segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Não existe a "religião da solidariedade"
Ultimamente, o "movimento espírita" tenta reagir à sua crise de diversas formas. Sem conseguir convencer da sua pretensa dedicação à mediunidade e aos temas espirituais, seus líderes e palestrantes tentam agora falar em "caridade", "fraternidade" e "solidariedade", como se tais qualidades fossem um diferencial.
Isso é ridículo. A bondade e as qualidades a ela associadas não podem ser consideradas diferenciais, porque são obrigações e compromissos naturais de qualquer pessoa. Se uma religião se ocupa demais em falar de "fraternidade" e "solidariedade", é bom desconfiar.
Além disso, a situação do "espiritismo" mostra impasses que a repetição de textos pedindo para "sermos fraternos" revela uma série de inconvenientes, partindo da pressuposição de que poderemos ser "fraternos" do nada.
Além disso, sem demonstrar qualquer competência nem especialidade com a doutrina de Allan Kardec, na prática um desconhecido cujo nome é usado em vão pelos "espíritas", eles tentam dizer que "valem" por serem "bonzinhos". É como se a "bondade" compensasse os erros preocupantes que os "espíritas" brasileiros fazem em relação à doutrina de Kardec.
Isso é um grande desvio de foco, afinal a doutrina se chama Espiritismo, não é mesmo? Querer definir o "espiritismo" apenas pela ideia de "solidariedade", por mais que pareça positiva e confortante, é um grande desvio de foco. Não é o propósito do Espiritismo promover a solidariedade.
A solução seria eliminar o termo Espiritismo, romper com Allan Kardec por achá-lo "excessivamente hermenêutico" e criar então uma religião de inspiração católica mais flexível, sem batinas, sem revestimento de ouro nem o "senta-e-levanta" das missas. E aí o pessoal que fale da solidariedade. Que se crie, então a Igreja da Solidariedade.
Os "espíritas" não conseguem perceber a complexidade das coisas, da realidade, das tensões. Eles mesmos se baseiam, como doutrina, num sistema de valores herdado do Catolicismo português, de inclinação ainda medieval, e de práticas de mediunidade e visão "espírita" duvidosas e irregulares.
Ficamos perguntando se todo esse apelo à "solidariedade" e à "fraternidade", com seus textos ilustrados por montes de coraçõezinhos, não é o medo e a insegurança dos "espíritas" com as mudanças dos tempos. E, principalmente, o medo do "espiritismo" perder popularidade com as denúncias sobre suas irregularidades.
A gente pergunta também se o "espiritismo" vem com essa overdose de textos sobre "fraternidade" e "solidariedade" porque seus ideólogos estão desocupados com a falta de assunto e querem dar uma de "bonzinhos" para salvar a doutrina deles.
Solidariedade, bondade e fraternidade não se pregam. O grande mal do "espiritismo" brasileiro é teorizar demais sobre essas qualidades, como se isso fosse algo excepcional ou diferencial, como se elas não possam ser desenvolvidas espontaneamente, enchendo demais de divagações sobre as mesmas.
A impressão que se tem é que a bondade não é um ato espontâneo. Ela não pode ser naturalmente conseguida pela consciência humana, mas através do fardo ideológico da religião. jogando as tensões e injustiças para debaixo do tapete.
Além do mais, a ideologia religiosa apela para a união forçada das pessoas, sem considerar individualidades, como se a vida fosse uma coisa qualquer nota, que aceita-se os arbítrios, absurdos e infortúnios como se aceita o vento à nossa frente, e os erros são apenas da culpa de suas próprias vítimas.
Bondade não se teoriza. Além disso, tantos textos sobre solidariedade e fraternidade são dotados de profunda pieguice, que acabam trazendo o efeito contrário, irritando e aborrecendo as pessoas com todo esse desfile de palavras açucaradas em doses diabéticas. Num mundo de injustiças, fazer vista grossa a elas e fingir que estamos num paraíso de fraternidade soa bastante forçado e ineficiente.
domingo, 6 de dezembro de 2015
A crise do interesse público no Rio de Janeiro
O que a sociedade carioca quer? Ela dá razão ao que políticos, executivos, tecnocratas e famosos decidem? Que Rio de Janeiro ela quer? Uma Disneylândia do consumismo, uma cidade de brinquedo? Ou uma cidade mais justa e melhor estruturada?
O Rio de Janeiro, diz-se tanto a cidade quanto o respectivo Estado, há quarenta anos unidos por causa da arbitrária fusão do Estado da Guanabara (como era o município do Rio) e o antigo Estado do Rio de Janeiro (cuja capital era Niterói, hoje perdida num insólito provincianismo), passa por um processo de falência e decadência vertiginosa, que já impressiona negativamente o resto do país.
Tido como "cidade-modelo", apesar de seus problemas, a cidade do Rio de Janeiro ficou marcada pela violência tanto dos criminosos em toda a cidade quanto das elites que querem expulsar os trabalhadores e moradores das favelas da Zona Sul.
Recentemente, num ato digno de cidade das mais provincianas do interior do país, dessas praticamente isoladas do resto da nação, jovens abastados de Ipanema lincharam um vendedor de gelo até a morte, devido a uma suposta briga com algumas pessoas. Parece coisa de cidade perdida no interior do Piauí, mas foi na ensolarada praia do Arpoador, do imponente corredor do Leblon ao Leme, passando pelas mundialmente famosas Ipanema e Copacabana.
As autoridades andam driblando as leis e impondo medidas antipopulares, mas a mania de mentir e desmentir que contagia o PMDB carioca faz com que os políticos sempre arrumem desculpas aqui e ali para dizer que o que fazem está de acordo com a lei e com o o interesse público.
E aí a "boa sociedade" carioca, que adora ficar com a última palavra e ver seus pontos de vista prevalecendo até nas entranhas das favelas cariocas, tenta evocar a pretensa superioridade dos diplomas, do mercado, da visibilidade, do poder político para explicar os retrocessos que vive o Estado do Rio de Janeiro.
De livrarias ameaçadas de serem fechadas a casas populares demolidas para construir, com o dinheiro sujo das empreiteiras, corredores de BRT e praças olímpicas, tudo decai no Rio. Mas mesmo as casas do projeto Minha Casa, Minha Vida, que não conseguem suprir 1% da demanda que inclui desalojados e favelados, é feito mais para "dar serviço" às empreiteiras.
A reação um tanto hipócrita da "boa sociedade" que não quer que o Rio de Janeiro perca seu glamour - ou pelo menos que a perda de glamour seja do conhecimento do restante do Brasil - e deseja que, com todos os graves problemas, a cidade seja "modelo para o país" na marra, empurrando os retrocessos e medidas arbitrárias para serem adotadas nos demais Estados da nação.
A "boa sociedade" quer que procuremos "anos dourados" no caos cotidiano que vemos, nem que se finja acreditar que o glamour carioca exista em vídeocassetadas ou em sucessos grosseiros do "funk carioca". E quer que prevaleçam decisões e pontos de vista contrários ao interesse público, pelo pretexto de que autoridades, executivos e tecnocratas "sempre agem pelo bem da sociedade".
O descaso das autoridades, as promessas mirabolantes, a mania de desmentir, as medidas paliativas - como uma pequena praia na região de Madureira que não supre a demanda que antes ia para a Zona Sul - , rádios que exploram de maneira caricatural a rebeldia de jovens pobres e ricos (Top Rio FM e Rádio Cidade), linhas de ônibus que forçam a baldeação, tudo isso mostra o quanto o interesse público é deixado de lado.
As autoridades, executivos e tecnocratas impõem sua concepção de "cidadania", "entretenimento" e "mobilidade urbana" no qual a população, em sua maioria, paga caro com limitações de toda ordem. Perde mais tempo pegando mais de um ônibus, compram lanches ruins e caríssimos em eventos musicais, demoram para voltar para casa e ainda ganham de "presente" tiroteios que acontecem até no fim da tarde.
E o que as elites dirigentes fazem? Primeiro prometem que farão tudo, que resolverão os problemas etc. Segundo, tentam desmentir alguma irregularidade. Terceiro, usam falsos argumentos e provas forjadas de que agem em prol da lei e do interesse público. Gastam fortunas em propaganda de TV e criam até personagens humorísticos para "explicar de maneira descontraída" as decisões impostas pelos políticos.
Tudo é feito, na verdade, visando interesses privados. Uma Zona Sul "limpa" da população pobre, um Rio de Janeiro de jovens submissos, com gente impelida ao consumismo voraz, com carros se multiplicando a cada redução de ônibus nas ruas, e moradores expulsos de suas casas, além da insegurança que mata quaisquer pessoas diariamente. Isso é defesa do interesse público?
sábado, 5 de dezembro de 2015
A "religião da comida"
PROGRAMA BEM ESTAR, DA REDE GLOBO, É O PRIMEIRO PROGRAMA BRASILEIRO DEDICADO À EDUCAÇÃO ALIMENTAR E OUTROS CUIDADOS PARA A SAÚDE HUMANA.
Para começo de conversa, é sempre bom moderar a dieta alimentar. No entanto, a neurose que se tem em relação aos procedimentos alimentares e um rigor exagerado na escolha de alimentos para uma dieta cria um problema que transforma as pessoas em escravas do "ideal da alimentação perfeita".
"Come-se para viver, mas não se vive para comer". O ditado, defendido pelos fanáticos da dieta, no entanto não é por eles defendido na prática. Afinal a "religião da comida" também mostra suas sérias contradições, diante da "profissão de fé" da "dieta perfeita".
Em primeiro momento, essa "religião" tem suas virtudes. Ela mostra que saladas podem ser tão deliciosas quanto frituras, com a vantagem de serem mais sadias. Mostra também que as pessoas precisam buscar uma boa forma física, não engordarem nem criarem barriga para não terem, na meia-idade, doenças graves e fatais.
A coisa, no entanto, vai ao exagero quando a dieta torna-se uma tirania, e aí vem aquele papo de que devemos "comer de três em três horas", que é a ideologia das refeições intermediárias. A vida não requer que tenhamos que deixar de fazer nossas coisas, numa sobrecarga de tarefas e compromissos, só para fazer um lanchinho.
