segunda-feira, 13 de abril de 2015
O ridículo da "senha" de Chico Xavier
No final de sua vida, o anti-médium Francisco Cândido Xavier disse para seus amigos mais íntimos que havia criado uma senha para eles usarem para verificar a veracidade de futuras mensagens espirituais que levassem seu nome.
Segundo seus seguidores, essa senha seria um código que possibilitaria a identificação do espírito de Chico Xavier, que passaria um tempo "sem se manifestar"- ele "aposentaria o lápis e o papel", no seu dizer - e, quando se "manifestar", o código serviria para identificar a sua autoria.
A senha foi anunciada em 1994 para três pessoas: a amiga Kátia Maria, o filho adotivo Eurípedes Higino e o médico Eurípedes Tahan. Kátia já faleceu, guardando o segredo para si. Os dois Eurípedes mantém o segredo e também não revelarão.
Chega-se a dizer que "não há necessidade" de divulgar a senha, porque o "código maior" de Chico Xavier teria sido seu "trabalho para o bem". Uns temem também pela repercussão de uma mensagem espiritual atribuída a Chico Xavier.
Depois do dia do falecimento de Chico Xavier, num dia em que o "Brasil" (leia-se Ricardo Teixeira, Fifa, CBF e a Rede Globo) estava "muito feliz", muitas mensagens "espirituais" atribuídas ao anti-médium foram divulgadas, todas consideradas oficialmente inverídicas.
Lei de Causa e Efeito. Afinal, o próprio Chico Xavier havia divulgado mensagens que também eram inverídicas, como a série "Humberto de Campos" cujo estilo de prosa nem de longe lembrava o do saudoso escritor de O Brasil Anedótico.
Também era muito estranho que o anti-médium, que seus seguidores viam como se fosse uma espécie de Speed Racer da escrita mediúnica, divulgasse mensagens atribuídas aos mortos que quase sempre só tinham a assinatura do próprio "médium" ou, quando muito, de um colaborador, mas sempre divergindo das assinaturas originais daqueles que faleceram.
Quanto à senha, seria risível ou trágico conforme o enfoque emocional de cada questionador. Afinal, não há segredo algum no mundo espiritual e mesmo os espíritos mais traiçoeiros podem se servir dos mais intrincados segredos guardados por gente na Terra.
Chico Xavier, em verdade, era cercado de muitos espíritos obsessores. O caráter perverso do antigo jesuitismo encontrou atualização no "movimento espírita" e várias fotos de Chico Xavier apresentam um semblante pesado e assustador, como uma foto publicada na imprensa em 1935.
O próprio Emmanuel era autoritário e explorava a fragilidade de Chico Xavier. Certa vez, o anti-médium estava sem trabalhar porque estava com problema num dos olhos, e Emmanuel reagiu dizendo que seu subordinado tinha o outro olho sadio e que "ficar doente e poder trabalhar" era quase que "ter saúde". Bem tirano, o jesuíta.
Muitos espíritos farsantes, portanto, já têm a senha de Chico Xavier. Uma quantidade grande deles. E isso não é desaforo nem calúnia, mas uma constatação que se baseia nos avisos que Allan Kardec recebeu dos espíritos e registrou em O Livro dos Médiuns, aqui lembrado na tradução de José Herculano Pires.
Nele, há capacidade para tudo nas mensagens espirituais, e esse vale-tudo do além-túmulo nem de longe pode ser controlado por senhas. No capítulo 25, "Das Evocações", na questão 37 do item 283, Kardec questionava o sentido de pessoas terem recebido mensagens de espíritos de animais e a resposta foi contundente: "Evoque um rochedo e ele responderá. Há sempre uma multidão de Espíritos prontos a falar sobre tudo".
Imagine então o que seria a manifestação do tal "código de Chico Xavier"! E o próprio anti-médium, que fez das suas nas fraudes "psicográficas" - podemos dizer que eram pseudográficas - , fazendo pastiches literários e não convencendo os literatos mais renomados, não deixaria também de receber o troco de alguns desafetos espirituais ou mesmo de supostos médiuns terrenos oportunistas.
Imagine exigir autenticidade a um "médium" que, usando o nome de Humberto de Campos, o fazia ser um melancólico escritor igrejista, totalmente diferente do culto, fluente mas coloquial e descontraído prosador maranhense!
A senha então não passa de uma grande piada. Não existe segredo no mundo espiitual e os espíritos mais zombeteiros irão usar tranquilamente o código descrito por Chico Xavier. E vão passar uma mensagem de maneira verossímil ou intuir a um suposto médium para realizar um pastiche que possa condizer com as mensagens igrejistas do anti-médium mineiro.
Há um ditado gaúcho, muito popular, que diz: "Em tempo de guerra, mentira é como terra". Num país conflituoso como o Brasil, e diante de uma religião fraudulenta que é o "espiritismo", mentira é como "terra", habitual, abundante e real, principalmente aquela que usurpa as fantasias terrenas que se tem do além-túmulo e contaminam, como epidemia, nossos "espíritas" tão materialistas.
domingo, 12 de abril de 2015
"Cirurgias espirituais" revelam conflito entre "espiritismo" e Ciência
Já se falou do problema das chamadas "cirurgias espirituais" do "espiritismo" brasileiro. Um dos maiores problemas é típico dessa doutrina, que é o total desconhecimento da Ciência Espírita e as condições duvidosas que indicam exercício clandestino e improvisado da Medicina.
Os "espíritas", cheios de razão, ou melhor, cheios de falta de razão - uma vez que Razão é o que eles detestam, porque ela de vez em quando desafia a "fé espírita" - , se sentem ofendidos quando se acusa suas práticas "curandeiras" de exercício ilegal da Medicina, e preferem criar uma "medicina paralela" a ter que adotar procedimentos mais seguros e condizentes à Ciência Médica.
O que chama a atenção nas manifestações "espirituais" supostamente medicinais é que elas, praticadas a título de exercício "mediúnico", revelam o conflito que existe entre "espiritismo", ou ao menos as manifestações "mediúnicas independentes", e a Ciência na Terra.
O "espiritismo", tão metido a unificador, conciliador e aglutinador de tudo, suposto acolhedor da ampla diversidade de crenças e expressões da sociedade mundial, acaba reagindo com arrogância diante das acusações de charlatanismo e atribui à Ciência um "subproduto da paixão materialista dos homens".
Com arrogância, o "espiritismo" quer manter imaculado alguns valores e procedimentos que devem ser mantidos fora de qualquer avaliação do raciocínio humano, criando um terreno em que o surreal, o misterioso, o vago e o oculto possam viver sossegados, criando um mundo de fantasia contra o qual qualquer investigação lógica é desqualificada.
E isso cria problemas entre os critérios da "medicina espírita" e os da Ciência Médica aqui na Terra. Não há diálogo nem entendimento, o que há é o acolhimento da Ciência Médica nos limites que são permitidos pelo "movimento espírita".
Em outras palavras, a Ciência é só é benvinda se ela aceitar os dogmas, ritos e crenças do "espiritismo" brasileiro e agir em favor delas. Vide o caso dos acadêmicos da Universidade Federal de Juiz de Fora que arrumaram um jeitinho para legitimar as duvidosas "psicografias" de Francisco Cândido Xavier.
Se autoproclamando possuidor da verdade, o "espiritismo" brasileiro quer que a Ciência se ajoelhe a seus pés. Não questionar Chico Xavier nem Emmanuel (que sempre condenou o raciocínio investigativo e o debate), não adentrar no terreno da mistificação e aceitar certos absurdos porque eles agem de acordo com a "fé espírita".
E aí isso causa problema quando o assunto é "cura espiritual", porque procedimentos duvidosos poderiam ser substituídos por práticas espirituais que pudessem se harmonizar e dialogar com valores e conhecimentos da Medicina na Terra. Mas não são substituídos.
Tudo se limita a práticas duvidosas, misteriosas, e o valor delas está justamente no que está oculto e misterioso. As pessoas são desestimuladas a saberem por quê. Tudo fica "maravilhoso" porque ninguém sabe como e por que aconteceu. Apenas... "aconteceu".
