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sábado, 27 de janeiro de 2018

"Centro espírita" de Salvador possui a mesma insegurança da Boate Kiss


Há cinco anos, uma explosão foi causada por rojões atirados por um grupo "sertanejo" na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A estrutura da casa, fechada, sem saídas de emergência e sem qualquer segurança, fez com que o incêndio matasse 242 pessoas.

Mas pelo menos um "centro espírita" de Salvador apresenta as mesmas condições de insegurança aos seus frequentadores, numa área tomada de "gatos" (como são conhecidos fios clandestinos que "roubam" energia elétrica fornecida pelos serviços especializados).

Localizado no bairro do Uruguai, na Península de Itapagipe, zona suburbana de Salvador, o Grupo "Espírita" Bezerra de Menezes, GEBEM, que já foi uma unidade do Cavaleiros da Luz e depois passou a ser controlada por um grupo dissidente do "centro espírita" Paulo e Estevão, em Amaralina, é um atestado dessa insegurança e outros incômodos.

Nas sessões de sábado à noite, o lugar fica trancado e os frequentadores são proibidos de sair. É preciso apresentar um motivo muito forte para sair da sessão antes da hora, solicitando ao funcionário da casa a abertura da porta.

A sessão termina pouco antes das 22 horas, mas é suficiente para causar angústia para quem depende de ônibus. A espera é muito longa para um veículo da linha 0207 Massaranduba / Itaigara - atualmente sob responsabilidade da Plataforma Transportes - , o último do horário, e que, quando chega, roda em alta velocidade pela Rua Direta do Uruguai, paralela à Rua Seis de Janeiro, onde fica o "centro espírita".

E SE OCORRER UM INCÊNDIO?

Suponhamos a seguinte situação. Vazamentos de água vindos do teto no andar de cima da sede do GEBEM caem sobre a tomada de uma geladeira, provocando um curto-circuito que provoca um incêndio. Explosões na geladeira provocados por outros curtos espalham faíscas que fazem o fogo aumentar.

O fogo então aumenta, se tornando uma labareda que derrete o chão, atingindo o teto do andar inferior, onde se realiza uma doutrinária. O teto desaba, afetado pelas chamas, atingindo vários frequentadores pegos de surpresa que, sem poder reagir a tempo, morrem queimados ou soterrados.

Os palestrantes e mediadores não conseguem se salvar. São os primeiros a morrerem na tragédia. Poucas pessoas se salvam, e, mesmo assim, precisam correr pelo acesso estreito à sala principal, e, com a porta trancada, torna-se ainda mais difícil a fuga. No saldo final, a chance mais provável é de poucos sobreviventes.

As instalações são apertadas, sem saída de emergência, sem qualquer proteção. É ingenuidade dizer que os "amigos de luz" (os chamados protetores espirituais) garantem a segurança absoluta do lugar, que, em horário noturno, ainda sofre o risco de assaltos constantes que existem no lugar. Vide o caso do trágico assalto que ocorreu num "centro espírita" de Jaboatão de Guararapes, em Pernambuco.

OUTRAS QUEIXAS

Não bastasse as condições de insegurança similares àquelas que propiciaram a tragédia da Boate Kiss, outras queixas ocorrem de pessoas que fizeram tratamentos espirituais no GEBEM. De cyberbullying até morte de namorada, passando por assaltos em pleno dia, infortúnios passaram a ocorrer depois que várias pessoas fizeram tratamentos no local.

Isso se deve, vale lembrar, ao fato do "espiritismo" brasileiro ser cheio de irregularidades e marcado pela desonestidade doutrinária, já que segue o igrejismo de base jesuíta-roustanguista mas finge exercer "respeito rigoroso" aos postulados espíritas originais. Essa atitude desonesta atrai energias negativas, trazidas por espíritos inferiores identificados com essa falta de sinceridade.

FALSA MEDIUNIDADE

Um grupo de familiares apostou na ideia infeliz de financiar um livro com mensagens supostamente mediúnicas de parte das 242 vítimas fatais da tragédia da Boate Kiss. Intitulada Nossa Nova Caminhada, ela apostou num arremedo grosseiro do que recomenda o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (C. U. E. E.), recorrendo a diferentes "médiuns" de lugares diferentes, três de Uberaba e um do interior de São Paulo. Um deles foi Carlos Baccelli, ex-dirigente da FEB e discípulo de Chico Xavier.

No entanto, são "médiuns" com relação entre si, mesmo sob uma mesma afinidade ideológica com o igrejismo. As mensagens são de puro mershandising religioso e apontam pretenso profetismo do "terceiro milênio", com a estranha inclinação dos supostos mortos a um panfletarismo igrejista, pretensamente messiânico e cheio de teorias sobre "mudanças nos tempos".

Uma assinatura que chamou a atenção foi uma suposta mensagem atribuída a uma jovem morta, Stéfani Posser Simeoni, que apresentou uma grave rasura, inconcebível para um espírito que estaria mandando uma mensagem serena, que era o que se divulgou na ocasião. Isso indica um trabalho fraudulento, desqualificando o trabalho e colocando os familiares que financiaram o livro em situação ridícula.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A verdade sobre as crianças-índigo


O texto que publicaremos é uma denúncia grave que os espíritas autênticos, postos à margem pelo "movimento espírita" original, descreveu sobre a farsa das "crianças-índigo" que, a julgar pelos fatos e pela forma com que os "espíritas" igrejeiros - ligados aos chamados "médiuns espíritas" como Chico Xavier e Divaldo Franco - veem as ocorrências no Brasil, parece se identificar com o perfil impetuoso de movimentos reacionários como o Movimento Brasil Livre.

A culpa não é nossa. Periódicos e palestrantes "espíritas" definiram as passeatas do "Fora Dilma" como "início da Regeneração" e, a julgar pelo que Divaldo Franco havia dito sobre as transformações da humanidade, somos obrigados, pelos fatos, a ver em figuras como Kim Kataguiri, Renan Santos, Rogério Chequer e Fernando Holiday, para não dizer Alexandre Frota, como as "crianças-índigo" sonhadas pelos "espíritas".

Deixamos então que o texto nos informe a respeito dessa ilusão das "crianças-índigo", lançada por Nancy Ann Tappe e, depois, por Lee Carroll e sua então esposa Jan Tober, que vemos uma discriminação contra pessoas de inteligência e iniciativa, jogadas no mesmo balaio de supostos rebeldes agressivos e reacionários. Uma gororoba que Divaldo Franco quis vender como "profecia de um Brasil melhor" e a complementou no projeto de "coração do mundo" sonhado pelo amigo Chico.

O texto apenas não menciona o nome de Divaldo, mas é explícita a sua participação na farsa, o que o desqualifica como espírita autêntico que muitos seguidores e tantos outros complacentes pensavam sobre ele, no seu wishful thinking de ver um deturpador "aprendendo as coisas" e tentando recuperar as bases doutrinárias. Vamos ao texto:

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Os obscuros conceitos de uma seita

Paulo Henrique Figueiredo - Casa Espírita Nova Era (Página em prol da fidelidade doutrinária espírita) - 09 de julho de 2007

As suspeitas levantadas sobre essa obra nos motivaram a investigar mais profundamente seus autores, a origem, as finalidades de sua publicação, e quem está divulgando seus conceitos no país em que surgiu, os Estados Unidos. O que encontramos é grave e é preciso esclarecer os fatos.     

Desde 2006, pesquisadores espíritas, como Rita Foelker, Dora Incontri, Heloísa Pires, e a Revista Universo Espírita vêm alertando para as inúmeras contradições entre a Doutrina Espírita e o best-seller Crianças Índigo, publicado nos Estados Unidos em 1999, e no Brasil em 2005.

Algumas das características das crianças índigo são alarmantes:

“Nascem, sentem-se e agem com realeza. (...) Conseguem inverter as situações, manipulando ao invés de serem manipulados, especialmente seus pais. (...) Não se relacionam bem com pessoa alguma que não seja igual a elas. (...) Alguns têm propensão ao vício, especialmente drogas durante a adolescência”.

Citada em Crianças Índigo como a primeira a supostamente reconhecer a aura azul dessas crianças, diz a vidente Nancy Ann Tappe:

“Todas as crianças que mataram colegas de escola ou os próprios pais, com as quais pude ter contato, eram índigos. Eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo. Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá- lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo”.

Esse é o novo conceito de sobrevivência das crianças índigo? Matar os pais e colegas de escola? O que isso tem a ver com o Espiritismo?

A pedra angular é a fraternidade

Os Espíritos da Codificação realmente anunciaram uma nova geração, mas nos seguintes termos: “Cabendo a eles fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma precoce inteligência e razão, juntas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, constituindo um sinal indiscutível de um adiantamento anterior”, explicaram em A Gênese.

Os Espíritos estão falando de progresso moral e de uma geração com o sentimento inato do bem. Isso pressupõe a habilidade de resolver conflitos, paciência, solidariedade e tolerância. Segundo o Espiritismo, “a fraternidade será a pedra angular da nova ordem social”. Já as crianças índigo descritas são revoltadas, agressivas e prepotentes. A chegada de uma nova geração anunciada na Doutrina Espírita nada tem a ver com o conceito de Crianças Índigo pertencente à seita estrangeira criada por Lee Carroll.

As suspeitas levantadas sobre essa obra nos motivaram a investigar mais profundamente seus autores, a origem, as finalidades de sua publicação, e quem está divulgando seus conceitos no país em que surgiu, os Estados Unidos. O que encontramos é grave e é preciso esclarecer os fatos.

O Grupo Iluminação Kryon

Um dos autores de Crianças Índigo é Lee Carroll, formado em Economia pela Universidade da Carolina do Norte. Durante 30 anos trabalhou em sua empresa de engenharia de som, em Del Mar, San Diego, onde vive até hoje.

O ano em que tudo começou foi1989, quando um sensitivo disse ter visto ao lado de Lee Carroll uma entidade extraterrestre que se identificou pelo nome “Kryon”.

Intrigado, Lee começou a “canalizar” (esse é o nome que ele dá para as psicografias) textos da entidade extraterrestre Kryon num grupo esotérico de sua cidade.

A co-autora do livro Crianças Índigo é a cantora Jan Tober, ex-mulher de Lee Carroll. Ela o ajudou a criar uma seita própria, o Grupo Iluminação Kryon, em 1991.

Durante 10 anos, as mensagens renderam a publicação de 12 livros, As edições, traduzidas para 23 línguas, venderam mais de um milhão de exemplares.

Os encontros do Grupo Iluminação Kryon, onde é possível consultar-se pessoalmente com Kryon por meio de Lee Carroll, reúnem platéias pagantes de 3 mil pessoas. Elas lotam caríssimos salões e teatros da Europa e Estados Unidos. Lá também são vendidos livros, filmes, souvenires e bijuterias. As mensagens do extraterrestre Kryon na internet recebem cerca de 20 mil visitas por dia.

Uma tese panteísta

Quem é esse ser que se diz extraterrestre e que revelou as crianças índigo?

