quinta-feira, 23 de março de 2017
Deturpação e roupagem científica
Dois textos - um deles até cita o nosso blogue - mostram o quanto o estranho fenômeno de Francisco Cândido Xavier, a pessoa mais blindada na História do Brasil, é sempre beneficiado por ressalvas aqui e ali. Como deturpador da Doutrina Espírita, no entanto, Chico Xavier não mereceria se tornar ídolo nem ser glorificado ou receber atenuantes aqui e ali do seu currículo deturpador.
Ele personifica os perigos que já haviam sido alertados no século XIX pelo espírito de Erasto, que exigiu maior vigilância quando o espírito ou o "médium" mistificador vier com "coisas boas". Os "espíritas" e simpatizantes da doutrina brasileira fingiram concordar com o grave conselheiro espiritual, mas foram surdos aos seus alertas.
Tudo virou uma construção de discurso de "bondade", que muitos pensam ser um exemplo de realidade iluminada, depositária de sentimentos de otimismo, esperança e progresso. do qual Chico Xavier e, por associação, Divaldo Franco e similares, se tornam seus símbolos. A partir deste discurso, não se permite desqualificação, quando tudo apenas descrição de passagens polêmicas de suas trajetórias.
Um texto publicado na revista Ipotesi, da Universidade Federal de Juiz de Fora, edição de julho a dezembro de 2012, mostra um texto de Alexandre Caroli Rocha, pesquisador de obras "espíritas" e doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, intitulado "Complicações de uma estranha autoria (O que se comentou sobre textos que Chico Xavier atribuiu a Humberto de Campos)".
Caroli tenta parecer neutro nas suas pesquisas. O texto é correto na forma discursiva de uma monografia, além de eficaz no aparato de neutralidade que garante o sono tranquilo da classe acadêmica. No entanto, a polêmica de Caroli se torna incompleta e inócua, por pelo menos dois aspectos:
1) Ele subestima a análise textual como recurso de verificação de veracidade ou fraude. Acha que os problemas das supostas psicografias devem ser considerados apenas se avaliar o fenômeno mediúnico e o processo da vida após a morte.
2) Ele ignora que a polêmica em torno da suposta psicografia de Chico Xavier foi incompleta, porque ficou no maniqueísmo da fraude e da "sobrecarga" de pastiches, desprezando o fato de que as imitações envolvendo vários autores mortos se deram por colaboração de terceiros, já que Chico tinha colaboradores na cúpula da FEB, na equipe editorial da federação e nas orientações de consultores literários.
3) Caroli parece quase taxativo em definir Chico Xavier apenas como "autor empírico" e não como "autor intelectual" dos textos, como se tivesse uma posição discretamente parcial, a favor da atribuição das "psicografias" aos autores espirituais alegados, deixando de lado o aspecto textual e esperando que uma teoria sobre o "além-túmulo" pudesse dar alguma "explicação".
Quanto ao primeiro item, a própria deturpação que atinge o Espiritismo no Brasil impede que sejam estudadas corretamente as questões de vida espiritual e paranormalidade. Cria-se uma mediunidade de faz de conta que só divulga propaganda religiosa em mensagens de valor bastante duvidoso. E se sonha uma vida espiritual através de cidades idealizadas, as "colônias espirituais", das quais não há uma hipótese cientificamente provável.
Evidentemente, a análise textual é um ponto de partida, mas ela é suficiente para apontar indícios de fraudes quando se conhece a biografia e os estilos de personalidade dos mortos em questão. O que também se deve analisar, e isso Caroli não parece se preocupar, é que não são as semelhanças, em si, que atestam veracidade nas obras ditas mediúnicas, mas a ausência de alguma diferença comprometedora.
Outro texto é "Pela Autenticidade de Parnaso de Além-Túmulo - Em Defesa de Chico Xavier", de Jorge Caetano Júnior, que se declara umbandista, tem livro publicado no Clube dos Autores - cada vez mais dominado por publicações religiosas, apesar de seu caráter independente - e se diz "imparcial" e "preocupado com questões técnicas e bases teóricas". Ele cita um texto deste blogue a respeito do Parnaso de Além-Túmulo de Francisco Cândido Xavier.