Isso é ridículo. As pessoas têm direito de saber as justificativas das coisas e os segredos dos mistérios. O "espiritismo" se comporta igualmente ao Catolicismo medieval, do qual herdou sua essência bem mais do que a de Allan Kardec,
Sabe-se que o Catolicismo medieval criava também seu "terreno do surreal", em que deturpações narrativas de fatos bíblicos, com episódios fictícios ou detalhes surreais inseridos, cujo questionamento era severamente condenado sob a alegação do "mistério da fé".
Em que pese o "espiritismo" ter rompido com a maioria dos absurdos bíblicos, ele criou novos e mantém a prática de ocultar certas práticas, ideias e procedimentos para ser "temido" por seus seguidores, uma vez que o "mistério" domina mais as pessoas.
Daí que as "curas espirituais" tornaram-se um procedimento irregular e duvidoso. As pessoas são proibidas de saber como realmente se dão essas cirurgias, qual a relação delas com procedimentos científicos, e se contentam a aceitar procedimentos "simples" mas feitos em total ignorância tanto da Medicina terrena quanto da Ciência Espírita.
Cria-se um conflito entre a Medicina terrena e as práticas "espirituais", e isso prejudica a confiabilidade dessas cirurgias, que podem dar certo ou errado não pela luz da Medicina, mas por aspectos nebulosos que variam dos efeitos placebos ao mau agouro que os tratamentos espirituais costumam trazer para as pessoas.
E esse conflito é muito grave, diante do verniz "conciliador" do "espiritismo" brasileiro, com suas irregularidades, mistificações, fraudes, deturpações etc. E, no caso das "cirurgias espirituais", pode-se afirmar que a medicina "espírita" se mantém muito doentia.
sábado, 11 de abril de 2015
A corrupção, a impunidade e o fiado
A edição deste mês do Correio Espírita, periódico que segue ideologicamente o "espiritismo da FEB", tem como matéria de capa a corrupção, tendo como título a chamativa frase "Na realidade espiritual, nada acaba em pizza", em alusão ao famoso alimento associado à impunidade política.
Segundo o periódico, a corrupção política, como todos os erros humanos, terá seu preço "estabelecido" no retorno à "pátria espiritual", quando os devedores saberão o quanto deixaram de débitos para a humanidade, a serem pagos nas próximas encarnações.
Tudo bem, se fosse só isso. O grande problema é que o "espiritismo" brasileiro adota um estranho moralismo para o qual os erros são cometidos por longos períodos sem causar danos sérios a seus praticantes, beneficiados pela impunidade e pelo "exemplo de sucesso" que acabam deixando para seus seguidores e parceiros.
Existe até mesmo o julgamento "espírita", logo vindo de uma religião que pede para "ninguém julgar", de que corruptos, assassinos, ladrões e semelhantes agem prolongadamente e com êxito porque estariam "cumprindo" missões de "reajustes espirituais" ou "resgates morais" de suas vítimas. No "espiritismo" brasileiro, a vítima é a "culpada".
Dessa feita, a corrupção, que é o caso do artigo do Correio Espírita, e a impunidade que a protege, revelam uma espécie de "fiado" moral em que seus praticantes têm um longo prazo para estas práticas abusivas, e quando sofrem algum dano, ele não se torna grande o suficiente para intimidar suas atividades ilícitas.
Quando muito, pessoas que cometem graves erros são odiadas por multidões, mas são apenas arranhões que não comprometem o privilégio daqueles que agem em prol do egoísmo. Praticam longamente seus abusos e maldades, e vivem em relativo sossego embora longe de viverem em paz.
Quase não há decadência, diante dessa perspectiva, e o infrator ou criminoso só cumprirá os efeitos de seus abusos em uma ou duas encarnações adiante, de preferência quando tiver consequência do arrependimento. Quando não se arrepende, não paga pelos erros. Só começa a pagar quando não tem mais vontade de errar e passa a se opor às suas antigas atitudes e interesses.
O fiado é assim. A pessoa que poderia pagar deixa a conta para depois. Quando deixa de ter condição para pagar, a conta vem amarga. O devedor moral tem condições, na encarnação de seus atos errados, de sofrer desilusões pesadas ou mesmo de abreviar sua vida para evitar o prolongamento de sua vida de crimes e o aumento de influência de seus êxitos.
Mas, em vez disso, o pagamento só é feito quando ele não se acha mais nas condições de sofrer infortúnios, quando seu arrependimento se torna pleno e quando sua consciência repudia os antigos atos.
O fiado moral se reverte, quando seu faltoso já se arrependeu de seus atos, em juros pesados e prolongados, que o faltoso já não precisa mais suportar, mas têm que aguentar em doses maiores do que aquelas que naturalmente suportaria.
Com isso, o "espiritismo" brasileiro torna-se cruel, ao permitir que o egoísmo humano se prolongue demais numa vida para depois seus praticantes, no momento do arrependimento, sofrerem mais do que o necessário para o aprendizado e para o verdadeiro reajuste moral.
A corrupção política, que no Brasil atinge seu apogeu, não se limita a casos como a Petrobras e ao esquema de Marcos Valério. Também não se limita ao PT, PMDB e similares, mas também ocorre no PSDB, DEM e outros partidos mais conservadores.
À sua maneira, a corrupção também ocorre na Federação "Espírita" Brasileira, com seus chefões deturpando a Doutrina Espírita e estimulando a prática de falsas mediunidades - das quais Chico Xavier e Divaldo Franco não são exceção - que mancham o movimento religioso e agem por sua decadência devido a suas próprias faltas.
Enquanto as atividades "espíritas" desperdiçam seu tempo falando em "moralismo familiar" e "problemas emocionais", seu total desconhecimento da Ciência Espírita é mascarado por simulacros de mediunidade e compreensões fantasiosas do "mundo espiritual", que mal conseguem disfarçar conceitos moralistas, dogmáticos e ritualísticos herdados do Catolicismo medieval.
Por isso a própria "advertência" do Correio Espírita deveria servir para o próprio "espiritismo", de forma ainda mais grave e chocante do que prega para os corruptos políticos. Isso porque a ilusão de "superioridade" do "movimento espírita" já fez muitos de seus líderes se chocarem com a situação humilhante no regresso à vida espiritual.
Tomados de um estereótipo de filantropia e humildade que mascaram vaidades pessoais e práticas abusivas de enganação e ilusionismo, os líderes e anti-médiuns "espíritas", quando voltam ao mundo espiritual, sentem a aberrante e traumatizante decepção de verem que até mesmo a ilusão terrena da falsa humildade se desfaz no além-túmulo, como em todas ilusões levianas feitas na Terra.
Portanto, se a corrupção política não "termina em pizza" no além-túmulo, também não os líderes "espíritas" não se tornarão "iluminados" no retorno à vida espiritual. Pelo contrário, eles tornam-se ridiculamente inferiorizados e frustrados com a realidade que produziram na Terra.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Ed Motta e os roedores expõem feridas do suposto "Coração do Mundo"
O Brasil está em crise e dois episódios ocorridos ontem mostram as feridas abertas de 50 anos em crise, que causam choque na aparente normalidade que forçadamente se construiu num modelo de país esquizofrênico, como o Brasil se tornou depois de abril de 1964 e cujos absurdos não só ainda não foram superados como vieram outros, principalmente dos anos 1990 para cá.
Isso vai contra a suposta "profecia" do "dócil e meigo" Francisco Cândido Xavier, que havia "prenunciado" que o Brasil se tornaria um país próspero promovendo solidariedade e fraternidade, enquanto o "velho mundo" (Europa, EUA, Oriente Médio, Ásia e parte da Oceania) seriam destruídos pela "Mãe Natureza" (esposa de Deus?) por causa de suas supostas inclinações bélicas.
Pois justamente o Brasil está sofrendo sua pior crise, desde as tensões sociais de 2013 e 2014, época que os "espíritas" outrora acreditavam serem o começo de um tempo de paz e fraternidade e de muita prosperidade no país. Desde 2010 eles esperavam que o Brasil fosse assim, e desde então ficou o contrário.
