quinta-feira, 6 de abril de 2017
A diferença entre a caridade que ajuda o próximo e a "caridade" que promove o "benfeitor"
Certo palestrante "espírita", simpatizante da Teologia do Sofrimento, é conhecido bajulador de figuras avançadas não só da Doutrina Espírita, como em outros movimentos religiosos ou mesmo fora da religião.
A atitude não é pessoal dele, mas ele tem responsabilidade de assumir tal postura através de outros exemplos nos meios "espíritas", em que vemos uma boa centena de palestrantes que não passam de malabaristas da palavra, bajuladores baratos de pessoas lúcidas e atuantes, mas praticantes de ideias e procedimentos obscurantistas e retrógrados.
É muito fácil, por exemplo, elogiar a "surpreendente atualidade" de Allan Kardec e depois partir para a exaltação do deturpador Francisco Cândido Xavier. Ou então destacar a "urgência" de Erasto nos seus alertas sobre a mentira, e depois mergulhar no mais obscurantista igrejismo jesuíta trazido por Emmanuel.
Os "espíritas" se contradizem o tempo todo e acham que é só botar a "caridade" no meio para serem considerados "equilibrados" e "lúcidos". Há aqui uma grande malandragem. Fulano diz uma coisa e faz outra, ou diz uma coisa e diz outra logo em seguida, e se esconde na desculpa da filantropia ou da fraternidade para se passar por "moderado" ou "equilibrado".
Não, a realidade não permite que liguemos ideias opostas com filantropia. Até porque a tão festejada caridade nos meios "espíritas" não passa de conversa para boi dormir, porque, se ela fosse realmente algo profundo e verdadeiro, o Brasil não teria caído na situação decadente de desordem generalizada que atinge até o Poder Judiciário e os mais nobres cenários da grande mídia.
De repente o "espírita" foi exaltar a ativista social Zilda Arns, falecida ao ser soterrada junto a uma multidão pelo desabamento de um prédio durante o terremoto no Haiti, em 2010. Ela foi irmã do sacerdote católico Dom Paulo Evaristo Arns, uma figura progressista que se opôs energicamente à ditadura militar. Os irmãos se consagraram por uma trajetória realmente progressista e humanista e ultrapassaram os limites ideológicos do Catolicismo para defender os direitos humanos.
Aparentemente bem intencionado, o "espírita", perdido ao recolher para seus relatos iniciativas em que aparece palavras como "caridade" e "solidariedade", se esquece que, enquanto Dom Paulo Arns participou de um levantamento de informações sobre vítimas de tortura do regime militar, o "mestre" dos "espíritas", Chico Xavier, aparecia num programa de TV, na mesma época de repressão intensa, para dizer que os generais e torturadores estavam construindo um "reino de amor" para o futuro.
Sim, o endeusado Chico Xavier, "símbolo máximo de amor e humildade", defendia que oremos pelos generais, e esculhambava operários e camponeses como se fosse um golpista ainda nos tempos de João Goulart. Não nos esqueçamos que Chico e a FEB apoiaram, com gosto, a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março de 1964, que foi um evento supostamente ecumênico que pediu a instalação de uma ditadura no Brasil.
ALHOS COM BUGALHOS
Temos que tomar muito cuidado com a retórica da fraternidade, da caridade, do amor. Há muitas armadilhas por trás de palavras com sabor de mel. A mistura de alhos com bugalhos, quando se fala em ativismo social e generosidade humana, é capaz de juntar num mesmo balaio pessoas realmente humanistas com outras que apenas usaram a "caridade" como meio de promoção pessoal.
Há livros que juntam figuras humanistas como o pastor evangélico Martin Luther King e o cineasta e ator inglês Charles Chaplin e figuras de valor duvidoso como Madre Teresa de Calcutá, denunciada nas últimas décadas por ter deixado em condições desumanas aqueles que ela dizia acolher como "filhos".
Junta-se aqueles que mostram uma lição subliminar de caridade, como a arte humanista de Chaplin e sua poesia cômica do vagabundo Charlie - conhecido aqui como Carlitos - , e a tendenciosa "caridade" de Madre Teresa, que viajava com ditadores e magnatas corruptos para receber fortunas e desviar tudo para os cofres do Vaticano, enriquecendo sacerdotes e piorando a vida dos humildes.
Para piorar, quando os "filhos" de Madre Teresa morriam, ela ainda ficava feliz, dizendo que eram "novos anjos no seio do Senhor". Gente tratada de forma desumana, expostas doentes umas diante das outras em colchões desconfortáveis, remediados apenas com aspirina ou paracetamol e recebendo injeções de seringas sujas, lavadas com água de torneira (que não é lá aquela higiene, sobretudo num país como a Índia).
A caridade que realmente ajuda o próximo, ainda que de forma inusitada, não pode ser confundida com a "caridade" em que se nota a assinatura do "benfeitor" ofuscando até mesmo os fraquíssimos resultados alcançados.
Foi uma grande gafe o Fantástico de 2015 com Divaldo Franco tratá-lo como se fosse o "maior filantropo do país" ajudando apenas cerca de 160 mil pessoas. Isso corresponde, mediante um cálculo combinando os anos de existência da Mansão do Caminho (63, na época) com dados populacionais, e chegou-se a uma média anual inferior a 1%. E isso apenas considerando apenas a população de Salvador.
Isso foi uma gafe porque se comemorou demais com pouco. Embora os defensores de Divaldo Franco viessem com mil desculpas e argumentos, o que se está em jogo não é outra coisa senão o prestígio e a promoção pessoal do anti-médium baiano, algo mais típico de fanatismo religioso do que de uma suposta admiração a alguém tido como ativista e filantropo.
Tal postura é grave, porque são justamente as paixões religiosas que corrompem tais percepções. E, no "espiritismo", o que se nota é uma postura hipócrita das pessoas, que elogiam a "caridade" do dito "médium", nem tanto pelos beneficiados, que elas pouco importam serem muitos, poucos ou nenhuns, mas pela figura do próprio "benfeitor", que está acima dos próprios benefícios ou prejuízos.
Isso é como endeusar um ídolo religioso que se acha "acima do bem e do mal". E o "espiritismo" cada vez mais se corrompe, com "médiuns" dotados de culto à personalidade e alçados ao olimpo da idolatria religiosa mais fanática, tomada de emotividade cega apenas dissimulada por arremedos de razão. Daí que no Brasil muitos tentam usar desculpas "racionais" para ideias irracionais. A emoção é muito pior quando tenta usar a razão para sustentar ideias duvidosas.
terça-feira, 4 de abril de 2017
As encrencas das elites que "fazem o que querem"
Vivemos uma grave crise envolvendo aqueles que estão associados a um tipo de prestígio social. Aqueles que detém o privilégio da fama, do dinheiro, da toga, do poder político e empresarial, do carisma interno nas redes sociais e até mesmo do prestígio religioso ou do porte de armas, sofrem todo tipo de decadência, de maneira avassaladora, ainda que tivessem ainda a ilusão de contornar os piores escândalos.
Ninguém está acima da lei e, na natureza dos privilégios, ninguém está acima da humanidade. As pessoas que fazem o que querem, como uma parcela das elites endinheiradas que, depois de pedir a saída de uma governante que não os agradava, a presidenta Dilma Rousseff, e agora torcem por projetos de depreciação dos serviços públicos e do mercado de trabalho, não sabem as armadilhas em que estão se metendo.
