terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mercado literário prossegue na sua decadência


O mercado literário brasileiro segue em sua decadência. O compromisso de valorizar a literatura como meio de transmissão de conhecimento é desprezado, numa sociedade pretensamente moderna cujas pessoas têm a suposição de que "já sabem muito", ilusão trabalhada pela overdose de informação trazida pela grande mídia e pelo mainstream da Internet.

Ainda temos "livros para colorir" nas listas dos títulos mais vendidos de "não-ficção", o que é muito estranho porque são praticamente meros livros para colorir, muito mais próximos da ficção do que da não-ficção.

Já alertamos sobre o cenário desolador que está a cultura no Brasil, uma decadência silenciosa que a chamada "espiral do silêncio" da sociedade se recusa a admitir. Feito gados felizes, as pessoas tomam como "sua" a "cultura" trazida pelos filtros da grande mídia, que já comprovou seu apetite reacionário, e são levadas a acreditar que Arte e Cultura são sinônimo de Entretenimento e Consumismo.

Um dos aspectos surreais envolve o próprio "movimento espírita", com a renovação de estoques, nas livrarias, do livro Data-Limite Segundo Chico Xavier, um engodo esotérico e pseudo-científico que nem é corroborado por todos os seguidores do anti-médium mineiro. Correntes de seguidores de Francisco Cândido Xavier acham a "profecia da data-limite" uma farsa, só aumentando as confusões que cercam o mito do "médium" católico de Pedro Leopoldo e Uberaba.

A sociedade vive um período de declínio que não consegue perceber. Em muitos aspectos, esse declínio é visto como se fosse o melhor dos progressos. Tanto que, quando textos alertando sobre essa decadência são publicados, a reação é de pura estranheza, e a primeira impressão é de rejeição a essa denúncia, vista equivocadamente como um exagero.

É porque as pessoas, acomodadas em suas zonas de conforto, não conseguem admitir o amargor da realidade oculta pela imprensa comercial e pelas mensagens publicitárias. Acham que, só por viver nos seus alegres privilégios e na rotina cotidiana feliz, a gravidade dos problemas não passa de exageros de gente raivosa, os problemas "existem" mas são até "fáceis de suportar".

Por isso é que a sociedade está a cada vez mais experimentando fatos trágicos e até aberrantes, numa triste pedagogia do outro lado, diferente da feliz rotina do consumismo familiar, da curtição entre amigos, do futebol que sempre vence e dos ídolos musicais que são geniais apenas porque lotam plateias em poucos minutos.

Daí ninguém perceber que existe decadência, sobretudo no Rio de Janeiro marcado por um declínio avassalador. Quem é que imagina que o Rio de Janeiro iria sofrer uma decadência desse tamanho, de forma vertiginosa desde 2010? Fácil a pessoa no seu conforto privilegiado negar decadência e dizer, em sentido metafórico, que o Inferno é apenas a churrascaria do Paraíso.

Vemos o teatro rebaixado a um cenário que alterna comédias americanizadas e franquias de desenhos animados da Disney e Warner Bros. E a literatura num rol de publicações que sempre têm que fugir da finalidade de transmitir conhecimento, num mercado que complica, se não a publicação, mas o êxito de escritores emergentes que querem trazer questionamentos à realidade estabelecida e injusta.

Vemos a multiplicação de livros de youtubers que perdem o tempo refletindo sobre frivolidades. e uma enxurrada de livros de auto-ajuda que só ajudam seus autores, ou de livros religiosos que mais parecem de "contos-de-fadas" de adultos, que servem de trampolim para autores inexpressivos surgirem do nada e virarem ascendentes através de tolices místicas e piegas.

É desagradável, muitas vezes, dizer isso, mostrar aspectos duros da realidade brasileira, mas a chamada "boa sociedade", em sua forçada felicidade, não pode apenas dizer que aceita ou admite a existência de problemas e deixar a sujeira escondida debaixo do tapete.

Muitos descasos, muita permissividade de um lado e repressão de outro, muitas cobranças a quem não tem e muitas concessões a quem já tem demais são feitas, e isso reflete em tudo. Até num mercado literário que, supervalorizando os livros religiosos, faz muita gente perguntar se o portal de autores independentes Clube de Autores não deveria se chamar "Clube de Pastores".

Valores se transformam e o que os brasileiros fazem é recusar essa realidade. Os que mais condenam os questionamentos mais duros são justamente as pessoas mais intolerantes, intransigentes e imprudentes que se escondem em situações confortáveis para evitar a responsabilidade dos problemas mais graves que a realidade decadente mostra para o nosso país.

O espírito de descaso, de assumir que os problemas existem mas subestimá-los sob desculpas que vão ao "quem nunca erra?" ao "não é bem assim", passando pelo habitual "ninguém é perfeito", só faz manter as estruturas injustas e desiguais que existem e só fazem o Brasil se afundar na tragédia.

E quando escritores que transmitem conhecimento genuíno, mas não têm a visibilidade de gente já consagrada como Fernando Morais, encontram o fracasso das vendas, como um silêncio da sociedade surda para certos questionamentos profundos, é sinal que o mercado literário brasileiro abandonou a sua mais prioritária finalidade: promover e estimular o saber.

domingo, 16 de outubro de 2016

Globo indicou João de Deus para Camila Pitanga?

