domingo, 11 de junho de 2017
"Espiritismo", Assistencialismo e Escola Sem Partido
O que salva os deturpadores do Espiritismo é a alegação de "caridade plena", erroneamente associada a eles. A ajuda que os "médiuns", em seu culto à personalidade, supostamente estão associados é exaltada com certo exagero, mais parecendo uma publicidade para a promoção pessoal desses pretensos pensadores do "espiritismo" brasileiro.
Se os festejados "médiuns", ou melhor, anti-médiuns, tivessem realmente ajudado muita gente, o Brasil teria atingido padrões escandinavos de qualidade de vida, se observarmos a pretensão de grandeza - mesmo sob o pretexto da "humildade" - que ídolos como Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier possuem entre seus fanáticos seguidores.
Mas isso não ocorreu. E não há como usar como desculpa falácias como "os amiguinhos pouco esclarecidos não deixaram", "dificuldades impediram" ou coisa parecida, porque a grandeza com que Divaldo Franco e Chico Xavier, tão tidos como "triunfantes" a tudo, estão associados em sua idolatria religiosa tinha esse compromisso de mudar a sociedade.
Tudo não passa, portanto, de uma grande falácia. A "caridade" dos dois sempre foi medíocre, para não dizer, em certos aspectos, bastante traiçoeira. As "cartas dos parentes mortos" de Chico Xavier se revelou uma grande armação para sua promoção pessoal de pretenso filantropo, dentro de uma perspectiva que a grande mídia, em especial a Rede Globo, desenvolveu bem no imaginário das pessoas.
O que muitos pensam ser "caridade transformadora" ou "filantropia revolucionária" são apenas atitudes inexpressivas que, na melhor das hipóteses, são apenas ajudas pontuais. Analistas sérios definem tal "filantropia" como Assistencialismo e seus projetos educacionais se equiparam aos padrões ideológicos que vimos na Escola Sem Partido proposta pela direita sócio-política nos últimos anos.
O Assistencialismo é definido como uma "caridade" que são resolvidos apenas casos pontuais. Doação de roupas e alimentos, atendimento a um número limitado de pessoas etc. Será preciso uma comparação ligeira para definir a diferença entre Assistencialismo e Assistência Social.
No âmbito da saúde, existe a cura de uma doença e o efeito paliativo da doença que não é curada mas a dor é aliviada. A Assistência Social "cura" doenças. O Assistencialismo alivia a dor. O que vemos no "espiritismo", embora ele se gabe em praticar "Assistência Social", é apenas Assistencialismo. Mesmo quando as pessoas se "emancipam", os efeitos, mesmo assim, são socialmente os mais inócuos possíveis.
O projeto pedagógico, que tornou-se a publicidade da Mansão do Caminho de Divaldo Franco, é na verdade algo que não difere muito da Escola Sem Partido: uma educação "básica", que apenas ensina tarefas e princípios inócuos para as pessoas, como ler, escrever e exercer algum trabalho, mas sem estimular o senso crítico e a compreensão questionadora da vida.
Embora os "espíritas" se assustem com tal comparação, a própria Escola Sem Partido promete um ensino "comprometido com a cidadania e as boas qualidades do indivíduo", apenas estimulando o aprendizado de coisas básicas como saber fazer contas, saber falar etc. Parece um projeto completo e bem intencionado, mas ele desencoraja a compreensão crítica da sociedade e permite a crença em fantasias religiosas.
A sociedade brasileira, mesmo uma parcela que se define "progressista", não consegue entender o problema disso. Acha que a associação da ideia aparente de "caridade" a uma religião só pode representar algo positivo e transformador, e chega-se ao absurdo das pessoas pouco se importarem com os resultados, apegadas à idolatria cega a um figurão religioso.
Nas redes sociais, um seguidor de Divaldo Franco infiltrado numa comunidade de ateus insistiu que a "caridade" dele era "transformadora", e a persistência dele em rebater questionamentos - sabe-se que a Mansão do Caminho não ajudou sequer 1% da população de Salvador - revela uma preocupação em defender um ídolo religioso, pouco importando se os resultados da "caridade" foram inexpressivos ou não. Os "beneficiados" são apenas um detalhe, diante dos holofotes a um ídolo religioso.
O Assistencialismo e o projeto pedagógico tipo Escola Sem Partido (ensinar a ler, escrever e trabalhar com alguma "eficácia", mas sem estimular o pensamento crítico e, todavia, permitindo crenças religiosas das mais surreais como se fossem a "realidade") refletem o quanto boa parte dos brasileiros ainda tem uma noção bastante conservadora de "bondade".
Isso é ruim. O que está por trás disso são conceitos igrejeiros, moralistas, elitistas e uma série de preconceitos sociais, nas quais se prefere que as classes populares sejam domesticadas por uma religião do que avançassem em qualidade de vida.
A "qualidade de vida" da "caridade" religiosa é apenas uma situação mediana, dentro dos limites tolerados pelas elites do dinheiro e do poder, que até aceitam que pessoas possam viver por conta própria, mas de maneira que não represente riscos aos privilégios abusivos que as classes mais ricas possuem e que aumentaram desde que a onda conservadora retomou o Brasil e o mundo.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Teor da mensagem derruba de uma vez o mito de que Zílio foi Raul Seixas
RAUL SEIXAS CANTANDO "CARIMBADOR MALUCO" NO ESPECIAL 'PLUNCT, PLACT ZUM' DA REDE GLOBO.
Observando o teor das supostas mensagens de Raul Seixas, que, segundo o "médium" e radialista Nelson Moraes, teria adotado, no mundo espiritual, o pseudônimo Zílio, concluímos que a atribuição não é verdadeira, ao verificarmos análises de conteúdo e pesquisarmos os contextos relacionados com seus últimos anos de vida e a natureza da personalidade do roqueiro baiano.
