sábado, 7 de fevereiro de 2015
O "movimento espírita" se julga acima da ciência e da lógica
O "espiritismo" brasileiro quer ser o exílio confortável do pitoresco, do surreal e do aberrante, desde que submetidos ao que entendem como "lei do amor" e do "princípio da justiça". Chegam mesmo a desqualificar o raciocínio investigativo, quando ele entra em choque com os interesses de seus líderes.
Se aproveitando do status de religião, o "movimento espírita" autoproclama sua pretensa superioridade sobre os homens, se achando no direito de fazer julgamentos injustos e previsões infundadas, para atender aos seus interesses expansionistas que, eventualmente, ganham apoio até das corporações da grande mídia.
Esse sistema de crenças já começa deturpando as lições do professor Allan Kardec e desvia de seu caminho original, abraçando elementos do Catolicismo medieval mas abrindo mão de sua energia abertamente punitiva. Agora os neo-católicos do "espiritismo" brasileiro preferem que os "espíritos do além" cumpram o papel de "justiceiros" promovendo a "limpeza social" do planeta.
Abordando, de forma pedante, superficial e tendenciosa, os assuntos da ciência, em suas diversas áreas, o "movimento espírita" se comporta como quisesse que o conhecimento científico se submeta às suas crenças, ou que transite livremente nos limites que não possam interferir nas crenças delirantes e nos dogmas surreais do Catolicismo medieval redivivo pelo Espiritolicismo.
Quando o raciocínio investigativo, a serviço da lógica e da coerência dos fatos, sem comprometimentos com ódios, vaidades ou favorecimentos pessoais, ameaça reputações de supostas lideranças espíritas, desmascarando suas atividades mediúnicas identificando irregularidades através de provas documentais, o "espiritismo" se volta contra a ciência.
"É a ciência dos homens e sua compreensão terrena dos fatos que desafia a missão de espíritos superiores de promover o amor, a paz e a fraternidade, se aproveitando de seus métodos para afrontar nosso trabalho de caridade e compaixão, usurpando seus conceitos para combater nossa ação em favor do próximo", é o discurso típico de seus líderes.
Em outras palavras, é como se no "movimento espírita" fosse permitido tudo que seja ilógico, surreal e fantasioso, a pretexto não só da "liberdade religiosa", mas também por sua pretensa reputação superior, como se nessa área tivéssemos que nos contentar em aceitar fenômenos que desafiam a compreensão lógica e investigativa.
Se, por exemplo, o médium X faz a psicofonia do espírito A e o médium Y depois faz o mesmo, mas as vozes e o jeito de falar são extremamente diferentes entre si, só temos que amar, acreditar e orar.Se a psicografia atribuída a um roqueiro falecido o descreve como um completo débil-mental, temos que acreditar nas semelhanças superficiais que em si trariam suposta veracidade.
A coisa ficou tão grave que a veracidade espiritual já não é mais definida pelas caraterísticas pessoais do espírito a que a mensagem é atribuída, mas tão somente às "palavras de amor" nelas contidas. Ficou uma coisa bem panaca e debiloide, acreditar que o espírito tal é "verdadeiro" só porque disse coisas como "vamos nos unir no amor e na fraternidade".
Não se considera rigorosamente os aspectos pessoais. Se tem uma ou duas semelhanças entre o espírito atribuído a um falecido e o que este havia sido em vida, vira "autêntico", mesmo que haja, em detrimento dessas poucas semelhanças, outros aspectos que contrariam severamente essa autenticidade.
"Pense nas crianças pobres, nos velhinhos necessitados, antes de fazer julgamento de nossos trabalhos", arrogam-se a dizer os líderes "espíritas", quando a investigação lógica aponta, com provas documentais e argumentos lógicos, as irregularidades cometidas por cada instituição dessa crença ou pelas atividades de seus membros e ídolos.
Maus entendedores de ciência, pessoas de moral severa que pedem para os outros não acusá-los, mas acusam outrem sempre que acham necessário - o próprio Chico Xavier fazia também seus cruéis julgamentos contra vítimas de tragédias, acusando-as de terem sido, em outras vidas, "romanos sanguinários" - , os "espíritas" no entanto se acham acima da ciência, da lógica e do bom senso.
Para eles, nada pode lhes deter. Para seus seguidores, fica até "feio", "ofensivo" e "violento demais" acusar seus anti-médiuns e palestrantes mais badalados de cometerem fraudes ou corrupção, mesmo quando documentos e argumentos comprovem, através da lógica investigativa, que eles haviam cometido tais delitos.
Se, por exemplo, chamamos Chico Xavier e Divaldo Franco de charlatães por apontar irregularidades em suas atividades - como as fraudes de materialização apoiadas por Xavier e pelos plágios literários e falsetes pseudo-psicofônicos dados por Franco - , seus adeptos, de maneira chorosa, julgam injusto tal procedimento, atribuindo a ele uma "campanha difamatória contra o bem".
Chegam mesmo a choramingar dizendo que são perseguidos, são movidos pela inveja, são vítimas da injustiça dos homens, desqualificando o procedimento lógico que os "espíritas" atribuem tendenciosamente às "leis da terra" e sua "incompreensão dos mistérios da espiritualidade".
Nesse caso, bate ainda o coração católico-medieval, quando seus partidários se lançavam contra a ciência e julgavam o raciocínio lógico como uma "heresia" a fazer com que seus praticantes fossem condenados à forca ou à ostensiva queima em praça pública, diante de multidões.
Se o "espiritismo" não vai colocar pessoas no fogo porque elas se lançaram contra seus totens, mesmo assim a aversão à ciência, que os espiritólicos não entendem e do qual são incompetentes para abordar de forma transparente e profunda, vem à tona, quando a ciência deixa de ser "obediente" para as crenças do "movimento espírita".
Daí ser preciso um pouco mais de firmeza, aliada ao sangue frio, para que a lógica dos fatos, que promove a harmonia e a coerência de nossas compreensões de todos os fenômenos na Terra, possa também valer para a realidade espírita e para movimentos que deturpam a missão científica de Allan Kardec, ele que havia feito sua parte em busca da compreensão lógica de seres, coisas e ideias.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
O outro Chico que Allan Kardec teria reprovado
Em discurso recente, no Vaticano, o papa Francisco admitiu defender que os pais deem palmadas nos filhos com o objetivo de discipliná-los, desde que não deem tapas em seus rostos nem ameacem a dignidade das crianças.
""Os filhos precisam de um pai que os acolham ao voltarem para casa com seus fracassos. E os pais, às vezes, terão que castigá-los, mas nunca bater no rosto", alegou o pontífice, alegando que os pais precisam "castigar os filhos, quando necessário".
É inegável que a Igreja Católica tenha realizado avanços ideológicos, até em relação ao "espiritismo" feito no Brasil, que se desenvolveu como uma estranha fusão de algumas descobertas espíritas - reencarnação e vida espiritual, por exemplo - e o que há de menos coercitivo do Catolicismo português medieval.
No entanto, o Catolicismo, seja medieval ou não, mantém seus ritos, procedimentos e ideias que são voltados ao moralismo extremo e ao misticismo surreal, daí serem mantidas a disciplina paternal e narrativas fabulosas como a suposta façanha de Moisés de "rasgar" o Mar Vermelho, numa má interpretação dos movimentos de maré alta ou baixa.
Por isso, volta e meia um pontífice acaba aprovando as palmadas em crianças, animando a turma da Tradição, Família e Propriedade que, pelo jeito, tem equivalentes nas mídias sociais que representam o Tradição, Família e Palmadinha.
