domingo, 14 de maio de 2017

Muito se fala no Jogo da Baleia Azul; e o jogo "espírita" de "Vencer a Si Mesmo"?


O "Correio Espírita" deste mês publicou uma matéria que define o Jogo da Baleia Azul como um "jogo assassino", preocupado com a onda de suicídios provocada pelo sombrio regulamento dessa brincadeira perigosa.

Sim, é inegável que o Jogo da Baleia Azul, um modismo nas redes sociais, esteja causando tantos suicídios pela forma com que é feito seu regulamento e pelo caráter macabro das tarefas a serem feitas. Mas isso é um assunto que vai além de moralismos religiosos e que não pode ser resolvido com a censura na Internet que grupos retrógrados pregam como uma falsa solução, que na verdade protege interesses ultraconservadores mais estratégicos.

O grande problema, porém, é que o próprio "espiritismo" brasileiro também mostra seu "Jogo da Baleia Azul", através de seus valores, cada vez mais identificados com a Teologia do Sofrimento.

Cada vez mais distante de Allan Kardec - nunca devidamente compreendido pelos seus proclamados seguidores oficiais no Brasil - , o "espiritismo" brasileiro, de raiz roustanguista, transmite energias macabras por conta de suas próprias contradições e pela sua desonestidade doutrinária.

A desonestidade doutrinária consiste em transmitir ideias roustanguistas sob o pretexto de "atualização" do legado kardeciano. A hipocrisia que isso significa faz com que "espíritas" deem o mesmo apreço a Erasto, que alertou para a deturpação no Espiritismo, e a Emmanuel, um dos propagadores da deturpação.

Só isso faz com que, em vez da espiritualidade mais evoluída, que foge, constrangida, dos aduladores religiosos da Terra, cheguem aos "espíritas" as almas mais traiçoeiras e levianas, os chamados espíritos inferiores.

As fotos antigas de Francisco Cândido Xavier revelam uma energia maligna. O semblante malicioso e o olhar agressivo explicam por que muitos devotos de Chico Xavier acabam perdendo seus filhos, como em uma maldição.

O anti-médium e beato de Pedro Leopoldo e Uberaba tinha fetiches por mortos prematuros, por achar exótico morrer jovem. A maioria dos espíritos usurpados pela suposta mediunidade de Xavier é de gente morta prematuramente: Castro Alves, Casimiro de Abreu, Humberto de Campos, Auta de Souza, Irma de Castro Rocha, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza.

No fundo, Chico Xavier foi um católico de crenças bastante ortodoxas que preferiu fazer o Espiritismo andar para trás enquanto o Catolicismo, de gente como Alceu Amoroso Lima e Dom Hélder Câmara, caminhava para a frente.

Chico Xavier era adepto da Teologia do Sofrimento, corrente medieval católica que fazia apologia da desgraça humana como "atalho para Deus", e também fez o Espiritismo, no Brasil, se rebaixar a uma versão repaginada do Catolicismo jesuíta do Brasil colonial.

Daí os apelos para "amar o sofrimento", "abrir mão das próprias necessidades", "ficar feliz apenas por ter o ar que respira" (o que, em lugares como Rio de Janeiro e São Paulo, é difícil, pois nem isso se tem, sobretudo no Rio de fumantes arrogantemente inveterados), sobretudo a falácia de que "o pior inimigo é a própria pessoa", que soa como um punhal para o deserdado da sorte.

O próprio moralismo "espírita", com muitos conceitos estranhos ao legado de Allan Kardec, revela o quanto a doutrina igrejeira brasileira trocou o pedagogo francês pelo imperador romano e fundador do Catolicismo, Constantino.

A apologia ao sofrimento humano, que traz vibrações perigosas para quem faz tratamentos espirituais para resolver problemas e contrai outros ainda piores, faz com que o "espiritismo" tenha também seu "Jogo da Baleia Azul", o "Jogo do Vencer a Si Mesmo".

Como o "espiritismo" brasileiro, pelo seu DNA roustanguista, não aprecia a individualidade humana (confundida com egocentrismo), tanto faz apelar para a pessoa abrir mão de suas qualidades pessoais, e levar uma vida "qualquer nota", reduzindo-se a "boneco das circunstâncias" e "brinquedo das adversidades".

Alguns "espíritas" até tentam um malabarismo discursivo: "Não, nós apreciamos a individualidade, as vocações pessoais, os talentos próprios, mas existem mil formas de trabalhá-las. Sabe aquela empresa corrupta cujo patrão é prepotente? Mostre sua criatividade e promova a fraternidade cristã que todos vão gostar e o coração do seu chefe irá derreter". Como se fosse fácil fazer isso, tal como pedir para a guilhotina em queda não cortar o pescoço do condenado.

Os "espíritas", da mesma forma que confundem individualidade com individualismo, confundem desgraça com desafio. Isso revela um moralismo bastante severo, que acaba aceitando as condições que levam as pessoas ao suicídio, demonstrando a hipocrisia da doutrina igrejeira que, sob a desculpa da "vida futura", consente e até defende que pessoas fiquem acumulando desgraças e percam o controle de seu próprio destino.

A péssima psicologia que se encontra no apelo de "vencer a si mesmo" é até um discurso perigoso. Afinal, as apologias ao "carregamento da cruz cristã" e outros valores próprios da Teologia do Sofrimento só conseguem inspirar, no sofredor em aflição, o desejo de se exterminar. Ainda mais porque ele, no seu desespero, é informado de que é "seu pior inimigo" e aí ele, já com baixa autoestima, encontra mais estímulo para tirar sua própria vida.

Daí a contradição em que os "espíritas" se metem diante da criminalização do suicídio, quando seu moralismo apela para aceitar justamente os fatores que levam as pessoas a tirarem suas vidas. E ainda mais quando os mais aflitos, ao buscarem socorro para suas dificuldades extremas, contraem ainda mais e mais desgraças. Usar a "vida futura" para aceitar o sofrimento não resolve, até porque isso cria uma ânsia nos desesperados que cada vez mais são estimulados ao triste ato extremo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Grande mídia, religião e construção de mitos

NELSON XAVIER E ARY FONTOURA - Grandiosos talentos interpretando personagens tendenciosamente abordados pela Globo.