Imagine um jornalista que conseguiu, com muita dificuldade e sob a sutil resistência do entrevistado - que geralmente concede uma entrevista a contragosto - ter que interromper o suado questionário para dizer que vai fazer um lanchinho. O entrevistado se anima e, quando o jornalista se retira para comer seu lanchinho, o outro já foi embora e a entrevista "murchou".
Em nome da "boa saúde", o jornalista cometeu um sério deslize profissional e, evitando o "monstro do ácido" que o moralismo gastronômico inventa para intimidar quem não faz as refeições intermediárias, como alguém que fala no "homem do saco" ou da "bruxa malvada da floresta".
COMER QUANDO NÃO SE TEM FOME
Os lanches intermediários são, na verdade, pontos facultativos da dieta alimentar humana. Eles são vistos como complemento, mas certas correntes da Nutrição apelam para a tese, um tanto discutível, da obrigatoriedade das refeições intermediárias, sob o pretexto de que o organismo formará um ácido entre seis horas de intervalo.
A biologia diz que o organismo humano tem três refeições obrigatórias: desjejum (ou café-da-manhã), almoço e jantar ou, quando muito, o lanche noturno. Mesmo assim, os chamados lanches são apenas refeições complementares e, por isso, são opcionais. Ninguém é obrigado a lanchar ou deixar de lanchar. Quem quiser lanchar, esteja à vontade. Quem não quiser, que não lanche.
Um ponto que os moralistas gastronômicos não consideram é a fome. Eles também não consideram o paladar, o sabor, o moralismo gastronômico se apega cegamente à nutrição orgânica, algo que, na complexidade da vida, é completamente inútil.
Afinal, de que adianta a "alimentação perfeita" para pessoas que vivem deprimidas ou estressadas? Além disso, na sobrecarga do dia a dia, que adianta deixar de fazer um compromisso de máxima urgência só por causa de um lanchinho no meio da manhã ou da tarde? Isso também não é "viver para comer"?
E a fome? Ela, que deveria ser a protagonista no teatro da gastronomia, é rebaixada a um papel terciário, já nem é mais coadjuvante, pois até no elenco recorrente (de menor destaque) sua importância é minimizada. No moralismo gastronômico, a fome praticamente só faz figuração, é quase uma "escada" para as frescuras adotadas pelo seu padrão de dieta.
Nas refeições intermediárias, elas só se tornam necessária quando a pessoa tem fome. Se, no meio da tarde, as pessoas têm fome, elas podem comer o seu lanche. Mas nem todo mundo tem fome nessas situações, e não é justo que se obrigue estas pessoas a também lanchar, para que não venha o "monstro do ácido".
Um caso curioso é que, em muitas famílias, cujas mães ainda se apegam psicologicamente aos filhos, mesmo crescidos, como se o "cordão umbilical" mental não tivesse sido cortado, usam o moralismo gastronômico como desculpa para a "gula simbólica".
Como neste caso as mães ainda se sentem dependentes psicologicamente dos filhos, as refeições intermediárias acabam representando, para as mães, a realização de uma gula que elas não podem seguir. Os filhos acabam, simbolicamente, matando a fome de suas mães, quando fazem as refeições intermediárias.
Parece uma coisa estranha, mas faz sentido. As mães não podem comer mais, e, por isso, se sentem realizadas quando seus filhos fazem refeições intermediárias, já que eles comem o "excedente" que as mães desejariam comer e não podem, para não engordarem.
Isto é uma impressão remanescente para mães que ainda se lembram do momento da gravidez, quando havia um vínculo orgânico entre elas e os bebês, e por isso, a alimentação de cada mãe influía na alimentação do filho. É uma impressão inconsciente, instintiva, e, por mais que uma mãe tente desmentir, é aquilo que ela sente.
Daí a ênfase absurda e desesperada da mãe obrigar o filho a fazer um lanche intermediário. "Mãe, eu não estou com fome", protesta o filho, ocupado em seus afazeres. "Tem que comer, senão vai formar um ácido no estômago", reage a mãe, sem ela mesma saber que, na verdade, ela é que precisa mais do "lanchinho" do que o próprio filho.
Aí entra a questão da fome. Como é que uma dieta alimentar considerada "perfeita" não considera as questões de sentir ou não sentir fome? É completamente estranha uma dieta em que se coma menos quando se tem fome e, por outro lado, tenha que comer alguma coisa no momento em que não se tem fome, pela desculpa de evitar o "monstro do ácido".
Em primeiro lugar, nem sempre esse monstro do ácido se forma. E a pessoa, estando distraída no seu afazer, não vai necessariamente passar mal porque não faz o tal lanchinho. Paciência. Um bombeiro terá que deixar de socorrer alguém porque têm que comer uma frutinha às 15 horas? E um policial, será que é melhor que ele deixe um bandido fugir porque é hora da "merenda"?
No caso da fome, ter que comer, no almoço, a metade que o corpo necessita, porque na "merenda da tarde" tem mais, é algo que angustia o organismo. O organismo é mais abalado com essa manipulação equivocada da fome, desse "abrir e fechar a boca" fora da vontade do indivíduo, e que, ela sim, pode causar danos psicológicos e físicos.
Em muitos casos, a "comida que não engorda" dos lanches intermediários aumenta o peso e a gordura das pessoas, e o moralismo gastronômico muitas vezes não se cuida se a pessoa só comeu um alface com arroz e feijão no almoço e apela para uma "inocente" barrinha de cereais que pode ter menos açúcar, mas nem tão pouca gordura assim.
A fome é o apelo orgânico que cada indivíduo tem para avisar da necessidade de comida. Ter que se opor a esse critério e desejar um almoço em padrões anoréxicos porque terá um "quase banquete" na hora do lanche é um grande equívoco desse "ideal da dieta perfeita", pelo simples fato de ir contra as necessidades pessoais que variam em cada pessoa, desprezando a importância da fome como aviso do organismo da necessidade de comer.
A neurose pela dieta perfeita, na sociedade complexa em que vivemos, revela a grande farsa que é o moralismo gastronômico, a "religião da comida". E seus seguidores se contradizem quando reprovam a ideia de "viver para comer", mas apelam para a obrigatoriedade das pessoas deixarem de fazer o que fazem em suas vidas por causa dos "lanchinhos de três em três horas". Isso também é "viver para comer".
Para começo de conversa, é sempre bom moderar a dieta alimentar. No entanto, a neurose que se tem em relação aos procedimentos alimentares e um rigor exagerado na escolha de alimentos para uma dieta cria um problema que transforma as pessoas em escravas do "ideal da alimentação perfeita".
"Come-se para viver, mas não se vive para comer". O ditado, defendido pelos fanáticos da dieta, no entanto não é por eles defendido na prática. Afinal a "religião da comida" também mostra suas sérias contradições, diante da "profissão de fé" da "dieta perfeita".
Em primeiro momento, essa "religião" tem suas virtudes. Ela mostra que saladas podem ser tão deliciosas quanto frituras, com a vantagem de serem mais sadias. Mostra também que as pessoas precisam buscar uma boa forma física, não engordarem nem criarem barriga para não terem, na meia-idade, doenças graves e fatais.
A coisa, no entanto, vai ao exagero quando a dieta torna-se uma tirania, e aí vem aquele papo de que devemos "comer de três em três horas", que é a ideologia das refeições intermediárias. A vida não requer que tenhamos que deixar de fazer nossas coisas, numa sobrecarga de tarefas e compromissos, só para fazer um lanchinho.
Imagine um jornalista que conseguiu, com muita dificuldade e sob a sutil resistência do entrevistado - que geralmente concede uma entrevista a contragosto - ter que interromper o suado questionário para dizer que vai fazer um lanchinho. O entrevistado se anima e, quando o jornalista se retira para comer seu lanchinho, o outro já foi embora e a entrevista "murchou".
Em nome da "boa saúde", o jornalista cometeu um sério deslize profissional e, evitando o "monstro do ácido" que o moralismo gastronômico inventa para intimidar quem não faz as refeições intermediárias, como alguém que fala no "homem do saco" ou da "bruxa malvada da floresta".
COMER QUANDO NÃO SE TEM FOME
Os lanches intermediários são, na verdade, pontos facultativos da dieta alimentar humana. Eles são vistos como complemento, mas certas correntes da Nutrição apelam para a tese, um tanto discutível, da obrigatoriedade das refeições intermediárias, sob o pretexto de que o organismo formará um ácido entre seis horas de intervalo.
A biologia diz que o organismo humano tem três refeições obrigatórias: desjejum (ou café-da-manhã), almoço e jantar ou, quando muito, o lanche noturno. Mesmo assim, os chamados lanches são apenas refeições complementares e, por isso, são opcionais. Ninguém é obrigado a lanchar ou deixar de lanchar. Quem quiser lanchar, esteja à vontade. Quem não quiser, que não lanche.
Um ponto que os moralistas gastronômicos não consideram é a fome. Eles também não consideram o paladar, o sabor, o moralismo gastronômico se apega cegamente à nutrição orgânica, algo que, na complexidade da vida, é completamente inútil.
Afinal, de que adianta a "alimentação perfeita" para pessoas que vivem deprimidas ou estressadas? Além disso, na sobrecarga do dia a dia, que adianta deixar de fazer um compromisso de máxima urgência só por causa de um lanchinho no meio da manhã ou da tarde? Isso também não é "viver para comer"?
E a fome? Ela, que deveria ser a protagonista no teatro da gastronomia, é rebaixada a um papel terciário, já nem é mais coadjuvante, pois até no elenco recorrente (de menor destaque) sua importância é minimizada. No moralismo gastronômico, a fome praticamente só faz figuração, é quase uma "escada" para as frescuras adotadas pelo seu padrão de dieta.
Nas refeições intermediárias, elas só se tornam necessária quando a pessoa tem fome. Se, no meio da tarde, as pessoas têm fome, elas podem comer o seu lanche. Mas nem todo mundo tem fome nessas situações, e não é justo que se obrigue estas pessoas a também lanchar, para que não venha o "monstro do ácido".
Um caso curioso é que, em muitas famílias, cujas mães ainda se apegam psicologicamente aos filhos, mesmo crescidos, como se o "cordão umbilical" mental não tivesse sido cortado, usam o moralismo gastronômico como desculpa para a "gula simbólica".