O site oficial da seita dá sua versão: 

“Kryon é o mais evoluído ser de luz a que a Terra jamais teve acesso. Proveniente do ‘Sol Central’, com a função primordialmente técnica ligada ao ‘serviço eletromagnético’. Foi enviado por um grupo de ‘Mestres Extrafísicos’, chamado ‘A Irmandade’. Veio dessa vez para reordenar a ‘rede magnética planetária’, visando uma série de mudanças magnéticas no eixo da Terra, que se encerrará no ano de 2012”.

Em O Livro dos Espíritos, “Jesus foi o ser mais puro que já apareceu na Terra”.

Ainda há muito mais. De acordo com Kryon, Deus não existe. Ele propõe o panteísmo, ou seja, segundo ele, “todos os seres do Universo são parte de um todo e as individualidades são apenas ilusões”.

Esse pensamento panteísta se opõe claramente aos ensinamentos do Espiritismo. Basta ler a o seguinte diálogo em O Livro dos Espíritos: “Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo, seriam partes da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade; ou seja, que pensar da doutrina panteísta?”, perguntou Allan Kardec. E os Espíritos responderam: “Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.”.

Quem são as crianças índigo

A doutrina do Grupo Iluminação Kryon vai ainda mais longe. Damos aqui apenas um resumo das palavras de Kryon:

“Os seres humanos que vivem na Terra eram anjos muito evoluídos que assinaram um contrato para vivenciar uma experiência humana no planeta Terra, motivo pelo qual seríamos honrados e celebrados em todo o Universo.”

De acordo com o “extraterrestre”, “a humanidade atingiu a ‘Convergência Harmônica’ necessária. Essa experiência é a de vivermos com um nível vibracional rebaixado para a terceira dimensão, sem as memórias ou lembranças de nossa origem divina”.

O que seria “Convergência Harmônica”? Nos livros psicografados por Lee Carroll, informações pseudocientíficas como essa estão por todo o texto, sem explicação alguma.

Segundo Kryon, desde 1987 estariam nascendo crianças com o DNA alterado, que seriam as tão comentadas “crianças índigo”. Há também referências às crianças cristal.

Todavia, de acordo com a Doutrina Espírita a moral é um atributo do Espírito e não do corpo. Nenhuma alteração do DNA transformaria moralmente indivíduo algum.

E quais as conseqüências dessa suposta mutação das crianças? Segundo o extraterrestre Kryon, “elas se tornarão uma nova raça que irá habitar uma galáxia que está sendo criada a 12 bilhões de anos-luz da Terra”. A astrofísica está bastante avançada e podemos afirmar que a idéia da criação tardia de uma galáxia não tem embasamento científico algum.

Mais uma vez, é Kardec quem alerta: “Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito esclarecido”, em O Livro dos Médiuns.

Idéias estranhas

As mensagens publicadas no site da seita criada por Lee Carroll falam do novo acontecimento programado, segundo ele, para 2012: “Celebremos o fim do teste! As estrelas são nossas. Agora é chegado o momento de uma parte da família ir para casa, precisamente em 2012. E ele, Kryon, estará lá quando chegarmos”.

Sobre questões como essa, disse Kardec: “Os bons Espíritos nunca determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação”, em O Livro dos Médiuns.

Nos encontros do grupo, Kryon responde indagações do público que paga para ser atendido. Um adepto perguntou: “Querido Kryon, na Califórnia você nos falou que segurar pílulas na mão pode curar. Isso eliminará os efeitos colaterais? É seguro ficar segurando Prozac?”. A resposta foi:

“Seu corpo sabe que substância vocês estão segurando. Portanto, é possível impregnar as propriedades da intenção de usar a substância em suas células. Assim não há o efeito colateral de uma droga, por exemplo. Apenas pensem... um frasco de aspirina ou antiácidos durará anos!”.

Kardec alertou: “Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional. Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imutáveis da Natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança”, em O Livro dos Médiuns.

A fragmentação de um meteoro

Outra questão intrigante proposta por um seguidor da seita é sobre o fim do mundo: “Algum planeta irá se chocar com a Terra? Irá haver extinção da raça humana?”. E Kryon respondeu:

“Depende do que os Humanos fizerem. Já revelamos que, antes de começar a canalizar, em 1989, o primeiro trabalho conjunto de Kryon e Lee Carroll foi fragmentar um meteoro (Myrva) que vinha, realmente, em rota de colisão com a Terra. Era um dos instrumentos das catástrofes previstas para o fim do século”.

O Espiritismo afirma com clareza que o mundo não será destruído fisicamente: “Não é racional se suponha que Deus destrua o mundo precisamente quando ele entre no caminho do progresso moral, pela prática dos ensinos evangélicos”, em A Gênese.

Além dos milhares de dólares arrecadados pela venda de produtos, nos encontros da seita, há outra fonte de renda: os tratamentos patenteados por Peggy Phoenix Dubro, parceira de Lee Carroll.

Segundo as idéias da seita, as pessoas que nasceram antes de 1987 não são índigo, mas para ganhar o direito de habitar a nova “galáxia” poderiam ter seu DNA alterado por meio do tratamento proposto por Peggy Dubro.Eles criaram uma empresa, A Energy Extension Incorporation (Empresa de Ampliação Energética) que detém os direitos da Universal Calibration Lattice® (Malha de Calibração Universal), e também da EMF Balancing Technique® (Técnica de Equilíbrio). São tratamentos pagos aplicados nas sedes espalhadas pelo mundo (inclusive no Brasil).

Acreditamos que as informações listadas são suficientes para dar uma idéia do que está por trás da obra Crianças Índigo. Quem ainda desejar conferir os volumosos livros e mensagens “canalizadas” por Lee Carrol e tudo mais sobre a seita Grupo Iluminação Kryon basta digitar “Kryon” nos sites de busca da internet.

A maquiagem na edição brasileira

As obras de Lee Carroll adotam o panteísmo, doutrina negada pelo Espiritismo. Mas na edição brasileira os trechos panteístas foram alterados

Lee Carroll, que com Jan Tober escreveu Crianças Índigo, publicou outros 11 livros. Dez deles são psicografados, com a autoria creditada ao “extraterrestre” Kryon.Esses volumosos livros trazem muitos conceitos conflitantes com a Doutrina Espírita.

Já no primeiro, Os Tempos Finais, publicado em 1990, Kryon descreve seu ensinamento panteísta: “Todos nós estamos vinculados. Eu assino Kryon, mas pertenço à totalidade. Você é uma parte de Deus. Todos somos coletivos em espírito, mesmo enquanto vocês estão encarnados na Terra”.

Allan Kardec explicou essa doutrina em O Céu e o Inferno: “O panteísmo propriamente dito considera o principio universal de vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Todos os seres, todos os corpos da Natureza compõem a Divindade (...). Esse sistema não satisfaz nem a razão nem a aspiração humanas”.

Constatamos, porém, um fato intrigante: todos os livros de Lee Carroll trazerem afirmações panteístas, mas na edição brasileira não há uma só frase. Assim, consultamos a edição original em inglês, The Indigo Children, de 1999. Estava lá, no depoimento da psicóloga Doreen Virtue, a seguinte frase, que traduzimos: “Todas as crianças de Deus são iguais, porque todos são um só ser”. A mesma frase na edição brasileira, na página 153, foi alterada para: “Todas as crianças de Deus são iguais, pois somos todos iguais”.

Encontramos outra alteração na página anterior, na qual lemos a seguinte frase: “Não existem indivíduos, apenas uma ilusão de que somos diferentes”. Mas a tradução da versã original é mais extensa: “Não existem indivíduos separados, apenas a ilusão de que os outros estão separados de nós mesmos”. Esta reproduz o panteísmo do extraterrestre Kryon, mentor de Lee Carroll.

A constatação desse fato nos levou a folhear o livro para conferir o restante da tradução. No depoimento da reverenda Laurie Joy, na página 164 do livro brasileiro, lemos a seguinte frase: “Kathryn Elizabeth, fala sempre de seu anjo da guarda. Depois vai brincar com as outras crianças”. Mas a tradução da obra original é diferente: “Kathryn Elizabeth fala sempre de seu anjo da guarda.

Depois sorri, dá a mão ao anjo, e os dois vão cavar túneis na areia”.

Há uma menção em Crianças Índigo sobre os livros psicografados do “extraterreste” Kryon por Lee Carroll. Mas na tradução brasileira há uma alteração que modifica o sentido, e faz parecer que Kryon é um médium, e que nada tem a ver com Lee Carroll.

Veja: “I sent him all the Kryon books by Lee Carroll…” (Versão original, p. 147).

“Enviei todos os livros de Kryon por Lee Carroll...” (Tradução correta).

“Enviei todos os do médium Kryon e Lee Carroll...” (Trecho alterado da edição brasileira, p. 162).

Peggy Dubro é uma integrante da seita “Grupo Iluminação Kryon”, onde atua como médium. Os seres que dirigem o grupo teriam transmitido a ela o “tratamento magnético para alterar o DNA”, denominada EMF Balancing Technique. Na versão brasileira, o fato foi alterado:

“She also channeled the Phoenix Factor information, which contained the EMF Balancing Technique...”. (Versão original, p. 226)

“Ela também recebeu mediunicamente a informação Phoenix Factor, que inclui a EMF Balancing Technique...”. (Tradução correta).

“Desenvolveu, igualmente, a informação Phoenix Factor, que inclui a EMF Balancing Technique...”. (Trecho alterado da edição brasileira, p. 243)

Na descrição do comportamento do rapaz Mark, ele demonstra o comportamento esquizofrênico de não distinguir o certo do errado. Na versão brasileira do livro Mark se torna apenas irresponsável.

“... could never see the consequences of his intended actions. He literally just did not get it. After the fact, his face would always be so blank, as if he couldn’t believe he hadn’t realized that what he was doing would get him into trouble…” (Versão original, p. 145).

“... O problema é que não entendia as conseqüências de seus atos. Ele literalmente não compreendia. Depois do ocorrido, ficava com o rosto sem expressão, como se não acreditasse que tivesse feito algo que lhe trouxesse problemas...” (Tradução correta).

“... O problema é que não entendia as conseqüências de seus atos. Cometia erros, mas não percebia que teria que pagar por eles...” (Trecho alterado da edição brasileira, p. 161).

sábado, 11 de novembro de 2017

Desabafo de um anônimo sobre o "espiritismo"


Recebemos o desabafo de um anônimo, que durante 28 anos recorreu ao "espiritismo" em busca de ajuda, mas só sofreu desgraças na vida. Um homem de 46 anos de idade que revela sua amargura na vida, cuja vida de infortúnios culminou na amargura que se deu até nos conflitos familiares.

"Prezados amigos,

Quero aqui escrever meu desabafo. Eu passei 28 anos, entre 1984 e 2012, recorrendo aos espíritas para pedir ajuda, com fé, jogo de cintura, espírito de misericórdia, respeito e perseverança, fazendo de tudo para receber as graças que acreditava serem oferecidas por uma doutrina tida como iluminada, fraterna e solidária.

