quarta-feira, 2 de abril de 2014
Chico Xavier se dizia "intelectual falido"
Uma das declarações mais famosas do anti-médium Chico Xavier, dadas no programa Pinga Fogo da TV Tupi, em 1971, foi de que teria sido a reencarnação de um "intelectual falido". Alternando franqueza lúcida em uns momentos com pretensiosismo em outros, Chico sempre deu a impressão de tantar se eximir da culpa dos erros associados ao "espiritismo" feito no Brasil.
Mas Chico errou tanto quanto os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira, e não são as "palavras de amor" que vão resolver esse problema. E se ele havia sido um intelectual falido, isso não o exime de responsabilidades enormes sobretudo quando se recusou a reagir com firmeza ao processo de deturpação da Doutrina Espírita.
Em primeiro lugar, devemos admitir que Chico Xavier nunca foi um espírita de verdade. Ele era apenas um católico dotado de dons mediúnicos, que nem sempre eram aproveitados nas atividades atribuídas a tais habilidades.
Isso porque em vários momentos Chico, com seus inúmeros compromissos de popstar do Espiritolicismo, dificilmente teria psicografado rigorosamente todos os livros atribuídos à sua autoria, e vários deles indicam plágios grosseiros dos quais se suspeita não passarem de copidescagem ou imitação de estilo.
Nesse caso, situam-se mesmo livros considerados "importantes", como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, recomendado pelo estatuto da FEB, e Parnaso de Além-Túmulo, cuja obra poética foi duramente contestada e desmascarada pelos mais renomados estudiosos da literatura brasileira.
Chico lia muitos livros, e poderia ter aproveitado sua capacidade intelectual. A decadência da vida precedente marcada por grande talento intelectual não é desculpa para o indivíduo regressar quase como um "ignorante", "ingênuo" ou, em outros casos, como um "pateta".
Se o talento intelectual faliu numa encarnação, a lógica é que, se esse talento continua na encarnação posterior, o indivíduo deva retomar o seu aproveitamento, apenas melhorando as intenções e os métodos utilizados para aperfeiçoar seus dons.
É como na vida profissional. Um indivíduo sabe trabalhar e arruma um bom emprego. Mas ele se envaidece, faz um mau trabalho e comete até desonestidade. Aí ele morre e retorna à vida material em condições físicas suficientes para exercer o mesmo trabalho. Se ele se considera "falido", não significa que ele não deva se passar por inválido ou mesmo como um assumido preguiçoso.
Quem trabalhou mal, deve depois trabalhar melhor. Reassumir a tarefa e corrigir os erros, aproveitando as mesmas faculdades mentais possíveis. E isso Chico não fez, em que pese a obsessão pelos textos escritos, porque ele simplesmente deixou que a Doutrina Espírita sucumbisse a grotescas deturpações. E em muitos momentos deu apoio a tudo isso.
Por isso, quem sofreu a falência intelectual foi o Espiritismo como um todo. O "espiritismo à brasileira" cresceu, com suas deturpações imensas, protegidas pelas tais "palavras de amor". E Chico, como o maior astro do espetáculo, fez propagar ainda mais isso, dando exemplo para outros, como Divaldo Franco, José Medrado e outros. E aí, deu no que deu. Prejuízo, muito prejuízo.
terça-feira, 1 de abril de 2014
FEB via na ditadura um meio de cumprir as promessas de livro "espírita"
A roustanguista Federação "Espírita" Brasileira via no golpe militar de 1964 e na ditadura que se seguiu durante pouco mais de duas décadas um meio de se verem cumpridas as promessas escritas no duvidoso livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Chico Xavier.
O livro, supostamente atribuído a Humberto de Campos - que nunca iria escrever uma bobagem dessas - , anunciava a predestinação do Brasil como uma pátria espiritualista e dotada de muita fraternidade e amor, dentro da perspectiva que conhecemos do Espiritolicismo.
A FEB achava que o golpe militar era o "remédio amargo" que os brasileiros teriam que enfrentar para resolver o problema da corrupção e da invasão de "ideologias desagregadoras", e julgava que a ditadura militar traria a "democracia e a liberdade necessárias ao país".
