sábado, 16 de setembro de 2017

Criticar a deturpação espírita não é expressar intolerância religiosa

SE DEPENDER DOS "ESPÍRITAS" BRASILEIROS, BOA PARTE DO CONTEÚDO DE O LIVRO DOS MÉDIUNS EXPRESSA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA A ELES.

Estão surgindo casos de intolerância religiosa no Brasil e eles estão sendo muito mal interpretados por uma imprensa incompetente, conservadora e desinformadora e deformadora da opinião pública. Com base numa "constelação" de grandes grupos midiáticos (Globo, Abril, Folha etc) e seus "satélites" que são as páginas de fake news, as pessoas levam gato por lebre e não entendem coisa com coisa com o que passa realmente.

Os episódios que ocorrem no Brasil, na verdade, são episódios de intolerância religiosa, sim, mas sob motivação social elitista e dotada de racismo, movidos por grupos neopentecostais contra crenças religiosas afro-brasileiras e é um reflexo, na verdade, de uma luta de classes agravada depois que a sociedade mais reacionária retomou o poder, com a derrubada do governo Dilma Rousseff.

O "movimento espírita" tenta se aproveitar da situação e, mediante sua grave crise, pegar carona nos movimentos religiosos afro-brasileiros e tomar como seu o infortúnio deles. Isso é bastante insólito e tendencioso, porque o "movimento espírita" sempre se preocupou em não ser confundido com os movimentos como a umbanda e o candomblé, tidos pelos leigos como "espíritas".

Hoje até parece que o "movimento espírita" passou a gostar desta confusão e vários de seus palestrantes estão espalhando por aí que a onda de intolerância religiosa atinge os "espíritas" e ficam dizendo que as críticas severas que recebem na Internet são "manifestos de intolerância, de falta de perdão e perda da fé em Deus", na esperança de deixar o contraditório "espíritismo" brasileiro como está, na "fase dúbia" da bajulação de Allan Kardec e da apreciação de ideias roustanguistas.

O que se tem é intolerância à mentira, à falta de lógica, à contradição e à dissimulação. O conteúdo dos "espíritas" diz muito desses gravíssimos defeitos, difundidos sobretudo pelos "médiuns" que vivem do culto à personalidade e se promovem pelo Assistencialismo (que dizem ser "assistência social"). Através deles, o legado de Kardec foi rebaixado a um "outro Catolicismo", que de tão influenciado pelo jesuitismo, reduziu o "espiritismo" a uma religião medieval.

As críticas severas e bastante enérgicas que o "espiritismo" recebe se baseiam no conteúdo nem sempre agradável da seminal obra O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. A obra não é um doce a ser dissolvido pelos paladares igrejistas dos "espíritas" brasileiros - tanto que Francisco Cândido Xavier se apressou a lançar uma obra mais de acordo com os devaneios igrejistas, intitulada Nos Domínios da Mediunidade - e mostra pontos que desagradam os "espíritas" brasileiros.

Em muitos trechos, identificam-se caraterísticas negativas que se encaixam nas atividades e nos pontos de vista lançados pelos badalados "médiuns" brasileiros, alvo de muita blindagem por parte da grande mídia, como um PSDB da religiosidade. Textos rebuscados, ideias excêntricas à Doutrina Espírita (como os devaneios igrejistas), uso de nomes ilustres em supostas psicografias, tudo isso já havia sido alertado por Kardec como aspectos negativos da deturpação do Espiritismo.

Lendo esse livro - evita-se traduções igrejeiras como as da FEB e IDE e se prefere a de José Herculano Pires, editada pela LAKE, por ser mais honesta com o texto original - , observa-se quantos subsídios a obra de Allan Kardec oferece para apontar os gravíssimos e preocupantes defeitos da deturpação brasileira, coisa que não é algo para esquecer como errinhos de nada, porque eles envolvem responsabilidades, compromissos e riscos nunca devidamente assumidos.

Para quem está acostumado pela imagem adocicada dos "médiuns" brasileiros, promovidos como se fossem fadas-madrinhas da vida real, ler O Livro dos Médiuns é de partir o coração. Sim, porque o conteúdo se refere, direta ou indiretamente, a tudo que representa o "espiritismo" brasileiro, não de maneira elogiosa mas com críticas bastante severas, apoiadas por argumentos seguros e certeiros.

Será que os "espíritas" brasileiros acusarão Allan Kardec ou espíritos mensageiros como São Luís e Erasto de praticarem "intolerância religiosa"? Será que eles serão acusados, da mesma forma, de "falta de misericórdia"? Por outro lado, o "trabalho do bem" pode ser considerado com obras mediúnicas fake de livros e quadros de pintura?

O "espiritismo", infelizmente, sempre se aproveitou da desinformação da maioria das pessoas para levar vantagem até mesmo em suas piores irregularidades. E criticar isso não é expressar intolerância religiosa, mas intolerância à mentira, à fraude, à mistificação e à dissimulação.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mensagem "espiritual" atribuída a Allan Kardec dá indícios de obra 'fake'


É muito pouco provável que o professor Leon Rivail, conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec, tenha deixado mensagens espirituais. As mensagens que foram divulgadas atribuindo-se a ele soam muito igrejeiras, e, no caso brasileiro, bastante grotescas, sendo a mais famosa, por Frederico Júnior, lançada em 1889, mostrando um suposto Kardec que pedia para valorizarmos a "revelação da revelação" (nome dado à causa do deturpador J. B. Roustaing).

O que se pode inferir, com base na personalidade rigorosamente criteriosa e objetiva de Kardec, é que ele não teria retornado à Terra nem enviado mensagens espirituais. Mesmo deixando seu trabalho incompleto, Kardec teve consciência, na fragilidade de sua doença, de ter deixado uma orientação suficiente para a humanidade apreciar sua teoria e suas ideias.