Infelizmente, toda vez que eu recorri a essa religião, mesmo portando eu as mais nobres e alegres energias vibratórias, a desgraça entrava em minha vida e na dos meus entes queridos. Foram tantos anos de desgraças, principalmente numa situação de desemprego na qual nem mesmo a mais esforçada iniciativa e a mais intensa batalha fazia conquistar um trabalho digno, que me deixaram à beira da ruína e do fracasso.

Eu fiz de tudo. Jogo de cintura, consideração com os amigos, esforço, iniciativa, simpatia, esperança, fé, fiz meditação, orei muito, me sacrifiquei, me ofereci para tantos e tantos trabalhos, sendo simpático, gentil e moderado para os entrevistadores e tudo o mais. Na vida social, tratei meus amigos com consideração. Na vida amorosa, desejava ter mulheres que, embora fossem estética e sexualmente atrativas, tivessem no caráter a sua maior qualidade.

Ah, mas quantas desgraças obtive. Quantos currículos no lixo, quantos calhordas passando na minha frente na fila do emprego, por mais que eu siga todas as recomendações para conquistar um empregador. Quanta busca por uma qualidade de vida na qual tive o surreal conflito de ver que minha ascensão econômica tivesse que ocorrer sob o arrepio da dignidade, pois só me abriam as portas o trabalho indigno, a empresa corrompida, o patrão prepotente ou arrivista, para não dizer criminoso.

Quanto amor eu deixei em reserva para minha futura namorada, enquanto orava para que viesse uma mulher de minha afinidade, que me atraísse e garantisse um convívio harmonioso e proveitoso. Mas, depois, as mulheres que eu só conseguia atrair eram fúteis, mais preocupadas no formato, o mais redondo possível, de seus glúteos, apegadas em orgias sexuais e desejadas por homens machistas e agressivos.

Além de eu não me interessar por mulheres assim, elas eram cobiçadas por homens que poderiam me matar, se me encontrassem. E o pior não é essas mulheres acharem eu bonito ou coisa parecida, mas viverem na ilusão de acreditar que eu estava destinado a namorar qualquer uma delas, quando o meu interesse por elas é nulo e elas nem ofereceriam proveito algum para minha vida. Elas eram a união do inútil com o desagradável, em nada podendo acrescentar em minha vida.

As mulheres de minha afinidade me escapam das mãos. Se conheço uma que se torna colega minha, o destino a faz desaparecer. Na maioria dos casos, elas se comprometem com outro, e não há uma que possa se tornar minha companheira. Mas as mulheres sem afinidade comigo ficam sempre disponíveis, há até as que ficam comprometidas e se separam num estalar de dedos. 

Com elas, haja trabalheira para eu resolver as divergências, pois muitos dos valores que elas acreditam elas dificilmente abrem mão de se livrar, apesar do vínculo conjugal que elas querem ter comigo. Isso é surreal. Eu quero mulheres de caráter, discretas e decentes, o que vai fazer em minha vida uma mulher que só pensa em remexer os glúteos como se fosse pavão abanando sua cauda? Até para ouvir música as ideias não batem e, trocar ideias sobre a vida, bem menos.

Toda vez que eu ia para um centro espírita ou lia uma obra desta doutrina - não falo das obras originais de Allan Kardec, que, reconheço, fez um trabalho muito diferente do que acabou prevalecendo no Brasil, que tem um forte ranço católico nunca devidamente assumido - , parecia que eu estava passando por baixo de uma escada, pois o que ocorria era azar, azar e azar. Não entendia por quê, e creio que ninguém nunca iria entender por quê, mas ocorria, sim, e não só comigo.

Tem amigo meu que estava a fim de uma garota e, depois que foi a um centro espírita, foi só ele ficar a fim dela para ela morrer, tempos depois. Eu tenho um irmão mais novo, e foi só ele, certa vez, sair de uma reunião de um grupo jovem de um centro espírita, ser rendido por um assaltante que, num ônibus razoavelmente lotado, foi cismar justamente com meu irmão. Coincidência?

Eu não conseguia resolver minha vida, e meus problemas se acumulavam como bola de neve criando uma avalanche. Até nos concursos públicos, eu estudava e, quando fazia as provas, sempre buscava assinalar a questão que mais me parecia correta. Nunca passava, por mais que apostasse na intuição. Tem questão que era correta mas o robô que faz leitura ótica das provas apontava erro. Creio que passei em 1/3 dos concursos que fiz, mas o robô sempre me colocava como reprovado!

Azar? Pode ser. Por que eu, que me esforço em aprimorar conhecimentos, ser simpático, desenvolver talento, jogo de cintura, espírito de equipe, perseverança, fé, misericórdia, amor ao próximo, paciência, paciência, paciência e muita paciência, não consigo vencer na vida, por mais que eu lute até dar murros em ponta de faca?

Quando eu faço esse relato num centro espírita - e já fiz isso várias vezes - , escrevendo tudo o que sofro na medida do possível, a resposta que eu recebo de supostos benfeitores espirituais é essa: "Você está bem e não há nenhum problema. Acredite em si mesmo, ore e confie em Deus". Isso eu já faço! Quantas horas de prece tenho que fazer para minhas orações serem atendidas?

Ultimamente eu e meu irmão mais novo tivemos uma briga séria com os pais por causa de emprego e outros problemas particulares. Nossos pais estão idosos e doentes, e não têm idade para sofrer as discussões e explicações que eu e meu irmão, este mais impulsivo do que eu, temos a mostrar sobre o mundo. É algo que criou amargura nos meus pais, diante da perdição em que eu e meu irmão nos encontramos.

Eu culpo o Espiritismo do Brasil por isso, porque eu recorri a eles com todo o sacrifício e esforço que eu fiz em toda minha vida, e de troca só consegui azar. Eu pedi pão e me ofereceram serpentes. E os espíritas ainda me culpam pelas desgraças que vieram contra minha vontade. Me acusam de ter falta de fé, de perseverança, de esforço, dizem até que fui vagabundo, estou reclamando à toa e tenho preguiça de promover o diálogo com as mulheres que aparecem no meu caminho.

Essas acusações são infundadas. Os espíritas sempre acham que a vida é algo qualquer nota, como se fosse possível até o pescoço fazer acordo com a guilhotina em queda livre. Eu faço a minha parte, seguindo todas as recomendações possíveis, todas, mesmo, com a maior calma, mas sem preguiça nem acomodação, e com a maior paciência, simpatia e jogo de cintura. Mas se nada acontece a meu favor, isso não significa que eu falhei. 

Eu sofri azar, na maioria das vezes, e eu sinto isso diante de empecilhos que surgiram do nada. Já tive concurso público que tinha garantias de 90% para minha aprovação, e de repente surgiu do nada greves de bibliotecários para complicar o acesso à bibliografia indicada pelo edital. A greve, "por coincidência" acabou depois de eu ter feito a prova. E eu não pude arrumar outros meios de procurar o material, em maior parte de títulos raros.

Eu não posso me sacrificar mais do que me sacrifiquei. Dei de tudo de mim para vencer na vida. Estudei o quanto pude, para entender os assuntos. Desenvolvi a ética, para me relacionar bem com as pessoas. Abria a mão de impulsos sexuais quando o assunto é desejar uma namorada, para depois atrair somente aquelas que acham que botar a mão no joelho e dar uma balançadinha no bumbum é tudo na vida.

Isso tudo é consequência do azar que o espiritismo me trouxe, porque nenhuma dessas desgraças me veio porque trabalhei as energias psíquicas para atrai-las. Pelo contrário, minhas energias sempre eram para, com todo o respeito a pessoas que se envolviam com empresas corrompidas ou com orgias sexuais estimuladas por certos ritmos musicais de sucesso, deixar todos eles à distância de minha vida. Tolerava eles, desde que fossem coisas alheias ao meu cotidiano, que nunca fizessem parte de meu meio social nem de formas de ascensão na sociedade.

Mas se tudo isso era forçado a ser parte integrante de minha vida, mesmo sem que eu tenha vibrado para isso, e se toda essa força de barra surgisse justamente quando eu mais me envolvia no Espiritismo do Brasil, por que sou sempre o culpado pelas más energias que vieram a mim seu que eu vibrasse para tanto?

No entanto, os tais 'médiuns' do Espiritismo do Brasil decidem, por conta própria, aderir a projetos sociais duvidosos como um tal alimento lançado por um prefeito decadente, criticado por tantas medidas ruins impostas a uma capital, e não é responsável por isso. O 'médium' oferece seu nome e a marca de seu maior evento para o prefeito ostentar aquela gororoba química e não tem culpa por isso?

Mas eu, que vou fazer tratamento espiritual e levo em troca desgraça, de ser assaltado a ter meu nome humilhado por um blog de um cyberbully que não tolera minhas discordâncias num debate no Facebook, e que reproduz meu conteúdo pessoal ao bel prazer e mal consigo denunciar esse crime, o culpado sempre sou eu? Mesmo quando tenho vibrações positivas, encaro tudo com fé e esperança, misericórdia e paciência?

Ah, essa perda de tempo se deve por circunstâncias que surgiram ao meu contragosto. E as coisas sempre se agravavam quando eu me envolvia mais nessa doutrina, que descobri depois ser a mais desonesta, porque desvia do rumo original estabelecido por Allan Kardec em prol de caprichos igrejeiros dos mais fúteis. 

Vi o quanto significa essa desonestidade doutrinária, essa traição gravíssima aos postulados desenvolvidos pelo suor de um homem que, diferente dos nossos festejados 'médiuns' que fazem, usando o dinheiro da caridade, pomposo turismo pelo mundo só para fazer palestras tolas de auto-ajuda, viajava pagando com o próprio dinheiro e o próprio suor para realizar pesquisas.

Vi o quanto isso influi no azar da minha vida, diante do complexo de superioridade que contamina até os membros dos auxílios-fraternos que coordenam os tratamentos espirituais que, em vez de resolver problemas, os agravam com mais azar.

Quanta ruína eu tive, diante das circunstâncias alheias à minha vontade. Quanto azar contraí, por mais que eu cultive as melhores e mais sublimes energias. Quantos obstáculos maiores que meus sacrifícios mais intensos vieram no meu caminho. Quantas preces, tão rezadas com fé e tão desesperadas, quantos apelos se evaporaram no ar sem que minhas súplicas fossem atendidas!

Agora estou no fundo do poço, sem saber como será o meu futuro, com a mente desgastada de tantas desgraças. E os espíritas ainda acham que sofrimento demais dignifica a pessoa, o que revela uma grande impiedade: colecionar desgraças nem sempre traz progresso espiritual, pois em muitos casos isso pode produzir pessoas muito mais irritadas, deprimidas e angustiadas.

Os espíritas é que tem que perceber o que realmente estão fazendo, em vez de ficar se achando detentores da verdade e fazer turismo para ver a Torre Eiffel, o Big-Ben e o Coliseu de Roma e vender umas palavrinhas piegas em seminários para gente rica. Eles tanto falam em caridade, e se iludem constantemente com seus caprichos egoístas e seus juízos de valor contra quem realmente está sofrendo na vida e recebe serpentes no lugar do pão".