O que se vê, em tais mensagens, narradas num tom infantilizado e com um apelo igrejeiro que nunca seria próprio de Raul, é um apelo moralista que contraria severamente o pensamento pessoal consagrado pelo músico, que, se vivo estivesse, iria divergir até dos "ventos direitistas" que atingem uma parcela do Rock Brasil, principalmente da parte dos músicos Lobão e Roger Rocha Moreira (Ultraje a Rigor, banda de apoio do programa The Noite, do reacionário comediante Danilo Gentili).
Reproduzimos a imagem abaixo, que com certeza destoa do recente ceticismo cáustico que Raul Seixas teve no final de sua vida. Em suas últimas entrevistas, Raul Seixas combinava lucidez e senso crítico, desconfiado dos rumos do Brasil que se preparava para eleger Fernando Collor de Mello. Raul questionava a hipocrisia da vida política, da mídia e do show business, fato comprovado em registros lançados pela imprensa entre 1987 e 1989.
O "Raul Seixas" construído pela mente de Nelson Moraes se revela moralista, conservador e expressa uma linguagem mais ingênua e até tola em relação ao que Raul realmente foi. E o trecho final da mensagem - que até o portal de rock Whiplash publicou - , que fala no "inimigo de si mesmo", derruba de vez qualquer tese, por mais condescendente e relativizadora que fosse, de que o suposto espírito Zílio era realmente Raul Seixas.
Raul nunca falaria coisas como "inimigo de si mesmo", um conceito oriundo da Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que foi assimilada pelo "espiritismo" brasileiro. Isso em si já é uma ofensa ao legado de Raul, pensar numa leviandade medieval dessas, que em nada ajuda no desenvolvimento da autoestima humana.
A mensagem abaixo causa desconfiança pela construção de trocadilhos fáceis, pela citação aleatória e fora de contexto dos sucessos de Raul e pelo apelo igrejeiro que o faz mais próximo de um católico (seria relação com a paródia brega de Raul, o cantor Sílvio Brito, mais tarde militante católico?) do que de um roqueiro rebelde que chegou a romper com a idolatria a Elvis Presley ao saber que ele se inscreveu no serviço militar dos EUA.
A impressão que se tem é que Nelson Moraes "construiu" um Raul Seixas fictício, a partir das impressões que o "médium" teve ao ver as coberturas da morte do músico baiano em programas como Fantástico, da Rede Globo de Televisão, da divulgação banalizada de seus sucessos e da abordagem um tanto preconceituosa dada por revistas como Contigo e Amiga. Portanto, Zílio se mostra muito falso como uma suposta representação espiritual de Raul Seixas.
Leiam a mensagem com atenção e com muito cuidado para não sucumbir às tentações das paixões religiosas, que entorpecem os instintos emotivos e bloqueiam o raciocínio. A mensagem deixa claro que foge completamente da natureza pessoal de Raul Seixas, parecendo mais um pastiche igrejeiro e moralista sem qualquer relação sequer com a superada aventura mística que o roqueiro baiano teve em vida.
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Mensagem atribuída ao espírito Zílio
Por Nelson Moraes
“Frente à realidade que me surpreendeu, a metamorfose agora é outra! A Sociedade Alternativa não acontece no embalo dos sonhos mal sonhados, nasce na individualidade daqueles que vivem na real.
Vivi como um cometa que passa e causa espanto, não consegui ajustar-me na órbita que poderia sustentar-me na trajetória rumo a felicidade que sonhei para mim e para os outros. Porém, ainda não apaguei, vou continuar entre a luz e a sombra, procurando minha própria luz em constante metamorfose.
Voltei sem alarde, faço da mente do médium o meu telégrafo para revelar ao mundo das ilusões a verdadeira Sociedade Alternativa, que nos aguarda no universo infinito e que deve ser construída no universo íntimo de cada um, aí e agora.
Depois de atravessar os vales escuros da dor e do sofrimento, minha visão ampliou-se e pude compreender que aqueles que buscam afogar suas ansiedades e frustrações nas drogas químicas e alcoólicas são como epiléticos criados artificialmente, os quais sofrem e fazem sofrer. Por isso, vejo-me na obrigação consciencial de informar aos companheiros que estão a caminho que o sofrimento não pára aí, ele se estende pelos vales espirituais, onde a epilepsia se torna real, processando a duras penas os elementos venenosos inseridos no corpo perispiritual.
Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes à verdadeira finalidade da vida. Conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros.
Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, como eu, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação que, em alguns casos, pode se prolongar por longos séculos.
Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: você mesmo!”
Observando o teor das supostas mensagens de Raul Seixas, que, segundo o "médium" e radialista Nelson Moraes, teria adotado, no mundo espiritual, o pseudônimo Zílio, concluímos que a atribuição não é verdadeira, ao verificarmos análises de conteúdo e pesquisarmos os contextos relacionados com seus últimos anos de vida e a natureza da personalidade do roqueiro baiano.
O que se vê, em tais mensagens, narradas num tom infantilizado e com um apelo igrejeiro que nunca seria próprio de Raul, é um apelo moralista que contraria severamente o pensamento pessoal consagrado pelo músico, que, se vivo estivesse, iria divergir até dos "ventos direitistas" que atingem uma parcela do Rock Brasil, principalmente da parte dos músicos Lobão e Roger Rocha Moreira (Ultraje a Rigor, banda de apoio do programa The Noite, do reacionário comediante Danilo Gentili).
Reproduzimos a imagem abaixo, que com certeza destoa do recente ceticismo cáustico que Raul Seixas teve no final de sua vida. Em suas últimas entrevistas, Raul Seixas combinava lucidez e senso crítico, desconfiado dos rumos do Brasil que se preparava para eleger Fernando Collor de Mello. Raul questionava a hipocrisia da vida política, da mídia e do show business, fato comprovado em registros lançados pela imprensa entre 1987 e 1989.