É uma visão bastante golpista, porque é exatamente isso que os militares da ditadura diziam. Só que isso, no âmbito do "espiritismo" brasileiro, tornou-se um episódio ainda mais trevoso do que as orbes trevosas do imaginário espiritólico tanto narram em seus livros que garantem a fortuna dos chefões "espíritas".
A FEB, que em tese se compromete à promoção da caridade, do amor, da fraternidade, da união e do progresso espiritual - que não exclui o progresso material, que muitas vezes sugere o exercício terreno do altruísmo e da generosidade em benefício do próximo - , comete aí um dos atos mais deploráveis e constrangedores que se pode imaginar.
Afinal, tanto a FEB quanto sua maior estrela, o anti-médium Chico Xavier, defenderam não só o golpe como a ditadura que se seguiu. Houve gente que defendeu o golpe de 1964, mas que, quando a ditadura se instalou, foram para a oposição ao regime. Mas FEB e Chico ficaram fiéis e Chico defendia a ditadura até quando ela passou a espancar, torturar e matar prisioneiros políticos.
Sim, Chico queria que nós rezemos para que Deus protegesse um regime marcado pela violação mais estúpida dos direitos humanos, que trouxe como legados não o "Reino de Luz" que o "iluminado Chico" tanto falava, mas a corrupção, a crise econômica, o caos.
Teríamos que rezar também para que Deus e "Nosso Senhor Jesus Cristo" protegessem os truculentos algozes do DOI-CÓDI, já que eles também estavam comprometidos, em parte, com a construção do "Reino de Luz" que colocaria o Brasil na vanguarda da moral espiritualista e do progresso humanitário?
Aliás, a FEB esteve muito mais próxima de Pôncio Pilatos, o cruel político romano que mandou Jesus para ser crucificado, sem fazer aquele julgamento que equivocadamente virou "história oficial" através de traduções tendenciosas da Bíblia.
Nem Jesus iria aprovar um regime como a ditadura, até pelos aspectos de egoísmo humano que o autoritarismo, a tortura, a censura e a repressão significavam. E se Jesus não aprovaria, então a aprovação de Chico Xavier faz negar de forma decisiva sua suposta condição de "espírito de luz", "espírito puro" e "homem mais iluminado da face da Terra".
A defesa da ditadura, por parte da FEB e de Chico Xavier, mostra o quanto de mentiras tem, tanto do lado da ditadura, que dizia defender a "democracia" e alterou a data do golpe do Dia da Mentira (01 de abril) para um dia antes, quanto da parte dos "espíritas", já que Chico nasceu um dia depois da incômoda efeméride, mas se adiantou a participar das mentiras produzidas ou patrocinadas pela FEB.
O apoio do "espiritismo" brasileiro à ditadura é uma mancha terrível que o próprio contexto já não estava apropriado para um movimento dito "espiritualizado" assumir. E mostra o quanto esse "espiritismo" é retrógrado, porque se afastou da essência de Allan Kardec, preferindo um confuso espiritualismo que reunia "restos" jogados fora por outras religiões. E que, quando quer e pode, é capaz de defender até mesmo a tirania para se projetar na sociedade.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Allan Kardec teria aprovado Jango e reprovado a ditadura militar
ALLAN KARDEC TERIA SENTIDO SIMPATIA POR JOÃO GOULART, POR CAUSA DE SEUS PROJETOS PELA JUSTIÇA SOCIAL.
O professor Allan Kardec, se fosse brasileiro e vivesse, ao menos, no século XX, teria adotado uma postura completamente diferente da de Chico Xavier. Com sua paciência de cientista mas sua firmeza de homem questionador, ele não iria medir as palavras a respeito do que ele acharia da ditadura militar brasileira.
O mestre lionês, para começar, definiria o regime militar como inválido, por se fundamentar na opressão e ser movido pelo egoísmo dos homens. Ele não faria como o anti-médium mineiro, que numa entrevista ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em 1971, pediu para que os brasileiros orassem pelos generais da ditadura, como se desejássemos boa sorte para eles na conduta do país.
Kardec, na hipotética condição, teria partido para o exílio, já que ele seria, como tantos outros, "condenado" pelo crime de dar ao país algo além que o poderio dos EUA, que controlavam a América Latina no período da Guerra Fria, permitia a seus países "clientes".
