domingo, 20 de dezembro de 2015

Suposto milagre faz Vaticano marcar canonização de Madre Teresa de Calcutá

CHRISTOPHER HITCHENS INVESTIGOU E ENCONTROU IRREGULARIDADES NA TRAJETÓRIA DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Depois de tantos anos barrado por polêmicas referentes a um milagre que não existiu, um outro suposto milagre atribuído a Madre Teresa de Calcutá fez o Vaticano decidir por sua canonização, que já tem data marcada, em setembro de 2016.

O processo foi encaminhado pelo Padre Caetano Rizzi, de Santos, com base num suposto caso ocorrido em 2008 com um homem morador de Santos, cidade do litoral paulista. Ele estava passando uma lua-de-mel com a mulher em Gramado, no Rio Grande do Sul, quando se sentiu mal, foi levado ao médico e diagnosticado com hidrocefalia, excesso de líquido no cérebro.

Transferido às pressas para um hospital em Santos, o paciente estava inconsciente. Foram diagnosticadas oito infecções no cérebro. Uma cirurgia de drenagem chegou a ser marcada para o dia seguinte, mas assim que esse dia veio o homem já se sentia curado e tomou o café sozinho.

A esposa do homem foi para a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, em São Vicente, falou com um padre e disse que o marido estava em estado terminal. O padre lhe deu uma medalha da Madre Teresa de Calcutá e ela decidiu colocá-la no travesseiro onde o marido estava internado. Ela voltou para casa e orou para a freira albanesa.

Membros da Ordem dos Médicos, meses depois, teriam realizado um exame e constataram que a suposta cura era "cientificamente inexplicável" e, por unanimidade, reconheceram que era um "milagre" de Madre Teresa. Outras 14 testemunhas foram entrevistadas, além do padre Rizzi. Um documento de 400 páginas foi enviado para o Vaticano.

A estória foi relembrada numa época em que foi lançado, nos EUA, o filme The Letters, que mostra a vida de Madre Teresa com ênfase nas cartas que ela escreveu no decorrer de 40 anos. O episódio também tenta compensar um "fracasso" de um suposto milagre que depois foi comprovadamente contestado.

Foi em 2002, quando houve o caso da indiana Monica Besra, que havia sido diagnosticada com um câncer. Ela sentia dores abdominais intensas e os médicos identificaram tuberculose e tumor no quisto dos ovários. Foi colocada uma medalha da Madre Teresa sobre seu abdome e ela foi curada, mas não por conta do milagre, mas porque seu tumor era pequeno e pôde ser curado com o uso regular de medicamentos.

Até que ponto o caso do homem de Santos, cuja identidade não foi revelada, teria realmente sofrido a hidrocefalia? Ele não teria tomado um medicamento que teria causado a cura? Ou houve algum mal entendido quanto aos resultados do exame ou às sensações do paciente?

HISTÓRICO SOMBRIO

A madre albanesa que está prestes a virar santa é a mesma que alojou pobres e enfermos de qualquer maneira, lhes dava apenas aspirina ou paracetamol para aliviar as dores e permitia o uso de poucas seringas que, usadas, só eram "lavadas" com água de torneira e reutilizadas depois, algo que normalmente se vê em usuários de drogas que compartilham seringas infectadas.

O jornalista Christopher Hitchens (1949-2011) investigou as "casas dos moribundos" de Madre Teresa de Calcutá e observou irregularidades diversas, como as descritas acima. O que ele constatou foi publicado tanto no livro A Intocável Madre Teresa de Calcutá (The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice), de 1995, e no documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel), de 1997.

"Madre Teresa não é amiga dos pobres. Ela é amiga da pobreza. Ela disse que o sofrimento era um presente de Deus. Ela passou sua vida se opondo à única cura conhecida para a pobreza, que é o poder das mulheres e sua emancipação de uma forma animal de reprodução compulsória", afirma Hitchens.

Embora o livro de 1995 tenha revoltado a Igreja Católica, pesquisas posteriores comprovaram dados sombrios de Madre Teresa: sua cumplicidade com tiranos políticos e magnatas corruptos, a falta de cuidado no alojamento dos pobres e doentes, e suas opiniões conservadoras a respeito de aborto e família, não bastasse a Teologia do Sofrimento que diz que "sofrer é lindo".

Um grupo de acadêmicos do Canadá comprovou esses dados, diferente do que fazem os acadêmicos das universidades brasileiras, sempre buscando respaldar ícones religiosos. Sem temer idolatrias religiosas, as pesquisas acadêmicas buscam nos fatos e na lógica o sentido de veracidade, enquanto no Brasil o preocupante apego à fé impõe limites ao raciocínio investigativo de muitos.

Aliás, por que foi no Brasil que o suposto milagre aconteceu? Por que aqui o raciocínio é quase sempre visto como um mal, ou como uma "virtude" a ser domada pelas rédeas da fé e da mistificação religiosa?

Isso se mostra tão preocupante que vemos um caso aberrante de Francisco Cândido Xavier, que de plagiador e imitador de estilos literários passou a ser visto como "super-médium" e um "santo" informalmente declarado, sem a chancela do Vaticano, mas sob a histeria de seguidores fanáticos tão exaltados e deslumbrados quanto os católicos.

Pessoalmente, nada temos contra Madre Teresa de Calcutá. Mas, diante de fatos que comprovam suas irregularidades, temos que admiti-las com imparcialidade e sem complacência, sem a "peninha" com que se sente diante de totens religiosos que parecem intimidar as pessoas com seu aparato de pretensos amor, bondade, caridade e humildade.