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Neuroses sociais e as cobranças desmedidas do "alto da pirâmide"


É muito fácil cobrar de quem não está no alto da escala social. Ordenar para outros "meterem a cara", como se mandasse os peixes darem um salto até a copa de uma árvore, sem observar condições e limitações nesta vida caótica em que os privilegiados lutam para manter as antigas vantagens sociais hoje em declínio.

O grande problema é que quem está em cima não quer ceder, não quer abrir mão de vantagens, estabelece critérios sociais restritivos, são impiedosos diante do clamor alheio mas pedem sempre misericórdia aos seus atos abusivos.

A sociedade conservadora é obrigada a rever seus valores e ver que o sonho de recuperar os velhos paradigmas sociais de 40 anos atrás, quando vigorava uma "democracia controlada" na qual os privilegiados tinham mais e os infortunados tinham menos e o poder do mercado e da política regulava essa desigualdade social para manter num parâmetro mais "equilibrado", como se fosse uma desigualdade social "sustentável".

O sonho de retomar tudo isso está ruindo. Nem a mídia mais reacionária pode aceitar certos preconceitos sociais, como os que envolveram uma performance com um artista nu, sem apelos eróticos, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ou discutir questões se as escolas devem ensinar várias religiões, ou a religião de sua escolha, ou se as aulas de religião seriam facultativas aos estabelecimentos de ensino em geral ou à frequência de cada aluno.

Tudo isso está ruindo, embora setores como os movimentos reacionários em torno do político Jair Bolsonaro ou a antiga confiança dos "espíritas" em derrubarem obstáculos, se achem capazes de sobreviver às transformações dos tempos. Mas até eles se encontram obsoletos e desgastados, o que lhes obrigam a forçar as mudanças dos tempos e se imporem às custas da catarse coletiva que existe nas redes sociais.

É só ver, no caso dos "espíritas", a página do Facebook "Espiritismo no Brasil". A comunidade, situada num universo em que predominam abordagens equivocadas da sociedade,mas impostas como "verdades indiscutíveis" - o fenômeno da pós-verdade - , é um amontoado de "memes" igrejistas. "Meme" é um arquivo de imagem no qual há uma mensagem qualquer.

Na comunidade "Espiritismo no Brasil", observa-se frases de profundo apelo igrejista, trazidas não só de personalidades "espíritas" como Chico Xavier e Divaldo Franco, mas também de Madre Teresa de Calcutá. Mensagens de Allan Kardec trazidas de traduções igrejistas da FEB e IDE, que substituem "doutrina de Jesus" por "doutrina do Salvador" e "Deus" por "Pai", são publicadas, em que, praticamente, nenhuma contribuição útil se dá para a compreensão da essência da Doutrina Espírita.

Hoje o Brasil vive uma grave crise na qual as instituições acham que sairão incólumes. O velho, o podre e o obsoleto costumam forçar sua resistência aos novos tempos, e não raro novidades são diluídas para se adaptarem a velhas essências, em vez de rompê-las.

No Brasil, há o cacoete de se permitir que o "novo" seja jogado fora. É um país onde naturalmente se aceita morrerem, ainda que na flor da idade, personalidades de grande contribuição inovadora no âmbito artístico, cultural e científico. Mas é também onde se tem muito medo de ver morrer, de repente, homicidas ricos e impunes.

Fala-se que, em era de pós-verdade e fake news, a mídia estaria escondendo os óbitos de homicidas ricos, talvez para evitar convulsões sociais (embora divulgar tais mortes cause menos barulho que a morte de um petista), por mais que o homicida tenha tido grande repercussão com seu crime. Além disso, para o "bem da sociedade", obituários de famosos só devem incluir pessoas de alguma admiração, como se o obituário do Wikipedia fosse algo próximo das listas do prêmio Nobel.

A sociedade mantém seus preconceitos sociais. A Justiça mantém sua seletividade tendenciosa. A religião, com suas fantasias, a supremacia do bem, reduzindo a bondade humana a um rótulo relacionado à fé e aos estereótipos de caridade, que, na verdade, correspondem à prática pouco eficaz do Assistencialismo, caridade meramente pontual cujo maior resultado é a propaganda pessoal do benfeitor de ocasião.

O mercado de trabalho parece exigir que o profissional seja um misto de Malvino Salvador (ao mesmo tempo galã e viril), Danilo Gentili (ao mesmo tempo piadista e irônico) e Galvão Bueno (fanático por futebol e com certo apelo populista). As empresas mais parecem preocupadas em exigir alguém que possa "interagir com os colegas", sem necessariamente ter talento profissional, embora a exigência de experiência profissional continue prevalecendo, e de forma muito rígida.

Os concursos públicos parecem exigir um Einstein e há o problema dos "robôs" que, ao fazer a leitura ótica dos cartões de provas, ainda cometem margens de erro que podem pôr a perder candidatos com maior vantagem de pontos, abrindo caminho para outros com bem menos vantagens.

Pais que cobram demais dos filhos sem perceber suas condições e limitações. A romantização do sacrifício humano, que no caso da retórica masculina paterna, ganha verniz de pretensa objetividade, sacrifica demais os mais jovens que, na corrida do emprego e da vida social, encontram obstáculos difíceis de serem superados, até mesmo com muita fé, muito esforço e muito jogo de cintura.

Estamos numa sociedade cujos privilegiados não sabem o que querem. Mesmo no machismo feminicida, os homens demonstram não saber o que realmente querem das mulheres que matam, e eles mesmos não demonstram afeto nem carinho, se desleixando ao desprezar os troféus humanos que suas mulheres simbolizam para eles. Enquanto ninguém as tira deles, tudo bem.

Os privilegiados, aliás, exigem muito por nada, cobram demais sem saber realmente para que servem tais cobranças. As mulheres também não sabem o que querem dos homens na vida amorosa e não raro elas, sob o pretexto de evitarem homens de personalidade desagradável, acabam atraindo para si homens de melhor poder aquisitivo, maior prestígio social, mas com a mesma personalidade desagradável que elas lutaram para evitar.

Casos como altruísmo e despretensão se tornaram raros. E, no surto neoconservador existente no Brasil, os preconceitos e atrocidades sociais voltaram a entrar em alta. O "topo da pirâmide" acumula bolor e mofo tóxico e arde em chamas em seus aposentos, mas, por enquanto, tudo parece aparentemente "sob controle". Mas hoje as questões humanas se multiplicam e muitos agentes e instituições sociais hoje tidos como imunes podem mostrar também sua vulnerabilidade.

sábado, 30 de setembro de 2017

O médico Leonid Rogozov foi muito mais digno que o "médium" João de Deus


"Barbeiro corta o próprio cabelo?", perguntou, cinicamente, o "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, o mais novo "sacerdote da Rede Globo" e o terceiro, depois de Chico Xavier e Divaldo Franco, a receber o culto à personalidade blindado pela poderosa corporação midiática e associado a um conceito de "bondade" mais apropriado para dramalhões de novela.

A pergunta se refere ao fato do "médium" - que muitos consideram ter dado o "beijo da morte" à ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, já que João de Deus é latifundiário e protegido da mídia reacionária - ter recorrido aos cirurgiões de um hospital de São Paulo para curar-se de um tumor, em vez dele mesmo realizar uma autocirurgia.

A declaração de João de Deus contraria sua imagem "santificada" de terceiro "médium" blindado, símbolo da pretensa meiguice promovida pelo discurso midiático-religioso e que pega muita gente boa desprevenida, diante de um "espiritismo" que vive de mitomania e dissimulação com maior intensidade desde os anos 1970, quando os "espíritas" passaram a bajular Kardec, se dizerem "fiéis aos postulados espíritas originais" mas praticarem o igrejismo roustanguista.

Pois a História registra a trajetória do médico russo Leonid Rogozov, o "barbeiro que resolveu cortar o próprio cabelo" num momento de grande dificuldade. Aos 27 anos, em 1961, ele descobriu sofrer de uma grave apendicite quando sua equipe trabalhava na Antártida.

Rogozov não poderia viajar de avião, sob risco de sofrer choque de temperatura e morrer durante a viagem. Mas também não tinha cirurgiões de plantão, a não ser ele mesmo. Ele, então, resolveu recorrer apenas a dois assistentes: um para segurar o espelho, e outro para fornecer os equipamentos, enquanto o próprio Rogozov, com paciência surpreendente, realizou sua própria cirurgia.

A cirurgia, em circunstâncias muito mais difíceis, complicadas e arriscadas, foi bem sucedida. Não havia sequer garantia de êxito, pois o ambiente era muito frio e o estágio da doença estava avançado. Mas tudo deu certo e Rogozov só morreu em 2000, com os efeitos naturais da velhice, aos 76 anos.

Já João de Deus, mundialmente conhecido - seus fãs estrangeiros até o apelidam de "John of God" - , tinha a sua aparente grandeza e as condições favoráveis para fazer autocirurgia. Poderia mesmo usar sua fé para retirar seu próprio tumor, usando de instrumentos que diz utilizar para operar outras pessoas. Poderia até sair divinizado com isso. E poderia até ter evocado o próprio espírito de Rogozov!

Mas isso revela a farsa que é o "espiritismo" brasileiro e seus "médiuns" idolatrados como se fossem mocinhos de novela da Rede Globo. Ainda se vai analisar as supostas cirurgias espirituais e seus efeitos placebos - desconfia-se que os "médiuns" não curam, mas a autocura de pessoas esperançosas, que poderiam ter outras crendices que o efeito seria o mesmo - e fatos estranhos como o fato de cirurgias não curarem as paralisias dos movimentos de braços e pernas.

Infelizmente, as atividades "mediúnicas" são irregulares e até mais corrompidas do que se atribui às políticas do Partido dos Trabalhadores pela mesma mídia que endeusa os "médiuns espíritas". Psicografias fake, pinturas falsas e supostas psicofonias que mais parecem imitações de stand up comedy.

E isso com supostas cirurgias sem métodos nem efeitos confiáveis, feitas ao arrepio da Ciência como se a fé pudesse criar, para si, uma "ciência paralela". Não pode. Somos seres humanos e não podemos aceitar que haja uma realidade que sobrevivesse alheia à nossa capacidade de raciocinar, criando um terreno do surreal e do absurdo atribuído ao sobrenatural, mesmo sob as mais deslumbradas alegações próprias da fascinação religiosa.

Portanto, o exemplo de Leonid Rogozov tornou-se mil vezes mais digno e corajoso do que o do festejado João de Deus. E isso mostra que é fora das paixões religiosas que se encontram exemplos que são bem mais humanistas do que o falso humanismo apaixonado atribuído aos ídolos religiosos tomados de pleno culto à personalidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Questionamento espírita" se destina ao leitor de celulares


Polêmico, mas didático, um blogue foi lançado, derivado da Equipe Dossiê Espírita, visando o leitor de celular e o frequentador das redes sociais como o WhatsApp. No ar desde dezembro de 2016, "Questionamento Espírita" procura, em curtas frases, ampliar o debate em torno da deturpação do Espiritismo, destinando-se ao leitor de celular que prefere ler textos relativamente rápidos e curtos.