Recentemente, uma delação de um ex-executivo da Odebrecht citou que o senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB e candidato derrotado à Presidência da República em 2014, teria recebido propina e transferido o dinheiro para a conta de sua irmã, Andrea Neves. Assustados com o fim da impunidade se aproximando, Aécio e a irmã postaram vídeos apelando para o vitimismo.
Outro exemplo é a boataria da "carne podre", da Operação Carne Fraca, que revelou o desejo de promoção pessoal de membros da Polícia Federal, como a Operação Lava Jato o faz, não só com a PF, mas também com o Judiciário e o Ministério Público e, da mesma forma, ambos os casos também revelam a própria promoção do poder midiático, sempre em busca de um sensacionalismo político desse porte, principalmente se servir para depreciar o Partido dos Trabalhadores (PT).
O status quo está desmoronando e as elites estão se preocupando. Até mesmo, num contexto mais simplório, os cyberbullies das redes sociais estão apavorados diante da péssima repercussão de seus comentários preconceituosos e de páginas ofensivas que atingem desafetos pessoais. Correm contra o tempo para apagar postagens escritas sob seus impulsos, o que em muitos casos é tarde demais, com seus conteúdos reproduzidos até nos arquivos da Polícia Federal.
Se até Divaldo Franco cometeu deslize fazendo um julgamento de valor contra os refugiados do Oriente Médio, um preconceito partido de gente dotada do privilégio do prestígio religioso, uma vantagem elitista como tantas outras, pela presunção do "contato direto com Deus", então se observa a crise que se nota quando os privilegiados tentaram reassumir o poder.
A realização forçada de seus anseios, como a aprovação do duvidoso Alexandre de Moraes para ministro do Supremo Tribunal Federal, e a instituição dos cortes de gastos públicos, fazendo a festa da iniciativa privada, que, a pretexto de socorrer a Educação e Saúde públicas, investem na privatização e na transferência de custo à população, a pagar mensalidades caras e custear até as festas de gala de médicos e professores particulares, também é um símbolo dessa decadência.
Muita gente não entende, outras pessoas ignoram e outras tentam desmentir, mas o que se nota é o desgaste de um paradigma de privilégios, vantagens e prestígios que só fizeram sentido há 40 anos atrás, mas hoje decaem de maneira irrecuperável, embora haja todo tipo de tentativa para os decadentes do topo da pirâmide passarem por cima, nem que seja rasgando a Constituição ou cometendo assassinato de reputação.
Se até feminicidas conjugais, que um dia se regojizavam de ter tirado a vida de suas mulheres, por causa da "defesa de honra", passam a ter medo da morte quando eles são os "contemplados", a ponto de apelar para a mídia não noticiar seus óbitos, se por ventura ocorrerem, esse quadro também ilustra o incêndio que está devastando o topo da pirâmide, num dos âmbitos mais extremos, que é o de alguém, por seu privilégio, se achar no direito de tirar a vida até de seu cônjuge.
A desordem política também está ocorrendo, não poupando os "caciques" do PSDB nem emergentes políticos como Jair Bolsonaro, cada vez mais vítimas de escândalos e sofrendo o profundo desgaste público com esses incidentes. A situação está tão grave que "não-políticos" como o empresário João Dória Jr., prefeito de São Paulo, se tornam uma das apostas para as eleições presidenciais de 2018.
A crise no topo da pirâmide está começando e, por enquanto, vários setores que cometem abusos contra a humanidade ainda alimentam a ilusão de passarem por cima e voltarem ilesos de qualquer escândalo. Acham justo "fazerem o que querem", de sites caluniosos a esquemas de propinas, e nunca serem punidos com isso.
Todavia, o "furacão" também está a caminho deles, o que fará com que a sociedade brasileira terá que redesenhar, do zero, toda uma estrutura de beneficiados, recriando uma sociedade de privilegiados que não se relacione a abusos nem erros graves. Isso causará dor, pois fará nas classes médias uma total reinvenção de percepções e uma mudança nos exemplos humanos a serem seguidos.
A resistência das velhas estruturas sociais se dá em diversos aspectos, seja pelo reacionarismo nas redes sociais, seja nas orações desesperadas pelos velhos totens religiosos, seja pela impunidade social que reforça a impunidade jurídica dos culpados por crimes graves, se dá por uma ampla mobilização daqueles que querem forçar os retrocessos sociais, na busca paranoica dos tempos em que elas viviam tranquilas na estabilidade forçada do conservadorismo social.
Dos "coxinhas" pedindo intervenção militar aos "espíritas" cada vez mais adeptos da medieval Teologia do Sofrimento, passando pelas pressões do empresariado para impor a terceirização total que precariza a vida dos trabalhadores, a velha sociedade tenta um único recurso para fazer o Brasil voltar para trás o mais amplamente possível, para recuperar os padrões obsoletos do período colonial.
Essas mudanças causarão impacto sério, mas a sociedade terá que rever conceitos, totens, ídolos, valores diversos. Um velho Brasil ainda resiste, desesperado, ao seu desgaste, enquanto tem a seu dispor as últimas condições que lhes permitem superar encrencas e escândalos. Mas, na medida em que há maior esclarecimento entre as pessoas, nem o prestígio religioso permanece de pé, diante dos abusos dos detentores do "poder da fé". O Brasil tem que renascer do zero.
domingo, 2 de abril de 2017
Terceirização prejudicará o Brasil
O Brasil está caminhando para trás, porque há uma sociedade que está apegada a velhas zonas de conforto e precisa recuar para tempos mais antigos em que as desigualdades protegiam as elites nos seus privilégios e comodidades.
A onda ultraconservadora, propagada por uma mídia cada vez mais retrógrada - é notória, por exemplo, a decadência das emissoras de TV aberta e, em parte, das de TV paga - , faz com que o país viva essa marcha-a-ré ladeira abaixo nos valores sociais em diversos aspectos.
Em muitos casos, as perspectivas são de restaurar valores anteriores à vinda da família real portuguesa ao Brasil. Aceita-se como mudança apenas as questões materiais, como as áreas urbanas e a tecnologia, mas na essência, há uma preocupação em voltar o mais rápido possível para os limites sociais do período colonial.
A terceirização do mercado de trabalho, aprovada há poucos dias pelo Congresso Nacional - cada vez mais identificado com os interesses das elites e, portanto, são indiferentes às classes populares - , é um claro exemplo, uma medida chantagista das elites que tomaram o poder em maio de 2016 que coloca os trabalhadores como reféns de seus interesses privados.
A medida da terceirização para atividades-fim - antes ela só era restrita a atividades-meio, prestações de serviço externas à especialidade de cada empresa ou instituição - , que afetará praticamente todo o mercado de trabalho, irá fazer o emprego cair de forma devastadora e humilhante.
Com a terceirização, os salários tendem a ser desvalorizados, os trabalhadores perderão encargos e garantias sociais, não haverá sequer assistência à saúde, pois eles terão que recorrer à saúde privada ou a um sucateado SUS (Sistema Único de Saúde), no caso de sofrerem acidentes de trabalho.
Completando o drama, as reformas trabalhista e previdenciária preveem, entre outras coisas, o aumento da jornada de trabalho e o adiamento da aposentadoria para o fim da vida. Somando todos esses dramas, o que se verá é um quadro social estarrecedor.
HOLOCAUSTO
Só podemos definir esses projetos trabalhistas defendidos por Michel Temer e seus aliados com uma palavra: HOLOCAUSTO. Afinal, esses projetos políticos, adotados sob a desculpa do combate à recessão, tendem na verdade tornar a vida dos trabalhadores mais desgastante e miserável.