Se Madre Teresa alojou os pobres e doentes sem qualquer cuidado e não lhes dava o devido socorro, se ela pregava que o sofrimento era uma "bênção", se ela chegou a elogiar a "vocação pacifista" de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, enquanto este mandava assassinar ativistas sociais de qualquer tipo - até padres e freiras progressistas - , na América Central, não podemos consentir com a imagem de "santa viva" que teve Madre Teresa de Calcutá.

É como fazemos com Chico Xavier, que cometeu plágios e pastiches literários que temos que admitir devido a comparações sérias que apresentam aberrantes disparates entre o que os alegados autores fizeram em vida e as obras tidas como "espirituais". Um Humberto de Campos falando como padre é inadmissível! E não podemos nos omitir por causa da imagem de "bonzinho" de Chico Xavier.

Chico e Teresa, além disso, eram adeptos fervorosos da Teologia do Sofrimento. Eles sempre defenderam que os sofredores não deveriam reclamar, que deveriam aceitar os infortúnios de bom grado, em nome de uma recompensa futura, geralmente póstuma, da qual não se sabe como é e nem se sabe se realmente haverá.

Isso é muito grave. E ver que a Madre Teresa de Calcutá, mesmo permitindo que se usem seringas infectadas para o tratamento dos enfermos, será canonizada. Até que ponto os padres da Terra, os sacerdotes, com seus critérios materiais, podem decidir se fulano é "superior" ou não, isso é absolutamente duvidoso.

Mas isso não difere muito do "espiritismo" brasileiro que permite que se façam cirurgias espirituais com tesouras enferrujadas e sujas, mediante consentimento de muitos que comemoram milagres e curas "espirituais" como se fosse a vitória da Fé sobre a Ciência.

Daí que, diante dessas curas "milagrosas", o que existe é, na verdade, um grande conflito. É a Fé querendo ser mais curadora de doenças do que a Ciência, impedindo que se realizem estudos sérios para descobrir a cura de doenças graves.

Desta forma, a religião faz um grande prejuízo aos cientistas, que com todo seu trabalho de estudos e pesquisas, não conseguem ter dinheiro suficiente para levarem adiante pesquisas que levassem a descobertas de curas e tratamentos. Enquanto isso, se é a fé religiosa que "realiza curas", a sociedade dá maior apoio e, se possível, lhe investirá com o dinheiro que falta tanto aos nossos cientistas.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Teorizar a paz e a fraternidade é inútil


Um dos grandes males das religiões é teorizar demais os ideais de paz, fraternidade, amor e caridade. O malabarismo discursivo dos "espíritas" é um exemplo típico, em que toda a retórica de "amor e bondade" tenta compensar a desonestidade doutrinária em relação ao pensamento de Allan Kardec.

Todo dia 19 de dezembro é dia da realização, em Salvador, do itinerante showmício "Você e a Paz", espécie de "missa ecumênica" liderada pelo anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, é um exemplo dessa fantasia de que uma simples palestra "em favor da paz" fosse suficiente para promover a paz mundial. E não é. Muito pelo contrário.

Tratar ideias como amor, caridade e solidariedade como se fossem temas abstratos e apelar, por si só, que nos demos as mãos e nos tratemos como se fôssemos irmãos, é uma das tarefas mais inúteis e sem efeito concreto que se observam na vida.

A sociedade é complexa, cheia de conflitos de interesses diversos, em que os benefícios são distribuídos com desigualdade entre as pessoas. Muitos têm e conquistam o que não precisam e têm mais do que merecem ou necessitam, e outros não chegam a ter sequer o mais basicamente necessário. e isso é a raiz de muitas brigas e violências.

A religião não entende e nem poderá compreender isso. Sua única especialidade é a mitologia. A religião é uma reunião de mitos, rituais, dogmas que refletem mais uma fantasia mística e sentimental do que qualquer atitude ou postura em relação à realidade concreta.

O "espiritismo" brasileiro, marcado por uma inclinação para uma forma de catolicismo mais flexível do que a da Igreja Catolica propriamente dita, também não consegue compreender a realidade complexa, mesmo quando se apoia na pretensão de ser "mais realista" e "apreciar" assuntos de ordem científica e intelectual.

Á primeira vista, "Você e a Paz" parece um evento "bem intencionado" que até os críticos da deturpação da Doutrina Espírita aceitam de bom grado. No entanto, é uma missa igual as outras, até a voz de padre que Divaldo Franco tem é bem parecida. Temos milhões de missas pedindo paz e nem é por isso que ocorre mais paz no planeta.

A França também é religiosa, tem um monte de missa, e nem por isso ela esteve livre de dois atos terroristas este ano, o primeiro em janeiro, com mais de dez mortos, entre eles dez jornalistas, entre articulistas e humoristas, do periódico Charlie Hebdo, e outro, com mais de cem mortos, vários deles em uma boate tradicional e um restaurante de Paris.

É terrível que o "espiritismo", até para tentar livrar da má reputação da infidelidade doutrinária, teorize demais sobre assuntos ligados ao amor e à solidariedade, dentro de seu malabarismo discursivo cheio de desvios de argumentos.

Também é inútil que palestrantes "admitam" que bondade não tem religião, que ela não se deve limitar à teoria, tem que ser praticada etc, porque mesmo assim até essa aparente constatação também é carregada de teoria, pois todo malabarismo discursivo, mesmo que tente defender a prática acima da teoria, mesmo assim não passa de uma teoria.

Além do mais, que exemplo traz Divaldo Franco? Tido como o "maior filantropo do mundo", ele no entanto só ajudou 0,08 % da população de Salvador, com sua Mansão do Caminho, ao longo de seus 63 anos de existência. Em dimensões municipais, é um dado medíocre, que piora se comparado a dimensões estaduais, nacionais e mundiais, o que praticamente significa nada.