Publicamos aqui uma rápida entrevista, que nos foi enviada na Internet por um missivista, Valter Nogueira Santos, com Demétrio Correia, autor dos textos que compõem o blogue Questionamento Espírita (http://questionamentoespirita.blogspot.com.br/):

Como surgiu o Questionamento Espírita?

Demétrio - O blogue Questionamento Espírita surgiu de uma necessidade de apresentar, em rápidas frases, questões ligadas à deturpação do Espiritismo, um problema complexo que faz com que o legado de Allan Kardec seja eternamente mal compreendido diante de práticas que só se permitem diante dos valores moralistas e igrejeiros que os brasileiros mantém.

Qual é mesmo o problema do Espiritismo no Brasil?

Demétrio - É o problema típico da hipocrisia brasileira. A opção original do Espiritismo brasileiro foi com a tendência "mística", voltada à religião, em detrimento da "científica", mais próxima do pensamento original de Allan Kardec. Mas pressões de diversos lados e arranjos de arrivismos e conveniências em torno de líderes e ídolos religiosos fizeram com que se adotasse a posição hipócrita da "fase dúbia", que é fingir que se recuperam as bases doutrinárias originais enquanto se pratica o igrejismo.

O que é mesmo a "fase dúbia" do Espiritismo no Brasil?

Demétrio - Ela é fruto de conveniências que surgiram quando se agravou a crise da Federação Espírita Brasileira, que tinha um poder extremamente centralizado, e as federações regionais. Foi uma crise surgida depois que o então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, se aposentou e, mais tarde, morreu doente. A "fase dúbia" consiste numa postura dupla, numa espécie de "roustanguismo com Kardec", por diversas razões.

E que razões foram estas?

Demétrio - Para começar, sem o carisma de Wantuil na FEB, seus herdeiros passaram a entrar em conflitos de interesses com as federações regionais, que nunca tiveram voz nas reuniões da federação nacional. Os "médiuns" que se projetaram nacionalmente, como Chico Xavier e Divaldo Franco, se tornaram solidários às federações regionais, até porque eles eram regionais, de Minas Gerais e da Bahia, respectivamente, e portanto não representavam os interesses centrais da FEB, fundada no Rio de Janeiro e depois sediada em Brasília, e da FEESP, federação paulista, que era a única federação regional que tinha voz plena no "movimento espírita".

Há também um outro aspecto, que é a reação dos "científicos", como Carlos Imbassahy, o pai, e mais José Herculano Pires e Deolindo Amorim. Principalmente o Herculano, que denunciava a igrejificação do Espiritismo na imprensa e nos programas de rádio. Diante dessa pressão, é evidente que Chico e Divaldo, em favor das conveniências, tinham que parecer solidários aos "científicos" mediante vantagens pessoais.

E como se deu essa postura dos dois "médiuns" que, sabemos, tiveram formação ideológica nas ideias do igrejeiro Jean-Baptiste Roustaing?

Demétrio - Chico e Divaldo nunca deixaram de lado seu igrejismo, cuja fonte é, com certeza, o livro Os Quatro Evangelhos de Roustaing. Isso não é invenção de algum detrator, pois se observarmos bem, o que está escrito no livro de Roustaing, supostamente atribuído aos quatro evangelistas do Novo Testamento, foi rigorosamente adaptado, mas respeitando o contexto brasileiro, pelos dois "médiuns". O que se deu é que eles fingiram uma "aproximação maior" a Kardec, uma mera formalidade da qual eles só fizeram alguns artifícios, seja em depoimentos, palestras ou em obras literárias.

Eles então se tornaram os guias dessa postura "dúbia" no "movimento espírita"?

Demétrio - Com toda a certeza. Principalmente Divaldo Franco, que se ascendeu de forma meteórica nesta fase. Chico, que veio de uma fase anterior, porque foi na verdade o popstar do Espiritismo brasileiro trabalhado por Wantuil, teve que ter seu mito reinventado mediante alguns motivos.

E quais foram estes motivos?

Demétrio - Primeiro, para evitar as confusões causadas por antigas atividades de Chico Xavier, cujo ponto extremo foi o caso Otília Diogo, uma picareta que forjou um espetáculo de falsa materialização, bem aos moldes da mágica circense. A escandalosa aventura resultou no rompimento de Chico Xavier e seu pupilo Waldo Vieira, que pulou fora e foi criar a Conscienciologia, espécie de similar mais hippie da Cientologia. Isso foi a gota d'água de uma forma de promover o mito de Chico Xavier que já o fez colocar no banco dos réus, vide o episódio do processo de Humberto de Campos nos anos 40. Algo tinha que ser feito para recriar o mito de Chico, uma espécie de "rei Midas" da FEB.

E como o mito de Chico Xavier foi reinventado?

Demétrio - Chico já não tinha mais a sua tutela o Wantuil, a essas alturas já morto. Também não podia ser apenas o astro da FEB, que se fechou num roustanguismo radical. Então, um consórcio de federações regionais fez com que, em parceria com a Rede Globo, se reinventasse o mito de Chico Xavier, desta vez mais "limpo", sem enfatizar demais sua aparente paranormalidade, deixando um pouco de lado a apropriação de literatos mortos e focalizando mais as "cartas dos anônimos mortos", além de um modelo de filantropia desenvolvido por um jornalista inglês.

Como então esse mito de "filantropia" dado a Chico Xavier se desenvolveu?

Demétrio - A Globo passou a blindar Chico Xavier, depois que as Organizações Globo eliminaram a antiga animosidade contra o "médium". Sabe-se que, primeiro, a empresa de Roberto Marinho começou a tratar Chico como um exótico paranormal, publicando até aquelas fotos em que o "médium" mostrava um semblante bastante pesado. Deu em O Globo, em 1935. Aí, como O Globo passou a contar com colaboradores católicos, como Alceu Amoroso Lima e Gustavo Corção, passou a hostilizar Chico Xavier e publicar até nota de que ele foi desmascarado pelo sobrinho Amauri, que morreu de uma maneira estranha e até suspeita. Mas, dos anos 1970 para cá, o que vemos é um casamento feliz entre a família Marinho e Chico Xavier, tanto que a Globo é que bancou os filmes baseados na vida e obra do "médium".

Sobre o mito de "filantropo", a Globo pegou emprestado um documentário do inglês Malcolm Muggeridge, Algo Bonito para Deus, de 1969, sobre Madre Teresa de Calcutá, mais tarde denunciada por maus tratos aos alojados em suas casas assistenciais. Malcolm conseguiu adocicar a imagem de Madre Teresa, uma senhora ranzinza e reacionária. Hoje ela é o "símbolo da caridade plena", oficialmente falando. E a ideia é transformar Chico Xavier num equivalente brasileiro de Madre Teresa de Calcutá, e todo o roteiro de Muggeridge, que era católico e de direita, foi devidamente adaptado pelo jornalismo da Globo, embora este roteiro mais pareça coisa de novela.

Muitos acreditam que a caridade de Chico Xavier foi plena. Por que, todavia, ela é questionada?

Demétrio - Ela é questionada porque essa ideia de "caridade" e "bondade" são apenas ideias vagas e apelos superficiais trazidos por valores que em si exaltam o paternalismo e o moralismo religioso. A "bondade" que menos traz resultados benéficos, mas traz a marca de uma seita religiosa, seja qual for, e a sociedade prefere mais essa "bondade" que ajuda poucos, mas traz a marca da religião e o prestígio do ídolo religioso, seu aparente benfeitor, do que aquela "bondade" que não se apega a instituições e favorece as classes populares ameaçando os privilégios das elites.

É uma situação gozada no Brasil. Quem é glorificado não é aquele que ajuda multidões em detrimento dos privilégios de uns poucos. Quem é glorificado é aquele que se apoia numa marca religiosa e ajuda um número limitado de pessoas, sem ameaçar as elites que vivem nadando em dinheiro. Assim dá até a falsa impressão de simplicidade, as instituições ajudando pouco alegando falta de condições... Já quem ajuda multidões com um projeto ambicioso de combate às injustiças sociais é tido não só como um "comunista", mas em certas regiões chega a receber ameaça de morte e tudo.

Então a ideia de "bondade" é defendida quando ela é apenas uma franquia de uma religião?

Demétrio - Sim. Porque a sociedade quer ser naturalmente sórdida e perversa, porém dissimulada. Quer a "bondade" apenas ligada à religião, até porque esse tipo de sociedade só pensa as coisas de forma institucionalizada, burocrática, publicitária. Há o discurso de que a "bondade" religiosa "ajuda muita gente" e as pessoas chegam a superestimar quantidades de beneficiados que parecem enormes, mas são ínfimas. A gafe cometida pelo Fantástico, que definiu Divaldo Franco como "maior filantropo do Brasil" por ajudar, em seis décadas, apenas cerca de 160 mil pessoas, que não dá sequer um por cento da população só de Salvador, é bem ilustrativo.

Isso lembra o desastrado governo Michel Temer, com suas promessas de investir milhões de reais de setores que necessitam de trilhões, ou da Operação Lava Jato, que repatria uns poucos milhões mas dá prejuízo aos trabalhos de infraestrutura com a paralização de empresas sob a desculpa de combater a corrupção. Alguém fala em aplicar uns milhares de reais, e fica se achando com isso, mas aplica em setores que precisam muito mais, para uma demanda que necessita bem mais.

E quanto a Questionamento Espírita? O blogue pretende ampliar o debate da deturpação espírita?

Demétrio - Lógico que sim. São textos simples, que puxam para a reflexão, e isso, como todo questionamento feito neste sentido de criticar a deturpação, incomoda muita gente. Até hoje, o Espiritismo deturpado, com todos os seus equívocos, gozava de uma estabilidade e uma imunidade plenas, que muitos acreditam ser uma doutrina de "iluminados", de gente que já tem em mãos o passaporte para o Céu. Ou, pelo menos, o caminho mais curto para obter esse passaporte.

Por que o Espiritismo deturpado brasileiro tem sempre essa reputação angelical?

Demétrio - Foi um discurso bem construído. Meticulosamente articulado. O Espiritismo que temos hoje é praticamente um genérico do Catolicismo, uma espécie de reciclagem de velhos paradigmas medievais aliada a uma estrutura mais modesta, sem as formalidades da Igreja Católica. Se prestarmos atenção, o nome de Allan Kardec é só uma formalidade, nada do que ele transmitiu e ensinou foi devidamente assimilado.

No entanto, os chamados "espíritas" puderam criar um discurso muito sofisticado, que evoca as mesmas paixões religiosas que guiaram o Catolicismo da Idade Média, com um imaginário comparável ao de contos de fadas. A Rede Globo emprestou a dramaticidade de suas novelas para promover a adoração a Chico Xavier por sua suposta caridade, e hoje o que vemos é um vazio ideológico embebido de belas palavras, palestras, artigos e textos que capricham na exibição de desenhos de coraçõezinhos vermelhos, sem coisa alguma de proveitoso.