Um dos episódios corresponde ao protesto de um funcionário da Câmara dos Deputados, Márcio Martins de Oliveira, que soltou cinco roedores no plenário da casa parlamentar, durante o depoimento do secretário de Finanças do Partido dos Trabalhadores (PT), João Vaccari Neto.
O funcionário, ao ser identificado, foi detido por seguranças e já foi anunciado que ele será exonerado do cargo. Os roedores eram dois ratos, dois hamsters e dois esquilos. Um dos roedores saiu ferido ao ser pisoteado e todos foram capturados bastante estressados com a ocasião, já que muitas pessoas se apavoraram com os animais sendo jogados no chão por Márcio.
Já o cantor e músico Ed Motta, em sua página no Facebook, escreveu um texto agradecendo o apoio da comunidade brasileira, mas ressaltando que na sua turnê europeia só toca canções em inglês e se comunica com a plateia com essa língua, não com o português vigente no Brasil.
Ed ainda criticou uma parcela de brasileiros, que ele chamou de "turminha simplória", que "vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time" e que pede para o cantor tocar "Manuel" (seu maior sucesso, mas que o cantor não toca mais ao vivo) e falar em português.
Os dois episódios criaram incômodos muito grandes. Quebraram a normalidade forçada por um país que desenvolve seus absurdos e os mascara dando a falsa impressão de que tudo está bem. Valores culturais, sociais, políticos, econômicos e de outras naturezas que se baseiam em processos excludentes e prejudiciais, embora trouxessem falsos benefícios e falsas vantagens, ainda prevalecem sem que haja uma reação organizada contra tudo isso.
Evidentemente, muitas pessoas não gostaram. O protesto de um funcionário que quis chamar a atenção diante da morosidade da Comissão Parlamentar de Inquérito, e de um músico brasileiro indignado com a mediocridade reinante, foram vistos, respectivamente, como ato de vandalismo e demonstração de arrogância. Queriam que os dois cumprissem quietos seus respectivos scripts.
Só que, desde 1964, o Brasil acumulou absurdos, injustiças, impunidades, arbítrios, perdas graduais de poder aquisitivo, que os brasileiros receberam, em primeira instância, de maneira forçadamente conformada, já que havia o governo militar e depois o AI-5. Mas, depois, o próprio Brasil pegou gosto de aceitar seus absurdos e retrocessos, aplaudindo até as piores decisões.
Criamos uma má pedagogia por causa da ditadura. Os brasileiros passaram a aceitar decisões que, por mais nocivas que sejam, são apoiadas por conta da reputação e status de alguém. Um Jaime Lerner, por exemplo, um dos "filhotes da ditadura" que hoje se passa por "progressista" por conta de um sistema de ônibus nocivo que só está causando acidentes, estressando rodoviários e fazendo os passageiros esperarem muito tempo para embarcarem no ônibus errado.
O Brasil retomou o complexo de vira-lata e, salvo exceções, passou a aceitar tudo de ruim. Quando muito, só reclama de certos absurdos pelas costas. As pessoas deixaram de desejar o melhor para elas mesmas e atribuem "superioridade" de certas elites arbitrárias por causa do diploma, da visibilidade, do prestígio político, do poder econômico etc.
Somos prejudicados e muitos de nós preferem acreditar que esses prejuízos, do arrocho salarial à pintura padronizada nos ônibus, da falta de atendimento médico à invasão de grotescos funqueiros nos redutos da MPB, são apenas "transtornos necessários" para um benefício futuro que, na verdade, nunca existirá e que não passa de conversa para boi dormir.
O Brasil chegou aos níveis surreais de muitos de seus arbítrios e injustiças, de seus desleixos, descasos e impunidades, que o país, em vez de ser a síntese dos mais diversos povos do mundo, tornou-se a síntese dos absurdos narrados nos livros de Franz Kafka, nas pinturas de Salvador Dali e nos filmes de Luís Buñuel, acrescida de um FEBEAPÁ que saiu do papel e sobreviveu à morte do seu criador Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto).
Na melhor das hipóteses, o Brasil tornou-se uma mixagem amalucada dos fatos fictícios narrados pelas obras 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que dizem mais sobre o Brasil do que o tolo livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas escreveram e usaram o nome de Humberto de Campos.
Aliás, as pessoas acreditam bovinamente na "superioridade" de Chico Xavier, figura típica desse país de absurdos. Ele errou muito e gravemente, transformando a Doutrina Espírita numa bagunça, causou escândalos sérios e problemas jurídicos graves, explorou as tragédias familiares de forma sensacionalista e no entanto seus seguidores querem vê-lo inocente de tudo quanto errou.
Eles querem que Chico Xavier seja mantido no seu pedestal, querem que ele seja visto como "espírito superior" de qualquer maneira, atropelando a lógica dos fatos e dos argumentos, e querem atribuir a ele funções de "cientista", "psicólogo", "socíólogo", "profeta" etc, coisas que ele nunca teve.
A impressão que se tem é que boa parte da sociedade brasileira, independente de ser "espírita" ou não, prefere que o Brasil naufrague sereno e silencioso na sua decadência, como queria um Chico Xavier que simboliza os valores conservadores enrustidos e o estereótipo de religiosidade e humildade do qual os hipócritas se apegam pela incapacidade de desenvolver tais qualidades por si mesmas.
Só que isso fará com que o Brasil não consiga progredir e seja vitimado por seus próprios vícios e teimosias, seus próprios descasos e arbitrariedades, suas próprias mentiras e violências e aí ele deixará de ser o virtual candidato a "farol da humanidade", virando ruínas de suas pretensões e omissões.
É contra esse Brasil viciado e acomodado que Márcio e Ed agiram. Com toda a certeza, eles desagradaram e irritaram muita gente. Mas é assim mesmo que acontece, diante de tanto marasmo que acontece nesse país.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Profissão Repórter apela para clichês do "espiritismo" brasileiro
"ESPÍRITAS" EXPLORAM DE FORMA SENSACIONALISTA A DOR DOS QUE PERDERAM JOVENS FAMILIARES.
O "movimento espírita" foi mais uma vez assunto na grande mídia, e a Rede Globo promove a doutrina de tal forma que a gente desconfia se a emissora dos irmãos Marinho está usando o "espiritismo" da FEB para se contrapôr ao neopentecostalismo da Rede Record e suas milícias de "Gladiadores do Altar", espécie de "pitboys de Cristo".
Em que pese seu compromisso com a honestidade jornalística, o Profissão Repórter comete falhas sérias, não apenas porque Caco Barcellos, profissional de competência indiscutível, é obrigado a seguir a cartilha das Organizações Globo, mas a própria boa-fé da equipe em trabalhar pautas tendenciosas como o "funk", o "sertanejo" e, agora, o "espiritismo".
Difícil não entrar no terreno do sensacionalismo na edição do último dia 07 (07 de abril de 2015, para facilitar a consulta do Google), dedicada a reportar a "mediunidade", as "cartas psicografadas", a "caridade espírita" e as "curas espirituais". O programa se dedica a explorar os mesmos clichês batidos que marcam o "movimento espírita" brasileiro há mais de cem anos.
Dentro de um processo em que a fé religiosa serve de pretexto para acobertar irregularidades, a reportagem mostra vários casos: o trabalho do "médium" João de Deus em Abadiânia, em Goiás, o caso do espírito Doutor Hans, supostamente relacionado a um serviço de "curas espirituais" em São Caetano do Sul, em São Paulo, e serviços de "psicografias" em Lorena e Guarulhos, também em São Paulo.
As "curas mediúnicas" são narradas dentro do que a aparência se limita a mostrar e que remetem ao mesmo processo do Dr. Adolph Fritz, investindo nos clichês da "medicina espírita" feita no Brasil: supostas cirurgias com uso de tesouras, facas e bisturis, sem higiene, dentro de salas escuras e com pequena duração de tempo.