Além do mais, a personificação de pseudo-sábio de Divaldo Franco, com seu discurso rebuscado e seus delírios místicos - ele é tido como "fiel discípulo da doutrina de Kardec" acreditando em bobagens como crianças-índigo e planetas-chupões que o pedagogo francês reprovaria sem hesitar - só faz sentido porque encaixa em estereótipos religiosos e professorais muito consagrados no Brasil.

É curioso que, em Salvador, um evento como "Você e a Paz" esteja em declínio, numa cidade em que um evento de atrações "satanistas" como o Palco do Rock esteja em grande crescimento. Afinal, tudo revela que a realidade é complexa, e não é a aparência e o discurso oficial que dão o sentido da verdade, não é a "embalagem" e o "fazer dizer" que contam com o melhor sentido verídico.

No Palco do Rock, a teatralidade do heavy metal e do hardcore de parte de suas atrações pode sugerir um falso "demonismo", mas a verdade é que lá existe mais solidariedade e fraternidade do que qualquer palestra religiosa que apele demais para tais causas.

Praticar a solidariedade, aliás, não depende de tais discursos, que em muitos casos soam bastante piegas e que, em vez de confortar e animar, irritam as pessoas. Sim, falar demais em paz, amor e fraternidade pode irritar as pessoas, porque na sociedade complexa em que vivemos não dá para promover tais qualidades assim do nada.

É percebendo as necessidades das pessoas, as vocações dos indivíduos, seus limites para não interferir no sossego dos outros, é que promovem a paz e a solidariedade. Numa época em que uns querem demais aquilo que não precisam e outros não conseguem ter o essencialmente necessário, os conflitos continuarão, mesmo com todos os apelos discursivos pela paz.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Onde tem confusão, a coerência não encontra morada


Sinceramente, perguntamos: há algum valor ou utilidade no "espiritismo" brasileiro? Falamos não da doutrina de Allan Kardec, mas da doutrina brasileira que combina valores do Catolicismo português com misticismo herege de natureza ocultista, com suas aberrantes contradições.

Pois a doutrina que pratica muito mal as lições do pedagogo francês agora virou a "doutrina da solidariedade". Deveria deixar de ser Espiritismo e passar a se chamar outra coisa, Igreja da Solidariedade Cristã, Fraternidade Astral ou tudo o mais. Espiritismo não é mesmo.

A preocupante porção de contradições que se observa em 131 anos de suposta Doutrina Espírita no Brasil revela o preço caro da péssima escolha de seus líderes, incapazes de explicar ou esclarecer as hesitações e deslizes doutrinários que cometem diariamente, em publicações ou em atividades diversas, principalmente nos "centros espíritas".

Só o caso de Francisco Cândido Xavier revela um histórico de confusões, escândalos, controvérsias e sensacionalismos que, definitivamente, põem em xeque-mate todo o mérito que o anti-médium mineiro teria como propagador da Doutrina Espírita e mesmo como filantropo e ativista social.

O que explica todo o endeusamento em torno de Chico Xavier são os preconceitos da crendice religiosa, a temerosidade em questionar totens e dogmas, o fanatismo em torno de um ídolo religioso, suposta personificação de aparente conduta moral e filantrópica.

Só que poucos têm coragem de admitir que a trajetória de Chico Xavier foi, na melhor das hipóteses, bastante irregular e confusa, cheia de contradições e causadora de sérios problemas, e que sua suposta psicografia é dotada de gravíssimas irregularidades.

São pastiches literários, supostas cartas mediúnicas produzidas pela "leitura fria" - recurso de colher informações sutis através de um interrogatório "intimista" ou de conversas formais - , entre tantas outras coisas como a usurpação de nomes diversos, como Humberto de Campos ou qualquer cidadão comum falecido, ou as opiniões em favor da ditadura militar.

Só que evocar tudo isso é considerado "ofensivo" a Chico Xavier, considerar que ele designava seus assistentes a fazer "leitura fria" nos parentes de falecidos para forjar falsa mediunidade em "cartas marcadas". Não podemos sequer mostrar provas a respeito. Tudo tem que ser favorável a Chico Xavier, que antes fosse tudo na contramão da lógica e do bom senso!

TESE ABSURDA

Uma das teses absurdas que acreditam os defensores de Chico Xavier é que toda a confusão que veio de suas atividades seria "culpa" da revolta dos incrédulos e perseguidores da "boa figura" do "humilde médium".

Como um falso cristo armado pelo "movimento espírita", o Chico Xavier que é responsável por uma das piores e mais deploráveis deturpações da doutrina de Allan Kardec - em quatro centenas de livros o nome do mineiro é associado às piores e aberrantes contrariedades ao pensamento do professor francês - , é tido como "vítima" da "fúria" dos que duvidam de suas atividades.

É uma tese absurda, ridícula. Se Chico Xavier causou confusão, é pelas irregularidades que suas atividades representam, sob diversos aspectos. Fraudes, astúcia, conservadorismo ideológico, oportunismo. Isso não é ser ofensivo, difamador, desrespeitoso ou caluniador.

Paciência. Observamos as coisas à luz da lógica. Isso não é uma questão de materialismo, mas questão de nós, seres racionais, não nos rendermos a visões absurdas. Se tivéssemos que dar autenticidade a Chico Xavier, levando em conta sua figura "boazinha" que foi, teríamos que aceitar coisas surreais e aberrantes, em muitos casos sobrenaturais.