Você fala que os "médiuns" brasileiros viraram uma aberração, os "anti-médiuns". Por quê?

Demétrio - Nos tempos vividos por Kardec na França, os médiuns que estavam a seu serviço eram pessoas anônimas, conhecidas praticamente pelo sobrenome, e só faziam o trabalho intermediário, daí o nome "médium", sem bancar os dublês de ativistas ou de pensadores. Aqui o "médium" virou o centro das atenções, ele não fala mais pelos mortos, os "mortos" é que falam pelos "médiuns", que viraram os animadores de plateias, os falsos filósofos, os pretensos filantropos, recebendo o culto à personalidade. O anti-médium quer dizer ser o anti-intermediário, porque hoje "médium" é o centro, não o meio, de uma mensagem dita espírita.

O Espiritismo praticado no Brasil envergonharia Allan Kardec? E Jesus Cristo, também?

Demétrio - Com certeza. O Espiritismo que se faz no Brasil remete a tudo aquilo que Allan Kardec reprovou em seu tempo. É só ler O Livro dos Médiuns e os alertas sobre os inimigos da Doutrina Espírita fariam muita gente cair da cadeira, porque os aspectos enumerados por Kardec e os espíritos mensageiros se encaixam perfeitamente no que Chico e Divaldo fizeram.

Jesus, então, nem se fala. Ele condenava a pretensa erudição dos sacerdotes e escribas, dotados de muita pompa, pretensiosismo, arrogância e falsa modéstia. Se observar esses ilustrados tão reprovados por Jesus e comparar com a obra de Divaldo, os brasileiros cairão da cama, depois de voarem em altas nuvens nas suas fantasias douradas com os "médiuns" de contos de fadas.

As redes sociais também blindam Chico e Divaldo. O que você acha disso?

Demétrio - Isso é muito grave, mas nota-se o nível do que estão os internautas nas redes como o Facebook, Instagram, YouTube e WhatsApp. Há muito reacionarismo e muito conservadorismo, o que reflete tanto no ódio aos movimentos sociais, na expressão de preconceitos raciais e sexuais e na transmissão do fanatismo religioso.

Nota-se que Chico Xavier e Divaldo Franco possuem centenas de vídeos no YouTube. Há memes com frases de Chico Xavier no Facebook e Twitter, e também no WhatsApp. Memes com ilustrações de jardins floridos, céu azul, com o rosto de Chico Xavier envolto em formato de coração. É constrangedor. E ainda há muitos vídeos de bobagens como os derivados da suposta "profecia da data-limite" no YouTube, reduto também das palestras palavreadoras de Divaldo Franco.

A ideia de Questionamento Espírita é atingir esse público?

Demétrio - Sim, com certeza absoluta. A ideia é romper esse cerco e enfrentar esse conservadorismo agressivo com pontos de vista que saem de coisas estabelecidas e que, mesmo sendo decadentes e obsoletas, são defendidas com violento radicalismo pelos internautas nas redes sociais.

É difícil escrever textos bem curtos, procuro apenas jogar frases curtas e pôr ideias concisas. É preciso levar adiante os questionamentos em torno da deturpação do Espiritismo e prevenir as pessoas de que não se pode retratar e fazer ressalva alguma dos "médiuns".

O perigo de contestar a deturpação do Espiritismo é alguém der de cara com uma montagem misturando Chico Xavier com coraçõezinhos, flores e crianças pobres e a pessoa abrir mão de questionar a deturpação que ele fez, que é da mais extrema gravidade. Como é de extrema gravidade a que foi feita por Divaldo, que espalhou conceitos errados de Doutrina Espírita ao redor do mundo.

A página que faço se destina então a tais questionamentos, prevenindo as pessoas de tais armadilhas. Isso não pode ser visto como uma "depreciação do bem", mas uma crítica às distorções feitas pelo movimento espírita. Não há benefício algum transformar o "médium" em ídolo religioso, fazer culto à personalidade, promover o Assistencialismo, que é aquela caridade frouxa que não ajuda... E ainda por cima pregar o igrejismo e valores moralistas antigos. A ideia é tirar o mofo das mentes das pessoas que transmitem ideias emboloradas nas redes sociais.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"Caridade" só serve de "cortina de fumaça" para proteger deturpadores do Espiritismo


Diz o espírito Erasto de que os "inimigos internos" do Espiritismo irão falar de "coisas boas" e apelar para ideias como "amor, Deus e caridade" para iludir as pessoas e depois convencê-las a acreditar em ideias desprovidas de lógica e bom senso.

Não demos ouvidos a esse aviso, dado nos tempos de Allan Kardec, há mais de um século e meio. Em vez disso, aceitamos, sem críticas e até com um deslumbramento bastante cego e acomodado, os deturpadores da Doutrina Espírita por causa de supostas qualidades tidas como "sublimes".

Nas redes sociais, se observa que muitos tentam abafar as críticas à deturpação do Espiritismo com alegações de que "pelo menos os deturpadores fazem caridade e ajudam muita (sic) gente". A ideia é proteger os deturpadores, muitos deles "médiuns" que vivem o culto à personalidade.

A "caridade" se torna, então, uma espécie de "cortina de fumaça" feita para proteger os deturpadores, garantindo assim que suas pregações igrejistas sobrevivam a qualquer esforço de recuperação das bases doutrinárias originais. Relativiza-se a deturpação, como em um crime sem criminoso, enquanto os deturpadores, poupados, fingem que vão "aprender melhor Kardec".

O endeusamento a Chico Xavier, Divaldo Franco e outros, que segue níveis do mais mórbido fanatismo, se apoia nesta "cortina de fumaça". A "caridade" é uma forma de jogar debaixo do tapete os erros da mais extrema gravidade que os "médiuns", em seu culto à personalidade, fizeram contra a Doutrina Espírita, desmoralizando o árduo trabalho do pedagogo francês.

A "caridade" serve, então, para dissimular a desonestidade doutrinária, embora não escondesse também certos disparates. Afinal, sabe-se que o sofrido Kardec, para realizar pesquisas, pagava com seu próprio dinheiro as viagens, sem patrocínios e sem o respaldo esperado, a não ser de sua esposa, para ir a lugares distantes estudar os fenômenos espíritas, autênticos ou não.

Isso é muito diferente de Divaldo Franco viajar com patrocínio de não se sabe quem, em aviões de primeira classe, hospedado nos melhores hotéis, para fazer palestras para ricos e poderosos expondo umas palavrinhas rebuscadas de mensagens açucaradas, em muitos casos trazendo conceitos que deixariam o pedagogo francês bastante envergonhado e aflito.

Enquanto milhões de reais são investidos para os "médiuns" ou os palestrantes "espíritas" em geral excursionarem pelo Brasil ou pelo mundo, em viagens e hospedagens muito confortáveis, em troca de títulos e prêmios e posando ao lado de personalidades VIP, apenas uns poucos milhares de reais são investidos para a "transformadora caridade" de que tanto falam os "espíritas".

Portanto, nem a "caridade" se torna uma justificativa nobre para aceitarmos a deturpação. E, numa época em que se denunciam doações de empresas e políticos corruptos, indaga-se se o "movimento espírita" também não foi beneficiado com eventuais "lavagens" financeiras ou recebe alguma blindagem das elites poderosas.

A Rede Globo apoia Chico Xavier desde os anos 1970. E Chico Xavier não doou seu dinheiro para a caridade, mas para os cofres da FEB, assim como Madre Teresa de Calcutá doou a grana que pedia dos ricos e poderosos para os cofres do Vaticano. Ambos simbolizam um estranho paradigma de "bondade plena" feitos por um bem estipulado discurso midiático.

Quem patrocina as turnês dos palavreadores "espíritas"? Quem financia esse espetáculo de coreografias vocabulares, de textos rebuscados ou de arremedos ruins das já duvidosas palestras de auto-ajuda? Quem paga para ver supostos discípulos de Kardec despejarem ideias que deixariam o pedagogo francês pasmo e preocupado de tanta deturpação e distorção de ideias?

As pessoas têm que abrir mão de paixões religiosas. Isso é um imperativo, uma urgência, porque são elas que impedem as pessoas de raciocinar melhor sobre certas armadilhas mistificadoras que só trazem complicações, apesar da "água com açúcar" das belas palavras e imagens. A diabetes religiosa também é nociva, e a gente observa isso quando pessoas chegam a se irritar para defender com mão de ferro os "médiuns" e "pensadores" que deturpam o legado kardeciano.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Religiosa, São Gonçalo assusta pela violência crescente


Já se falou que São Gonçalo, embora seja uma cidade com um dos maiores números de casas religiosas no Estado do Rio de Janeiro, é também uma das mais violentas. A violência chega a ocorrer à luz do dia e faz as pessoas evitarem sair à noite e provoca fechamento de casas e até prédios comerciais.

Embora boa parte da sociedade imagine a religião como instituição que sempre resgata a vida dos cidadãos, a cada vez mais a realidade mostra o lado contrário, pois boa parte das manifestações de ódio nas mídias sociais vem de pessoas que, de alguma forma, professam alguma religião.

A campanha de ódio que tirou do poder a presidenta Dilma Rousseff e colocou no lugar seu vice, Michel Temer, que a traiu em prol de um projeto político voltado a medidas amargas que desfazem conquistas sociais históricas e que representam um grave retrocesso social que retomaria as velhas estruturas de rigorosa desigualdade social do Brasil colonial.

O efeito aparentemente benéfico da religião começa a ser questionado, principalmente pelo fato dos internautas mais reacionários serem "cristãos": muitas das práticas de cyberbullying são feitas por pessoas que se dizem "acreditar em Jesus" e que atribuem à imagem de Satanás qualquer desafeto, desde aquele que contesta o "estabelecido" até um político de um partido de esquerda.

Surge a notícia de que os evangélicos vão defender a candidatura de Jair Bolsonaro, uma das mais perigosas figuras da política brasileira, pelo extremo reacionarismo e pelas confusões com que se envolveu e que os noticiários comprovam. Isso é muito grave, não bastasse as medidas que o Congresso Nacional, cada vez mais indiferente ao povo, impõe à população, como a reforma previdenciária e a reforma trabalhista, cujo aperitivo é a já aprovada terceirização generalizada.

O modo "religioso" de ver as arbitrariedades e erros, vários gravíssimos, de gente dotada de algum privilégio social, da fama à religião, do porte de armas ao diploma, do domínio de informática à concentração do capital, também preocupa.

Dependendo do prestígio social, mesmo crimes de morte passam a ser encarados de forma atenuante. Confusões que podem pôr uma humanidade a perder são vistos com gracejos, como se não fossem graves confusões, mas demonstrações do senso de humor.

Arbitrariedades que mais prejudicam a população - como, no Rio de Janeiro, a pintura padronizada nos ônibus que confundia as pessoas na hora do ir e vir - são aceitas de maneira submissa sob a ilusão de "sacrifício necessário", uma falácia que aqueles que se escondem pelo prestígio tecnocrático do diploma, do dinheiro ou poder político usam para impor medidas injustas e nocivas sob a falsa promessa de um "benefício maior".