Sem verificarmos estudos e pesquisas sérias sobre curas espirituais, apenas acredita-se no sobrenatural, no misterioso, fazendo com que a tradição católica existente no Brasil hoje encontrasse seu "terreno de veraneio" na forma com que a Doutrina Espírita é feita no Brasil, em completa e aberrante distância da Ciência Espírita de Allan Kardec.
Já as "cartas psicografadas" são um outro aspecto aberrante que pegou desprevenidos os repórteres da equipe de Caco Barcellos. Isso porque sabemos dessa prática, completamente cheia de irregularidades, em que a veracidade é erroneamente reconhecida, mesmo quando mensagens apresentam apenas a caligrafia dos "médiuns" e expressam o mesmo apelo religioso, como se o mundo espiritual fosse uma grande igreja.
A reportagem cita até mesmo uma pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora, que com métodos duvidosos e confusos, embora pretensamente "rigorosos", apontaram que 98% das supostas cartas psicografadas por Chico Xavier teriam sido "exatas, precisas e verdadeiras", um resultado que não tem qualquer grau de validade séria.
Além dessa constatação ser bastante tendenciosa, sem verificar outros aspectos - como a semelhança de apelo religioso das mensagens, que destoam em muitos casos das personalidades originais dos jovens falecidos - , o único critério que se observa nas pesquisas é preservar a reputação de Chico Xavier, protegido por estereótipos diversos que vão da religiosidade à humildade.
E as "cartas psicografadas" tornam-se um processo leviano, sensacionalista, na qual a emotividade das famílias que perdem seus filhos é explorada da maneira mais constrangedora, já que a pieguice da exploração da tragédia alheia, da capitalização sobre a tristeza do outro, acaba servindo mais para propaganda dos "centros espíritas" do que para qualquer fim de aparente caridade.
É lamentável que um programa que queira ser considerado como de jornalismo sério, em que pese ser veiculado pela conservadora Rede Globo de Televisão - tão marcada negativamente por suas manobras ideológicas - tenha que servir de propaganda para as irregularidades do "espiritismo" brasileiro, que sabemos viver sempre de abordagens especulativas, fantasiosas e fraudulentas.
O "movimento espírita" foi mais uma vez assunto na grande mídia, e a Rede Globo promove a doutrina de tal forma que a gente desconfia se a emissora dos irmãos Marinho está usando o "espiritismo" da FEB para se contrapôr ao neopentecostalismo da Rede Record e suas milícias de "Gladiadores do Altar", espécie de "pitboys de Cristo".
Em que pese seu compromisso com a honestidade jornalística, o Profissão Repórter comete falhas sérias, não apenas porque Caco Barcellos, profissional de competência indiscutível, é obrigado a seguir a cartilha das Organizações Globo, mas a própria boa-fé da equipe em trabalhar pautas tendenciosas como o "funk", o "sertanejo" e, agora, o "espiritismo".
Difícil não entrar no terreno do sensacionalismo na edição do último dia 07 (07 de abril de 2015, para facilitar a consulta do Google), dedicada a reportar a "mediunidade", as "cartas psicografadas", a "caridade espírita" e as "curas espirituais". O programa se dedica a explorar os mesmos clichês batidos que marcam o "movimento espírita" brasileiro há mais de cem anos.
Dentro de um processo em que a fé religiosa serve de pretexto para acobertar irregularidades, a reportagem mostra vários casos: o trabalho do "médium" João de Deus em Abadiânia, em Goiás, o caso do espírito Doutor Hans, supostamente relacionado a um serviço de "curas espirituais" em São Caetano do Sul, em São Paulo, e serviços de "psicografias" em Lorena e Guarulhos, também em São Paulo.
As "curas mediúnicas" são narradas dentro do que a aparência se limita a mostrar e que remetem ao mesmo processo do Dr. Adolph Fritz, investindo nos clichês da "medicina espírita" feita no Brasil: supostas cirurgias com uso de tesouras, facas e bisturis, sem higiene, dentro de salas escuras e com pequena duração de tempo.
Sem verificarmos estudos e pesquisas sérias sobre curas espirituais, apenas acredita-se no sobrenatural, no misterioso, fazendo com que a tradição católica existente no Brasil hoje encontrasse seu "terreno de veraneio" na forma com que a Doutrina Espírita é feita no Brasil, em completa e aberrante distância da Ciência Espírita de Allan Kardec.
Já as "cartas psicografadas" são um outro aspecto aberrante que pegou desprevenidos os repórteres da equipe de Caco Barcellos. Isso porque sabemos dessa prática, completamente cheia de irregularidades, em que a veracidade é erroneamente reconhecida, mesmo quando mensagens apresentam apenas a caligrafia dos "médiuns" e expressam o mesmo apelo religioso, como se o mundo espiritual fosse uma grande igreja.
A reportagem cita até mesmo uma pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora, que com métodos duvidosos e confusos, embora pretensamente "rigorosos", apontaram que 98% das supostas cartas psicografadas por Chico Xavier teriam sido "exatas, precisas e verdadeiras", um resultado que não tem qualquer grau de validade séria.
Além dessa constatação ser bastante tendenciosa, sem verificar outros aspectos - como a semelhança de apelo religioso das mensagens, que destoam em muitos casos das personalidades originais dos jovens falecidos - , o único critério que se observa nas pesquisas é preservar a reputação de Chico Xavier, protegido por estereótipos diversos que vão da religiosidade à humildade.
E as "cartas psicografadas" tornam-se um processo leviano, sensacionalista, na qual a emotividade das famílias que perdem seus filhos é explorada da maneira mais constrangedora, já que a pieguice da exploração da tragédia alheia, da capitalização sobre a tristeza do outro, acaba servindo mais para propaganda dos "centros espíritas" do que para qualquer fim de aparente caridade.
É lamentável que um programa que queira ser considerado como de jornalismo sério, em que pese ser veiculado pela conservadora Rede Globo de Televisão - tão marcada negativamente por suas manobras ideológicas - tenha que servir de propaganda para as irregularidades do "espiritismo" brasileiro, que sabemos viver sempre de abordagens especulativas, fantasiosas e fraudulentas.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
"Espiritismo" e as relações amorosas
O "ESPIRITISMO" BRASILEIRO COSTUMA COMPLICAR A VIDA DE CASAIS AFINS.
O "espiritismo" brasileiro é uma doutrina de condenações e pregações moralistas. A vida na Terra é uma penitenciária e só os que cometem erros graves é que são beneficiados pelo "fiado" de só pagarem pelos seus pecados daqui a uma ou duas encarnações.
Com isso, a pessoa que é dotada de uma significativa evolução espiritual é convidada a sofrer todo tipo de infortúnio na vida, mesmo que seja para parecer um personagem de Franz Kafka, suportando pesadas provações das quais não encontra razão consistente sequer para provocá-las. Mas como tudo é colocado na conta de "faltas passadas", o pessoal "espírita" logo aceita.
Assim, os atrasados pagam menos, vivem mais e podem expressar seus exemplos para a geração de seus netos e bisnetos. Quem é evoluído paga mais, vive menos e mal consegue criar um legado para a posteridade, com sua missão incompleta e, em muitos aspectos, natimorta.
Na vida amorosa, o reflexo desse mau agouro que a "doutrina do amor e da luz" influencia, direta ou indiretamente, nas pessoas, é que as melhores relações amorosas, baseadas na evolução espiritual, nas leis de atração e de amor e na afinidade de personalidades, são as que mais sofrem dificuldades em se consolidarem e se prolongarem.
É de chorar que o "espiritismo" ainda fala em "almas-gêmeas", diante de tantos casos de separações forçadas de casais potencialmente afins, seja porque os dois entes nem chegam a iniciar uma relação de namoro e pelo menos um deles se compromete com outro alguém de menor afinidade, ou seja quando a tragédia dissolve o casal deixando um deles na viuvez.
Autoritário, o próprio "espiritismo" prefere enfatizar as "uniões provacionais", dentro daquele espírito medieval de pregar "resgates morais" até na formação de casais. criando relações de conveniências ditadas não por famílias aristocráticas em negociação na Terra, mas pela "iluminada família espírita que nos quer bem".