Não tem outra escolha. Ou contestamos Chico Xavier em nome da coerência dos fatos e da realidade, por mais dolorosa que esta seja, ou aceitamos tudo e fiquemos felizes e deslumbrados com tantos absurdos e fantasias dignas da ficção surrealista.

Só que não pensamos assim. Se questionamos Chico Xavier, apresentamos provas e argumentos. O mais doloroso é que essas provas e argumentos vão CONTRA a imagem deslumbrada de Chico Xavier, um velhinho de contos-de-fadas que havia sido encarnado, mas mesmo assim repousa até hoje nas mentes infantilizadas e teimosas de seus seguidores deslumbrados.

Temos que admitir que, analisando as obras de Chico Xavier, vemos contradições muito graves. São coisas preocupantes, desde fraudes nas supostas psicografias até mesmo transmissão de ideias que contrariam severamente o pensamento de Allan Kardec. E ainda dizem que o "médium" mineiro havia sido reencarnação do professor francês, e muitos acreditam nessa tolice!

É tanta confusão e muita incoerência, e elas não partem dos opositores de Chico Xavier. Não, não se trata de campanha contra uma "figura do bem". Trata-se de uma série de questionamentos e contestações, feitas calmamente em análises cuidadosas, e elas apontam sempre para hipóteses que prejudicam a reputação do até hoje festejado anti-médium brasileiro.

Não há como ver em Chico Xavier qualquer exemplo de coerência e bom senso. Até a tão alegada honestidade falha em muitos casos, como a usurpação tendenciosa de Humberto de Campos que soa como uma vingança de Chico com a resenha nada generosa que o autor maranhense fez em vida.

Como se fosse um feiticeiro de contos-de-fadas, Chico Xavier parecia ter dito: "Vou 'transformar' Humberto de Campos em padre. Vou escrever tudo como se fosse vindo de pároco de igreja e botar tudo no nome dele".

Era como uma revanche contra Humberto, que criticou a concorrência que teriam os autores vivos com obras atribuídas a autores mortos. Ironicamente, o Humberto das obras produzidas em vida foi passado para trás pelas obras supostamente atribuídas à sua "autoria espiritual".

E Chico Xavier, num único caso em que a usurpação indevida do nome de outrem não só é autorizado pela Justiça como também é estimulado e legitimado pelos seus seguidores, representa o quanto a impunidade pode ser apoiada até com entusiasmo, dependendo da pessoa.

Pois Chico Xavier foi o pioneiro nos fakes fazendo o mesmo que muitos internautas irresponsáveis fizeram, escrevendo textos próprios mas botando autoria de escritores falecidos ou, às vezes, até vivos, mas é poupado de qualquer crítica e as pessoas não desconfiam sequer do conteúdo das mensagens, aceitando a autoria "espiritual" mesmo quando ela destoa dos estilos originais dos autores alegados.

E isso deu origem a uma série de confusões e contradições, criando conflitos até entre os próprios seguidores de Chico Xavier, uns definindo ele como "profeta" e "cientista", outros o creditando apenas como "filantropo", quando muito "ativista" e "filósofo".

A partir de Chico Xavier, o próprio "espiritismo" brasileiro virou um rol de confusões, escândalos, conflitos, divergências e tudo isso levando em conta apenas as correntes igrejistas. Se diante desse quadro de muita confusão, em que num certo momento até Chico Xavier e Divaldo Franco se desentendem em vários pontos, onde encontrar coerência nisso?

Não há como. Onde existe confusão, não há como encontrar morada segura e confortável na coerência. O bom-mocismo "espírita" faz de tudo para arrumar aposento para a coerência dentro de seu cortiço doutrinário de confusões, escândalos e controvérsias.

Mas é impossível. A coerência é irmã da lógica e do bom senso, e se observarmos bem, toda a trajetória do "movimento espírita" é marcada por atitudes e procedimentos que contrariam o legado de Allan Kardec. Ele, a verdadeira personificação da coerência e do bom senso.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os "intocáveis" da bondade estereotipada


Preocupante, num país em que se criminaliza demais petistas, ladrões de galinhas, furtadores de frutas e peladeiros que quebram vidros na vizinhança, os "espíritas" cometam tantas desonestidades e sejam beneficiados pela mais absoluta impunidade.

O caso de Francisco Cândido Xavier se tornando praticamente "dono" de Humberto de Campos - a ponto do biógrafo Marcel Souto Maior definir o anti-médium como "representante" do autor maranhense - é a maior aberração que se viu em toda a História do Brasil: uma figura "de fora" que usurpa o nome de um falecido, se torna simbolicamente "dono" do legado dele e não só fica livre de punição como é elogiado e apoiado por isso.

Chico Xavier se torna surreal por isso. Ele fez das suas, fazendo pastiches literários aqui e ali, escrevendo cartas e livros da própria mente e botando como crédito de autoria os nomes dos falecidos e saiu-se bem nisso, num caso aberrante e estarrecedor de impunidade.

Essa impunidade se torna pior quando ela vai para o nível da impunidade social, que é quando o delituoso ou criminoso não só se livra das punições da lei como é aplaudido ou visto com simpatia pela sociedade.

O plagiador foi promovido até mesmo a "filósofo", num país como o Brasil, que não teve filósofos que atravessassem os tempos com visibilidade e sabedoria no nível de Sócrates, Platão, Rousseau, Hegel, Kant ou mesmo Nietzsche, e cujo público médio considera "filosofia" qualquer frase de auto-ajuda que colhem feito badameiros na Internet, pegando tanto pequenos depoimentos valiosos e grandes bobagens moralistas de quem quer que seja.