Ele tenta dar um argumento estranho para contestar nossa constatação de fraude no livro, como se confiasse cegamente em Chico Xavier. Considerando nossa avaliação como "errônea", ele tenta dar seu argumento, mais bondoso com o "médium" do que dotado de qualquer lógica ou bom senso:
"Digo erroneamente, já que, em nenhum momento, o médium assumiu em nome próprio a autoria dos poemas constantes do livro. Fosse mistificação, como poderia ser plágio? Seria um estranho caso de plágio às avessas, onde o plagiador atribui produção própria a terceiros".
Apenas o fato de uma pessoa "nunca assumir em nome próprio" a autoria dos poemas constantes, em si, não é atestado de que as autorias espirituais alegadas sejam verdadeiras. A tese de "plágio às avessas" também é muito estranha e confusa, porque é evidente que o interesse do suposto médium em usar terceiros para levar vantagem sobre uma obra "mais inusitada".
Quanto ao fato de um suposto médium "ter razão" só porque disse que não fez isso ou aquilo que lhe é atribuído mediante provas consistentes, vale lembrar de uma pergunta do espírito Erasto em O Livro dos Médiuns na seguinte questão, no capítulo 20, "Influência Moral dos Médiuns":
"6. Se as qualidades morais do médium afastam os Espíritos imperfeitos, porque um médium dotado de boas qualidades transmite respostas falsas ou grosseiras?
— Conheces todos os segredos da sua alma? Além disso, sem ser vicioso ele pode ser leviano e frívolo. E pode também necessitar de uma lição, para que se mantenha vigilante".
Embora Jorge Caetano também usasse uma roupagem "científica" no seu texto, ele parece bem menos objetivo. E confunde críticas e questionamentos a Chico Xavier com ataques pessoais. Jorge tenta ser "imparcial" e criticar o ufanismo de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, mas sonha em ver Parnaso de Além-Túmulo reconhecida como "obra autêntica".
Não se deve querer ou desejar que um livro de pastiches seja autêntico. O livro sofreu vários remendos, o que é inadmissível para um livro que se lança como uma mensagem acabada da espiritualidade. Se a obra fosse mesmo autêntica, teria se encerrado logo na primeira edição, ou, quando muito, tendo havido apenas uma outra edição para acréscimos em vez das correções ocorridas.
O que Jorge esqueceu é que, em maio de 1947, o próprio Chico Xavier "confessou o crime" quando, em carta a Antônio Wantuil de Freitas, agradeceu a ele e a um editor da FEB pela revisão dos textos para a edição definitiva do livro poético, admitindo o "médium" não ter tempo para analisar os "originais". E essa revelação se deu por acidente, trazido por uma adepta de Chico, Suely Caldas Schubert, no livro Testemunhos de Chico Xavier.
Jorge tenta alegar "autenticidade" através de "semelhança impressionante" sobre os diversos poemas publicados. E ele também se fundamenta no mito de que Chico Xavier fazia sozinho os livros quando se percebe que, na FEB, havia uma equipe editorial, e as imitações poéticas eram feitas a várias mãos e sob a consultoria de especialistas literários.
Evidentemente Chico Xavier não imitaria sozinho um número grande de poetas. Mas, em que pese as "semelhanças impressionantes", elas constituem em imitação. Ou alguém aceitaria uma "Auta de Souza" escrevendo com o estilo de Chico Xavier? Ou um Olavo Bilac perdido sem a métrica necessária? Vão dizer que Olavo Bilac ficou tão tomado de amor que se esqueceu do próprio estilo, ou doou o seu talento para a "caridade" e foi expressar a "linguagem universal do amor"?
A semelhança não é indicativo de veracidade. Em muitos poemas, há, mesmo sob semelhanças aparentemente mais fortes, contradições que põem em xeque a veracidade da obra. E, se ele parece impressionado com a "semelhança" entre o poema "Saudades", de Casimiro de Abreu, e "Terra", atribuído ao seu espírito, em que pese o lirismo deste, nota-se que a semelhança é de pastiche, mesmo, até porque não há como ver o estilo pessoal de Casimiro nele. Vejamos:
Trecho do poema “Saudades” de autoria de Casimiro de Abreu:
Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!
Nessas horas de silêncio,
De tristezas e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário
Que nos enche de pavor.
Trecho do poema “A Terra” atribuído ao Espírito Casimiro de Abreu:
Se há noite escura na Terra,
Onde rugem tempestades,
Se há tristezas, se há saudades,
Amargura e dissabor,
Também há dias dourados
De sol e de melodias,
Esperanças e alegrias,
Canções de eterno fulgor!
A Terra é um mundo ditoso,
Um paraíso de amores,
Jardim de risos e flores
Rolando no céu azul.