A grande mídia, a depender da influência que faz aos brasileiros, parece estar dotada de poderes divinos. A fabricação de consenso chega mesmo a dar a impressão às pessoas de que tudo é natural, e que a grande mídia não faz mais do que representar o inconsciente coletivo do povo brasileiro.

Não é a mídia que se submete ao inconsciente do povo. É o inverso. E, anteontem, quando o ator Nelson Xavier, que interpretou o "médium" Francisco Cândido Xavier, faleceu de câncer, aos 75 anos, no mesmo dia do depoimento do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, à Operação Lava Jato, estão em jogo dois mitos inversamente trabalhados pelo poder midiático da Rede Globo, que parece querer substituir as consciências das pessoas.

Assim como Nelson Xavier foi marcado por interpretar Chico Xavier - a ponto de ter divulgado um desejo de que, quando fosse enterrado, usasse o paletó que o "médium" deu de presente ao ator - , temos o ator Ary Fontoura, no filme Polícia Federal - A Lei é Para Todos, sobre a Operação Lava Jato, fazendo papel do ex-presidente Lula. O filme tem lançamento previsto para julho deste ano.

Os brasileiros médios, que assistem constantemente à televisão e possuem formação ideológica mais ou menos conservadora, estão acostumados à imagem oficial de certos mitos, de forma que eles gozam de aparente unanimidade, mesmo quando apresentam irregularidades nas qualidades a eles atribuídas.

Isso é assim tanto com Chico Xavier, "santificado" ao extremo, como uma Madre Teresa de Calcutá brasileira - um mito construído de maneira semelhante lá fora - , como Lula, "demonizado" ao extremo. Mitos construídos pelo persuasivo discurso midiático que força a prevalência de abordagens que nem sempre correspondem à realidade.

Aparentemente, quase ninguém percebe que Chico Xavier foi um deturpador muito grave da Doutrina Espírita, desfigurando e distorcendo o legado trabalhosamente desenvolvido por Allan Kardec ao sabor de devaneios igrejistas, moralistas e até materialistas (a concepção das "colônias espirituais" é um claro exemplo disso).

Ao "médium" também pesam denúncias de que suas supostas psicografias não passam de obras fake - pioneiros dos textos apócrifos que se produzem na Internet - e que outras práticas, como supostos rituais de materialização, teriam sido fraudulentas e contavam com o acompanhamento ativo do próprio Chico Xavier, que ainda assinava "autenticando" tais embustes.

Sobre os fakes supostamente psicográficos, observam-se irregularidades graves nas obras atribuídas a espíritos do além, famosos ou não. Humberto de Campos, Auta de Souza, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Jair Presente, entre tantos e tantos outros, apresentam problemas sérios de estilo pessoal e frequentemente seus textos demonstram o pensamento e o estilo pessoal do "médium".

As pessoas se esqueceram disso e a visão mais persistente é que Chico Xavier é um "santo" e um homem que "fez muita caridade". Tais qualidades são muito duvidosas, até porque, se a "caridade" de Xavier tivesse sido verdadeira, com a projeção e o carisma que ele acumulou nos últimos anos, o Brasil teria alcançado um padrão escandinavo de vida. No ano do centenário de Chico Xavier, sua querida Uberaba foi rebaixada de 104° para 210° lugar em Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

O mito de Chico Xavier como "símbolo máximo da caridade" é falso e foi criado pela Rede Globo de Televisão no final dos anos 1970 para concorrer com a ascensão dos "pastores midiáticos" R. R. Soares e Edir Macedo. É certo que o mito de "filantropo" atribuído a Chico Xavier é bem antigo, mas foi a Globo que trabalhou o mito de forma mais organizada, sem as confusões e o apelo sensacionalista de Antônio Wantuil de Freitas, antigo presidente da FEB e descobridor do "médium".

Quem prestar melhor atenção sabe que o mito de Chico Xavier contém ingredientes apelativos que analistas conceituados do Primeiro Mundo já definem como tendenciosos e manipuladores da opinião pública: o Ad Passiones (apelo à emoção) e o Assistencialismo (caridade paliativa).

Os dois apelos discursivos ainda são vistos, pela maior parte dos brasileiros, como atitudes "positivas" e dotadas de "valor moral elevado". Mas não é isso que análises diversas demonstram, lá fora, sobretudo alertando que o mundo capitalista nunca trouxe benefícios explorando intensamente essas duas estratégias de convencimento.

O Ad Passiones, discurso que apela para a exploração excessiva da emoção (como, no caso do "espiritismo", abusar das evocações de "amor" e "caridade" e mostrar imagens de crianças sorrindo ou desenhos de corações), é definido como um tipo de falácia, que é a veiculação de uma ideia falsa como se fosse uma "verdade indiscutível".

O Ad Passiones virou moda com o fenômeno da pós-verdade, que, de maneira inesperada e motivada mais pelos apelos emocionais do que pela realidade objetiva, causou vitórias surreais em vários países. Nos EUA, a inesperada vitória de Donald Trump e, no Reino Unido, da proposta de saída da monarquia europeia da União Europeia, revelam o triunfo da pós-verdade, que também influiu no Brasil, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O Assistencialismo, por sua vez, é uma caridade parcial, que apenas atende casos pontuais, sem romper profundamente com as injustiças sociais e sem representar a emancipação plena das populações carentes. Diferente da Assistência Social (que encara injustiças sociais de frente, não raro ameaçando os privilégios das elites), o Assistencialismo traz poucos benefícios e serve mais para expor o "benfeitor" em prol de sua promoção pessoal.

O "espiritismo" brasileiro diz fazer Assistência Social e alega que sua "caridade" é "transformadora". Mas a prática não revela isso, até porque, pela importância que se dá a esta religião, o Brasil teria se tornado um país melhor e não pior como está hoje, com a degradação do mercado de trabalho e outros retrocessos virando leis, estrangulando recursos públicos e empobrecendo e desgastando as forças das classes trabalhadoras.

A Mansão do Caminho é um exemplo disso. E com o apoio do poder midiático da Globo. Em reportagem do Fantástico, festejou-se demais a "caridade" de Divaldo Franco, tido como "maior filantropo do Brasil" por ajudar, tão somente, menos de 1% da população da cidade de Salvador. Em índices nacionais, o dado se torna até risível. É festa demais para pouca caridade, mostrando o quanto o Assistencialismo serve mais para a promoção pessoal dos "médiuns" brasileiros.