É terrível ver que o "espiritismo" virou uma religião de "intocáveis" nos quais Chico Xavier e Divaldo Franco cometem suas fraudes literárias, Divaldo ainda vem com falsetes com discursos ilustres e diz que é psicofonia, José Medrado cria quadros falsos que credita como autoria de pintores mortos e até um Alamar Régis Carvalho emprega gente sem pagar salário, e todo mundo sai ileso, adorado pelo público que dá ouvidos e olhares a todos eles.

A estratégia da bondade estereotipada é feita para assustar e intimidar questionadores e investigadores. "Seja bonzinho e todos terão medo de ti", é a recomendação que parecem receber os "espíritas". Temos que investigar toda essa técnica da bondade estereotipada, da postura de humilde que tenta amedrontar aqueles que se arriscam a alguma contestação. Mas ninguém se encoraja. Nem a Justiça.

O irônico disso tudo é que são as mesmas pessoas que criminalizam o ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, até pelos acertos que ele cometeu. Se Lula der um simpático "bom dia" para certas pessoas, ele corre o risco de ser linchado. Enquanto isso, Chico Xavier plagia livros e é endeusado, e mesmo certos kardecianos legítimos não conseguem ter um questionamento firme contra ele.

Muitos se esquecem que esses mitos religiosos são construídos mediante interesses mesquinhos, objetivos comerciais e outros fins tendenciosos, que Chico Xavier personificou a deturpação da doutrina de Allan Kardec e que, só por isso, deveria ter sido descartado e condenado ao desprezo público por sua desonestidade doutrinária.

Muitos mitos foram criados mediante interesses de poder da Federação "Espírita" Brasileira, e, mais recentemente, com o apoio e a parceria, mais do que explícita, dos chefões da grande mídia manipuladora e deformadora da opinião pública, e o pessoal faz vista grossa em tudo isso.

As pessoas pensam que o mito de Chico Xavier surgiu por conta própria, sem saber que isso tem o dedo da Rede Globo que alimentou tal idolatria no auge da ditadura militar.

As pessoas ignoram que o mito de "bondade" de Chico Xavier foi trabalhado pelo Jornal Nacional e vão até nos blogues de esquerda endeusar o anti-médium, se esquecendo que ele defendeu a ditadura militar, quando parte da direita passou a se opor ao regime (inclusive Carlos Lacerda).

A situação é grave porque a Justiça dos homens acaba tendo o coração mole, o que mostra que o verniz da bondade pode ser sedutor, como vemos que o "espiritismo" também tem seus momentos de volúpia e sensualismo, vide a exploração exótica dos mortos prematuros e a sedução da "bondade" de Chico Xavier.

Isso poderia ter sido evitado se tivesse havido firmeza no caso do processo dos herdeiros de Humberto de Campos há 71 anos, porque estava evidente que o estilo dos livros que Chico Xavier lançou usando o nome do escritor maranhense não tinham a ver com ele. Uma leitura comparativa basta para derrubar a tese de que Humberto nunca teria sido capaz de escrever aqueles livros "mediúnicos".

Daí a esperteza de Chico Xavier. Alguém imaginaria, por exemplo, se Chico usasse o nome de Machado de Assis e não Humberto, ele teria saído imune do processo? A sorte foi que Humberto de Campos era bem popular, mas num nível secundário como, nos últimos tempos, temos em relação a João Ubaldo Ribeiro. Dificilmente o pessoal engoliria se Chico Xavier tivesse usado Machado, e não Humberto, para seus pastiches literários.

São manobras que mostram o quanto a visibilidade é um jogo praticado pelos "espíritas". Humberto de Campos teve menos visibilidade que Machado de Assis e, hoje então, praticamente o maranhense é esquecido. Daí que o oportunismo de Chico Xavier foi certeiro, e ainda mais quando ele foi se passar por bonzinho, forjar um ar "caridoso" de "caipira humilde", depois tornou-se o "bom velhinho" conhecido por todos e deu no que deu.

Hoje esse "espiritismo" é considerado "intocável" e ninguém investiga realidades. Os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira podem até acumular fortunas, comprar casas de praia nos litorais do Rio de Janeiro e São Paulo, que ninguém desconfia. Qualquer denúncia é neutralizada quando os "espíritas" mostram imagens de crianças carentes e velhinhos desamparados.

Por isso é preocupante ver que os estereótipos ligados a ideias conhecidas sobre bondade, caridade e humildade consigam intimidar e seduzir muita gente. Ver que o bom-mocismo também pode seduzir e enganar as pessoas é algo muito perigoso. Mas nem esse perigo as pessoas conseguem imaginar. Como é muito fácil ficar deslumbrado com certas coisas no Brasil.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O preocupante coitadismo dos "espíritas"


Jesus de Nazaré advertiu sobre os falsos profetas e os falsos cristos que se proclamarão "crucificados" quando duramente criticados. Erasto, mais tarde, em mensagens divulgadas aos espíritas franceses, alertava sobre os inimigos internos da Doutrina Espírita e suas manobras traiçoeiras.

Poucos deram ouvidos. E aí veio o "movimento espírita" brasileiro que é difícil de ser desmascarado e difícil de ser atacado, não por se tratar de uma doutrina da transparência e da honestidade, mas por ser uma doutrina de lobos famintos que capricham no seu disfarce de bondosos cordeiros.

O "movimento espírita" cresceu como bola de neve e, de escândalo em escândalo, sobreviveu sem que investigações sérias pudessem confrontá-lo. Seus integrantes cometem traições terríveis ao pensamento e à coerência de Allan Kardec e ficam impunes diante de tantas e tantas irregularidades em níveis aberrantes.