O "Raul Seixas" construído pela mente de Nelson Moraes se revela moralista, conservador e expressa uma linguagem mais ingênua e até tola em relação ao que Raul realmente foi. E o trecho final da mensagem - que até o portal de rock Whiplash publicou - , que fala no "inimigo de si mesmo", derruba de vez qualquer tese, por mais condescendente e relativizadora que fosse, de que o suposto espírito Zílio era realmente Raul Seixas.
Raul nunca falaria coisas como "inimigo de si mesmo", um conceito oriundo da Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que foi assimilada pelo "espiritismo" brasileiro. Isso em si já é uma ofensa ao legado de Raul, pensar numa leviandade medieval dessas, que em nada ajuda no desenvolvimento da autoestima humana.
A mensagem abaixo causa desconfiança pela construção de trocadilhos fáceis, pela citação aleatória e fora de contexto dos sucessos de Raul e pelo apelo igrejeiro que o faz mais próximo de um católico (seria relação com a paródia brega de Raul, o cantor Sílvio Brito, mais tarde militante católico?) do que de um roqueiro rebelde que chegou a romper com a idolatria a Elvis Presley ao saber que ele se inscreveu no serviço militar dos EUA.
A impressão que se tem é que Nelson Moraes "construiu" um Raul Seixas fictício, a partir das impressões que o "médium" teve ao ver as coberturas da morte do músico baiano em programas como Fantástico, da Rede Globo de Televisão, da divulgação banalizada de seus sucessos e da abordagem um tanto preconceituosa dada por revistas como Contigo e Amiga. Portanto, Zílio se mostra muito falso como uma suposta representação espiritual de Raul Seixas.
Leiam a mensagem com atenção e com muito cuidado para não sucumbir às tentações das paixões religiosas, que entorpecem os instintos emotivos e bloqueiam o raciocínio. A mensagem deixa claro que foge completamente da natureza pessoal de Raul Seixas, parecendo mais um pastiche igrejeiro e moralista sem qualquer relação sequer com a superada aventura mística que o roqueiro baiano teve em vida.
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Mensagem atribuída ao espírito Zílio
Por Nelson Moraes
“Frente à realidade que me surpreendeu, a metamorfose agora é outra! A Sociedade Alternativa não acontece no embalo dos sonhos mal sonhados, nasce na individualidade daqueles que vivem na real.
Vivi como um cometa que passa e causa espanto, não consegui ajustar-me na órbita que poderia sustentar-me na trajetória rumo a felicidade que sonhei para mim e para os outros. Porém, ainda não apaguei, vou continuar entre a luz e a sombra, procurando minha própria luz em constante metamorfose.
Voltei sem alarde, faço da mente do médium o meu telégrafo para revelar ao mundo das ilusões a verdadeira Sociedade Alternativa, que nos aguarda no universo infinito e que deve ser construída no universo íntimo de cada um, aí e agora.
Depois de atravessar os vales escuros da dor e do sofrimento, minha visão ampliou-se e pude compreender que aqueles que buscam afogar suas ansiedades e frustrações nas drogas químicas e alcoólicas são como epiléticos criados artificialmente, os quais sofrem e fazem sofrer. Por isso, vejo-me na obrigação consciencial de informar aos companheiros que estão a caminho que o sofrimento não pára aí, ele se estende pelos vales espirituais, onde a epilepsia se torna real, processando a duras penas os elementos venenosos inseridos no corpo perispiritual.
Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes à verdadeira finalidade da vida. Conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros.
Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, como eu, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação que, em alguns casos, pode se prolongar por longos séculos.
Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: você mesmo!”
quarta-feira, 7 de junho de 2017
O maior lesado do "espiritismo" brasileiro: Allan Kardec
Qual o maior lesado, o maior prejudicado e o maior esculhambado pelos "espíritas" brasileiros? Qual é a vítima mais humilhada, depreciada, desmoralizada pelo "movimento espírita" em toda sua trajetória?
Com toda a certeza, é o pedagogo Hippolyte Leon Denizard Rivail, o Allan Kardec, o maior prejudicado pelo "movimento espírita" brasileiro. O "espiritismo" que se faz no Brasil é marcado pela profunda hipocrisia e pelas dissimulações diversas, e a erosão doutrinária é maquiada pelo receituário moral e pelo Assistencialismo (caridade paliativa que só atende casos pontuais e parciais), que muitos acham natural e até admirável.
O "espiritismo" que se faz no Brasil nada tem a ver com a "embalagem" bonita e agradável que se apresenta principalmente ao público leigo, que adere sem despertar um pingo de desconfiança. O "espiritismo" virou um rol de contradições, escândalos, confusões e fraudes, que são mascarados de todo e qualquer jeito.
Tudo isso é feito para iludir e enganar as pessoas, e não são poucos os "médiuns" que chegam com mensagens fake que não refletem a natureza pessoal dos autores mortos alegados. Podem apresentar até um grande número de semelhanças, mas sempre existe uma diferença que derruba qualquer indício de veracidade.
Para piorar, muitos palestrantes, que realizam turnês para promover seu balé de belas palavras, estufam o peito dizendo serem "fiéis seguidores" de Allan Kardec e "rigorosos cumpridores" de seus ensinamentos. Dizem isso para depois praticarem o mais derramado igrejismo roustanguista, tão praticado quanto tão convictamente renegado, expressando falta de sinceridade.
Hoje a crise do "espiritismo" brasileiro é tão grande que se encontra num grave impasse. A doutrina que prometia melhorar a sociedade brasileira se perde em intermináveis contradições, sem poder resolvê-las, e entregue a eterna promessa de "compreender melhor Kardec". Sim, como cães correndo atrás dos próprios rabos, os "espíritas" deturpadores, mais uma vez, apelam para promessas de "conhecer melhor a obra de Kardec", coisa que já vimos antes e que deu na crise que se vive hoje.
É a promessa que tenta fazer os deturpadores manterem as rédeas. O Brasil virou refém desse "espiritismo" deturpado, que se transforma até num engodo, numa grande porcaria religiosa na qual se mistura a podridão do roustanguismo com a boa teoria de Kardec, criando teorias e práticas que se chocam em um conflito grave e insustentável.