A mensagem que reproduzimos abaixo é uma "pegadinha". Ela foi publicada na França, destinada à Revista Espírita e publicada nos Anais do Espiritismo daquele país. Isso sugere que a mensagem atribuída a Allan Kardec é "autêntica" e "indiscutível", mas indícios de que a mensagem tem veracidade duvidosa, embora sutis, podem ser identificados.

O texto, no seu conteúdo, apresenta um Kardec estranho, que se proclama um "missionário" e não um professor e muito menos lembra o Kardec original que lançava ideias com o objetivo de estabelecer um debate e mesmo um questionamento, a ponto de dizer que, se a Ciência provar logicamente o equívoco de uma ideia lançada pelo Espiritismo, que se prefira a Ciência do que a Doutrina Espírita.

No texto abaixo, embora o suposto Kardec fale em "ciência", o texto soa bastante igrejeiro. Ele transforma a "ciência espírita" numa religião e Kardec, estranhamente, trata a si mesmo como se fosse um "missionário". Isso parece bonito para as pessoas, mas contraria a natureza pessoal de Kardec, que nunca se comportou como se fosse um militante religioso.

As alegações do suposto Kardec soam místicas e o Espiritismo é visto como uma religião, e o texto triunfalista foge da natureza kardeciana original, embora, sendo uma mensagem veiculada na França e não no Brasil (onde supostas mensagens espirituais não escondem seu caráter fraudulento), pareça um sutil arremedo das mensagens que Kardec veiculou em obras finais como A Gênese e a coletânea Obras Póstumas.

Embora pareça estranho para os leigos, a Revista Espírita (La Revue Spirite), periódico fundado por Kardec, escapou dos propósitos originais do pedagogo de Lyon. O Espiritismo original também foi deturpado na França, a partir de J. B. Roustaing, mas mesmo os seguidores de Kardec suavizaram seu legado ao sabor de crenças católicas, o que comprometeu a essência original da Doutrina Espírita.

Isso significa que mesmo o Espiritismo francês se deixou diluir ao sabor do Catolicismo, não com a voracidade que se observa no Brasil, mas de maneira decisiva, tanto que, no decorrer dos tempos, deturpadores como Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, teriam livros traduzidos para o francês.

Vamos ao texto da mensagem do suposto espírito de Kardec.

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Comunicação de Allan Kardec em 30 de Março de 1924, confiada à - "La Revue Spirite" - pelos Anais do Espiritismo de Rocheford-Sur-Mer (França). N. º de julho de 1924.

"Outrora os espíritas podiam ser contados nos dedos. Escarneciam e praguejavam contra aqueles que se interessavam por essa Ciência; esses tais eram tidos por malucos e evitados com cautela; mas, hoje, vai-se fazendo luz intensa sobre o Espiritismo, porque os sábios o explicam e procuram a realidade dos fatos. Eu não disse na minha vida terrestre, que o Espiritismo havia de ser cientifico ou morreria?

E a ciência vai pouco a pouco homologando os fenômenos espíritas.

Para muita gente, nós o sabemos, esses fenômenos continuam ainda incompreensíveis, porque não se pode explicar e analisar a força que os produz, mas dia virá em que os sábios à descobrirão e provarão que, se a matéria compõe nosso corpo, existe também no ser humano uma coisa mais sutil que anima esse corpo: a alma imortal!

Com grande alegria vejo um raio luminoso aclarando alguns sábios que tendo a princípio repelido os fatos com desdém, observando-os depois com atenção, vão reconhecendo a sua realidade.

Direi, portanto, aos que ainda não compreendem o Espiritismo: estudai, observai, mas não o aceiteis senão com a vossa razão e com a ciência; é por atenção acurada na observação dos fenômenos que chega a concluir: Cela est! ("É isso!", em francês - o tradutor manteve a expressão original)

Aqueles que nos fatos espíritas só vêm ilusão e crendices da parte dos médiuns que nós animamos, estão em erro, podem também estar de má fé.

Se há médiuns mais preocupados de seus interesses que da verdade, também os há, e em maior número, que são sinceros e desinteressados e são na realidade uma força psíquica poderosa, capaz de ajudar os Espíritos a produzir fenômenos; esses são para nós preciosos auxiliares que nos permitirão atingir o triunfo de nossa obra de Luz.

Que Deus abençoe esse trabalho dos Espíritos, que vai crescendo de dia para dia neste planeta, para maior bem da humanidade. Quanto a mim, a minha missão espiritual está cumprida em parte, e dentro de alguns anos tornarei a reencarnar-me entre vós, amigos; e muitas pessoas jovens, que aqui se acham presentes, poderão reconhecer-me então pela minha obra de Espiritismo.

Essa missão terrestre eu a aceitarei com jubilo por amor de meus irmãos da Terra; e para bem a desempenhar meu espírito está se instruindo, está se iluminando nestas maravilhas estupendas e sem limites, onde há tanto que observar.

Eu estou aí haurindo poderosas forças espirituais para voltar ao serviço do progresso da humanidade terrestre, para afirmar a meus irmãos a realidade e a beleza desta vida do espírito no Espaço.

Sim, eu voltarei para trabalhar neste planeta onde lutei e sofri, mas estarei com o espírito mais forte, mais generoso, mais elevado, para aí fazer reinar mais fraternidade, mais justiça, mais paz".

domingo, 10 de setembro de 2017

A deturpação do Espiritismo e a incoerência dos deturpadores


Na crise vivida pelo "espiritismo" no Brasil, percebe-se que os próprios deturpadores sempre investem na promessa de "recuperar as bases espíritas originais", como se fosse fácil ensinar errado num dia e depois corrigir o mau ensino com a revisão de suas ideias.

Mudar ideias, corrigir, rever conceitos e desculpar-se dos erros é, em si, compreensível e, dependendo do conceito, bastante louvável. Mas não é o caso do "espiritismo" brasileiro, no qual os deturpadores, no primeiro momento, fogem com muito gosto dos ensinamentos espíritas originais e, depois, querem reparar os erros que cometeram, mesmo quando suas consequências se tornam graves.