CAMILA PITANGA PERDEU O AMIGO E COLEGA DE CENA DOMINGOS MONTAGNER, QUE MORREU AFOGADO DURANTE UM MERGULHO.

Estranhos fatos ocorrem. Uma atriz que havia declarado seu ateísmo e parecia não seguir religião alguma, depois que sofreu uma tragédia foi agradecer justamente a uma seita igrejista, o oposto de sua natureza, por ter sobrevivido a um acidente.

Sabe-se que Camila Pitanga, durante um intervalo de filmagem da novela Velho Chico, da Rede Globo, conversava com o amigo e colega de cena Domingos Montagner que, apesar de veterano aos 54 anos, estava em plena ascensão e com uma comédia cinematográfica em lançamento.

Foi Domingos dar um mergulho e um forte movimento das águas o fez se afogar, morrendo pouco depois, Camila ia nadar, também, mas Domingos a impediu, salvando sua vida. A morte de Domingos Montagner causou comoção nacional e o ator não viveu para gravar suas últimas cenas, que a produção da novela resolveu substituir por uma câmera subjetiva.

Lamentamos com profunda sinceridade a tragédia, já que foi um desfecho triste para um ator como Domingos Montagner, que se revelou uma grande figura humana e um excelente profissional da atuação. Tanto que a impressão de sisudez de seus personagens de novela se comprova falsa, pela constatação de que ele teve origem como palhaço de circo, tinha grande desenvoltura como ator de teatro e era muito descontraído e jovial nos bastidores.

Mesmo assim, é muito estranho Camila Pitanga, ateia e sem religião, recorrer justamente a um "centro espírita" de Abadiânia, Goiás, para falar justamente com o "médium" João de Deus, um latifundiário, um igrejista, com atividades "mediúnicas" tão duvidosas que, quando ele esteve gravemente doente, não fez cirurgia espiritual de si mesmo, mas recorreu a um hospital de elite.

"O barbeiro corta o próprio cabelo?", alega João de Deus, se esquecendo de que existem casos surpreendentes de auto-cirurgia, e mostram o quanto o "espiritismo" que se diz tão forte sempre arruma desculpa quando se fraqueja de forma vergonhosa. Há uma lista de 10 mais incríveis casos de auto-cirurgias feitas por "barbeiros" que não têm medo de "cortar o próprio cabelo".

Um dos famosos casos foi o do médico russo Leonid Rogozov, lotado em uma base na Antártica, descobriu que estava sofrendo, em 1964, de uma apendicite aguda. Ele não podia viajar para um hospital porque a apendicite poderia se romper, causando a morte, devido a variações climáticas.

Ele resolveu então fazer uma cirurgia de risco, com ajuda de um meteorologista, o motorista da equipe e os próprios assistentes do médico. A cirurgia foi bem sucedida e o médico teve duas semanas de recuperação, que foi completa a ponto do médico ter condições de trabalhar depois de então.

Camila se dirigiu à Casa Dom Ignacio de Loyola, acompanhada do pai, o ator e cineasta Antônio Pitanga. Antônio é a segunda personalidade que teve sua comemoração de uma efeméride profissional um tanto abalada pelas circunstâncias tristes de entes queridos.

Este ano, o ator e dublador Nizo Neto, filho de Chico Anysio, não pode celebrar os 30 anos do filme Curtindo a Vida Adoidado, no qual dublou o personagem-título, Ferris Bueller (interpretado por Matthew Broderick), porque perdeu o filho Ryan Brito, afogado depois de uma ingestão de ayahuasca. A ex-mulher de Nizo, a atriz Márcia Brito, recorreu a um "médium" que mandou uma suposta mensagem de Ryan, com aquele mesmo apelo religioso de sempre.

Antônio Pitanga está a comemorar, sobretudo com documentário sobre sua vida e carreira, os 55 anos de lançamento do filme Barravento, de Glauber Rocha, lançado no final de 1961 e que tinha o pai de Camila Pitanga como protagonista. Neste caso, a tragédia não foi direta, mas a filha se sentiu abalada com a morte de Domingos, com a qual estabeleceu uma relação comparável a de amigos de infância.

É estranho, portanto, que Camila tenha recorrido a um "centro espírita" e um suposto médium de trajetória irregular para agradecer o fato de ter sobrevivido. Nem precisava gastar dinheiro para tal viagem, poderia agradecer numa meditação, sem um destinatário definido. Até visitar uma igreja católica seria menos arriscado do que recorrer a uma doutrina irregular e cheia de contradições graves, que é o "espiritismo".

O grande problema é que os "centros espíritas" acabam se beneficiando com a adesão de famosos cuja visita acaba se tornando uma propaganda para a seita igrejista que adula Allan Kardec. Dentro da competição religiosa, é ótimo, para o envaidecimento dos "espíritas", acolher ateus que acabam se subordinando a uma "conversão espírita", um processo que existe, embora os "espíritas", meio "sem querer querendo", digam que nunca obrigam os outros à aderir a esta religião.