É como se misturassem a comida podre do dia anterior com a comida nova, mesclando conceitos igrejistas com ideias científicas e filosóficas, emporcalhando com o legado de Allan Kardec, que com certeza não merece essa avacalhação toda que se faz com o seu trabalho.
Allan Kardec fez sozinho todo o trabalho de divulgação da Doutrina Espírita. Diferente dos festejados "médiuns" e "intelectuais" do "espiritismo" brasileiro, que viajam em aviões de primeira classe e se hospedam em hotéis de luxo para fazer palestras tolas sobre temas emocionais e receber medalhinhas, o pedagogo de Lyon pagava suas próprias viagens, não tinha patrocínios e só as fazia para realizar pesquisas e entrevistar pessoas a fins de estudo dos fenômenos espíritas.
É um horror o que ocorre no "movimento espírita", em que os próprios deturpadores, sob o pretexto de "aprenderem melhor as lições", reciclam seu igrejismo, apenas expondo uma teoria "kardecista" politicamente correta, imaginando que uma mera exposição da teoria espírita autêntica pudesse resolver as contradições.
Afinal, tudo o que se viu foi essa interminável contradição entre prática igrejista e um falso aprendizado da Doutrina Espírita. Essa promessa de "aprender Kardec" já foi estada há mais de 40 anos e resultou nesse lodo religioso que hoje vemos. Será que temos sempre que ser "fraternos" na deturpação, diante dessa postura "dúbia" que tanto envergonha o trabalhoso legado de Kardec?
A crise no "movimento espírita" só tende a se agravar com tantos impasses. Não se trata de uma crise provocada pela "maledicência dos outros" mas das más escolhas que os próprios "espíritas", sejam eles dirigentes, "médiuns" e autoridades, fizeram ao longo dos anos, acumulando as sujeiras que se tornam mais evidentes, por mais que o discurso da "união fraterna" tente mascarar.
segunda-feira, 5 de junho de 2017
Por que o "espiritismo" pouco liga para o remorso humano
No "espiritismo", parece haver a crença do princípio do "fiado espírita". Consiste na pessoa dotada de um atraso moral ter uma encarnação inteira para fazer suas maldades, só pagando na próxima encarnação.
Mesmo quando o facínora da hora enfrenta profundas derrotas, encrencas e até perdas trágicas - no meio do caminho ele pode perder um sobrinho, um tio ou um amigo de infância - , seus privilégios permanecem intatos, mesmo quando, na velhice, o velhaco que se entretinha em abusos se torne um idoso angustiado e cabisbaixo, querendo um ostracismo com "maior sossego possível".
A questão é complicada, porque na encarnação posterior a pessoa paga em doses maiores aquilo que sonegou. Quando cometia maldades e necessitava do infortúnio para barrar os caprichos de sua ambição desmedida, nada lhe ameaçava de forma real, e mesmo as encrencas no caminho eram contornadas como a habilidade de um craque do futebol que dribla os adversários.
Já quando a pessoa se arrepende, os infortúnios se tornam mais pesados. A pessoa não consegue ter controle do seu destino e todos os sacrifícios que ela faz são em vão. E o mais irônico disso é que, em várias situações, para ela vencer na vida, precisa compactuar com um arrivista ou algoz de ocasião, praticamente entregando o ouro a bandido em troca de umas migalhas.
O "espiritismo", que se mostra inclinado à Teologia do Sofrimento de forma que esta ideologia medieval católica prevaleça até mesmo sobre a própria deturpação dos ensinamentos de Kardec, ignora que o remorso humano poderia ser um atestado para o alívio das desgraças.
O verdadeiro remorso não vem do algoz que abusa demais de seus atos desumanos e que, na menor encrenca, faz pose de tristonho, criando drama sobretudo no banco dos réus. Ele vem do sofredor extremo, que vê as barreiras se aumentarem à sua frente, sem que qualquer esforço feito pudesse derrubá-las, e com isso se arrepende dos erros e pede clemência ao Destino.
O sistema de valores retrógrados prevalecentes no Brasil, em que coexistem princípios de moralismo rigoroso com outros de desonestidade arrivista, permite o quadro injusto que se mostra. E a crise política do governo Michel Temer é apenas a demonstração dos prejuízos que a complacência aos algozes e o pouco caso com os infortunados fazem em nome de um moralismo que protege quem está no alto da pirâmide social.
Evidentemente que temos o topo da pirâmide em chamas, mas até agora os moralistas não querem largar o osso. Conflitos dos mais sérios envolvem as pessoas que antes se protegiam pelo status da idade, do dinheiro, da fama, do clã familiar, do porte de armas, do diploma, da visibilidade, do prestígio tecnocrático, do prestígio religioso, de vários tipos de privilegiados que se achavam portadores da Razão a ponto de poderem até errar, sob a desculpa de que "todo mundo erra".
Mas os impasses ainda não sensibilizam as pessoas e o "espiritismo", que enfrenta crises sérias de fazer as de certos movimentos neopentecostais parecerem aviões voando em céus de brigadeiro, se mantém num padrão moral bastante austero, que influi na inutilidade e até no prejuízo que tratamentos espirituais exercem nas pessoas sem privilégios.
O "espiritismo" se perde em velhos padrões moralistas, numa "caridade" bastante frouxa, num misticismo extremo e num igrejismo obsessivo, além de apostar numa crença de que o algoz pode ter a vida toda para cometer seus abusos, mas em outra encarnação terá que pagar caro demais pelo que fez. Estimula-se o calote moral num momento, promove-se o estelionato moral em outro.
A situação torna-se tão desumana que os sofredores extremos, não bastassem serem "aconselhados" a aguentar suas desgraças, precisam fingir felicidade até para si mesmos. É como se, quando um prego atinge as palmas de nossas mãos, em vez de gemermos de dor extrema, diante do sangue disparando pelo furo do prego, termos que sorrir de felicidade e agradecermos a Deus pela desgraça obtida.