Com menos salários, menos chance de uma boa alimentação e qualidade de vida. Com menos encargos, a situação se complica. Com maior carga horária, mais cansaço e desânimo e menos capacidade de reciclagem psicológica nos momentos de ócio.
Além disso, com o trabalho precarizado, haverá mais acidentes e grande potencial de mortes prematuras. Apesar das alegações divulgadas pela grande imprensa de que a terceirização aumentará o emprego, a verdade é que ela aumentará, sim, o desemprego e a instabilidade no mercado de trabalho.
Isso tudo causará desgastes, tragédias, tensões, e os conflitos entre trabalhadores e patrões, e entre colegas de trabalho em disputa pela promoção no trabalho, se tornarão mais graves. Além disso, a precarização dos salários e a carga horária extenuante afastarão muitos consumidores do comércio, pois eles não terão tempo nem disposição para se deslocarem para comprar os produtos.
Diante do que vemos nas classes populares, a tragédia aumentará e isso será ótimo para as elites, porque a terceirização é um sutil processo de higienização social das classes mais pobres. Ela complementa outro higienismo, de maneira cultural, que é o entretenimento popularesco que obrigava os pobres a se contentarem com a pobreza e difundia valores degradados através da vulgarização do sexo e da breguice musical.
O entretenimento "popular" forçava mulheres famosas ligadas ao erotismo grotesco a serem "solteiras", num celibato profissional que servia para estimular o ódio entre homens e mulheres nas classes populares, prato cheio para ações violentas. Além disso, com a sexualidade escancarada dos ritmos popularescos, como "funk" e "sertanejo", os pobres, sem o respaldo educacional necessário, sucumbiam a doenças venéreas e à violência sexual, além da autodestruição pelo álcool.
E O "ESPIRITISMO" NESSA?
O grande problema é que o "espiritismo", que ultimamente anda publicando textos forçando as pessoas a aceitar o sofrimento, pouco está aí para esse cenário. Os palestrantes "espíritas" até tentam argumentar que vivemos "um ótimo momento" e eles já definiram as passeatas dos "coxinhas", movidas pelo rancor reacionário, como "momentos de emancipação política e regeneração espiritual da humanidade".
A terceirização, então, é "ótima", porque na visão dessa doutrina catolicizada que só exalta Kardec da boca para fora, observa-se que os "espíritas" só estão preocupados com a vida "qualquer nota", tratando a vida material como se fosse um serviço militar, na qual as pessoas têm que suportar os piores sacrifícios e as piores desgraças para obter a "graça de Deus".
Os apelos que os "espíritas", cada vez mais voltados à Teologia do Sofrimento, que havia sido defendida por Chico Xavier, ele mesmo um católico extremado, são apenas para os trabalhadores "terem calma e trabalharem". Sintonizados com o governo Michel Temer, os "espíritas", bem antes dele, diziam: "não reclame da crise: trabalhe".
É como se eles corroborassem os apelos dos senhores de engenho aos escravos: "não reclame da vida, trabalhe e só", pouco importando se o trabalho é sobrecarregado, dificílimo, esgota as forças, causa dor etc. Para o "movimento espírita" e seus premiados palestrantes, "quanto pior, melhor". Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
sexta-feira, 31 de março de 2017
A crueldade de julgar severamente os refugiados do Oriente Médio
O juízo de valor, da mais extrema gravidade, dado "inocentemente" por um doce Divaldo Franco durante uma entrevista no XXIII Congreso "Espírita" Nacional na Espanha, é uma atitude deplorável, se levarmos em conta que o prestígio religioso, ao fazer com que seus detentores falem o que querem, levados por suas crenças, acabam cometendo erros preocupantes.
Divaldo Franco, se valendo das caraterísticas do "espiritismo" deturpado que temos, do qual ele é um dos artífices - dissolvendo igrejismo roustanguista num suposto "kardecismo autêntico" - , foi julgar os pobres refugiados dos países em guerra no Oriente Médio, que nem sempre conseguem se mudar para a Europa, de terem sido "tiranos europeus" em encarnações passadas e longínquas. Vejamos o depoimento do anti-médium baiano:
"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os silvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu. Mas, também me recordo dos grandes problemas que estão a acontecer no antigo Levante, graças às tropas muçulmanas. “O Homem é o lobo do Homem” e, verificamos que estamos a transformar este lobo em cordeiro. Como sou otimista, acredito que em breve, o lobo e o cordeiro beberão no mesmo regato, em fraternidade. Já vemos muitas dessas uniões, através da educação que é proporcionada, e nós vemos isso na Internet, diariamente. Porque não, na realidade, amanhã?".
Isso é de extrema gravidade. Allan Kardec ficaria totalmente envergonhado. Jesus de Nazaré, completamente indignado. O espírito Erasto também confirmaria os alertas sobre os deturpadores do Espiritismo.
É uma declaração do tipo morde-e-assopra. Primeiro, Divaldo, seguro de sua "sabedoria", diz na cara dura que os pobres refugiados dos países em conflito "são os antigos colonizadores que deixaram a América Latina na miséria". De maneira generalizada, expõe a duvidosa tese dos "resgates coletivos", do "gado expiatório" que, só por compartilhar uma mesma situação e um mesmo infortúnio, são tidos como "portadores de um destino comum".
Em seguida, Divaldo faz um comentário bastante prolixo sobre a ideia de que o "homem é o lobo do homem", que mais confunde do que esclarece, falando sobre "transformar o lobo em cordeiro" não se sabe em que sentido Dito da forma como se deu, Divaldo, mais preocupado em pregar a "fraternidade" sob um contexto igrejista e moralista, não nos disse se os lobos virarão cordeiros ou os cordeiros virarão lobos ou talvez lobos e cordeiros se uniriam na "educação" sociopata da Internet.
Divaldo cita a "aculturação dos silvícolas" que destruiu "culturas veneráveis" e ignora que um dos que fizeram isso com gosto foi o padre Manuel da Nóbrega, que voltou através de Francisco Cândido Xavier, de quem o baiano é discípulo, sob o nome de Emmanuel. E quem imagina que Emmanuel - um servo de colonizadores que, pelo jeito, "voltou" de maneira "mais feliz" que os coitados dos refugiados - se arrependeu de seus métodos, está redondamente enganado.
O método de deturpação da Doutrina Espírita se assemelha muito com a catequização dos jesuítas sobre os índios. Fingia-se a assimilação das culturas do "outro", e as "devolvia" descaraterizadas pelos dogmas católicos medievais. O próprio Divaldo contribuiu com gosto com essa "aculturação" que desfigurou o legado kardeciano com dogmas do mesmíssimo Catolicismo jesuíta.
Além disso, quando houve a crise da fase abertamente roustanguista do "movimento espírita", quando Luciano dos Anjos denunciou que Divaldo Franco havia plagiado obras de Chico Xavier, os "espíritas" sofreram um racha, isolando a alta cúpula da FEB e criando uma falsa aliança entre "místicos" regionalistas (Chico e Divaldo) e "científicos" (como Herculano Pires) que deu origem à "fase dúbia", houve uma grande manobra.
Forjando "mensagens espirituais" de Bezerra de Menezes, os "místicos regionalistas" se dirigiram à alta cúpula dac FEB mostrando um suposto espírito de um de seus fundadores se dizendo "arrependido" do roustanguismo. e, pretensamente identificado com as bases espíritas originais, pedia aos "espíritas" para "kardequizar", uma clara corruptela do termo "catequizar", um trocadilho que diz muito em si.