Um hino de força e vida
Palpita em suas entranhas,
Retumba pelas montanhas,
Ecoa de Norte a Sul.
Se botasse o poema "Terra" na autoria de, digamos, Gonçalves Dias ou Castro Alves, também se diria que é "o estilo pessoal de cada um deles". A estrutura poética que Jorge Caetano tanto define como "do estilo de Casimiro" é bastante superficial em temática para se assegurar alguma veracidade.
Há uma frase de Raimundo Magalhães Júnior, conhecido escritor do século XX, a respeito das imitações. E olha que ele foi tido pela FEB como um dos que "atestaram a veracidade mediúnica" de Chico Xavier, estando, a princípio, entre os neutros. Disse ele:
"Quem ler durante 60 dias, noite e dia, dia e noite, apenas Euclides da Cunha, escreverá no estilo de Euclides sem notável esforço, sem fazer uma ginástica mental muito dura."
Infelizmente, os partidários de Chico Xavier se usam até de roupagem científica ou intelectual para defender um "médium" que condenava o pensamento intelectual e o ato de questionar e contestar. Um caipira conservador, deturpador da Doutrina Espírita, e que é blindado como não se podia imaginar nos tempos de Kardec.
É triste que haja polêmicas assim, preocupando com a deificação de Chico Xavier, a ponto de rotular como "ataques" os questionamentos que o cercam. O Brasil é um país provinciano mesmo, preso em paixões religiosas, supostamente espiritualistas mas dotadas de abordagens materialistas. Ignorando coisas importantes como o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos e os alertas de Erasto, as pessoas são "espíritas" substituindo o cérebro pelo coração e pelo umbigo.
Assim, se protege demais um deturpador, e ainda se idealiza a "autenticidade" de um livro que sofreu reparos suspeitos. e ainda teve a revelação do próprio Chico Xavier de que o livro tinha a colaboração dos editores da FEB. Se revelar aspectos estranhos, obtidos à luz da análise, sobre Parnaso de Além-Túmulo, é "fazer ataque", então o problema não é nosso, mas naqueles que sentem medo quando os questionamentos avançam contra dogmas e totens consagrados por muitos.
terça-feira, 21 de março de 2017
O apego doentio aos entulhos sociais
O ANO QUE NÃO ACABOU, NO BRASIL.
O Brasil teima em não sair de 1974. Os retrocessos que pretendem recuperar, pelo menos, os padrões de democracia controlada e conservadorismo ideológico que vigoraram na transição dos governos dos generais Emílio Médici e Ernesto Geisel, que as elites julgam ser um período "equilibrado", estão à tona.
O apego aos entulhos sociais, aos valores retrógrados, ao ultraconservadorismo e a um misto de moralismo com truculência, revela o quanto o Brasil força uma marcha-a-ré existencial desesperada e sem freio, como se fosse um carro desgovernado andando para trás e descendo uma ladeira.
O cenário político de Michel Temer, que consiste numa gororoba que, mesmo num verniz "democrático", mistura vários momentos da ditadura militar, seja a implantação de projetos econômicos excludentes como os do governo Castelo Branco, seja a crise dos tempos do governo João Figueiredo, ilustra muito isso.
A decadência de vários setores associados a um privilégio social, do dinheiro à fama, do porte de armas ao prestígio religioso, revela o quanto velhos paradigmas estão prestes a cair e isso apavora muita gente. A zona de conforto de uma sociedade que acha que podia tudo está prestes a ruir, mas a ilusão de que a decadência pode ser contornada prevalece.
As redes sociais estão tomadas de profundo reacionarismo social. A vida política, combinando esquemas de corrupção e implantação de medidas impopulares. Na religião, o moralismo severo, a caridade paliativa que traz mais cartaz ao "benfeitor" do que benefícios aos necessitados.
As elites privilegiadas acham que podem tudo, que podem contornar as crises, que estão acima dos obstáculos. E isso é assustador, porque o "espírito do tempo" do Brasil hoje é uma espécie de "frente ampla" para o retrocesso, havendo a chamada "revolta do bolor".
É um apego doentio a paradigmas de moralismo, licensiosidade, impunidade, truculência, sempre garantindo os privilégios de uma sociedade conservadora que demonstra seus interesses injustos e movidos por conveniências.
