quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mito do "Brasil Coração do Mundo" revela supremacia perigosa

"BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO" - ESSA HISTÓRIA A GENTE VIU COM OUTRO PAÍS. E NÃO FOI BOA.

Um alerta se faz aqui neste blogue sobre o gravíssimo perigo que se tem em classificar o Brasil como "coração do mundo", denúncia esta que caberia ser divulgada para toda a humanidade, se tivéssemos a visibilidade necessária para fazê-lo.

Pois o "dócil" recado de Francisco Cândido Xavier, se apropriando do nome do falecido escritor Humberto de Campos - que nunca teria escrito um livro tipo Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho - para anunciar que o Brasil será o "centro da humanidade futura" na Terra, esconde uma ameaça de proporções assustadoras.

Tais "profecias" revelam, mesmo sob um discurso que se pretende ser dócil, meigo e apenas "conselheiro", em muitos casos provenientes da retórica alarmista do traiçoeiro Emmanuel, o lado sombrio de Chico Xavier, tão associado à imagem amorosa, mas afeito a fazer ou reafirmar julgamentos moralistas tão rancorosos, através do mito do "Deus punitivo".

O anti-médium, promovido ao status pretensioso e falso de filósofo, profeta e cientista, resgatou a antiga obsessão centralizadora do Catolicismo medieval do Império Romano, a desejar também a "união de todos os povos" e a punição aos hereges, promovendo a centralização da humanidade em torno de uma religião marcada pelo moralismo sanguinário e pelo autoritarismo.

Através de pretensas profecias divulgadas desde 1969 e agora veiculadas em vários vídeos "espíritas" e no filme Data Limite, Segundo Chico Xavier, de Fábio Medeiros, podemos analisar as intenções nada positivas dessas falsas previsões, baseadas na "psicologia do medo" ou "psicologia do terror" para fazer as pessoas, intimidadas, a aderir ao "espiritismo" de moldes católicos-medievais.

Junta-se a intenção centralizadora do Catolicismo medieval, com o contexto do mundo quando foi lançado o livro atribuído ao autor de O Brasil Anedótico e que destoa e muito do estilo do falecido escritor brasileiro do começo do século XX. O que nos faz assustar com a intenção de Chico Xavier em transformar o Brasil em "centro da humanidade".

O mundo se "destruiria" a partir de 2019, com os "castigos da Natureza", enquanto o Brasil criava condições de ascensão na "comunidade das nações", se convertendo em "potência central da humanidade futura". Essa tese remete ao mito do "castigo divino" do Catolicismo medieval, presente também em Roustaing, do qual Chico Xavier sempre foi seu fiel seguidor.

E justamente quando o Brasil passa por uma série de retrocessos, em que projetos de âmbito social, político, econômico, cultural e outros âmbitos são controlados por elites desprovidas de senso ético ou mesmo de qualquer apreciação do interesse público, prevalecem, que chega um grupo de religiosos dizendo que o país será a "vanguarda da humanidade mundial". Vanguarda?

E o Hemisfério Norte que, bem ou mal, vive uma revisão de valores, em que a cultura europeia se pauta numa reflexão de tudo que foi feito de bom ou de ruim por seu povo, notável sobretudo na linha reflexiva e cética do cinema europeu atual, e em que os Estados Unidos vivem também o questionamento de sua mediocrização cultural, agora sofre esse desejo rancoroso de destruição por parte de uns pseudo-profetas brasileiros.

Somando as pretensas previsões que supõem a destruição do Hemisfério Norte e a elevação do Brasil em "centro da humanidade" descrita por toda a trajetória do "espiritismo" chiquista, com os fatos históricos que aconteceram entre 1932 e 1945, nota-se uma certa crueldade por trás de palavras tão "sublimes" trazidas pelo anti-médium mineiro e seu "protetor" jesuíta.

Um certo país europeu havia também lançado esse discurso de "centro da humanidade", criando também supostas "previsões" sobre povos que "deveriam desaparecer da Terra", portadores de supostos "males" a serem "extirpados". Isso resultou num cenário traumatizante, de dolorosas consequências para a humanidade.

Pois, numa observação cautelosa, comparamos esse famoso caso com o que Chico Xavier propôs com suas "profecias": as antigas civilizações, situadas na Europa, Ásia e América do Norte, seriam "exterminadas" por supostos cataclismas, enquanto os que poderiam sobreviver migrariam para o Brasil, que se transformava em "pátria central" para o "renascimento da humanidade cristã".

Analisemos. Um determinado país se ascende rumo a uma supremacia na Terra, enquanto povos contrários ao interesse geopolítico desse país são "eliminados" para dar passagem a um "reino de amor e luz" a durar por toda a eternidade.

Nem mesmo a dissimulação do discurso do "imperialismo brasileiro", definindo-o como "reino do amor" consegue convencer, já que o Catolicismo medieval, base teórica do "movimento espírita" brasileiro, já havia cometido injustiças e crueldades "em nome do amor e fé cristã". O totalitarismo pode adotar discurso melífluo para impor seus objetivos...

Não era essa a promessa de um certo déspota europeu, guardadas as devidas diferenças em relação ao que o anti-médium, no seu pré-julgamento, arrogou "prever"? E que também o Catolicismo medieval também prometeu, às custas dos sacrifícios de tantas vidas, em nome da predominância de um sistema de crenças e dogmas a ser elevado a uma supremacia de ordem política e social?

Essa "missão" totalitária atribuída ao Brasil, portanto, é um mito que, divulgado com palavras dóceis e tenras, revela seu preocupante oposto, pois, a pretexto de promover a "fraternidade", cria-se, na verdade, a ascensão centralizadora de um país às custas da tragédia rogada a outros povos.