NOVELA TERIA SIDO AMALDIÇOADA?

A própria novela Velho Chico já surgiu cheia de problemas e incidentes sérios. Segundo a jornalista Fabíola Reipert, do portal R7, a novela era para ser exibida às 18 horas, com orçamento baixo, mas foi para as 21 horas por insistência do autor Benedito Ruy Barbosa. Com orçamento baixo, a exibição das 18 horas teria cortado boa parte das viagens arriscadas a lugares nas margens do Rio São Francisco.

Tanta coisa poderia ser evitada. A novela já teve seu argumento apresentado aos executivos da Globo em 2009, mas ficou engavetada. O casal protagonista nem iria ser Domingos e Camila, mas Eriberto Leão e Letícia Sabatella, que recusaram os papéis. Escolhida para substituir Letícia, Camila teve dificuldades para se acostumar ao papel na novela.

Houve desentendimentos entre o diretor Luiz Fernando Carvalho e Benedito Ruy Barbosa. O autor chegou a fazer comentários homofóbicos, dizendo que sua obra não era "novela de bicha", teve uma filha demitida da equipe por brigar com Luiz Fernando e este, vendo que a novela estava com baixíssima audiência, ainda recusou as sugestões de mudanças propostas por Sílvio de Abreu, diretor do núcleo responsável pela novela.

O estresse das gravações foi tanto que a morte de Domingos Montagner não foi a primeira perda trágica na novela. O ator Umberto Magnani, ultimamente em plena ativa e que, na novela, fez um padre, sofreu um acidente vascular cerebral e morreu pouco depois. Sua ausência foi compensada por outro personagem, outro padre interpretado por Carlos Vereza, "espírita" que havia feito o médico Adolfo Bezerra de Menezes no cinema.

O próprio trocadilho com Francisco Cândido Xavier, embora parecesse uma mera coincidência, também deve ser ao menos cogitado. Chico Xavier é muito cultuado por produtores de TV e, sobretudo, de novelas, e os próprios folhetins televisivos oferecem o padrão de narrativa usado por romances supostamente mediúnicos.

Quanto à escolha de Camila Pitanga de recorrer ao "médium" João de Deus para um simples agradecimento, é possível que tenha sido uma indicação de alguém da Globo. Uma moça que havia assumido seu ateísmo não teria feito por conta própria uma escolha de ir a um "centro espírita" em lugar distante, vendo que o "espiritismo" tem um ranço igrejeiro e deísta acentuados.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O que é ser um suposto espírita no Brasil?


O que é ser espírita no Brasil? Dentro da supremacia da roustanguista FEB, oficialmente é "a melhor das coisas", admitindo o mundo espiritual, a vida após a morte e as lições de fraternidade cristã com maior transparência e espontaneidade. É o que muitos entendem, mas a realidade desmente tudo isso.

Ser um suposto espírita no Brasil, um "espírita" catolicizado, é na verdade ser pedante em tudo. Pois o que vemos no "movimento espírita" não são apenas católicos envergonhados, com mais medo de batinas e igrejas revestidas de ouro do que da morte, mas um ajuntamento de incompetentes de toda espécie.

Pelo que se observa, o "espiritismo" brasileiro não é a "religião da bondade" - devemos nos lembrar que bondade não tem religião, não pode ser subproduto da prática religiosa - , mas a "religião da mediocridade". Ela reúne pessoas medíocres em suas habilidades, que querem ter um lampejo de genialidade se apoiando numa seita religiosa que trouxesse, em tese, um caminho curto para o céu.

São cientistas de terceira categoria que se apoiam no "espiritismo" para nele inserir teses esotéricas, misturar um cientificismo bastante confuso, irregular e equivocado, uma compreensão malfeita de conceitos de Física e Química misturadas com devaneios astrológicos e uma Psicologia de clínicas clandestinas, criando um engodo que promete a salvação plena da humanidade.

No mesmo caminho vão os filósofos frustrados, com medo de analisar profundamente os problemas metafísicos, mas habilidosos em criar um malabarismo retórico, de palavras muito bem arrumadas, também misturando cientificismo confuso e misticismo esotérico, mas criando uma verborragia pseudofilosófica que mais parece ter sido tirado de algum stand up comedy que parodiasse a Filosofia.

Há também professores frustrados, incapazes de trazer um ensinamento aprofundado, que se valem de uma oratória hábil e envolvente, bela no aparato de palavras, na beleza dos vocábulos apresentados, no desfile de ideias agradabilíssimas, no nivelar das entonações dramáticas, no simulacro de saber enciclopédico. Temos exemplo disso, Divaldo Franco, com sua retórica organizada a embelezar um vazio de ideias.

Há católicos frustrados, beatos de crenças ortodoxas e até medievais, que parecem ser os primeiros a experimentar os rituais católicos dos tempos do imperador Constantino, mas que de repente passaram a se entediar com o senta-e-levanta das missas em latim e com o luxo extremo das batinas dos padres e sacerdotes e ainda tem hábitos estranhos como a paranormalidade.

