sexta-feira, 14 de abril de 2017

Religiosa, São Gonçalo assusta pela violência crescente


Já se falou que São Gonçalo, embora seja uma cidade com um dos maiores números de casas religiosas no Estado do Rio de Janeiro, é também uma das mais violentas. A violência chega a ocorrer à luz do dia e faz as pessoas evitarem sair à noite e provoca fechamento de casas e até prédios comerciais.

Embora boa parte da sociedade imagine a religião como instituição que sempre resgata a vida dos cidadãos, a cada vez mais a realidade mostra o lado contrário, pois boa parte das manifestações de ódio nas mídias sociais vem de pessoas que, de alguma forma, professam alguma religião.

A campanha de ódio que tirou do poder a presidenta Dilma Rousseff e colocou no lugar seu vice, Michel Temer, que a traiu em prol de um projeto político voltado a medidas amargas que desfazem conquistas sociais históricas e que representam um grave retrocesso social que retomaria as velhas estruturas de rigorosa desigualdade social do Brasil colonial.

O efeito aparentemente benéfico da religião começa a ser questionado, principalmente pelo fato dos internautas mais reacionários serem "cristãos": muitas das práticas de cyberbullying são feitas por pessoas que se dizem "acreditar em Jesus" e que atribuem à imagem de Satanás qualquer desafeto, desde aquele que contesta o "estabelecido" até um político de um partido de esquerda.

Surge a notícia de que os evangélicos vão defender a candidatura de Jair Bolsonaro, uma das mais perigosas figuras da política brasileira, pelo extremo reacionarismo e pelas confusões com que se envolveu e que os noticiários comprovam. Isso é muito grave, não bastasse as medidas que o Congresso Nacional, cada vez mais indiferente ao povo, impõe à população, como a reforma previdenciária e a reforma trabalhista, cujo aperitivo é a já aprovada terceirização generalizada.

O modo "religioso" de ver as arbitrariedades e erros, vários gravíssimos, de gente dotada de algum privilégio social, da fama à religião, do porte de armas ao diploma, do domínio de informática à concentração do capital, também preocupa.

Dependendo do prestígio social, mesmo crimes de morte passam a ser encarados de forma atenuante. Confusões que podem pôr uma humanidade a perder são vistos com gracejos, como se não fossem graves confusões, mas demonstrações do senso de humor.

Arbitrariedades que mais prejudicam a população - como, no Rio de Janeiro, a pintura padronizada nos ônibus que confundia as pessoas na hora do ir e vir - são aceitas de maneira submissa sob a ilusão de "sacrifício necessário", uma falácia que aqueles que se escondem pelo prestígio tecnocrático do diploma, do dinheiro ou poder político usam para impor medidas injustas e nocivas sob a falsa promessa de um "benefício maior".

Parece até Teologia do Sofrimento. E é, aplicada fora da religião. através da ilusão de que as supostas atribuições técnicas e racionais de uma elite de políticos, administradores e tecnocratas lhes permite prejudicar a população, forçando-a a aceitar o próprio prejuízo em prol de pretensos benefícios que não se tem certeza se serão benéficos ou se eles realmente existirão.

A "religiosização", que é atribuir missões divinas a ações que na verdade parecem medíocres ou nefastas, e que se manifesta pela pós-verdade - a mania de criar uma retórica racional para ideias nada racionais - , também faz com que certas pessoas se achem no direito de praticar certas maldades porque, depois, a religião irá "limpar" as "sujeiras" que fez.

Em muitos casos, atrocidades são justificadas por pretextos moralistas. O feminicídio conjugal, por exemplo, usa as desculpas da "defesa da honra" e, não raro, evoca valores da "família" e, pasmem, até do "amor". A violência latifundiária contra os camponeses também evoca uma "causa nobre", a defesa da "propriedade", não raro "garantida por Deus".

O histórico do Catolicismo da Idade Média, portanto, revela o quanto a religião também pode cometer crueldades. A supremacia da fé e a ilusão do vínculo divino - lembrando que a figura de Deus é ainda muito enigmática e sem comprovação científica - permitiu aos católicos praticar o "banho de sangue" em níveis comparáveis aos do holocausto nazi-fascista, movimentos políticos que se ascenderam pela "religiosização" da política.

Atualmente, seitas neopentecostais e o "movimento espírita" buscam herdar o espólio do Catolicismo medieval enquanto a Igreja Católica propriamente dita busca se atualizar. Seitas como a Igreja Universal do Reino de Deus se ancoram na leitura medieval do Velho Testamento, enquanto o "espiritismo" brasileiro adota a leitura do Novo Testamento, também em abordagem medieval. IURD e FEB também têm braços midiáticos, respectivamente a Record TV e a Rede Globo.

Diante desse suporte midiático, as religiões se ampliam num contexto cada vez mais conservador. A própria grande mídia é divinizada, exercendo poderes sagrados de impor até mesmo gírias e ídolos. Poucos percebem, mas a Globo usou Chico Xavier e o glorificou para fazer frente a Edir Macedo e R. R. Soares na disputa pela supremacia religiosa.

Dito isso, é ilustrativo que locais onde há muitas casas religiosas são também redutos de grande violência. Não é a religião que se instala em locais violentos para eliminar a criminalidade, embora, em tese, seja seu propósito, mas é a violência que é liberada pela lógica emocional e justiceira da fé.

Não por acaso, muitos dos "centros espíritas" e tempos neopentecostais se localizam em áreas que, depois, têm sua violência agravada. Áreas como Pau da Lima e Uruguai, em Salvador, Madureira no Rio de Janeiro, e Viradouro e Fonseca, em Niterói, se tornam redutos preocupantes de violência, com assassinatos e assaltos ocorridos até à luz do dia e diante de muito movimento de pessoas.