A desonestidade doutrinária do "movimento espírita" é algo tão assustador que é usada uma das técnicas mais habilidosas, sutis e eficientemente traiçoeiras de persuasão, dominação e intimidação: o verniz da "bondade" e da "humildade".

Quando criticados, os líderes "espíritas", os mesmos que descumprem com gosto os ensinamentos de Kardec, se passam por "fiéis seguidores" do pensador francês e reagem com choro e tristeza, se passando por humildes e resignados derrotados. Tentam vencer pela lábia, se passando por vítimas, investindo no seu coitadismo.

O mito de Francisco Cândido Xavier se agigantou dessa forma. Chico Xavier era um católico ortodoxo que se tornou paranormal, e, promovido a um ídolo religioso às custas de muito sensacionalismo e tantas confusões, é a personificação desse preocupante coitadismo.

Diante de críticas recebidas, Chico Xavier e, nos últimos anos, seus discípulos, seguidores e simpatizantes, sempre reagiu de maneira contraditória, afinal a contradição era o princípio do anti-médium mineiro, o que prova que coerência e bom senso nunca foram o forte dele.

Daí que vemos essa falácia de que "é na derrota que vencemos" ou "quando mais ficamos fracos, mais fortes nos tornamos", o que é ridículo, sobretudo em relação a Chico Xavier, que quer passar por cima de tudo e de todas as situações.

Na crise aguda em que se encontra o "movimento espírita", seus líderes apelam para o mesmo coitadismo que marcou a vida de seu adorado "médium", um vitimismo que se torna o recurso de tentar tirar vantagem com a imagem de coitado, de vítima.

"Diante das perseguições que recebemos, oremos em silêncio, resignados e com a consciência tranquila, protegidos pela fé em Deus e confiantes no nosso trabalho de amor", é o que dizem os "espíritas" diante de tantas contrariedades.

Agindo assim, eles acham que sobreviverão a toda tempestade. Mas esse coitadismo demonstra uma série de estratégias oportunistas e a esperteza em se passar por vítima para obter uma vantagem, porque tudo o que contraria os "espíritas" é sempre visto como "perverso", "injusto" e "nocivo".

Os "espíritas", que traem o pensamento de Allan Kardec com um igrejismo antiquado, é que são os "bonzinhos", que "seguem fielmente" as lições do pedagogo francês, que estão "sempre certos" porque dizem promover a solidariedade, a humildade e a compaixão.

Os contestadores é que são sempre os maléficos, os nocivos, ou, quando muito, aqueles que "fortalecem" os "bondosos espíritas" ao desafiá-los com questionamentos e contestações que supostamente "comprovam" o quanto o "espiritismo" está no "bom caminho".

É um discurso traiçoeiro, um malabarismo discursivo em que o dominador tenta se passar por vítima, criando um jogo de contrastes retóricos no qual ele tenta vencer tudo não como um tirano, mas como pretensa vítima, dizendo, em um momento, que está sendo vítima de "lamentáveis reações de irmãos incompreensivos", de outro "agradece" a eles por estimulá-lo a "prosseguir o trabalho do bem".

Isso desarma as pessoas, porque é um recurso da retórica, em que o coitadismo, que é a falsa pose de injustiçado, e o vitimismo, que é a mania de atribuir desgraças contra si nos momentos em que é contestado, servem para desqualificar argumentos, investigações e inquéritos, fazendo do privilegiado que se passa por injustiçado um "vencedor" disfarçado de "derrotado resignado".

É uma trapaça ideológica, que se mostra uma armadilha das piores. E isso é horrível, sobretudo quando se transforma uma figura pitoresca como Chico Xavier numa espécie de "senhor absoluto", num "dono do Brasil" que se torna a obsessão e o flagelo de seus fanáticos seguidores.

Foi com essa pose de "coitado" e "vítima" que Chico Xavier tenta passar por cima de muitos obstáculos, ele que, de um católico paranormal esquisito, virou "líder absoluto" do Brasil, acima de tudo e de todos, quase um "imperador romano" às avessas, a dominar tudo e todos com estereótipos tendenciosos de "amor e bondade".

Um exemplo disso foi o caso Humberto de Campos, que poderia ter desmascarado por definitivo Chico Xavier, se não fossem duas coisas: o desconhecimento dos juristas da época (1944) quanto ao uso de nomes mortos para supostas psicografias, e a imagem de "bonzinho" trabalhada em torno do anti-médium.

Aí pronto. A cada escândalo, as pessoas tinham o medo de enfrentar Chico Xavier, o "monstro" que Humberto de Campos, autor de O Monstro e Outros Contos, de 1932 (ele lançava o livro quando fez a resenha de Parnaso de Além-Túmulo), não previu se formar, por causa do estereótipo de "amor e bondade" que intimida os corações mais fracos.

E vemos o quanto o verniz de "bondade e humildade", que Chico Xavier trabalhava desde quando era relativamente jovem, lá pelos 25, 30 anos, e se somou ao estereótipo de "bom velhinho" em tempos posteriores, foi um artifício para tentar intimidar seus contestadores.

Só que essa armadilha, a da "bondade" intimidadora, não é muito conhecida entre os brasileiros. Ela é vista ainda como uma qualidade positiva e não desperta suspeitas, estando imune a qualquer tipo de investigação, mesmo quando se consideram polêmicas e controvérsias relacionadas.

Daí que os questionadores mais fracos se sentem intimidados diante de pessoa "tão bondosa". As investigações param, porque os investigadores se sentem intimidados em desafiar uma "boa pessoa", e assim mesmo irregularidades das mais evidentes e com provas consistentes são deixadas de lado, pela sedutora tentação da complacência e do conformismo.