Isso não é novo e faz com que ideias e movimentos novos aplicados no Brasil sempre sejam filtrados por algum aspecto das ideias e movimentos que deveriam ser obsoletos. É como se o "novo" negociasse com o "velho" para vigorar no Brasil, fazendo com que novidades acolham aspectos obsoletos, como edifícios novos construídos em andaimes velhos.
Um exemplo é o próprio feminismo, que precisa ser duplamente negociado com o machismo. Se a mulher não quer ser um objeto sexual, terá que se "emancipar" sob o patrocínio conjugal de um marido poderoso. Se ela topa ser um objeto sexual, ela fica dispensada da companhia de um marido ou namorado. É um artifício no qual o machismo sempre arruma jeito para sobreviver num cenário de aparente emancipação da mulher.
De um lado, a pornografia das musas "populares". Do outro, o obscurantismo religioso. De um lado, a repressão da Justiça a atividades em prol de informações sobre temas mais delicados. De outro, a impunidade de páginas ofensivas na Internet.
No "espiritismo", o que se vê é a radicalização de algo que já existia desde antes da fundação da FEB, o roustanguismo que era entusiasmado e ultimamente anda velado numa postura falsamente kardeciana.
Provando se aproximar cada vez mais do Catolicismo medieval por conta da defesa da Teologia do Sofrimento, o "espiritismo" parece apelar para o neo-roustanguismo, embora mantenha as evocações oportunistas e tendenciosas do nome de Allan Kardec.
Mantendo, no entanto, as contradições tão conhecidas nos últimos 40 anos, quando o "movimento espírita" tenta vender uma falsa imagem de "autenticamente kardeciana", é de praxe que os "espíritas", hoje tão criticados, esperem mais uma vez por uma retratação.
Isso porque o próprio "espiritismo" reflete a situação em que se vive, quando o Brasil, que sempre foi conservador, radicalizou essa postura nas últimas décadas, porém de forma mais explícita de 2016 para cá.
Temos que nos alertar porque a onda de ultraconservadorismo no Brasil é tanta que há quem ache 1974 uma época futurista demais, fazendo com que muitos pensem até em revogação da Lei Áurea, do Sete de Setembro ou até anular os progressos da vinda da família real portuguesa. Há quem queira ver o Brasil nas velhas condições coloniais e provincianas, diferindo apenas em contextos mais gerais.
O Brasil teima em não sair de 1974. Os retrocessos que pretendem recuperar, pelo menos, os padrões de democracia controlada e conservadorismo ideológico que vigoraram na transição dos governos dos generais Emílio Médici e Ernesto Geisel, que as elites julgam ser um período "equilibrado", estão à tona.
O apego aos entulhos sociais, aos valores retrógrados, ao ultraconservadorismo e a um misto de moralismo com truculência, revela o quanto o Brasil força uma marcha-a-ré existencial desesperada e sem freio, como se fosse um carro desgovernado andando para trás e descendo uma ladeira.
O cenário político de Michel Temer, que consiste numa gororoba que, mesmo num verniz "democrático", mistura vários momentos da ditadura militar, seja a implantação de projetos econômicos excludentes como os do governo Castelo Branco, seja a crise dos tempos do governo João Figueiredo, ilustra muito isso.
A decadência de vários setores associados a um privilégio social, do dinheiro à fama, do porte de armas ao prestígio religioso, revela o quanto velhos paradigmas estão prestes a cair e isso apavora muita gente. A zona de conforto de uma sociedade que acha que podia tudo está prestes a ruir, mas a ilusão de que a decadência pode ser contornada prevalece.
As redes sociais estão tomadas de profundo reacionarismo social. A vida política, combinando esquemas de corrupção e implantação de medidas impopulares. Na religião, o moralismo severo, a caridade paliativa que traz mais cartaz ao "benfeitor" do que benefícios aos necessitados.
As elites privilegiadas acham que podem tudo, que podem contornar as crises, que estão acima dos obstáculos. E isso é assustador, porque o "espírito do tempo" do Brasil hoje é uma espécie de "frente ampla" para o retrocesso, havendo a chamada "revolta do bolor".
É um apego doentio a paradigmas de moralismo, licensiosidade, impunidade, truculência, sempre garantindo os privilégios de uma sociedade conservadora que demonstra seus interesses injustos e movidos por conveniências.
Isso não é novo e faz com que ideias e movimentos novos aplicados no Brasil sempre sejam filtrados por algum aspecto das ideias e movimentos que deveriam ser obsoletos. É como se o "novo" negociasse com o "velho" para vigorar no Brasil, fazendo com que novidades acolham aspectos obsoletos, como edifícios novos construídos em andaimes velhos.