O grande problema é que, não raro, as palmadinhas em crianças produzem pessoas revoltadas e indignadas, mesmo que as palmadas não se expressem como tabefes no rosto, restrição citada pelo papa Francisco. Muitas das pessoas temperamentais e violentas foram, na verdade, crianças que receberam alguma surra ou castigo extremo.
Em muitos casos, a surra em crianças, mesmo apoiada por pretextos moralistas, é tão prejudicial quanto a pedofilia, porque em ambos os casos ocorrem traumas que criam perturbações na vida adulta que podem impulsionar os indivíduos a cometerem graves erros e até crimes, ou então viverem sob o domínio do medo e adotarem fobias sociais.
PROFESSOR RIVAIL ESTAVA PREOCUPADO COM VIOLÊNCIA EM CRIANÇAS
Bem antes de conhecer os fenômenos espíritas e usar o codinome Allan Kardec, o então jovem professor Hippolyte Rivail era um renomado e reconhecido pedagogo especializado em educação infantil, discípulo de Pestalozzi e com vários trabalhos publicados, entre livros e artigos.
Rivail estava bastante preocupado com a punição dos pais dando castigos severos e surras em crianças, como suposta forma de discipliná-las. Ele sabia que o objetivo de disciplina não era alcançado, e que os simples berros dados por crianças violentadas por essa medida "disciplinadora" poderia trazer consequências drásticas no futuro.
Ele estabeleceu uma série de procedimentos educacionais, seja o que ele chamava de "educação pública" - como ele definia o ambiente escolar, independente de ser de administração pública ou privada, embora ele fosse defensor do ensino gratuito - e "educação particular" - como Rivail definia a educação doméstica, dentro de casa - , visando resolver os dilemas da educação infantil de então.
Rivail expressou suas propostas humanistas, visando dar estímulos, e não coerções, ao desenvolvimento moral das crianças, incentivando seu aprendizado e motivando seu espírito de forma que as crianças pudessem ser parceiras de seus pais, e não pessoas subjugadas a seu domínio.
Desse modo, Rivail já mostrava os argumentos lógicos que se estenderiam à Doutrina Espírita cujos conceitos ainda não foram integralmente apreciados nem debatidos no Brasil. Pelo contrário, deturpações comprometeram a apreciação das ideias kardecianas, através dos abusos impunemente feitos por Chico Xavier.
Pelo jeito, Chico Xavier, um dos maiores anti-ativistas do Brasil, espécie de "AI-5 do amor", iria corroborar as declarações de seu xará, se vivo fosse, e recomendasse às inocentes criancinhas o silêncio da prece, a servidão com fé e a resignação com o sofrimento.
Com base na "sabedoria" de Chico Xavier, se tais crianças se converterem em pessoas violentas, devemos aceitar sem queixumes: tais pessoas, com seus erros gravíssimos, são apenas "agentes de resgates espirituais" de suas vítimas "culpadas de outras vidas" e que aos algozes de hoje só se espera a "punição do tempo", mesmo que seja para daqui a duas encarnações.
É permitido o fiado para os infratores espirituais, de acordo com o "espiritismo" brasileiro. Erra-se hoje para pagar as consequências para daqui a, pelo menos, cem anos.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
A preocupante guinada "bovina" dos cariocas
SÓ PORQUE JESUS CRISTO ESTÁ REPRESENTADO POR UMA ESTÁTUA NO ALTO DO RIO DE JANEIRO, NÃO SIGNIFICA QUE TUDO QUE É DECIDIDO "DE CIMA" DEVA SER VISTO COMO "SAGRADO".
Um fenômeno preocupante atinge o Rio de Janeiro e, com uma intensidade um pouco menor, São Paulo. O comportamento "bovino", que muito se atribuiu ao povo do Norte, Nordeste e Centro-Oeste - que começam a se despertar, aos poucos, de décadas de coronelismo rural, urbano, midiático e cultural - tornou-se "moda" entre cariocas e, por conseguinte, fluminenses nos últimos 20 anos.
Antes referência de poderosa trincheira cultural e grande polo de intelectualidade e ideias de vanguarda, o Rio de Janeiro agora tornou-se um reduto de conformismo e até de reacionarismo, com pessoas aceitando todo tipo de "arbitrariedade" que lhes pareça "nova" e "superior". As pessoas agora passaram a aceitar qualquer coisa que fosse decidida por empresários, políticos e tecnocratas.
Fanatismo esportivo como medida de todas as coisas. Endeusamento aos jogadores de futebol que, na prática, é a consagração "divina" dos dirigentes esportivos que manipulam o inconsciente coletivo dos fanáticos por futebol. É quase uma norma de etiqueta você torcer por qualquer um dos quatro times cariocas principais.
É regra um conhecido perguntar a alguém que time que futebol torce, em vez de perguntar de fulano gosta ou não do esporte. E se você não torcer por futebol, o risco de ser discriminado pelos cariocas e fluminenses é altíssimo. Ou você escolhe entre ser um boi de um gado flamenguista, tricolor, botafoguense ou vascaíno, ou você vira um bode perdido no bosque.
Até o samba começa a ser prejudicado pela vontade "bovina". Enquanto o "funk", ritmo marcado por baixarias e por aspectos artístico-culturais no mínimo duvidosos - para não dizer repulsivos - torna-se o "paradigma" do que se entende como "novo folclore carioca", o samba passa a ser alvo de gradual discriminação dentro do próprio Estado do Rio de Janeiro que foi seu reduto maior.
Com todo o histórico do samba brasileiro, ocorre hoje uma situação surreal. Enquanto o samba dos morros vira privilégio da "moçada Zona Sul" (algo impensável há 55 anos atrás), e o samba-enredo é apenas trilha-sonora para musas siliconadas, o que mais faz sucesso sob o rótulo de "samba" são caricaturas pálidas do som de Zeca Pagodinho, para não dizer a soul music malfeita que é lançada sob o rótulo de "pagode romântico" ou "samba-pop".
O RIO DE JANEIRO SE DESFEZ DE UM GRANDE BAIRRO POPULAR LOCALIZADO NA ÁREA DA ATUAL AVENIDA PRESIDENTE VARGAS...
...MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA DA CAÓTICA ÁREA SUBURBANA DOS COMPLEXOS DO ALEMÃO (FOTO) E DA MARÉ.
Muitos ainda passaram a aceitar "bovinamente" como "feminismo" um engodo pseudo-sensual de pretensas musas que incluem sub-celebridades ou funqueiras que acham que emancipação feminina se dá com um simples empinar de glúteos siliconados, numa clara ofensa a uma trajetória de ativismo feminino cujo destaque foi a saudosa atriz Leila Diniz (1945-1972).
Sistema de ônibus com pintura padronizada, redução de itinerários de linhas para forçar o Bilhete Único e medidas constrangedoras de "mobilidade urbana" - incluindo fechamento de ruas para veículos e criação de faixas exclusivas para ônibus onde não há necessidade - , medidas impopulares para o transporte coletivo, prevalecem por causa da supremacia do interesse de políticos e tecnocratas em detrimento da sociedade.
O prefeito Eduardo Paes, tão preocupado em transformar um bom trecho da Av. Rio Branco numa praça para riquinhos passearem e serem assaltados por mendigos, não consegue resolver a estrutura suburbana dos complexos do Alemão e da Maré, e isso 75 anos após uma grande área de bairro popular ter sido demolida para a construção da Av. Pres. Vargas.
Entre o Galeão e o Centro do Rio, uma área que é palco de tiroteios, assaltos e consumo de crack preenche boa parte do percurso de ligação entre as duas áreas, sem que as autoridades se preocupem com a desfavelização e reorganização do espaço urbano desses lugares.