O "espiritismo" brasileiro, por suas escolhas, acabou se reduzindo a uma forma atualizada e esotérica do antigo Catolicismo jesuíta, de bases medievais, que vigorou no Brasil durante boa parte do período colonial. Quando tentou reparar o problema gerado, foi tarde demais.

Não adianta renegar Jean-Baptiste Roustaing e herdar suas ideias. Da mesma forma, não adianta admitir alguma qualidade positiva na obra de Roustaing e depois dizer que "Espiritismo é só com Allan Kardec".

Nos últimos 40 anos, o festival de incoerências associado aos "grandes nomes" do "espiritismo" brasileiro, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, corroborado por nomes de menor projeção como Richard Simonetti, José Medrado, Orson Peter Carrara e Alamar Régis Carvalho, mostra o quanto o "espiritismo" se reduziu a um engodo doutrinário.

Esse engodo mistura ideias espíritas originais com conceitos igrejistas. A "caridade", tão festejada, se resume a mero Assistencialismo, apesar do rótulo pomposo de "Assistência Social": uma "caridade" que ajuda pouco e só serve para a promoção pessoal do "benfeitor", endeusado por conta de concessão de sopinhas, roupas velhas e projetos pedagógicos não muito diferentes da antiquada Escola Sem Partido.

A desinformação generalizada das pessoas - que desconhece, por exemplo, que o termo "médium" significa "intermediário" e nada tem a ver com a imagem espetacularizada dos supostos médiuns marcados pelo culto à personalidade - permite que o "espiritismo" se sustente com tantas contradições, num momento apelando para o "respeito rigoroso aos postulados kardecianos originais", no outro se derramando no igrejismo mais exaltado.

O expositor "espírita", seja um "médium" ou um simples palestrante ou escritor, não pode ser compreendido como um funcionário de plantão que comete um desastroso erro num dia e, depois, tenta corrigir o que havia dito antes. Isso porque, pelas suas pretensões e responsabilidades, a contradição tem maior peso de gravidade, e se juntarmos as diversas exposições, orais ou textuais, de cada "pensador espírita", se verá uma coleção de ideias que se chocam umas com as outras.

PRETENSÃO DE PALAVRA FINAL

O expositor "espírita" tem sempre a pretensão de ficar com a "palavra final", embora sempre dê a impressão de que não pretende isso. É como aquelas pessoas que querem a posse da verdade mas, no discurso, insistem que não.

Neste caso, o expositor "espírita", que se considera "porta-voz de Jesus" e, a pretexto de transmitir mensagens "edificantes", comete vários equívocos, até pela abordagem igrejeira que expressa da Doutrina Espírita, tem um peso de responsabilidade maior para ter maior cuidado com as ideias, e, se decide se descuidar, está sujeito aos efeitos mais drásticos que o desqualificam como "pensador" do Espiritismo.

Não adianta expor um aparato de belas palavras, como se a arrumação de textos garantisse a suposta coerência de ideias e a aparente positividade das mensagens significasse consistência de ideias e conformidade com o bom senso. Quantas mentiras, quantas ideias truncadas, confusas e incoerentes se escondem sob a mais bela coreografia das palavras!...

O caso precedente de Chico Xavier, que sempre foi um católico ortodoxo fantasiado de "espírita", ou o caso posterior de Divaldo Frando, roustanguista dos mais igrejistas, mas que vende a falsa imagem de "kardeciano autêntico", revelam o quanto os alhos e bugalhos textuais causam problemas graves, fazendo com que, de forma vergonhosa, o Espiritismo brasileiro nunca seja devidamente respeitado.

A coisa se agrava quando os expositores "espíritas" sempre desejam ter a reputação de "filósofos". Isso requer uma grande responsabilidade que quase nunca é assumida, principalmente se soubermos que a função de filósofo não é a de ter a pretensão de "saber tudo", mas de transmitir ideias para análise e questionamento.

Daí ser vergonhoso ver volumes como a série "Divaldo Responde", um "clássico" da empulhação, um amontoado de textos verborrágicos, de suposta erudição e rebuscados, que só agradam mesmo a quem se apega a valores ultraconservadores e a paradigmas hierárquicos que só tinham sentido cem anos atrás.

A "fase dúbia" do "movimento espírita" vive a sua grave crise e quer corrigi-la com supostas soluções que se revelam ineficazes. Sempre a mesma promessa de "entender melhor Kardec", alimentada pela letra "desencarnada" da "correta" exposição da teoria espírita original.

Mas se, num momento, se sucumbe à tentação do igrejismo mais entusiasmado, então não adianta ensinar correto a teoria espírita, se na prática desobedece às mesmas lições. Além disso, os deturpadores da Doutrina Espírita não têm condições reais para recuperar as bases kardecianas que eles mesmos rasgaram com gosto. Não se pode fugir da responsabilidade dos piores erros.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Imagem "dócil" dos "médiuns" impede que eles sejam investigados em irregularidades


O "espiritismo" não passa de um grande balé de palavras bonitas que escondem um conteúdo conservador. Uma embalagem bonita e aparentemente "limpa", mas que no seu interior esconde uma série de graves e terríveis contradições.

No Brasil, há o costume das pessoas julgarem o conteúdo pela embalagem. O jogo das aparências, sobretudo numa sociedade de hierarquias rígidas e desiguais, onde o "topo da pirâmide" fica com tudo e a "base", sem sequer o necessário, é defendido de maneira ferrenha, neurótica e extremamente apegada.

O "espiritismo" brasileiro fala tanto em desapego, mas é uma das religiões que mais sofrem de apegos muito doentios. É o caso dos supostos "médiuns", que se vê claramente deturpando o legado espírita original, mas pelos quais há um esforço obsessivo em mantê-los como representantes daquilo que justamente deturpam e traem com gosto, a Doutrina Espírita.