Até que ponto se chegou o moralismo religioso do "movimento espírita" brasileiro, se equiparando a um dos mais lamentáveis episódios da história da humanidade do século XX.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Movimento espírita" pede para não julgarmos. Mas eles julgam!!

O "MOVIMENTO ESPÍRITA" BRASILEIRO RETOMA O MITO DO "CASTIGO DIVINO" DOS CATÓLICOS, USANDO COMO EXEMPLO A TSUNAMI NA ÁSIA EM 2004.

É muito perigoso transformar um pobre interiorano num semi-deus. Pois é isso que aconteceu com Chico Xavier, um modesto jovem mineiro, leitor de livros e devoto católico, que só por causa de alguns dons paranormais e pelo fato de conversar com a mãe falecida e com um padre jesuíta, foi promovido a posições que estiveram acima de seus limites humanos.

Sem conhecer coisa alguma da Doutrina Espírita, Chico virou "líder máximo" do Espiritismo. Médium razoável, a ele foram atribuídos superpoderes que na verdade ele não tinha tanto assim, como o mito dele ter sido o "Speed Racer da escrita mediúnica". Ele apenas conversava com jesuíta do além, com mãezinha falecida, "sonhava" acordado e poucas habilidades a mais.

No entanto, ele não só foi promovido a supermédium como virou dublê de pensador, com suas frases enfeitando perfis de gente em boa-fé no Facebook. De dublê de filósofo, virou pretenso profeta, a anunciar até mesmo o "fim dos tempos", de pretenso profeta virou suposto cientista, a "analisar" os rumos da humanidade, e de suposto cientista arrogou a ser o juíz final da Terra.

Sim, isso é altamente perigoso. E sabemos que o mito de Francisco Cândido Xavier foi armado pela Federação "Espírita" Brasileira, primeiramente nas bases explícitas do roustanguismo mais entusiasmado. E quando a crise do roustanguismo tornou-se insustentável, Xavier foi oportunista o bastante para pegar carona nos que reivindicavam fidelidade a Allan Kardec.

O "movimento espírita", através de mensagens ditadas pelo padre jesuíta Emmanuel - o Ermano Manuel da Nóbrega que queria desviar as tribos indígenas de suas culturas originais, escravizando-as no trabalho ou ao menos na fé do Catolicismo medieval português - , queria que nós, pobres mortais, não façamos julgamento dos atos referentes ao "movimento espírita".

"Não julgueis", escreveu certa vez Emmanuel. Mas ele, Chico Xavier e seus pares julgavam muito mais. E julgavam pior. De repente o "movimento espírita" tornou-se um movimento cujos líderes e astros - os ditos "médiuns" - viram donos dos mortos, juízes do tempo, sentenciadores do passado e senhores do futuro, num grave delito à natureza humana.

Eles queriam ser sobrenaturais, queriam estar acima do bem e do mal, ter a verdade em suas mãos, ficar com a última palavra. Não adianta a falsa modéstia desmentir isso, porque a prática muitas vezes escapa do repertório de dicionários e dos limites dos vocábulos. Os piores atos muitas vezes tentam se esconder pelo desmentimento fácil de palavras dóceis.

O que se nota é essa mania de julgar, de se apropriar da ciência sem entendê-la de fato. Há muitos maus conhecedores de ciências, no "movimento espírita", que tentam fazer-se entendedores daquilo que não sabem, fazendo pretensas previsões, falsos pareceres, corrompendo compreensões ligeiras e superficiais com delírios místicos, rancores moralistas e muito pedantismo.

DEUS PUNITIVO

A coisa é tão grave que o "movimento espírita" acabou resgatando o já esquecido mito do "Deus punitivo", agora restaurado pelas pretensas "profecias" de Chico Xavier, que havia feito previsões que inspiraram o livro Não Será em 2012, de Geraldo Lemos Neto e Marlene Nobre, e o filme Data Limite, Segundo Chico Xavier, de Fábio Medeiros.

Chico atribui à "punição da Natureza" a ocorrência de cataclismas feitos para punir o abuso violento dos homens. Segundo o anti-médium, a ocorrência de terremotos, ciclones, erupções vulcânicas e tsunamis é uma resposta à Natureza à falta de amor dos homens diante das ameaças de Terceira Guerra Mundial expressas pelo terrorismo e por focos diversos de ações violentas.

A interpretação é moralista, mística e esotérica. Afinal, se percebemos bem, os cataclismas ocorrem por intervenção humana, sim, mas por conta da poluição e da degradação ambiental, cujo desequilíbrio mexe com a estrutura dos elementos químicos, da diversidade biológica e geológica, causando os efeitos danosos próprios.

Além disso, a ocorrência de tsunamis, tremores e vendavais diversos e erupções vulcânicas não se deve a algum julgamento moralista, mas ao fato de que as estruturas geológicas localizadas em várias partes da Terra, como na Ásia e no oeste de todo o continente americano, são consideradas bastante recentes.

A "ira de Deus" que marcava os católicos medievais e impulsionava até as mais sanguinárias cruzadas a lutarem em defesa do que acreditavam ser o Cristianismo, volta através de Chico Xavier agora usando o nome do kardecismo para se voltar contra Allan Kardec, que havia dado palpites mais realistas sobre os rumos da humanidade.

Sem apelar para datas marcadas nem para cataclismas violentos e muito menos para um sensacionalismo pseudo-profético, Kardec apenas previu que a humanidade sofreria conflitos e injustiças, produzindo tragédias consequentes naturalmente pelos seus erros graves e se limitou a dizer que a evolução humana na Terra seria lenta e gradual, sem arriscar detalhes.