Da mesma forma, São Gonçalo também se torna reduto. E isso cria um prejuízo tão grave que os roubos de cargas refletem até nos preços das mercadorias, com aumentos de até 35%. Os índices de homicídios chegam a uma média de 25 por dia, quase uma vítima por dia. Para se proteger, cercas e portões com material cortante e portas gradeadas são instaladas até em vilas.

Bairros como Salgueiro e Jardim Catarina demonstram ser os mais violentos e os que mais oferecem dificuldades para a ação policial. Mas outros bairros, como Pacheco, Santa Isabel e o entorno do Jardim Alcântara e Galo Branco também mostram episódios preocupantes de assassinatos e roubos.

Que a violência existe em qualquer lugar e sob qualquer contexto, isso é verdade. Mas a religião, que se anuncia como a solução para reduzir os índices de criminalidade, acaba os estimulando, até pelo fato de que seitas conservadoras servem mais para poupar os algozes, numa suposta "misericórdia" ou "ressocialização" que só lhes restitui os privilégios e o poder, do que os mais necessitados, que continuam sofrendo desgraças. Diante dessa desigualdade, o crime só tende a aumentar.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

"Bondade" que sobrepõe a imagem do benfeitor é duvidosa


O "espiritismo" brasileiro tem uma desculpa pronta para levar todas as deturpações e outras irregularidades para a frente: a "caridade". Em muitos casos, se autopromove como a "religião da bondade", com apelos que chegam ao ponto da pieguice mais enjoativa mas suficiente para deixar as pessoas conformadas com esse "atenuante" da doutrina que traiu Allan Kardec.

Quantos palestrantes realizam todo um balé de palavras bonitas! Quantos apelos à fraternidade e à paz, com palavras do mais puro gosto de mel! Quantos apelos à beleza, à simplicidade, ao amor! Quantos, quantos e quantos discursos que desarmam até o mais ácido questionador da deturpação da Doutrina Espírita, se ele não estiver preparado para enfrentar esses cantos-de-sereias!!

O Brasil, país tão atrasado que hoje abriga espíritos cujo comportamento sugere que muitos brasileiros tenham sido reencarnações de espíritos retrógrados - dos aristocratas do Império Romano aos macartistas dos EUA, passando por medievais e nazi-fascistas - , o que se comprova pelo "espírito do tempo" marcado pelas ações que geraram esse quadro político, midiático e sócio-econômico viciado dos últimos anos, ainda não consegue entender a verdadeira natureza da bondade.

A bondade é vista aqui como um empreendimento vinculado a uma instituição religiosa de "livre escolha". Esse empreendimento é de propriedade de um ente chamado Deus e qualquer pessoa pode adquirir essa franquia, de forma "livre" e "ilimitada", desde que haja algum vínculo institucional ou uma relação com algum ídolo religioso.

As pessoas acabam caindo em tentações movidas pela paixão religiosa. De repente, diante de certos projetos filantrópicos, se esquecem dos beneficiados, diante da exaltação do benfeitor. E, no "espiritismo", a "caridade" é usada mais para legitimar os deturpadores que, em termos de prática espírita, fazem tudo errado, mas se sobressaem por causa da "bondade", a ponto dos críticos da deturpação do Espiritismo aceitarem de bom grado os deturpadores.

Quando a "bondade" expõe o benfeitor sobre o beneficiado, é bom desconfiar. No "espiritismo", pouco se fala de beneficiados, embora a realidade mostre que a doutrina ajudou muito pouco, investindo em meras ações paliativas que nem de longe transformam a vida das pessoas. Os necessitados são quase sempre os mesmos. E projetos pedagógicos se limitam a formar cidadãos corretos, mas beatos e inócuos, simpáticos porém medíocres.

Fala-se demais do benfeitor. Claro, é uma forma de minimizar as responsabilidades que o deturpador deveria assumir pela traição ao pensamento de Allan Kardec, algo que muitos subestimam, mas é um ato de desonestidade explícita.

Ignora-se que Allan Kardec fez sozinho todo seu sistema de valores, procurando selecionar as mensagens espirituais que solicitou de outros médiuns. Vale lembrar que os médiuns a serviço de Kardec eram pessoas discretas e quase anônimas, sem o culto à personalidade e o messianismo associados a gente como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco.

Kardec pagou suas próprias viagens, sem patrocínio alheio. Passava altas horas da noite respondendo dúvidas e questionamentos. Recorria à própria esposa, Amelie Gabrielle Boudet, para pedir conselhos em situações difíceis. Nos momentos finais da vida, ainda escrevia sofrendo febre alta e portando um aneurisma cerebral.

Tudo isso foi feito com muita dificuldade para depois a Doutrina Espírita servir para as diversões igrejistas dos grandes detupadores Chico Xavier e Divaldo Franco, seguidores nunca assumidos do pioneiro deturpador Jean-Baptiste Roustaing, o primeiro que quis "catolicizar" o legado kardeciano.

Os dois "médiuns" fizeram tudo errado, transformaram o Espiritismo num engodo, num bacanal religioso marcado por péssimos romancistas, cientistas fracassados e paranormais de fraca concentração mental que recorrem à "mediunidade de faz-de-conta", inserindo apelos religiosos para afastar qualquer desconfiança de fraude, porque raramente alguém tem coragem de investigar "mensagens de amor".

A "bondade" serve de escudo para deturpadores, que se armam de projetos "filantrópicos" aparentemente "admiráveis", mas que pouco trazem de benefícios. Em muitos casos, os benefícios são menores do que certos projetos filantrópicos bancados por gente rica e famosa, que, com toda a ostentação de seus benfeitores, ainda faz "algo mais" do que os tão festejados "espíritas". Como educação cultural e um ensino de História com um pouco mais de análise crítica.