Isso é extremamente ruim, e deixa o Brasil num ciclo vicioso da subserviência religiosa, em que a coerência e o bom senso são deixados de lado, por mais que a retórica, esse espetáculo de palavras bem articuladas, tente dizer o contrário. Aliás, há formas sutis de dizer "não", apenas dizendo "sim", apresentando ideias que dizem afirmar os fatos, quando, em verdade, os contrariam.

O progresso do Brasil é comprometido com isso. Escravo do estereótipo de "amor e bondade" de figuras como Chico Xavier, o país se mantém no atraso, prisioneiro que está da fé religiosa, do deslumbramento fácil, da mistificação sedutora, em que as ideias de "bondade" e "humildade" mais parecem demonstrações de pieguice e até sensualismo emocional, corrompendo as emoções das pessoas.

A Prisão da Fé do "movimento espírita" torna-se nociva para o país, e o coitadismo que intimida quem queira levar adiante investigações sérias sobre as irregularidades da doutrina brasileira causam sérios danos na nossa busca de um mínimo de coerência e transparência para a sociedade de nosso país.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

FEB havia lançado livro sobre Magnetismo. Mas Mesmer, que é bom, nada!


O "movimento espírita" brasileiro diz apreciar a Ciência, mas comete dois graves equívocos quanto a isso. Primeiro, porque só aceita a Ciência quando ela não contraria a fé religiosa, e, segundo, porque acaba censurando a apreciação devida dos verdadeiros especialistas sobre vários assuntos.

Assim, não podemos apreciar o pensamento científico sobre glândula pineal nos anos 1940, puxados sobretudo pelo alemão Wolfgang Bargmann. Tudo virou "conhecimento pioneiro" das obras lunático-igrejistas do fictício André Luiz.

Não podemos apreciar o pensamento de Percival Lowell, astrônomo estadunidense que realizou trabalhos analisando a possibilidade de haver vida em Marte e reservas de água naquele planeta, em estudos feitos ainda no século XIX e publicados antes de Francisco Cândido Xavier nascer.

Afinal, temos que acreditar, nós, brasileiros, que Chico Xavier "descobriu" a vida em Marte, enviando sua mãe e um escrevinhador católico que usava o nome de Humberto de Campos para visitarem o Planeta Vermelho antes das sondas espaciais modernas.

Também não podemos apreciar o pensamento do alemão Franz Anton Mesmer, estudioso de Magnetismo Animal cuja obra foi apreciada com gosto pelo próprio professor Rivail, já antes dele se tornar conhecido como Allan Kardec.

Um dos motivos é que, em 1959, quando Chico Xavier fazia a farra da "materialização" - em que pese a "advertência" de um locutor fazendo a voz de Emmanuel, diante de uma maquete com o retrato mimeografado do jesuíta do além e um "corpo" inspirado no Cristo Redentor - , foi lançado um livro mistificador que tentava "estudar" o Magnetismo.

Trata-se de um livro chamado Magnetismo Espiritual, que a exemplo do livro Síntese de O Novo Testamento, publicado dez anos antes (1949), contava com autoria misteriosa. Se este era atribuído a um tal de Mínimus (depois revelado como o próprio presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas), o outro, atribuído a Michaelus, corresponde ao advogado da FEB, Miguel Timponi.

Timponi foi responsável por toda a choradeira que desnorteou os juízes em 1944, no caso do processo dos herdeiros de Humberto de Campos. O advogado da FEB nem precisou ser muito convincente nos argumentos em favor da instituição e de Chico Xavier, porque os próprios juízes não entenderam a questão, pensando que era para pedir direitos autorais para obras enviadas "do além".

Diante do empate jurídico - a "psicografia" não foi confirmada nem negada, porque os juízes julgaram a ação "improcedente" - , Miguel Timponi, sem "ter feito gols", teve suas "jogadas" elogiadas pela cúpula da FEB e, aproveitando sua boa reputação, resolveu escrever um livro sobre Magnetismo.

A identidade de Miguel Timponi foi constatada na ficha técnica do livro, em que seu nome aparece como crédito de autoria, como se Michaelus fosse um pseudônimo, a exemplo de Mínimus que veio depois a ser revelado como o próprio Antônio Wantuil.

Não lemos os livros de Franz Mesmer nem o de "Michaelus" para fazermos alguma comparação, mas podemos inferir que o livro da FEB foi feito para desviar as atenções das verdadeiras análises do Magnetismo, já que até hoje a obra de Mesmer, mesmo sendo ponto chave para a doutrina kardeciana, não teve até hoje uma tradução brasileira.

Desse modo, Franz Anton Mesmer se junta a Wolfgang Bargmann e Percival Lowell como três dos renomados cientistas que nunca tiveram trabalhos essenciais traduzidos no Brasil. E que, na lacuna das publicações brasileiras desses estudiosos, abriu-se o caminho para uma série de mentiras e deturpações trazidas pelo "movimento espírita".

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PMDB carioca de Eduardo Paes tenta sobreviver "rompendo" com Eduardo Cunha

FAMÍLIA PICCIANI, QUE REÚNE ALGUNS DOS INTEGRANTES DO GRUPO POLÍTICO DE EDUARDO PAES.

A crise política que atinge o Brasil, junto à decadência vertiginosa que atinge o Estado do Rio de Janeiro, faz com que episódios diversos, como ocorridos na semana passada, envolvendo até briga de parlamentares e tudo, deixassem o governo da presidenta Dilma Rousseff no limite de sua fragilidade.

Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, para se vingar dos esforços parlamentares para votar o impeachment do chefe da casa legislativa, autorizou a entrada do processo de análise de outro impeachment, o de Dilma, os fatos políticos ganharam novo desdobramento.