Um exemplo é o próprio feminismo, que precisa ser duplamente negociado com o machismo. Se a mulher não quer ser um objeto sexual, terá que se "emancipar" sob o patrocínio conjugal de um marido poderoso. Se ela topa ser um objeto sexual, ela fica dispensada da companhia de um marido ou namorado. É um artifício no qual o machismo sempre arruma jeito para sobreviver num cenário de aparente emancipação da mulher.
De um lado, a pornografia das musas "populares". Do outro, o obscurantismo religioso. De um lado, a repressão da Justiça a atividades em prol de informações sobre temas mais delicados. De outro, a impunidade de páginas ofensivas na Internet.
No "espiritismo", o que se vê é a radicalização de algo que já existia desde antes da fundação da FEB, o roustanguismo que era entusiasmado e ultimamente anda velado numa postura falsamente kardeciana.
Provando se aproximar cada vez mais do Catolicismo medieval por conta da defesa da Teologia do Sofrimento, o "espiritismo" parece apelar para o neo-roustanguismo, embora mantenha as evocações oportunistas e tendenciosas do nome de Allan Kardec.
Mantendo, no entanto, as contradições tão conhecidas nos últimos 40 anos, quando o "movimento espírita" tenta vender uma falsa imagem de "autenticamente kardeciana", é de praxe que os "espíritas", hoje tão criticados, esperem mais uma vez por uma retratação.
Isso porque o próprio "espiritismo" reflete a situação em que se vive, quando o Brasil, que sempre foi conservador, radicalizou essa postura nas últimas décadas, porém de forma mais explícita de 2016 para cá.
Temos que nos alertar porque a onda de ultraconservadorismo no Brasil é tanta que há quem ache 1974 uma época futurista demais, fazendo com que muitos pensem até em revogação da Lei Áurea, do Sete de Setembro ou até anular os progressos da vinda da família real portuguesa. Há quem queira ver o Brasil nas velhas condições coloniais e provincianas, diferindo apenas em contextos mais gerais.
domingo, 19 de março de 2017
"Nem todos os que dizem 'Senhor, Senhor' entrarão no Reino dos Céus"
DE TANTA DETURPAÇÃO, OS "ESPÍRITAS" ACABAM SE NIVELANDO AOS SACERDOTES FARISEUS TÃO REPROVADOS POR JESUS.
A deturpação da Doutrina Espírita feita no Brasil causou tantos estragos que representou um retrocesso em relação ao legado de Allan Kardec. Aliás, um retrocesso grave, do qual explicaremos em outra oportunidade, por não só ter feito uma afronta ao trabalho do pedagogo francês, mas também pelos valores medievais que a doutrina brasileira assimilou com muito gosto.
Sob a desculpa de "valorizar a religiosidade brasileira", os "espíritas" fizeram uma marcha-a-ré de tal forma que, assimilando o legado jesuíta do Catolicismo do Brasil colonial, mergulharam fundo na Idade Média e seus palestrantes acabam personificando a mesma extravagância dos antigos sacerdotes que haviam sido reprovados por Jesus de Nazaré em suas diversas conversas com as pessoas.
Ver que os "espíritas" se inclinam mais e mais com a Teologia do Sofrimento e, com toda a bajulação que fazem para Allan Kardec e até para Erasto, se afastam de seus ensinamentos e conselhos, é muito chocante. Mas constatar isso não é demonstração de ódio nem de intolerância, e, por outro lado, os "espíritas" devem também aceitar os efeitos danosos de suas péssimas escolhas.
Prestando atenção no que Jesus, Kardec e Erasto disseram e alertaram, somos obrigados a reconhecer, até em figuras tão adoradas por muitos, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, a personificação dos vícios e caprichos dos velhos sacerdotes que se arrogavam de sua falsa humildade, sonhando com tesouros no Céu.
Todos os aspectos negativos se foram notados em Chico Xavier e Divaldo Franco: ideias excêntricas aos postulados de Kardec, textos empolados, mistificação igrejeira, culto à personalidade, e por mais modestas as cerimônias nos eventos "espíritas", elas também apresentam uma pompa não menos presunçosa do que nos ritos católicos.
Ver que a deturpação do Espiritismo não se deu por boa-fé é estranho para muitos. Mas, pensemos: se os dois "médiuns" tão adorados e festejados foram "ingênuos" na compreensão errada da Doutrina Espírita, então por que eles publicaram centenas e centenas de trabalhos, por longos anos, transmitindo essa deturpação?