Esse também temos exemplo: Francisco Cândido Xavier. Sim, o Chico Xavier tão associado erroneamente ao espiritismo autêntico - na ingenuidade de muitos quererem recuperar as bases kardecianas mantendo Chico e Divaldo no pedestal - , sempre foi um católico de crenças ortodoxas e medievais, que apenas foi excomungado porque afirmou se comunicar com a mãe e com o espírito de um padre jesuíta muito conhecido em nossa História.

Mas há também romancistas e novelistas frustrados, cujo caminho para a Academia Brasileira de Letras é praticamente uma ilusão impossível de ser realizada, com romances medíocres e, em muitos casos, confusos e com erros historiográficos risíveis. O próprio Chico Xavier teria sido um pioneiro nessa baixa literatura, apenas esforçada no desfile de palavras pomposas.

Mas não faz mal. Com uma disposição para a caminhada, pode-se andar em direção à Cinelândia, percorrer o Largo da Carioca e daí se dirigir por uma rua, também chamada de Carioca, indo para a Praça Tiradentes em direção ao Teatro João Caetano e daí seguir o mesmo lado da calçada, pela Avenida Passos, em direção à Federação "Espírita" Brasileira, de braços abertos para acolher escritores frustrados, que só precisam de uns procedimentos muito simples.

O procedimento é o uso de um pseudônimo, inventado ou retirado de algum famoso falecido (tomando cuidado para não arranjar problemas com herdeiros), e a temática pode girar em romances cotidianos quaisquer, mas desde que terminassem com alguma lição moralista voltada para princípios religiosos.

Ser "espírita", portanto, é ser um nada querendo ser tudo. É levar zero em Física e Química na escola ou na faculdade e ser "cientista" com essas compreensões erradas nos artigos escritos em publicações "espíritas".

É levar pau em Redação e em Oficina Literária e "brilhar" na literatura "espírita". É ser um péssimo filósofo e falar em "Filosofia" em palestras "espíritas", criando um engodo verborrágico que nada tem de busca pela verdade de tão confuso, contraditório e fantasioso que é. É ter medo de ser padre católico e desempenhar este mesmo trabalho na condição de "médium espírita", aproveitando seu pedantismo intelectual para bancar o dublê de pensador e conselheiro moral.

Não por acaso os juízes, pelo jeito "ancestrais" de Sérgio Moro e Gilmar Mendes, que por omissão deixaram passar, em 1944, a farsa do falso Humberto de Campos dos livros publicados por Chico Xavier, sentiram a "sintonia energética", eles que tiveram sua incompreensão com a questão jurídica mais óbvia, a de que a obra "espiritual" destoa severamente do estilo do autor maranhense, cabendo invalidá-la e processar os responsáveis (Chico e a FEB) por falsidade ideológica.

O "espiritismo" brasileiro, portanto, é um reflexo da mania de uma boa parcela de brasileiros de mascarar ideias velhas com rótulos novos, no caso o Catolicismo medieval e jesuíta, descartado por correntes modernas da Igreja Católica após o fim do Segundo Império, mascarado pela Doutrina Espírita. Sempre uma novidade lapidada para não ofender um conjunto de ideias obsoletas que, em vez de serem rompidas, são adaptadas ao contexto da aparente novidade.

Do mesmo modo, o "espiritismo" brasileiro também reflete o pretensiosismo de parte dos brasileiros, em dissimular ideias conservadoras em geral, em querer ficar com a última palavra, em abraçar ideais moralistas, em se julgar especialista naquilo que não compreende bem, é dissimular seu pedantismo usurpando e deturpando os melhores conceitos, é se autopromover às custas do que os verdadeiros pensadores dizem e distorcer o sentido de suas mensagens.

O "espiritismo", portanto, é produto desse modelo velho e desgastado de sociedade brasileira, que aposta seu último apelo através do governo de Michel Temer, que oferece uma agenda reacionária que expressa o último recurso de velhas elites recuperarem ou manterem seus privilégios e tradições em processo de perecimento.

Com toda a certeza, o "espiritismo", por simbolizar esse Brasil velho e viciado, comprovou ser incapaz de ser uma doutrina espiritualista de vanguarda, por não esconder aspectos de religiosidade antiquados dignos dos tempos do Brasil colonial.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Começa a caça aos "valentões" da Internet


Os "valentões" da Internet, que disseminavam ódio e desrespeito humano através de trolagens ou cyberbullings, podem estar com os dias de impunidade sendo contados. Com a péssima repercussão de seus atos, que vitimavam não somente internautas comuns que discordavam de valores dominantes, mas famosos dotados de prestígio e visibilidade, eles começam a sentir a batata assar.

Nos últimos dez anos, havia crescido a onda de internautas grosseiros que, em ataques grupais, humilhavam e ridicularizavam, em fóruns na Internet ou nas redes sociais, quem não concordasse com valores estabelecidos na sociedade ultraconservadora, podendo ser desde arbitrariedades políticas, mesmo em prol da mobilidade urbana (como a pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro) até preconceitos de padrão machista ou racista.