Tanto o Ad Passiones quanto o Assistencialismo são apelos tendenciosos que promovem o "espiritismo" para pôr a deturpação debaixo do tapete. O excesso de alusões ao amor, em palestras, visitas, mensagens, textos etc, confortam e tranquilizam muitos, mas se trata de um apelo perigoso, traiçoeiro, que garante a aceitação dos deturpadores que "vaticanizaram" o Espiritismo até quando se cogita a recuperação das bases doutrinárias.

Se o "espiritismo" representa o Ad Passiones nas excessivas citações de "amor" e "fraternidade", essa representação, quanto ao Assistencialismo, se dá nas supostas evocações de "caridade" e "bondade". São apelos que, no discurso, parecem belos e fascinantes, mas cujos efeitos são extremamente inexpressivos e não legitimam de forma alguma o "espiritismo" brasileiro, que continua devendo responsabilidade pelas traições que fez aos postulados de Allan Kardec.

E todas essas armadilhas as pessoas não percebem porque as "boas emoções" são a camuflagem perfeita para qualquer apelo religioso. A Rede Globo tem consultores de Psicologia dos mais habilidosos e a parceria com a ex-inimiga FEB tornou-se um casamento feliz, fazendo o povo se distrair com a visão adocicada do deturpador Chico Xavier, enquanto lincha figuras que realmente ajudaram o próximo como Lula.

As pessoas são manipuladas pelo moralismo conservador, pelo reacionarismo político e pelas paixões religiosas. Constroem para si uma realidade que se revela, na verdade, irreal e sem lógica, e, no caso do "espiritismo" brasileiro, deixaram crescer a reputação de um gravíssimo deturpador da Doutrina Espírita, um mineiro que arruinou o legado kardeciano e criou obras fake de supostos espíritos do além, para depois virar o "santo absoluto" devido às seduções maliciosas das paixões religiosas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O bitolamento dos cariocas e fluminenses

O FANATISMO POR FUTEBOL REVELA O CARÁTER BITOLADO OBTIDO PELOS CARIOCAS NOS ÚLTIMOS 25 ANOS.

Fanatismo por futebol, gosto musical restrito aos hits, obsessão por noitadas, eventual vício do cigarro, indisposição de reabastecer produtos nos mercados, visão conservadora da política. Tudo isso rebaixa o Rio de Janeiro e os demais Estados do Sul e Sudeste, antes redutos de modernidade e progresso, a antros do mais puro reacionarismo e até bitolamento sócio-cultural.

A decadência social, que faz com que o eixo Rio-São Paulo seja cenário de atos de truculência social e vandalismo, e redutos potenciais de candidatos do nível de Jair Bolsonaro, que se comprova dotado de profundos e perigosos preconceitos sociais, é uma realidade que muitos se recusam a admitir mas que se demonstra cada vez mais explícita e escancarada.

Nos últimos 25 anos, o Sul e Sudeste abriram mão de seus progressos sócio-culturais e sucumbiram a uma confusa guinada de atraso, em que se combinam a falsa simplicidade da bregalização cultural e a truculência obsessiva do reacionarismo ideológico. Funkeiros e "coxinhas" viram subprodutos, marcados por uma sociedade ao mesmo tempo permissiva demais e punitiva demais, sendo uma ou outra coisa de acordo com as conveniências do momento.

A decadência do Rio de Janeiro foi motivada por uma "cultura" pragmatista - de não querer o melhor, mas o "básico", como alguém que vai ao restaurante para pedir somente "arroz, feijão e carne" - que fez serem eleitos os piores políticos, trazendo uma péssima herança para o Brasil. Foi esse "pragmatismo" que fez o Rio se deteriorar não só na política, na segurança e nas finanças, mas também na cultura, sobretudo musical, no rádio e TV, na vida social e outros âmbitos.

O governo Michel Temer, por exemplo, se originou no Rio de Janeiro, apesar do presidente ser paulista. Ele se originou na eleição de Eduardo Cunha, que acompanhou a vitória eleitoral de políticos "pragmáticos" e falsamente modernos, como Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho. Foi Cunha que sabotou o governo Dilma Rousseff e se empenhou para tirá-la do poder.

Para piorar, o Rio elegeu também Flávio Bolsonaro, que tem no pai, o reacionário e preconceituoso Jair Bolsonaro, uma das maiores apostas do Estado para disputar a Presidência da República, representando mais uma ameaça que o "pragmatismo carioca" irá trazer para o país.

Culturalmente, o Rio de Janeiro que mostrou ao mundo a Bossa Nova e se tornou cenário de importantes movimentos da MPB e do Rock Brasil, sucumbiu à degradação do "funk carioca" (espécie de "Plano Temer" da música brasileira), surgida na Era Collor. O "funk" teve sua ascensão patrocinada, ao longo dos tempos, pelo próprio Eduardo Cunha (quando presidia a Telerj, dona de alguns clubes que abrigavam "bailes funk") e pelas Organizações Globo.

No rock, a "cultura pragmática" fez extinguir a Fluminense FM e sua programação de qualidade para abrir caminho a uma sub-clone da Jovem Pan com "vitrolão roqueiro": a Rádio Cidade, que teve que ser extinta, atingida por seus próprios erros, quando passou a divulgar um estereótipo idiotizado de fã roqueiro: aquele que bota língua para fora, faz sinal de demônio com as mãos, toca air guitar e só ouve uma música de cada banda de rock que diz curtir.

Em muitos casos, a coisa vai longe demais, como a Rádio Cidade, o ex-deputado Eduardo Cunha, Eduardo Paes, Sérgio Cabral Filho e os ônibus padronizados (a pintura padronizada já teve sua "sentença de morte" anunciada pelo atual secretário de Transportes, Fernando MacDowell, para este ano).

No último caso, o fato de diferentes empresas de ônibus terem a mesma pintura, confundindo os passageiros, só causou sérios problemas, que o discurso tecnocrático tentou abafar. A medida era repudiada pela população, o que fazia com que os pouquíssimos defensores dos "ônibus iguaizinhos", como uma minoria de busólogos, fizessem uma campanha de cyberbullying e uma página de ofensas ("Comentários Críticos") que reduziriam a busologia carioca num gabinete do então secretário de Transportes, Alexandre Sansão.