Já Chico Xavier, que não tinha a instrução nem a sabedoria de Kardec mas era dotado de altíssimo grau de pretensiosismo, teve o cinismo de "prever" até mesmo a destruição do Hemisfério Norte, o grande êxodo de seus sobreviventes para o Brasil e a conversão deste país em que vivemos em centro de reconstrução da humanidade na Terra.

Chico pareceu desejar prever um "imperialismo brasileiro", dentro de seu moralismo religioso. O anti-médium mineiro, mesmo bajulando Allan Kardec e se autoproclamando "fiel" a ele, mantém-se, na verdade, fiel ao "anjo Ismael", nas suas previsões do brasilocentrismo, num ufanismo um tanto hipócrita, porque a espiritualidade não tem pátrias nem limites territoriais de qualquer espécie.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Funk" e a "psicologia do medo" pregada por Chico Xavier

"BATALHA DO PASSINHO" NO TED GLOBAL - "Funk" é é o ritmo do "coração do mundo"?

Já advertimos que o "funk" é a trilha sonora da ideologia do "Brasil Coração do Mundo", já que os discursos de "evolução" e "progresso espiritual" dos ideólogos pró-funqueiros e do "movimento espírita" são exatamente os mesmos.

Se o "funk" fala em "cidadania", "alegria das periferias" e "identidades sócio-culturais", o "movimento espírita" vem com "progresso espiritual", "amor e luz" e "fraternidades cristãs", numa retórica bastante semelhante, guardadas as diferenças de contextos e diante da suposta erudição cultural das "lideranças espíritas" que dizem "não apreciar o 'funk'".

O TED Global é um exemplo ilustrativo desse contexto tendencioso de um ativismo de resultados, embora nele haja ideias pertinentes. Visões tecnocráticas e a inclusão do "funk" como paradigmas de uma nova "mentalidade", em paralelo com uma "nova espiritualidade" proposta por Chico Xavier, Emmanuel e companhia.

O "movimento espírita" brasileiro é muito materialista, é moralista e sensacionalista. Sua visão de "progresso espiritual" condiz muito a uma mentalidade tecnocrática no qual a máquina se torna um ativista social e o ser humano apenas um instrumento desse ativismo robotizado.

É o que se observa nesses ativistas, ou em organizações brasileiras como o Coletivo Fora do Eixo e outros movimentos ativistas patrocinados por George Soros, que só querem a liberdade sexual como um fim em si mesmo, a liberação das drogas e a submissão das rebeliões sociais à tecnologia, invertendo o processo antropológico do homem como interventor da tecnologia.

Aí, vem o apoio do "funk" pela intelectualidade brasileira que defende a degradação cultural do país, sob a desculpa de permitir a "livre expressão das periferias", menosprezando que o "funk" se projetou dentro de um contexto de dominação midiática, aliado à contravenção criminal e às grandes corporações empresariais. O "funk" é um subproduto desse processo de escravidão social.

E isso tem tudo a ver com esse moralismo religioso marcado pelo pedantismo pseudo-científico que chega a anunciar "profecias" de cunho sensacionalista, criando uma espécie de "psicologia do medo" para se fazer lotarem os "centros espíritas" e multiplicar seus best sellers literários.

CHICO XAVIER E GEORGE W. BUSH - Unidos pela mesma "psicologia do medo".

Neste sentido, Chico Xavier não é muito diferente de George W. Bush. Ele estabelece "profecias" de cunho moralista, prevendo a "destruição de parte da Terra", sobretudo do Hemisfério Norte, trazendo de volta o "Deus punitivo" através das "forças violentas da Natureza".

Mas alguém dirá: "Ah, mas que crueldade, comparar o doce Chico ao malvado Bush. Quanta crueldade com o homem-amor!! Além disso, aquele tal do Bush queria proteger pelo menos os EUA e outros países integrantes do G-7, enquanto Chico anunciava sua destruição pelos excessos do homem".

Explicamos. O próprio Bush pouco estava incomodado com a destruição dos EUA, segundo certas fontes que mostram os aspectos sombrios de seu governo. Tanto que os atentados diversos ocorridos em 11 de setembro de 2001 acabaram sendo um marketing para seu governo e virando gancho para seu moralismo "anti-terrorista".

Os próprios EUA são denunciados de promover terrorismo e degradação sócio-cultural em várias partes do mundo. Não é exagero, por exemplo, que a CIA, órgão de informação dos EUA, financiou desde ditaduras na América Latina até o crime organizado na América Central - para não dizer em países como o Brasil - , por causa do comércio ilegal de armas, conforme denuncia o linguista e cientista político Noam Chomsky.

Até que ponto a degradação social pode promover desde governantes estadunidenses até líderes espiritólicos, sempre a promover a "salvação" de certos problemas. E até que ponto eles se alimentam desse quadro social estarrecedor, em que se juntam interesses imperialistas de controlar a economia mundial e interesses regionais como os das elites empresariais com o "funk" no Brasil?

Que "Coração do Mundo" é esse que surgirá de uma degradação da humanidade, através de uma visão moralista de destruição e reconstrução da humanidade? Que destruições e rupturas são essas, vindas de uma visão religiosa, pretensamente profética e falsamente científica, baseada numa "doutrina brasileira" que implantou uma nova doutrina (Espiritismo original) em moldes apodrecidos (catolicismo medieval português).