Um bom termômetro disso é Uberaba, a cidade adotiva de Chico Xavier. Tão "beneficiada" pelo suposto carisma do anti-médium mineiro, tão "protegida" por suas "boas energias" e tão transformada" por sua aparente filantropia, a cidade do Triângulo Mineiro caiu 106 posições, em Índice de Desenvolvimento Humano, nos levantamentos de 2000 e 2010 e, no centenário de nascimento do "bondoso homem", Uberaba ficou em 210º lugar com índices de pobreza e violência.

Nos últimos anos, os assassinatos que ocorreram em Uberaba atingiram índices tão preocupantes que foi feita até foto-montagem com a famosa "dama encapuzada com seu foice" andando por uma rua da cidade. E ocorreram até passeatas pedindo Justiça e mais policiamento. Os "espíritas" devem achar isso "injusto", porque em Uberaba só morre de violência quem tiver sido patrício de Roma...

A verdade é que, infelizmente, a "bondade" é usada para abafar a gravidade dos deturpadores da Doutrina Espírita, que praticam o roustanguismo seu de cada dia, com o igrejismo mais viscoso, cheio de fantasias em torno de "crianças-índigo", "colônias espirituais" e a redução da emotividade humana a um mero entretenimento.

E tudo isso apoiado não no legado de Kardec, mas na medieval Teologia do Sofrimento católica, aquela que diz que "é bonito sofrer". Até porque é necessário haver desgraçados para que se acione a "indústria de bondade" que garante a propaganda de exaltação aos deturpadores convertidos em "missionários". Kardec estaria envergonhado se visse tudo isso.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Seletividade jurídica e prestígio religioso

"ANCESTRAIS" DE RODRIGO JANOT E SÉRGIO MORO DEIXARAM PASSAR OS PASTICHES LITERÁRIOS DE CHICO XAVIER E COMPANHIA.

A Justiça brasileira é aberrante? Sua atuação é bastante seletiva, sendo menos rigorosa com aqueles que são dotados de algum prestígio social? A realidade de nossa Justiça, que apenas parece menos cruel, em punições, do que os patrícios do Império Romano, é algo muito, muito antigo.

Já que hoje os "espíritas" comemoram o aniversário do seu ídolo Francisco Cândido Xavier - que teve a sorte de não ter nascido no próprio Dia da Mentira, mas um dia depois - , cita-se o caso de Humberto de Campos, o caso mais deplorável de apropriação indébita de um escritor falecido, e o caso mais assustador de impunidade que permitiu que seu infrator se transformasse, ao longo dos anos, em um quase deus!!

A memória curta apagou a imagem de pastichador de textos de Chico Xavier, lembrando que o anti-médium mineiro não fazia essa tarefa sozinho. Tinha a colaboração de editores, redatores e consultores literários. Em muitos casos, não conseguia imitar o estilo literário de um escritor, e acabou imitando, sem querer, o de outro.

Osório Borba, eminente crítico literário, afirmou certa vez que Chico Xavier confundiu Augusto dos Anjos com Antero de Quental. Detalhe: um poeta brasileiro e um poeta português. Isso diz muito pelo fato de que, se Chico Xavier não podia fazer pastiches sozinho, também seria incapaz de fazer uma obra mediúnica verdadeira se os autores do além "escrevem" e "pensam" igualzinho ao "médium".

O caso de Humberto foi o mais aberrante, embora sejam da mesma foma deploráveis os casos de Olavo Bilac e Auta de Souza, que "perderam seus estilos pessoais" com a pena de Chico Xavier. Um "Olavo Bilac" descuidado de métrica com versos sem musicalidade, uma "Auta de Souza" sem o estilo pessoal feminino e meigo, que nas obras publicadas em vida saltava nos versos.

Mas o caso de Humberto é que foi deplorável. Soa como uma revanche. Afinal, Humberto havia, em vida, feito um comentário bastante irônico sobre o livro Parnaso de Além-Túmulo, de Chico Xavier, pedindo para que os "poetas do além" não concorressem com os vivos na publicação de obras poéticas. Chico que, como todo caipira, queria fazer sucesso nas cidades grandes - Humberto morava no Rio de Janeiro, então capital do Brasil - , entendeu aquilo como reprovação de seu livro.

O suposto Humberto de Campos das obras "espirituais" (inclui aquelas em que se foi colocado o codinome "Irmão X"), em que pesem as semelhanças superficiais que só saltam na primeira e apressada impressão, depois se revelando bem poucas, é na essência completamente diferente do Humberto de Campos que esteve entre nós.

Textos muito pesados de se ler, sem a narrativa ágil que marcou a trajetória do autor maranhense. Mesmo quando se imitam contos curtos de diálogos rápidos, não é a mesma coisa. O "Humberto de Campos" trazido por Chico Xavier é mais melancólico, deprimente, em muitos momentos religiosamente panfletário, que numa leitura atenta não traz o mesmo prazer do que os livros que Humberto publicou em vida, por mais que se esforce em fingir a mesma sensação.

Os brasileiros médios não fazem uma leitura atenta, e ainda são seduzidos pelas paixões religiosas, um problema sério, de extrema gravidade, que ainda será analisado largamente fora da blogosfera que questiona as irregularidades "espíritas", e talvez fora até mesmo deste âmbito religioso, onde os deturpadores da Doutrina Espírita não poderão convencer mostrando slides de crianças pobres sorrindo para afastar qualquer crítica contra quem faz tal deturpação.

Tudo isso é evidente, claro. As obras "mediúnicas" de Chico Xavier sempre trazem explicitamente pontos comprometedores em relação a detalhes pessoais dos autores mortos alegados. Isso põe em xeque a tese de veracidade das mensagens, ou mesmo a tímida e hesitante tese de "não admitir que são verdadeiras, mas também não negar" que certas correntes adotam.