OS REFUGIADOS
Ignoram os "espíritas" a agonia dos refugiados dos países em conflito, como Iraque, Líbano e Síria. São pessoas que não podem viver nesses lugares. Elas têm o risco de serem atingidas por bombas dentro de casa, ou serem vítimas de atentados durante uma inocente saída de casa.
Ainda em seu juízo de valor, Divaldo Franco ainda fala dos refugiados como "aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu", como se dissesse que os refugiados "estão pagando pelo que merecem", um punhal disfarçado em tão dóceis palavras.
Exemplos similares deste juízo de valor já renderam processos judiciais. O médico paulista Woyne Figner Sacchetin, acusando as vítimas do acidente com um avião da TAM (atual LATAM) de terem sido romanos sanguinários, rendeu um processo por danos morais. Uma médica de Rondonópolis, Mato Grosso, também foi processada por recusar-se a atender uma criança vítima de estupro alegando que ela "pagava reajustes morais".
Mas o mais deplorável foi o caso de Chico Xavier, que acusou as vítimas da tragédia de um circo em Niterói pelo mesmo motivo apresentado por Woyne, décadas depois. Afinal, Chico, tido como "símbolo da humildade plena", acusou pessoas humildes de terem sido romanos sanguinários, cometendo uma atrocidade moral, pois as vítimas não tinham dinheiro para processar o "médium" e, por sua inocência, nem tinham noção de como foram ofendidas pelo "bondoso homem".
No caso dos refugiados, esquecemos da alegria que muitos homens têm em alcançar o solo europeu. Quantos sírios, libaneses, egípcios, nigerianos, gente de cor, feliz apenas em arrumar um trabalho, por mais modesto que seja, uns solitários, outros com famílias, apenas para se livrar de áreas tomadas pela guerra.
Quão cruel é a visão de um "espírita" é acusar, na cara dura, pessoas assim de terem sido tiranos num passado remoto, e isso diante de uma doutrina brasileira mais preocupada com pregações igrejistas, como se fosse um Catolicismo à paisana, e não cumpre adequadamente qualquer preceito sobre mediunidade, vida espiritual e moral reencarnatória!
Proteger-se sob o manto confortável do prestígio religioso, acostumado a um clima de adoração subserviente de fiéis seguidores ou simpatizantes não é garantia de estar sempre com a verdade e a razão em suas mãos. Principalmente no caso de Divaldo Franco, que, como Chico Xavier, deturpou de propósito os ensinamentos de Kardec, afinal ninguém faz sem querer um erro transmitido em centenas de livros ou palestras.
Fica a nossa consideração com os refugiados dos países em guerra. Independente deles terem sido ou não tiranos europeus, é positivo que eles cheguem à Europa e reinventarem o continente, já abalado com a crise da União Europeia, diante do processo de oficialização da saída da Grã-Bretanha.
quarta-feira, 29 de março de 2017
O gravíssimo juízo de valor do pretenso sábio Divaldo Franco
Quão atrasado está o nosso Brasil quando se consideram como paradigmas de sabedoria engodos igrejistas, místicos e rebuscados, uma mistureba de ideias, umas boas, outras absurdas, que pretensos sábios servem para uma plateia deslumbrada que não se encoraja de contestá-los.
Um dos dois maiores deturpadores da Doutrina Espírita, o anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, chega a parecer verossímil em muitos momentos, mais dissimulado que Francisco Cândido Xavier. Pois Chico Xavier não teve a habilidade em usar o verniz de "kardeciano autêntico", envolto em uma trajetória cheia de confusões e marcada por um catolicismo escancarado.
Divaldo, mais esperto, adota um verniz intelectual, ainda que seu ar professoral remetesse aos padrões dos antigos professores da Educação hierarquizada e conservadora que era predominante no Brasil até os anos 1940. Sua verborragia e ainda apoiada por uma aparente filantropia, que mal conseguiu ajudar menos de 0,1% da população brasileira.
Em uma entrevista dada à mídia portuguesa, em dezembro de 2016, durante um congresso "espírita" na Espanha, ele deu aquele mesmo discurso de pretenso profeta, misturando igrejismo com pedantismo científico, e contrariando a natureza dos verdadeiros sábios que nem sempre vem com certezas prontas de bandeja em seu cardápio de ideias.
Embora ele tenha veiculado ideias agradáveis ligadas à "felicidade" e "fraternidade", Divaldo Franco lançou ideias estranhas aos postulados kardecianos, como a atribuição de "resgates coletivos" que transformam multidões em "gado expiatório". Além disso, Divaldo disparou um gravíssimo juízo de valor contra os pobres cidadãos que saem de países africanos ou do Oriente Médio em geral para tentarem a sorte na Europa. Vejamos:
"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".
Como deturpador da Doutrina Espírita, é duvidoso que Divaldo Franco fique falando com absoluta certeza das vidas anteriores dos infortunados que morrem a caminho da Europa, fugindo de países em guerra, como a Síria, a Nigéria, Iraque, Jordânia e Líbano. De maneira generalizada e investindo apenas no sofrimento das vítimas, Divaldo se preocupou mais na alegação de uma vida passada do que das raízes e do mérito da fuga de países em sangrentos conflitos.
O juízo de valor é uma constante nos ídolos "espíritas" e já fez uma médica adepta da doutrina igrejista recusar atendimento a uma menina vítima de estupro. A ideia da culpabilidade da vítima, própria do moralismo "espírita", não deve ser confundida com constatações como a de que o Brasil virou um "balneário" de espíritos atrasados reencarnados, porque aqui se refere ao âmbito das ideias e não do julgamento dos castigos sofridos.
Divaldo Franco, além disso, comete o equívoco em defender o mito de "resgates coletivos", uma ideia sem a menor coerência, mas que faz os "espíritas" atribuírem um mesmo destino a pessoas, estranhas entre si, que estão num mesmo local e sofrem alguma tragédia.
Esse é o grande perigo. Divaldo Franco é "sábio" num Brasil marcado pela ignorância e que, mal conseguindo sair de seus atrasos, está condenado a sofrer retrocessos ainda piores do que os da ditadura militar.
Antes que os seguidores de Divaldo Franco, ou mesmo os críticos da deturpação da Doutrina Espírita que tem medo de contestar este deturpador, reclamem deste texto, apresentamos trechos das obras de Allan Kardec que se referem aos pseudo-sábios, cujas caraterísticas, para desespero dos divaldistas e simpatizantes, se encaixam perfeitamente nos equívocos cometidos pelo anti-médium baiano.
Os textos abaixo apresentados são de traduções de José Herculano Pires, fiéis ao texto original, que, diante do escândalo das acusações de que Divaldo Franco, em seus primeiros livros, teria plagiado o (também plagiador) Chico Xavier, havia chamado o anti-médium baiano de "impostor". Vejamos então os trechos de duas obras kardecianas:
Do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo:
Capítulo 02 - Autoridade da Doutrina Espírita, Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos:
"Sabe-se que os Espíritos, em conseqüência das suas diferenças de capacidade, estão longe de possuir individualmente toda a verdade; que não é dado a todos penetrar certos mistérios; que o seu saber é proporcional à sua depuração; que os Espíritos vulgares não sabem mais do que os homens; que há, entre eles, como entre estes, presunçosos e falsos sábios, que crêem saber aquilo que não sabem; sistemáticos, que tomam suas próprias idéias pela verdade; enfim, que os Espíritos da ordem mais elevada, que são completamente desmaterializados, são os únicos libertos das idéias e das preocupações terrenas. Mas sabe-se também que os Espíritos embusteiros não têm escrúpulos para esconder-se atrás de nomes emprestados, a fim de fazerem aceitar suas utopias. Disso resulta que, para tudo o que está fora do ensino exclusivamente moral, as revelações que alguém possa obter são de caráter individual, sem autenticidade, e devem ser consideradas como opiniões pessoais deste ou daquele Espírito, sendo imprudência aceitá-las e propagá-las levianamente como verdades absolutas".