NITERÓI PARECE MAIS INTERIORANA QUE MUITA CIDADE DO INTERIOR
A onda "bovina" ocorre de tal forma que a cidade de Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro enquanto a famosa cidade vizinha era capital do país e, depois, do Estado da Guanabara, se auto-rebaixou a uma cidade do interior em pleno litoral, parecendo feliz com sua condição subalterna, a poucas semanas de se celebrar os 40 anos da confusa fusão dos dois Estados imposta pela ditadura.
Sem uma cultura forte como outrora, com um mercado em que faltam produtos a toda hora, com prédios comerciais inaugurados vazios como que em uma cidade-fantasma, com ruas sujas e bairros que mais parecem cidades de faroeste, como Caramujo e Viradouro, Niterói acaba causando vergonha a muita cidade interiorana que busca melhorar seu padrão de qualidade de vida.
Como Niterói pode ocupar uma nobre posição nos Índices de Desenvolvimento Humano da ONU, se ocorrências potencialmente trágicas como a tirania do tráfico no entorno da Rua Mário Viana, com tiroteios ocorrendo à luz do dia, acontecem constantemente naquela área do Viradouro?
E se falamos em Niterói, até a cultura específica dos roqueiros sucumbiu à "vida de gado", pois o legado da antiga Fluminense FM, que valorizava a inteligência do público jovem, foi reduzida a pó na medida em que uma Rádio Cidade hoje se autoproclama "rádio de rock" sem um pessoal especializado, sem conhecimento de causa e com um perfil, estilo de linguagem e uma abordagem que nada têm a ver com a realidade do rock e trata o jovem como se fosse débil-mental.
Claro que nem todo carioca ou fluminense passou a pensar e agir como um "bovino". Mas o que preocupa é que os que pensam dessa forma não só aceitam arbitrariedades vindas de "ordens superiores", como alguns chegam a defendê-las com fanatismo, a ponto de fazer cyberbullying contra quem levantar o menor questionamento.
NO RIO DE JANEIRO, GOSTAR DE FUTEBOL NÃO É UM DIREITO, MAS UMA OBRIGAÇÃO. MUITOS SÃO FORÇADOS A TORCER POR ALGUM DOS QUATRO TIMES CARIOCAS (NA FOTO, O VASCO DA GAMA) SOB PENA DE SOFRER HUMILHAÇÕES E REPRESÁLIAS.
NEO-CORONELISMO
É verdade que o cenário sócio-político do Rio de Janeiro foi marcado, nas últimas décadas, pela supremacia do narcotráfico, das máfias dos jogos-de-azar, das milícias e do fisiologismo político, muitos desses males surgidos ou estimulados durante o obscurantismo da ditadura militar.
Mas isso criou uma crise de valores que fizeram com que o Grande Rio vivesse experiências dignas de uma cidade do Acre, como se observa com o neo-coronelismo que é promovido pelo grupo político do prefeito carioca Eduardo Paes e de seus pares como Sérgio Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão, Carlos Roberto Osório, José Mariano Beltrame, Rodrigo Neves etc.
Esse grupo político fez o Rio de Janeiro regredir aos piores momentos da República Velha ou da política carioca anterior ao prefeito Pereira Passos - que, em que pese sua visão elitista, realmente quis modernizar o RJ - , e isso há 100 anos atrás.
Isso porque Paes, Pezão e companhia parecem governar surdos ao clamor popular, agindo por seus interesses particulares mais mesquinhos, impondo medidas absurdas e anti-populares e tentando nos fazer acreditar que tudo é feito "em prol do interesse público".
E mesmo com balas perdidas e bueiros explosivos ameaçando matar transeuntes, esse grupo político se mantém firme e houve até quem costuma reclamar das autoridades pelas costas mas decidiu eleger com gosto o candidato Luiz Fernando Pezão para o governo estadual, sem saber das armadilhas que são preparadas contra os próprios cariocas.
Só porque o município do Rio de Janeiro tem a famosa estátua de Cristo Redentor, que representa a figura humanista de Jesus, isso não quer dizer que tudo que seja decidido do "alto" seja apoiado, tolerado ou visto como "sagrado". Já estão dizendo, Brasil afora, que carioca passou a endeusar até cocô de passarinho, só porque vem "de cima", ou que, se um cofre cair na cabeça de um carioca, ele pensará que ganhou a sorte grande.
LUIZ FERNANDO PEZÃO E EDUARDO PAES GOVERNAM COMO SE FOSSEM "CORONÉIS" DA REPÚBLICA VELHA DE CEM ANOS ATRÁS.
DIFAMAÇÕES E OFENSAS
Essa falta de verificação das "decisões superiores", vindas do mercado, da política, da tecnocracia e até da "vontade divina" - neste caso, se não houver alguma motivação plausível - , a aceitação submissa e acomodada, faz com que o Rio de Janeiro, normalmente modelo de popularização de valores e conceitos no país, se tornasse uma referência muito perigosa para o Brasil.
Se nem todos os cariocas e fluminenses compartilham o que o establishment do comportamento "bovino" determina como algo a ser "respeitado" - e isso incluindo a axé-music que os baianos não querem mais e o "sertanejo" que agora cansa a paciência de goianos - , todos têm que engolir a supremacia de certos valores "culturais", "comportamentais", "midiáticos", "urbanísticos" etc.
Se alguém decidir fazer alguma crítica a tais valores, mesmo quando apresenta razões consistentes e argumentação precisa e lógica, eventualmente surge algum "patrulheiro" que atrai, para este, um número de internautas a fazer uma campanha de calúnias, difamações e ofensas contra o discordante. É o chamado cyberbullying, preocupante fenômeno da Internet.
BANANAS DE PIJAMAS JÁ FORAM USADOS POR INTERNAUTAS VALENTÕES COMO ALEGORIA PARA DIFAMAÇÕES EM BLOGUES CALUNIOSOS.
O encrenqueiro digital convida seus colegas de mídias digitais - não necessariamente aliados do valentão, mas solidários com seu "senso de humor" - para encher as páginas de recados da vítima com piadinhas e comentários ofensivos, em grande quantidade e num teor que se torna a cada mensagem mais agressivo.
Pouco importa se os pontos de vista do questionador se apresentam como socialmente mais justos e mais relevantes. Ou ele se cala e aceita os absurdos do "estabelecido", ou então é obrigado a aguentar tais humilhações, que geralmente culminam quando algum exaltado - geralmente o líder da truculência digital - cria um blogue ou fotologue de difamações e ofensas pessoais.
Para piorar, em muitos desses casos, denunciar a humilhação digital é difícil, uma vez que boa parte das entidades de denúncias não cobrem esse tipo de violência e há aqueles que podem entender o cyberbullying como uma brincadeira saudável, não havendo aparente necessidade de remover o blogue ou fotologue difamatório a não ser com um trabalhoso processo judicial.
E esse reacionarismo ocorre paralelamente ao de outro movido por fanáticos fascistas, conhecidos como "coxinhas", que exageram na oposição a partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores (PT) e desenvolvem uma visão direitista paranoica, cheia de fantasias anti-esquerdistas que leva seus seguidores a adotar pontos de vista contrários à realidade dos fatos.
DANOS ESPIRITUAIS
O antigo Rio de Janeiro da Bossa Nova, do litoral belíssimo, das vanguardas culturais, do glamour social e outras referências nobres hoje parece tão decadente que até a poluição atmosférica do Grande Rio supera a de São Paulo e envergonharia até a população de Cubatão, que conseguiu superar sua gravíssima poluição industrial.