VISÃO CONTRADITÓRIA

Nota-se, portanto, uma visão contraditória que alimenta o julgamento moralista. A ideologia conservadora dita "laica" produz homens subordinados à expansão tecnológica e empresarial, da qual se resultam a anulação de valores sociais, culturais, éticos e de outras naturezas necessárias para a evolução do espírito humano.

Produz-se a degradação ambiental, a decadência cultural, as injustiças sociais diversas, fruto dos interesses financeiros de uns poucos. Não há uma educação preventiva sobre tais abusos e, em boa parte, eles só são denunciados depois que as primeiras consequências graves acontecem.

Primeiro, o conservadorismo ideológico "laico" promove toda sorte de retrocessos e injustiças, para depois acionar o alarme do moralismo religioso, anunciar "catástrofes" e assustar a humanidade, que se submete ao alarmismo dos detentores do poder e seus pretensos profetas.

Aí, o que vemos como "evolução espiritual"? Favelados domesticados rebolando até o chão ao som do "funk"? Idosos infantilizados e abobalhados depois de perderem seus jovens filhos em tragédias circunstanciais, cinicamente exploradas pelos "líderes espíritas"? Uma "evolução" de pessoas "cordeirinhas", subprodutos da indústria das injustiças e das falsas profecias?

Isso tudo é contraditório. O "espiritismo" glamouriza o sofrimento, primeiro transformando os algozes em "agentes involuntários de resgate espiritual", esperando que eles progridam em outras encarnações para que sejam ceifados ou castrados na sua missão de progresso com o "pagamento tardio" de suas faltas.

O "espiritismo" prega o fiado dos abusos humanos, para depois anunciar a "catástrofe" a atingir pessoas de bem. Quem vai contra a retidão forçada do moralismo religioso é que mais sofre com tragédias.

Por isso, "funk" e "movimento espírita" têm tudo a ver nessa pretensa "evolução" que mantém intatas as estruturas de dominação social, apenas reservando espaços relativos de "alegria" um tanto piegas e outro tanto instintivas, sem se preocupar com a verdadeira moral da sensatez e da coerência, que o moralismo religioso finge apoiar mas repudia completamente.

domingo, 12 de outubro de 2014

Espiritolicismo traz azar


Uma senhora idosa que entra no "centro espírita" e ouve uma palestra, canta musiquinhas, sai de lá feliz e compra um livro de Chico Xavier para ler as mensagens de Emmanuel. Separada, a senhora vive com sua filha mais querida, que, num prazo de alguns meses, morre precocemente num acidente de automóvel.

Um homem frequenta um "centro espírita" e, incapaz de se livrar do alcoolismo por conta própria, resolveu fazer um tratamento espiritual. Consegue superar o vício, mas em compensação, na saída de um evento especial do "centro", é assaltado e esfaqueado. Sobrevive, mas perdeu dinheiro e documentos.

Um outro homem é um assíduo adepto de palestras "espíritas" e também resolveu fazer um tratamento espiritual. De repente, num debate na Internet, o "espírita" deste caso lança uma polêmica inofensiva que desagrada outro internauta que, irritado, passa a fazer galhofas, ofensas violentas e ameaças, chegando a rondar a cidade onde o "espírita" mora para intimidar ou, quem sabe, se vingar.

Uma universitária frequenta um "centro espírita" e é devota de Emmanuel e André Luiz, lendo todos os seus livros com muito prazer. De repente, quando faz uma pesquisa universitária para sua tese de sociologia, a respeito, por exemplo, do nível de nutrição da população de favelas vizinhas, ela entra num site que parece insuspeito, seu computador é infectado e o conteúdo da tese é perdido.

Há outros casos, e pode até ser um exagero que essas ocorrências tenham relação direta com o Espiritolicismo. Mas, de forma indireta, o "espiritismo" brasileiro contribui, sim, para a transmissão de más energias, o que faz com que a leitura de livros de Emmanuel seja muito mais perigosa do que passar debaixo de uma escada.

GLAMOURIZAÇÃO DO SOFRIMENTO

O que faz o "espiritismo" brasileiro ser tão baixo astral assim, só "beneficiando" aqueles que se submetem e compartilham da pieguice masoquista e quase depressiva dessa doutrina, dessa "alegria" um tanto sofrida e triste, desse sentimentalismo ao mesmo tempo melancólico e fantasioso?

Simples. O "espiritismo" brasileiro, na sua mania de juntar misticismo e moralismo religiosos, herdados de diversos elementos do Catolicismo medieval, acaba glamourizando o sofrimento humano, sob a desculpa de se preparar para a "vida futura".

Esse moralismo é um dos aspectos mais tipicamente medievais do "espiritismo" brasileiro. É herdado do Catolicismo medieval ao traduzir a teologia punitiva no "mundo de provas e expiações", o que faz com que, sem qualquer tipo de ironia, as pregações "espíritas" se assemelhem às anedotas "cordiais" do Amigo da Onça.

Para piorar, isso não é ironia. Se, por exemplo, o "espiritismo" brasileiro declara que, quando alguém sofre extremamente, ele é o mais beneficiado pelas bênçãos a anunciar glórias futuras, isso mais parece um Amigo da Onça levado a sério demais.

Ironia, sim, é saber que o criador do Amigo da Onça, Péricles Maranhão, havia cometido suicídio no final de 1961, e suicídio é considerado, pela moral torta dos "espíritas", um "crime hediondo", mais do que o homicídio porque este, apesar de ser o egoísmo humano levado às mais extremas consequências, é visto pelo "espiritismo" brasileiro como uma "justiça pelas leis de causa e efeito".