Temos sofredores demais, pessoas não podendo resolver seus problemas senão pela alegria fingida e pela compactuação com algozes e arrivistas, enquanto o topo da pirâmide social precisa ser reparado e recuperado, apesar do seu estado avançado de decomposição. Algo precisa ser mudado e os ocupantes do topo tenham que descer alguns degraus para não serem queimados pelo incêndio que atinge o velho cume.
sábado, 3 de junho de 2017
Retórica "emotiva" faz brasileiros serem reféns do "espiritismo" deturpado
Os brasileiros se tornam reféns do "espiritismo" deturpado praticado no país. Os apelos retóricos adotados pelos deturpadores, armadilhas pouco percebidas no Brasil, revelam a grande dificuldade de superar a deturpação roustanguista, porque mesmo o processo de recuperação das bases doutrinárias de Allan Kardec foram praticamente apropriados por seus próprios deturpadores.
A retórica "emotiva", baseada no chamado "bombardeio de amor" - uma overdose de apelos sentimentais que parecem "mensagens positivas e amorosas", mas são sutis e traiçoeiros processos de dominação e manipulação das mentes humanas - , começa a ser questionada no exterior, mas no Brasil ainda é vista como "mimimi" de gente "de mal com a vida".
O Brasil é mais vulnerável às armadilhas que lá são assunto de teses acadêmicas. A overdose de informação, a glamourização da pobreza, a espetacularização da sociedade, tudo isso é largamente questionado, sem risco de colocar modismos em xeque.
Aqui, onde as monografias acadêmicas valem mais pela forma do que pelo conteúdo, com textos mais arrumados na sua roupagem "científica" e sem qualquer tipo de questionamento ou análise, ninguém questiona coisa alguma, aceitando as piores armadilhas como se fossem "coisas maravilhosas".
No "espiritismo" brasileiro, a sua prevalência é motivada por apelos aparentemente positivos, que conseguem dominar uma parcela de céticos, pela forma engenhosa que se trabalha. É uma aparência de positividade e beleza, mas que esconde terríveis e perigosos processos de dominação, havendo perversos jogos de interesse arrivistas por trás.
Esses apelos são o Ad Passiones, numa das modalidades mais perigosas, o "bombardeio de amor" (em inglês, love bombing), e o Assistencialismo, ambos aparentemente positivos, agradáveis e que muitos acreditam ser "genuinamente positivos" e "socialmente saudáveis", mas consistem em armadilhas que servem para forçar o apoio das pessoas a arrivistas de qualquer tipo.
O "bombardeio de amor" é um truque discursivo no qual pessoas ou instituições tentam atrair a vítima com um excessivo apelo de mensagens amorosas, sentimentos afetivos etc. O sujeito não lhe conhece e acolhe você com uma afetividade tão exagerada que você, geralmente com alguma fraqueza emocional, se rende facilmente a esse apelo, sem desconfiar que é um truque para seu dominador buscar alguma vantagem por trás disso.
O Ad Passiones, como um todo, é definido por analistas conceituados como um tipo de falácia. Entende-se como falácia uma transmissão de ideia mentirosa como se fosse uma verdade indiscutível. O Ad Passiones virou moda através do fenômeno da pós-verdade, que influiu na vitória inesperada de Donald Trump e da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o "Brexit".
Mas, no Brasil, a pós-verdade teve no "médium" Francisco Cândido Xavier um de seus maiores pioneiros. Deturpador maior do Espiritismo e um dos mais graves, Chico Xavier era um católico ortodoxo que se tornou instrumento dos interesses comerciais da FEB e que virou um pretenso filantropo através de um discurso apelativo armado pela Rede Globo em parceria com a federação, como forma de competir com os pastores eletrônicos R. R. Soares e Edir Macedo.
Chico Xavier foi, numa só pessoa, a expressão do love bombing e do Assistencialismo, que também é considerado um apelo tendencioso e traiçoeiro, embora ele se apoiasse sempre num paradigma de pretensa bondade que muitos pensam ser autêntica e espontânea.
O que se deve lembrar é que o Assistencialismo é um apelo que consiste numa pretensa caridade que em nada resolve de forma aprofundada e definitiva. É uma "caridade" que não mexe nos privilégios abusivos das elites, que acham essa prática até boa, porque assim eles podem despejar roupas velhas, alimentos vencidos e comprar mantimentos de marcas ruins e baratas demais.
O que chama a atenção no Assistencialismo - cujo maior exemplo, na TV brasileira, é o apresentador Luciano Huck - é que se trata de uma "bondade" que traz resultados medíocres, mesmo quando resultam em relativa emancipação social dos necessitados. Ela expõe mais o "benfeitor", glorificado pelo pouco ou quase nada que faz, e com isso se vê que o Assistencialismo é uma "caridade" que só serve para promover o "benfeitor" do que trazer benefícios, que são inexpressivos.
Esse é um dos maiores problemas que fazem com que a deturpação do Espiritismo nunca se desfaça. A "ressalva" de que os supostos "médiuns", que deturparam tudo da Doutrina Espírita, "no entanto vale pela bondade que trazem", sempre representou a complacência com os deturpadores, a ponto de se acreditar que os deturpadores "poderão aprender melhor" os postulados espíritas originais.
Existe, no Brasil, a mania de acreditar que a raposa, quando bem treinada, tenha condições de zelar pelo galinheiro. Mas, assim como a raposa tem a fome natural de devorar galinhas e galos ao seu acesso, o deturpador do Espiritismo tem seus interesses arrivistas por trás do aparente apelo da "bondade", da "caridade", dos "bons sentimentos" e das "mensagens de amor".