O Brasil é um dos países mais ignorantes do mundo. Talvez o mais, se levarmos em conta que pesquisas são apenas recortes de uma parcela da sociedade. A desinformação generalizada faz com que muitas pessoas, mesmo tidas como "esclarecidas" e "progressistas", aceitem gato por lebre e cultuem um "espiritismo" que nada tem a ver com o original francês.

O apego aos "médiuns" atinge níveis que são definidos, pela Ciência Espírita original, como processos obsessivos de "fascinação" e, em certos casos, de "subjugação", criando uma ilusão de "boas energias amorosas" que, diante da mais inofensiva contestação, se convertem em explosões de ódio, raiva e até violência.

É o que se vê em relação a Francisco Cândido Xavier e outros. A adoração cega, a "fascinação" e "subjugação" que eram alertados, com muita antecedência, por Allan Kardec e seus mensageiros, infelizmente é um vício do qual dificilmente sai das mentes de muitos deslumbrados, obsediados pela mística e pela magia que se associam aos supostos "médiuns" brasileiros.

Isso é muito terrível. A imagem dos "médiuns" brasileiros, que romperam com o caráter intermediário da função e vivem do culto à personalidade, se equipara à imagem das fadas-madrinhas dos contos de fadas infantis. O próprio entretenimento das "belas estórias", que existe nas palestras e textos "espíritas" em geral, remete a uma forma grosseiramente adulta do lazer de ouvir estórias infantis durante a infância.

Isso garante a imunidade e a impunidade dos "médiuns espíritas", que se tornam "imexíveis" como os políticos do PSDB, às vezes bem mais do que os chamados tucanos. Há casos de irregularidades em obras "mediúnicas", sejam livros, cartas e pinturas, e ninguém investiga, ou, quando se investiga, lembra o simulacro de investigação que remete a atividades recentes da Polícia Federal, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal que promovem uma "justiça seletiva".

São irregularidades graves, que em país menos imperfeito dariam em acusações de falsidade ideológica e ofensa à memória de pessoas mortas. O baiano José Medrado cria um falso quadro de Cândido Portinari, intitulado "São Francisco de Assis", e o exibe como um troféu no seu programa na TV Bandeirantes, mas ele nem de longe lembra o "São Francisco de Assis" original que o pintor havia feito em 1941.

Mas os casos de Chico Xavier são notórios. O aberrante contraste estilístico que se observa em obras espirituais atribuídas aos espíritos de Humberto de Campos, Auta de Souza, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e tantos e tantos outros, mesmo não-famosos, em relação ao que eles eram em vida, é evidente. Imagine se a adorável poetisa Auta de Souza, no mundo espiritual, abriria mão de seu estilo feminino de lirismo infantil para "escrever" igualzinho ao "médium" que a recebeu?

Tudo isso daria cadeia, em países menos evoluídos. É charlatanismo puro, uma atitude que até Kardec reprovaria com energia. E não foi por falta de aviso que essa irregularidade ocorre livremente no Brasil, pois a contundente obra O Livro dos Médiuns já preveniu a humanidade da apropriação de nomes ilustres que tanto espíritos farsantes quanto supostos médiuns se utilizam para levar vantagem com o sensacionalismo e a mistificação.

Mas experimente iniciar alguma investigação. Lágrimas serão derramadas pelos seguidores dos "médiuns", que chorarão copiosamente só de imaginar vem um de seus adorados como réus num tribunal. A situação é preocupante, porque a obsessão reage com muita cegueira, mediante falácias como "perseguição ao trabalho do bem" a pessoas, que, na verdade, só ajudam muito, muito pouco.

Sejamos sinceros. Se os "médiuns" brasileiros tivessem realmente feito caridade, até pela pretensão de grandeza que se atribui a eles, o Brasil teria atingido níveis escandinavos de qualidade de vida, até porque se alega que a ajuda desses "filantropos" é "profunda e transformadora".

Mas a verdade é que isso é conversa para boi dormir e o que os "médiuns" fazem é mero Assistencialismo, uma caridade paliativa, pontual, sem enfrentamento real com os problemas da pobreza, uma medida que "não cura" a doença da miséria, apenas "alivia" sua dor. Além disso, o Assistencialismo se preocupa mais em promover o "benfeitor" às custas de uma "caridade" que só traz resultados medíocres para os mais necessitados.

Vergonhoso é ver que Chico Xavier fazia todo um espetáculo de ostentação, a níveis de espalhafato, em pomposas caravanas que só serviam para oferecer doações que se esgotavam em três semanas. Enquanto os mantimentos de um evento filantrópico se esgotavam das despensas das famílias carentes, ainda havia muita comemoração por aquele donativo praticado. Os resultados da "caridade" desaparecem, mas as comemorações continuam, em desrespeito ao sofrimento dos mais pobres.

Igualmente vergonhoso é ver que um fanático seguidor de Divaldo Franco, numa comunidade de ateísmo (?!) nas redes sociais, tenha insistido tanto em defender a risível imagem do suposto médium como "maior filantropo do país", quando dados concretos confirmam que ele não chegou a ajudar 1% da população de Salvador, quanto mais em níveis nacionais.

A teimosia do referido internauta, num meio em que a pós-verdade se dispõe de um exército de desculpas que promovem a supremacia do contrassenso sobre a coerência, tão comum nas redes sociais, revela a preocupação que se tem em definir a "bondade humana" apenas pelo rótulo da religião e pelo prestígio de ídolos religiosos. A miséria dos infortunados da sorte é só um detalhe.

É preciso haver mais questionamentos sobre o "espiritismo" brasileiro e que eles possam ultrapassar os limites da Internet, criando esforços para que até a grande imprensa seja, mesmo a contragosto, induzida a admitir os problemas que envolvem a doutrina igrejeira.