A ideia do "espiritismo" é fazer as pessoas sofrerem para obterem o esperado "aperfeiçoamento espiritual". Não é o sofrimento de que fala Allan Kardec, mais um desafio para as pessoas buscarem soluções, mas um sofrimento moralista, punitivo, do qual até mesmo os esforços para buscar soluções se tornam inúteis, e não raro até mesmo condições para altruísmo são dificultadas.

Muitas tragédias chegam mesmo a serem glamourizadas. Em muitos casos, há o êxtase da transformação de pessoas belas e jovens em "anjinhos no céu". É quase um sadismo, dentro daquele sentimento hipócrita de forjar alguma tristeza que mal consegue disfarçar o prazer de ver alguém morrendo cedo, não raro da pior maneira e entristecendo demais gente tão querida e carente.

Sim, porque as tragédias precoces são acidentais, involuntárias, mas chegam os "espíritas" com sua morbidez transformando tais tragédias em algo quase voluptuoso, transformando os jovens falecidos em fetiches e alvos de adoração fútil e oportunista.

O que os "espíritas" não conseguem entender é que não é porque existe vida espiritual que vamos sorrir por ver muitos entes queridos morrendo prematuramente ou sem completar sua missão de vida. Chega desse papo de "fulano faleceu, mas foi para um reino de amor e luz".

Por isso há essa energia pesada. Moralismo punitivo herdado do Catolicismo medieval, glamourização do sofrimento humano, fora as deturpações e até fraudes cometidas. O "espiritismo" brasileiro primeiro menospreza a Ciência em prol da Religião (no sentido de "cultos, templos e sacerdotes") para depois brincar de Ciência em palestras ou procedimentos "terapêuticos".

Só pode dar errado. Quem se dá bem é quem adere a esse clima de pieguice, de amor-daçamento da alma, da criminalização da vontade individual, da absolvição de práticas homicidas, de proselitismo religioso e do abuso da falsidade ideológica nas manifestações ditas "espirituais".

Daí que o "espiritismo" brasileiro traz azar. É muita palavra de amor para nenhuma prática realmente de amor ao próximo. É como diz o ditado popular, adaptado para este contexto: "De mensagens de amor e luz, o umbral está cheio".

sábado, 11 de outubro de 2014

Origem do moralismo punitivo do "movimento espírita" está em Roustaing


No "movimento espírita", seu estranho moralismo condena severamente os suicidas enquanto relativiza a ação de homicidas, tidos estes como "justiceiros das leis de causa e efeito", dentro de seu julgamento punitivo da moral espiritual.

Essa verdadeira "liberdade condicional" do além, que reserva o "mérito" daquele que tirou a vida de outrem para sofrer apenas uma ou duas encarnações adiante, esse verdadeiro "fiado" espiritual, é uma concepção bastante sombria para uma doutrina que se autoproclama "iluminada" e "acolhedora".

Mas isso tem raízes. Afinal, o "movimento espírita" é roustanguista, embora nos últimos anos essa postura tenha sido mais enrustida. Mesmo assim, de uma forma ou de outra o roustanguismo aparece, mesmo travestido de "fidelidade kardecista", e um e outro conceitos originários de Os Quatro Evangelhos permanecem na ideologia "espírita".

Pois o jeito Herodes / Pôncio Pilatos de julgar os méritos humanos - se bem que o famoso "julgamento de Cristo" nunca existiu, como havíamos descrito antes - , que contagiou até Chico Xavier na acusação impiedosa às vítimas do incêndio de um circo em Niterói, no final de 1961, de terem sido "romanos sanguinários", encontra origem no famoso livro de Jean-Baptiste Roustaing.

Roustaing, o advogado de Bordeaux, havia descrito o episódio do massacre de três mil homens ordenado por Moisés como se fosse um processo "apoiado" por "espíritos protetores" e não uma circunstância movida pelos conflitos humanos, principalmente naqueles tempos embrutecidos anos antes de Jesus. Roustaing, na sua sede de sangue, escreveu o seguinte trecho:

"Foi assim e nenhum golpe se perdeu, porque, em circunstâncias tais, como deveis compreender, os Espíritos protetores, prepostos a vigiar as provas e expiações de cada um, para que elas se cumprissem, impelindo os culpados ou dirigindo as espadas dos que acutilavam, faziam que aqueles recebessem o golpe que os prostraria. Deu-se ali o que se dá com a bala que deve ferir a este ou àquele e que segue a sua trajetória, mesmo quando toda a probabilidade era de que se perdesse".

O trecho aberrante é explicado por Gélio Lacerda, um dos críticos enérgicos da religião de Roustaing, no livro Conscientização Espírita, publicado pela editora Opinião E, em 1995:

"Desta forma, o 'Espiritismo Cristão' roustainguista da Federação Espírita Brasileira modifica o 5º mandamento da Lei de Deus e lhe dá a seguinte redação":

'Não matar, salvo se por determinação dos Espíritos protetores'".

Por isso os suicidas se tornam muito mais abomináveis e condenáveis do que os homicidas, embora o homicídio seja o ato mais extremo de egoísmo humano, em que o desprezo ao próximo é levado às mais derradeiras consequências.

Para o moralismo espiritólico do "movimento espírita", numa herança das ideias ainda preservadas do hoje dissimulado legado de Roustaing, o homicídio é apenas uma atitude "lamentável", um "mal necessário" para testar as provações espirituais e promover o resgate moral com o "pagamento", por parte da vítima, de suas faltas espirituais em outras vidas.