Como neste caso as mães ainda se sentem dependentes psicologicamente dos filhos, as refeições intermediárias acabam representando, para as mães, a realização de uma gula que elas não podem seguir. Os filhos acabam, simbolicamente, matando a fome de suas mães, quando fazem as refeições intermediárias.
Parece uma coisa estranha, mas faz sentido. As mães não podem comer mais, e, por isso, se sentem realizadas quando seus filhos fazem refeições intermediárias, já que eles comem o "excedente" que as mães desejariam comer e não podem, para não engordarem.
Isto é uma impressão remanescente para mães que ainda se lembram do momento da gravidez, quando havia um vínculo orgânico entre elas e os bebês, e por isso, a alimentação de cada mãe influía na alimentação do filho. É uma impressão inconsciente, instintiva, e, por mais que uma mãe tente desmentir, é aquilo que ela sente.
Daí a ênfase absurda e desesperada da mãe obrigar o filho a fazer um lanche intermediário. "Mãe, eu não estou com fome", protesta o filho, ocupado em seus afazeres. "Tem que comer, senão vai formar um ácido no estômago", reage a mãe, sem ela mesma saber que, na verdade, ela é que precisa mais do "lanchinho" do que o próprio filho.
Aí entra a questão da fome. Como é que uma dieta alimentar considerada "perfeita" não considera as questões de sentir ou não sentir fome? É completamente estranha uma dieta em que se coma menos quando se tem fome e, por outro lado, tenha que comer alguma coisa no momento em que não se tem fome, pela desculpa de evitar o "monstro do ácido".
Em primeiro lugar, nem sempre esse monstro do ácido se forma. E a pessoa, estando distraída no seu afazer, não vai necessariamente passar mal porque não faz o tal lanchinho. Paciência. Um bombeiro terá que deixar de socorrer alguém porque têm que comer uma frutinha às 15 horas? E um policial, será que é melhor que ele deixe um bandido fugir porque é hora da "merenda"?
No caso da fome, ter que comer, no almoço, a metade que o corpo necessita, porque na "merenda da tarde" tem mais, é algo que angustia o organismo. O organismo é mais abalado com essa manipulação equivocada da fome, desse "abrir e fechar a boca" fora da vontade do indivíduo, e que, ela sim, pode causar danos psicológicos e físicos.
Em muitos casos, a "comida que não engorda" dos lanches intermediários aumenta o peso e a gordura das pessoas, e o moralismo gastronômico muitas vezes não se cuida se a pessoa só comeu um alface com arroz e feijão no almoço e apela para uma "inocente" barrinha de cereais que pode ter menos açúcar, mas nem tão pouca gordura assim.
A fome é o apelo orgânico que cada indivíduo tem para avisar da necessidade de comida. Ter que se opor a esse critério e desejar um almoço em padrões anoréxicos porque terá um "quase banquete" na hora do lanche é um grande equívoco desse "ideal da dieta perfeita", pelo simples fato de ir contra as necessidades pessoais que variam em cada pessoa, desprezando a importância da fome como aviso do organismo da necessidade de comer.
A neurose pela dieta perfeita, na sociedade complexa em que vivemos, revela a grande farsa que é o moralismo gastronômico, a "religião da comida". E seus seguidores se contradizem quando reprovam a ideia de "viver para comer", mas apelam para a obrigatoriedade das pessoas deixarem de fazer o que fazem em suas vidas por causa dos "lanchinhos de três em três horas". Isso também é "viver para comer".
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Por que o machismo lúdico ainda persiste?
A SUBCELEBRIDADE FERNANDA LACERDA, A "MENDIGATA", UM DOS ÍCONES DA HIPERSEXUALIZAÇÃO MIDIÁTICA.
O Brasil ainda é um país muito conservador, mesmo quando tenta se passar por moderno. Na pressa em se tornar potência mundial, coração do mundo, nação-guia ou modelo a ser seguido pelos estrangeiros, o país maquia valores retrógrados com o verniz da "novidade", seja apelando para a "cidadania" ou para a "provocatividade".
O machismo brasileiro ainda persiste de todas as formas, tanto pela violência conjugal pelo erotismo compulsivo das chamadas "boazudas", musas pretensamente populares. Elas se travestem de "feministas" pela aparente condição de "solteiras", com toda a exibição corporal que se torna compulsiva, obsessiva e fora do contexto.
Há uma grande diferença entre mulheres com talento e inteligência que se sensualizam de vez em quando e as "boazudas" que não medem situação para "mostrar demais". As primeiras são capazes de, conforme a situação, usarem roupas folgadas e não precisar bancar as "gostosas" o tempo todo. As últimas, porém, querem ser "gostosas" até sob um frio de 10°C.
Existe, portanto, uma grande diferença de quando mulheres como Giovanna Antonelli, Letícia Spiller e, no exterior, Jessica Alba, fazem fotos sensuais, e as "peladonas" da vida que só ficam mostrando seus corpos. As segundas veem a sensualidade como um fim em si mesmo, o que perde a graça.
Supostamente tidas como "feministas" até por mulheres intelectuais associadas ao trabalho ativista ou acadêmico, as "boazudas", no entanto, simbolizam uma das últimas resistências do machismo conservador no Brasil.
Embora elas não estejam associadas à influência amorosa ou conjugal de um homem - a maioria delas alega "não conseguir namorado" porque os homens "fogem de medo" - , elas são empresariadas por agentes que as controlam e as fazem verdadeiras mercadorias eróticas.
O que mulheres como Renata Frisson (Mulher Melão), Andressa Soares (Mulher Melancia), Yami Filé (ex-Mulher Filé), Solange Gomes, Fernanda Lacerda (Mendigata), Jéssica Lopes (Peladona de Congonhas) e tantas outras subcelebridades femininas fazem é machismo e não feminismo, e isso é fácil de se comprovar.
Afinal, elas exploram uma imagem coisificada da mulher. Trabalham o corpo como se fosse uma mercadoria erótica, exibida sem verificar contextos ou quando se deve ou não sensualizar. Se elas puderem, "sensualizam" até em dia de frio ou durante cerimônias de enterro. Uma delas chegou a usar uma blusa curta sob um frio de apenas dez graus.
Por que elas continuam na mídia? Por que elas se mantém em evidência e por que se investe numa quantidade tão grande de "musas" do gênero, que fazem a mesma apelação mostrando o mesmo tipo de corpo siliconado?
Simples. Embora as "feministas de ocasião" que surgem de redutos intelectuais e acadêmicos considerados "badalados", definam as "boazudas" como um tipo de "feminismo popular" voltado para a "provocatividade sexual", o "direito à sensualidade" e a "liberdade do corpo", o que se vê na prática é uma demonstração do mais puro anti-feminismo.
Na medida em que essas musas não dão uma "pausa" nas suas exibições corporais, "sensualizando" na praia, na boate e até em feiras de automóvel ou eventos literários, elas transformam seus corpos em mercadoria. Não há como definir como "liberdade do corpo" a transformação do corpo feminino numa mercadoria, com a mulher sendo escravizada pela sua própria imagem "sensual".
Essas "musas" exploram uma imagem ao mesmo tempo caricatural e coisificada da sensualidade feminina. São mulheres-objeto e, por isso, não há como atribuir qualquer pretexto feminista para elas, mesmo considerando o aparente celibato dessas moças.
O problema não é a exibição corporal em si, mas a forma exagerada, obsessiva e ininterrupta de exibição, um exibicionismo que pode ser definido através do fenômeno da hipersexualização da mulher, um processo que segue princípios machistas e não feministas, como queriam as intelectuais da "provocatividade cultural do mau gosto".
As mulheres de perfil mais substancial e dotadas de talento para alguma coisa sabem ser sensuais conforme a ocasião. No entanto, não ficam mostrando o corpo de forma aleatória, obsessiva e até viciada. Não ficam se "vendendo" no Instagram e se autoproclamando "desejáveis". Não ficam dizendo bobagens como "Sei que você me odeia, mas com esta foto eu mostro que você no fundo me deseja".
As mulheres de verdade, portanto, mostram que existe momento para exibir suas formas físicas e momento para não exibir. A verdadeira liberdade do corpo também requer protegê-lo da superexposição. Se a mulher ama seu corpo, que interesse tem ela de ostentá-lo a qualquer preço?
As "boazudas" não têm a "liberdade do corpo" que alegam. Pelo contrário, o que elas têm é a escravidão pelo corpo, é a subordinação de suas pessoas à exploração obsessiva de uma sensualidade forçada, exagerada, que nada seduz, a não ser para aqueles dotados de impulsos sexuais desenfreados e intensos.
Se as "boazudas" continuam em evidência, é porque o Brasil é machista. As "musas" que "mostram demais" são voltadas a um público machista, que fica feliz por haver mulheres que se sujeitam à condição de meros objetos sexuais. Nas mídias sociais, já houve rapazes que afirmaram que "mulher não precisa ser inteligente, basta ser gostosa". E eles ainda riem quando são chamados de machistas!
É até sintomático que uma considerável quantidade de internautas ainda esteja apegada a valores ultraconservadores, mesmo aqueles considerados "provocativos" e "polêmicos". Dissimulam seu reacionarismo, de assustar até os generais de pijama que outrora serviram à ditadura militar, com linguagens arrojadas, visual antenado, gírias e palavrões.
Daí que não cola o discurso ativista, intelectual e acadêmico que define essas "musas" como "feministas". Discursos "etnográficos", "sociológicos" para justificar o falso feminismo também são inúteis.
O machismo é claro, quando o corpo se torna uma mercadoria. Não fosse assim, essas "musas" também teriam seus momentos em que não exibiriam seus corpões e mostrariam alguma qualidade mais intelectual ou coisa parecida.
O Brasil ainda é um país muito conservador, mesmo quando tenta se passar por moderno. Na pressa em se tornar potência mundial, coração do mundo, nação-guia ou modelo a ser seguido pelos estrangeiros, o país maquia valores retrógrados com o verniz da "novidade", seja apelando para a "cidadania" ou para a "provocatividade".