Não se faz algo sem querer com centenas de livros e uma longa carreira de palestras. A verdade é que os dois "médiuns" souberam, sim, o que estavam fazendo e há registros de Chico Xavier apoiando a deturpação do Espiritismo pela FEB e um histórico de irregularidades comprova claramente essa prática infeliz.
Atualmente, os palestrantes "espíritas" seguem o mesmo caminho. E tão se arrogam da pretensa humildade e da suposta caridade que ajuda tão pouca gente e serve mais para colocar o benfeitor no pedestal, que só falam para os mais ricos para elogiá-los e nunca cobrá-los qualquer tipo de ação em favor do próximo. Não raro se ouve "espíritas" dizerem em palestras que "os ricos estão cada vez mais ajudando as pessoas", sem que algo neste sentido se fosse observado na prática.
Não estamos fazendo ataques. Estamos fazendo as mesmas críticas severas que naturalmente Jesus de Nazaré, Allan Kardec e Erasto fariam, e eles talvez fossem mais severos nesse sentido. Deixemos a mania infantil de chorarmos quando os "médiuns" mais festejados estão sendo criticados, porque praticar o erro e se esconder sob o escudo do prestígio religioso é muito fácil.
Os brasileiros costumam se deixar dominar pelas paixões religiosas, que mostram emoções muito perigosas, criando uma ilusão de felicidade, lirismo e comoção, que, uma vez desfeita, gera muita raiva e rancor. O rancor não está nos que criticam os "médiuns" brasileiros dotados de culto à personalidade, mas da reação desesperada de seus próprios defensores, feridos pela queda brusca que tiveram do céu estrelado das fantasias religiosas.
Um exemplo de como Jesus, Kardec e Erasto poderiam reprovar Chico e Divaldo está em muitos aspectos observados nas obras kardecianas. Não se recomenda traduções da FEB e IDE, que reduzem o pedagogo francês a um pároco de província, mas a de José Herculano Pires, que se mantém fiel ao texto francês original.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 18, Muitos os Chamados e Poucos os Escolhidos, Kardec, comentando passagens do Novo Testamento, corroborou os ensinamentos de Jesus que soam como uma facada nos tão aclamados e blindados "espíritas" brasileiros. Vejamos o que diz o item 9:
"Todos os que confessam a missão de Jesus, dizem: Senhor, Senhor! Mas de que vale chamá-lo Mestre ou Senhor, quando não se seguem os seus preceitos? São cristãos esses que o honram através de atos exteriores de devoção, e ao mesmo tempo sacrificam no altar do egoísmo, do orgulho, da cupidez e de todas as suas paixões? São seus discípulos esses que passam os dias a rezar, e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com os seus semelhantes? Não, porque, à semelhança dos fariseus, têm a prece nos lábios e não no coração. Servindo-se apenas das formas, podem impor-se aos homens, mas não a Deus".
Os "espíritas" se servem das formas e se impõem aos homens de toda forma que estabelecem fascinação obsessiva entre os seguidores e traz subjugação àqueles que tentam investigá-los, como jornalistas, juristas, advogados e acadêmicos, que param no começo do caminho, intimidados pelo aparato de "bondade" que enverniza os deturpadores da Doutrina Espírita.
Lembrando das diferenças de contexto, já que os fariseus modernos capricham muito mais na forma e conseguem até mesmo usar o pretexto dos "bons sentimentos" para respaldar o igrejismo que corroeu o Espiritismo no Brasil, citemos outro trecho, deste mesmo parágrafo:
"É em vão que dirão a Jesus: “Senhor, nós profetizamos, ou seja, ensinamos em vosso nome; expulsamos os demônios em vosso nome; comemos e bebemos convosco!” Ele lhes responderá: “Não sei quem sois. Retirai-vos de mim, vós que cometeis iniquidade, que desmentis as vossas palavras pelas ações, que caluniais o próximo, que espoliais as viúvas e cometeis adultério! Retirai-vos de mim, vós, cujo coração destila ódio e fel, vós que derramais o sangue de vossos irmãos em meu nome, que fazeis correrem as lágrimas em vez de secá-las! Para vós, haverá choro e ranger de dentes, pois o Reino de Deus é para os que são mansos, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade de vossas palavras e de vossas genuflexões. A única via que está aberta, para alcançardes a graça em sua presença, é a da prática sincera da lei do amor e da caridade".