Esse método punitivo geralmente coloca os homicidas na "doce vida" da culpabilidade "branda", pois, sob a ótica desse "espiritismo" que está aí no Brasil, quem tira a vida de outrem é amenizado por ser considerado "agente de ajustes morais" e se priva, em tese, de dores e sofrimentos maiores, apenas "sofrendo", na encarnação presente, leves angústias ou dificuldades moderadas, o que é uma ilusão.

O "espiritismo" de raiz roustanguista tenta tirar a responsabilidade individual do homicida ou, quando muito, diminui-la. Tira de sua prática o sentido do livre-arbítrio e faz do homicida, mesmo o doloso, um agente "culposo" a serviço das "orientações espirituais" e, por isso, tido como isento de consequências dramáticas graves. Daí a ilusão que esconde uma realidade oposta.

HOMICIDAS PRODUZEM SUA PRÓPRIA TRAGÉDIA

Sendo um ato extremo de prática egoísta, o homicídio quase sempre causa em seu praticante uma pressão confusa e pesada sobre sua consciência, mesmo quando ele sente prazer por essa tarefa feita. Homicídio é quase sempre uma atitude de risco, e o próprio organismo físico é duramente abalado pela emoção cruelmente intensa de tirar a vida de outrem.

O homicida produz sua própria tragédia, quase sempre. É como se ele matasse outrem à vista e si próprio às prestações. Principalmente quando o homicida não é um criminoso carreirista, mas alguém com alguma noção de moral e convívio social normal, como muitos "homens bons" que exterminam suas próprias companheiras, a tragédia lhes torna um risco potencial altíssimo.

O conhecimento moral faz do homicida ocasional uma pessoa consciente de seus riscos. Daí que, quando os homicidas não seguem propriamente a carreira do crime e parecem "pessoas direitas", os efeitos tornam-se mais danosos porque os erros são cometidos com a plena consciência de suas gravidades.

Afinal, eles precisam suportar toda sorte de pressões morais e alterações drásticas de humor, entre a arrogância pelo crime cometido e a vergonha diante das consequências. Um dia se irritam, em outro se deprimem, e isso afeta o organismo.

A impunidade da Justiça, apesar de beneficiar tais pessoas, contraditoriamente as joga numa vida caótica, que é a da sociedade de hoje, e dificilmente alguém que cometeu um homicídio está livre de ser vulnerável, seja a assaltos, acidentes, doenças graves.

Pelo contrário. Muitos dos homicídios são feitos em função de drogas ou álcool, mas mesmo aqueles cometidos na boa saúde podem adoecer por grave desequilíbrio emocional. A imprensa não contribui para informar obituários de homicidas, já que a maior parte deles morre sob o silêncio dos jornalistas, mas se verificarmos bem, veremos que os homicidas acabam também morrendo relativamente cedo.

Os homicidas, em boa parte ainda não acreditando em reencarnação, acabam perseguindo a longevidade, para uns inalcançável, para outros certa mas dramática, achando que poderão se tornar evoluídos no fim de cerca de 85 anos de vida. Apenas poucos conseguem dar a volta por cima nessas condições, atingindo até a melhoria moral, mas a maior parte sucumbe.

Se alguém que já fuma muito e se embriaga demais mata uma pessoa, não é esse ato que lhe livrará de sofrer as consequências trágicas de suas doenças. Da mesma forma, se um homem perdeu a cabeça ao matar sua própria mulher, se ele, na fuga, for rendido por um ladrão e, perdendo a cabeça, for reagir, não será o crime anterior que o livrará de ser morto pelo bandido.

Homicidas sofrem a tragédia de terem ceifado não apenas vidas humanas, mas processos de convívio social com outras pessoas e projetos de vidas, criando indignação, revolta e sofrimento nos entes queridos. Isso gera uma série diversa de pressões emocionais que angustiam, chocam e abatem aos poucos os organismos dos homicidas, que, na melhor das hipóteses, envelhecem cedo na aparência.

Ódios, depressões, gritarias, revoltas, perturbações diversas, seja da parte de homicidas ou daqueles que se comoveram com o falecimento das vítimas, tudo isso transforma a vida de quem tirou a vida do próximo num suplício.

Mesmo a busca de tranquilidade é relativa, porque o crime deixou efeitos sérios, daí que, mesmo quando o homicida vive 90, 95 anos, ainda assim chega nessas idades fragilizado. Além disso, um homem que matou alguém por motivo fútil e que, na sua impunidade prisional, viaja no exterior e lá encontra um parente da vítima, tem alto risco de morrer de ataque cardíaco.

Há tragédias típicas que vitimam homicidas: enfartes, câncer, acidentes de trânsito, ou até outro homicídio praticado por alguém. Não raro, eles não chegam a atingir a velhice, pois sentimentos negativos diversos como alternar ódio e depressão, por vezes associado às drogas, álcool, nicotina, gula e neuroses diversas, ceifam a vida desses criminosos pelos seus conflitos e problemas causados.

São sinas duras para quem é considerado pelos "espíritas" como "justiceiros dos resgates espirituais", e mostram muitas vezes que a "lei de causa e efeito", pelo menos da forma definida pelo moralismo "espírita", não tem prazo nem obrigatoriedade para ocorrer e não há garantia se todos nós havíamos sido romanos sanguinários em antigas encarnações.

Não é rancoroso dizer que os homicidas quase sempre produzem tragédia contra si. É, sim, realista. As provações deles não são "dóceis" como os "espíritas" tentam fazer crer. Mas, se caso um homicida falecer em idade relativamente prematura, pelo menos haverá uma nova chance dele iniciar uma nova encarnação sem ter o "nome sujo na praça".

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Chico Xavier foi ou não adepto de Roustaing?