O machismo brasileiro ainda persiste de todas as formas, tanto pela violência conjugal pelo erotismo compulsivo das chamadas "boazudas", musas pretensamente populares. Elas se travestem de "feministas" pela aparente condição de "solteiras", com toda a exibição corporal que se torna compulsiva, obsessiva e fora do contexto.
Há uma grande diferença entre mulheres com talento e inteligência que se sensualizam de vez em quando e as "boazudas" que não medem situação para "mostrar demais". As primeiras são capazes de, conforme a situação, usarem roupas folgadas e não precisar bancar as "gostosas" o tempo todo. As últimas, porém, querem ser "gostosas" até sob um frio de 10°C.
Existe, portanto, uma grande diferença de quando mulheres como Giovanna Antonelli, Letícia Spiller e, no exterior, Jessica Alba, fazem fotos sensuais, e as "peladonas" da vida que só ficam mostrando seus corpos. As segundas veem a sensualidade como um fim em si mesmo, o que perde a graça.
Supostamente tidas como "feministas" até por mulheres intelectuais associadas ao trabalho ativista ou acadêmico, as "boazudas", no entanto, simbolizam uma das últimas resistências do machismo conservador no Brasil.
Embora elas não estejam associadas à influência amorosa ou conjugal de um homem - a maioria delas alega "não conseguir namorado" porque os homens "fogem de medo" - , elas são empresariadas por agentes que as controlam e as fazem verdadeiras mercadorias eróticas.
O que mulheres como Renata Frisson (Mulher Melão), Andressa Soares (Mulher Melancia), Yami Filé (ex-Mulher Filé), Solange Gomes, Fernanda Lacerda (Mendigata), Jéssica Lopes (Peladona de Congonhas) e tantas outras subcelebridades femininas fazem é machismo e não feminismo, e isso é fácil de se comprovar.
Afinal, elas exploram uma imagem coisificada da mulher. Trabalham o corpo como se fosse uma mercadoria erótica, exibida sem verificar contextos ou quando se deve ou não sensualizar. Se elas puderem, "sensualizam" até em dia de frio ou durante cerimônias de enterro. Uma delas chegou a usar uma blusa curta sob um frio de apenas dez graus.
Por que elas continuam na mídia? Por que elas se mantém em evidência e por que se investe numa quantidade tão grande de "musas" do gênero, que fazem a mesma apelação mostrando o mesmo tipo de corpo siliconado?
Simples. Embora as "feministas de ocasião" que surgem de redutos intelectuais e acadêmicos considerados "badalados", definam as "boazudas" como um tipo de "feminismo popular" voltado para a "provocatividade sexual", o "direito à sensualidade" e a "liberdade do corpo", o que se vê na prática é uma demonstração do mais puro anti-feminismo.
Na medida em que essas musas não dão uma "pausa" nas suas exibições corporais, "sensualizando" na praia, na boate e até em feiras de automóvel ou eventos literários, elas transformam seus corpos em mercadoria. Não há como definir como "liberdade do corpo" a transformação do corpo feminino numa mercadoria, com a mulher sendo escravizada pela sua própria imagem "sensual".
Essas "musas" exploram uma imagem ao mesmo tempo caricatural e coisificada da sensualidade feminina. São mulheres-objeto e, por isso, não há como atribuir qualquer pretexto feminista para elas, mesmo considerando o aparente celibato dessas moças.
O problema não é a exibição corporal em si, mas a forma exagerada, obsessiva e ininterrupta de exibição, um exibicionismo que pode ser definido através do fenômeno da hipersexualização da mulher, um processo que segue princípios machistas e não feministas, como queriam as intelectuais da "provocatividade cultural do mau gosto".
As mulheres de perfil mais substancial e dotadas de talento para alguma coisa sabem ser sensuais conforme a ocasião. No entanto, não ficam mostrando o corpo de forma aleatória, obsessiva e até viciada. Não ficam se "vendendo" no Instagram e se autoproclamando "desejáveis". Não ficam dizendo bobagens como "Sei que você me odeia, mas com esta foto eu mostro que você no fundo me deseja".
As mulheres de verdade, portanto, mostram que existe momento para exibir suas formas físicas e momento para não exibir. A verdadeira liberdade do corpo também requer protegê-lo da superexposição. Se a mulher ama seu corpo, que interesse tem ela de ostentá-lo a qualquer preço?
As "boazudas" não têm a "liberdade do corpo" que alegam. Pelo contrário, o que elas têm é a escravidão pelo corpo, é a subordinação de suas pessoas à exploração obsessiva de uma sensualidade forçada, exagerada, que nada seduz, a não ser para aqueles dotados de impulsos sexuais desenfreados e intensos.
Se as "boazudas" continuam em evidência, é porque o Brasil é machista. As "musas" que "mostram demais" são voltadas a um público machista, que fica feliz por haver mulheres que se sujeitam à condição de meros objetos sexuais. Nas mídias sociais, já houve rapazes que afirmaram que "mulher não precisa ser inteligente, basta ser gostosa". E eles ainda riem quando são chamados de machistas!
É até sintomático que uma considerável quantidade de internautas ainda esteja apegada a valores ultraconservadores, mesmo aqueles considerados "provocativos" e "polêmicos". Dissimulam seu reacionarismo, de assustar até os generais de pijama que outrora serviram à ditadura militar, com linguagens arrojadas, visual antenado, gírias e palavrões.
Daí que não cola o discurso ativista, intelectual e acadêmico que define essas "musas" como "feministas". Discursos "etnográficos", "sociológicos" para justificar o falso feminismo também são inúteis.
O machismo é claro, quando o corpo se torna uma mercadoria. Não fosse assim, essas "musas" também teriam seus momentos em que não exibiriam seus corpões e mostrariam alguma qualidade mais intelectual ou coisa parecida.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Para Emmanuel, Allan Kardec queria "restaurar" o Catolicismo
O "MOVIMENTO ESPÍRITA" BRASILEIRO DISCORDA DA POMPA E DO LUXO DO CATOLICISMO APOSTÓLICO ROMANO.
O "espiritismo" brasileiro sempre se identificou como Catolicismo medieval português, a não ser pelos excessos correspondentes a rituais pomposos e acúmulo de tesouros. E, tal qual os generais da ditadura militar brasileira contra os abusos do DOI-CODI e a direita brasileira contra os exageros do deputado Eduardo Cunha, o "espiritismo" também se voltou contra os excessos do Catolicismo medieval.
Isso é de praxe quando o conservadorismo vê, nos métodos de repressão e retrocessos que tanto apoia em primeira instância, um perigo quando elas são feitas sem controle. A arrogância do DOI-CODI. amtes um órgão "guardião" do governo militar, representou um risco quando os assassinatos de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho, respectivamente jornalista e líder sindical, sinalizavam para uma atuação autônoma do órgão, ameaçando quebrar a hierarquia militar.
No caso do presidente da Câmara dos Deputados, a atuação de Eduardo Cunha, não bastasse a comprovação de seus atos de corrupção como documentos que mostram sua assinatura em contas na Suíça, as suas "pautas-bombas", inicialmente defendidas pelos conservadores, começam a incomodar quando elas representam retrocessos sociais que nem os conservadores moderados aceitariam.
No "espiritismo", a reprovação ao Catolicismo medieval é superestimada por seus seguidores, que chegaram a apostar num maniqueísmo entre a Igreja Católica e o ídolo "espírita" Francisco Cândido Xavier.
Mas eram apenas setores rigidamente católicos, que não aceitavam um paranormal de índole esquisita, por mais que Chico Xavier fosse também um católico fervoroso, rezador de terços, adorador de imagens de santos.
A reprovação se limita apenas a aspectos ritualísticos pomposos, como o uso de trajes pesados, como batinas, com decorações a ouro, e o acúmulo de tesouros imensos, além da tortura e repressão ostensivas e exageradas. Até mesmo o enforcamento em cela era tido como "pena branda" em relação às queimadas ostensivas nas ruas ou nos estádios.
Fora isso, o "espiritismo" brasileiro sempre se manteve identificado com o moralismo medieval. A doutrina, afastada dos ensinamentos originais de Allan Kardec, foi um catolicismo revisitado, combinando valores moralistas medievais com práticas hereges, os primeiros usados para evitar o "excesso de ciência" kardeciano, as segundas para compensar a falta de estudos sérios sobre mediunidade.
Kardec é um nome muito bajulado, mas terrivelmente ignorado. Os "espíritas" brasileiros, no fundo, acham ele um "chato de galocha", uma figura insuportável, mas arrumam um jeito para "suavizar" sua linha de pensamento e criar um falso Kardec domesticado, igrejista e complacente com as deturpações da doutrina do próprio pensador francês.
Uma amostra disso é o livro A Caminho da Luz, de 1939 - mas cujo texto foi escrito ainda em 1938 - , em que Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier, descrevia "fatos históricos" para explicar a "missão fraterna" do "movimento espírita", num livro travestido de História Geral, assim como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho era disfarçado de História do Brasil.
Nele Emmanuel descreve o Império Romano como um projeto da "espiritualidade superior", como se as guerras e combates de conquistas de territórios pelos romanos fossem uma "missão unificadora de paz e fraternidade". Está descrito no livro, no capítulo XIII, O Império Romano e Seus Desvios:
"Reportando-nos ainda às conquistas romanas, antes da chegada do Senhor para as primeiras florações do Cristianismo, devemos lembrar o esforço despendido pelas entidades espirituais, junto das autoridades organizadoras e conservadoras da República, no sentido de orientar-se a atividade geral para um grande movimento de fraternidade e de união de todos os povos do planeta.
Os pensadores que hoje sonham a criação dos Estados Unidos do Mundo, sem os movimentos odiosos das guerras fratricidas, podem sondar os desígnios do plano invisível naquela época. (...) Todos os esforços foram despendidos, nesse particular, pelos emissários do plano invisível, e a prova desse grandioso projeto de trabalho unitário é que a obra do Império Romano foi das mais primorosas, em matéria educativa, com vistas à organização das nacionalidades modernas. O próprio instinto democrático da Inglaterra e da França, bem como as suas elevadas obras de socialização, ainda representam frutos da missão educativa do Império, no seio da Humanidade.