A coisa começava assim. Um internauta discordava de algum valor pré-estabelecido em vigência ou moda. Pode ser um modismo, uma gíria, ou uma posição sócio-cultural dominante. Em seguida, sua caixa de mensagens é invadida por uma série de comentários estranhos, não muito amistosos.

No primeiro momento, esses comentários parecem ironias e gracejos. Na medida em que o internauta reage, mesmo que seja em silêncio, apagando as mensagens, os comentários se tornam mais agressivos. De repente a vítima começa a pedir para que parassem e aí surgem ofensas mais agressivas e ameaças.

Em momentos extremos, alguns desses internautas produzem blogues ofensivos, ou pesquisam o local de residência da vítima para visitar a cidade para intimidar. Um busólogo que se sentiu ofendido com as críticas à pintura padronizada nos ônibus e à política de Eduardo Paes, prefeito carioca hoje em fim de mandato, chegou a fazer visitas a Niterói, mas parou diante de rumores de que a "máfia das vans" fazia ponto perto do Terminal João Goulart e fazia marcação a qualquer fotógrafo "de fora".

Mas a turma dos "valentões" espera outras encrencas. Com a notícia de que Letícia Sabatella irá processar o Facebook e o Twitter por permitir a publicação de comentários ofensivos contra ela, depois que a atriz passou a protestar contra o impeachment de Dilma Rousseff, a situação pode complicar.

O Facebook já está agindo para apagar comentários ofensivos e bloquear contas de agressores. Os servidores das redes sociais, vendo os processos pesarem sobre suas costas, começa a agir contra os próprios internautas agressores, já que os portais em si não querem pagar as consequências nefastas dos processos movidos contra eles.

Aí sobra para os "valentões" que estavam acostumados com a tranquila rotina feliz de, no isolamento autista de seus quartos, brincar de gato e rato com suas vítimas, despejando ofensas pesadas e achando que a rua é um paraíso no qual eles poderiam agredir suas vítimas e nada acontecer com estes agressores.

Um dia, eles entram na conta e veem que ela foi bloqueada. Isso quando o Anonymous não hackeou a conta do "valentão" depois que ele disparou um "KKKKKKK" na imagem da máscara do Guy Fawkes. Ou quando o "valentão" vai para a cidade da vítima, para tentar intimidá-la, e é baleado no peito por um motoqueiro que pensou que o encrenqueiro digital era um "x-9" (alcaguete). Será difícil fazer "KKKKKKK" no leito de hospital ou na cela de uma prisão.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A "psicografia coxinha" de Robson Pinheiro


Mais um livro é lançado com a revolta anti-petista dissolvida numa sutil narrativa "espiritual". Depois de O Partido - Projeto Criminoso de Poder, Robson Pinheiro, sob a suposta colaboração do "espírito Ângelo Inácio", agora se tem A Quadrilha, sob a suposta corrupção que teria sido intuída por "inteligências sombrias do mundo espiritual".

Há dados estranhos em O Partido, como definir as ridículas passeatas de 13 de Março de 2016 como "início de regeneração" e atribui-las à "intuição de espíritos superiores". Só faltava mesmo dizer que o Pato da FIESP era a reencarnação da Pomba da Paz que anunciou a "virgem" Maria o "nascimento do Messias".

Há, também, um "mocinho" no livro anterior, chamado Miguel. o "representante máximo da Justiça Divina", um "arcanjo" que seria responsável pela "regeneração" do Brasil. O nome coincide com o do presidente, Michel Temer, não só pela similaridade de Miguel e Michel, mas pelo fato de que o próprio presidente se chama Michel Miguel.

Que "regeneração" se pode esperar com a pauta indigesta que reduzirá empregos, diminuirá a renda dos trabalhadores, acabará com os serviços públicos, entregará as riquezas brasileiras para empresas estrangeiras - que nem estão aí para o povo brasileiro - e vem de um governo cercado de muitos réus criminais, envolvidos com os escândalos da Lava Jato, é o que não dá para entender.

O Brasil passa por tantos retrocessos que o caos só fez aumentar depois que Dilma Rousseff saiu do poder. E ainda se tem livros "espíritas" que atribuem o cenário trevoso em que vivemos a um "projeto da espiritualidade superior" em resolver a crise, às custas do aumento da miséria e da exclusão social que os vários programas do Plano Temer irão fazer, a partir da devastadora PEC 241, que reduzirá investimentos na Educação, Saúde e Assistência Social.

Além disso, nota-se uma sutil campanha anti-PT nos livros de Robson Pinheiro. E que contradizem suas escolhas supostamente mediúnicas, das quais um dos poucos nomes famosos realmente reacionários é o de Madre Teresa de Calcutá, que no entanto nunca teria escrito nem ditado o livro A Força Eterna do Amor porque ela se sentia arrasada no além, depois que foi desmascarada, ainda no final da vida, por um documentário de Christopher Hitchens, Anjo do Inferno.

Cazuza, se vivo estivesse, teria defendido Dilma Rousseff, em que pese a postura contrária do amigo Lobão. Getúlio Vargas, pela identificação com os projetos progressistas de Lula e Dilma, também teria tido a mesma postura. Não se sabe sobre Tancredo Neves, mas ele estaria decepcionado com o cafajestismo político de seu neto, Aécio Neves, enrolado em várias denúncias de corrupção.