NO BRASIL, ESTIMULA-SE A FORMAÇÃO DE CASAIS SEM AFINIDADE
Há uma estranha tradição, no Brasil, de que se deve estimular a formação de casais sem afinidade, sob a desculpa do "livre convívio das diferenças", do "aprendizado mútuo" e da "superação de divergências". Tanto que existe um ditado que diz "os opostos se atraem", uma equivocada analogia ao que ocorre, na Física, com prótons e elétrons.
Nas mídias sociais, o que há é a pregação politicamente correta de pessoas que recomendam que homens solitários namorem as mulheres que eles conseguem atrair, que não têm qualquer afinidade espiritual com eles. Recusá-las é visto como uma forma de "preconceito".
No machismo, existe até a norma de que o homem não pode recusar o assédio de qualquer mulher. A primeira que surge paquerando tem que ser aceita, sob pena do rapaz ser humilhado pelos seus amigos, diante de tamanha recusa.
Só que esse "maravilhoso" mundo dos casais sem afinidade, que tantas teorias "maravilhosas" são divulgadas nas mídias sociais, dentro do espírito politicamente correto, são fontes de casamentos bastante infelizes, não raro com desfechos trágicos.
Na melhor das hipóteses, os casais sem afinidade geram, na maioria das vezes, mulheres estressadas e homens preguiçosos, em relações que se arrastam como uma animosidade tolerada entre os cônjuges. Há até a típica cena do marido barrigudo que, cerveja na mão, pede à mulher para fazer pipoca ou trazer outra lata de cerveja.
Na pior delas, as relações terminam nos feminicídios que dramaticamente dominaram as estatísticas até Dilma Rousseff sancionar lei que os considera crimes hediondos. Em alguns casos, ocorre o inverso, com mulheres agredidas matando seus maridos para se prevenirem de suas represálias ou, em outras ocasiões, porque são elas mesmo as mais violentas.
Isso contrasta o que acontece no Primeiro Mundo, em que observa, sobretudo no âmbito das celebridades, que os casais que não possuem muita afinidade se divorciam "por "diferenças irreconciliáveis". Lá existe a consciência de não ficar "carregando casamento", como ocorre no Brasil.
SITUAÇÃO CONFUSA
O Brasil que acha que vai comandar o mundo e se tornar o farol da humanidade planetária está muito atrasado no âmbito das relações amorosas. A baixa valorização dos casais afins, numa sociedade marcada pela indiferença, pelo desprezo ao ser humano e pelo desrespeito ao outro, aliado ao egocentrismo das conveniências e do "jeitinho", cria uma situação bastante confusa.
Por exemplo, os casais passam a se unirem apenas porque frequentam os mesmos restaurantes por um longo período de tempo. Os processos de atração, unilaterais, forçam principalmente a união de homens e mulheres sem a menor afinidade entre si, mas que são apenas solteiros em longa data.
Os casamentos que, em maioria, mais se dissolvem são aqueles em que existe uma afinidade relativa mas de certo modo significativa. E os que mais duram são aqueles que não possuem a menor afinidade, sobretudo quando é aquela mulher de personalidade moderna e arrojada que se casa com um empresário que tende a ter um comportamento sisudo e pouco sensível.
Isto quer dizer que as "diferenças irreconciliáveis", que nos EUA e na Europa são motivo para o divórcio, no Brasil eles não atrapalham a manutenção do casamento, já que o divórcio é visto como um processo economica e socialmente custoso.
Neste caso, a gente observa que, quando casais com alguma afinidade se separam, é porque a relação deles é livre e espontânea a ponto de se dissolverem sem qualquer problema. Já no caso dos casais sem afinidade, o processo é mais trabalhoso pela rede de conveniências que tal relação envolve.
Primeiro, o divórcio, em si, pode gerar uma pensão alimentícia onerosa e problemática, que aumentará o conflito do casal em separação. Segundo, ele causará traumas nos filhos, não raro ainda crianças. Terceiro, ele romperá com uma rede de relações que envolve vizinhos, sócios, colegas de trabalho, contatos influentes e poderá afetar a ascensão sócio-econômica do casal.
É uma situação estranha, surreal, mas que é própria de um Brasil marcado por um conservadorismo ideológico e moral típicos, que oferecem condições para a ideologia "espírita" que conhecemos. E que lição isso poderá trazer para o mundo, não sabemos, a não ser para ensinar o que não se deve ser feito. E isso mantém o Brasil ainda em retaguarda na comunidade das nações.
O "espiritismo" brasileiro é uma doutrina de condenações e pregações moralistas. A vida na Terra é uma penitenciária e só os que cometem erros graves é que são beneficiados pelo "fiado" de só pagarem pelos seus pecados daqui a uma ou duas encarnações.
Com isso, a pessoa que é dotada de uma significativa evolução espiritual é convidada a sofrer todo tipo de infortúnio na vida, mesmo que seja para parecer um personagem de Franz Kafka, suportando pesadas provações das quais não encontra razão consistente sequer para provocá-las. Mas como tudo é colocado na conta de "faltas passadas", o pessoal "espírita" logo aceita.
Assim, os atrasados pagam menos, vivem mais e podem expressar seus exemplos para a geração de seus netos e bisnetos. Quem é evoluído paga mais, vive menos e mal consegue criar um legado para a posteridade, com sua missão incompleta e, em muitos aspectos, natimorta.
Na vida amorosa, o reflexo desse mau agouro que a "doutrina do amor e da luz" influencia, direta ou indiretamente, nas pessoas, é que as melhores relações amorosas, baseadas na evolução espiritual, nas leis de atração e de amor e na afinidade de personalidades, são as que mais sofrem dificuldades em se consolidarem e se prolongarem.
É de chorar que o "espiritismo" ainda fala em "almas-gêmeas", diante de tantos casos de separações forçadas de casais potencialmente afins, seja porque os dois entes nem chegam a iniciar uma relação de namoro e pelo menos um deles se compromete com outro alguém de menor afinidade, ou seja quando a tragédia dissolve o casal deixando um deles na viuvez.
Autoritário, o próprio "espiritismo" prefere enfatizar as "uniões provacionais", dentro daquele espírito medieval de pregar "resgates morais" até na formação de casais. criando relações de conveniências ditadas não por famílias aristocráticas em negociação na Terra, mas pela "iluminada família espírita que nos quer bem".
NO BRASIL, ESTIMULA-SE A FORMAÇÃO DE CASAIS SEM AFINIDADE
Há uma estranha tradição, no Brasil, de que se deve estimular a formação de casais sem afinidade, sob a desculpa do "livre convívio das diferenças", do "aprendizado mútuo" e da "superação de divergências". Tanto que existe um ditado que diz "os opostos se atraem", uma equivocada analogia ao que ocorre, na Física, com prótons e elétrons.
Nas mídias sociais, o que há é a pregação politicamente correta de pessoas que recomendam que homens solitários namorem as mulheres que eles conseguem atrair, que não têm qualquer afinidade espiritual com eles. Recusá-las é visto como uma forma de "preconceito".
No machismo, existe até a norma de que o homem não pode recusar o assédio de qualquer mulher. A primeira que surge paquerando tem que ser aceita, sob pena do rapaz ser humilhado pelos seus amigos, diante de tamanha recusa.
Só que esse "maravilhoso" mundo dos casais sem afinidade, que tantas teorias "maravilhosas" são divulgadas nas mídias sociais, dentro do espírito politicamente correto, são fontes de casamentos bastante infelizes, não raro com desfechos trágicos.
Na melhor das hipóteses, os casais sem afinidade geram, na maioria das vezes, mulheres estressadas e homens preguiçosos, em relações que se arrastam como uma animosidade tolerada entre os cônjuges. Há até a típica cena do marido barrigudo que, cerveja na mão, pede à mulher para fazer pipoca ou trazer outra lata de cerveja.
Na pior delas, as relações terminam nos feminicídios que dramaticamente dominaram as estatísticas até Dilma Rousseff sancionar lei que os considera crimes hediondos. Em alguns casos, ocorre o inverso, com mulheres agredidas matando seus maridos para se prevenirem de suas represálias ou, em outras ocasiões, porque são elas mesmo as mais violentas.