Pode ser que ações explicitamente cruéis não sejam cometidas pelos membros do "movimento espírita", mas a iniquidade existe na maneira em que os "espíritas" não só não se arrependem pela deturpação feita ao trabalhoso legado de Kardec, que deu à doutrina brasileira um caráter de profunda desonestidade em relação à obra kardeciana, como tentam camuflar seus erros e distorções através da bajulação barata ao pedagogo francês, que se intensificou nos últimos anos.
A iniquidade existe quando o "espiritismo" chega a apelar pela pieguice, através de citações tão tendenciosas de ideias de "amor", "caridade" e "fraternidade". "Sejamos irmãos pela deturpação", é o que eles acabam demonstrando. Sermos "fraternos" no erro, cúmplices na distorção dos ensinamentos de Kardec, que no Brasil se reduziu a um padreco de igreja dessas cidades do interior controladas pelo coronelismo.
Desmentem as palavras pelas ações, pois o malabarismo espetacular das belas palavras, que tanto enchem de dinheiro os palestrantes "espíritas", a pregar aos sofredores a aceitação do sofrimento, é desmentido pela prática, pois os próprios palestrantes, tidos como "sábios", nunca aceitariam as desgraças que, "bondosamente", recomendam aos outros.
Querem disfarçar a deturpação com suposta filantropia, um roteiro de pequenas caridades paliativas, que só teriam sentido em países arrasados pela guerra, onde o "pouco" parece "muito" diante do "nada", mas num país como o Brasil, em que se pode fazer mais, "pouco" é "quase nada". E, além disso, se vê que essa "caridade" é mais festejada que praticada, colocando o "benfeitor" acima até mesmo da própria ação filantrópica, ajudando mais ele do que os mais necessitados.
É chocante, mas Chico Xavier e Divaldo Franco apresentam aspectos que causariam em Jesus o mesmo constrangimento que ele sentia em relação aos sacerdotes e escribas do seu tempo. A postura extravagante, o discurso empolado, o aparato de "superioridade moral", ou mesmo a pretensa humildade que dissimula o culto à personalidade muito comum entre os "médiuns" brasileiros, tudo isso já havia sido alertado em outros tempos por Jesus, Kardec e Erasto.
O Brasil tem a mania de dissimular as coisas. O país é dominado pelas paixões religiosas, verdadeiras orgias sem sexo, sem dinheiro, sem drogas, mas tão levianas, tão entorpecentes e tão perigosas na sedução das emoções e dos instintos, em que os êxtases não são sexuais, havendo a "masturbação dos olhos" pela comoção fácil por um mero balé de palavras bonitinhas e imagens de apelo sentimentalista, alegres ou tristes.
O grande desafio é superar as paixões religiosas, em vez de apoiar a ilusão de uma minoria de homens e mulheres que, apoiados pelo prestígio religioso - que simboliza pretensas glórias tão terrenas quanto os bacanais da fortuna e da pornografia - , acham que ganharam o passaporte para o Céu ou, na pior das hipóteses, estão com o caminho encurtado para o Paraíso. E justamente eles, que aceitam e até defendem que os sofredores percam encarnações inteiras com desgraças...
A deturpação da Doutrina Espírita feita no Brasil causou tantos estragos que representou um retrocesso em relação ao legado de Allan Kardec. Aliás, um retrocesso grave, do qual explicaremos em outra oportunidade, por não só ter feito uma afronta ao trabalho do pedagogo francês, mas também pelos valores medievais que a doutrina brasileira assimilou com muito gosto.
Sob a desculpa de "valorizar a religiosidade brasileira", os "espíritas" fizeram uma marcha-a-ré de tal forma que, assimilando o legado jesuíta do Catolicismo do Brasil colonial, mergulharam fundo na Idade Média e seus palestrantes acabam personificando a mesma extravagância dos antigos sacerdotes que haviam sido reprovados por Jesus de Nazaré em suas diversas conversas com as pessoas.
Ver que os "espíritas" se inclinam mais e mais com a Teologia do Sofrimento e, com toda a bajulação que fazem para Allan Kardec e até para Erasto, se afastam de seus ensinamentos e conselhos, é muito chocante. Mas constatar isso não é demonstração de ódio nem de intolerância, e, por outro lado, os "espíritas" devem também aceitar os efeitos danosos de suas péssimas escolhas.