O Rio de Janeiro sofre uma série de graves problemas, que ultrapassam limites normais de imperfeição urbana. Importantes corredores viários são "bloqueados" por gigantescos complexos de favelas onde impera a criminalidade extrema (Complexos Alemão-Maré, no trecho Galeão-Centro, e Rocinha, no trecho Leblon-Barra), desafiando técnicos de urbanismo, segurança e qualidade de vida diante de tantos problemas de ordem policial, sócio-econômica, urbanística e habitacional.

Mas o mais grave disso tudo é que a chamada "boa sociedade" carioca - parcela que inclui a classe média, as elites e os chamados "pobres de direita" - está acomodada diante desse cenário desolador. A aparente felicidade que muitos cariocas e fluminenses em geral demonstram diante desse momento calamitoso é preocupante, tanto que as pessoas de fora do RJ já definem tal sensação como "despreocupação preocupante".

Isso porque as pessoas parece que pensam que, retrocedendo o Rio de Janeiro e o Brasil, se voltará para os tempos dourados de 1958. É essa a ilusão que move o cenário político e social do país hoje em dia, como se o Brasil colonial tivesse sido a fonte de felicidade para uma parcela de brasileiros, sobretudo do Sul e Sudeste.

A "cultura pragmática" ainda deixou o lazer dos cariocas e fluminenses mais restrito. A diversidade cultural deixou os cariocas limitados até nas opções de lazer, aceitando facilmente apenas os "bens culturais" impostos pela grande mídia (note-se o poder descomunal da Rede Globo), como o hit-parade musical (só as tais "músicas de sucesso") e poucas opções de lazer, superestimando o futebol.

Aliás, o fanatismo pelo futebol, que tanto orgulha os cariocas e fluminenses e faz com que torcedores gritem à noite incomodando o sono de quem quer acordar para trabalhar, é considerado uma chatice por quem vive fora do país, não bastasse a gritaria por um gol de um time carioca ser perigosa para o rendimento de quem teve o sono interrompido com tal poluição sonora, comum principalmente nas noites de quarta ou quinta-feira, vésperas de dias de trabalho, neste contexto de degradação do emprego.

O fanatismo pelo futebol, que regula as relações sociais no Estado do Rio de Janeiro, é considerado chato por quem vive fora pelo fato de ser um assunto monocórdico. É um problema comparável ao do personagem Howard, do seriado de TV Big Bang Theory, que queria falar para todo mundo e o tempo todo sobre suas façanhas como astronauta.

O carioca, quando vem falando sobre futebol o tempo todo, só é ouvido por outro carioca (ou por alguém de Niterói, São Gonçalo ou Baixada Fluminense, "papagaio de pirata" do carioquismo). Mas é só alguém de fora sair reclamando "Pô, você só fala nisso" ou "Hoje nem é dia de jogo e você já vem com esse papo?" para o carioca, se achando o "dono da verdade", sair irritado, provavelmente com vontade de fazer um blog ofensivo dedicado a seu desafeto.

Mas o carioca não é dono da verdade e o fanatismo pelo futebol chega mesmo a provocar assédio moral nos ambientes de trabalho e sociais. Aliás, assédio moral é uma constante no Grande Rio, em que houve até casos de universitários forçando um colega que não curte bebida alcoólica a "provar" um copo de cerveja.

Outro problema é o fumo. O fato de vários famosos, entre atores, músicos e jornalistas, morrerem relativamente cedo por consequência do fumo não convence muitos cariocas, que demonstram arrogância fazendo pose com o cigarro na mão, chegando a "fumar com os dedos" andando três quarteirões sem dar uma tragada, como se estivessem irritando os não-fumantes. Se conseguem andar três quarteirões sem tragar um cigarro, por que não decidem parar de fumar de uma vez?

O "pragmatismo" também impede que muitos produtos sejam reabastecidos em supermercados com eficácia, "sumindo" das prateleiras durante, pelo menos, duas ou três semanas. Ou o exigente mercado de trabalho cujo modelo de trabalhador a ser contratado é tão fantasioso que se molda em galãs como Malvino Salvador ou em humoristas como Danilo Gentili. E ainda tem o tal fanatismo pelo futebol!

Na vida amorosa, não há ambientes democráticos, havendo o monopólio das boates, o que significa tanto preços caros para alguém arrumar um amor e falta de segurança na volta para casa. Não há alternativas, como praças públicas, bibliotecas e nem há a sensibilidade necessária para casais se formarem por afinidade e sem precisar da máscara virtual das redes sociais, que muitas vezes revelam intrigas e malícias perigosas por trás de supostos contatos amorosos.

O Rio de Janeiro está desumano e precisa aprender, por exemplo, com a cidade de Salvador, que também passou por impasses semelhantes e, mesmo assim, nem tão decadentes como a Cidade Maravilhosa e seu respectivo Estado.

As pessoas deveriam sair do WhatsApp e do Facebook para estimular o contato pessoal além dos limites noturnos das boates da moda. Os cariocas e fluminenses deveriam ser menos agressivos, menos grosseiros, e repensar a vida pessoal e social, abrindo mão do Complexo de Superioridade que deixa o Rio de Janeiro naufragando em relação ao Brasil em geral.

A profunda crise que atinge o Rio de Janeiro é algo para pensar e não será resolvida por uma hipotética volta a 1958, mas na revisão profunda de valores e procedimentos que se encontram viciados e em solução de continuidade. Isso é ruim, porque já se tem a crise financeira que durará dez anos, e o risco é de haver uma crise sócio-cultural de mais de 20 anos, se nada for feito para conter isso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Chico Xavier, Teologia do Sofrimento e Império Romano

ABERRANTE ILUSTRAÇÃO COM PESSOAS CARREGANDO A CRUZ.

A ilustração acima mostra pessoas jovens carregando uma cruz. A aberrante imagem parece bonita aos olhos do discurso religioso, no qual seus ideólogos tentam fazer crer que é uma "simpática (?!) metáfora". Mas a verdade é que ela trás um significado muito mais sombrio do que se imagina.