Mantendo o status de referência cultural e comportamental do Brasil, o Rio de Janeiro adota uma postura perigosa, porque se torna capaz de reciclar, em outras partes do país, aspectos que já estão em decadência em outros Estados e que neles podem voltar a valer porque "são novidade no Sul e Sudeste".
Isso é grave, porque prevalecerão os péssimos exemplos, as péssimas práticas, os piores procedimentos e ideias anacrônicas que se reciclam no Sul e Sudeste no momento em que decaem em outras regiões e nelas são forçadas a prevalecerem novamente porque "viraram novidade" nas regiões mais influentes do país.
Com isso, o retrocesso vivido no Rio de Janeiro, de ordem cultural, urbanística, social, moral, política, midiática etc, pode se tornar um "exemplo a ser seguido" em todo o país, reforçado pela atitude "bovina" de muitos de seus moradores e nativos, enquanto outros discordantes são obrigados a engolir seco tudo isso sob pena de sofrer vandalismo digital.
E, dessa forma, o Brasil se tornará prisioneiro de sua decadência, de sua crise de valores, da impunidade, da imoralidade, das irregularidades públicas. E ainda muitos acreditam que o país, nessas condições, está "pronto" para comandar a humanidade planetária no futuro. Nada mais "bovino" do que acreditar em tais tolices...
Um fenômeno preocupante atinge o Rio de Janeiro e, com uma intensidade um pouco menor, São Paulo. O comportamento "bovino", que muito se atribuiu ao povo do Norte, Nordeste e Centro-Oeste - que começam a se despertar, aos poucos, de décadas de coronelismo rural, urbano, midiático e cultural - tornou-se "moda" entre cariocas e, por conseguinte, fluminenses nos últimos 20 anos.
Antes referência de poderosa trincheira cultural e grande polo de intelectualidade e ideias de vanguarda, o Rio de Janeiro agora tornou-se um reduto de conformismo e até de reacionarismo, com pessoas aceitando todo tipo de "arbitrariedade" que lhes pareça "nova" e "superior". As pessoas agora passaram a aceitar qualquer coisa que fosse decidida por empresários, políticos e tecnocratas.
Fanatismo esportivo como medida de todas as coisas. Endeusamento aos jogadores de futebol que, na prática, é a consagração "divina" dos dirigentes esportivos que manipulam o inconsciente coletivo dos fanáticos por futebol. É quase uma norma de etiqueta você torcer por qualquer um dos quatro times cariocas principais.
É regra um conhecido perguntar a alguém que time que futebol torce, em vez de perguntar de fulano gosta ou não do esporte. E se você não torcer por futebol, o risco de ser discriminado pelos cariocas e fluminenses é altíssimo. Ou você escolhe entre ser um boi de um gado flamenguista, tricolor, botafoguense ou vascaíno, ou você vira um bode perdido no bosque.
Até o samba começa a ser prejudicado pela vontade "bovina". Enquanto o "funk", ritmo marcado por baixarias e por aspectos artístico-culturais no mínimo duvidosos - para não dizer repulsivos - torna-se o "paradigma" do que se entende como "novo folclore carioca", o samba passa a ser alvo de gradual discriminação dentro do próprio Estado do Rio de Janeiro que foi seu reduto maior.
Com todo o histórico do samba brasileiro, ocorre hoje uma situação surreal. Enquanto o samba dos morros vira privilégio da "moçada Zona Sul" (algo impensável há 55 anos atrás), e o samba-enredo é apenas trilha-sonora para musas siliconadas, o que mais faz sucesso sob o rótulo de "samba" são caricaturas pálidas do som de Zeca Pagodinho, para não dizer a soul music malfeita que é lançada sob o rótulo de "pagode romântico" ou "samba-pop".
O RIO DE JANEIRO SE DESFEZ DE UM GRANDE BAIRRO POPULAR LOCALIZADO NA ÁREA DA ATUAL AVENIDA PRESIDENTE VARGAS...
...MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA DA CAÓTICA ÁREA SUBURBANA DOS COMPLEXOS DO ALEMÃO (FOTO) E DA MARÉ.
Muitos ainda passaram a aceitar "bovinamente" como "feminismo" um engodo pseudo-sensual de pretensas musas que incluem sub-celebridades ou funqueiras que acham que emancipação feminina se dá com um simples empinar de glúteos siliconados, numa clara ofensa a uma trajetória de ativismo feminino cujo destaque foi a saudosa atriz Leila Diniz (1945-1972).
Sistema de ônibus com pintura padronizada, redução de itinerários de linhas para forçar o Bilhete Único e medidas constrangedoras de "mobilidade urbana" - incluindo fechamento de ruas para veículos e criação de faixas exclusivas para ônibus onde não há necessidade - , medidas impopulares para o transporte coletivo, prevalecem por causa da supremacia do interesse de políticos e tecnocratas em detrimento da sociedade.
O prefeito Eduardo Paes, tão preocupado em transformar um bom trecho da Av. Rio Branco numa praça para riquinhos passearem e serem assaltados por mendigos, não consegue resolver a estrutura suburbana dos complexos do Alemão e da Maré, e isso 75 anos após uma grande área de bairro popular ter sido demolida para a construção da Av. Pres. Vargas.
Entre o Galeão e o Centro do Rio, uma área que é palco de tiroteios, assaltos e consumo de crack preenche boa parte do percurso de ligação entre as duas áreas, sem que as autoridades se preocupem com a desfavelização e reorganização do espaço urbano desses lugares.
NITERÓI PARECE MAIS INTERIORANA QUE MUITA CIDADE DO INTERIOR
A onda "bovina" ocorre de tal forma que a cidade de Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro enquanto a famosa cidade vizinha era capital do país e, depois, do Estado da Guanabara, se auto-rebaixou a uma cidade do interior em pleno litoral, parecendo feliz com sua condição subalterna, a poucas semanas de se celebrar os 40 anos da confusa fusão dos dois Estados imposta pela ditadura.
Sem uma cultura forte como outrora, com um mercado em que faltam produtos a toda hora, com prédios comerciais inaugurados vazios como que em uma cidade-fantasma, com ruas sujas e bairros que mais parecem cidades de faroeste, como Caramujo e Viradouro, Niterói acaba causando vergonha a muita cidade interiorana que busca melhorar seu padrão de qualidade de vida.
Como Niterói pode ocupar uma nobre posição nos Índices de Desenvolvimento Humano da ONU, se ocorrências potencialmente trágicas como a tirania do tráfico no entorno da Rua Mário Viana, com tiroteios ocorrendo à luz do dia, acontecem constantemente naquela área do Viradouro?
E se falamos em Niterói, até a cultura específica dos roqueiros sucumbiu à "vida de gado", pois o legado da antiga Fluminense FM, que valorizava a inteligência do público jovem, foi reduzida a pó na medida em que uma Rádio Cidade hoje se autoproclama "rádio de rock" sem um pessoal especializado, sem conhecimento de causa e com um perfil, estilo de linguagem e uma abordagem que nada têm a ver com a realidade do rock e trata o jovem como se fosse débil-mental.
Claro que nem todo carioca ou fluminense passou a pensar e agir como um "bovino". Mas o que preocupa é que os que pensam dessa forma não só aceitam arbitrariedades vindas de "ordens superiores", como alguns chegam a defendê-las com fanatismo, a ponto de fazer cyberbullying contra quem levantar o menor questionamento.
NO RIO DE JANEIRO, GOSTAR DE FUTEBOL NÃO É UM DIREITO, MAS UMA OBRIGAÇÃO. MUITOS SÃO FORÇADOS A TORCER POR ALGUM DOS QUATRO TIMES CARIOCAS (NA FOTO, O VASCO DA GAMA) SOB PENA DE SOFRER HUMILHAÇÕES E REPRESÁLIAS.