O caminho dos romanos ficou juncado de sementes e de luzes para o porvir".
Sim, o Império Romano era um "projeto divino", da "espiritualidade superior", para promover a "união e a fraternidade" dos povos. Portanto, considerando a visão do "padre espírita" compartilhada por Chico Xavier, um grande império construído sob banho de sangue era "criação do Alto".
Territórios foram conquistados pela espada e pelo fogo, dizimando não só rivais, mas também inocentes, e no entanto esse império era fruto da "ação dos benfeitores" para promover uma nação de "solidariedade e união", nas palavras de Emmanuel, suposto "senador romano" que não sabia latim.
Aí entra Allan Kardec e Emmanuel finge concordar com as transformações da Ciência, chegando a citar que o "laboratório afastava-se definitivamente da sacristia", uma declaração hipócrita, pois, como se viu, o "movimento espírita" só aceita a Ciência quando ela se ajoelha diante da Fé ou quando sua atuação não desafia os novos dogmas religiosos trazidos pela doutrina brasileira.
Emmanuel e Chico Xavier nunca foram com a cara e as ideias de Allan Kardec, mas tinham que se apropriar dele, como quem domasse uma fera indomável. Era dessa forma que eles viam o professor francês, atribuindo seu cientificismo a uma pretensa "overdose da lógica" que ameaçava os campos serenos do Coração.
Tinham eles que "suavizar" Kardec e tudo fizeram para que o pensamento do pedagogo francês fosse pasteurizado para que a essência original praticamente se anulasse e reduzisse o grandioso educador e cientista a um mero pregador religioso, quase um teólogo.
No Capítulo XXIII, intitulado O Século XIX, nos subtítulos "Allan Kardec e seus colaboradores" e "A tarefa do missionário", Emmanuel, não bastasse descrever a Ciência sob o prisma da religião, como forma de promover a "união e a fraternidade", afirma que a "missão" de Kardec teria sido recuperar o Cristianismo, como é o que as crenças do jesuíta conhecem como Catolicismo.
Seguem as seguintes passagens que confirmam as pregações do igrejista Emmanuel, corroboradas por Chico Xavier, que reduzem o pedagogo francês a um ativista religioso que nunca foi, Notem o oportunismo do jesuíta, com seu habitual discurso rebuscado, no seu falso apoio aos avanços científicos:
ALLAN KARDEC E OS SEUS COLABORADORES
Livro A Caminho da Luz - Francisco Cândido Xavier - pelo espírito Emmanuel
O século XIX desenrolava uma torrente de claridades na face do mundo, encaminhando todos os países para as reformas úteis e preciosas.
As lições sagradas do espiritismo iam ser ouvidas pela Humanidade sofredora. Jesus, na sua magnanimidade, repartiria o pão sagrado da esperança e da crença com todos os corações.
Allan Kardec, todavia, na sua missão de esclarecimento e consolação, fazia-se acompanhar de uma plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria tão-somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os departamentos da atividade intelectual do século XIX. A Ciência, nessa época, desfere os vôos soberanos que a conduziriam às culminâncias do século XX.
O progresso da arte tipográfica consegue interessar todos os núcleos de trabalho humano, fundando-se bibliotecas circulantes, revistas e jornais numerosos. A facilidade de comunicações, com o telégrafo e as vias férreas, estabelece o intercâmbio direto dos povos. A literatura enche-se de expressões notáveis e imorredouras. O laboratório afasta-se definitivamente da sacristia, intensificando as comodidades da civilização. Constrói-se a pilha de coluna, descobre-se a indução magnética, surgem o telefone e o fonógrafo. Aparecem os primeiros sulcos no campo da radiotelegrafia, encontra-se a análise espectral e a unidade das energias físicas da Natureza. Estuda-se a teoria atômica e a fisiologia assenta bases definitivas com a anatomia comparada. As artes atestam uma vida nova. A pintura e a música denunciam elevado sabor de espiritualidade avançada.
A dádiva celestial do intercâmbio entre o mundo visível e o invisível chegou ao planeta nessa onda de claridades inexprimíveis. Consolador da Humanidade, segundo as promessas do Cristo, o Espiritismo vinha esclarecer os homens, preparando-lhes o coração para o perfeito aproveitamento de tantas riquezas do Céu.
O "espiritismo" brasileiro sempre se identificou como Catolicismo medieval português, a não ser pelos excessos correspondentes a rituais pomposos e acúmulo de tesouros. E, tal qual os generais da ditadura militar brasileira contra os abusos do DOI-CODI e a direita brasileira contra os exageros do deputado Eduardo Cunha, o "espiritismo" também se voltou contra os excessos do Catolicismo medieval.
Isso é de praxe quando o conservadorismo vê, nos métodos de repressão e retrocessos que tanto apoia em primeira instância, um perigo quando elas são feitas sem controle. A arrogância do DOI-CODI. amtes um órgão "guardião" do governo militar, representou um risco quando os assassinatos de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho, respectivamente jornalista e líder sindical, sinalizavam para uma atuação autônoma do órgão, ameaçando quebrar a hierarquia militar.
No caso do presidente da Câmara dos Deputados, a atuação de Eduardo Cunha, não bastasse a comprovação de seus atos de corrupção como documentos que mostram sua assinatura em contas na Suíça, as suas "pautas-bombas", inicialmente defendidas pelos conservadores, começam a incomodar quando elas representam retrocessos sociais que nem os conservadores moderados aceitariam.
No "espiritismo", a reprovação ao Catolicismo medieval é superestimada por seus seguidores, que chegaram a apostar num maniqueísmo entre a Igreja Católica e o ídolo "espírita" Francisco Cândido Xavier.
Mas eram apenas setores rigidamente católicos, que não aceitavam um paranormal de índole esquisita, por mais que Chico Xavier fosse também um católico fervoroso, rezador de terços, adorador de imagens de santos.
A reprovação se limita apenas a aspectos ritualísticos pomposos, como o uso de trajes pesados, como batinas, com decorações a ouro, e o acúmulo de tesouros imensos, além da tortura e repressão ostensivas e exageradas. Até mesmo o enforcamento em cela era tido como "pena branda" em relação às queimadas ostensivas nas ruas ou nos estádios.
Fora isso, o "espiritismo" brasileiro sempre se manteve identificado com o moralismo medieval. A doutrina, afastada dos ensinamentos originais de Allan Kardec, foi um catolicismo revisitado, combinando valores moralistas medievais com práticas hereges, os primeiros usados para evitar o "excesso de ciência" kardeciano, as segundas para compensar a falta de estudos sérios sobre mediunidade.
Kardec é um nome muito bajulado, mas terrivelmente ignorado. Os "espíritas" brasileiros, no fundo, acham ele um "chato de galocha", uma figura insuportável, mas arrumam um jeito para "suavizar" sua linha de pensamento e criar um falso Kardec domesticado, igrejista e complacente com as deturpações da doutrina do próprio pensador francês.
Uma amostra disso é o livro A Caminho da Luz, de 1939 - mas cujo texto foi escrito ainda em 1938 - , em que Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier, descrevia "fatos históricos" para explicar a "missão fraterna" do "movimento espírita", num livro travestido de História Geral, assim como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho era disfarçado de História do Brasil.
Nele Emmanuel descreve o Império Romano como um projeto da "espiritualidade superior", como se as guerras e combates de conquistas de territórios pelos romanos fossem uma "missão unificadora de paz e fraternidade". Está descrito no livro, no capítulo XIII, O Império Romano e Seus Desvios:
"Reportando-nos ainda às conquistas romanas, antes da chegada do Senhor para as primeiras florações do Cristianismo, devemos lembrar o esforço despendido pelas entidades espirituais, junto das autoridades organizadoras e conservadoras da República, no sentido de orientar-se a atividade geral para um grande movimento de fraternidade e de união de todos os povos do planeta.
Os pensadores que hoje sonham a criação dos Estados Unidos do Mundo, sem os movimentos odiosos das guerras fratricidas, podem sondar os desígnios do plano invisível naquela época. (...) Todos os esforços foram despendidos, nesse particular, pelos emissários do plano invisível, e a prova desse grandioso projeto de trabalho unitário é que a obra do Império Romano foi das mais primorosas, em matéria educativa, com vistas à organização das nacionalidades modernas. O próprio instinto democrático da Inglaterra e da França, bem como as suas elevadas obras de socialização, ainda representam frutos da missão educativa do Império, no seio da Humanidade.
O caminho dos romanos ficou juncado de sementes e de luzes para o porvir".
Sim, o Império Romano era um "projeto divino", da "espiritualidade superior", para promover a "união e a fraternidade" dos povos. Portanto, considerando a visão do "padre espírita" compartilhada por Chico Xavier, um grande império construído sob banho de sangue era "criação do Alto".
Territórios foram conquistados pela espada e pelo fogo, dizimando não só rivais, mas também inocentes, e no entanto esse império era fruto da "ação dos benfeitores" para promover uma nação de "solidariedade e união", nas palavras de Emmanuel, suposto "senador romano" que não sabia latim.
Aí entra Allan Kardec e Emmanuel finge concordar com as transformações da Ciência, chegando a citar que o "laboratório afastava-se definitivamente da sacristia", uma declaração hipócrita, pois, como se viu, o "movimento espírita" só aceita a Ciência quando ela se ajoelha diante da Fé ou quando sua atuação não desafia os novos dogmas religiosos trazidos pela doutrina brasileira.
Emmanuel e Chico Xavier nunca foram com a cara e as ideias de Allan Kardec, mas tinham que se apropriar dele, como quem domasse uma fera indomável. Era dessa forma que eles viam o professor francês, atribuindo seu cientificismo a uma pretensa "overdose da lógica" que ameaçava os campos serenos do Coração.
Tinham eles que "suavizar" Kardec e tudo fizeram para que o pensamento do pedagogo francês fosse pasteurizado para que a essência original praticamente se anulasse e reduzisse o grandioso educador e cientista a um mero pregador religioso, quase um teólogo.