É até hipocrisia que Robson queira, em seu portal, dizer que seu compromisso é com a "ciência" e o "conhecimento", quando sabemos que sua atividade é marcada pelo mais profundo obscurantismo místico, sem qualquer compromisso com a verdade, sendo apenas a última palavra em roustanguismo depois dos espetáculos da FEB e seus ídolos mais famosos.

Portanto, a "psicografia coxinha" de Robson Pinheiro é apenas mais um episódio do sensacionalismo barato que envolve a literatura "espírita", num mercado cada vez mais decadente, que é o de livros, cujas publicações mais festejadas são justamente aquelas a que fogem do âmbito do conhecimento. O Brasil virou um ninho de estupidez e sensatez.

sábado, 8 de outubro de 2016

Endeusamento de Chico Xavier e Madre Teresa de Calcutá tem fins financeiros


A religião é um repositório de ilusões e paixões humanas nas quais se combinam sensações de emotividade extrema, juntando pieguice, fantasias e falsa modéstia. É um fenômeno no qual as mesmas paixões da fortuna e do luxo se voltam para valores simbólicos e não-materiais, mas sujeitas ao mesmo envaidecimento e a um triunfalismo pior do que o dos ricos da matéria.

O religioso não admite que pode errar. Ele se julga protegido por uma aura de superioridade que se considera imune a qualquer questionamento ou impasse. Religiões nunca entram em falência. Os religiosos sempre se consideram com a posse da palavra final e com a certeza de que, se não têm ainda o passaporte para o Céu, estão num caminho relativamente curto para isso.

A religião não é um mal em si, se ela se manifestar dentro dos seus limites, sem forçar proselitismo, sem se achar acima da realidade. Mas quando a religião se julga acima da realidade, se impõe para a aceitação por outrem e determina os limites para o raciocínio questionador e científico, ela se torna, portanto, um mal.

É o que se vê, por exemplo, na chamada "bancada da Bíblia", predominantemente de seitas evangélicas do tipo "neopentecostal", derivadas ou dissidentes da veterana Igreja Nova Vida, mas também com o sutil e eventual apoio de católicos e "espíritas".

Pois é essa bancada, no Congresso Nacional, que está promovendo uma marcha-a-ré histórica, apoiando a instalação ilegal e ilegítima de Michel Temer, e através dele implantando uma pauta de medidas retrógradas que envolvem a redução sutil de direitos trabalhistas e o freio aos avanços sociais conquistados.

Embora Michel Temer tenha que cometer recuos aqui e ali - ele voltou atrás da extinção do Ministério da Cultura e do aumento para doze horas na carga horária de trabalho - , a influência da "bancada da Bíblia" já sinaliza que novos retrocessos estão a caminho, o que faz muitos especialistas compararem o cenário político brasileiro de hoje à Idade Média ou à Alemanha nazista.

A religião, portanto, vive de suas ilusões e de seus mecanismos arrivistas. E a competição acirrada que envolve sobretudo neopentecostais e "espíritas", que disputam a superação da hegemonia católica e a supremacia religiosa no Brasil, revela todo um processo ganancioso que se apoia sob o verniz da fé e sob o pretexto da fraternidade.

E aí se observa, sobretudo, os interesses comerciais em jogo. No caso dos neopentecostais, é bastante óbvio, ante a máquina midiática que foi construída, através da aquisição, nos anos 90, da veterana Rede Record (a TV Record paulista é a mais antiga emissora de TV em atividade no Brasil), a partir dos dízimos, uma espécie de estelionato religioso no qual os pastores persuadem seus fiéis a doar uma relativa soma de dinheiro, sob a promessa da "salvação divina".

No caso do Catolicismo e do "espiritismo", se observa sobretudo quando se tenta promover determinados ídolos religiosos como "espíritos perfeitos", visando interesses financeiros estratégicos, envolvendo produtos relacionados e até mesmo finalidades turísticas.

Madre Teresa de Calcutá não foi canonizada pelo Vaticano por ser a perfeição que oficialmente lhe é atribuída, até porque ela foi denunciada, ainda no fim da vida, por ter deixado seus alojados nas "casas de caridade" em condições terrivelmente desumanas. Ela foi canonizada porque é considerada uma grande fonte de renda para a Igreja Católica.

Livros sobre o "belo exemplo" de Madre Teresa, exemplares da "milagrosa medalha" - um artefato inócuo, como comprovou o caso Monica Besra, na Índia, e mostra fortes indícios na intoxicação alimentar creditada como "câncer terminal" do engenheiro Marcílio Andrino - e gravuras da "santa" podem ser comercializados com o dinheiro sendo enviado para a "caridade" (leiam-se as contas bancárias dos sacerdotes, já beneficiados em vida pelos desvios financeiros de Madre Teresa).