Se ao menos a chamada imprensa alternativa, sobretudo a mídia progressista, rompesse com a complacência obsessiva que envolve os "médiuns espíritas" - que, aliás, são protegidos da mídia mais reacionária, sobretudo as Organizações Globo - e resolvesse investigá-los, sem medo de fazer demolir, como castelos de areia, a imagem adocicada aos níveis das fadas-madrinhas, seria um belo esforço.

Afinal, enquanto as paixões religiosas inebriam as pessoas na Terra, acreditando que as mensagens fake atribuídas aos mortos mas vindos apenas das mentes dos "médiuns" são "autênticas" apenas porque mostram "lindas mensagens", nos planos espirituais os espíritos ficam assustados com as pernas-de-pau longas que a mentira "mediúnica" arruma para manter o status de "verdade absoluta".

A ilusão doentia dos "médiuns" imunes a tudo, até mesmo à coerência dos fatos, só foi possível porque as pessoas são desinformadas, se rendem fácil às tentações da paixão religiosa (tão inebriantes quanto as tentações do sensualismo) e são capazes de mentir a si mesmos dizendo que são "as mais esclarecidas e as mais realistas". Infelizes daqueles que estão presos nestas ilusões.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Madre Teresa de Calcutá e a alegria com a tragédia alheia

BRUXA DO MAR (VILÃ DE TURMA DO POPEYE) E MADRE TERESA DE CALCUTÁ - Separadas ao nascer?

Um dos pontos bastante sombrios de Madre Teresa de Calcutá, oficialmente promovida a "santa" e tida como "símbolo de caridade máxima" - e, entre os "espíritas" brasileiros, um modelo para a "caridade" de Francisco Cândido Xavier - é sua estranha alegria ao saber que milhares de seus assistidos haviam morrido devido aos descuidos diversos de higiene e falta de assistência.

Segundo Madre Teresa, ao saber que 29 mil dos enfermos e miseráveis que ela acolheu na instituição Missionárias da Caridade, haviam morrido, ela não escondeu seu entusiasmo e disse que são "mais anjos" que agora "estão mais perto de Deus".

O lado sombrio de Madre Teresa foi revelado pelo físico indiano Aroup Chatterjee, que viveu em Calcutá e lá trabalhou como médico, e escreveu o livro Mother Teresa: The Untold Story, que chegou a ser intitulado Mother Teresa: The Final Verdict, e que inspirou o documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel), do jornalista inglês Christopher Hutchens.

Segundo Chatterjee, Madre Teresa, ao saber dos 29 mil mortos entre seus alojados, afirmou que havia batizado em nome de São Padro para "deixá-los entrar no céu" e disse que "é muito bonito ver as pessoas morrerem com tanta alegria". Sobre o sofrimento humano, Madre Teresa teria dito que "o mundo ganha muito" com isso.

Outro médico, o cubano Hemley González, havia trabalhado na instituição de Madre Teresa, movido pela reputação oficialmente positiva das Missionárias da Caridade. Mas logo que foi trabalhar lá, viu o que considerou uma "violação sistemática dos direitos humanos" e um "escândalo financeiro". Ele ficou chocado com o que viu nas instalações.

Segundo ele, confirmando o que já havia sido denunciado por Chatterjee e Hitchens, as seringas eram poucas e reutilizadas (algo que nivela a "caridade" de Madre Teresa ao que muitos drogados fazem em suas vidas sociais), sendo lavadas apenas com água de torneira (que não é lá aquela limpeza que se supõe, sobretudo num país como a Índia), e os pacientes só eram remediados com paracetamol e aspirina ou, quando muito, por remédios que chegavam com prazo de validade vencido.

MADRE TERESA, "ESPIRITISMO" E CHICO XAVIER

O que faz uma retrógrada figura católica, ícone da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo, ser adotada pelos "espíritas" - que, na sua natural hipocrisia, também recorrem, mais tarde, à bajulações oportunistas a figuras progressistas como Dom Paulo Evaristo Arns e sua irmã Zilda Arns - , é algo que dá para entender, se considerarmos que o "espiritismo" brasileiro se reduziu, hoje, a uma religião ultraconservadora.

O "espiritismo", sabemos, tornou-se tão conservador que só perde em referências retrógradas às seitas neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus. Enquanto esta busca um foco maior no Velho Testamento, o "espiritismo" focaliza o Novo Testamento, mas enquanto o primeiro busca uma leitura protestante dos velhos tempos bíblicos, o segundo relê a trajetória de Jesus de Nazaré sob o ponto de vista dos fundadores da Igreja Católica, como o imperador romano Constantino.

A inclinação do "espiritismo" brasileiro ao Catolicismo medieval se deu, inicialmente, pela simpatia dada pela obra Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing. Depois, a "catolicização" do "espiritismo" brasileiro se deu por questão de sobrevivência, para se aproximar da Igreja Católica que o protegeria da repressão policial que combatia os "centros espíritas" no país. Mas a medievalização se deu, para valer mesmo, com a adoção do católico ortodoxo Chico Xavier.

O próprio "médium" era, além de devoto de Nossa Senhora da Abadia, admirador do padre Manuel da Nóbrega, tanto que, como paranormal, o beato de Pedro Leopoldo afirmava ter mantido contatos amigáveis com o espírito do padre jesuíta, que, com base numa antiga assinatura, "E. Manoel" (Ermano Manoel, "irmão Manuel" em português arcaico), passou a ser conhecido como Emmanuel.

Chico Xavier, espécie de Aécio Neves da religião, pela blindagem ferrenha que recebe mesmo diante de revelações muitíssimo sombrias - entre elas, a de que sua alegada mediunidade teria sido um blefe - , contribuiu muito para o "espiritismo" brasileiro se afastar definitivamente de Allan Kardec (apesar das insistentes bajulações de seu nome) e recuperar as bases doutrinárias, isso sim, do Catolicismo jesuíta que dominou o Brasil no período colonial.