Pensando de forma objetiva, Kardec definiria o período da ditadura militar como lamentável, danoso e nocivo para a população. Como educador, ele veria no regime militar uma barreira para o progresso social da população, uma vez que o estímulo ao pensamento, um dos pilares da Educação, seria completamente comprometido pelo regime de autoritarismo, censura e repressão.
Kardec também teria aprovado o governo de João Goulart, derrubado pela ditadura militar, pelas ideias propostas pelas reformas de base propostas pelo então presidente e reafirmadas no seu último discurso, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Kardec veria nas reformas uma forma de promover a justiça social que o professor lionês havia defendido.
Primeiro, porque a reforma agrária é uma ideia de grande simpatia para a natureza de uma pessoa como Kardec, que veria nela o sentido positivo de restringir a propriedade de terra e promover a democratização do campo através da justa distribuição de terra e o estímulo ao trabalho solidário.
Segundo, porque a redução da remessa de lucros para o exterior proposta por Jango representa um limite para a exploração econômica dos países desenvolvidos. Esta exploração significa uma série de injustiças tão conhecidas do sistema capitalista na história da humanidade.
Terceiro, porque o projeto de educação pública de Jango, baseadas nas ideias e método do educador Paulo Freire, estavam completamente de acordo com as ideias educacionais do professor lionês, para os quais educar e esclarecer as pessoas é tarefa chave para ajudar na evolução espiritual dos indivíduos.
"Jango era uma figura carismática, e torna-se admirável ele ter sido bastante popular, da mesma forma que ele tentava reduzir as desigualdades sociais existentes no país", é o que provavelmente diria Allan Kardec a respeito do presidente.
Allan Kardec era, acima de tudo, um homem racional, altruísta e via os fatos cotidianos de maneira mais objetiva possível. Não se sujeitaria a louvar uma ditadura que claramente se mostrava desumana, cruel, ineficiente, para não dizer corrupta, hipócrita e prepotente.
Portanto, a postura do "iluminado" Chico Xavier é completamente equivocada, mas de acordo com seu perfil subserviente às deturpações e manobras feitas pela Federação "Espírita" Brasileira, para a qual as injustiças humanas são apenas um "detalhe" que enriquece seus dirigentes às custas da exploração do sofrimento humano.
Daí considerar que um regime de tortura e repressão estaria "construindo um Reino de Luz", às custas de tantas vidas destruídas ou, se não extintas, arruinadas. Nem a Folha de São Paulo e sua "ditabranda" teria ido tão longe.
O professor Allan Kardec, se fosse brasileiro e vivesse, ao menos, no século XX, teria adotado uma postura completamente diferente da de Chico Xavier. Com sua paciência de cientista mas sua firmeza de homem questionador, ele não iria medir as palavras a respeito do que ele acharia da ditadura militar brasileira.
O mestre lionês, para começar, definiria o regime militar como inválido, por se fundamentar na opressão e ser movido pelo egoísmo dos homens. Ele não faria como o anti-médium mineiro, que numa entrevista ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi, em 1971, pediu para que os brasileiros orassem pelos generais da ditadura, como se desejássemos boa sorte para eles na conduta do país.
Kardec, na hipotética condição, teria partido para o exílio, já que ele seria, como tantos outros, "condenado" pelo crime de dar ao país algo além que o poderio dos EUA, que controlavam a América Latina no período da Guerra Fria, permitia a seus países "clientes".
Pensando de forma objetiva, Kardec definiria o período da ditadura militar como lamentável, danoso e nocivo para a população. Como educador, ele veria no regime militar uma barreira para o progresso social da população, uma vez que o estímulo ao pensamento, um dos pilares da Educação, seria completamente comprometido pelo regime de autoritarismo, censura e repressão.
Kardec também teria aprovado o governo de João Goulart, derrubado pela ditadura militar, pelas ideias propostas pelas reformas de base propostas pelo então presidente e reafirmadas no seu último discurso, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Kardec veria nas reformas uma forma de promover a justiça social que o professor lionês havia defendido.