Parece até Teologia do Sofrimento. E é, aplicada fora da religião. através da ilusão de que as supostas atribuições técnicas e racionais de uma elite de políticos, administradores e tecnocratas lhes permite prejudicar a população, forçando-a a aceitar o próprio prejuízo em prol de pretensos benefícios que não se tem certeza se serão benéficos ou se eles realmente existirão.

A "religiosização", que é atribuir missões divinas a ações que na verdade parecem medíocres ou nefastas, e que se manifesta pela pós-verdade - a mania de criar uma retórica racional para ideias nada racionais - , também faz com que certas pessoas se achem no direito de praticar certas maldades porque, depois, a religião irá "limpar" as "sujeiras" que fez.

Em muitos casos, atrocidades são justificadas por pretextos moralistas. O feminicídio conjugal, por exemplo, usa as desculpas da "defesa da honra" e, não raro, evoca valores da "família" e, pasmem, até do "amor". A violência latifundiária contra os camponeses também evoca uma "causa nobre", a defesa da "propriedade", não raro "garantida por Deus".

O histórico do Catolicismo da Idade Média, portanto, revela o quanto a religião também pode cometer crueldades. A supremacia da fé e a ilusão do vínculo divino - lembrando que a figura de Deus é ainda muito enigmática e sem comprovação científica - permitiu aos católicos praticar o "banho de sangue" em níveis comparáveis aos do holocausto nazi-fascista, movimentos políticos que se ascenderam pela "religiosização" da política.

Atualmente, seitas neopentecostais e o "movimento espírita" buscam herdar o espólio do Catolicismo medieval enquanto a Igreja Católica propriamente dita busca se atualizar. Seitas como a Igreja Universal do Reino de Deus se ancoram na leitura medieval do Velho Testamento, enquanto o "espiritismo" brasileiro adota a leitura do Novo Testamento, também em abordagem medieval. IURD e FEB também têm braços midiáticos, respectivamente a Record TV e a Rede Globo.

Diante desse suporte midiático, as religiões se ampliam num contexto cada vez mais conservador. A própria grande mídia é divinizada, exercendo poderes sagrados de impor até mesmo gírias e ídolos. Poucos percebem, mas a Globo usou Chico Xavier e o glorificou para fazer frente a Edir Macedo e R. R. Soares na disputa pela supremacia religiosa.

Dito isso, é ilustrativo que locais onde há muitas casas religiosas são também redutos de grande violência. Não é a religião que se instala em locais violentos para eliminar a criminalidade, embora, em tese, seja seu propósito, mas é a violência que é liberada pela lógica emocional e justiceira da fé.

Não por acaso, muitos dos "centros espíritas" e tempos neopentecostais se localizam em áreas que, depois, têm sua violência agravada. Áreas como Pau da Lima e Uruguai, em Salvador, Madureira no Rio de Janeiro, e Viradouro e Fonseca, em Niterói, se tornam redutos preocupantes de violência, com assassinatos e assaltos ocorridos até à luz do dia e diante de muito movimento de pessoas.

Da mesma forma, São Gonçalo também se torna reduto. E isso cria um prejuízo tão grave que os roubos de cargas refletem até nos preços das mercadorias, com aumentos de até 35%. Os índices de homicídios chegam a uma média de 25 por dia, quase uma vítima por dia. Para se proteger, cercas e portões com material cortante e portas gradeadas são instaladas até em vilas.

Bairros como Salgueiro e Jardim Catarina demonstram ser os mais violentos e os que mais oferecem dificuldades para a ação policial. Mas outros bairros, como Pacheco, Santa Isabel e o entorno do Jardim Alcântara e Galo Branco também mostram episódios preocupantes de assassinatos e roubos.

Que a violência existe em qualquer lugar e sob qualquer contexto, isso é verdade. Mas a religião, que se anuncia como a solução para reduzir os índices de criminalidade, acaba os estimulando, até pelo fato de que seitas conservadoras servem mais para poupar os algozes, numa suposta "misericórdia" ou "ressocialização" que só lhes restitui os privilégios e o poder, do que os mais necessitados, que continuam sofrendo desgraças. Diante dessa desigualdade, o crime só tende a aumentar.

domingo, 2 de abril de 2017

Terceirização prejudicará o Brasil


O Brasil está caminhando para trás, porque há uma sociedade que está apegada a velhas zonas de conforto e precisa recuar para tempos mais antigos em que as desigualdades protegiam as elites nos seus privilégios e comodidades.

A onda ultraconservadora, propagada por uma mídia cada vez mais retrógrada - é notória, por exemplo, a decadência das emissoras de TV aberta e, em parte, das de TV paga - , faz com que o país viva essa marcha-a-ré ladeira abaixo nos valores sociais em diversos aspectos.

Em muitos casos, as perspectivas são de restaurar valores anteriores à vinda da família real portuguesa ao Brasil. Aceita-se como mudança apenas as questões materiais, como as áreas urbanas e a tecnologia, mas na essência, há uma preocupação em voltar o mais rápido possível para os limites sociais do período colonial.

A terceirização do mercado de trabalho, aprovada há poucos dias pelo Congresso Nacional - cada vez mais identificado com os interesses das elites e, portanto, são indiferentes às classes populares - , é um claro exemplo, uma medida chantagista das elites que tomaram o poder em maio de 2016 que coloca os trabalhadores como reféns de seus interesses privados.

A medida da terceirização para atividades-fim - antes ela só era restrita a atividades-meio, prestações de serviço externas à especialidade de cada empresa ou instituição - , que afetará praticamente todo o mercado de trabalho, irá fazer o emprego cair de forma devastadora e humilhante.

Com a terceirização, os salários tendem a ser desvalorizados, os trabalhadores perderão encargos e garantias sociais, não haverá sequer assistência à saúde, pois eles terão que recorrer à saúde privada ou a um sucateado SUS (Sistema Único de Saúde), no caso de sofrerem acidentes de trabalho.

Completando o drama, as reformas trabalhista e previdenciária preveem, entre outras coisas, o aumento da jornada de trabalho e o adiamento da aposentadoria para o fim da vida. Somando todos esses dramas, o que se verá é um quadro social estarrecedor.

HOLOCAUSTO

Só podemos definir esses projetos trabalhistas defendidos por Michel Temer e seus aliados com uma palavra: HOLOCAUSTO. Afinal, esses projetos políticos, adotados sob a desculpa do combate à recessão, tendem na verdade tornar a vida dos trabalhadores mais desgastante e miserável.

Com menos salários, menos chance de uma boa alimentação e qualidade de vida. Com menos encargos, a situação se complica. Com maior carga horária, mais cansaço e desânimo e menos capacidade de reciclagem psicológica nos momentos de ócio.

Além disso, com o trabalho precarizado, haverá mais acidentes e grande potencial de mortes prematuras. Apesar das alegações divulgadas pela grande imprensa de que a terceirização aumentará o emprego, a verdade é que ela aumentará, sim, o desemprego e a instabilidade no mercado de trabalho.

Isso tudo causará desgastes, tragédias, tensões, e os conflitos entre trabalhadores e patrões, e entre colegas de trabalho em disputa pela promoção no trabalho, se tornarão mais graves. Além disso, a precarização dos salários e a carga horária extenuante afastarão muitos consumidores do comércio, pois eles não terão tempo nem disposição para se deslocarem para comprar os produtos.

Diante do que vemos nas classes populares, a tragédia aumentará e isso será ótimo para as elites, porque a terceirização é um sutil processo de higienização social das classes mais pobres. Ela complementa outro higienismo, de maneira cultural, que é o entretenimento popularesco que obrigava os pobres a se contentarem com a pobreza e difundia valores degradados através da vulgarização do sexo e da breguice musical.

O entretenimento "popular" forçava mulheres famosas ligadas ao erotismo grotesco a serem "solteiras", num celibato profissional que servia para estimular o ódio entre homens e mulheres nas classes populares, prato cheio para ações violentas. Além disso, com a sexualidade escancarada dos ritmos popularescos, como "funk" e "sertanejo", os pobres, sem o respaldo educacional necessário, sucumbiam a doenças venéreas e à violência sexual, além da autodestruição pelo álcool.

E O "ESPIRITISMO" NESSA?

O grande problema é que o "espiritismo", que ultimamente anda publicando textos forçando as pessoas a aceitar o sofrimento, pouco está aí para esse cenário. Os palestrantes "espíritas" até tentam argumentar que vivemos "um ótimo momento" e eles já definiram as passeatas dos "coxinhas", movidas pelo rancor reacionário, como "momentos de emancipação política e regeneração espiritual da humanidade".

A terceirização, então, é "ótima", porque na visão dessa doutrina catolicizada que só exalta Kardec da boca para fora, observa-se que os "espíritas" só estão preocupados com a vida "qualquer nota", tratando a vida material como se fosse um serviço militar, na qual as pessoas têm que suportar os piores sacrifícios e as piores desgraças para obter a "graça de Deus".

Os apelos que os "espíritas", cada vez mais voltados à Teologia do Sofrimento, que havia sido defendida por Chico Xavier, ele mesmo um católico extremado, são apenas para os trabalhadores "terem calma e trabalharem". Sintonizados com o governo Michel Temer, os "espíritas", bem antes dele, diziam: "não reclame da crise: trabalhe".

É como se eles corroborassem os apelos dos senhores de engenho aos escravos: "não reclame da vida, trabalhe e só", pouco importando se o trabalho é sobrecarregado, dificílimo, esgota as forças, causa dor etc. Para o "movimento espírita" e seus premiados palestrantes, "quanto pior, melhor". Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Texto "espírita" amplia sentido de "caridade" para... Serviço?


O "espiritismo" é um bale de belas palavras, um espetáculo de palavras bonitinhas e até aparentemente bem intencionadas, que muitas vezes desviam do foco da doutrina de Allan Kardec - "muitas vezes" é apelido, porque quase sempre isso acontece - para dar lições moralistas num tom bastante paternalista e simpático.

Sempre surgem os "cavaleiros da esperança" que lançam palavras bonitas e textos descontraídos, que servem de água com açúcar para os adeptos do "movimento espírita". Há vários deles nos "centros", com suas palestras "empolgantes", admite-se até menos maçantes que a verborragia espetacular de um Divaldo Franco. Mesmo assim, são, como no conjunto da obra, palestras de mistificação e pregações moralistas, não raro bastante severas.

Um texto que ilustra bem isso é o recente "A Teoria e a Prática", de Richard Simonetti, um dos festejados palestrantes do "movimento espírita". Diante dos desavisados "espíritas" brasileiros, o texto poderia soar uma "análise prática", da "vida simples do cotidiano", dos ensinamentos kardecianos, dentro de uma abordagem ao mesmo tempo simplória e superficial, não bastasse a visão deturpada da orientação igrejeira.

O texto mostra o casal, Custódio e Nora, que acolhem outros casais amigos que conheceram de atividades "espíritas", que conversam de maneira animada numa casa onde tem até crianças fazendo barulho com suas brincadeiras.