O próprio Chico Xavier revelou, mesmo sem assumir a Teologia do Sofrimento, ser adepto dessa corrente católica. Isso é comprovado com ideias que veiculava sobre a resignação ao sofrimento, ao mito da "abnegação": sofrer "sem demonstrar sofrimento", olhar a natureza nos momentos de agonia, não reclamar da vida e não contestar coisa alguma eram seus apelos, ditos pelas próprias palavras e, por vezes, atribuídas tendenciosamente aos "espíritos" que dizia psicografar.

A própria adoração a Chico Xavier amaldiçoa seus próprios seguidores. Em boa parte de seus seguidores, ocorrem tragédias envolvendo filhos e outros jovens, o que traz indícios de que o "médium" via com exotismo as mortes prematuras. Vários famosos que se tornaram devotos ou simpatizantes do "médium" viam algum filho morrer de forma prematura.

Infelizmente, num país completamente desinformado como o Brasil, Chico Xavier é muito mais blindado do que Madre Teresa, apesar do mito desta ser bem mais organizado do que aquele. Chico só passou a ter um mito "trabalhado de forma mais limpa" nos anos 1970, e ainda assim sob a assistência da Rede Globo de Televisão e inspirado no próprio exemplo do mito da madre trabalhado pelo jornalista britânico Malcolm Muggeridge.

Nos últimos anos, o "espiritismo" brasileiro comprova cada vez mais seu caráter ultraconservador. A condenação ao aborto, até mesmo em casos de estupro, e a culpabilização das vítimas, além de outros juízos de valor bastante severos, sangram a doutrina brasileira que tanto se alardeia em ser "esclarecedora", mas investe no mais sombrio obscurantismo.

E isso diz muito quando os "espíritas" acolhem com muito entusiasmo uma figura como Madre Teresa de Calcutá. A cada dia o "espiritismo" brasileiro desfaz a imagem tão confortável, porém irreal, de "doutrina progressista", revelando seu conteúdo medieval. A princípio isso está na Internet mas os fatos farão isso ser divulgado em breve na grande imprensa, apesar de toda blindagem que esta mantém à doutrina igrejeira.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Madre Teresa e o Assistencialismo


Há vinte anos, Madre Teresa de Calcutá faleceu, aos 87 anos de idade. Nascida no mesmo ano que Francisco Cândido Xavier, Madre Teresa é um nome do Catolicismo adotado pelos "espíritas", o que diz muito sobre o caráter conservador do "espiritismo" brasileiro, que acolhe esta que é um dos ícones da Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo.

O próprio mito de Madre Teresa de Calcutá, construído pelo discurso engenhoso e emocionalmente apelativo do jornalista católico inglês Malcolm Muggeridge, inspirou no Brasil a reinvenção do mito de Chico Xavier, sem os apelos pitorescos do antigo tutor do "médium", o presidente da FEB Antônio Wantuil de Freitas, mas com a narrativa de novela tomada emprestada da Rede Globo, que fez o papel de "Muggeridge" da ocasião.

A ideia é sempre criar um paradigma de "caridade" e "bondade" que cause mais deslumbramento do que resultados concretos. No que se refere aos efeitos da sociedade, essa "caridade" traz resultados bastante medíocres, expondo mais o nome do "benfeitor" que se torna objeto de idolatria, extrema e cega, até mesmo quando os donativos que haviam sido distribuídos à população carente tenham se esgotado há um tempo.

A sociedade brasileira é extremamente conservadora e mesmo pessoas que se julgam "progressistas" e "modernas" não conseguem mais esconder seu conservadorismo extremo e, por vezes, reacionário, que contraditoriamente só aceita transformações sociais moderadas, que não mexem nos privilégios das elites dominantes.

Daí que é uma sociedade que vê a "caridade" apenas como um derivado da religião. O raciocínio da sociedade é meramente institucionalista, quase mercantil. Afinal, a "bondade" reduz-se a um "produto", no qual as pessoas prestam mais atenção ao "benfeitor" que é alvo de adoração extrema, quase que como um velocino de ouro.

Os necessitados são só um detalhe. Fala-se vagamente que "muitas pessoas" foram beneficiadas, sem dar informações concretas, se contentando com meras propagandas institucionais, em que os "benfeitores" são cercados de crianças e velhinhos e faz sua "humilde" ostentação que lhe garante os prêmios e os aplausos de autoridades e aristocratas.

Há denúncias sobre aspectos sombrios de Madre Teresa de Calcutá, bastante conhecidos. Mas suponhamos que a "caridade" que ela fez foi "verdadeira". Nem considerando assim permite defini-la realmente como caridade plena, pois se trata apenas de Assistencialismo, "caridade paliativa", uma ideia que as pessoas tomadas de paixões religiosas, como os "espíritas", que remetem aos "médiuns" o culto à personalidade, não conseguem perceber.

O que o "espiritismo" sempre fez foi Assistencialismo. Ele é muito diferente de Assistência Social, embora os "espíritas" aleguem essa segunda denominação. Mas a verdade é que a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social é que, enquanto o primeiro apenas "alivia as dores", a segunda "cura a doença" da pobreza.

Os "espíritas" criam toda uma retórica sobre "assistência social", "caridade transformadora", "revolução social" etc. Mas, na prática, só fazem Assistencialismo. Afinal, se a caridade fosse realmente transformadora, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de vida, se levarmos a sério a pretensão de grandeza que sempre se atribuiu ao "espiritismo" brasileiro.

Infelizmente, o Brasil sucumbiu ao contrário, e vemos o desmonte voraz dos direitos sociais, comandado pelo presidente Michel Temer, e o "espiritismo" brasileiro dá o maior apoio, vendo neste desmonte "uma excelente oportunidade de exercitar o desapego, o acordo entre irmãos, a resignação e a fé diante do sofrimento".

Os "espíritas" que idolatram Chico Xavier, Divaldo Franco, João de Deus, Madre Teresa e outros "filantropos", movidos pelas paixões religiosas, chegam a cometer a incoerência de dizer que "não é missão da caridade promover o progresso sócio-econômico do país", caindo em muita contradição, porque caridade tem a ver com qualidade de vida, sim.