Primeiro, porque a reforma agrária é uma ideia de grande simpatia para a natureza de uma pessoa como Kardec, que veria nela o sentido positivo de restringir a propriedade de terra e promover a democratização do campo através da justa distribuição de terra e o estímulo ao trabalho solidário.
Segundo, porque a redução da remessa de lucros para o exterior proposta por Jango representa um limite para a exploração econômica dos países desenvolvidos. Esta exploração significa uma série de injustiças tão conhecidas do sistema capitalista na história da humanidade.
Terceiro, porque o projeto de educação pública de Jango, baseadas nas ideias e método do educador Paulo Freire, estavam completamente de acordo com as ideias educacionais do professor lionês, para os quais educar e esclarecer as pessoas é tarefa chave para ajudar na evolução espiritual dos indivíduos.
"Jango era uma figura carismática, e torna-se admirável ele ter sido bastante popular, da mesma forma que ele tentava reduzir as desigualdades sociais existentes no país", é o que provavelmente diria Allan Kardec a respeito do presidente.
Allan Kardec era, acima de tudo, um homem racional, altruísta e via os fatos cotidianos de maneira mais objetiva possível. Não se sujeitaria a louvar uma ditadura que claramente se mostrava desumana, cruel, ineficiente, para não dizer corrupta, hipócrita e prepotente.
Portanto, a postura do "iluminado" Chico Xavier é completamente equivocada, mas de acordo com seu perfil subserviente às deturpações e manobras feitas pela Federação "Espírita" Brasileira, para a qual as injustiças humanas são apenas um "detalhe" que enriquece seus dirigentes às custas da exploração do sofrimento humano.
Daí considerar que um regime de tortura e repressão estaria "construindo um Reino de Luz", às custas de tantas vidas destruídas ou, se não extintas, arruinadas. Nem a Folha de São Paulo e sua "ditabranda" teria ido tão longe.
domingo, 30 de março de 2014
Reino de Luz?
Sinceramente, saber que Chico Xavier defendeu a ditadura militar é tão ruim quanto ver que o jornalista Bóris Casoy participou do Comando de Caça aos Comunistas e a Folha de São Paulo ofereceu suas viaturas para transportar os presos políticos para o DOI-CODI.
Chico, tido como "o homem chamado amor" ou "a personalidade mais evoluída que passou pela face da Terra" - um periódico "espírita" chegou a dizer que o anti-médium mineiro era "mais evoluído" do que Jesus - , falava que a ditadura militar garantiria o "Reino de Luz" a que os "espíritas" atribuíram como destino futuro da nação brasileira.
Ora, ora. Isso não passa de uma grande bobagem. O Brasil não tem predestinação alguma, até porque está sofrendo crises piores do que antes do golpe, e está muito longe de ser a potência econômica do mundo, quanto mais para pátria-guia da espiritualidade. Vamos parar de sonhar e veremos, ao usar a lógica, o quanto o "espiritismo" brasileiro está completamente ERRADO.
Em primeiro lugar, a aura de solidariedade desse projeto de "construir o Reino de Luz" foi por água abaixo quando um dos generais que se adiantou na derrubada do presidente João Goulart, o mineiro Olímpio Mourão Filho, foi deixado à margem pelos oficiais das Forças Armadas, não recebendo qualquer benefício real por favorecer o que o generalato tanto queria: a derrubada de Jango.
Olímpio não chegou a ser preso nem torturado, mas seu papel de adiantar um golpe, que outros generais e políticos civis estavam discutindo como seria, foi simplesmente desvalorizado, tanto que ele acabou recebendo o apelido de "vaca fardada", em alusão à "vaca de presépio" que só serve de enfeite.
Outro que foi deixado de lado foi o governador do antigo Estado da Guanabara - composto pelo município do Rio de Janeiro - , o também jornalista Carlos Lacerda. Desde quando o Brasil era governado por Getúlio Vargas, durante o qual chegou a sofrer uma tentativa de homicídio, Lacerda defendia o golpe militar, e em 1964 foi um dos que mais queriam a queda de Jango.
Pois a "solidariedade" daqueles que, segundo Chico Xavier, estavam construindo o "Reino de Luz", que não se deu com Olímpio Mourão Filho, também não se deu com Carlos Lacerda, visto como um "chato" pelos generais.
