humberto de Campos, Irma "Meimei" de Castro, Olavo Bilac e outros é de um cinismo sem tamanho e uma tarefa que rebaixa o anti-médium ao pior dos internautas que produzem fakes aqui e ali. Não é por acaso que Chico Xavier é endeusado nas redes sociais da Internet, até por ter sido o pioneiro dos fakes na literatura brasileira.

Mas indo ao nosso foco, o desprezo à individualidade que é o princípio do moralismo "espírita", que acredita que, no mundo espiritual, todos nós nos transformaríamos em servos da Igreja, tão "individualizados" e inócuos quanto passarinhos no bosque, ignora as razões e as raízes dos sofrimentos humanos.

É como no caso do suicídio, quando o "espiritismo" prefere criminalizar e depois fingir que estuda o problema, se esquecendo que ninguém se suicida por hobby e as dificuldades na vida se tornam extremas de tal forma que a medida do abandono da individualidade soa bastante perversa.

A encarnação é um período de prazo limitado no qual a individualidade é que precisa ser mais valorizada. Infelizmente, as desigualdades sociais diversas são toleradas e até aceitas pelas religiões, num contexto em que os privilegiados abusam de seus benefícios e possuem o que não necessitam e os desafortunados não possuem sequer o necessário.

É isso que faz com que pessoas reclamem demais da vida, quando nem o mais árduo esforço consegue superar uma dificuldade. Existem níveis de satisfação pessoal que devem ser respeitados e a complexidade da vida nunca é compreendida dignamente pelas religiões, sobretudo a "espírita", daí os conselhos simplórios, os juízos de valor e os apelos que mais soam uma negação à individualidade e às necessidades humanas.

Isso mostra o quanto falar é fácil no discurso religioso, um mercado de palavras bonitas que nem de longe resultam em atitudes concretas e espontâneas. O moralismo religioso acaba mostrando mais preconceitos e perversidades por trás desse belo desfile de palavras melífluas.
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