OBS.: O texto em questão simplesmente desqualifica aberrações como "Divaldo Responde", já que o verdadeiro sábio não tem essa pretensão de poder responder tudo.
"Toda teoria em contradição manifesta com o bom-senso, com uma lógica rigorosa, e com os dados positivos que possuímos, por mais respeitável que seja o nome que a assine, deve ser rejeitada".
OBS.: Ideias como "crianças-índigo", "resgates coletivos" ou a presunção em determinar datas determinadas para transformações na humanidade correspondem a conceitos que contrariam a lógica e o bom senso, pois a primeira ideia é discriminatória (crianças "fora do comum"), a segunda é absurda (pessoas sem relação entre si que compartilham uma situação comum não podem ter um mesmo destino), e a terceira impossível, porque a realidade é cheia de imprevistos.
Capítulo 07 - Bem-aventurados os pobres de espírito; Mistérios ocultos aos sábios e prudentes:
"Pode parecer estranho que Jesus renda graças a Deus por haver revelado essas coisas aos simples e pequeninos, que são os pobres de espírito, ocultando-as aos sábios e prudentes, mais aptos, aparentemente, a compreendê-las. É que precisamos entender pelos primeiros os humildes, os que se humilham diante de Deus e não se consideram superiores aos outros; e, pelos segundos, os orgulhosos, envaidecidos com o seu saber mundano, que se julgam prudentes, pois que eles negam a Deus, tratando-o de igual para igual, quando não o rejeitam. Isso porque, na antiguidade, sábio era sinônimo de sabichão. Assim, Deus lhes deixa a busca dos segredos da Terra, e revela os do Céu aos humildes, que se inclinam perante Ele".
OBS.: Nota-se que, apesar da postura aparentemente "humilde" de Divaldo Franco, ele demonstra ser um tipo extravagante, "ilustrado", que faz palestras para os ricos e a estes faz lisonja e não cobranças de caridade, até presumindo no discurso que os ricos "já praticam caridade". O ar verborrágico, as pretensas profecias e as fantasias místicas que Divaldo lança o fazem uma atualização dos ditos "sábios e prudentes" que eram duramente criticados por Jesus em seu tempo.
O Livro dos Médiuns:
Capítulo 24 - Identidade dos Espíritos:
Alguns conselhos sobre a qualidade dos espíritos trazidos pela mensagem do espírito São Luís, que mostram os defeitos observados nas atividades e ideias de Divaldo Franco. Entenda aqui "maus espíritos" aqueles que, embora não cometam atrocidades e pareçam bons e simpáticos, são inclinados a cometer leviandades:
"7º) Os Espíritos bons só dizem o que sabem, calando-se ou confessando a sua ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com segurança, sem se importar coma verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom senso revela a fraude, se o Espírito se apresenta como esclarecido.
8º) Os Espíritos levianos são ainda reconhecidos pela facilidade com que predizem o futuro e se referem com precisão a fatos materiais que não podemos conhecer. Os Espíritos bons podem fazer-nos pressentir as coisas futuras, quando esse conhecimento for útil, mas jamais precisam as datas. Todo anúncio de acontecimento para uma época certa é indício de mistificação".
Este trecho se refere justamente à verborragia e à linguagem pretensamente erudita de Divaldo Franco, sobretudo em palestras, depoimentos e entrevistas, em que se observa a oratória empolada, enfeitada mas cheia de pretensões e ideias místicas e igrejeiras:
"9º) Os Espíritos superiores se exprimem de maneira simples, sem prolixidade. Seu estilo é conciso, sem excluir a poesia das idéias e das expressões, claro, inteligível a todos, não exigindo esforço para a compreensão. Eles possuem a arte de dizer muito em poucas palavras, porque cada palavra tem o seu justo emprego. Os Espíritos inferiores ou pseudo-sábios escondem sob frases empoladas o vazio das idéias. Sua linguagem é freqüentemente pretensiosa, ridícula ou ainda obscura, a pretexto de parecer profunda".
O trecho abaixo se refere à "mentora" de Divaldo Franco, Joana de Angelis, provavelmente o espírito Máscara de Ferro se convertendo de obsessor a mensageiro igrejista, se valendo do uso de um nome ilustre de outrem, no caso a sóror Joana Angélica, para obter prestígio. Observa-se que, diferentemente de Joana Angélica, "Joana de Angelis" foi marcada pelo jeito autoritário e pela intolerância em relação à tristeza prolongada das pessoas. Vejamos:
"10°) Os Espíritos bons jamais dão ordens: não querem impor-se, apenas aconselham e se não forem ouvidos se retiram. Os maus são autoritários, dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam facilmente. Todo Espírito que se impõe trai a sua condição.
São exclusivistas e absolutos nas suas opiniões e pretendem possuir o privilégio da verdade. Exigem a crença cega e nunca apelam para a razão, pois sabem que a razão lhes tiraria a máscara".
Neste caso, ela corresponde a uma atitude que Divaldo faz com maior sutileza, mas, mesmo assim, não é difícil de ser identificada, sobretudo em palestras em eventos internacionais e para gente rica, onde a lisonja e a pompa são exercidas, não raro com entusiasmo, e sob o aparato da humildade:
"11º) Os Espíritos bons não fazem lisonjas. Aprovam o bem que se faz, mas sempre de maneira prudente. Os maus exageram nos elogios, excitam o orgulho e a vaidade, embora pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles que desejam conquistar".
Capítulo 23 - Da Obsessão:
Embora pareça uma contradição com o que se citou acima sobre "maus espíritos", devemos entender, para nossa análise, a distinção de essência e forma, pois "maus espíritos", no sentido de que causam algum prejuízo com suas ideias mistificadoras, podem não serem maus na forma, parecendo bons, gentis e simpáticos. Mesmo assim, podem atuar esbanjando pretensa sabedoria, trazendo ideias que contrariam a lógica e o bom senso.
Entende-se aqui a descrição do caso do espírito se comunicando com um médium, mas ele pode também ser entendido na relação entre um suposto médium e seu público, conforme o processo de emissão-recepção da teoria da Comunicação:
"246. Há Espíritos obsessores sem maldade, que são até mesmo bons, mas dominados pelo orgulho do falso saber: têm suas idéias, seus sistemas sobre as Ciências, a Economia Social, a Moral, a Religião, a Filosofia. Querem impor a sua opinião e para isso procuram médiuns suficientemente crédulos para aceitá-las de olhos fechados, fascinando-os para impedir qualquer discernimento do verdadeiro e do falso. São os mais perigosos porque não vacilam em sofismar e podem impor as mais ridículas utopias. Conhecendo o prestígio dos nomes famosos não têm escrúpulo em enfeitar-se com eles e nem mesmo recuam ante o sacrilégio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria ou um santo venerado".
segunda-feira, 27 de março de 2017
Eduardo Cunha viveu dias de Humberto de Campos
Eduardo Cunha, o ex-deputado, está vivo. E muito vivo, e bem disposto. Disposto a denunciar seus antigos aliados no governo que ajudou a instalar, o do presidente Michel Temer, se caso o ex-presidente da Câmara dos Deputados não for beneficiado por alguma liberdade condicional.