Enquanto a "bondade" servir apenas para a idolatria religiosa de "benfeitores" que comemoram demais pelo pouco que fazem, as virtudes humanas se reduzem a esse estereótipo do rótulo religioso, da visão institucionalista, burocrática e até mercadológica, que comprova a crença de muitos de que a sociedade é sórdida e a bondade só existiria sob o rótulo de um movimento religioso.

Os brasileiros têm essa visão de "bondade" porque veem novela demais, e seu paradigma é o Criança Esperança da Rede Globo. Submetidas a uma narrativa ao mesmo tempo fabulosa e maniqueísta, feita aos moldes de um "conto de fadas" para adultos, as pessoas entendem a "bondade" sem a compreensão realista verdadeira. Mesmo a miséria lhes é apresentada em tons de dramalhão, o que impede a compreensão objetiva do problema.

Uma grande prova do quanto essas pessoas só aceitam uma "caridade" mais restritiva, que promova a imagem pessoal do "benfeitor", é que elas são as mesmas que se irritam quando políticos e ativistas progressistas, como o ex-presidente Lula e o professor Paulo Freire, realizam projetos de inclusão social mais ampla.

As pessoas que costumam glorificar ídolos como Chico Xavier, Divaldo Franco etc. acabam se irritando com os projetos progressistas, que acusam seus idealizadores de "corruptos", "escolas de guerrilheiros", "doutrinação ideológica" etc. Preferem projetos como a pedagogia igrejeira da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, que aliás se insere nos padrões que estão de acordo com a proposta ultraconservadora da Escola Sem Partido.

Para a sociedade conservadora, é melhor defender uma "caridade" espetacularizada que, embora ajude muito menos pessoas e traga resultados medíocres, é envolvida pela fabulosa mística religiosa, rende uma narrativa digna de contos de fadas e, o que lhe é mais importante, não ameaça os privilégios das elites. A definição desta "caridade" como "transformadora" é apenas conversa para boi dormir. E para as elites dormirem sossegadas, também.

sábado, 2 de setembro de 2017

No Brasil das 'fake news', querem reabilitar o falso Humberto de Campos


O Brasil é hoje marcado pelas páginas de fake news, portais reacionários da imprensa de segundo escalão que, na prática, soam como "satélites" da grande imprensa, que também cada vez mais está desinformando e manipulando as pessoas.

Páginas como "Imprensa Livre", "Jornalivre", "Diário do Brasil", ""Folha da Pátria" e o que vier com nomes igualmente pomposos, difundem notícias de valor verídico bastante duvidoso, em muitos casos transmitindo juízos de valor sem provas, visando sobretudo proteger os interesses das classes dominantes, que sustentam essas páginas mentirosas financiando espaços na Internet.

No "espiritismo", a habitual falta de concentração típica dos brasileiros impede a real comunicação com os mortos. Se ela faz os brasileiros não terem paciência sequer para ouvir música ou ler um livro, quanto mais para se comunicar com o povo do além-túmulo?

Daí que os ditos "médiuns", aberrações que são idolatradas e recebem culto à personalidade, recorrem a obras fake, caprichando nas mensagens religiosas para desencorajar qualquer denúncia. Ninguém iria apontar fraude em "mensagens de amor".

O "espiritismo", no seu desespero paranoico de tentar reabilitar o mito de Francisco Cândido Xavier, agora tenta partir para todos os lados. Algumas concessões têm que ser feitas, como o periódico "Correio Espírita" admitir que Chico Xavier não foi reencarnação de Allan Kardec, mas esta concessão foi feita mais para destacar o anti-médium mineiro e reforçar a "peculiaridade" do "espiritismo" que é feito no Brasil.

A reabilitação de Chico Xavier - algo comparável ao que se fez com Aécio Neves na política - envolve até mesmo a duvidosa e farsante obra que usa o nome de Humberto de Campos. O volume da série "Grandes Temas do Espiritismo", da revista Espiritismo & Ciência (sic), insiste em tentar dar alguma validade à farsa que usurpou o falecido autor maranhense.

A capa da edição destaca o pseudônimo que Chico Xavier e o presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, deu para o pseudo-Humberto, "Irmão X", uma paródia do Conselheiro XX, apesar da pronúncia ser "irmão xis" diante do "conselheiro vinte". Conselheiro XX foi um pseudônimo usado por Humberto para escrever crônicas satíricas sobre personalidades históricas ou de seu tempo.

A revista, que, como muitas outras, ensina e informa mal a Doutrina Espírita, define como "fundamental" a obra do suposto Humberto de Campos para a divulgação do Espiritismo, algo que vemos ter sido bastante duvidoso e de muito mau gosto, por ter sido uma usurpação de um nome ilustre para vender livros, promover sensacionalismo em torno do "médium" e assim seduzir e enganar a opinião pública, aliciada por apelos igrejeiros das "mensagens fraternais".

O QUE REALMENTE ACONTECEU

A farsa do "espírito Humberto de Campos", que causava, com muita razão, indignação nos meios intelectuais, foi o maior escândalo causado por Chico Xavier, uma das confusões deploráveis que o anti-médium causou mas das quais se serviu do vitimismo para sair ileso de qualquer enrascada. O caso jogou Chico e Wantuil para os tribunais, e os dois, espertos, chegaram mesmo a veicular uma carta fake atribuída a Humberto na qual há apelos muito estranhos. Entre eles:

"(...)Exigem meus filhos a minha patente literária e, para isso, recorrem à petição judicial. Não precisavam, todavia, movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas, sem maior significação? Ninguém conhece, na Terra, os nomes dos elevados cooperadores de Deus, que sustentam as leis universais; entretanto são elas executadas sem esquecimento de um til".