Isso contrasta o que acontece no Primeiro Mundo, em que observa, sobretudo no âmbito das celebridades, que os casais que não possuem muita afinidade se divorciam "por "diferenças irreconciliáveis". Lá existe a consciência de não ficar "carregando casamento", como ocorre no Brasil.
SITUAÇÃO CONFUSA
O Brasil que acha que vai comandar o mundo e se tornar o farol da humanidade planetária está muito atrasado no âmbito das relações amorosas. A baixa valorização dos casais afins, numa sociedade marcada pela indiferença, pelo desprezo ao ser humano e pelo desrespeito ao outro, aliado ao egocentrismo das conveniências e do "jeitinho", cria uma situação bastante confusa.
Por exemplo, os casais passam a se unirem apenas porque frequentam os mesmos restaurantes por um longo período de tempo. Os processos de atração, unilaterais, forçam principalmente a união de homens e mulheres sem a menor afinidade entre si, mas que são apenas solteiros em longa data.
Os casamentos que, em maioria, mais se dissolvem são aqueles em que existe uma afinidade relativa mas de certo modo significativa. E os que mais duram são aqueles que não possuem a menor afinidade, sobretudo quando é aquela mulher de personalidade moderna e arrojada que se casa com um empresário que tende a ter um comportamento sisudo e pouco sensível.
Isto quer dizer que as "diferenças irreconciliáveis", que nos EUA e na Europa são motivo para o divórcio, no Brasil eles não atrapalham a manutenção do casamento, já que o divórcio é visto como um processo economica e socialmente custoso.
Neste caso, a gente observa que, quando casais com alguma afinidade se separam, é porque a relação deles é livre e espontânea a ponto de se dissolverem sem qualquer problema. Já no caso dos casais sem afinidade, o processo é mais trabalhoso pela rede de conveniências que tal relação envolve.
Primeiro, o divórcio, em si, pode gerar uma pensão alimentícia onerosa e problemática, que aumentará o conflito do casal em separação. Segundo, ele causará traumas nos filhos, não raro ainda crianças. Terceiro, ele romperá com uma rede de relações que envolve vizinhos, sócios, colegas de trabalho, contatos influentes e poderá afetar a ascensão sócio-econômica do casal.
É uma situação estranha, surreal, mas que é própria de um Brasil marcado por um conservadorismo ideológico e moral típicos, que oferecem condições para a ideologia "espírita" que conhecemos. E que lição isso poderá trazer para o mundo, não sabemos, a não ser para ensinar o que não se deve ser feito. E isso mantém o Brasil ainda em retaguarda na comunidade das nações.
terça-feira, 7 de abril de 2015
"Espiritismo" e a ilusão das "almas gêmeas"
ILUSTRAÇÃO MISTIFICADORA MOSTRA A COMPREENSÃO "ESPÍRITA" DO MITO DAS "ALMAS GÊMEAS".
Um dos maiores mitos defendidos pelo "movimento espírita" é o das "almas-gêmeas", do qual estabelecem supostas teorias "científicas" e "racionais" para algo que, no sentido antropológico e sociológico, é bastante discutível e duvidoso.
Costumamos classificar os espíritos afins como "almas-gêmeas" no sentido da imaginação poética, como uma licença própria do lirismo sentimental, de sentido mais metafórico. Mas isso não significa que isso tenha validade científica, pois, da forma como prega o "espiritismo" brasileiro, é como se houvesse a ideia de haver "espíritos siameses", o que na verdade é uma ótica materialista.
A ideia de "almas-gêmeas" superestima o fato de duplas de indivíduos, geralmente um casal heterossexual de acordo com o conservadorismo católico herdado pelo "espiritismo" brasileiro, com uma mitificação que vem do Velho Testamento, com a Arca de Noé e a lenda de que espécies animais, incluindo a humana, teriam necessariamente uma forma feminina e masculina no embarque do grande navio, a proteger da enchente (o dito "Grande Dilúvio").
Que existem pessoas dotadas de muita afinidade espiritual, isso é possível. Mas a realidade é tão complexa que é difícil enumerar até que ponto essas pessoas podem ser afins e até quando podem permanecer nessa condição, sem falar da ampla diferença e variedade de casos e circunstâncias.
A mitificação "espírita", no entanto, pressupõe que as "almas-gêmeas" são uma espécie de "espíritos-grudes", talvez esta seja até a melhor denominação para as fantasias defendidas pelos "espíritas", que adotam uma visão materialista do que entendem como espíritos afins, que na sua crença estão "grudados um no outro" no decorrer de encarnações.
Essa visão materialista está de acordo com a abordagem "espírita" de renegar individualidades. como se nota em relação às tragédias coletivas, entendidas como um "ajuntamento cármico" de diferentes pessoas que, na verdade, nem se conheciam direito antes de morrerem juntas. As "almas-gêmeas" também são uma recusa dessa individualidade.
O QUE DIZ EMMANUEL
O autoritário jesuíta Emmanuel, provavelmente um dos poucos espíritos a se manifestar em Chico Xavier, era um entusiasma na ideia de "espíritos-grudes", ele, o medieval catequizador que, mesmo na sua manifestação sobre o anti-médium mineiro, ainda acreditava que negros e indígenas eram "animais selvagens", um exemplo de evidente preconceito racial.
No livro O Consolador, em 1941, há uma "entrevista" - um arremedo do que se observa em obras de Allan Kardec, como O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo - em que o jesuíta faz suas pregações religiosas conservadoras e cientificamente pedantes, enquanto também lança um poema dotado do mais piegas e enjoativo sentimentalismo.
Reproduzimos então a "entrevista" de Emmanuel publicada no referido livro, o mesmo das declarações machistas dadas ao "mentor" de Francisco Cândido Xavier. Mais abaixo, publicamos o referido poema.
Pedimos para os leitores apreciarem com a máxima cautela e rigorosa vigilância os textos a seguir, para não se entorpecerem nem se deixarem seduzir-se pelo aparente tom sentimental e dócil de tais mensagens. Elas aqui aparecem para serem analisadas e demonstrar o que diz a ideologia "espírita" em relação ao referido tema.
ENTREVISTA PUBLICADA EM O CONSOLADOR - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER, PELO ESPÍRITO EMMANUEL - FEB, 1941, Pags. 322 a 330.
Há uma gradação do amor, no seio das manifestações da natureza visível e invisível?
- Sem dúvida, essa gradação existiu em todos os tempos, como gradativa é a posição de todos os seres na escala infinita do progresso. O amor é a lei própria da vida e, sob o seu domínio sagrado, todas as criaturas e todas as coisas se reúnem ao Criador, dentro do plano grandioso da unidade
universal.
Desde as manifestações mais humildes dos reinos inferiores da Natureza, observamos a exteriorização do amor em sua feição divina. Na poeira cósmica, sínteses da vida, têm as atrações magnéticas profundas; nos corpos simples, vemos as chamadas “precipitações” da química; nos reinos mineral e vegetal verificamos o problema das combinações indispensáveis. Nas expressões da vida animal; observamos o amor em todo, em gradações infinitas, da violência à ternura, nas manifestações do irracional.
No caminho dos homens é ainda o amor que preside a todas as atividades da existência em família e em sociedade. Reconhecida a sua luz divina em todos os ambientes, observaremos a união dos seres como um ponto sagrado, de referência dessa lei única que dirige o Universo.
Das expressões de sexualidade, o amor caminha para o supersexualismo, marchando sempre para as sublimadas emoções da espiritualidade pura, pela renúncia e pelo trabalho santificantes, até alcançar o amor divino, atributo dos seres angelicais, que se edificaram para a união com Deus, na execução de seus sagrados desígnios do Universo.
Será uma verdade a teoria das almas gêmeas?
- No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade.