Isso a Justiça dos homens fez vista grossa. No caso do julgamento do processo movido pelos herdeiros de Humberto de Campos, dois erros foram cometidos tanto por quem formulou a petição quanto quem a julgou:

1) Os herdeiros foram pouco firmes no enunciado do processo. Em vez de dizer que Chico Xavier teria feito apropriação indébita de Humberto de Campos (até como "resposta" ao comentário irônico que o autor maranhense lhe fez em vida), o enunciado foi melindroso: pedia aos juristas analisarem se a obra "espiritual" era verdadeira ou não; se caso positivo, FEB e Chico Xavier pagariam direitos autorais aos herdeiros; se caso negativo, haveria multa por indenização.

2) Os juízes só levaram em conta a questão dos direitos autorais sobre obras atribuídas à atividade de um espírito já falecido. Não levaram em conta questões de estilo ou expressão textual, nem outros aspectos pessoais violados pela "mediunidade", algo que era até do conhecimento do advogado dos herdeiros de Humberto, Milton Barbosa, que identificou até grosseiros cacófatos na obra "espiritual". Com isso, os juízes preferiram concluir que a ação judicial era improcedente, causando empate.

A interpretação do caso pelos juízes de 1944, "ancestrais" de Sérgio Moro e de outros magistrados, como procuradores (a exemplo de Rodrigo Janot), juízes etc, não só foi restritiva e, talvez, intimidada pelo prestígio religioso de Chico Xavier, como certas fontes interpretam a questão pela tese de que o "médium" era responsável pelos direitos autorais da suposta obra espiritual.

Bingo! Junta-se essa licenciosidade com o prestígio religioso de Chico Xavier, ainda pequeno naqueles idos de 1944, e o mito se deslanchou de maneira monstruosa. Chico virou o "monstro" do conto de Humberto de Campos, que a Dor e a Morte não puderam criar, mas que a Conveniência criou com surpreendente habilidade.

A seletividade da justiça, capaz de inocentar feminicidas e deixar presos por tempo indeterminado meros ladrões de frutas, tornou-se assunto corrente nos últimos meses pelo desigual tratamento dado a políticos do PT e do PSDB na Operação Lava Jato.

No passado, a Justiça dos homens, movida pelas paixões religiosas diante de alguém que personificava o estereótipo do "caipira inocente", ao dar empate no caso Humberto de Campos, permitiu a esse "bondoso homem" virar praticamente um "dono dos mortos", criando sérios problemas na comunicação entre vivos e mortos - praticamente desmoralizada no Brasil - e corrompendo a atividade de médium que, no nosso país, virou uma grande aberração.

Isso agravou demais a situação do Espiritismo no Brasil, que praticamente se rendeu completamente à deturpação. Uns até criticam a deturpação, falando que o legado de Allan Kardec foi "vaticanizado", mas se poupam os deturpadores de tal forma que os próprios deturpadores reprovam, no discurso, aquilo que eles mesmos fazem na prática.

Criou-se uma desordem religiosa, e fez com que o legado de Kardec sofresse sina muito pior do que o legado de Jesus de Nazaré nas mãos da aristocracia romana que fundou o Catolicismo, na Idade Média. Em que pese o Catolicismo ter se servido de práticas anti-cristãs como as "cruzadas" e as condenações mortais aos hereges, ele não representou a hipocrisia dos "espíritas" que se dizem "esclarecedores" mas promovem tamanho obscurantismo, apenas adaptado ao contexto atual.

Os juízes brasileiros, se já em 1944 tivessem condenado Chico Xavier e a FEB, pela apropriação indébita e oportunista do nome de Humberto de Campos. Basta comparar os textos da obra de Humberto e a suposta psicografia, as irregularidades estão explícitas, em diferenças aberrantes de estilo.

Se isso tivesse sido feito, teríamos evitado a ascensão de um ídolo religioso ultraconservador, que praticamente desmoralizou e bagunçou com o trabalho árduo de um pedagogo francês, e os brasileiros teriam sido prevenidos pelas tentações traiçoeiras e sombrias das paixões religiosas simbolizadas de maneira perigosa por Chico Xavier.

sábado, 8 de abril de 2017

José Mayer e a "tradição" machista brasileira


Mais um incidente mostra o quanto o Brasil continua com seus valores retrógrados dominantes. Temos um cenário político que se compromete em adotar medidas prejudiciais ao povo brasileiro, enquanto se prepara para enriquecer ainda mais os mais ricos e vender para gigantescas corporações estrangeiras os recursos naturais existentes em nosso país.

Temos um Judiciário totalmente irregular, com um Sérgio Moro se comportando como se fosse um tira de segunda categoria dos filmes de Hollywood e a corte do Supremo Tribunal Federal tomada de pessoas que são uma ameaça para o equilíbrio jurídico das leis, como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além de um Ministério Público atuando como dublê de delegacia de polícia e uma Polícia Federal tomada de muita prepotência.

Temos um contexto social em que, de repente, preconceitos sociais foram liberados, em nome da catarse coletiva. Pobres de direita ameaçam a si mesmos defendendo, com entusiasmo, uma figura racista e fascista como Jair Bolsonaro. Valentões das redes sociais organizam campanhas de cyberbullying contra quem contestar valores "estabelecidos" e não raro criam páginas ofensivas dedicadas a suas vítimas.

Vivemos um grande pesadelo social. É como se um galinheiro passasse a ser governado de maneira permanente por uma raposa. O ultraconservadorismo sempre foi uma qualidade latente em boa parte da população brasileira, em diferentes graus, mas desde 2016 as pessoas saíram do armário e passaram a defender retrocessos sociais profundos, da maneira mais raivosa possível.

Num contexto em que até o publicitário Nizan Guanaes e o empresário Flávio Rocha (da rede de moda Riachuelo) expressam profundos e cruéis preconceitos elitistas, temos mais um caso de surto "estimulado" pelos tempos atuais: o assédio sexual, beirando a um estupro, cometido por um antes renomado ator de televisão.