No Capítulo XXIII, intitulado O Século XIX, nos subtítulos "Allan Kardec e seus colaboradores" e "A tarefa do missionário", Emmanuel, não bastasse descrever a Ciência sob o prisma da religião, como forma de promover a "união e a fraternidade", afirma que a "missão" de Kardec teria sido recuperar o Cristianismo, como é o que as crenças do jesuíta conhecem como Catolicismo.
Seguem as seguintes passagens que confirmam as pregações do igrejista Emmanuel, corroboradas por Chico Xavier, que reduzem o pedagogo francês a um ativista religioso que nunca foi, Notem o oportunismo do jesuíta, com seu habitual discurso rebuscado, no seu falso apoio aos avanços científicos:
ALLAN KARDEC E OS SEUS COLABORADORES
Livro A Caminho da Luz - Francisco Cândido Xavier - pelo espírito Emmanuel
O século XIX desenrolava uma torrente de claridades na face do mundo, encaminhando todos os países para as reformas úteis e preciosas.
As lições sagradas do espiritismo iam ser ouvidas pela Humanidade sofredora. Jesus, na sua magnanimidade, repartiria o pão sagrado da esperança e da crença com todos os corações.
Allan Kardec, todavia, na sua missão de esclarecimento e consolação, fazia-se acompanhar de uma plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria tão-somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os departamentos da atividade intelectual do século XIX. A Ciência, nessa época, desfere os vôos soberanos que a conduziriam às culminâncias do século XX.
O progresso da arte tipográfica consegue interessar todos os núcleos de trabalho humano, fundando-se bibliotecas circulantes, revistas e jornais numerosos. A facilidade de comunicações, com o telégrafo e as vias férreas, estabelece o intercâmbio direto dos povos. A literatura enche-se de expressões notáveis e imorredouras. O laboratório afasta-se definitivamente da sacristia, intensificando as comodidades da civilização. Constrói-se a pilha de coluna, descobre-se a indução magnética, surgem o telefone e o fonógrafo. Aparecem os primeiros sulcos no campo da radiotelegrafia, encontra-se a análise espectral e a unidade das energias físicas da Natureza. Estuda-se a teoria atômica e a fisiologia assenta bases definitivas com a anatomia comparada. As artes atestam uma vida nova. A pintura e a música denunciam elevado sabor de espiritualidade avançada.
A dádiva celestial do intercâmbio entre o mundo visível e o invisível chegou ao planeta nessa onda de claridades inexprimíveis. Consolador da Humanidade, segundo as promessas do Cristo, o Espiritismo vinha esclarecer os homens, preparando-lhes o coração para o perfeito aproveitamento de tantas riquezas do Céu.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
No Brasil, até os roqueiros também têm o seu Roustaing
RÁDIO CIDADE: PROGRAMAÇÃO HIT-PARADE FANTASIADA DE "ROQUEIRA".
Toda causa acaba tendo o seu Jean-Baptiste Roustaing. Se o "espiritismo" brasileiro, cuja ideologia se montou com base nos preceitos e preconceitos roustanguistas, se julga "rigorosamente fiel a Allan Kardec", é sinal que, no Brasil, impera toda a hipocrisia social que alimenta oportunismos, pedantismos e tendenciosismos.
Aqui é o país em que os penetras viram anfitriões de festas, as raposas cuidam dos galinheiros e ninguém desconfia e endeusa-se uma pessoa pelo status quo que tem e do qual ninguém sabe como foi alcançado. Fala-se muito mal do Partido dos Trabalhadores, enquanto calhordas e canastrões bem piores são aceitos e até recebem apoio entusiasmado.
Na cultura rock brasileira, em especial o eixo Rio-São Paulo, chama a atenção o "fenômeno" da emissora de rádio FM chamada Rádio Cidade. A rádio nunca teve vocação original para o rock, nem seu histórico indicava tal tendência. Surgida em 1977, ela atravessou sua trajetória sob a concorrência da Eldo Pop e da Fluminense FM, rádios de rock autêntico, e nem se ligou para a causa.
Só que desde 1995, a Rádio Cidade passou a explorar o rock de maneira oportunista e incompetente. Por um erro de atitude e por uma questão de oportunismo, o Sistema Jornal do Brasil (atual Sistema Rio de Janeiro de Rádio), em vez de extinguir sua emissora pop e criar uma nova emissora do zero, com uma equipe especializada, manteve a Rádio Cidade, sua equipe de radialistas pop e apenas criou algum aparato "roqueiro" sem profundidade nem competência.
Tudo uma questão de oportunismo. Até se alegarmos que a Rádio Cidade aderiu ao rock como "solidariedade" a quem perdeu a Fluminense FM, que havia saído do ar em 1994, soa estranha a suposição. A emissora levou seis meses para assumir a "causa" da outra rádio, o que quer dizer que ela agiu por oportunismo, esperando ver se podia ganhar dinheiro em cima, observando de longe os efeitos da extinção da antiga rádio roqueira.
O tempo passa e a Rádio Cidade passou a viver uma história kafkiana. Pretensa "unanimidade" até entre os roqueiros aparentemente autênticos, a emissora passou a usar o lema "Rock de Verdade" para confundir as pessoas e tranquilizar a mídia. Enquanto isso, ela segue sua visão deturpada de programação de rock, que só revela a verdadeira vocação da emissora carioca: o hit-parade.
A grade de programação nada tem a ver com rádios de rock. Ela é calcada, ironicamente, ao padrão de rádios de pop convencional, como Jovem Pan FM e Mix FM. Em vez de haver programas especializados em tendências do rock, há programas de sucessos, músicas do passado etc, que refletem critérios meramente de hit-parade, programas de grandes sucessos de ontem, hoje e amanhã.
Mesmo programas como "Debate Rock", "Hora dos Perdidos" e "Rock Bola" seguem critérios da Jovem Pan: o "Debate Rock" surgiu em função de um noticiário produzido pela Jovem Pan AM, retransmitido em FM, e que tem o reacionário colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, como uma das atrações.
A "Hora dos Perdidos" segue uma linhagem de programas de besteirol temático como "Transa Louca", da Rede Transamérica, e, em parte, o "Pânico da Pan". O "Rock Bola", espécie de mistura do "Pânico da Pan" com Galvão Bueno, aposta na tese sem fundamento de que futebol é "esporte rock'n'roll", coisa que nunca se observa na realidade do futebol brasileiro. Nem na Inglaterra isso ocorre: lá ingleses gostam de futebol e rock, mas nunca se atrevem a vê-los como uma coisa só.
O aspecto kafkiano - observação trazida pelos que questionam a emissora - se deve ao fato de que agora a Rádio Cidade é vista como "rádio de rock séria" e mesmo os roqueiros autênticos parecem pouco inclinados a contestar ou repudiar o fenômeno, mesmo sendo a emissora de origem nada roqueira que irá completar 40 anos de existência, em 1977, renegando sua própria história.
Esquecem eles que a Rádio Cidade em nenhum momento quis herdar a trajetória da Fluminense FM e nunca teve o compromisso em trabalhar o perfil rock que não fosse o de uma rádio pop com vitrolão roqueiro - que é o que vemos na programação do "Rock de Verdade" - , mas uma rádio com locução, linguagem e filosofia de trabalho diferentes do perfil "paradão".
Em vez disso, observa-se, só na locução e vinhetas, que a Rádio Cidade lembra muito a Mix FM, Jovem Pan e até a popularesca FM O Dia, que também investe no atual perfil de locutor "mauricinho", do tipo "engraçadinho", de voz quase efeminada (como nos locutores masculinos) e fala "calminha".
O próprio diretor da Fluminense FM, Luiz Antônio Mello, havia descrito no capítulo "O marketing silvícola da Fluminense FM", no livro A Onda Maldita, um trecho que já previu o oportunismo da mercenária emissora transmitida nos 102,9 mhz do Grande Rio:
"Tínhamos uma verdadeira fobia de que uma Rádio Cidade, de repente, despejasse, com seus milhões de quilowatts, Rock sobre o Rio. Estaríamos ferrados.
(...) Eu expliquei a todo mundo que concorrência é igual a uma granja. Se você tem galinhas gordas, milhares, e o seu vizinho tem um galo e uma galinha magros, raquíticos, mesmo assim, respeite. Se uma metade de milho cair lá a cada duas horas, galo e galinhas sobreviverão. Nascerão pintinhos e, mais tarde, quando você for ver, terá um concorrente quase do seu tamanho, igual ou maior. Com isso eu não brinco".
Infelizmente, porém, os roqueiros autênticos estão divididos diante da situação. Os que detém alguma influência e visibilidade na mídia andam complacentes com a Rádio Cidade. Os que se mantém na essência da cultura rock reclamam sem poder influir na situação. "Ferrados", os roqueiros há muito levantaram bandeira branca para a canastrice eletrônica da Rádio Cidade e seus milhões de quilowatts.
Enquanto isso, o legado da Fluminense FM se resume a um memorial - Maldita 3.0 - e uma rádio digital - Cult FM - que, embora iniciativas de altíssimo valor e importância indiscutível, não conseguem neutralizar a força comercial da Cidade.
Com todas as facilidades que hoje permitem sintonizar uma rádio digital no celular, ela ainda é problemática, onerosa e frágil, se comparada com a sintonia de um rádio FM comum. Além disso, se o rock autêntico não encontra mais espaço no rádio FM de fácil sintonia, as rádios digitais têm que sofrer a concorrência da própria Rádio Cidade, que também explora sintonia na web.
Os dois projetos, com todo o diferencial que possuem, são insuficientes para desviar a atenção dos que, deslumbrados com a Rádio Cidade, a tratam como se fosse uma "igreja" de uma "seita do rock" em que o aparato "roqueiro" vale mais que a essência de sua música e cultura.
Há muito tempo os roqueiros não têm para si os microfones do rádio FM no Rio de Janeiro, pois o que ocorreu até agora são promessas vãs de radialismo rock, que estabeleciam restrições de todo tipo, como rádios de pop adulto que não podiam tocar rock pesado ou rádios ecléticas que só podiam ter uma faixa horária de rock de no máximo quatro horas.
No caso da Rádio Cidade, os roqueiros praticamente não têm os microfones em suas mãos. Ao longo dos últimos 20 anos, os microfones são controlados por radialistas pop, que, não bastasse seu estilo de locução quase efeminado no timbre e na entonação e suas gírias convencionais, falam mal de artistas de rock nos bastidores.