O que os brasileiros, que se revoltam com tais questionamentos, não percebem é que, se questionamos figuras como Chico Xavier e Divaldo Franco, é com base nos alertas do espírito Erasto, difundidos há muitas décadas. São alertas que dificilmente agradariam as pessoas que acham mais cômodo serem dominadas pela emotividade fácil do que desfazer fantasias diante do menor escrúpulo da Razão.
E o Brasil, que sempre criminaliza socialmente o ato de raciocinar, quando ele ultrapassa os limites dogmáticos e mitológicos a serem preservados (para os interesses de determinadas elites, vale dizer), se mantém refém da deturpação espírita, mais preocupada em proteger a reputação dos deturpadores do que em melhorar a humanidade sacrificando fantasias e falsidades sem sentido.
Só mesmo no Brasil para acreditar que o coiote irá cuidar melhor do rebanho ovino, à merce dos mais persuasivos apelos emocionais e aparatos pretensamente filantrópicos. Mas se o Ad Passiones permite transformar até um Jair Bolsonaro em "salvador da pátria", isso significa que os brasileiros terão que abrir mão de ilusões e fantasias que durante décadas permanecem no imaginário dos adultos. É mais difícil um adulto abrir mão da ilusão do que uma criança.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
"Espiritismo" brasileiro e a turma do "não é bem assim"
A deturpação do Espiritismo também tem seus "cães de guarda". Eles se inserem em fóruns questioandores e fingem concordar com "certos equívocos" feitos pelo "movimento espírita". Tentam relativizar os questionamentos, mas também tentam dar a impressão de que não estão sendo tão complacentes com o "movimento espírita".
Sabemos que o "movimento espírita", no fundo, não passa de uma Torre de Babel em que "médiuns" e "pensadores" (não nos esqueçamos que os próprios "médiuns" bancam dublês de pensadores) tentam alcançar o céu através de uma carreira em que táticas de manipulação discursiva, o Ad Passiones (através de textos com "belas palavras" e "mensagens de amor") e Assistencialismo (caridade espetacularizada, mas de resultados medíocres), são feitas para impressionar o público.
E aí sabemos o que se deu na deturpação, que causou muita confusão entre os próprios "espíritas" que, não satisfeitos em desfigurar o trabalhoso legado de Allan Kardec, ainda se contradizem entre si. São tantas confusões que hoje o "espiritismo", além de reduzido a um sub-Catolicismo de moldes medievais, ainda virou um lodo de ideias desconexas que se contradizem umas às outras.
Uma delas é o endeusamento de Francisco Cândido Xavier, o suposto médium que, ele mesmo, causou inúmeras confusões, como a literatura fake de Parnaso de Além-Túmulo, de 1932. Uns endeusam Chico Xavier tratando-o como um semi-deus, outros tentam exaltar sua suposta imagem de humilde (mas igualmente espetacularizada e mitológica), outros o definem como "profeta", outros apenas como "mensageiro", há quem o considere "filósofo" etc etc etc.
Há roustanguistas assumidos e outros envergonhados, há um igrejismo extremo de gente que, no entanto, adora bajular personalidades associadas ao Espiritismo autêntico, de Erasto a Deolindo Amorim. E todo esse clima de "casa da mãe Joana" que se reduziu o "movimento espírita", espécie de PSDB das religiões, se esconde por trás da encantadora embalagem de "religião modesta, iluminada e despretensiosa".
E aí questiona-se tudo de irregularidades no "espiritismo" e surgem pessoas que querem puxar para trás. Temos sempre esse cacoete: sempre que andamos adiante com uma causa, há gente querendo dar o freio. Não por acaso as novidades só são assimiladas no Brasil quando são banalizadas demais e mesmo assim sacrificando sua essência em respeito a valores velhos e obsoletos, mas que precisam ser mantidos para o bem dos interessados.
A turma do "não é bem assim" sempre faz uma patrulha em torno da contestação da deturpação espírita. Querem sempre barrar o avanço dos questionamentos para coisas menos óbvias. E isso se dá por razões bastante evidentes.
Eles apenas aceitam quando os questionamentos à deturpação do Espiritismo se limitam ao que já foi feito por gente como José Herculano Pires ou à comparação mais manjada dos livros de Allan Kardec e de Chico Xavier. Um clichê dessa permissão é que praticamente é quase um consenso a baixa validade dos livros que levam o crédito de Emmanuel, por apresentar um igrejismo escancarado até demais.
Mas diante de outros problemas como o caso Zílio, em que um suposto espírito de Raul Seixas aparece abobalhado e místico através dos livros do "médium" Nelson Moraes, a turma do "não é bem assim" abre guarda. "Você tem que entender que Raul parecia patético por morrer fragilizado e retomou a fé para se consolar das dores da morte prematura", poderia dizer, em hábil falácia, algum "espírita" com mania de argumentar sem lógica.
Porém, é só rever as últimas aparições e entrevistas de Raul Seixas, entre 1987 e 1989, para ver que a atribuição do suposto Zílio ao espírito do cantor é falsa. No final da vida, Raul poderia estar muito doente, mas espiritualmente ele largou o antigo misticismo e passou a ver a realidade com cinismo e um certo humor corrosivo, que lhe rendeu letras divertidas mas ácidas como "Muita Estrela, Pouca Constelação" e declarações como "o Brasil virou uma charrete que perdeu o condutor".
Ele nunca reapareceria, como espírito, como um esotérico manipulador de trocadilhos ("o mundo só é uma droga para quem se droga no mundo"), um igrejista ingênuo e quase debiloide, muito diferente do roqueiro desconfiado com os rumos do Brasil, que nunca iria largar sua visão crítica e analítica quando, se desfazendo dos laços materiais, retomaria a visão mais aguçada que os limites da matéria física costumam ocultar.
Geralmente a turma do "não é bem assim" tem muito medo de questionar a autenticidade de supostas mensagens espirituais, temendo arruinar a reputação dos "médiuns". Quando muito, tentam uma abstenção, alegando "incapacidade" de reconhecerem se as mensagens são verdadeiras ou não ou defini-las como "autênticas" apenas pela "boa moral" que elas apresentam.