O caso anda rendendo muita polêmica, desde quando a figurinista da Rede Globo, Susllem Tanoni, resolveu denunciar o ator José Mayer depois de um episódio de muita humilhação, que quase seria um estupro em praça pública.

Tudo começou no ano passado, quando José Mayer, famoso por papéis de garanhão em novelas da emissora, fazia elogios entusiasmados à jovem Susllem. "Como você é bonita", "como você se veste bem" eram os comentários do ator, galanteios que, à primeira vista, pareciam muito elegantes.

Depois os galanteios se tornaram mais constantes, assustando a figurinista, até que, em fevereiro de 2017, o ator se aproximou da jovem e tocou na genitália dela, diante de outras duas mulheres da equipe técnica da Globo. Susllem ficou constrangida e apavorada, mas as outras, rindo, pareciam gostar da situação. Uma chegou a falar para a figurinista: "Diz que esse é seu desejo antigo, diz!". A atitude do ator estava beirando a um estupro.

Mas a gota d'água veio quando, diante de cerca de 30 pessoas, José Mayer ameaçou o mesmo assédio, e, ao ser contrariado, ainda xingou a figurinista: "Vaca!". Mayer parecia achar que, por ser um ator prestigiado e considerado um dos mais destacados galãs do país, ele deveria ser correspondido em cada galanteio.

O que chama a atenção são três detalhes: José Mayer é casado há 42 anos com a também atriz Vera Fajardo, que atua mais no teatro. Os dois têm uma filha, Júlia Fajardo, com considerável currículo como atriz. E, o que é pior, o assédio de Mayer à figurinista não foi o primeiro que ele havia cometido, traindo sua condição de homem casado.

Com a repercussão negativa, José Mayer teve que ser suspenso por tempo indeterminado. Ele saiu da novela A Lei do Amor e foi cortado do elenco de uma futura novela. Na reprise da novela Senhora do Destino, chegou-se a cogitar o corte das cenas com Mayer mas a Globo desmentiu.

Além de Mayer, houve o caso do ídolo do "sertanejo universitário" Victor Chaves, da dupla Victor & Léo - um dos nomes musicais blindados pelos reacionários das redes sociais - , que foi denunciado por ter agredido a própria esposa, obrigando o cantor a deixar o juri de um reality show musical da mesma Globo.

Mayer tentou se explicar dizendo que sua geração era "machista" e disse "ter se arrependido" do que fez. Mas isso não amenizou a situação e abriu caminho para denúncias de que o assédio sexual é uma prática muito comum nos bastidores da TV brasileira. Se bem que até Hollywood mostra tais práticas infelizes.

O machismo brasileiro é tão arraigado que, mesmo no caso do feminicídio, a sociedade é melindrosa. Não se pode sequer pensar que feminicidas também têm sua tragédia pessoal, pelos próprios efeitos de seus atos. Com tantos brasileiros de valor já falecidos, muitos precocemente, a sociedade tem mais medo de ver Doca Street e Pimenta Neves (ambos, segundo rumores, sofrendo de câncer em estágio avançado) morrendo um dia.

Folha de São Paulo e O Globo, periódicos conservadores, lembraram do caso Ângela Diniz (morta por Doca no final de 1976) sem dizer se seu assassino continua vivo ou não (as últimas informações sobre o paradeiro dele datam de 2006). E Folha ainda se lembrou de uma foto em que, diante de uma delegacia de Cabo Frio, pessoas manifestavam solidariedade ao feminicida, símbolo da "honra machista" dominante na época.

Se há um medo enorme de ver feminicidas citados em algum obituário, como se, na violência machista, a mulher assassinada fosse apenas um troféu que se quebrou e seu assassino, um "deus" que "nunca morre", então o machismo ainda é muito, muito forte, a ponto de Jair Bolsonaro, figura perigosamente emergente na política brasileira, não respeitar sua própria filha e dizer que ela nasceu por "fraquejada".

O machismo também é exaltado no lado lúdico, quando há uma parcela de mulheres siliconadas que só vivem de mostrar o corpo físico exagerado, em imagens forçadamente sexuais. De maneira hipócrita, tais mulheres se proclamam "feministas" só porque não têm namorados ou maridos e se dizem "donas de seu corpo", embora elas expressem abertamente sua condição de mercadorias eróticas para o imaginário de internautas machistas.

Esse quadro mostra o quanto o Brasil está enferrujado em seus valores sociais. As reações ao caso José Mayer como, há um ano atrás, contra o estupro coletivo de uma menina de Jacarepaguá por fãs de "funk carioca", são intensas, mas a situação do machismo no Brasil ainda é favorável, diante de tantos valores retrógrados que, de repente, voltaram à tona.

Essa situação é apenas parte de uma série de fatores que não pode inspirar felicidade nas pessoas, sob a desculpa de que o PT saiu do poder e um novo tempo se abriu para o país. O que vemos desde maio de 2016 é um grande pesadelo social em vários aspectos. Talvez as pessoas só caiam na real quando o preço da cerveja aumentar exorbitantemente e as praças e praias forem privatizadas de vez.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A diferença entre a caridade que ajuda o próximo e a "caridade" que promove o "benfeitor"


Certo palestrante "espírita", simpatizante da Teologia do Sofrimento, é conhecido bajulador de figuras avançadas não só da Doutrina Espírita, como em outros movimentos religiosos ou mesmo fora da religião.

A atitude não é pessoal dele, mas ele tem responsabilidade de assumir tal postura através de outros exemplos nos meios "espíritas", em que vemos uma boa centena de palestrantes que não passam de malabaristas da palavra, bajuladores baratos de pessoas lúcidas e atuantes, mas praticantes de ideias e procedimentos obscurantistas e retrógrados.