Pior: ao ser traído pelos generais que ignoraram sua campanha golpista, Carlos Lacerda se reconciliou com seu maior inimigo político, Juscelino Kubitschek, e ainda perdoou João Goulart, formando, os três, uma Frente Ampla para pedir a redemocratização do país, que irritou os generais e teria feito a Operação Condor, reunindo ditaduras do Brasil e outros países, sutilmente matarem os três.
Na instauração do "Reino de Luz" que exigiria "alguns sacrifícios" ao povo brasileiro, também a "solidariedade" se refletiu no caso do citado Kubitschek. Ex-presidente da República e ligado ao conservador PSD (Partido Social Democrático), Juscelino defendeu o golpe militar preocupado com o envolvimento do seu ex-vice, João Goulart, então presidente, com comunistas.
Juscelino era um político moderado e foi pego de surpresa quando os militares que tomaram o poder o colocaram entre os primeiros políticos cassados da vida pública. O ex-presidente, que apesar de mineiro era senador por Goiás, queria concorrer à Presidência da República em 1965, e não só ele foi cassado como a ditadura se afirmou definitiva e iria contribuir para a morte suspeita de JK em 1976.
Dando sequência ao clima de "solidariedade" garantido pelo "Reino de Luz" da "Revolução de 1964", vemos que o clima contagiou a juventude de tal forma que, no auge dos protestos estudantis naquele 1968 - em que um estudante que nem era militante, o modesto secundarista Edson Luís, foi morto no meio do tiroteio entre alunos e policiais - , houve um sangrento conflito em São Paulo.
Foi na Rua Maria Antônia, onde se situam até hoje, de um lado, a Universidade Mackenzie, prebisteriana e conservadora, e a Faculdade de Filosofia da USP, esquerdista. De um lado, estudantes da Mackenzie ligados ao Comando de Caça aos Comunistas faziam provocações aos estudantes da USP, que estavam em outro.
As agressões no entanto foram para o extremo, quando os estudantes da Mackenzie ligados ao CCC que estavam armados puxaram o gatilho e acabaram matando um secundarista que nada tinha a ver com o caso, José Guimarães, vítima de bala perdida. Bóris Casoy não participou da violência, mas assistia "de camarote" ao incidente.
E o que dizer mais sobre o "Reino de Luz" que o "iluminado" Chico Xavier tanto falava, com seus dóceis apelos para que nós, "em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo", aceitemos o governo das Forças Armadas?
Simples. Aos viajores e caminheiros da "doutrina de amor, paz e caridade", é bom deixar claro que o governo "da democracia e da liberdade" exercido pelas Forças Armadas em 1971, época em que Chico fez os "preciosos" apelos, já cometia atrocidades vergonhosas contra muitos cidadãos, a pretexto de "expurgar" os "últimos vestígios da rebelião comunista" que se via sobretudo na guerrilha armada.
Seminários eram realizados, com patrocínio do Departamento de Estado dos EUA, para demonstrar o funcionamento de aparelhos de tortura. Um deles, e o mais rudimentar, era o "pau-de-arara", em que uma pessoa era pendurada num pedaço de pau e recebia de chicotadas até golpes de cacetete que, por vezes, eram enfiados até no ânus.
Outros recursos de tortura incluíam choques elétricos com os pés postos num balde de água, afogamentos, ou a simples surra, com o prisioneiro amarrado numa cadeira. E tudo isso de maneira oficial, porque há casos de enforcamento, como o que vitimou o jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog, não assumidos publicamente pelo DOI-CODI na época.
E o que dizer de tantas pessoas que a ditadura mata e esconde seus corpos, alegando supostos acidentes e suicídios? O que dizer, por exemplo, do caso do deputado paulista Rubens Paiva (pai do escritor Marcelo Rubens Paiva), detido e morto por conta de seu passado político ligado ao PTB de Jango e sua oposição ao regime militar?
Tantas pessoas tiradas do convívio de seus familiares, detidas de forma arbitrária por causa das "atividades subversivas", e cujas vidas foram ceifadas de forma fria e cruel, em circunstâncias e condições que só tardiamente começam a serem esclarecidas.