Muita gente não percebe a influência, forte e dominante, na Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, no "espiritismo", que acaba sobressaindo até mesmo aos postulados kardecianos, cada vez mais deturpados ou desprezados. A Teologia do Sofrimento não se limita a ser uma corrente menor do Catolicismo, estando presente em quase todo o "movimento espírita" no Brasil e em iniciativas vinculadas a este em outros países.

É chocante dizer, mas a verdade é que Francisco Cândido Xavier tornou-se o maior ideólogo da Teologia do Sofrimento de toda a história brasileira, mais do que muito católico assumido. Nem João Mohana, considerado um dos principais divulgadores católicos, teve esse destaque nas ideias que fazem apologia ao sofrimento humano.

A Teologia do Sofrimento está explícita na obra de Chico Xavier e em seus depoimentos. Antes que os seguidores de Xavier, revoltados, apelem para dizer "ele nunca falou que defendia a Teologia do Sofrimento", é bom prestar atenção em suas ideias, e no pensamento pessoal do "médium" expresso em supostas psicografias atribuídas a Humberto de Campos, Casimiro de Abreu, Auta de Souza e outros.

Chico falava que as pessoas deveriam "sofrer sem mostrar sofrimento", e chegou a comparar as desgraças humanas a um exercício de escola. Isso é abertamente o conteúdo da Teologia do Sofrimento, que sempre apela para a aceitação das desgraças pessoais como um "atalho para Deus".

E a Teologia do Sofrimento, considerada uma "teoria cristã", na verdade é fruto de uma visão medieval que resultou num grave erro de interpretação. Defende-se o martírio de Jesus de Nazaré como se fosse uma "coisa boa", e seus pregadores falam em "carregar a cruz" com uma certa alegria e estranho otimismo.

Só que, se observarmos a coisa no âmbito da Teoria da Comunicação, o ponto de vista desta teoria é bem macabro. Como se considera o martírio de Jesus de Nazaré algo "positivo", como um "ingresso para o Paraíso", então a posição não é a favor de Jesus ou ao lado dele, mas ao lado dos tiranos do Império Romano que o mandaram ser crucificado, sem o julgamento de Pôncio Pilatos, que foi mera ficção: pelo raciocínio das autoridades romanas, condenar alguém é "pá-pum".

Pois se o foco é defender o sofrimento de Jesus, então é preciso uma análise mais lógica e coerente, antes de se apelar para o sado-masoquismo desse moralismo religioso que tanto prevalece no inconsciente das pessoas.

Pensamos bem. Vamos em partes:

1) A condenação de Jesus de Nazaré à cruz parte de autoridades do Império Romano, grupos de aristocratas poderosos que se incomodaram com as livres pregações que a vítima fazia, nas suas visitas de casa em casa.

2) Portanto, a decisão de crucificar Jesus é uma atitude de interesse das autoridades do Império Romano, que decidiram isso prontamente (o "julgamento" nunca existiu, pois não há documento histórico que indicasse tal ocorrência, e, no contexto sociológico e político da época, as condenações eram sumárias, como indicam os mais coerentes historiadores do período).

3) Apoiar a condenação de Jesus não é estar ao lado da vítima, mas, pelo contrário, ir contra Jesus. A Teologia do Sofrimento, portanto, é uma corrente anti-cristã, por ela defender uma medida adotada por tiranos contra alguém, e não se pode aceitar essa condenação sob o pretexto de "ser um caminho para Deus".

4) Apoiar a condenação de Jesus como um "atalho para Deus" ou um "passaporte para o Céu" é uma atitude que, com certeza, legitima a decisão de autoridades romanas, concordando com a tirania e suas medidas, e não o contrário.

Diante disso, temos que raciocinar mais adiante:

1) Chico Xavier, por suas frases, de maneira mais do que explícita fez apologia ao sofrimento humano, em várias vezes pregando para aceitar o sofrimento na "esperança de obter bênçãos eternas". Isso é defender a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica.

2) Através de Chico Xavier, o "espiritismo" brasileiro assumiu a causa da Teologia do Sofrimento, se não no discurso, ao menos na prática.

3) A Teologia do Sofrimento faz apologia da condenação de Jesus de Nazaré como "exemplo" para as pessoas "sofrerem para atingir o Céu".

4) Como se defende o martírio de Jesus de Nazaré, se aplaude quem decidiu por isso, no caso as tirânicas autoridades do Império Romano.

Logo, o "espiritismo" deturpado acaba, mesmo sem aparente propósito, se tornando anti-cristão. Defendendo o sofrimento humano a partir do "exemplo de Jesus", o "espiritismo" prega a Teologia do Sofrimento, se identificando com o Catolicismo da Idade Média e, portanto, tornando legítimos os interesses de dominação trazidos pelas autoridades do Império Romano.

Esse raciocínio exato e lógico faz com que se veja a coisa de forma realista, fora da imagem glamourizada do martírio sofrido por alguém. Na medida em que se defende esse martírio, as pessoas acabam apoiando a desgraça alheia. E, com isso, acabam, sim, legitimando o poder do Império Romano, trazendo a perspectiva de que o projeto "espírita" do Coração do Mundo tende a ser uma teocracia imperialista.

Desta forma, a "profecia da Data-Limite" de Chico Xavier traz algo ainda mais sombrio: o "espiritismo", que não é mais do que o Catolicismo jesuíta medieval redivivo, deseja ser uma religião dominante e construir um império, através da nação brasileira, sob o lema "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", uma expressão "bonita", mas que esconde um projeto totalitário de uma nação com poderes nela concentrados sob o pretexto de predestinação divina.

O projeto, portanto, que emula perspectivas já presentes no livro Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing, combina tanto o poder do Império Romano quanto a supremacia do Catolicismo da Idade Média.

O problema não são os relatos bonitos dos enunciados da "Pátria do Evangelho". O problema é o "obstáculo a ser combatido". O Catolicismo medieval também falava em "união pelo Cristo" e em nome dela cometeu atrocidades sanguinárias contra quem não compartilhava de seus propósitos. E o "espiritismo" tem uma desculpa pronta no caso de cometer genocídios: "reajustes espirituais" e "resgates coletivos".