Mas Eduardo Cunha desempenha papéis de um "morto". Ele não exerce mais a vida política e até o cartaz que ele tinha quando comandou a sessão de abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016, foi reduzido a nada.
Político inexpressivo, ele foi eleito em 2014 para o cargo de deputado federal simbolizando uma onda conservadora que há tempos domina o Estado do Rio de Janeiro, unidade federativa brasileira marcada por um profundo processo de decadência, não apenas política, econômica e policial, mas também sócio-cultural envolvendo diversos aspectos.
Só para se ter uma ideia, é a região com maior número de cyberbullies no Brasil e cujo reacionarismo permitiu que fossem eleitos nomes como Jair Bolsonaro e o próprio Eduardo Cunha, e por isso a crise que atinge o Rio de Janeiro, Estado e capital, a colocam há um bom tempo em situação vergonhosa para o resto do Brasil, perdendo a reputação de vanguarda que antes cariocas e fluminenses expressavam para todo o país.
A outra experiência de "morto" de Eduardo Cunha, no entanto, é inusitada. Um livro chegou a ser lançado, meses depois da promessa do ex-deputado em lançar um livro fazendo denúncias sobre os bastidores do impeachment e do cenário político nacional.
Intitulado Diário da Cadeia, o livro foi editado pela Record e apresenta como crédito de autoria a expressão "Eduardo Cunha (Pseudônimo)". O ex-deputado Eduardo Cunha negou que tenha escrito a obra e acionou a Justiça do Rio de Janeiro para impedir a distribuição do livro pela Record, recolher exemplares que já foram enviados às livrarias e retirar qualquer referência a Eduardo Cunha na página da editora.
A editora retirou imediatamente as referências do site e tentou recurso para revogar a decisão. Na ação judicial, o peemedebista declarou não ser responsável pelo livro e considera a obra "gravíssima tentativa de ganho comercial a partir de sua reclusão". Cunha acrescenta que, sem a "identificação que possibilite o conhecimento da autoria", a obra "ofende o preceito da vedação ao anonimato".
A juíza Ledir Dias de Araújo também menciona a vedação ao anonimato e diz que o caso não é coberto pela proteção a pseudônimos. "A obra foi escrita como se tivesse sido pela pessoa do autor da ação, o que ele nega. Logo, não se pode ter a presente obra como lícita", conclui a magistrada, que pediu para a Record identificar e qualificar o autor. Por sua vez, o editor da Record, Carlos Andreazza, admitiu que o livro é uma obra de ficção.
O advogado de Eduardo Cunha, Ticiano Figueiredo Oliveira, diz que a decisão "é justa porque não fere o entendimento do Supremo (Tribunal Federal) em relação às biografias, mas deixa claro que o uso de pseudônimo para fraudar uma autobiografia deve ser coibido".
HUMBERTO DE CAMPOS
Evidentemente, a situação foi facilitada porque Eduardo Cunha está vivo, podendo pessoalmente mover uma ação contra um livro apócrifo. Além disso, evidentemente Diário da Cadeia não mostra "mensagens de amor" e nem usa como desculpa o "pão dos pobres", o que permite que a Justiça brasileira, ainda muito hesitante em relação a problemas religiosos, suspender a comercialização do livro.
Menos sorte teve Humberto de Campos, o eminente escritor maranhense que chegou a ser membro da Academia Brasileira de Letras, bastante popular em seu tempo, mas hoje condenado a um semi-esquecimento, até pelas circunstâncias que envolveram seu nome.
Humberto teve seu nome usurpado dois anos após seu falecimento. O primeiro livro, Palavras do Infinito, de 1936, parodiava o livro Memórias, que havia sido lançado em 1933, mas já apresentava as diferenças gritantes que uma simples leitura atenta consegue separar, sem dificuldade, a obra do Humberto que esteve entre nós daquela atribuída ao suposto espírito.
Entre essas diferenças, está o conteúdo por demais igrejista que destoa da temática laica do autor maranhense. Mas a própria forma de escrita também aponta diferenças, pois a escrita do suposto espírito é pesada, melancólica e cansativa de ser lida, enquanto a que Humberto deixou em vida era ágil, de leitura prazerosa e linguagem culta, mas bastante acessível.
A sorte é que o suposto médium Francisco Cândido Xavier, protegido do ambicioso Antônio Wantuil de Freitas, já havia se tornado uma figura pitoresca quando lançou uma suposta antologia poética de "autores do além". Uma obra intitulada Parnaso de Além-Túmulo, que foi remendada cinco vezes, pondo em xeque a tendência natural de "obra acabada da espiritualidade".
A atribuição de obra coletiva alimentava o sensacionalismo, principalmente pelo "FlaXFlu" ideológico que se deu ao omitir que o livro havia sido obra coletiva, sim, mas de Chico Xavier, Wantuil, editores e redatores da Federação "Espírita" Brasileira e consultores literários cariocas. Portanto, uma multidão terrena forjando uma obra que imitava autores do passado, já falecidos, mas bem longe de refletir os respectivos estilos pessoais, apontando falhas graves neste sentido.
O "FlaXFlu" se deu sob a atribuição de que Chico Xavier "fazia tudo sozinho". Isso garantia o sensacionalismo em qualquer das duas hipóteses: se a "psicografia" era uma fraude, Chico seria "muito sofisticado" para representar diversos estilos literários. Se fosse autêntica, Chico seria reconhecido como "amigo de literatos do além". Ponto para o sensacionalismo tramado pelo senso marqueteiro de Antônio Wantuil.
Com Humberto de Campos, o sensacionalismo foi só aumentado, diante de um nome literário de sucesso, mas com fama secundária. Não se escolheria Machado de Assis, porque seria ir longe demais e despertaria suspeitas. Mas a própria escolha de Humberto causou problemas e Chico Xavier teve apenas a sorte de ter uma Justiça seletiva, muito hesitante diante de ídolos religiosos.
Daí o caso gerou empate e Chico Xavier, que havia seduzido a mãe do falecido escritor, Ana de Campos Veras, não tardou também a usar de seus métodos de manipulação da mente humana para dominar o filho do mesmo nome do autor maranhense, convidando para a "emboscada do bem" que foi uma doutrinária e uma caravana em Uberaba, no Triângulo Mineiro, em que o "médium" explorou a fascinação obsessiva (condenada por Allan Kardec) ao abraçar o antes cético Humberto Filho.
Diante disso, Humberto de Campos, em sua obra deixada em vida, foi aos poucos condenado ao esquecimento, e rebaixado a uma "propriedade" de Chico Xavier. Os livros "espirituais" publicados sob seu nome destoam explicitamente do estilo pessoal do saudoso literato, facilitando reconhecimento de fraude. Mas as obras, pelo prestígio religioso do "médium", são publicadas impunemente até hoje. Humberto de Campos não está aí para reclamar.
sábado, 25 de março de 2017
Chico Xavier foi um engenhoso truque de marketing
WANTUIL DE FREITAS - O "CRIADOR" DE CHICO XAVIER.
Muitos se derretem diante do mito de Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier. Sem qualquer motivo lógico e objetivo, o mito dele é adorado pelos caprichos da emoção extrema vinculada às paixões religiosas, através de estereótipos de bondade, humildade e generosidade que as pessoas acolhem sem questionar.
Poucos sabem e menos ainda estão dispostos a admitir que o mito de Chico Xavier nunca passou de uma grande estratégia de marketing, primeiro montada minuciosamente pelo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para atrair dinheiro e público para a federação.