Custódio, sentado, sempre pedia para Nora lhe fazer um favor, servir refrigerantes, atender a campainha etc. Ficava "acomodado". Lembrando uma conversa com Osório (membro de um dos casais), que citava Agostinho (o filósofo Santo Agostinho, que se manifestou em mensagem aproveitada em O Livro dos Espíritos), Custódio refletiu sobre a "oportunidade de fazer algo pelo semelhante".

Custódio falava sobre esses atos, mas não praticava. Na conversa com os amigos, havia dito: "As pessoas têm uma visão distorcida da Caridade. Há quem a suponha uma contribuição mensal a obras assistenciais ou o atendimento de um necessitado que nos procura. Parece-me, todavia, que não se trata de um comportamento para determinadas situações e, sim, de uma atitude perante a vida. Onde estivermos, no lar, no local de trabalho, na rua, podemos exercitá-la, estimulando o bem onde estivermos".

A lição do texto de Richard Simonetti - figura bastante prestigiada na FEB, há muito tempo - , o sentido da "caridade" está em "cumprir o dever" e aproveitar, em tese, todo momento para ajudar as pessoas e trazer algum benefício a elas. Tudo muito bem intencionado, mas cabe algumas reservas.

Em primeiro lugar, os próprios "espíritas" se comportam como Custódio e mesmo os palestrantes fazem isso. Diante de uma religião moralista e ultraconservadora que é o "espiritismo", em que a "caridade" prioriza ajudas "seletivas" aos algozes, arrivistas e miseráveis extremos, o "sentido amplo" da caridade se esvazia diante do sistema de desigualdades sociais.

No moralismo "espírita" que influi, energeticamente, nas situações surreais vividas por pessoas necessitadas que recorrem a essa seita, o "convite da caridade" se limita ao consentimento dos abusos dos algozes, ao convívio tendencioso com os arrivistas e ao assistencialismo paternalista aos miseráveis apenas para evitar os efeitos extremos das desigualdades sociais, mais para prevenir o ônus social das elites do que para resolver os graves casos de pobreza extrema.

A "ampliação" do sentido da "caridade" apenas ao ato de "servir", dado assim de forma vaga e simplória, não resolve e não traz respostas aos problemas vividos pela natureza humana. O "serviço", como expressão de bom-mocismo, pode ser feito sem que injustiças sociais fossem desafiadas e sem que o jogo de interesses marcado pelas conveniências fosse posto em xeque.

Um exemplo. Um rapaz quer namorar uma mulher considerada não só atraente, mas culta, discreta e muito inteligente. Mas ele atrai apenas aquelas moças "vulgares" que só ostentam os corpos e ouvem músicas de gosto duvidoso. Que "caridade" pode consistir no rapaz aceitar namorar uma dessas moças grotescas pela razão simplória de "fazer o bem" ensinando coisas boas e valores relevantes, se comportando mais como um professor de bons modos do que um namorado?

Além disso, essas moças "vulgares" quase nunca estão receptivas para aderir aos valores ensinados pelo rapaz. E, mesmo que se convençam de tal adesão, não é algo natural, mas algo forçado pelas circunstâncias, motivado pelas conveniências e estimulado pelo tendenciosismo. A "caridade" se torna inútil, porque torna-se apenas fachada para sustentar o jogo de interesses, porque tais moças querem ter rapazes discretos como namorados apenas por arrivismo e fetiche sexual.

Outro dado a considerar é a que ponto os próprios palestrantes "espíritas" podem pregar tais conceitos, quando eles mesmos os descumprem, sempre fazendo um belo espetáculo de palavras bonitas e atos de fachada ("caridade paliativa" feita mais para impressionar o público do que ajudar as pessoas), se iludindo que estão "servindo a humanidade" ao ostentar a perfeita coreografia de textos "comoventes".

O "espiritismo" deturpador tenta ser um primor de moralismo. O problema não está na lição de Santo Agostinho, ele que havia sido um padre católico que, vivendo na Idade Média, se empenhou em superar o obscurantismo medieval, atuando como cientista e intelectual, como um filósofo que iniciou o caminho longo para o Iluminismo.

O grande problema está na abordagem igrejeira dos "espíritas", que vão na contramão de correntes católicas avançadas - do exemplo pessoal de Agostinho à Teologia da Libertação - , caminhando para o obscurantismo e a Teologia do Sofrimento (claramente defendida, embora nunca assumida, por Chico Xavier).

É muito fácil dar, dar e dar, quando se aceita tudo, quando não se avalia o peso das circunstâncias e dos contextos. Fácil aceitar o sofrimento e dar o que não tem, ou servir ao abuso de outro com resignação e fé.

O recado de Richard Simonetti se esquece do fundamental: a vida não é só aceitação, existem também momentos de recusa, e as maiores renúncias não estão no ato, por si só, de recusar benefícios, mas de recusar as circunstâncias de sofrimento e expiação. O humilde não é aquele que diz "sim" o tempo inteiro, mas o que diz "não" no momento certo para dizê-lo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Espiritismo" é uma maldição?

O CANTO DA SEREIA "ESPÍRITA".

O "espiritismo" é uma maldição? O caso de seguidores do "movimento espírita", na maioria esmagadora das vezes, perder entes queridos por nada - e geralmente gente diferenciada, que tem muito o que fazer na vida - , além de outros que recorrem à religião sofrerem graves infortúnios, traz ao "espiritismo" uma aura maligna, constatação que ainda choca muita gente, que prefere se recusar a admitir esta hipótese.

Afinal, com seu balé de palavras bonitas e o simulacro de filantropia através da caridade paliativa - que mais encanta do que ajuda as pessoas e é uma "bondade" que não ameaça os privilégios abusivos das elites - , o "espiritismo" parece, aos olhos de muitos ingênuos, dotar de "energias sublimes e elevadas".

Sabe-se, no entanto, que o "espiritismo" não traz energias malignas por acaso, como se fosse uma fonte de mau agouro e perdição. Ele é fruto de uma gravíssima desonestidade doutrinária, que faz desta seita uma farsa, uma versão repaginada do Catolicismo medieval português disfarçada de Doutrina Espírita.

Tudo o que se vê nesse "espiritismo à brasileira" é igrejista: de elementos copiados escancaradamente da Igreja Católica, como água benta (que virou "água fluidificada", expressão risível por revelar redundância entre "água" e "fluído"), confessionário (que virou "auxílio fraterno") até conceitos moralistas que não conseguem mais esconder o vínculo com a sombria Teologia do Sofrimento, corrente das mais medievais do Catolicismo.

Diversas personalidades que sucumbem ao "canto de sereia espírita" - quando as "sereias" atendem pelo nome de Bezerra de Menezes, Chico Xavier e Divaldo Franco - acabam quase sempre perdendo seus filhos mais preciosos. Parece coincidência, mas acontece. Recentemente, meses após fazer uma parceria com a FEB para produzir uma HQ sobre "espiritismo", o desenhista Maurício de Souza perdeu um de seus mais destacados filhos, falecido com apenas 44 anos de idade.

A aparente resignação dos "espíritas" e o pretexto da "verdadeira vida" não são desculpas para ignorar esse aspecto maligno. A vida espiritual existe, mas usá-la como desculpa para se desperdiçar uma encarnação colecionando desgraças ou interrompendo projetos de vida nem de longe pode ser justificável. Projetos de vida brilhantes interrompidos pelo falecimento precoce nunca poderão ser refeitos na encarnação posterior da mesma maneira, se refazendo tudo do zero.

É uma trabalheira traçar planos, projetos e anseios em uma encarnação que já tem um prazo limitadíssimo de cerca de 80 anos. É uma grande hipocrisia os "espíritas" acharem natural desperdiçar uma encarnação, usando como desculpa a "eternidade da verdadeira vida" e a possibilidade de reencarnação, porque, quando a encarnação acaba, tudo fica perdido.

Sim, porque, mesmo quando há a chance de recomeçar uma atividade, as situações a serem enfrentadas serão totalmente diferentes. Alguém falece (desencarna), interrompendo seus planos de vida, e, quando reencarnar, terá outro nome, outra família, outras relações sociais, outras situações, outros desafios. O que foi feito com muita trabalheira na encarnação anterior terá que ser refeito a partir do nada, sendo mais uma nova trabalheira.

Os "espíritas" tentam nos fazer crer que a única diferença do reencarnado é apenas na redistribuição dos papéis dos seus conviventes, com a mamãe fazendo papel da professora de escola, o papai virando o amiguinho filho do vizinho, o vendedor de pães virando seu tio, a titia virando sua namorada, o vovô virando o coleguinha de futebol, até o cachorrinho da vizinha reencarnando como o gatinho da família.

Não é apenas isso que acontece. Há uma infinidade de situações estranhas, diferentes umas das outras. A única coisa possível, num prazo de 30 anos - tempo médio entre o falecimento e a fase da encarnação posterior de percepção plena de sua missão de vida - , é encontrar o mesmo tipo de refeição, e mesmo assim é praticamente difícil encontrar a mesma lanchonete, o mesmo restaurante, a mesma padaria exatamente no mesmo lugar.

Daí que o "espiritismo" tornou-se uma religião maligna, por ser desprovida de sinceridade e honestidade, pois diz seguir "rigorosamente" o legado de Allan Kardec e faz totalmente o contrário. É uma religião cujo diferencial negativo é cair em contradição o tempo inteiro, sua desonestidade doutrinária é algo que nenhum pretexto ou aparato de "bondade" consegue desmentir, apesar da aceitação bovina de seus seguidores por cada desculpa esfarrapada do "movimento espírita".

Só o fato das ideias trazidas por Chico Xavier e Divaldo Franco se chocarem com os ensinamentos de Allan Kardec, se revelando contrários ao pensamento do pedagogo francês, é suficiente para que nenhuma credibilidade se desse a esses "médiuns" que, se utilizando do verniz de "bondade", mal conseguem ocultar o "culto à personalidade" que desmoralizou e praticamente inviabilizou a atividade mediúnica no Brasil.

Se observarmos bem o texto original de O Livro dos Médiuns, quando muito pela tradução em português por José Herculano Pires, se saberá o quanto muitos dos alertas de Kardec ou de espíritos mensageiros como Erasto advertiam para os "inimigos internos do Espiritismo" cujas caraterísticas, de maneira surpreendente e, para muitos, chocante, se encaixam perfeitamente nos dois "médiuns" que espalharam a farsa igrejista como um câncer que se espalha pelo corpo inteiro.

Essas são coisas que o "canto da sereia espírita" impede que as pessoas, seduzidas pelo deslumbramento religioso, se recusam a admitir, como crianças birrentas que não aceitam que Papai Noel é personagem de ficção e que coelho não é ovíparo. Isso mostra o quanto a religião cria, nos adultos, teimosias muito mais perigosas e traiçoeiras do que as crianças, já que estas podem mudar de opinião depois de um bom diálogo. Os adultos têm mais dificuldades de assumir tal mudança.
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