Essa declaração Humberto nunca daria, porque se trata de uma ideia um tanto estranha. Um autor defendendo a omissão de sua identidade, como se autorizasse a usurpação de seu nome ao bel prazer, sob a desculpa da "elevada cooperação para Deus". A frase é muito estranha e traz um forte indício do estilo pessoal de Chico Xavier.

Algumas verdades devem ser expostas, esclarecendo os incautos que, com a memória curta e com a percepção equivocada da "bondade" trazida pelas novelas da Rede Globo e pelo Criança Esperança - lembremos que Chico é um protegido da Globo - , veem as coisas como se fossem um conto de fadas, e por isso se recusam a perceber o que está por trás do caso Humberto de Campos. Vejamos:

1) Chico Xavier teria feito uma revanche, por não ter gostado da resenha que Humberto, em vida, fez do livro Parnaso de Além-Túmulo. Embora, aparentemente, Humberto tenha visto semelhanças de estilo nos poemas "psicografados" em relação aos autores originais, o que não indica que Humberto teria legitimado o livro, ele reprovou a "psicografia" sob a alegação de que "autores mortos não podiam concorrer com autores vivos". Ao morrer, pouco depois, Humberto teve o nome usurpado por Chico Xavier, que teria inventado um sonho para justificar a "parceria".

2) Os parentes de Humberto de Campos moveram, contra Chico Xavier e a FEB, um processo judicial que foi um tanto ingènuo na petição: pedia à Justiça analisar as "psicografias" para ver se eram autênticas ou não. Se caso positivo, os herdeiros participariam dos lucros dos livros, mediante direitos autorais. Se caso negativo, Chico e a FEB teriam que indenizar os familiares. Faltou firmeza para apontar que a "psicografia" era uma demonstração de falsidade ideológica, facilmente identificável numa leitura analítica.

3) A "seletividade" da Justiça, famosa por inocentar criminosos ricos - "condenados" à liberdade condicional - e, recentemente, por poupar políticos do PSDB e até do PMDB, em 1944 inocentou Chico Xavier pela desculpa de achar o processo "improcedente", ou seja, a Justiça ignorou a verdadeira natureza da questão, pegando mais no problema secundário de direitos autorais, quando se vê que o caso era claramente de falsidade ideológica, pois o "espírito Humberto de Campos" comprovadamente era diferente, em estilo, do que o autor maranhense demonstrou em vida.

4) O escritor Agrippino Grieco, apontado pelos "espíritas" como "comprovador" da "autenticidade" do "espírito Humberto de Campos", por ver, em princípio, algumas semelhanças entre a obra deixada em vida e a "psicografia", mudou seu ponto de vista e se desiludiu ao saber das revelações dadas aos que questionaram a "obra mediúnica". Com isso, Grieco se envergonhou de ter acreditado na "autenticidade", ao ver que havia irregularidades no estilo do Humberto original e do "espírito".

5) Visando abafar futuros processos judiciais, o esperto Chico Xavier tentou fazer agrados aos familiares de Humberto. O filho homônimo, que virou produtor de TV, foi seduzido pela "doce emboscada" de assistir a um culto liderado por Chico Xavier, em 1957. Esperto, Chico pediu à casa espírita (o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba), para organizar atividades de Assistencialismo (caridade meramente paliativa), enquanto ele se valia de um recurso considerado falacioso, chamado "bombardeio de amor" (um tipo perigoso de apelo emocional). Assim, Chico "encheu de afeições" o produtor Humberto de Campos Filho, que foi levado a chorar copiosamente, e depois o produtor era levado pelo "médium" a acompanhar uma caravana ostensiva demais para uma finalidade meramente paliativa: a doação de mantimentos e roupas. Portanto, uma "caridade" que serve mais para propaganda do "benfeitor" do que para realizar uma profunda transformação social.

ESTILOS DIFERENTES

Para quem acha que o "espírito Humberto de Campos" tem "semelhanças" com o Humberto de Campos original, impressão que se dá numa leitura meramente superficial e apressada, identificamos as diferenças de estilos entre o autor original e o "espírito", que devem ser levadas em conta.

1) O estilo de narrativa do Humberto de Campos original era ágil, quase cinematográfica e gostosa de se ler. O do "espírito Humberto" era mais pachorrenta, prolixa, cansativa e inspirava uma leitura "pesada" e entediante, que só agrada a quem for beato religioso.

2) O texto de Humberto de Campos original era culto e correto, porém bastante acessível e coloquial. O do "espírito" era prolixo, rebuscado, pretensamente erudito, porém com sérios vícios de linguagem, como escrever "que cada" (trocadilho com "quicada").

3) A escrita de Humberto de Campos original era descontraída, com uma linguagem parnasiana quase modernista. A do "espírito" tem um forte acento igrejista, era melancólica e deprimente, soando mais como um velho folhetim medieval.

4) Os temas de Humberto de Campos original eram diversos, relacionados à realidade política e cultural, e quase sempre laicos. Mesmo um conto sobre Jesus, no livro O Monstro e Outros Contos, falava mais sobre infância e não de religião. Já o "espírito" era monotemático, escrevendo episódios bíblicos ou usando situações cotidianas para veicular mensagens religiosas, não raro correspondendo ao pensamento pessoal de Chico Xavier.

CONCLUSÃO

As observações acima foram constatadas mediante leitura minuciosa e cuidadosa das duas biblografias, a original de Humberto de Campos e a suposta obra espiritual. As semelhanças de estilo entre os dois repertórios não é muita, e quando há, revela um grande pastiche literário.

A verdade é que a atribuição da "obra espiritual" a Humberto de Campos se conclui falsa, porque as diferenças estilísticas são extremas. Daí que a revista "Espiritismo & Ciência", no volume "Grandes Temas do Espiritismo" dedicados ao suposto Irmão X, cometeu uma grande perda de tempo e se junta à onda das "informações fake" que, em certos casos, cria exércitos de jovens fascistas. Os adeptos de Jair Bolsonaro, tido pelas fake news como "o homem mais honesto do Brasil", que o digam.
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