A turma do "não é bem assim" mais parece proteger os deturpadores e reduzir as críticas à deturpação a uma análise do crime sem identificar o criminoso. Ou seja, investiga-se o crime, o reconstitui e tudo o mais, mas sem identificar os culpados. Algo inverso ao que a mídia reacionária faz em relação aos políticos do PT: identificam os "criminosos" sem se preocuparem com as provas do crime.
Os critérios que a turma do "não é bem assim" usam para evitar o avanço dos questionamentos da deturpação espírita são esses:
1) Só admitem que as irregularidades do "espiritismo" brasileiro sejam investigadas por alguém dotado de muita visibilidade e prestígio, ainda que fosse um espírita autêntico dotado de opiniões bastante polêmicas;
2) Questionar a deturpação, entre pessoas comuns, só devem ser feitas dentro dos limites do que já foi questionado e na comparação textual entre as obras kardecianas e as que os "médiuns" brasileiros publicam expressando seu igrejismo;
3) Não se pode questionar o caráter fake das mensagens "mediúnicas" pelo suposto "mistério" das "mensagens espirituais". Para todo o caso, aceita-se que um suposto autor espiritual abriu mão de seu estilo pessoal em nome da "linguagem universal do amor";
4) Cobra-se excessivo rigor científico, seja nos argumentos, seja na forma textual (a mais formal, erudita e objetiva possível), nos questionamentos da deturpação espírita, de forma a apresentar um discurso supostamente imparcial e um número excessivo de provas de uma irregularidade "espírita".
Quanto a este último item, uma coisa engraçada ocorre. A turma do "não é bem assim" pede que, para questionar obras de Chico Xavier, Divaldo Franco e similares, se tenha "embasamento científico" e "extremo rigor" nas argumentações. Mas, quando um internauta comum escreve um texto com muitos argumentos lógicos e expressa uma coerência impecável nas provas apresentadas, a turma do "não é bem assim" não gosta, invalidando a argumentação sem dar explicações lógicas para isso.
Por outro lado, se eles pedem para que se tenha "embasamento científico" e "bases lógicas rigorosas" para questionar os "médiuns espíritas", mas não exige disso quando algum aventureiro da doutrina igrejeira venha com um fake atribuído a uma mensagem do além-túmulo, ainda mais se esse aventureiro for algum "médium" badalado por setores privilegiados da sociedade brasileira.
Um exemplo é se surgir uma suposta mensagem espiritual de Getúlio Vargas pedindo para que orássemos em favor de Michel Temer, como se o falecido governante o apoiasse. Sabe-se que isso é ilógico, porque Temer está comprometido com o desmonte de muitos progressos trazidos pelo próprio Vargas.
No entanto, para agradar a turma do "não é bem assim" (que pode aceitar uma hipotética mudança de posição de Getúlio), seria preciso ter muita visibilidade, prestígio e, se preciso, uma coleção de diplomas para dizer que a mensagem do "espírito de Getúlio Vargas" é fake e ainda assim através de um cansativo discurso monográfico de uma retórica de aparência científica e, de preferência, com questionamentos muito pálidos e hesitantes, forjando falsa imparcialidade.
A turma do "não é bem assim" mais parece zelar pela deturpação do que questioná-la. E eles vão na contramão das recomendações do espírito Erasto, publicadas em O Livro dos Médiuns, que pediu rigor e firmeza nos questionamentos à deturpação espírita e não estabeleceu critérios de visibilidade e diploma para quem se encorajar a fazer tais questionamentos. Neste caso, o Brasil permanece surdo aos conselhos de Erasto, que Allan Kardec define como espírito com significativo grau de evolução.
terça-feira, 30 de maio de 2017
"Espiritismo" e o poder descomunal da Rede Globo
Existe uma frase irônica que diz que o Brasil é uma concessão da Rede Globo. O poder descomunal e sem limites da rede televisiva, surgida em 1965, se expressa na determinação de comportamentos, costumes, gírias, visões de mundo, vestuários e até gosto musical, com um poder manipulador sem precedentes na História do Brasil. A Globo até escolhe e derruba presidentes da República de acordo com seus interesses estratégicos, se comportando como se fosse um partido político.
Se você fala "balada" para definir a "vida noturna" ou "galera" para definir todo tipo de grupo social, acha o ex-presidente Lula "o maior corrupto do Brasil de todos os tempos", adora ver futebol nos fins de noite de quartas-feiras, enxerga a realidade como se fosse uma novela e acha que tratar bem as crianças é fazer festinha todo fim de semana, isso significa que não há escapatória: você de alguma forma é influenciado pela Rede Globo, por mais que odeie a emissora.
Muitas pessoas também falam "cliente" em vez de "freguês", a ponto de alguns imaginarem por que Eduardo Paes, afeito a tantas tolices, não determinou a mudança de nome de dois bairros homônimos cariocas, na Ilha do Governador e em Jacarepaguá, de Freguesia para Clientela. Também é influência da Globo, que chegou ao ponto de definir como será o vocabulário a ser falado pela população.
Os "espíritas" também não sabem que a imagem de "filantropo" associada a Francisco Cândido Xavier, tão tida como "espontânea" e "natural", também é fruto da manipulação da Rede Globo, que precisava de um ídolo religioso "ecumênico" para tentar neutralizar a ascensão de pastores neopentecostais que arrendavam horário em emissoras concorrentes, como Edir Macedo, mais tarde dono da Rede Record.
Chico Xavier já era um ídolo religioso inventado pela habilidade publicitária do então presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, para impulsionar a venda de livros. Reunindo estereótipos de devoção católica, ingenuidade caipira e o apelo sensacionalista da suposta paranormalidade, Chico Xavier tornou-se um mito arrivista, mais próximo de um velocino de ouro do que de um equivalente brasileiro de Jesus de Nazaré, personalidade já bastante deturpada por católicos e evangélicos.