Essa constatação choca muitos e os leva às lágrimas soluçantes. "Não, não é isso, Chico, todo amor e bondade, truque publicitário?", dirá o menos raivoso dos chiquistas. "Preste atenção na obra dele antes de dar qualquer julgamento", diria um "espírita" ainda mais dedicado.
Sim, prestamos atenção na obra de Chico Xavier e chegamos a essa conclusão: é estratégia de marketing, sim. Um sujeito que começou como um beato católico envolvido em pastiches literários (que não eram feitos por ele sozinho, vale lembrar) para se transformar, em mais de meio século, em um quase-deus, só pode ser fruto de uma engenhosa estratégia de marketing.
É surpreendente que as pessoas que tanto adoram Chico Xavier não adorem também Antônio Wantuil de Freitas, seu "mentor" terreno. Foi Wantuil que transformou o "médium" num popstar da religiosidade, criando uma "pegadinha" que deu certo durante mais de sete décadas.
Se você prestar atenção em Chico Xavier, abrindo mão de paixões religiosas - mesmo aquelas que se disfarçam sob um verniz de objetividade e razão - e de tantas idealizações que fantasiam demais o anti-médium mineiro, se verá que ele nunca foi mais do que um católico ortodoxo e ultraconservador, cuja obra "mediúnica" é cheia de irregularidades e cuja "bondade" não trouxe efeitos concretos e amplos para a sociedade.
Foi Wantuil que fez o mito de Chico Xavier crescer, fazendo-o passar por cima de qualquer escândalo. Wantuil tinha um senso publicitário muito esperto, e ainda teria feito um recurso muito comum para arrivistas: recorreu à umbanda, fazendo "despachos" para limpar o caminho para a ascensão vertiginosa de uma causa, alcançando níveis nunca cogitáveis em situações normais.
Casos como os do DJ de "funk", o DJ Marlboro, e o empresário Mário Kertèsz também indicam que também fizeram "despacho" para se ascenderem acima até mesmo do que poderiam alcançar se se esforçarem para tanto. O direitista Kertèsz chegou a cooptar as esquerdas da Bahia para seu domínio e DJ Marlboro conseguiu se infiltrar em eventos de vanguarda, lembrando que o "funk" não é mais do que um ritmo dançante puramente comercial e de retaguarda.
Wantuil teria tido a ideia da antologia poética que uma grande equipe de editores da FEB e consultores literários bolou, sob a redação de Chico Xavier e do próprio Wantuil. Tornou-se conhecido como Parnaso de Além-Túmulo que, em que pese as semelhanças genéricas feitas à primeira vista com os estilos originais dos autores mortos alegados, nota-se em todos os poemas a expressão de linguagem e pensamento pessoais de Chico Xavier e, às vezes, de Wantuil.
O sensacionalismo da antologia poética era um gancho para faturar em cima de uma polêmica forjada, sendo que criar controvérsia é um ótimo marketing para atrair visibilidade. A confusão garante muito mais fama e prestígio do que a própria busca por unanimidade. E Parnaso de Além-Túmulo tornou-se ainda mais sensacionalista depois que ganhou uma resenha de duas partes feita por Humberto de Campos, ainda vivo em 1932.
E foi uma revanche de Chico Xavier - que não gostou de Humberto ter desaconselhado a existência de uma produção literária do além - que impulsionou outra sugestão de Wantuil, a de usar o nome do autor maranhense para alimentar mais sensacionalismo, uma ação estratégica que só não usurpou o nome de Machado de Assis para não pegar mal, preferindo um escritor popular, mas de prestígio mais mediano e pouco conhecido pelo chamado leitor médio.
Afinal, já basta que um escritor fundador da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac, tenha tido seu nome incluído no Párnaso, sob protestos de intelectuais renomados, que identificaram sérios pastiches e graves erros de expressão poética. Um crítico literário, João Dornas Filho, havia afirmado, com indignada ironia:
"Olavo Bilac, um homem que no estágio de imperfeição nunca assinou um verso imperfeito, depois de morto ditou a Chico Xavier sonetos inteirinhos abaixo dos medíocres".
O próprio mito de que Chico Xavier lançava livros sem colaboradores - fato desmentido por Alceu Amoroso Lima, que constatou que Parnaso de Além-Túmulo foi concebido por uma equipe de editores e redatores - criava um "Fla X Flu" ideológico, no qual se sustentava o seguinte maniqueísmo:
1) Se Chico Xavier realizou pastiches dos mais diversos estilos e expressões literárias, então ele, que era um caipira de mediana formação escolar, teria um suposto talento de intelectual dos mais sofisticados, merecendo a entrada na Academia Brasileira de Letras, como diziam alguns;
2) Se Chico Xavier realmente fez psicografia, então ele tinha excelentes relações com os espíritos das mais renomadas personalidades literárias, o que o faria possuidor de ampla cultura autodidata, através da comunicação com o "outro lado".
Ambas as teses se disputavam em polêmicas, embora a segunda saísse quase sempre vitoriosa. Mas ambas não resolvem os problemas da irregularidade nas expressões literárias trazidas pelo "médium". Mesmo assim, elas foram um prato cheio para alimentar o sensacionalismo em torno de Chico Xavier.
E aí, foram forjados projetos "filantrópicos", pois o assistencialismo - prática tendenciosa de caridade, mais para promover o benfeitor do que os benefícios aos necessitados - é um ótimo meio de abafar críticas e receber a blindagem da chamada sociedade civil, e aí o mito sensacionalista de Chico Xavier aos poucos desenvolveu esse estereótipo igrejeiro e institucional, quase burocrático, de "bondade".
Wantuil procurou passar por cima de vários escândalos: procurou abafar os escândalos ligados à materialização e psicofonia; fez campanha contra o livro de jornalismo investigativo de Attila Paes Barreto, O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia; teria feito mandinga para afastar quem pudesse denunciar as irregularidades de Chico Xavier; e apoiou a campanha difamatória contra o sobrinho Amauri Xavier, que iria fazer semelhantes denúncias.
O então presidente da FEB teve um senso de oportunidade e oportunismo e lançou até mesmo o chamado "apelo à emoção" - Argumentum Ad Passiones, termo que voltou à moda nos debates intelectuais por conta do fenômeno da pós-verdade (seria Chico Xavier pioneiro desta forma de falácia?) - para fazer ascender ainda mais seu pupilo, se deixando valer das fraquezas emocionais de muitos brasileiros, que os fazem cair às tentações das paixões religiosas.
O que Wantuil não fez a FEB faria depois com a ajuda da Rede Globo, corporação midiática famosa por tantas manipulações no consciente e inconsciente coletivo. E aí vem a imagem mais conhecida de Chico Xavier, associada ao "amor e caridade", construída a partir de um discurso midiático inspirado no que a BBC, por meio de Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá.
As pessoas deveriam cair na realidade. Deixar as paixões religiosas e perceber que muito de sua adoração a um ídolo religioso se deve a uma retórica bem construída em diversas etapas, um processo de manipulação ideológica em que a emoção encontra um campo de abordagem ilimitado, em que a própria realidade lógica é posta em xeque, pois o que valem são as fantasias do "coração". Ver que, neste caso, prevalece o absurdo e a fantasia, é que é chocante.
Muitos se derretem diante do mito de Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier. Sem qualquer motivo lógico e objetivo, o mito dele é adorado pelos caprichos da emoção extrema vinculada às paixões religiosas, através de estereótipos de bondade, humildade e generosidade que as pessoas acolhem sem questionar.