Quando se fala do roustanguismo no "movimento espírita", um dos pontos mais controversos é a adesão de Francisco Cândido Xavier aos ideais do autor de Os Quatro Evangelhos, Jean-Baptiste Roustaing.

O mineiro, tido oficialmente como o ícone maior da mediunidade no Brasil, foi muito mais uma figura cheia de controvérsias do que alguém que pudesse garantir uma confiabilidade plena. Sorte que a maioria dos brasileiros ainda prefere o deslumbramento fácil, os benefícios das conveniências e vantagens imediatas do que a coerência dos fatos. Daí a imunidade de Chico Xavier.

No entanto, em sua trajetória há desde acusações de charlatanismo e de envolvimento em fraudes (como plágios de livros e falsas materializações) até de hesitação em muitos momentos, o que poderia derrubar por definitivo sua reputação de "líder maior da espiritualidade", não fosse a condescendência de muitos.

O envolvimento de Chico Xavier com as ideias de Roustaing se deu porque Chico, católico fervoroso mas dotado de mediunidade - fato que consideramos concreto, mediante análises, mas bastante limitado em suas comunicações com Emmanuel e alguns poucos processos - , havia entrado em contato com os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira.

Durante muito tempo, Xavier foi praticamente o "garoto de recados" da FEB, se envolvendo em produções supostamente mediúnicas nas quais se apontaram provas de plágios literários e fortes indícios de colaboração de uma equipe editorial, fato considerado "absurdo" pelo "movimento espírita" brasileiro.

Xavier fez uma propaganda de Jean-Baptiste Roustaing, no livro Brasíl, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, supostamente atribuído ao espírito do escritor Humberto de Campos, mas comprovadamente plagiado do texto do seminário Brasil, Berço da Humanidade, Pátria dos Evangelhos, que Leopoldo Machado lançou num congresso da FEB, em 1934.

O próprio "orientador" de Xavier, o espírito Emmanuel - que, pela associação de ideias e traços de personalidade, condiz com o antigo Padre Manuel da Nóbrega - , era um católico reacionário, de fortes ideias medievais, com todos os preconceitos de sua elite, e não poderia mergulhar fundo na Doutrina Espírita sem prejudicá-la com deturpações fortemente catolicizantes.

Até que ponto Chico Xavier passou a se envergonhar do roustanguismo não se sabe. A tese do Jesus "fluídico" lhe agradava a princípio, pelo fato de sua crença católica heterodoxa - mas nada realmente espírita - admitisse uma imagem "nem tanto divina, nem tanto humana" do ativista judeu.

Da mesma forma, Xavier também gostava das pregações católicas de Os Quatro Evangelhos, que fugiam das lições científicas e objetivas de Allan Kardec que assustavam aqueles que optavam pelas crenças espíritas mas sem abrir mão de suas convicções fortemente católicas.

Observa-se, porém, que Xavier passava a evocar Allan Kardec já nos anos 40, como uma mensagem atribuída a Humberto de Campos divulgada em 1942, e que reproduziremos em outra oportunidade. Mas, talvez depois de 1973, Xavier fosse "inclinado" a defender a suposta fidelidade a Kardec, numa estranha reviravolta do espiritolicismo que sempre desprezou o professor lionês.

Chico Xavier adotava posturas dúbias, contraditórias e desempenhava atividades duvidosas. Apoiou fraudes de materialização e estava ao lado de seus organizadores, sorrindo, contando piadas, sabendo dos detalhes de bastidor. Apoiou medidas de deturpação das ideias kardecianas, e negociava reparos editoriais em seus livros.

O mineiro apoiou Roustaing e seu religiosismo, mas quando o advogado de Bordeaux passou a ser pivô de violentos escândalos em torno da FEB, Chico omitiu esse apoio e pareceu, aos olhos dos incautos, que passou a defender uma maior fidelidade a Allan Kardec, quando os analistas espíritas mais sérios comprovam que Xavier NUNCA foi, de fato, um conhecedor espírita.

Chico Xavier, além disso, era um ávido leitor de livros e, se ele podia ser considerado um "analfabeto", ele era em relação à Doutrina Espírita de Allan Kardec, cujas ideias científicas eram muito complicadas para serem sequer consideradas pelo mineiro de Pedro Leopoldo. Em contrapartida, Xavier sempre se manifestou profunda identificação com a Igreja Católica e seus valores mais conservadores.

O que se pode concluir, pelo religiosismo católico que marcou a trajetória de Xavier, é que ele sempre foi, ao longo de sua vida, um adepto fiel de Jean-Baptiste Roustaing (o "João Batista" do livro sobre o Brasil), pela sua forma de diluir o Espiritismo através de ideias herdadas do Catolicismo medieval.

Tirando os aspectos mais polêmicos de Roustaing, Chico Xavier comprovadamente adaptou e consolidou as ideias do roustanguismo para a realidade nacional, permitindo que a FEB passasse depois a esconder o nome do autor de Os Quatro Evangelhos porque havia outro que assumisse a responabilidade por essas mesmas ideias, sem causar incômodos ou escândalos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Jean-Baptiste Roustaing fez críticas violentas a Allan Kardec


Allan Kardec e Jean-Baptiste Roustaing se tornaram desafetos por iniciativa deste último, que não admitiu ser contrariado pelos questionamentos que o primeiro dava, com serena objetividade, aos volumes da obra Os Quatro Evangelhos, que Roustaing havia lançado e que, durante muito tempo, foi uma espécie de "Bíblia" para os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira.

Aparentemente, Kardec havia escrito que Os Quatro Evangelhos em nenhum ponto contradizem às ideias existentes em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Talvez fosse uma tradução equivocada, pois Kardec poderia ter se referido a apenas vários, mas não todos, aspectos presentes no livro de Roustaing.