Daí para o "espiritismo" defender Jair Bolsonaro é um pulo. Daí ser um grande perigo esse coquetel de ideias moralistas, fanatismo religioso e outras fantasias, mitos e catarses que escondem uma sociedade desumana e cruel por trás de tantas belezas retóricas da fé extrema.

sábado, 6 de maio de 2017

Filantropia não pode ser desculpa para o vazio doutrinário

HÁ QUEM PENSE QUE UMA MERA SOPINHA VÁ MUDAR O MUNDO...

No último domingo, um conjunto musical "espírita" se apresentou no Campo de São Bento, na proximidade da Rua Lopes Trovão, em Niterói. num evento supostamente "não-religioso", no qual a venda dos CDs seria "100% para a assistência social", para um centro que leva o nome de Chico Xavier.

O problema não é ajudar ou não, mas sabe-se que o "espiritismo" brasileiro vive de muita confusão doutrinária e ações paliativas. O que se chama de "assistência social" é, na verdade, um assistencialismo, onde apenas ações pontuais são realizadas, algumas "despretensiosamente" e outras apenas para enfatizar a marca da instituição ou do ídolo religioso.

O problema está na própria natureza do "espiritismo", cada vez mais se complicando com suas próprias contradições. É verdade que os "espíritas" estão reclamando das críticas que recebem, as definem como "ataques", se julgam "vítimas" de uma "campanha depreciativa" e ficam choramingando a crise que atinge o que eles dizem ser "o trabalho do bem".

Paciência. Os "espíritas" estão pagando muito caro pelas escolhas que fizeram. Optaram pelo igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing e depois o colocaram debaixo do tapete, bajulam Allan Kardec depois de tanta traição e, com tanta desonestidade, tentam compensar o vazio doutrinário falando sobre familinhas ou cantando musiquinhas, por sinal muito ruins.

É como escolher um caminho que, desde o começo, se aconselhou a não seguir. Desde os tempos de Kardec, se falava da deturpação do Espiritismo e o Brasil preferiu fechar os ouvidos a esse alerta. Fechando os ouvidos, caiu na armadilha de Roustaing. Envergonhado, o "movimento espírita" tentou fingir que aprendeu melhor o legado kardeciano e continuou praticando o igrejismo, caindo numa infinita e preocupante rede de contradições.

Os "espíritas" não querem ser responsabilizados pela própria deturpação. Dizem assumir seus erros, mas não querem sofrer os seus efeitos. Se entristecem quando a constatação de crise lhes chega e o vitimismo torna-se notório. A crise no "movimento espírita" é tanta que agora apelam para fazer musiquinha fora das "casas espíritas".

Há o desesperado proselitismo do cantor com seu violão, dizendo que o mundo "será espírita", orientado pelas recomendações de seu "centro". Clichês temáticos como falar em "luz" e apelar para a filantropia se tornam apelos fáceis, que só são aceitos porque o verdadeiro Espiritismo - verdadeiro MESMO - , de Kardec, simplesmente é desconhecido pela maioria esmagadora dos brasileiros.

O que se vende como "espiritismo" é um engodo doutrinário que mistura Roustaing, Companhia de Jesus e moralismo social ultraconservador, e que a grande mídia tenta fazer crer que é uma forma "equilibrada" da "doutrina de Kardec". A "fase dúbia", que veio após a morte de Wantuil e se vale desse jogo duplo de misturas conceitos igrejistas e científicos, garantiu essa manobra, ainda mais com o apoio das Organizações Globo, hoje apoiando Francisco Cândido Xavier.

Aí as pessoas, tomadas de emotividade cega, não percebem o que está por trás do aparato de ações que parecem boas ou de juízos de valor que parecem justos. Muitas pessoas têm uma visão esquizofrênica de moralidade, que pensam que a ideia de "bondade" só faz sentido quando ela é derivada do institucionalismo religioso, valorizando mais a fé do que os benefícios causados, que no caso da filantropia religiosa, são muito inexpressivos.

A filantropia não pode servir como desculpa para o vazio doutrinário. A crise que o "espiritismo" sofre não vem das críticas que recebe, da mesma forma que não se pode culpar o faxineiro pela sujeira que ele, na verdade, varre. As contradições que o "espiritismo" sofre são muitíssimo graves, no nível da pura desonestidade doutrinária.

E não é essa desonestidade que se tornará honesta com aparente filantropia. E nem se fala de questões sombrias por trás de ações filantrópicas, como "lavagem de dinheiro", superfaturamento etc, mas do próprio problema da "caridade" servir mais para expor o "benfeitor" do que trazer benefícios.

Essa "filantropia" que põe a deturpação da Doutrina Espírita debaixo do tapete não justifica o vazio doutrinário e nem reforça as dissimulações que fazem os próprios "espíritas" se desentenderem uns aos outros, porque nenhum deles consegue manter o igrejismo herdado do deturpador Chico Xavier, de Divaldo Franco e similares, sem que seus devaneios religiosos se choquem mutuamente.

Reduzido a um sub-Catolicismo de matizes medievais, o "espiritismo" deveria ao menos assumir seu roustanguismo, tirando do armário o livro Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing, verdadeira fonte inspiradora das obras de Chico Xavier. Assumir isso seria desagradável, mas seria muito mais honesto. Roustaing vive nas práticas que o "espiritismo" brasileiro faz hoje em dia.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O "bombardeio do amor" como tática perigosa


Um texto do portal Listverse mostra uma lista de dez razões psicológicas para pessoas se juntarem a cultos, não apenas religiosos, mas institucionais de toda espécie, incluindo desde uma fábrica de material esportivo até o manjado nazi-fascismo e organizações estranhas como a Família Manson. Para quem não tem paciência em ler em inglês, há um texto em espanhol.

No exterior, onde a humanidade teve experiência com as várias armadilhas da retórica humana, ninguém se ilude com o "apelo à emoção", ou Ad Passiones, e com o que chamam love bombing, o "bombardeio do amor". É certo que lá tem gente que adere a essas armadilhas, mas elas podem ser também identificadas e seu perigo reconhecido por não pouca gente.