NEO-CORONELISMO
É verdade que o cenário sócio-político do Rio de Janeiro foi marcado, nas últimas décadas, pela supremacia do narcotráfico, das máfias dos jogos-de-azar, das milícias e do fisiologismo político, muitos desses males surgidos ou estimulados durante o obscurantismo da ditadura militar.
Mas isso criou uma crise de valores que fizeram com que o Grande Rio vivesse experiências dignas de uma cidade do Acre, como se observa com o neo-coronelismo que é promovido pelo grupo político do prefeito carioca Eduardo Paes e de seus pares como Sérgio Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão, Carlos Roberto Osório, José Mariano Beltrame, Rodrigo Neves etc.
Esse grupo político fez o Rio de Janeiro regredir aos piores momentos da República Velha ou da política carioca anterior ao prefeito Pereira Passos - que, em que pese sua visão elitista, realmente quis modernizar o RJ - , e isso há 100 anos atrás.
Isso porque Paes, Pezão e companhia parecem governar surdos ao clamor popular, agindo por seus interesses particulares mais mesquinhos, impondo medidas absurdas e anti-populares e tentando nos fazer acreditar que tudo é feito "em prol do interesse público".
E mesmo com balas perdidas e bueiros explosivos ameaçando matar transeuntes, esse grupo político se mantém firme e houve até quem costuma reclamar das autoridades pelas costas mas decidiu eleger com gosto o candidato Luiz Fernando Pezão para o governo estadual, sem saber das armadilhas que são preparadas contra os próprios cariocas.
Só porque o município do Rio de Janeiro tem a famosa estátua de Cristo Redentor, que representa a figura humanista de Jesus, isso não quer dizer que tudo que seja decidido do "alto" seja apoiado, tolerado ou visto como "sagrado". Já estão dizendo, Brasil afora, que carioca passou a endeusar até cocô de passarinho, só porque vem "de cima", ou que, se um cofre cair na cabeça de um carioca, ele pensará que ganhou a sorte grande.
LUIZ FERNANDO PEZÃO E EDUARDO PAES GOVERNAM COMO SE FOSSEM "CORONÉIS" DA REPÚBLICA VELHA DE CEM ANOS ATRÁS.
DIFAMAÇÕES E OFENSAS
Essa falta de verificação das "decisões superiores", vindas do mercado, da política, da tecnocracia e até da "vontade divina" - neste caso, se não houver alguma motivação plausível - , a aceitação submissa e acomodada, faz com que o Rio de Janeiro, normalmente modelo de popularização de valores e conceitos no país, se tornasse uma referência muito perigosa para o Brasil.
Se nem todos os cariocas e fluminenses compartilham o que o establishment do comportamento "bovino" determina como algo a ser "respeitado" - e isso incluindo a axé-music que os baianos não querem mais e o "sertanejo" que agora cansa a paciência de goianos - , todos têm que engolir a supremacia de certos valores "culturais", "comportamentais", "midiáticos", "urbanísticos" etc.
Se alguém decidir fazer alguma crítica a tais valores, mesmo quando apresenta razões consistentes e argumentação precisa e lógica, eventualmente surge algum "patrulheiro" que atrai, para este, um número de internautas a fazer uma campanha de calúnias, difamações e ofensas contra o discordante. É o chamado cyberbullying, preocupante fenômeno da Internet.
BANANAS DE PIJAMAS JÁ FORAM USADOS POR INTERNAUTAS VALENTÕES COMO ALEGORIA PARA DIFAMAÇÕES EM BLOGUES CALUNIOSOS.
O encrenqueiro digital convida seus colegas de mídias digitais - não necessariamente aliados do valentão, mas solidários com seu "senso de humor" - para encher as páginas de recados da vítima com piadinhas e comentários ofensivos, em grande quantidade e num teor que se torna a cada mensagem mais agressivo.
Pouco importa se os pontos de vista do questionador se apresentam como socialmente mais justos e mais relevantes. Ou ele se cala e aceita os absurdos do "estabelecido", ou então é obrigado a aguentar tais humilhações, que geralmente culminam quando algum exaltado - geralmente o líder da truculência digital - cria um blogue ou fotologue de difamações e ofensas pessoais.
Para piorar, em muitos desses casos, denunciar a humilhação digital é difícil, uma vez que boa parte das entidades de denúncias não cobrem esse tipo de violência e há aqueles que podem entender o cyberbullying como uma brincadeira saudável, não havendo aparente necessidade de remover o blogue ou fotologue difamatório a não ser com um trabalhoso processo judicial.
E esse reacionarismo ocorre paralelamente ao de outro movido por fanáticos fascistas, conhecidos como "coxinhas", que exageram na oposição a partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores (PT) e desenvolvem uma visão direitista paranoica, cheia de fantasias anti-esquerdistas que leva seus seguidores a adotar pontos de vista contrários à realidade dos fatos.
DANOS ESPIRITUAIS
O antigo Rio de Janeiro da Bossa Nova, do litoral belíssimo, das vanguardas culturais, do glamour social e outras referências nobres hoje parece tão decadente que até a poluição atmosférica do Grande Rio supera a de São Paulo e envergonharia até a população de Cubatão, que conseguiu superar sua gravíssima poluição industrial.
Mantendo o status de referência cultural e comportamental do Brasil, o Rio de Janeiro adota uma postura perigosa, porque se torna capaz de reciclar, em outras partes do país, aspectos que já estão em decadência em outros Estados e que neles podem voltar a valer porque "são novidade no Sul e Sudeste".
Isso é grave, porque prevalecerão os péssimos exemplos, as péssimas práticas, os piores procedimentos e ideias anacrônicas que se reciclam no Sul e Sudeste no momento em que decaem em outras regiões e nelas são forçadas a prevalecerem novamente porque "viraram novidade" nas regiões mais influentes do país.
Com isso, o retrocesso vivido no Rio de Janeiro, de ordem cultural, urbanística, social, moral, política, midiática etc, pode se tornar um "exemplo a ser seguido" em todo o país, reforçado pela atitude "bovina" de muitos de seus moradores e nativos, enquanto outros discordantes são obrigados a engolir seco tudo isso sob pena de sofrer vandalismo digital.
E, dessa forma, o Brasil se tornará prisioneiro de sua decadência, de sua crise de valores, da impunidade, da imoralidade, das irregularidades públicas. E ainda muitos acreditam que o país, nessas condições, está "pronto" para comandar a humanidade planetária no futuro. Nada mais "bovino" do que acreditar em tais tolices...
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
O "espiritismo" no país de meias-verdades
Um dos piores males existentes no Brasil é a das meias-verdades. Isso se vê em vários aspectos das atividades humanas, seja de âmbito político, econômico e cultural. É no Brasil que se nota que medidas antiquadas ou nocivas são defendidas como se fossem "modernas" e "benéficas", e medidas decadentes se multiplicam aqui e ali apenas porque não há uma oposição sistemática a elas.
Desde que haja um "meio prejuízo", medidas anunciadas como "positivas" são mantidas às custas de meias-verdades. O Brasil virou um país de desculpas, sempre tem alguém com um argumento pronto para defender alguma barbaridade, alguma aberração. Mesmo que esse alguém, no esgotamento de sua precária e confusa argumentação, parta depois para xingações ou esnobismos.
Se fulano matou alguém e saiu da prisão, ele "não oferece perigo à sociedade". Se uma medida causa prejuízos à população, é porque elas são "sacrifícios por um bem futuro". Se uma emissora de rádio ou TV decai sua programação, é para "falar direto com o público e atrair uma audiência maior". Se os preços encareceram, é para viabilizar os custos etc etc etc.