No "espiritismo", observa-se o mesmo com Francisco Cândido Xavier. Depois de uma propaganda confusa e sujeita a escândalos, através da FEB, entre 1932 e 1970 (da farsa literária do Parnaso de Além-Túmulo ao desfecho do caso Otília Diogo), Chico Xavier passou a ser, aos poucos, promovido nos mesmos moldes publicitários que promoveram Madre Teresa através do documentário inglês Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de Malcolm Muggeridge, lançado em 1969.

Com os mesmos elementos do documentário de Muggeridge, Chico Xavier foi relançado como um "grande filantropo", copiando os mesmos truques publicitários: chegada a uma casa de caridade acolhido pela multidão, segurar criança no colo, passar a mão nas cabeças dos doentes, conversar com velhinhos pobres, dar depoimentos pseudo-filosóficos etc. Se toda propaganda política fosse assim, até os "ficha-suja" poderiam ser santificados com uma campanha assim.

Se Madre Teresa virou "santa" para o bem do comércio de artigos católicos a ela relacionados, Chico Xavier é declarado "espírito de luz" sob o mesmo propósito: vender, vender e vender livros, assim como produzir materiais derivados que levam seu nome, cheios de estórias "lindas", "lições de vida", "mensagens de amor" e tudo o mais, fora os livros "científicos" da "profecia da data-limite", que fazem do nome Chico Xavier uma máquina de fazer dinheiro.

O aparato de "caridade" e a eventual "gratuidade" de produtos e eventos "espíritas" não desmente o arrivismo financeiro. Afinal, já existem outros meios de captar recursos, sem falar que muitas das doações de roupas e outros objetos servem para serem revendidos. Na "Cidade da Luz", em Salvador, José Medrado também apela para "dízimos" à maneira de seus vizinhos da Igreja Universal do Reino de Deus.

Há workshops, filmes de dramaturgia ou documentários, há lançamentos de novos livros que, em grandes quantidades, compensam a inserção de filmes e livros "espíritas" para o carregamento gratuito nas redes sociais. A "gratuidade" é apenas um aparato, uma isca para atrair fiéis, porque o comercialismo tem outros meios de arrecadação, que fazem com que "médiuns" profissionalmente modestos possam ter um conforto além do normal.

Isso mostra o quanto a religião "espírita" não é muito diferente de outros exploradores da fé, apenas se diferindo no status ainda intocável de mercadores das belas palavras, beneficiados pela blindagem midiática, jurídica e política que os faz imunes mesmo diante de denúncias sérias e graves. Ser "santo" no Brasil tem duas condições favoráveis: ser do PSDB e ser "espírita". Podem errar a vontade que ninguém mexe.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Dinheiro, leis e influência: o que os conservadores precisam para se manterem

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF), REDE GLOBO E FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI) - Tudo o que os conservadores precisam para prevalecer na sociedade.

Por que os valores conservadores prevalecem? Por que a plutocracia não conhece infortúnios nem limitações pesadas, o que permite que religiosos que expressam os interesses elitistas sempre recomendem aos sofredores sofrerem mais e aos algozes o fiado moral que só trará sua conta em outras encarnações? Por que as elites retrógradas tentam resistir ao tempo e, quando perdem o poder, o retomam à força, mas favorecidas pelas circunstâncias?

O Brasil vive uma retomada conservadora que era impensável cinco anos atrás. Uma volta ao obscurantismo, que nas eleições para prefeito e vereador no Brasil se destacam com a vitória, no primeiro turno, do empresário João Dória Jr. para a Prefeitura de São Paulo, e de Carlos Bolsonaro, filho do ultradireitista Jair Bolsonaro, para vereador no Rio de Janeiro.

É um processo muito perigoso, porque os retrocessos sociais já estão em jogo, num país que ainda não teve as antigas feridas da ditadura militar cicatrizadas. Um país que até aceitou um cenário político mais progressista, em 2003, mas condicionado com alianças conservadoras, repetindo o hábito de acolher parcialmente o novo sem que haja ruptura com o que é velho e obsoleto.

É um terrível cacoete que existe no Brasil. Sempre que existe uma coisa inovadora, seja ela vinda de fora ou aqui implantada por gente idealista, essa novidade é deturpada de forma que se adeque aos padrões decadentes e obsoletos da tendência mais antiga. Essa tendência não é totalmente superada, sua essência está toda inserida, não necessariamente de maneira explícita, na novidade que é acolhida.

Sempre houve o acordo entre o mofo e o fungicida. O fungicida tem que agir de preferência fora do local do mofo. O cheiro de mofo tem que permanecer, ainda que de forma mais sutil. É um hábito que forças retrógradas de algum setor sempre imponham condições para uma novidade ser introduzida, sacrificando sua essência e seu poder de impacto.

No "espiritismo", isso ocorreu. A novidade de Allan Kardec foi praticamente reduzida a uma mera formalidade, quando a deturpação de Jean Baptiste Roustaing recebeu a preferência no "movimento espírita", já que as ideias de Os Quatro Evangelhos condiziam mais com a formação católica dos fundadores "espíritas" brasileiros, que se fundamentou no Catolicismo medieval trazido pelos jesuítas portugueses.