A Rádio Cidade abocanhou uma reserva de mercado do rock e, aos poucos, assumiu o controle do território que sempre lhe foi alheio. A Fluminense FM tentou uma volta mas encontrou o mercado refém da Rádio Cidade. Rádios digitais tentam a "política da boa vizinhança" e não fazem o marketing de guerrilha para rejeitar a canastrice que rola nos 102,9 mhz.
Daí o aspecto surreal. Uma parcela do público roqueiro pede para que "respeitemos a Rádio Cidade", abrindo mão da tradição de contestação e resistência dos próprios roqueiros, sob a desculpa de que, aceitando uma rádio que não toca mais do que um punhado de sucessos manjados do rock, se fortalecerá o mercado do gênero. Grande ilusão.
É mais ou menos o que ocorre no "espiritismo" brasileiro. Se na Rádio Cidade há a "cultura rock" trabalhada sob o prisma do pop convencional, com todos os seus preconceitos, vários deles graves, contra a rebeldia roqueira, vista de maneira caricata e estereotipada, no "espiritismo" a doutrina de Allan Kardec é trabalhada sob o prisma dos preconceitos católicos assumidos pelos seguidores brasileiros.
Se de um lado todo o trabalho foi feito para se fazer o perfil de rádio de rock além de um simples vitrolão roqueiro, com linguagem e mentalidade próprios, como foi a Fluminense FM entre 1982 e 1985, para tudo terminar numa rádio de um perfil pop qualquer que apenas "só toca rock", isso lembra também o fato de que todo o trabalho de Allan Kardec também parece ter sido em vão, já que o "espiritismo" que "vingou" não passa de um subproduto paranormal do Catolicismo.
Isso é um reflexo no Brasil. Talvez o galo e as galinhas do vizinho, citado por Luiz Antônio Mello, sejam na verdade seguidores das raposas que sempre tomam os galinheiros, nesse país em que a visibilidade e o poder de decisão e formação de opinião estão nas mãos dos incompetentes.
É um Brasil em que tem que se respeitar a raposa que cuida do galinheiro em nome do progresso econômico, da estabilidade social ou das promessas de prosperidade e glamour futuros. Criticar a raposa é considerado antissocial, porque a raposa é legal e, se as galinhas são mortas devoradas pelo predador, este é inocente, as vítimas é que "deram bobeira". Fácil culpar as vítimas.
E é isso que trava o progresso do Brasil, porque as causas são sempre entregues a quem não tem natural identificação com as mesmas. E tudo fica à mercê de oportunismos e tendenciosismos.
Toda causa acaba tendo o seu Jean-Baptiste Roustaing. Se o "espiritismo" brasileiro, cuja ideologia se montou com base nos preceitos e preconceitos roustanguistas, se julga "rigorosamente fiel a Allan Kardec", é sinal que, no Brasil, impera toda a hipocrisia social que alimenta oportunismos, pedantismos e tendenciosismos.
Aqui é o país em que os penetras viram anfitriões de festas, as raposas cuidam dos galinheiros e ninguém desconfia e endeusa-se uma pessoa pelo status quo que tem e do qual ninguém sabe como foi alcançado. Fala-se muito mal do Partido dos Trabalhadores, enquanto calhordas e canastrões bem piores são aceitos e até recebem apoio entusiasmado.
Na cultura rock brasileira, em especial o eixo Rio-São Paulo, chama a atenção o "fenômeno" da emissora de rádio FM chamada Rádio Cidade. A rádio nunca teve vocação original para o rock, nem seu histórico indicava tal tendência. Surgida em 1977, ela atravessou sua trajetória sob a concorrência da Eldo Pop e da Fluminense FM, rádios de rock autêntico, e nem se ligou para a causa.
Só que desde 1995, a Rádio Cidade passou a explorar o rock de maneira oportunista e incompetente. Por um erro de atitude e por uma questão de oportunismo, o Sistema Jornal do Brasil (atual Sistema Rio de Janeiro de Rádio), em vez de extinguir sua emissora pop e criar uma nova emissora do zero, com uma equipe especializada, manteve a Rádio Cidade, sua equipe de radialistas pop e apenas criou algum aparato "roqueiro" sem profundidade nem competência.
Tudo uma questão de oportunismo. Até se alegarmos que a Rádio Cidade aderiu ao rock como "solidariedade" a quem perdeu a Fluminense FM, que havia saído do ar em 1994, soa estranha a suposição. A emissora levou seis meses para assumir a "causa" da outra rádio, o que quer dizer que ela agiu por oportunismo, esperando ver se podia ganhar dinheiro em cima, observando de longe os efeitos da extinção da antiga rádio roqueira.
O tempo passa e a Rádio Cidade passou a viver uma história kafkiana. Pretensa "unanimidade" até entre os roqueiros aparentemente autênticos, a emissora passou a usar o lema "Rock de Verdade" para confundir as pessoas e tranquilizar a mídia. Enquanto isso, ela segue sua visão deturpada de programação de rock, que só revela a verdadeira vocação da emissora carioca: o hit-parade.
A grade de programação nada tem a ver com rádios de rock. Ela é calcada, ironicamente, ao padrão de rádios de pop convencional, como Jovem Pan FM e Mix FM. Em vez de haver programas especializados em tendências do rock, há programas de sucessos, músicas do passado etc, que refletem critérios meramente de hit-parade, programas de grandes sucessos de ontem, hoje e amanhã.
Mesmo programas como "Debate Rock", "Hora dos Perdidos" e "Rock Bola" seguem critérios da Jovem Pan: o "Debate Rock" surgiu em função de um noticiário produzido pela Jovem Pan AM, retransmitido em FM, e que tem o reacionário colunista da revista Veja, Reinaldo Azevedo, como uma das atrações.
A "Hora dos Perdidos" segue uma linhagem de programas de besteirol temático como "Transa Louca", da Rede Transamérica, e, em parte, o "Pânico da Pan". O "Rock Bola", espécie de mistura do "Pânico da Pan" com Galvão Bueno, aposta na tese sem fundamento de que futebol é "esporte rock'n'roll", coisa que nunca se observa na realidade do futebol brasileiro. Nem na Inglaterra isso ocorre: lá ingleses gostam de futebol e rock, mas nunca se atrevem a vê-los como uma coisa só.
O aspecto kafkiano - observação trazida pelos que questionam a emissora - se deve ao fato de que agora a Rádio Cidade é vista como "rádio de rock séria" e mesmo os roqueiros autênticos parecem pouco inclinados a contestar ou repudiar o fenômeno, mesmo sendo a emissora de origem nada roqueira que irá completar 40 anos de existência, em 1977, renegando sua própria história.
Esquecem eles que a Rádio Cidade em nenhum momento quis herdar a trajetória da Fluminense FM e nunca teve o compromisso em trabalhar o perfil rock que não fosse o de uma rádio pop com vitrolão roqueiro - que é o que vemos na programação do "Rock de Verdade" - , mas uma rádio com locução, linguagem e filosofia de trabalho diferentes do perfil "paradão".
Em vez disso, observa-se, só na locução e vinhetas, que a Rádio Cidade lembra muito a Mix FM, Jovem Pan e até a popularesca FM O Dia, que também investe no atual perfil de locutor "mauricinho", do tipo "engraçadinho", de voz quase efeminada (como nos locutores masculinos) e fala "calminha".
O próprio diretor da Fluminense FM, Luiz Antônio Mello, havia descrito no capítulo "O marketing silvícola da Fluminense FM", no livro A Onda Maldita, um trecho que já previu o oportunismo da mercenária emissora transmitida nos 102,9 mhz do Grande Rio:
"Tínhamos uma verdadeira fobia de que uma Rádio Cidade, de repente, despejasse, com seus milhões de quilowatts, Rock sobre o Rio. Estaríamos ferrados.
(...) Eu expliquei a todo mundo que concorrência é igual a uma granja. Se você tem galinhas gordas, milhares, e o seu vizinho tem um galo e uma galinha magros, raquíticos, mesmo assim, respeite. Se uma metade de milho cair lá a cada duas horas, galo e galinhas sobreviverão. Nascerão pintinhos e, mais tarde, quando você for ver, terá um concorrente quase do seu tamanho, igual ou maior. Com isso eu não brinco".
Infelizmente, porém, os roqueiros autênticos estão divididos diante da situação. Os que detém alguma influência e visibilidade na mídia andam complacentes com a Rádio Cidade. Os que se mantém na essência da cultura rock reclamam sem poder influir na situação. "Ferrados", os roqueiros há muito levantaram bandeira branca para a canastrice eletrônica da Rádio Cidade e seus milhões de quilowatts.
Enquanto isso, o legado da Fluminense FM se resume a um memorial - Maldita 3.0 - e uma rádio digital - Cult FM - que, embora iniciativas de altíssimo valor e importância indiscutível, não conseguem neutralizar a força comercial da Cidade.
Com todas as facilidades que hoje permitem sintonizar uma rádio digital no celular, ela ainda é problemática, onerosa e frágil, se comparada com a sintonia de um rádio FM comum. Além disso, se o rock autêntico não encontra mais espaço no rádio FM de fácil sintonia, as rádios digitais têm que sofrer a concorrência da própria Rádio Cidade, que também explora sintonia na web.
Os dois projetos, com todo o diferencial que possuem, são insuficientes para desviar a atenção dos que, deslumbrados com a Rádio Cidade, a tratam como se fosse uma "igreja" de uma "seita do rock" em que o aparato "roqueiro" vale mais que a essência de sua música e cultura.
Há muito tempo os roqueiros não têm para si os microfones do rádio FM no Rio de Janeiro, pois o que ocorreu até agora são promessas vãs de radialismo rock, que estabeleciam restrições de todo tipo, como rádios de pop adulto que não podiam tocar rock pesado ou rádios ecléticas que só podiam ter uma faixa horária de rock de no máximo quatro horas.
No caso da Rádio Cidade, os roqueiros praticamente não têm os microfones em suas mãos. Ao longo dos últimos 20 anos, os microfones são controlados por radialistas pop, que, não bastasse seu estilo de locução quase efeminado no timbre e na entonação e suas gírias convencionais, falam mal de artistas de rock nos bastidores.