Criadas umas para as outras, as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou na inconsciência, experimentaram a separação das almas que os sustentam, como a provação mais ríspida e dolorosa, e, no drama das existências mais obscuras, vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, envolvendo umas para as outras num turbilhão de ansiedades angustiosas; atração que é superior a todas as expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram no acervo real para os seus corações – a da ventura de sua união pela qual não trocariam todos os impérios do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio dissipar, descerrando para todos os espíritos, amantes do bem e da verdade, os horizontes eternos da vida.
Existe nos textos sagrados algum elemento de comprovação para a teoria das almas gêmeas?
- Somos dos primeiros a reconhecer que em todos os textos necessitamos separar o espírito da letra; contudo, é justo lembrar que nas primeiras páginas do Antigo Testamento, base da Revelação Divina, está registrada: “e Deus considerou que o homem não devia ficar só”.
A atração das almas gêmeas é traço característico de todos os planos de luta na Terra?
- O Universo é o plano infinito que o pensamento divino povoou de ilimitadas e intraduzíveis belezas.
Para todos nós, o primeiro instante da criação do ser está mergulhado num suave mistério, assim como também a atração profunda e inexplicável que arrasta uma alma para outra, no instituto dos trabalhos, das experiências e das provas, no caminho infinito do Tempo.
A ligação das almas gêmeas repousa, para o nosso conhecimento relativo, nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem, constituindo a fonte vital do interesse das criaturas para as edificações da vida. Separadas ou unidas nas experiências do mundo, as almas irmãs caminham, ansiosas, pela união e pela harmonia supremas, até que se integrem, no plano espiritual, onde se reúnem para sempre na mais sublime expressão de amor divino, finalidades profundas de todas as cogitações do ser, no Dédalo do destino.
A união das almas gêmeas pode constituir restrição ao amor universal?
O amor das almas gêmeas não pode efetuar semelhante restrição, porquanto, atingida a culminância evolutiva, todas as expressões afetivas se irmanam na conquista do amor divino. O amor das almas gêmeas, em suma, é aquele que o Espírito, um dia, sentirá pela Humanidade inteira.
Se todos os seres possuem a sua alma gêmea, qual a alma gêmea de Jesus-Cristo?
- Não julguemos acertado trazer a figura do Cristo para condiciona-la aos meios humanos, num paralelismo injustificável, porquanto em Jesus temos de observar a finalidade sagrada dos gloriosos destinos do espírito.
N’Ele cessaram os processos, sendo indispensável reconhecer na sua luz as realizações que nos compete atingir. Representando para nós outros a síntese do amor divino, somos compelidos a considerar que de sua culminância espiritual enlaçou no seu coração magnânimo, com a mesma dedicação, a Humanidade inteira, depois de realizar o amor supremo.
Perante a teoria das almas gêmeas, como esclarecer a situação dos viúvos que procuram, novas uniões matrimoniais, alegando a felicidade encontrada no lar primitivo?
- Não devemos esquecer que a Terra ainda é uma escola de lutas regeneradoras ou expiatórias, onde o homem pode consorciar-se várias vezes, sem que a sua união matrimonial se efetue com a alma gêmea da sua, muitas vezes distante da esfera material.
A criatura transviada, até que se espiritualize para a compreensão desses laços sublimes, está submetida, no mapa de suas provações, a tais experiências, por vezes pesadas e dolorosas. A situação de inquietude e subversão de valores na alma humana justifica essa provação terrestre, caracterizada pela distância dos Espíritos amados, que se encontram num plano de compreensão superior, os quais, longe de desdenharem as boas experiências dos companheiros de seus afetos, buscam facultar-lhes com a máxima dedicação, de modo a facilitar o seu avanço direto às mais elevadas conquistas espirituais.
Os Espíritos evolutidos, pelo fato de deixarem algum amado na Terra, ficam ligados ao planeta pelos laços da saudade?
- Os espíritos superiores não ficam propriamente ligados ao orbe terreno, mas não perdem o interesse afetivo pelos seres amados que deixaram no mundo, pelos quais trabalham com ardor, impulsionando-os na estrada das lutas redentoras, em busca das culminâncias da perfeição.
A saudade, nessas almas santificadas e puras, é muito mais sublime e mais forte, por nascer de uma sensibilidade superior, salientando-se que, convertida num interesse divino, opera as grandes abnegações do Céu, que seguem os passos vacilantes do Espírito encarnado, através de sua peregrinação expiatória ou redentora na face da Terra.
Somente pela prece a alma encarnada pode auxiliar um Espírito bem-amado que a antecedeu na jornada do túmulo?
- A oração coopera eficazmente em favor do que partiu, muitas vezes com o espírito emaranhado na rede das ilusões da existência material. Todavia, o coração amigo que ficou aí no mundo, pela vibração silenciosa e pelo desejo perseverante de ser útil ao companheiro que o precedeu na sepultura, para os movimentos da vida, nos momentos de repouso do corpo, em que a alma evoluída pode gozar de relativa liberdade, pode encontrar o Espírito sofredor ou errante do amigo desencarnado, despertar-lhe à vontade no cumprimento do dever, bem como orienta-lo sobre a sua realidade nova, sem que a sua memória corporal registre o acontecimento na vigília comum.
Daí nasce à afirmativa de que somente o amor pode atravessar o abismo da morte.
==========
ALMAS GÊMEAS (POEMA)
Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .
Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.
Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !
És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !
Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...
Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus.
Um dos maiores mitos defendidos pelo "movimento espírita" é o das "almas-gêmeas", do qual estabelecem supostas teorias "científicas" e "racionais" para algo que, no sentido antropológico e sociológico, é bastante discutível e duvidoso.
Costumamos classificar os espíritos afins como "almas-gêmeas" no sentido da imaginação poética, como uma licença própria do lirismo sentimental, de sentido mais metafórico. Mas isso não significa que isso tenha validade científica, pois, da forma como prega o "espiritismo" brasileiro, é como se houvesse a ideia de haver "espíritos siameses", o que na verdade é uma ótica materialista.
A ideia de "almas-gêmeas" superestima o fato de duplas de indivíduos, geralmente um casal heterossexual de acordo com o conservadorismo católico herdado pelo "espiritismo" brasileiro, com uma mitificação que vem do Velho Testamento, com a Arca de Noé e a lenda de que espécies animais, incluindo a humana, teriam necessariamente uma forma feminina e masculina no embarque do grande navio, a proteger da enchente (o dito "Grande Dilúvio").
Que existem pessoas dotadas de muita afinidade espiritual, isso é possível. Mas a realidade é tão complexa que é difícil enumerar até que ponto essas pessoas podem ser afins e até quando podem permanecer nessa condição, sem falar da ampla diferença e variedade de casos e circunstâncias.
A mitificação "espírita", no entanto, pressupõe que as "almas-gêmeas" são uma espécie de "espíritos-grudes", talvez esta seja até a melhor denominação para as fantasias defendidas pelos "espíritas", que adotam uma visão materialista do que entendem como espíritos afins, que na sua crença estão "grudados um no outro" no decorrer de encarnações.
Essa visão materialista está de acordo com a abordagem "espírita" de renegar individualidades. como se nota em relação às tragédias coletivas, entendidas como um "ajuntamento cármico" de diferentes pessoas que, na verdade, nem se conheciam direito antes de morrerem juntas. As "almas-gêmeas" também são uma recusa dessa individualidade.
O QUE DIZ EMMANUEL
O autoritário jesuíta Emmanuel, provavelmente um dos poucos espíritos a se manifestar em Chico Xavier, era um entusiasma na ideia de "espíritos-grudes", ele, o medieval catequizador que, mesmo na sua manifestação sobre o anti-médium mineiro, ainda acreditava que negros e indígenas eram "animais selvagens", um exemplo de evidente preconceito racial.
No livro O Consolador, em 1941, há uma "entrevista" - um arremedo do que se observa em obras de Allan Kardec, como O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo - em que o jesuíta faz suas pregações religiosas conservadoras e cientificamente pedantes, enquanto também lança um poema dotado do mais piegas e enjoativo sentimentalismo.