É muito fácil, por exemplo, elogiar a "surpreendente atualidade" de Allan Kardec e depois partir para a exaltação do deturpador Francisco Cândido Xavier. Ou então destacar a "urgência" de Erasto nos seus alertas sobre a mentira, e depois mergulhar no mais obscurantista igrejismo jesuíta trazido por Emmanuel.

Os "espíritas" se contradizem o tempo todo e acham que é só botar a "caridade" no meio para serem considerados "equilibrados" e "lúcidos". Há aqui uma grande malandragem. Fulano diz uma coisa e faz outra, ou diz uma coisa e diz outra logo em seguida, e se esconde na desculpa da filantropia ou da fraternidade para se passar por "moderado" ou "equilibrado".

Não, a realidade não permite que liguemos ideias opostas com filantropia. Até porque a tão festejada caridade nos meios "espíritas" não passa de conversa para boi dormir, porque, se ela fosse realmente algo profundo e verdadeiro, o Brasil não teria caído na situação decadente de desordem generalizada que atinge até o Poder Judiciário e os mais nobres cenários da grande mídia.

De repente o "espírita" foi exaltar a ativista social Zilda Arns, falecida ao ser soterrada junto a uma multidão pelo desabamento de um prédio durante o terremoto no Haiti, em 2010. Ela foi irmã do sacerdote católico Dom Paulo Evaristo Arns, uma figura progressista que se opôs energicamente à ditadura militar. Os irmãos se consagraram por uma trajetória realmente progressista e humanista e ultrapassaram os limites ideológicos do Catolicismo para defender os direitos humanos.

Aparentemente bem intencionado, o "espírita", perdido ao recolher para seus relatos iniciativas em que aparece palavras como "caridade" e "solidariedade", se esquece que, enquanto Dom Paulo Arns participou de um levantamento de informações sobre vítimas de tortura do regime militar, o "mestre" dos "espíritas", Chico Xavier, aparecia num programa de TV, na mesma época de repressão intensa, para dizer que os generais e torturadores estavam construindo um "reino de amor" para o futuro.

Sim, o endeusado Chico Xavier, "símbolo máximo de amor e humildade", defendia que oremos pelos generais, e esculhambava operários e camponeses como se fosse um golpista ainda nos tempos de João Goulart. Não nos esqueçamos que Chico e a FEB apoiaram, com gosto, a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março de 1964, que foi um evento supostamente ecumênico que pediu a instalação de uma ditadura no Brasil.

ALHOS COM BUGALHOS

Temos que tomar muito cuidado com a retórica da fraternidade, da caridade, do amor. Há muitas armadilhas por trás de palavras com sabor de mel. A mistura de alhos com bugalhos, quando se fala em ativismo social e generosidade humana, é capaz de juntar num mesmo balaio pessoas realmente humanistas com outras que apenas usaram a "caridade" como meio de promoção pessoal.

Há livros que juntam figuras humanistas como o pastor evangélico Martin Luther King e o cineasta e ator inglês Charles Chaplin e figuras de valor duvidoso como Madre Teresa de Calcutá, denunciada nas últimas décadas por ter deixado em condições desumanas aqueles que ela dizia acolher como "filhos".

Junta-se aqueles que mostram uma lição subliminar de caridade, como a arte humanista de Chaplin e sua poesia cômica do vagabundo Charlie - conhecido aqui como Carlitos - , e a tendenciosa "caridade" de Madre Teresa, que viajava com ditadores e magnatas corruptos para receber fortunas e desviar tudo para os cofres do Vaticano, enriquecendo sacerdotes e piorando a vida dos humildes.

Para piorar, quando os "filhos" de Madre Teresa morriam, ela ainda ficava feliz, dizendo que eram "novos anjos no seio do Senhor". Gente tratada de forma desumana, expostas doentes umas diante das outras em colchões desconfortáveis, remediados apenas com aspirina ou paracetamol e recebendo injeções de seringas sujas, lavadas com água de torneira (que não é lá aquela higiene, sobretudo num país como a Índia).

A caridade que realmente ajuda o próximo, ainda que de forma inusitada, não pode ser confundida com a "caridade" em que se nota a assinatura do "benfeitor" ofuscando até mesmo os fraquíssimos resultados alcançados.

Foi uma grande gafe o Fantástico de 2015 com Divaldo Franco tratá-lo como se fosse o "maior filantropo do país" ajudando apenas cerca de 160 mil pessoas. Isso corresponde, mediante um cálculo combinando os anos de existência da Mansão do Caminho (63, na época) com dados populacionais, e chegou-se a uma média anual inferior a 1%. E isso apenas considerando apenas a população de Salvador.

Isso foi uma gafe porque se comemorou demais com pouco. Embora os defensores de Divaldo Franco viessem com mil desculpas e argumentos, o que se está em jogo não é outra coisa senão o prestígio e a promoção pessoal do anti-médium baiano, algo mais típico de fanatismo religioso do que de uma suposta admiração a alguém tido como ativista e filantropo.

Tal postura é grave, porque são justamente as paixões religiosas que corrompem tais percepções. E, no "espiritismo", o que se nota é uma postura hipócrita das pessoas, que elogiam a "caridade" do dito "médium", nem tanto pelos beneficiados, que elas pouco importam serem muitos, poucos ou nenhuns, mas pela figura do próprio "benfeitor", que está acima dos próprios benefícios ou prejuízos.

Isso é como endeusar um ídolo religioso que se acha "acima do bem e do mal". E o "espiritismo" cada vez mais se corrompe, com "médiuns" dotados de culto à personalidade e alçados ao olimpo da idolatria religiosa mais fanática, tomada de emotividade cega apenas dissimulada por arremedos de razão. Daí que no Brasil muitos tentam usar desculpas "racionais" para ideias irracionais. A emoção é muito pior quando tenta usar a razão para sustentar ideias duvidosas.

terça-feira, 4 de abril de 2017

As encrencas das elites que "fazem o que querem"


Vivemos uma grave crise envolvendo aqueles que estão associados a um tipo de prestígio social. Aqueles que detém o privilégio da fama, do dinheiro, da toga, do poder político e empresarial, do carisma interno nas redes sociais e até mesmo do prestígio religioso ou do porte de armas, sofrem todo tipo de decadência, de maneira avassaladora, ainda que tivessem ainda a ilusão de contornar os piores escândalos.