A Rádio Cidade abocanhou uma reserva de mercado do rock e, aos poucos, assumiu o controle do território que sempre lhe foi alheio. A Fluminense FM tentou uma volta mas encontrou o mercado refém da Rádio Cidade. Rádios digitais tentam a "política da boa vizinhança" e não fazem o marketing de guerrilha para rejeitar a canastrice que rola nos 102,9 mhz.
Daí o aspecto surreal. Uma parcela do público roqueiro pede para que "respeitemos a Rádio Cidade", abrindo mão da tradição de contestação e resistência dos próprios roqueiros, sob a desculpa de que, aceitando uma rádio que não toca mais do que um punhado de sucessos manjados do rock, se fortalecerá o mercado do gênero. Grande ilusão.
É mais ou menos o que ocorre no "espiritismo" brasileiro. Se na Rádio Cidade há a "cultura rock" trabalhada sob o prisma do pop convencional, com todos os seus preconceitos, vários deles graves, contra a rebeldia roqueira, vista de maneira caricata e estereotipada, no "espiritismo" a doutrina de Allan Kardec é trabalhada sob o prisma dos preconceitos católicos assumidos pelos seguidores brasileiros.
Se de um lado todo o trabalho foi feito para se fazer o perfil de rádio de rock além de um simples vitrolão roqueiro, com linguagem e mentalidade próprios, como foi a Fluminense FM entre 1982 e 1985, para tudo terminar numa rádio de um perfil pop qualquer que apenas "só toca rock", isso lembra também o fato de que todo o trabalho de Allan Kardec também parece ter sido em vão, já que o "espiritismo" que "vingou" não passa de um subproduto paranormal do Catolicismo.
Isso é um reflexo no Brasil. Talvez o galo e as galinhas do vizinho, citado por Luiz Antônio Mello, sejam na verdade seguidores das raposas que sempre tomam os galinheiros, nesse país em que a visibilidade e o poder de decisão e formação de opinião estão nas mãos dos incompetentes.
É um Brasil em que tem que se respeitar a raposa que cuida do galinheiro em nome do progresso econômico, da estabilidade social ou das promessas de prosperidade e glamour futuros. Criticar a raposa é considerado antissocial, porque a raposa é legal e, se as galinhas são mortas devoradas pelo predador, este é inocente, as vítimas é que "deram bobeira". Fácil culpar as vítimas.
E é isso que trava o progresso do Brasil, porque as causas são sempre entregues a quem não tem natural identificação com as mesmas. E tudo fica à mercê de oportunismos e tendenciosismos.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Fernando Pessoa era mais mediúnico que Chico Xavier
Ontem, 30 de novembro, foi a lembrança do aniversário de 80 anos de morte do poeta português Fernando Pessoa. Boêmio, ele faleceu prematuramente em 1935, aos 47 anos e no auge de sua popularidade, devido a problemas consequentes do álcool.
Hoje, 01 de dezembro, se celebram 80 anos em que os efeitos dessa tragédia que abalou a cultura da língua portuguesa em geral, com a perda de um dos maiores artistas do Modernismo do século XX, começavam a ser pensados.
Afinal, as pessoas acabavam sabendo da morte de Pessoa um dia após seu falecimento. Começavam dezembro pensando no que seria a poesia sem ele, e muitos de seus admiradores, além de pessoas que conviveram com ele, começavam sua rotina sob sua ausência física. Não tinham mais vivo o poeta e escritor de fina linguagem e expressividade requintada e complexa.
Fernando Pessoa era, na verdade, uma multidão. Ele era muito mais mediúnico que um Francisco Cândido Xavier que os brasileiros, naquela primeira metade dos anos 1930, tinham no seu convívio. Como comparar o tosco Chico Xavier de pastiches literários com os heterônimos bastante complexos que Fernando Pessoa "encarnava" em sua produção poética.
Fernando Pessoa, que também escrevia prosas, era ensaísta e fazia traduções de livros, concebia heterônimos diversos, dos quais se destacavam Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, para os quais criava biografias detalhadas e até mapas astrológicos.
Com o requinte criativo de seu sofisticado talento modernista, Fernando Pessoa inventava estilos para seus heterônimos, com uma dramaticidade ímpar. Neste sentido, não há como comparar a complexidade de Fernando Pessoa com a malandragem de Chico Xavier, que só foi "legitimado" por causa de mal-entendidos.
Chico Xavier, com seus pastiches literários, recebeu a rejeição e a abstenção de personalidades literárias renomadas. Não foi, em verdade, autenticado como "médium" e, quando muito, os menos desconfiados (mas, ainda assim, céticos) apenas perguntavam se alguém poderia fazer pastiches dos mais diversos estilos literários.
Para quem não entende das coisas, Chico Xavier poderia ser visto como um "super-médium" ou então como um arremedo brasileiro de Fernando Pessoa, e aceitar alguma validade de suas atividades. A verdade, porém, é que Chico Xavier não fazia os pastiches sozinho, e até uma carta dele para Antônio Wantuil de Freitas, da Federação "Espírita" Brasileira, já deixou vazar isso.
Chico Xavier fazia seus pastiches em parceria com Wantuil e outros editores da FEB. Tinham também a ajuda de consultores literários, que lhe explicavam os estilos de dados autores. Além do mais, numa época em que o Modernismo era movimento literário mais prestigiado que o Parnasianismo, intitular um livro como Parnaso de Além-Túmulo já era, por si, demodê.
Em que pese o fato de Humberto de Campos, que estava no auge de sua popularidade, ter sido um escritor parnasiano - embora parecesse inclinado ao grande público por causa de sua linguagem acessível - e, curiosamente, ter morrido quase que na mesma época e na mesma faixa etária que o poeta português (Humberto morreu em 1934, aos 48 anos), ele não parecia antiquado, mas acabou sendo vítima do oportunismo do retrógrado Chico Xavier.
Chico Xavier não costumava assimilar direito os espíritos dos poetas mortos, diga-se de passagem. Ele mal conseguia disfarçar seu estilo apenas copiando, na forma, os estilos dos falecidos. Ele poderia, por exemplo, copiar a forma de construção de versos de um Castro Alves, de um Augusto dos Anjos, de uma Auta de Souza e um Casimiro de Abreu. Mas só na forma.
Por exemplo, se Castro Alves escrevia estrofes com oito versos, nos quais o esquema de rimas por verso seguia o padrão ABBCDEEC, Chico Xavier seguia esse formato. No entanto, a elaboração dos versos não seguia necessariamente a métrica do autor original e o conteúdo tinha sempre o estilo de mensagens que se conhece do anti-médium mineiro.
O "movimento espírita" sempre arrumou desculpa para empurrar Chico Xavier para o âmbito dos intelectuais, e sempre procurava dar a impressão de que a literatura "espírita" era de alto nível e que a doutrina brasileira sempre foi de um refinamento cultural ímpar. Dai que grandes nomes da MPB que não têm acesso fácil nas rádios foram fazer trilhas sonoras de filmes "espíritas", assim como o músico estrangeiro Philip Glass, que fez a trilha de Nosso Lar.
Há até mesmo correntes que querem que Chico Xavier seja considerado "o maior filósofo brasileiro" (juntamente com Divaldo Franco, é claro), ou então como cientista, analista político, profeta etc. Na falta de sábios, se contenta-se em aceitar os que dizem sê-los.
Não que Portugal fosse uma grande potência mundial, até porque o país europeu é bem receptivo para as degradações sofridas pela música brasileira, e, no caso do "espiritismo" brasileiro, seu acolhimento foi entusiasmado, por razões bem simples.
Portugal forneceu para o Brasil a influência do Catolicismo medieval que ainda valia nas terras lusitanas no decorrer do século XIX. A contribuição dos jesuítas é notória. Padre Manuel da Nóbrega, que regressou como Emmanuel, era um jesuíta português, medievalista de carteirinha.
No sentido inverso, o "espiritismo" brasileiro encontrou em Portugal uma alfândega fácil para o mundo, Com isso, até a França, que, ao que parece, esqueceu Allan Kardec, passou a ver traduções locais de livros de Chico Xavier e Divaldo Francos produzidas e vendidas em livrarias, mesmo quando seus conteúdos são abertamente contrários ao pensamento kardeciano.
Todavia, Portugal pelo menos teve em Fernando Pessoa um dos artistas mais arrojados, e sua obra gerou um grande impacto sendo expressão da moderníssima década de 1920, que parecia levar o mundo para um futuro dos mais progressistas, não fosse a violenta crise econômica causada pelo colapso da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, devido aos abusos da especulação financeira.
Fernando percebia muito mais a diferenciação dos espíritos humanos do que um Chico Xavier. Com seus versos reflexivos, com sua multiplicidade de estilos elaborados para o Fernando "ele mesmo" (quando assinava o próprio nome) e para seus heterônimos, o português elaborava uma obra riquíssima e complexa, tanto em linguagem quanto em mensagem.
Chico, em seus pastiches, só inseria o seu estilo pessoal - vergonhoso atribuir como de Auta de Souza certos poemas que claramente têm o estilo do anti-médium e não da jovem poetisa - e era ajudado por terceiros na emulação fútil de estilos literários diversos.
É vergonhoso que se dê o crédito absoluto a Chico Xavier, a ponto de seus seguidores exaltados prefrirem que o Brasil se ferrasse de vez, desde que esteja salva e intata a reputação do anti-médium, só por causa de seus estereótipos de "amor e bondade".
Sem perceber, isso trava a evolução do país, porque a pessoa considerada "mais evoluída" do país é, na verdade, um indivíduo que foi extremamente conservador, religioso retrógrado, mistificador da pior espécie e envolvido em plágios e pastiches literários, entre outras charlatanices.
Se o Brasil quer progredir transformando uma figura dessas como um "vice-deus", que é o que Chico Xavier é visto pelos seus seguidores e simpatizantes, então não haverá progresso algum pelo conjunto da obra cheio de pontos retrógrados e desonestos que cercam Chico Xavier. O Brasil não comandará o mundo dessa forma, pois pensando assim o país ficará resignado com seu atraso.
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