Mas talvez o "luminoso" Chico Xavier, com sua consciência "tranquila", tenha achado que as vítimas da ditadura militar tenham sido antigos carcereiros, delegados ou mesmo políticos romanos que haviam capturado inocentes para serem presos, torturados e mortos. Ele seria capaz de tanta falácia?
Será que esses episódios não bastam para desmentir a tal "construção do Reino de Luz" que Chico Xavier tanto disse? Por outro lado, bastariam que a gente apenas "orasse" e "se unisse numa esfera de amor", dando "boas energias" para que nossos generais "construíssem" a "sociedade iluminada do futuro" e "cumprissem" as promessas da FEB de predestinação humanitária do Brasil?
A pregação de Chico Xavier caiu em xeque-mate, na medida em que a "sociedade de amor e caridade" que ele acreditava ter sido construída pela ditadura militar era na verdade um regime de muita crueldade, de medidas desumanas e outras imprudentes, já que a sucessão de generais no Poder Executivo não conseguiu realizar a tão prometida melhoria geral para o país.
Pelo contrário, o enfraquecimento do Legislativo e do serviço público favoreceu esquemas de corrupção. A baixa auto-estima popular enfraqueceu nossa cultura. Houve a violenta crise econômica, que só se agravou com a alta do preço do petróleo no Oriente Médio, em 1973, que botou o "milagre brasileiro" para o lixo.
Houve o arbítrio da tortura, da censura que atrasava até mesmo a expressão e veiculação de produtos culturais e informativos, tornando-os não só inócuos e sem graça, mas datados e inúteis. O país acabou se tornando acéfalo, com tanta gente vivendo no exílio. Quem quisesse ser um brasileiro de verdade, o melhor é viver fora do país.
Essa é a dura realidade que não está nas delirantes fantasias de contos de fadas de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, cuja autoria se atribuiu a um Humberto de Campos que nunca teria escrito uma bobagem dessas. E que mostra o quanto de erros cometeu Chico Xavier, e não apenas erros comuns, mas os gravíssimos, que seguramente desmentem seu mito de "espírito superior".
sábado, 29 de março de 2014
FEB e Chico Xavier apoiaram a ditadura militar
O Espiritolicismo apoiou o golpe militar de 1964, sob o pretexto de que os militares garantiriam a "nova nação" descrita pelo livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. Segundo essa tese, cabe ao povo enfrentar "sacrifícios" para chegar à fase de prosperidade prometida pelos pregadores do "espiritismo" brasileiro.
Como é que uma doutrina que se diz tão transformadora e se autoproclama a última palavra em termos de espiritualidade e fé decide defender um regime obscurantista, que não trouxe a prosperidade prometida, mas caos, crise e muita confusão, entre outros problemas que se refletem até hoje?
É simples. O Espiritolicismo tem seus interesses elitistas. A Federação "Espírita" Brasileira, presidida por Wantuil de Freitas, defendeu a ditadura militar para que recebesse, do Estado, subsídios para a construção da opulenta sede de Brasília. Até então, a sede era na Av. Passos, no Rio de Janeiro, que se tornou uma filial da FEB.
Mas não era só isso. A FEB via em cenários políticos conservadores uma ideologia afim com seu moralismo religioso, em que valores ligados à hierarquia, ao elitismo e ao dogmatismo são garantidos na afinidade com os "poderosos da Terra".
O que surpreende, no entanto, é que Chico Xavier também apoiou a ditadura militar. Sim, o dito "homem chamado amor" apoiou serenamente um regime que custou a vida de muitos inocentes, fez agravar a corrupção política, causou uma das piores crises econômicas da história do Brasil e deixou a sociedade numa crise de identidade sócio-cultural, através do aumento das desigualdades sociais.
Para quem duvida, eis o que comprovou o "insuspeito" Francisco Cândido Xavier, numa entrevista dada ao programa Pinga Fogo, da TV Tupi, realizado em 1971. Com base em conselhos que Chico disse ter recebido de "benfeitores espirituais", ele teria definido o cenário da ditadura como "muito digno" e o classificou como "democracia", pedindo a união do povo para orar pelo país.