Poucos sabem e menos ainda estão dispostos a admitir que o mito de Chico Xavier nunca passou de uma grande estratégia de marketing, primeiro montada minuciosamente pelo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para atrair dinheiro e público para a federação.
Essa constatação choca muitos e os leva às lágrimas soluçantes. "Não, não é isso, Chico, todo amor e bondade, truque publicitário?", dirá o menos raivoso dos chiquistas. "Preste atenção na obra dele antes de dar qualquer julgamento", diria um "espírita" ainda mais dedicado.
Sim, prestamos atenção na obra de Chico Xavier e chegamos a essa conclusão: é estratégia de marketing, sim. Um sujeito que começou como um beato católico envolvido em pastiches literários (que não eram feitos por ele sozinho, vale lembrar) para se transformar, em mais de meio século, em um quase-deus, só pode ser fruto de uma engenhosa estratégia de marketing.
É surpreendente que as pessoas que tanto adoram Chico Xavier não adorem também Antônio Wantuil de Freitas, seu "mentor" terreno. Foi Wantuil que transformou o "médium" num popstar da religiosidade, criando uma "pegadinha" que deu certo durante mais de sete décadas.
Se você prestar atenção em Chico Xavier, abrindo mão de paixões religiosas - mesmo aquelas que se disfarçam sob um verniz de objetividade e razão - e de tantas idealizações que fantasiam demais o anti-médium mineiro, se verá que ele nunca foi mais do que um católico ortodoxo e ultraconservador, cuja obra "mediúnica" é cheia de irregularidades e cuja "bondade" não trouxe efeitos concretos e amplos para a sociedade.
Foi Wantuil que fez o mito de Chico Xavier crescer, fazendo-o passar por cima de qualquer escândalo. Wantuil tinha um senso publicitário muito esperto, e ainda teria feito um recurso muito comum para arrivistas: recorreu à umbanda, fazendo "despachos" para limpar o caminho para a ascensão vertiginosa de uma causa, alcançando níveis nunca cogitáveis em situações normais.
Casos como os do DJ de "funk", o DJ Marlboro, e o empresário Mário Kertèsz também indicam que também fizeram "despacho" para se ascenderem acima até mesmo do que poderiam alcançar se se esforçarem para tanto. O direitista Kertèsz chegou a cooptar as esquerdas da Bahia para seu domínio e DJ Marlboro conseguiu se infiltrar em eventos de vanguarda, lembrando que o "funk" não é mais do que um ritmo dançante puramente comercial e de retaguarda.
Wantuil teria tido a ideia da antologia poética que uma grande equipe de editores da FEB e consultores literários bolou, sob a redação de Chico Xavier e do próprio Wantuil. Tornou-se conhecido como Parnaso de Além-Túmulo que, em que pese as semelhanças genéricas feitas à primeira vista com os estilos originais dos autores mortos alegados, nota-se em todos os poemas a expressão de linguagem e pensamento pessoais de Chico Xavier e, às vezes, de Wantuil.
O sensacionalismo da antologia poética era um gancho para faturar em cima de uma polêmica forjada, sendo que criar controvérsia é um ótimo marketing para atrair visibilidade. A confusão garante muito mais fama e prestígio do que a própria busca por unanimidade. E Parnaso de Além-Túmulo tornou-se ainda mais sensacionalista depois que ganhou uma resenha de duas partes feita por Humberto de Campos, ainda vivo em 1932.
E foi uma revanche de Chico Xavier - que não gostou de Humberto ter desaconselhado a existência de uma produção literária do além - que impulsionou outra sugestão de Wantuil, a de usar o nome do autor maranhense para alimentar mais sensacionalismo, uma ação estratégica que só não usurpou o nome de Machado de Assis para não pegar mal, preferindo um escritor popular, mas de prestígio mais mediano e pouco conhecido pelo chamado leitor médio.
Afinal, já basta que um escritor fundador da Academia Brasileira de Letras, Olavo Bilac, tenha tido seu nome incluído no Párnaso, sob protestos de intelectuais renomados, que identificaram sérios pastiches e graves erros de expressão poética. Um crítico literário, João Dornas Filho, havia afirmado, com indignada ironia:
"Olavo Bilac, um homem que no estágio de imperfeição nunca assinou um verso imperfeito, depois de morto ditou a Chico Xavier sonetos inteirinhos abaixo dos medíocres".
O próprio mito de que Chico Xavier lançava livros sem colaboradores - fato desmentido por Alceu Amoroso Lima, que constatou que Parnaso de Além-Túmulo foi concebido por uma equipe de editores e redatores - criava um "Fla X Flu" ideológico, no qual se sustentava o seguinte maniqueísmo:
1) Se Chico Xavier realizou pastiches dos mais diversos estilos e expressões literárias, então ele, que era um caipira de mediana formação escolar, teria um suposto talento de intelectual dos mais sofisticados, merecendo a entrada na Academia Brasileira de Letras, como diziam alguns;
2) Se Chico Xavier realmente fez psicografia, então ele tinha excelentes relações com os espíritos das mais renomadas personalidades literárias, o que o faria possuidor de ampla cultura autodidata, através da comunicação com o "outro lado".
Ambas as teses se disputavam em polêmicas, embora a segunda saísse quase sempre vitoriosa. Mas ambas não resolvem os problemas da irregularidade nas expressões literárias trazidas pelo "médium". Mesmo assim, elas foram um prato cheio para alimentar o sensacionalismo em torno de Chico Xavier.
E aí, foram forjados projetos "filantrópicos", pois o assistencialismo - prática tendenciosa de caridade, mais para promover o benfeitor do que os benefícios aos necessitados - é um ótimo meio de abafar críticas e receber a blindagem da chamada sociedade civil, e aí o mito sensacionalista de Chico Xavier aos poucos desenvolveu esse estereótipo igrejeiro e institucional, quase burocrático, de "bondade".
Wantuil procurou passar por cima de vários escândalos: procurou abafar os escândalos ligados à materialização e psicofonia; fez campanha contra o livro de jornalismo investigativo de Attila Paes Barreto, O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia; teria feito mandinga para afastar quem pudesse denunciar as irregularidades de Chico Xavier; e apoiou a campanha difamatória contra o sobrinho Amauri Xavier, que iria fazer semelhantes denúncias.
O então presidente da FEB teve um senso de oportunidade e oportunismo e lançou até mesmo o chamado "apelo à emoção" - Argumentum Ad Passiones, termo que voltou à moda nos debates intelectuais por conta do fenômeno da pós-verdade (seria Chico Xavier pioneiro desta forma de falácia?) - para fazer ascender ainda mais seu pupilo, se deixando valer das fraquezas emocionais de muitos brasileiros, que os fazem cair às tentações das paixões religiosas.
O que Wantuil não fez a FEB faria depois com a ajuda da Rede Globo, corporação midiática famosa por tantas manipulações no consciente e inconsciente coletivo. E aí vem a imagem mais conhecida de Chico Xavier, associada ao "amor e caridade", construída a partir de um discurso midiático inspirado no que a BBC, por meio de Malcolm Muggeridge, fez com Madre Teresa de Calcutá.
As pessoas deveriam cair na realidade. Deixar as paixões religiosas e perceber que muito de sua adoração a um ídolo religioso se deve a uma retórica bem construída em diversas etapas, um processo de manipulação ideológica em que a emoção encontra um campo de abordagem ilimitado, em que a própria realidade lógica é posta em xeque, pois o que valem são as fantasias do "coração". Ver que, neste caso, prevalece o absurdo e a fantasia, é que é chocante.
Assinar:
Postagens (Atom)