Em outras palavras, o "espiritismo" que se construiu no Brasil quase nada tem da formação iluminista do pedagogo de Lyon e seu cientificismo aberto para debates. Em vez disso, o "espiritismo" brasileiro se limitou a acolher dissidências católicas assim que o Catolicismo mundial adaptou-se às mudanças do tempo, como o crescimento das zonas urbanas e as descobertas tecnológicas.

As mudanças desagradaram os católicos que permaneceram nas suas concepções medievais, sob influência do velho Catolicismo português que foi introduzido no Brasil através da Companhia de Jesus, cujos missionários incluíram a figura do padre Manuel da Nóbrega, que o "movimento espírita" adotou, através de Francisco Cândido Xavier, sob o codinome de Emmanuel.

A frustração em relação ao cancelamento das missões da Companhia de Jesus no Brasil foi compensada quando o "espiritismo", inicialmente com um roustanguismo mais explícito - hoje ele é dissimulado - , passou a acolher espíritos de jesuítas, através do exemplo do "mentor" de Chico Xavier.

Como é de praxe, o "novo" que se condiciona pelos postulados velhos e obsoletos (mas estranhamente considerados "de muita serventia") sempre se impõe como sendo "novo", como uma casa de fachada nova que, escondendo uma construção velha e quase ruinosa, tem que se impor sempre como uma "casa nova".

E isso é que sustentou o "espiritismo", que, mesmo na sua fase recente, a tendência dúbia, que tenta caprichar no aparato de "espiritismo autêntico", bajulando Allan Kardec, usurpando Erasto e adulando personalidades científicas, pratica um igrejismo medieval entusiasmado, em muitos momentos piegas e com um misticismo acima da medida.

E por que o "espiritismo", como outras tendências conservadoras travestidas de "novas", sempre prevalecem e tentam resistir a questionamentos e oposições diversas? Com certeza, não é por méritos naturais, mas por condições que o Brasil tem de fazer prevalecer valores antiquados que, depois de uma fase progressista, voltam com apetite redobrado através do governo retrógrado de Michel Temer.

O que existe são os três pilares que a sociedade conservadora, no Brasil, possui para manter a prevalência de seus mitos, dogmas e práticas. São três recursos que fazem com que mesmo valores aberrantes e práticas escandalosas, quando associados a setores dominantes, são socialmente aceitos. Eles são:

1) DINHEIRO - Com o dinheiro, o poder das classes dominantes se recicla e consegue contornar crises e impasses, sobretudo porque uma boa grana garante prestígio e supremacia, além de garantir a atenuação das condenações criminais diversas. É também sinônimo de sucesso e mérito, bem mais do que as virtudes morais.

2) LEIS - O artifício legal socializa os abusos cometidos pelas classes dominantes, e não apenas as leis do papel, a roupagem legislativa e jurídica que conhecemos, mas também as normas sociais, mesmo as mais implícitas. Ela regula os costumes que fazem com que até quem está no lado de baixo da pirâmide social procure agir da melhor forma possível para favorecer os interesses dominantes e os valores mais conservadores.

3) INFLUÊNCIA - Muitas das "leis" sociais são propagadas, consolidadas e mantidas pela mídia, de forma sutil e até mesmo inconsciente. Isso vem pela própria prática cotidiana, pelo modo conservador de ver o mundo que cria "tradições" que veículos dominantes de comunicação transmitem para o público. É a grande mídia que lança dogmas e totens que a sociedade deve apoiar, e protege ídolos que podem não ter talento nem outros méritos naturais, mas que servem aos interesses estratégicos de entretenimento, política e outros setores das atividades humanas.

Diante disso, foi até fácil a retomada do poder pelas forças conservadoras. No âmbito do dinheiro, as classes dominantes financiaram um ativismo de fachada, feito por grupos pateticamente reacionários como Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line, líderes do que o "movimento espírita", de forma constrangedora, definiu como "começo da regeneração da humanidade" e "início do caminho de libertação do Brasil".

No âmbito das leis, a corrupção de setores do Supremo Tribunal Federal e do Ministério Público fazem com que o uso da legislação se torne parcial, tendencioso e feito ao sabor das conveniências, nem sempre favorecendo o interesse público e levando ao grau extremo a impunidade que os criminosos de colarinho branco já recebiam nos tempos da ditadura militar.

No âmbito da mídia, a Rede Globo e outros veículos, como Folha de São Paulo e a panfletária revista Veja, servem para influenciar a população no seu reacionarismo, embora até programas policialescos como Cidade Alerta (Record) e Brasil Urgente (Band) incitam o ódio com a glamourização da violência e tabloides como o carioca Meia Hora ofereçam ao público doses de sensacionalismo barato e de todo tipo de valor grotesco e aberrante.

São esses três elementos que sustentam a sociedade conservadora que se enriquece às custas do subdesenvolvimento do Brasil. É essa pequena parcela da população brasileira, beneficiada pelos ventos políticos dos últimos cinco meses, que se sente privilegiada com a postura subalterna e ainda miserável que o Brasil se mantém na comunidade das nações, com graves injustiças sociais que o "sistema" não quer que sejam combatidas de verdade. As elites ganham muito com elas.
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