Ele havia defendido o governo militar a pretexto de combater ideologias que promovessem a "degeneração" social, alegando que os "garantidores da ordem e da lei" no país eram a garantia para a "formação do país como o Reino de Luz para o qual o povo brasileiro estava se encaminhando". Ele acrescentou que a "liberdade" estava garantida pela "democracia" trazida pelos militares.
Compare isso com o contexto político em que vivíamos. Era o governo do general Emílio Garrastazu Médici, que aplicava o terrível e temível AI-5 para estabelecer a "ordem" através da rígida repressão e censura. Naquele 1971, entre tantos desaparecidos políticos, destacou-se o deputado Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva e político ligado ao antigo PTB de João Goulart.
Havia seminários nas Forças Armadas apresentando instrumentos de torturas. Soldados cheiravam até "baseado" para ficarem mais agressivos e violentarem prisioneiros políticos. Jornalistas e produtores de programas de rádio e TV tinham que mandar suas criações para a Censura Federal analisar demoradamente, para que pudessem ou não colocar no ar ou em circulação.
Policiais invadiam casas de suspeitos e destruíam tudo, apreendiam livros "suspeitos" e agrediam os detidos ou quem quisesse impedir a sua prisão (que também era detido, em muitos casos, por "desacato"). Viver no Brasil era um pesadelo. Quem podia, ia para algum consulado estrangeiro pedir asilo político, se não queria ser preso ou morto no país.
Esse é o "reino de liberdade" dos "garantidores da lei e da ordem" que agiam em "benefício" de nosso país. E o "homem mais evoluído do país" defendeu serenamente o regime dos generais, que causou tantas dores e desilusões. Que Reino de Luz é esse? Francamente...
sexta-feira, 28 de março de 2014
Críticos do Espiritolicismo deveriam tomar cuidado com a Veja
Os críticos do Espiritolicismo, entre outros que fazem críticas não só a esta doutrina, como a outros problemas da nossa sociedade, deveriam adotar uma postura bastante cautelosa com a revista Veja, publicação da qual vários de seus indivíduos depositam ainda total confiança.
A revista Veja é uma publicação marcada pelo seu reacionarismo extremo. Sua linha editorial é hostil aos movimentos sociais, às populações indígenas e a outros projetos sociais que defendam os interesses das classes populares, dos trabalhadores e da classe média consciente.
Vista equivocadamente pelos críticos do "espiritismo" brasileiro como uma revista de "jornalismo investigativo", Veja já esteve envolvida em escândalos que demonstraram fraudes diversas na produção de reportagens, muitas vezes mentirosas, caluniosas, sensacionalistas e imorais.
Entre seus colunistas, está o reacionário Reinaldo Azevedo, tão perigoso para a sociedade brasileira quanto Emmanuel para o mundo espiritual e para a Doutrina Espírita. Reinaldo é chamado de "pit-bull da Veja", porque escreve de maneira grotesca, é autoritário, zombeteiro e demasiado irônico em suas opiniões, e defende pontos de vista que só agradam as pessoas mais ricas do nosso país.
Veja prefere defender o capitalismo selvagem, a opressão no mercado de trabalho, a sobrecarga de atribuições dos trabalhadores, o processo opressivo e caríssimo de reciclagem no aprendizado profissional e a redução salarial proporcionalmente inversa à carga horária de trabalho. E, de vez em quando, Veja endeusa os milionários, como se ter dinheiro fosse por si só bom para o espírito.
MATERIALISMO - Veja endeusa os donos do poder, as pessoas mais ricas, o capital privado. Quer que a cidadania e a democracia, com todos os seus ideais, se reduzam a mercadoria a ser comprada, a um reles produto de consumo.
Como é que as pessoas que se preocupam em defender a essência da Doutrina Espírita podem dar alguma confiança a uma revista como essa, que defende neuroticamente um sistema econômico responsável pela miséria e pelas desigualdades sociais em todo o mundo?
É como se trocasse o seis pela meia-dúzia. Trocar a FEB pela Veja. Por enquanto, Veja parece alegrar muitos que exageram na dose da oposição ao PT porque, para essas pessoas tomadas de forte emoção, para não dizer um ódio gratuito que nada tem a ver com a oposição sadia, a Veja parece dizer "umas verdades" que à primeira vista empolgam.