Um deles é a conversão do aparente parceiro de Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer - advogado que exercia o mesmo cargo no mandato anterior da chefe do Executivo federal - em um sutil oposicionista do próprio governo, agravando ainda mais a crise e deixando o país quase desgovernado.

Diante desse quadro, surpreende a atuação oportunista do grupo político do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e do governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão. Antes aliados de Eduardo Cunha, eles tentam agora "romper" com o deputado federal, como quem se livra de belos anéis que começam a ficar apertados nos dedos.

Neste grupo político, que não quer o impeachment de Dilma pelo único fato de que precisam de verbas federais para investir no falido Estado do Rio de Janeiro - cuja falência é de responsabilidade do próprio grupo que está no poder no Estado e em sua capital - , está a família Picciani, que agora pega carona no barco rival ao ver seu navio naufragar.

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Jorge Picciani, e seus filhos, o deputado federal Leonardo Picciani, ex-líder do PMDB na Câmara dos Deputados, e o secretário de Transportes da Prefeitura do Rio de Janeiro, Rafael Picciani, haviam apoiado o tucano Aécio Neves para a Presidência da República e eram protegidos por Eduardo Cunha.

No entanto, por disputas pessoais que prejudicaram Leonardo, o grupo passou, tendenciosamente, a "romper" com Cunha e, com isso, tentar sobreviver à crise política, se aproveitando do apoio condicionado de Eduardo Paes (que já foi tucano) e seus parceiros, que só "apoiam" Dilma em troca de verbas federais para sanear as contas dos cofres públicos fluminenses.

ENQUANTO ISSO, NO RIO DE JANEIRO

O Rio de Janeiro que sofre profundos retrocessos sociais, e cuja denúncia dessa crise na Internet chocou a opinião pública e foi confirmada pela imprensa em geral, segue decadente, apesar de continuar de pé seu poder de influência nesses mesmos retrocessos.

Se culturalmente o Rio de Janeiro sucumbiu à caricatura de samba do "pagode romântico", à periferia estereotipada do "funk carioca" e seus DJs milionários posando de "pobretões" e ao rock domesticado difundido pelas ondas da Rádio Cidade - emissora sem pessoal especializado no rock, mas apoiada por grandes empresários do ramo do entretenimento, turismo e até por dirigentes esportivos - , então a coisa só pode estar grave.

Se até no direito de ir e vir se destaca a decadência do sistema de ônibus carioca, com o indigesto "combo" da pintura padronizada, da dupla função do motorista-cobrador e das reduções de percursos - neste caso, parcialmente suspensas por iniciativa do Ministério Público - , diante de tantos engarrafamentos e acidentes, não há como fingir que o Rio de Janeiro continue vivendo nos "anos dourados".

OTIMIZAÇÃO? - O atual sistema de ônibus da pintura padronizada e outras arbitrariedades no serviço tem mais um acidente com cinco mortos.

Para completar o quadro trágico do sistema de ônibus implantado em 2010, dois acidentes de ônibus aconteceram no último fim de semana. No sábado, um ônibus da Viação Redentor bateu com um táxi na Av. Rio Branco e deixou vários feridos. Já no domingo, um ônibus da Transportes Futuro que ia para o Riocentro bateu em um túnel na Linha Amarela (que liga o Fundão à Barra da Tijuca), causando cinco mortes e vários feridos.

O véu da pintura padronizada, a sobrecarga dos motoristas e os ônibus superlotados causados pela baldeação dos trajetos já reduzidos e das reduções das frotas em circulação - que já refletem no já sobrecarregado fluxo de automóveis nas ruas cariocas (ninguém fala da sobreposição de comerciais de automóveis nos intervalos de TV, é um atrás do outro a toda hora), transforma o sistema de ônibus carioca numa tragicomédia infelizmente sem prazo para acabar.

Mas outros aspectos sócio-culturais também são preocupantes, como a intolerância dos cariocas a quem não se habitua com seu já restritivo estilo de lazer, há muito distante da diversidade, da modernidade e do cosmopolitismo dos antigos cariocas. Os cariocas e fluminenses foram tomados de um surto de provincianismo pior do que se vê no Norte e Nordeste.

O fanatismo pelo futebol é um exemplo, em que as pessoas perguntam primeiro o time de alguém para depois saberem o seu nome. O futebol virou a medida das relações sociais e torcer para o Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo virou praticamente uma obrigação social, e não são raro os que estranham ver pessoas que não torcem para esses times e nem curtem futebol.

Há também a insegurança, em que, mal os cariocas se recuperaram do impacto do assassinato de cinco jovens inocentes pela polícia, mais uma criança foi morta sob o tiroteio de policiais e bandidos. A insegurança no Rio de Janeiro é tanta que episódios dignos de cidade matuta, como pessoas linchando um trabalhador (e pessoas abastadas!) na praiana e (antes) cosmopolita Ipanema.

Num cenário como este, em que, no lado da Economia, há a falta constante de produtos, apesar do Rio de Janeiro estar dentro dos grandes centros de distribuição de produtos nos mercados, um grupo político decadente tenta permanecer no poder fingindo ser "amigo da presidenta".

Se preparando para as Olimpíadas de 2016, que parecem condenadas a repetir o mesmo fracasso da Copa de 2014, o Estado do Rio de Janeiro vive uma decadência crônica, que acumula tragédias, dramas e gafes nos noticiários, fazendo de 2015 um péssimo ano para o Estado e sua capital, e obrigando a "boa sociedade" a engolir essa desilusão que ultrapassa os limites fantasiosos das mídias sociais.
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