Uma das dez razões apresentadas na lista nós reproduzimos em português, para entender melhor o assunto que focamos nesta postagem, e que revela uma armadilha muito usada pelo "movimento espírita" e que nem os contestadores da deturpação do legado de Allan Kardec têm coragem de questionar:

"Uma das táticas utilizadas pelas seitas para atrair novos membros é o "bombardeio do amor". Esta é uma técnica onde os membros do grupo são demasiado carinhosos e compreensivos. Para alguém que tem baixa autoestima, este é um grande impulso para o ego. Para as pessoas que não estão acostumadas a receber muito amor e adulação em sua vida, isto é obviamente algo muito sedutor. Às vezes, se trata de um culto religioso, se promete aos membros que, além de receber o amor dos seres humanos no grupo, receberão também um amor espiritual e a aceitação de um ser superior. 

Porém, uma vez que alguém começa a questionar ou duvidar das ações da organização, este "bombardeio de amor" pode rapidamente voltar. Para castigar a qualquer um que questionar a autoridade, eles o submetem à humilhação pública e ao isolamento social. Temendo a perda de novas amizades e relações íntimas, as pessoas deixam de questionar. Os tipos de pessoas mais suscetíveis a esse tipo de manipulação são aqueles que provém de famílias em conflito e relações abusivas".

O "bombardeio de amor" é a arma usada pela deturpação da Doutrina Espírita para se fazer prevalecer. Cria-se todo um malabarismo de belas palavras, todo um açúcar de frases e imagens, todo um artifício de afetividade que tenta envolver as pessoas, e os questionadores da deturpação param no meio do caminho.

Daí que os questionamentos em torno dos deturpadores Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco estacionam no meio do caminho. A falácia de que eles "praticam bondade" e "ajudam muita gente", além de carecer de embasamento, serve para usar a perigosa tática de "bombardeio de amor" para calar os contestadores.

Dois casos em prol da deturpação envolveram essa perigosa estratégia, que em inglês se denomina love bombing - no fundo, uma versão mais radical do Ad Passiones - e consiste num jogo psicológico de usar artifícios de afetividade e comoção para dominar a pessoa, um "canto de sereia" místico e ainda mais cruel porque evoca ideias como "bondade", "caridade" e "fraternidade" que facilmente subjugam a vítima.

Um ocorreu em 1957. Depois do episódio dos herdeiros de Humberto de Campos, que processaram Chico Xavier e a FEB pelo uso do nome do falecido escritor, o anti-médium mineiro armou uma emboscada para dominar o homônimo filho do escritor, um jornalista e produtor de TV que chegou a aparecer até em uma foto ao lado de Hebe Camargo.

Sabe-se que o desfecho do famoso processo judicial de 1944 resultou em empate. Os juízes tiveram entendimento raso, achando que a questão se limitava aos direitos autorais, quando estava claro que o "espírito Humberto de Campos" era uma farsa. Os herdeiros chegaram a recorrer da sentença e Chico Xavier teria que armar um plano para atrair para si o apoio de suas vítimas.

A víuva de Humberto, D. Catarina Vergolina, também conhecida como "dona Paquita", faleceu em 1951. O esperto anti-médium mineiro já havia seduzido a mãe do escritor, dona Ana de Campos Veras, e se preparava para seduzir o neto desta, Humberto de Campos Filho.

Em 1957, convidou Humberto para uma doutrinária, em um "centro espírita" de Uberaba. e fez todo o alarde. Dois aspectos de manipulação da opinião pública foram usados para seduzir e conquistar Humberto: o Ad Passiones, através da forma radical do "bombardeio de amor", e o assistencialismo. Ambos considerados métodos perigosos de manipulação do inconsciente coletivo.

O "bombardeio de amor" se deu pelo traiçoeiro abraço "fraternal" de Chico Xavier em Humberto de Campos Filho. Este se rendeu ao efeito catártico da comoção extrema, como se fosse um "orgasmo com os olhos" dentro desse processo mórbido de sedução. A esfera "familiar", o clima "afetuoso" e a comoção existente até no fundo musical usado nas "casas espíritas" (na época, músicas orquestrais, distante de nomes como Enya, que se usam hoje), foi certeiro para tal dominação.

No caso do assistencialismo, Chico Xavier mostrou a Humberto Filho atividades "filantrópicas" como um grupo de senhoras cozinhando sopas e uma caravana de ostentação que mais se exibia do que ajudava o próximo: sua "causa" era apenas uma inócua e pouco eficiente doação de mantimentos, uma ajuda que nada contribui em transformações profundas na humanidade.

Outro exemplo de "bombardeio de amor" envolveu a atriz Camila Pitanga. Ela perdeu o amigo e colega de elenco da novela Velho Chico, da Rede Globo, o ator Domingos Montagner, que, ao nadar num trecho do Rio São Francisco, morreu afogado. Camila ia nadar com ele, mas ele a impediu, o que fez ela se livrar da tragédia.

Ateia, Camila Pitanga foi aconselhada, talvez por um colega "espírita" da novela (Carlos Vereza?) a agradecer pela sobrevida no "centro" de João Teixeira de Faria, o João de Deus, o mais novo arroz-de-festa da deturpação do Espiritismo. A chegada de uma atriz da Globo, ateia e de esquerda (João de Deus, latifundiário e direitista, foi até capa de elogiosa matéria da reacionária Veja), foi um prato cheio para a propaganda do anti-médium de Abadiânia, Goiás.

Uma foto que foi divulgada na Internet e até em parte da imprensa escrita mostra Camila ao lado de uma funcionária do "centro", com uma aparente positividade que consiste num dos apelos do "bombardeio de amor", uma propaganda religiosa que não consiste numa bondade espontânea, mas num apelo tendencioso.

Sabe-se que há um esforço para "privatizar" o conceito de "bondade" ao institucionalismo religioso, como se ela não fosse uma qualidade inerente da espécie humana, mas tão somente um subproduto de determinada seita ou movimento religioso. E o "espiritismo" se apoia em muitas falácias para manter a "bondade" como um sub-conceito seu, reduzindo a virtude humana a um mero pragmatismo igrejeiro e paternalista.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Por que o "espiritismo" facilita a ação de espíritos vingativos?


Muitas pessoas reclamam pelo fato de assistirem a doutrinárias "espíritas", lerem seus livros mais destacados ou fazer seus tratamentos em "casas espíritas" e contraírem azar e infortúnios. Veem as pessoas de mais valor moral e intelectual morrerem de repente, sofrem infortúnios graves, vivem em sobressaltos e são alvos de humilhações por pouca coisa.