Mas esse discurso só ocorre porque Veja está na oposição. Se vira "situação", a máscara cai e aquelas pessoas que liam felizes as maravilhas de desempregados gastarem a fortuna que não tem para aprender novas habilidades profissionais, ou de como a desnacionalização da economia é benéfica (?!) para o Brasil, se sentirão traídas com a complacência de Veja à corrupção de seus "heróis".
E Veja sofre do mesmo cafajestismo ideológico da Federação "Espírita" Brasileira. São páginas tão sujas quanto qualquer revista espiritólica. Veja é tão autoritária quanto Emmanuel, tão materialista quanto o Espiritolicismo, tão moralista e socialmente excludente quanto as pregações "espíritas" que preferem acreditar no sofrimento dos outros como um "ajuste de contas" e deixá-los para lá.
Daí a incoerência de criticar o Espiritolicismo, se confia em Veja, uma vez que a revista pratica os mesmos erros da FEB e não é uma fonte confiável para quem busca uma verdadeira espiritualidade. Daí o cuidado que se recomenda tomar com uma publicação como esta.
quarta-feira, 26 de março de 2014
"Centro espírita" de Salvador tranca portas e oferece insegurança durante doutrinárias
A pretexto de promover a disciplina e não "atrapalhar" as "energias superiores da espiritualidade", um "centro espírita" de Salvador, Bahia, é um exemplo do descaso com a segurança e o conforto de seus frequentadores.
O "Núcleo Assistencial do Centro Espírita Cavaleiros da Luz", localizado no bairro do Uruguai, perigosa área do subúrbio soteropolitano, situado na Península de Itapagipe - que envolve também Ribeira, Bonfim (onde tem a famosa Igreja do Bonfim), Vila Rui Barbosa e Maçaranduba - , simplesmente tranca suas portas durante as doutrinárias, sobretudo nas noites dos sábados.
A casa que abriga esse núcleo é pequena e seu salão no térreo é apertado e de acesso difícil à saída. Nesses horários a casa fica lotada e, juntando o fato das saídas apertadas, se houver um risco de um incêndio, a ameaça de uma tragédia é bastante potencial.
Além disso, quem morar longe e quiser sair cedo para pegar um ônibus sem esperar muito não pode sair antes. Depois do fim da doutrinária, o frequentador terá que esperar quase uma hora por um ônibus da linha 0207 Massaranduba / Itaigara, o último a rodar na linha para o Iguatemi, um dos bairros estratégicos para os moradores de Salvador se deslocarem para suas casas.
Se o passageiro não quiser esperar tanto, terá que se arriscar a caminhar uns metros de uma rua escura para pegar o 1612 Paripe / Rodoviária ou o 1637 Mirantes de Periperi / Boca do Rio em direção ao Iguatemi. Não pode pegar, todavia, o 0319 Grande Circular I, porque é menos lotado e raro, com alto risco de haver assaltantes a bordo.
Com tudo isso, em nome da "organização" e das "boas vibrações" da suposta espiritualidade que "está agindo para o bem das pessoas", o Cavaleiro da Luz tem as saídas trancadas a chave durante suas doutrinárias. E são portas típicas de casas modestas, com grades enfeitadas e tudo.
Mas vá que ocorra alguma coisa - um exemplo é ver uma barata circulando livremente num dos banheiros do "centro" e se "enfiando" sob o buraco entre o chão e um vaso sanitário - , como um curto-circuito e coisa parecida, e a demora em abrir os portões não impede que alguma tragédia aconteça.
Foi por causa de uma casa com saídas difíceis e portas trancadas que o incêndio que ocorreu na boate Kiss, em Santa Maria, em janeiro de 2013, causou uma das piores tragédias do gênero, já que muitos dos mortos se deram por causa da incapacidade de saírem do recinto de forma rápida e segura.
Fica complicado até ser espiritólico. Depender de um "centro espírita" que prometa "melhores energias", num local distante e perigoso, com portas trancadas durante uma doutrinária e uma demora angustiante por um último ônibus na saída, é uma tortura para o indivíduo que mora em Salvador. Antes ficasse em casa do que sofrer tantos riscos.
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