O mito de Chico Xavier, no entanto, era bastante confuso nas mãos do agressivo Wantuil. E a alegação, depois mentirosa, de que Chico "recebia" mensagens de literatos mortos, só causou problemas e foi essa malandragem que acabou trazendo ao "espiritismo" brasileiro as energias malévolas que acabaram permanecendo neste movimento religioso, por mais que seus líderes e adeptos reneguem tal realidade.
Chico Xavier era blindado pela Rede Tupi, o que mostra o quanto o poder televisivo adora mitos que misturem paranormalidade e beatitude católica. Um "católico sem ser católico" é o que o "espírita" acabou se tornando, virando uma marquize de fé para católicos não-praticantes com preguiça de encarar a ginástica do senta-e-levanta das missas dominicais.
Mas, morto Wantuil, Chico Xavier passou a ter o mito "redesenhado" pela Rede Globo de Televisão. Eliminaram-se os aspectos confusos e, da "mediunidade", destacou-se menos a suposta comunicação com os intelectuais do além-túmulo e se enfatizou mais as "cartas" dos "anônimos falecidos".
Fora esse detalhe, o mito de Chico Xavier obedeceu rigorosamente o roteiro que o inglês Malcolm Muggeridge bolou para outro mito religioso duvidoso, Madre Teresa de Calcutá. Tida como "símbolo de caridade", Madre Teresa, que por ironia se assemelhava fisicamente à Bruxa do Mar (Sea Hag, em inglês), vilã das estórias do Popeye, foi mais tarde denunciada pelo jornalista Christopher Hitchens por ter mantido doentes e miseráveis em condições sub-humanas em suas "casas de assistência".
Chico Xavier, que defendeu o golpe militar de 1964 e apoiou a ditadura, com suas próprias palavras, num programa de TV de grande audiência - e, hoje, também muito visto no YouTube - , seguiu o mesmo roteiro de Muggeridge: chegava a uma "casa de caridade", era recebido pela multidão, carregava bebê no colo, saudava populares, cumprimentava miseráveis nas ruas, entrava na casa, via doentes na cama e meninos pobres tomando sopa e depois ia à mesa no salão dar depoimentos que vão virar frases de efeito, supostos "pensamentos de sabedoria".
A Rede Globo, portanto, recriou Chico Xavier de uma forma "limpa", adaptando para o contexto brasileiro o roteiro de Malcolm Muggeridge no documentário sobre Madre Teresa e aplicou a fórmula em seus programas jornalísticos, a partir de uma edição do Globo Repórter, mas depois seguida pelo Fantástico e pelo Jornal Nacional.
As pessoas que levam naturalmente a abordagem televisiva como se fizesse parte de suas vidas pessoais passou a assimilar o mito de Chico Xavier naturalmente. Sem a batina católica, o "médium", promovido a um pretenso filantropo - praticando o mesmo Assistencialismo que serve para a promoção pessoal do apresentador Luciano Huck - , servia tanto para alimentar as fortunas dos dirigentes da FEB e federações regionais quanto para reforçar o poder da Rede Globo.
No primeiro caso, considerando que o poder centralizador da FEB deu lugar a um poder relativo frente às federações regionais, já que estas comandavam a "fase dúbia" do "movimento espírita" (um igrejismo fantasiado de "recuperação das bases kardecianas"), o mito de Chico Xavier, sem as confusões pitorescas da Era Wantuil, criava a esperada estabilidade de um ídolo religioso que fazia o "milagre" de vender livros e outros produtos que enriquecessem os cofres dos dirigentes "espíritas", sob o pretexto do "pão dos pobres".
No segundo caso, se permitia a popularização de um "católico sem batina" cujo apelo poderia ser "ecnumênico", atingindo, se possível, até os ateus. É um grande truque publicitário, que faria com que um ídolo religioso fosse adorado "sem pretensões" e "sem vínculos institucionais", ou seja, um ídolo religioso que ultrapassasse barreiras da própria religião "espírita", de forma a barrar a influência dos pastores eletrônicos das seitas neopentecostais, derivadas da pioneira Igreja Nova Vida.
Com isso, empurrava-se a adoração do moderno "velocino de ouro" que sempre foi Chico Xavier, alvo de doentias paixões religiosas (tão perigosas quanto as paixões do sexo e da fortuna) até para setores das esquerdas, em que pese o "médium" ter esculhambado os movimentos sociais, como camponeses e operários, na TV, e ter defendido a ditadura militar, pedindo para o povo orar em favor de generais (e, por conseguinte, torturadores) que "construiriam o reino de amor do futuro".
A "bondade" de Chico Xavier é tão fictícia quanto uma novela da Globo, pois vemos que sua "caridade" quase nada ajudou. Era muita ostentação para atos frouxos de mero Assistencialismo, parecidos com os que Luciano Huck faz ultimamente, que trazem muito pouca ajuda, não transformam a sociedade e só servem para a promoção pessoal do "benfeitor", idolatrado em excesso pelo muito pouco que fez.
Foi uma campanha tão bem construída que criou uma falsa unanimidade, o que mostra o quanto os efeitos da fábrica de consenso podem ser produzidos. A Globo determina que gíria deve ser falada ou que ídolo religioso deve simbolizar um paradigma de "bondade" que garanta o sossego dos privilegiados extremos, "resolvendo" a pobreza sem ameaçar as fortunas dos ricos e poderosos, e criando uma figura que se torna alvo de idolatria cega típica das mais mórbidas paixões religiosas.
As pessoas acabam achando tudo natural, assimilando o que a TV determina como se fosse a voz de suas próprias consciências. Isso é muito perigoso e mostra o quanto a mente de um executivo da Rede Globo pode, depois, se converter numa suposta vontade popular a ponto de ser endossada até mesmo por aqueles que aparentemente odeiam a emissora. Se a Rede Globo consegue exercer sua influência até nos seus detratores, isso significa um perigoso privilégio de poder. Um poder descomunal.
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