Ninguém está acima da lei e, na natureza dos privilégios, ninguém está acima da humanidade. As pessoas que fazem o que querem, como uma parcela das elites endinheiradas que, depois de pedir a saída de uma governante que não os agradava, a presidenta Dilma Rousseff, e agora torcem por projetos de depreciação dos serviços públicos e do mercado de trabalho, não sabem as armadilhas em que estão se metendo.

Recentemente, uma delação de um ex-executivo da Odebrecht citou que o senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB e candidato derrotado à Presidência da República em 2014, teria recebido propina e transferido o dinheiro para a conta de sua irmã, Andrea Neves. Assustados com o fim da impunidade se aproximando, Aécio e a irmã postaram vídeos apelando para o vitimismo.

Outro exemplo é a boataria da "carne podre", da Operação Carne Fraca, que revelou o desejo de promoção pessoal de membros da Polícia Federal, como a Operação Lava Jato o faz, não só com a PF, mas também com o Judiciário e o Ministério Público e, da mesma forma, ambos os casos também revelam a própria promoção do poder midiático, sempre em busca de um sensacionalismo político desse porte, principalmente se servir para depreciar o Partido dos Trabalhadores (PT).

O status quo está desmoronando e as elites estão se preocupando. Até mesmo, num contexto mais simplório, os cyberbullies das redes sociais estão apavorados diante da péssima repercussão de seus comentários preconceituosos e de páginas ofensivas que atingem desafetos pessoais. Correm contra o tempo para apagar postagens escritas sob seus impulsos, o que em muitos casos é tarde demais, com seus conteúdos reproduzidos até nos arquivos da Polícia Federal.

Se até Divaldo Franco cometeu deslize fazendo um julgamento de valor contra os refugiados do Oriente Médio, um preconceito partido de gente dotada do privilégio do prestígio religioso, uma vantagem elitista como tantas outras, pela presunção do "contato direto com Deus", então se observa a crise que se nota quando os privilegiados tentaram reassumir o poder.

A realização forçada de seus anseios, como a aprovação do duvidoso Alexandre de Moraes para ministro do Supremo Tribunal Federal, e a instituição dos cortes de gastos públicos, fazendo a festa da iniciativa privada, que, a pretexto de socorrer a Educação e Saúde públicas, investem na privatização e na transferência de custo à população, a pagar mensalidades caras e custear até as festas de gala de médicos e professores particulares, também é um símbolo dessa decadência.

Muita gente não entende, outras pessoas ignoram e outras tentam desmentir, mas o que se nota é o desgaste de um paradigma de privilégios, vantagens e prestígios que só fizeram sentido há 40 anos atrás, mas hoje decaem de maneira irrecuperável, embora haja todo tipo de tentativa para os decadentes do topo da pirâmide passarem por cima, nem que seja rasgando a Constituição ou cometendo assassinato de reputação.

Se até feminicidas conjugais, que um dia se regojizavam de ter tirado a vida de suas mulheres, por causa da "defesa de honra", passam a ter medo da morte quando eles são os "contemplados", a ponto de apelar para a mídia não noticiar seus óbitos, se por ventura ocorrerem, esse quadro também ilustra o incêndio que está devastando o topo da pirâmide, num dos âmbitos mais extremos, que é o de alguém, por seu privilégio, se achar no direito de tirar a vida até de seu cônjuge.

A desordem política também está ocorrendo, não poupando os "caciques" do PSDB nem emergentes políticos como Jair Bolsonaro, cada vez mais vítimas de escândalos e sofrendo o profundo desgaste público com esses incidentes. A situação está tão grave que "não-políticos" como o empresário João Dória Jr., prefeito de São Paulo, se tornam uma das apostas para as eleições presidenciais de 2018.

A crise no topo da pirâmide está começando e, por enquanto, vários setores que cometem abusos contra a humanidade ainda alimentam a ilusão de passarem por cima e voltarem ilesos de qualquer escândalo. Acham justo "fazerem o que querem", de sites caluniosos a esquemas de propinas, e nunca serem punidos com isso.

Todavia, o "furacão" também está a caminho deles, o que fará com que a sociedade brasileira terá que redesenhar, do zero, toda uma estrutura de beneficiados, recriando uma sociedade de privilegiados que não se relacione a abusos nem erros graves. Isso causará dor, pois fará nas classes médias uma total reinvenção de percepções e uma mudança nos exemplos humanos a serem seguidos.

A resistência das velhas estruturas sociais se dá em diversos aspectos, seja pelo reacionarismo nas redes sociais, seja nas orações desesperadas pelos velhos totens religiosos, seja pela impunidade social que reforça a impunidade jurídica dos culpados por crimes graves, se dá por uma ampla mobilização daqueles que querem forçar os retrocessos sociais, na busca paranoica dos tempos em que elas viviam tranquilas na estabilidade forçada do conservadorismo social.

Dos "coxinhas" pedindo intervenção militar aos "espíritas" cada vez mais adeptos da medieval Teologia do Sofrimento, passando pelas pressões do empresariado para impor a terceirização total que precariza a vida dos trabalhadores, a velha sociedade tenta um único recurso para fazer o Brasil voltar para trás o mais amplamente possível, para recuperar os padrões obsoletos do período colonial.