Reproduzimos então a "entrevista" de Emmanuel publicada no referido livro, o mesmo das declarações machistas dadas ao "mentor" de Francisco Cândido Xavier. Mais abaixo, publicamos o referido poema.
Pedimos para os leitores apreciarem com a máxima cautela e rigorosa vigilância os textos a seguir, para não se entorpecerem nem se deixarem seduzir-se pelo aparente tom sentimental e dócil de tais mensagens. Elas aqui aparecem para serem analisadas e demonstrar o que diz a ideologia "espírita" em relação ao referido tema.
ENTREVISTA PUBLICADA EM O CONSOLADOR - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER, PELO ESPÍRITO EMMANUEL - FEB, 1941, Pags. 322 a 330.
Há uma gradação do amor, no seio das manifestações da natureza visível e invisível?
- Sem dúvida, essa gradação existiu em todos os tempos, como gradativa é a posição de todos os seres na escala infinita do progresso. O amor é a lei própria da vida e, sob o seu domínio sagrado, todas as criaturas e todas as coisas se reúnem ao Criador, dentro do plano grandioso da unidade
universal.
Desde as manifestações mais humildes dos reinos inferiores da Natureza, observamos a exteriorização do amor em sua feição divina. Na poeira cósmica, sínteses da vida, têm as atrações magnéticas profundas; nos corpos simples, vemos as chamadas “precipitações” da química; nos reinos mineral e vegetal verificamos o problema das combinações indispensáveis. Nas expressões da vida animal; observamos o amor em todo, em gradações infinitas, da violência à ternura, nas manifestações do irracional.
No caminho dos homens é ainda o amor que preside a todas as atividades da existência em família e em sociedade. Reconhecida a sua luz divina em todos os ambientes, observaremos a união dos seres como um ponto sagrado, de referência dessa lei única que dirige o Universo.
Das expressões de sexualidade, o amor caminha para o supersexualismo, marchando sempre para as sublimadas emoções da espiritualidade pura, pela renúncia e pelo trabalho santificantes, até alcançar o amor divino, atributo dos seres angelicais, que se edificaram para a união com Deus, na execução de seus sagrados desígnios do Universo.
Será uma verdade a teoria das almas gêmeas?
- No sagrado mistério da vida, cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem à gloriosa imortalidade.
Criadas umas para as outras, as almas gêmeas se buscam, sempre que separadas. A união perene é-lhes a aspiração suprema e indefinível. Milhares de seres, se transviados no crime ou na inconsciência, experimentaram a separação das almas que os sustentam, como a provação mais ríspida e dolorosa, e, no drama das existências mais obscuras, vemos sempre a atração eterna das almas que se amam mais intimamente, envolvendo umas para as outras num turbilhão de ansiedades angustiosas; atração que é superior a todas as expressões convencionais da vida terrestre. Quando se encontram no acervo real para os seus corações – a da ventura de sua união pela qual não trocariam todos os impérios do mundo, e a única amargura que lhes empana a alegria é a perspectiva de uma nova separação pela morte, perspectiva essa que a luz da Nova Revelação veio dissipar, descerrando para todos os espíritos, amantes do bem e da verdade, os horizontes eternos da vida.
Existe nos textos sagrados algum elemento de comprovação para a teoria das almas gêmeas?
- Somos dos primeiros a reconhecer que em todos os textos necessitamos separar o espírito da letra; contudo, é justo lembrar que nas primeiras páginas do Antigo Testamento, base da Revelação Divina, está registrada: “e Deus considerou que o homem não devia ficar só”.
A atração das almas gêmeas é traço característico de todos os planos de luta na Terra?
- O Universo é o plano infinito que o pensamento divino povoou de ilimitadas e intraduzíveis belezas.
Para todos nós, o primeiro instante da criação do ser está mergulhado num suave mistério, assim como também a atração profunda e inexplicável que arrasta uma alma para outra, no instituto dos trabalhos, das experiências e das provas, no caminho infinito do Tempo.
A ligação das almas gêmeas repousa, para o nosso conhecimento relativo, nos desígnios divinos, insondáveis na sua sagrada origem, constituindo a fonte vital do interesse das criaturas para as edificações da vida. Separadas ou unidas nas experiências do mundo, as almas irmãs caminham, ansiosas, pela união e pela harmonia supremas, até que se integrem, no plano espiritual, onde se reúnem para sempre na mais sublime expressão de amor divino, finalidades profundas de todas as cogitações do ser, no Dédalo do destino.
A união das almas gêmeas pode constituir restrição ao amor universal?
O amor das almas gêmeas não pode efetuar semelhante restrição, porquanto, atingida a culminância evolutiva, todas as expressões afetivas se irmanam na conquista do amor divino. O amor das almas gêmeas, em suma, é aquele que o Espírito, um dia, sentirá pela Humanidade inteira.
Se todos os seres possuem a sua alma gêmea, qual a alma gêmea de Jesus-Cristo?
- Não julguemos acertado trazer a figura do Cristo para condiciona-la aos meios humanos, num paralelismo injustificável, porquanto em Jesus temos de observar a finalidade sagrada dos gloriosos destinos do espírito.
N’Ele cessaram os processos, sendo indispensável reconhecer na sua luz as realizações que nos compete atingir. Representando para nós outros a síntese do amor divino, somos compelidos a considerar que de sua culminância espiritual enlaçou no seu coração magnânimo, com a mesma dedicação, a Humanidade inteira, depois de realizar o amor supremo.
Perante a teoria das almas gêmeas, como esclarecer a situação dos viúvos que procuram, novas uniões matrimoniais, alegando a felicidade encontrada no lar primitivo?
- Não devemos esquecer que a Terra ainda é uma escola de lutas regeneradoras ou expiatórias, onde o homem pode consorciar-se várias vezes, sem que a sua união matrimonial se efetue com a alma gêmea da sua, muitas vezes distante da esfera material.
A criatura transviada, até que se espiritualize para a compreensão desses laços sublimes, está submetida, no mapa de suas provações, a tais experiências, por vezes pesadas e dolorosas. A situação de inquietude e subversão de valores na alma humana justifica essa provação terrestre, caracterizada pela distância dos Espíritos amados, que se encontram num plano de compreensão superior, os quais, longe de desdenharem as boas experiências dos companheiros de seus afetos, buscam facultar-lhes com a máxima dedicação, de modo a facilitar o seu avanço direto às mais elevadas conquistas espirituais.
Os Espíritos evolutidos, pelo fato de deixarem algum amado na Terra, ficam ligados ao planeta pelos laços da saudade?
- Os espíritos superiores não ficam propriamente ligados ao orbe terreno, mas não perdem o interesse afetivo pelos seres amados que deixaram no mundo, pelos quais trabalham com ardor, impulsionando-os na estrada das lutas redentoras, em busca das culminâncias da perfeição.
A saudade, nessas almas santificadas e puras, é muito mais sublime e mais forte, por nascer de uma sensibilidade superior, salientando-se que, convertida num interesse divino, opera as grandes abnegações do Céu, que seguem os passos vacilantes do Espírito encarnado, através de sua peregrinação expiatória ou redentora na face da Terra.
Somente pela prece a alma encarnada pode auxiliar um Espírito bem-amado que a antecedeu na jornada do túmulo?
- A oração coopera eficazmente em favor do que partiu, muitas vezes com o espírito emaranhado na rede das ilusões da existência material. Todavia, o coração amigo que ficou aí no mundo, pela vibração silenciosa e pelo desejo perseverante de ser útil ao companheiro que o precedeu na sepultura, para os movimentos da vida, nos momentos de repouso do corpo, em que a alma evoluída pode gozar de relativa liberdade, pode encontrar o Espírito sofredor ou errante do amigo desencarnado, despertar-lhe à vontade no cumprimento do dever, bem como orienta-lo sobre a sua realidade nova, sem que a sua memória corporal registre o acontecimento na vigília comum.
Daí nasce à afirmativa de que somente o amor pode atravessar o abismo da morte.
==========
ALMAS GÊMEAS (POEMA)
Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .
Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.
Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !
És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !
Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...
Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus.
Assinar:
Postagens (Atom)