Os "espíritas" costumam acusar os outros. A vítima é a "culpada", por alguma "falta de fé" ou porque tem "algo a ajustar" de uma suposta encarnação antiga. Essa presunção de "reajustes espirituais" é feita no mais completo achismo, considerando que o "espiritismo" brasileiro é tão deturpado que ele é simplesmente ignorante em Ciência Espírita.

A verdade é que o prestígio religioso anda criando uma grande ilusão em uma parcela de pessoas, que são os palestrantes, ídolos e tarefeiros "espíritas". Eles se acham no direito de fazer juízo de valor aqui e ali, e dar pitaco até na vontade dos outros. Tem "espírita" até que diz qual o tipo de mulher que um homem deve ter, ou qual o tipo de homem que uma mulher deve ter na vida amorosa.

O "espiritismo" é tão deturpado e tão dissimulado que atrai para si as piores energias. Imagine praticar ideias trazidas pelo livro Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing, ter vergonha deste nome e jurar de joelhos que segue com rigor absoluto os postulados originais de Allan Kardec.

Pura hipocrisia, não é? É, sim. Porque alegar uma postura e praticar outra bem oposta é falsidade, por mais que esta falsidade se esconda em palavras bonitas e ilustraçõezinhas de corações vermelhos e fofos que nem almofadas.

Nem as músicas "espíritas" afastam os espíritos inferiores. Pelo contrário, eles se aproximam cada vez mais, porque, para eles, é um descanso, um recreio diante do "trabalho" que eles fazem para arruinar a vida das pessoas. Imaginar que o açúcar das palavras causa repugnância nos espíritos endurecidos é um grande engano.

O rol de contradições aqui e ali dá ao "espiritismo" uma triste peculiaridade: é a religião com mais contradições de todas que existem no Brasil. O Catolicismo e o Protestantismo têm suas fantasias, as seitas neopentecostais contam com um projeto retrógrado de sociedade, como se quisesse fazer o Brasil retroceder aos tempos de Moisés, mas pelo menos essas religiões contam com coerência doutrinária, no sentido de que não dissimulam e não afirmam ser aquilo que não são.

O "espiritismo" é hipócrita e dissimulador. Roustanguista, faz de tudo para manter seu vínculo forçado a Allan Kardec. As mensagens "mediúnicas", feitas à revelia de qualquer estudo de Ciência Espírita, apresentam falhas grotescas relacionadas aos aspectos pessoais dos autores espirituais alegados. O "morto" retorna e "passa a escrever e pensar" igualzinho ao "médium". Não é estranho?

A hipocrisia é tanta que o "espiritismo", na prática, se afasta dos postulados originais de Kardec, mergulhado no igrejismo dos antigos jesuítas do Brasil-colônia, e passa a encampar causas muito estranhas ao legado kardeciano, como a Teologia do Sofrimento, corrente medieval do Catolicismo que não é unanimidade entre os católicos.

Nenhum "espírita" veio dizer que defende a Teologia do Sofrimento e é possível que seu discurso apele sempre no "desconhecimento" dessa corrente católica, ou mesmo num falso repúdio. Mas as ideias trazidas a partir do próprio Francisco Cândido Xavier, em suas próprias palavras, demonstram que a Teologia do Sofrimento praticamente virou a base do "espiritismo" feito no Brasil.

Chico Xavier sempre dizia, em suas frases, para a pessoa aguentar e até adorar o sofrimento, sofrer desgraças e fingir que está tudo bem. Ele chegava mesmo a botar suas ideias usando os nomes de autores mortos como Auta de Souza, Casimiro de Abreu e Humberto de Campos, "forçados a concordar" com o "médium", num processo perigoso de mistificação.

Isso faz a festa dos espíritos inferiores. A alegação de "reajustes espirituais", a suposição leviana de "dívidas passadas", feitas desprezando a Ciência Espírita, mas motivada pelo "achismo" que a ilusão do prestígio religioso parece, em tese, garantir, faz a farra da "galera do umbral" que sempre tem um motivo para arruinar a vida de alguém ou para motivar algum encarnado a agir em prejuízo ao próximo.

Como a vítima é que leva a culpa e o algoz da ocasião só vai "pagar pelo que fez" na próxima encarnação - é a teoria do "fiado espírita" - , a "multidão das trevas" tem todo o caminho aberto. Os espíritos inferiores viram "jagunços" da "Lei de Causa e Efeito", e com isso têm sua responsabilidade provisoriamente atenuada, sofrendo uma "moratória moral" de cerca de cinquenta ou seis anos, o que faz com que os crimes e outros delitos só possam ser pagos em outra encarnação e após arrependimento.

O moralismo retrógrado do "espiritismo" e sua ética um tanto torta que permite que espíritos atrasados se "adiantem" apressadamente, como "justiceiros do além", enquanto espíritos com algum adiantamento moral e intelectual têm suas encarnações interrompidas pela tragédia ou pelas desgraças faz com que o "espiritismo" seja uma porta aberta para espíritos do mais baixo nível moral e intelectual.

Embora não seja a religião mais popular do Brasil, com apenas 1% de adesão (o Censo afirma ter 2%, mas a realidade indica metade disso), o "espiritismo" é uma religião-porteira no qual atrai espíritos maléficos através de seu rol de contradições, confusões, equívocos e dissimulações.

Os espíritos inferiores são favorecidos pelas "boas energias" da doutrina e se empolgam tanto que eles se expandem e decidem também ocupar os mais diversos espaços da sociedade, fora do âmbito "espírita". ampliando demais a sua influência e travando gravemente o progresso do Brasil, que se torna refém de antigos paradigmas, uns relacionados à ditadura militar, outros ao período colonial, outros ao macartismo dos EUA e por aí vai.

Diante disso, percebemos o quanto o "espiritismo" brasileiro brinca com as circunstâncias. Contradiz, dissimula e omite o tempo inteiro, camuflando tudo com um interminável balé de palavras bonitas, imagens adocicadas e um aparato de filantropia que se revela, na verdade, um mero Assistencialismo, uma "caridade" que nunca transformou a sociedade de forma profunda e definitiva, servindo apenas para a promoção pessoal do "médium" que já é alvo do mais mórbido culto à personalidade.
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