Essas mudanças causarão impacto sério, mas a sociedade terá que rever conceitos, totens, ídolos, valores diversos. Um velho Brasil ainda resiste, desesperado, ao seu desgaste, enquanto tem a seu dispor as últimas condições que lhes permitem superar encrencas e escândalos. Mas, na medida em que há maior esclarecimento entre as pessoas, nem o prestígio religioso permanece de pé, diante dos abusos dos detentores do "poder da fé". O Brasil tem que renascer do zero.

domingo, 2 de abril de 2017

Terceirização prejudicará o Brasil


O Brasil está caminhando para trás, porque há uma sociedade que está apegada a velhas zonas de conforto e precisa recuar para tempos mais antigos em que as desigualdades protegiam as elites nos seus privilégios e comodidades.

A onda ultraconservadora, propagada por uma mídia cada vez mais retrógrada - é notória, por exemplo, a decadência das emissoras de TV aberta e, em parte, das de TV paga - , faz com que o país viva essa marcha-a-ré ladeira abaixo nos valores sociais em diversos aspectos.

Em muitos casos, as perspectivas são de restaurar valores anteriores à vinda da família real portuguesa ao Brasil. Aceita-se como mudança apenas as questões materiais, como as áreas urbanas e a tecnologia, mas na essência, há uma preocupação em voltar o mais rápido possível para os limites sociais do período colonial.

A terceirização do mercado de trabalho, aprovada há poucos dias pelo Congresso Nacional - cada vez mais identificado com os interesses das elites e, portanto, são indiferentes às classes populares - , é um claro exemplo, uma medida chantagista das elites que tomaram o poder em maio de 2016 que coloca os trabalhadores como reféns de seus interesses privados.

A medida da terceirização para atividades-fim - antes ela só era restrita a atividades-meio, prestações de serviço externas à especialidade de cada empresa ou instituição - , que afetará praticamente todo o mercado de trabalho, irá fazer o emprego cair de forma devastadora e humilhante.

Com a terceirização, os salários tendem a ser desvalorizados, os trabalhadores perderão encargos e garantias sociais, não haverá sequer assistência à saúde, pois eles terão que recorrer à saúde privada ou a um sucateado SUS (Sistema Único de Saúde), no caso de sofrerem acidentes de trabalho.

Completando o drama, as reformas trabalhista e previdenciária preveem, entre outras coisas, o aumento da jornada de trabalho e o adiamento da aposentadoria para o fim da vida. Somando todos esses dramas, o que se verá é um quadro social estarrecedor.

HOLOCAUSTO

Só podemos definir esses projetos trabalhistas defendidos por Michel Temer e seus aliados com uma palavra: HOLOCAUSTO. Afinal, esses projetos políticos, adotados sob a desculpa do combate à recessão, tendem na verdade tornar a vida dos trabalhadores mais desgastante e miserável.

Com menos salários, menos chance de uma boa alimentação e qualidade de vida. Com menos encargos, a situação se complica. Com maior carga horária, mais cansaço e desânimo e menos capacidade de reciclagem psicológica nos momentos de ócio.

Além disso, com o trabalho precarizado, haverá mais acidentes e grande potencial de mortes prematuras. Apesar das alegações divulgadas pela grande imprensa de que a terceirização aumentará o emprego, a verdade é que ela aumentará, sim, o desemprego e a instabilidade no mercado de trabalho.

Isso tudo causará desgastes, tragédias, tensões, e os conflitos entre trabalhadores e patrões, e entre colegas de trabalho em disputa pela promoção no trabalho, se tornarão mais graves. Além disso, a precarização dos salários e a carga horária extenuante afastarão muitos consumidores do comércio, pois eles não terão tempo nem disposição para se deslocarem para comprar os produtos.

Diante do que vemos nas classes populares, a tragédia aumentará e isso será ótimo para as elites, porque a terceirização é um sutil processo de higienização social das classes mais pobres. Ela complementa outro higienismo, de maneira cultural, que é o entretenimento popularesco que obrigava os pobres a se contentarem com a pobreza e difundia valores degradados através da vulgarização do sexo e da breguice musical.

O entretenimento "popular" forçava mulheres famosas ligadas ao erotismo grotesco a serem "solteiras", num celibato profissional que servia para estimular o ódio entre homens e mulheres nas classes populares, prato cheio para ações violentas. Além disso, com a sexualidade escancarada dos ritmos popularescos, como "funk" e "sertanejo", os pobres, sem o respaldo educacional necessário, sucumbiam a doenças venéreas e à violência sexual, além da autodestruição pelo álcool.

E O "ESPIRITISMO" NESSA?

O grande problema é que o "espiritismo", que ultimamente anda publicando textos forçando as pessoas a aceitar o sofrimento, pouco está aí para esse cenário. Os palestrantes "espíritas" até tentam argumentar que vivemos "um ótimo momento" e eles já definiram as passeatas dos "coxinhas", movidas pelo rancor reacionário, como "momentos de emancipação política e regeneração espiritual da humanidade".

A terceirização, então, é "ótima", porque na visão dessa doutrina catolicizada que só exalta Kardec da boca para fora, observa-se que os "espíritas" só estão preocupados com a vida "qualquer nota", tratando a vida material como se fosse um serviço militar, na qual as pessoas têm que suportar os piores sacrifícios e as piores desgraças para obter a "graça de Deus".

Os apelos que os "espíritas", cada vez mais voltados à Teologia do Sofrimento, que havia sido defendida por Chico Xavier, ele mesmo um católico extremado, são apenas para os trabalhadores "terem calma e trabalharem". Sintonizados com o governo Michel Temer, os "espíritas", bem antes dele, diziam: "não reclame da crise: trabalhe".

É como se eles corroborassem os apelos dos senhores de engenho aos escravos: "não reclame da vida, trabalhe e só", pouco importando se o trabalho é sobrecarregado, dificílimo, esgota as forças, causa dor etc. Para o "movimento espírita" e seus premiados palestrantes, "quanto pior, melhor". Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
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