A tradução da FEB leva a crer que Kardec "não aprovou nem reprovou" o livro de Roustaing e, a princípio, tentou conciliar os dois como se Kardec fosse "pioneiro, porém datado" e Roustaing "mais audacioso e moderno", e em 1913 chegou a usar o nome de Allan Kardec em suposta psicografia para fazer defesa do "Jesus fluídico", tese firmemente rejeitada pelo professor lionês.

A suposta psicografia, dada por Zilda Gama naquele ano, foi publicada no livro O Diário dos Invisíveis, em 1929, pela Editora Pensamento - famosa por editar almanaques anuais em que se destacam previsões astrólógicas:

"Afirmo, agora, baseado nas verdades transcendentes, que Jesus, o Emissário divino, foi o Ente mais evoluído, da mais alta estirpe sideral que já baixou à Terra, em cumprimento de uma incumbência direta do Pai Celestial, e, portanto, o que houve de anormalidade em sua existência não foi uma seleção parcial feita por Deus, mas uma justa homenagem que lhe era devida ao próprio mérito.

"ós, distanciados como estamos de sua perfectibilidade, não gozamos das mesmas regalias ou prerrogativas que lhe foram outorgadas, mas podemos adquiri-las, em séculos e milênios de dedicação, labor, esforço próprio, prática de todas as virtudes. Era, pois, Jesus, já naquela época - a do início do Cristianismo - uma personalidade superior, que, para bem desempenhar sua missão planetária, teve de tecer suas vestes tangíveis, com as quais ofuscou o brilho de sua alma radiosa, constituída de eflúvios cósmicos, que se solidificaram, que se aderiram ao mediador plástico, dando-lhe a aparência de materialidade, mas que podiam ser dissolvidos ao influxo de sua vontade."

É um Kardec estranho, que falava em português e tinha um discurso mais típico a um padre católico, e que destoa do perfil do pedagogo, que na verdade expressou sérias dúvidas quanto à obra de Roustaing e todas as teses que escapam à lógica humana.

Na Revista Espírita, em junho de 1866, entre as páginas 188 e 190, Kardec deixa claro da sua avaliação que severamente questiona, mediante argumentos lógicos, a tese do "Jesus fluídico", em que o professor lionês utilizou os seguintes argumentos, aqui traduzidos:

"E assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de fato um agênere... Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal".

Kardec questionou o livro de Roustaing pelo fato dele ter se servido apenas de uma única médium (Emile Collignon), de ter apostado nas teses absurdas ("Jesus fluídico", "criptógamos carnudos" e retrocesso moral do espírito, na contramão do aprendizado encarnacional) e de ter um conteúdo bastante maçante e de leitura muito cansativa:

"Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver,limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade", escreveu Kardec, no mesmo texto da Revista Espírita.

Irritado com as críticas, Roustaing reagiu furiosamente, adotando uma resposta irônica que confronta com as críticas que Kardec, educadamente, fazia a Os Quatro Evangelhos. E mostra o quanto é o nível moral de cada um: Kardec, sereno, educado mas firme e coerente, e Roustaing, temperamental e de ideias delirantes.

Roustaing respondeu com as seguintes palavras em carta enviada à Revista Espírita, que a edição portuguesa patrocinada pela FEB de Os Quatro Evangelhos incluiu no seu Prefácio sob o título "Resposta ao artigo de Allan Kardec" e o creditou a junho de 1867 e não 1866, que é sua data original:

"Aplicando o nosso método de crítica ao artigo de Junho de 1866 aí vamos encontrar tudo o que apresentamos à consideração dos leitores a propósito da introdução do "Evangelho Segundo o Espiritismo". Tudo lá está: o fundo, a forma, o ostracismo, a infalibilidade. É a aplicação do sistema preconcebido a uma obra a que se faz desde logo o mais "belo enterro de primeira classe" que se pudera desejar".

O argumento irônico, que acusa Kardec de "preconceituoso" ("sistema pré-concebido"), atribui ao professor lionês um trabalho decadente, acusando o Evangelho Segundo o Espiritismo de ser "o mais 'belo enterro de primeira classe' que se pudera desejar".

As supostas mensagens espirituais de Kardec divulgadas no Brasil, quase todas de supostos médiuns e de orientação roustanguista, tentam defini-lo como defensor das teses de Roustaing e portador de um religiosismo que o pedagogo francês nunca teve, em que pese seu respeito às crenças religiosas.

Kardec era um cientista e um defensor da lógica, uma lógica que os religiosistas acusam de "totalitária" e tirânica. No entanto, essas correntes dominantes no dito "espiritismo", em especial o brasileiro, querem fazer, a exemplo dos católicos medievais, criar uma reserva de surrealismo e fantasias nos fenômenos espíritas, determinando a supremacia do fabuloso sobre a realidade.

Desse modo, os espiritólicos sempre querem que alguns fenômenos não sejam desvendados pela razão humana. Tentando intimidar os contestadores, seus líderes, porta-vozes e adeptos argumentam que certos fenômenos "escapam ao raciocínio humano", como se quisessem que eles fossem mantidos intocáveis pelo monopólio da fé.

Mas isso seria impossível, afinal não há como criar um terreno "imaculado" para a falta de lógica, na qual só devemos amar e acreditar em certos fenômenos. Isso seria um absurdo e uma afronta violenta ao dom do ser humano de raciocinar e refletir sobre todos os fenômenos da realidade, havendo sempre de questionar o que escapa do sentido lógico das coisas e seres.
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