Tudo virou um país de meias-verdades e desculpas prontas. Qualquer pessoa pode justificar seu egoísmo com alguma alegação falsamente altruísta. "Se eu não sou prejudicado com isso, logo a sociedade é beneficiada", é o sofisma dominante do momento, como se o conforto de um pudesse justificar o desconforto de tantos, visto como "incompreensão" e "despreparo inútil".
E como entra o "espiritismo" brasileiro nisso? Ele encaixa perfeitamente nesse cenário em que tecnocratas, empreiteiros, grandes empresários, acadêmicos e outras elites ditam os valores para a sociedade brasileira, outorgando um "Brasil moderno" que nada tem de moderno, é apenas uma versão cibernética daquele país provinciano e corrupto que marcou a República Velha.
Depois de tantos anos adotando uma postura assumidamente roustanguista, o "espiritismo" brasileiro nas últimas décadas preferiu um "roustanguismo light", em que o nome de Jean-Baptiste Roustaing e tudo que é associado a ele são proibidos de serem mencionados, a não ser como "problemas que já foram superados e que causaram tristeza e desamor entre os espíritas".
Hoje os valores católicos heterodoxos e um tanto delirantes de Os Quatro Evangelhos são preservados na essência pelo "movimento espírita", excetuando os aspectos mais polêmicos e escandalosos, que mesmo os dirigentes da FEB admitem terem causado mal-estar entre seus dirigentes.
Daí que um roustanguismo "revisto e reformulado" pelos sucessivos livros atribuídos a Chico Xavier - boa parte deles escrito por uma equipe de editores da FEB - , que deu um "tempero brasileiro" no religiosismo de Os Quatro Evangelhos, já confortavelmente substituído, como livro-referência, pelo Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, tenta criar um "espiritismo" asséptico.
Daí as evocações um tanto oportunistas de Allan Kardec, que os febianos podem ler através das traduções de Guillon Ribeiro e de outras que, excetuando as de Herculano Pires e seus parceiros, seguem uma linha religiosa moderada.
Daí os surtos de pseudo-ciência que os "espíritas" brasileiros fazem, citando fatos e ideias científicas de maneira pedante e enfeitando textos e até cartazes de seminários com figuras da anatomia humana ou cenários de universos cósmicos, dando um aspecto falso de cientificidade.
São as tais meias-verdades. O "espiritismo" brasileiro tem base católica, segue essencialmente os valores católicos e até adaptou seus ritos à doutrina: a água-benta virou "água fluidificada", o confessionário virou "auxílio-fraterno", os santos viraram "espíritos de luz", enquanto jargões católicos como "seara", "viajores", "caminheiros" e "mananciais de luz" são mantidos.
Todavia, há a postura, pretensa e um tanto hipócrita, de "fidelidade a Allan Kardec", como se ele, em vez de ter sido um grande pedagogo a estudar a natureza da vida espiritual, fosse um pároco de cidade do interior preocupado com a saúde moral de seus fiéis.
Há todo um arremedo de ciência, de racionalidade, que no entanto não consegue evitar o turbilhão de apelações à fé católica fantasiada de "fé raciocinada" (que na prática nada tem de raciocinada) ou ao moralismo religioso, sobretudo através de uma visão cinicamente glamourizada da tragédia humana, vista pelos "espíritas" como se fossem uma "chuva de bênçãos para a vida eterna".
Como em toda atividade do establishment brasileiro vigente, em muitos casos, desde a Era Geisel (1974-1979) e, em outros, desde a Era Collor e a Era FHC, nos anos 90, há uma preocupação em manter as aparências mais agradáveis possíveis, um discurso perfeccionista, uma imagem "mais aperfeiçoada possível", e argumentos que procurem justificar até os piores procedimentos.
Por isso temos um "espiritismo" que, na prática, não é mais do que uma dissidência menor da Igreja Católica, mas que tenta convencer a todos de que é uma "adaptação moderna e original" da Doutrina Espírita de Allan Kardec, em que pese os perfis claramente ultraconservadores de gente como Chico Xavier, Emmanuel, Divaldo Franco e muitos outros.
Isso faz parte de um Brasil que insiste em construir o novo em bases velhas. Sempre se usam bases envelhecidas e até podres para se construir algo novo em cima, e por isso vemos que sempre que há uma "novidade" bem sucedida no país, é porque ela é, na sua essência, antiquada e decadente. Lamentável.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Correio Espírita e o conceito medieval dos "resgates coletivos"
MORTE E VIDA DO GADO HUMANO.
A edição deste mês do Correio Espírita, espécie de "diário oficial" do "movimento espírita" fluminense, mostra em sua manchete principal o tema, tão difundido por seus membros, dos chamados "resgates coletivos".
A ideia consiste em atribuir uma predestinação comum às diferentes pessoas que se tornam vítimas de uma tragédia comum. Um incêndio, uma queda de um edifício, uma avalanche, um terremoto, um acidente de ônibus ou de avião, um massacre e por aí vai.
Pessoas que não se conhecem passam a ser uma espécie de sócias de um clube de condenados a uma tragédia comum. De repente você, desatento, se junta a um amontoado de infelizes que nunca se viram na vida presente - muitos nem nas passadas - e todos passam a ser irmãos de um "destino comum".
A visão, trabalhada de um caráter extremamente místico, carregado de um julgamento abertamente moralista, que o "espiritismo" brasileiro defende com um certo pedantismo supostamente científico e fatalista.
Os critérios são bastante duvidosos, mas são permitidos pelo fato de haver credibilidade dada, equivocadamente, às atividades mediúnicas duvidosas, não obstante fraudulentas, de supostos médiuns que se acham na capacidade de julgar e definir quem foi quem em vidas passadas, havendo completa falta de estudos a respeito de paranormalidade, magnetismo e outros temas.
PROCEDIMENTO MEDIEVAL
A tese dos "resgates coletivos", um termo próprio do jargão moralista do "movimento espírita", ao lado dos "reajustes espirituais" usados para "punir" inocentes que sofrem alguma tragédia ou infortúnio, apresenta, na verdade, um procedimento tipicamente medieval.
Embora seja hábito dos "espíritas" reprovar o procedimento de antigos imperadores e políticos do Império Romano na sua fase final (durante os primeiros séculos da Idade Média), que mandavam recolher condenados aqui e ali, entre hereges, inadimplentes, bandidos, escravos rebeldes e outros infratores, para reuni-los em arenas para serem queimados ou devorados por leões famintos.
O que os "espíritas" não sabem é que, adotando a tese dos "resgates coletivos", eles se comportam, mesmo de forma simbólica, da mesma maneira que os antigos imperadores, governadores, cônsules e outras autoridades romanas quando juntam pessoas para uma condenação comum.
Não há, portanto, uma diferença entre juntar pessoas de diferentes procedências para reuni-las no centro de uma arena para serem queimadas ou devoradas por leões, e os "espíritas" juntarem pessoas que nada tinham a ver umas com as outras e também tinham diferentes procedências para serem reunidas para uma "tragédia comum".
Pouco importa se diferentes pessoas que não se conheciam nem se falavam, mas estavam juntas, por exemplo, durante o trágico incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, tornam-se "irmãos" só porque morreram juntos num mesmo momento.
Se, quando pessoas nascem juntas não possuem relação umas com as outras, por que teremos que relacionar as vítimas de uma tragédia comum? O moralismo medieval dos "espíritas" ignora que haja individualidades.
Mas até mesmo para julgar as tragédias das pessoas, o "espiritismo" ignora que se morre também por desatenção. A desencarnação é vista como um processo fatalista, já que o "espiritismo" também vê na vida carnal um "fardo pesado".
Tudo é punição, condenação, sofrimento, fatalidade, ninguém tem individualidade, porque as individualidades são simplesmente padronizadas num panfletarismo religioso. Somos um gado cumprindo as imposições do além-túmulo e dos "reajustes espirituais" na vida carnal.
E tudo isso até que haja tragédias que façam ceifar muitas vidas, enquanto supostos médiuns se apropriam dos nomes das vítimas e redigem, cada um desses "médiuns", mensagens de sua própria imaginação que expressam mero panfletarismo religioso.
Daí os tais "resgates" e "reajustes". Não podemos viver felizes, somos condenados a morrer antes de cumprirmos nossa missão, somos julgados por faltas que nem sabemos que cometemos e ainda somos usados por supostos médiuns para dizer mensagens religiosas que nunca teríamos coragem (ou covardia) de escrever.
A edição deste mês do Correio Espírita, espécie de "diário oficial" do "movimento espírita" fluminense, mostra em sua manchete principal o tema, tão difundido por seus membros, dos chamados "resgates coletivos".
A ideia consiste em atribuir uma predestinação comum às diferentes pessoas que se tornam vítimas de uma tragédia comum. Um incêndio, uma queda de um edifício, uma avalanche, um terremoto, um acidente de ônibus ou de avião, um massacre e por aí vai.
Pessoas que não se conhecem passam a ser uma espécie de sócias de um clube de condenados a uma tragédia comum. De repente você, desatento, se junta a um amontoado de infelizes que nunca se viram na vida presente - muitos nem nas passadas - e todos passam a ser irmãos de um "destino comum".
A visão, trabalhada de um caráter extremamente místico, carregado de um julgamento abertamente moralista, que o "espiritismo" brasileiro defende com um certo pedantismo supostamente científico e fatalista.
Os critérios são bastante duvidosos, mas são permitidos pelo fato de haver credibilidade dada, equivocadamente, às atividades mediúnicas duvidosas, não obstante fraudulentas, de supostos médiuns que se acham na capacidade de julgar e definir quem foi quem em vidas passadas, havendo completa falta de estudos a respeito de paranormalidade, magnetismo e outros temas.
PROCEDIMENTO MEDIEVAL
A tese dos "resgates coletivos", um termo próprio do jargão moralista do "movimento espírita", ao lado dos "reajustes espirituais" usados para "punir" inocentes que sofrem alguma tragédia ou infortúnio, apresenta, na verdade, um procedimento tipicamente medieval.
Embora seja hábito dos "espíritas" reprovar o procedimento de antigos imperadores e políticos do Império Romano na sua fase final (durante os primeiros séculos da Idade Média), que mandavam recolher condenados aqui e ali, entre hereges, inadimplentes, bandidos, escravos rebeldes e outros infratores, para reuni-los em arenas para serem queimados ou devorados por leões famintos.
O que os "espíritas" não sabem é que, adotando a tese dos "resgates coletivos", eles se comportam, mesmo de forma simbólica, da mesma maneira que os antigos imperadores, governadores, cônsules e outras autoridades romanas quando juntam pessoas para uma condenação comum.
Não há, portanto, uma diferença entre juntar pessoas de diferentes procedências para reuni-las no centro de uma arena para serem queimadas ou devoradas por leões, e os "espíritas" juntarem pessoas que nada tinham a ver umas com as outras e também tinham diferentes procedências para serem reunidas para uma "tragédia comum".
Pouco importa se diferentes pessoas que não se conheciam nem se falavam, mas estavam juntas, por exemplo, durante o trágico incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, tornam-se "irmãos" só porque morreram juntos num mesmo momento.
Se, quando pessoas nascem juntas não possuem relação umas com as outras, por que teremos que relacionar as vítimas de uma tragédia comum? O moralismo medieval dos "espíritas" ignora que haja individualidades.
Mas até mesmo para julgar as tragédias das pessoas, o "espiritismo" ignora que se morre também por desatenção. A desencarnação é vista como um processo fatalista, já que o "espiritismo" também vê na vida carnal um "fardo pesado".
Tudo é punição, condenação, sofrimento, fatalidade, ninguém tem individualidade, porque as individualidades são simplesmente padronizadas num panfletarismo religioso. Somos um gado cumprindo as imposições do além-túmulo e dos "reajustes espirituais" na vida carnal.
E tudo isso até que haja tragédias que façam ceifar muitas vidas, enquanto supostos médiuns se apropriam dos nomes das vítimas e redigem, cada um desses "médiuns", mensagens de sua própria imaginação que expressam mero panfletarismo religioso.
Daí os tais "resgates" e "reajustes". Não podemos viver felizes, somos condenados a morrer antes de cumprirmos nossa missão, somos julgados por faltas que nem sabemos que cometemos e ainda somos usados por supostos médiuns para dizer mensagens religiosas que nunca teríamos coragem (ou covardia) de escrever.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Evolução do Brasil segue lógica "penitenciária"
Nos últimos anos, o Brasil, em diversos ramos da atividade humana, adotou uma lógica "penitenciária". Mas isso segue também uma lamentável tradição de que nosso país, para construir o novo, precisa manter velhas estruturas e nelas implantar alguma coisa nova.
Por isso, o país nunca tem uma transformação profunda. Se alguma mudança drástica ocorre, é quase sempre para pior. Acabamos criando uma "atmosfera" energética no qual quem poderia contribuir para o progresso do país morre mais cedo ou antes de completar sua missão, enquanto pessoas mais retrógradas vivem anos e anos tentando nos provar daquilo que são incapazes de ser.
A lógica "penitenciária" consiste nas forças que destruíram ou deturparam alguma causa ou instituição sejam vistas como as únicas que as podem recuperar. É o mesmo raciocínio que se refere às prisões: só porque aqueles que prenderam alguém são os únicos a lhe restituir a liberdade, muitos acreditam que algozes e empasteladores necessariamente serão os paladinos da causa destruída.
Passamos por uma longa ditadura militar na qual os mesmos responsáveis por sua instauração, como os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva - este também intelectual militar de direita, professor da Escola Superior de Guerra e militante do IPES, "instituto" que reivindicava o golpe militar contra o então presidente João Goulart - , foram os que promoveram a redemocratização.
No machismo, a supremacia masculina é usada como patrocinadora da emancipação feminina, como se o feminismo, de toda forma, tivesse que florescer às custas de valores machistas. Mulheres independentes acabam se casando com homens poderosos. Em contrapartida, "mulheres-objeto" que seguem estereótipos machistas de sensualidade acabam vivendo sem maridos ou namorados.
A Música Popular Brasileira, jogada à margem do mercado e empastelada por uma geração de ídolos neo-bregas dos anos 90 (Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo, Leonardo e Daniel), é alvo de uma campanha de recuperação do seu sucesso midiático através da "ajuda" dos mesmos neo-bregas que a liquidaram.
Até a cultura rock, empastelada por jornalistas, músicos e radialistas de mentalidade a mais anti-roqueira possível, tenta agora uma revitalização de mercado e uma recuperação de popularidade nas mãos daqueles que a destruíram.
A princípio, parece verossímil acreditar que a quem destruiu alguma coisa cabe reconstrui-la. Só que, neste caso, a ideia é superestimada e distorcida, e deixamos aos algozes de uma causa a missão de serem seus especialistas, como se qualquer um pudesse ser um Saulo de Tarso que, de um anti-cristo ferrenho, virou um dos ativistas do Cristianismo primitivo.
Isso acaba impedindo que aqueles que realmente entendem ou militam por alguma causa possam realmente representá-la. Os algozes viraram os "reis do pedaço", passaram a se "especializarem" por aquilo que não entendem nem apreciam, e ainda se apoiam na ideia duvidosa de que, se é ruim com eles, pior será sem eles.
Por isso, muitas causas novas acabam minimizando seu potencial transformador ou transgressor. Novidades são apropriadas por pessoas que naturalmente as rejeitam, mas só aceitam ideias novas quando elas possam ser dissolvidas em algo mais ameno e muito menos transformador, um "novo" que não representa ruptura com o "velho".
NO "MOVIMENTO ESPÍRITA" TAMBÉM É ASSIM
A lógica "penitenciária", a ilusão de depender dos algozes para efetuar algum processo libertário, que impede com que pessoas que realmente têm conhecimento de causa abracem o sistema de valores que vivenciam e defendem, também é defendida pelo "movimento espírita" no Brasil.
O "espiritismo" brasileiro passou a ser dominado pelas próprias forças que o tentaram minar. A pressão inicial da Igreja Católica num tempo em que estavam sujeitos à prisão quem fosse instalar um "centro espírita" (não se fala da visão distorcida que confunde "umbanda" com o suposto "kardecismo" da FEB) fez o "espiritismo" se adaptar ao gosto dos católicos.
Com o "espiritismo" brasileiro, o processo evolutivo da doutrina de Allan Kardec, em vez de seguir em frente, declinou tão seriamente que hoje o que se entende como "doutrina de Kardec" no Brasil não passa de uma releitura moderada e parcialmente flexível do Catolicismo medieval.
Este é um típico exemplo do processo que o "novo" sempre sofre no Brasil, com sua essência sendo sacrificada em favor de uma "releitura moderada" que quase nada têm da ideia original, apenas aproveitando sua fachada retórica, sua "embalagem", para colocar praticamente outro conteúdo. É quase sempre assim no nosso país.
O desvio da essência original de Allan Kardec é tal que sua recomendação de rejeitar o menor erro que indique prejuízo aos valores da Doutrina Espírita foi descumprida, já que Chico Xavier cometeu muitos e gravíssimos erros e passa incólume na credibilidade (ou credulidade?) popular, com os "espíritas" brasileiros obsediados em se apegar no carisma do "bom velhinho" e suas frases "dóceis".
Há quem acredite que, no Brasil, se possa recuperar as bases doutrinárias de Allan Kardec mantendo Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco (outro que cometeu erros gravíssimos e constantes) intatos no pedestal, apenas fazendo "mornas críticas" a seus desvios doutrinários mas praticamente mantendo a idolatria obsessivamente apaixonada.
É esse o cacoete que impede que o Brasil atinja um progresso verdadeiro, e que compromete todas as condições de liderar o mundo, como desejava Chico Xavier desde quando lançou os primeiros livros de sua tendenciosa safra "espiritualista" e foi reforçado no sonho que inspirou o documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier.
Afinal, se o Brasil se limita a assimilar o novo mantendo bases velhas, como se quisesse apenas espalhar perfume num quarto tomado de mofo tóxico, então não há como esperar uma nação transformadora num país que não rompe com estruturas velhas, sempre adaptando o "novo" ao sabor dos retrógrados, esperando que a "libertação" venha sempre nas mãos dos "carcereiros".
domingo, 1 de fevereiro de 2015
UFC/MMA: o "esporte" do "Coração do Mundo"?
Uma modalidade dita "esportiva" anda fazendo a cabeça dos brasileiros, e que não parece se encerrar ou falir a quatro anos do "coração do mundo". A luta corporal simbolizada pelas siglas UFC ou MMA, ocorrida há poucas horas em Las Vegas, tem no Brasil uma pretensa reputação de "esporte radical" (?!) e fenômeno de catarse para muitos jovens no país.
É verdade que o fenômeno também faz sucesso nos EUA e, em contrapartida, é bastante criticado no Brasil, até mesmo pelo "movimento espírita". Mas mencionar seu sucesso no Brasil é uma amostra do quanto o país sul-americano anda muitíssimo atrasado.
Os EUA, nação hoje mais poderosa do planeta, e já demonstrador de muito do que se teme ocorrer com o Brasil quando for promovido a "coração do mundo", é, em si, um país que glamouriza a violência e promove, em caráter mundial, esse tipo de "esporte".
O Brasil, que, apesar de sua extensão territorial, se mostra constantemente subserviente ao arbítrio estadunidense, e ainda acha que vai mandar no mundo depois que terremotos e maremotos soterrarem Hollywood, também apoia esse embuste truculento que lembra os antigos gladiadores romanos, guardadas as devidas diferenças que não interferem na essência semelhante.
São lutas denominadas "livres", que parecem empolgar aqueles que usam a desculpa da "adrenalina" para sucumbir a qualquer barbaridade, sem medir escrúpulos para a imprudência que constantemente leva seus amigos para o mundo espiritual de maneira bastante prematura.
Há algumas horas, Anderson Silva e Nick Diaz realizaram uma luta em Las Vegas, sendo esta cidade o símbolo máximo do materialismo extremo através da jogatina dos cassinos e de um padrão de vida superficial, voltado ao consumismo e ao luxo, num modo de viver bem mais vazio do que sugere o deserto do Grand Canyon, nas suas proximidades.
ARIANNY CELESTE - A musa dos esportes truculentos é empurrada pela mídia para ser a musa dos... seus detratores (?!).
A grande mídia não só dá o maior apoio à truculência do UFC que tenta até forjar uma imagem pretensamente positiva dessa modalidade. Seus lutadores são "gente simples", "intelectuais", "pessoas cultas" e outras qualidades plantadas pelo sensacionalismo midiático.
Esse apoio chega mesmo ao ponto da hipocrisia e do cinismo. A mídia chega mesmo a empurrar os torneios de UFC para um público extremamente oposto ao de seus truculentos praticantes: os nerds. A coisa chega ao ponto de um portal de notícias definir um lutador de UFC como "nerd" só porque é formado em Engenharia.
Um vídeo chegou a ser produzido nos EUA com a assistente de palco dos torneios de UFC, a modelo Arianny Celeste, ao lado de um falso nerd, este bastante estereotipado, que ficam no elevador com ele paquerando a moça e ela reagindo com indiferença.
Mas os nerds, tipo de pessoas dotadas de inteligência mas com uma personalidade aparentemente desajeitada e tímida, costumam ser humilhados e até violentados pelos valentões (bullies) de perfil não muito diferente ao dos lutadores de UFC.
Como é que os nerds agora são induzidos pela mídia a endeusar um esporte de truculentos e a apreciar suas "musas" - mulheres que soam como uma versão piorada das tradicionais cheerleaders - , sendo "convidados" pela mídia a admirar um estilo de vida oposto ao seu é algo que só dá para entender pelo tendenciosismo dos executivos de entretenimento.
Isto quer dizer que o tendenciosismo midiático quer fazer os torneios UFC serem "esportes de nerds", criando um contexto surreal dos "espancados" endeusarem o esporte de seus "espancadores" e desejarem as suas "musas", que em contrapartida "não desejariam" ter os valentões que se autoafirmam na luta do tatame.
E se a mídia é capaz disso, também é capaz de transformar o UFC em "algo bom", inventando o "UFC do bem", para crianças carentes e tudo o mais. Para um país que vê "cidadania" em garoto de 12 anos gravando baixarias de "funk", faz sentido.
O que se sabe é que, se o Brasil é receptivo a um tipo de esporte desses, é porque ainda se encontra num estado de muito atraso cultural e moral. O país anda espiritualmente muito doente e retardado em, pelo menos, 55 anos, e ainda se acha moderno e pronto para comandar o mundo enquanto se torna um mercado forte para uma luta de brutamontes. Vá entender...
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