Prestando atenção no que Jesus, Kardec e Erasto disseram e alertaram, somos obrigados a reconhecer, até em figuras tão adoradas por muitos, como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, a personificação dos vícios e caprichos dos velhos sacerdotes que se arrogavam de sua falsa humildade, sonhando com tesouros no Céu.
Todos os aspectos negativos se foram notados em Chico Xavier e Divaldo Franco: ideias excêntricas aos postulados de Kardec, textos empolados, mistificação igrejeira, culto à personalidade, e por mais modestas as cerimônias nos eventos "espíritas", elas também apresentam uma pompa não menos presunçosa do que nos ritos católicos.
Ver que a deturpação do Espiritismo não se deu por boa-fé é estranho para muitos. Mas, pensemos: se os dois "médiuns" tão adorados e festejados foram "ingênuos" na compreensão errada da Doutrina Espírita, então por que eles publicaram centenas e centenas de trabalhos, por longos anos, transmitindo essa deturpação?
Não se faz algo sem querer com centenas de livros e uma longa carreira de palestras. A verdade é que os dois "médiuns" souberam, sim, o que estavam fazendo e há registros de Chico Xavier apoiando a deturpação do Espiritismo pela FEB e um histórico de irregularidades comprova claramente essa prática infeliz.
Atualmente, os palestrantes "espíritas" seguem o mesmo caminho. E tão se arrogam da pretensa humildade e da suposta caridade que ajuda tão pouca gente e serve mais para colocar o benfeitor no pedestal, que só falam para os mais ricos para elogiá-los e nunca cobrá-los qualquer tipo de ação em favor do próximo. Não raro se ouve "espíritas" dizerem em palestras que "os ricos estão cada vez mais ajudando as pessoas", sem que algo neste sentido se fosse observado na prática.
Não estamos fazendo ataques. Estamos fazendo as mesmas críticas severas que naturalmente Jesus de Nazaré, Allan Kardec e Erasto fariam, e eles talvez fossem mais severos nesse sentido. Deixemos a mania infantil de chorarmos quando os "médiuns" mais festejados estão sendo criticados, porque praticar o erro e se esconder sob o escudo do prestígio religioso é muito fácil.
Os brasileiros costumam se deixar dominar pelas paixões religiosas, que mostram emoções muito perigosas, criando uma ilusão de felicidade, lirismo e comoção, que, uma vez desfeita, gera muita raiva e rancor. O rancor não está nos que criticam os "médiuns" brasileiros dotados de culto à personalidade, mas da reação desesperada de seus próprios defensores, feridos pela queda brusca que tiveram do céu estrelado das fantasias religiosas.
Um exemplo de como Jesus, Kardec e Erasto poderiam reprovar Chico e Divaldo está em muitos aspectos observados nas obras kardecianas. Não se recomenda traduções da FEB e IDE, que reduzem o pedagogo francês a um pároco de província, mas a de José Herculano Pires, que se mantém fiel ao texto francês original.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 18, Muitos os Chamados e Poucos os Escolhidos, Kardec, comentando passagens do Novo Testamento, corroborou os ensinamentos de Jesus que soam como uma facada nos tão aclamados e blindados "espíritas" brasileiros. Vejamos o que diz o item 9:
"Todos os que confessam a missão de Jesus, dizem: Senhor, Senhor! Mas de que vale chamá-lo Mestre ou Senhor, quando não se seguem os seus preceitos? São cristãos esses que o honram através de atos exteriores de devoção, e ao mesmo tempo sacrificam no altar do egoísmo, do orgulho, da cupidez e de todas as suas paixões? São seus discípulos esses que passam os dias a rezar, e não se tornam melhores, nem mais caridosos, nem mais indulgentes para com os seus semelhantes? Não, porque, à semelhança dos fariseus, têm a prece nos lábios e não no coração. Servindo-se apenas das formas, podem impor-se aos homens, mas não a Deus".
Os "espíritas" se servem das formas e se impõem aos homens de toda forma que estabelecem fascinação obsessiva entre os seguidores e traz subjugação àqueles que tentam investigá-los, como jornalistas, juristas, advogados e acadêmicos, que param no começo do caminho, intimidados pelo aparato de "bondade" que enverniza os deturpadores da Doutrina Espírita.
Lembrando das diferenças de contexto, já que os fariseus modernos capricham muito mais na forma e conseguem até mesmo usar o pretexto dos "bons sentimentos" para respaldar o igrejismo que corroeu o Espiritismo no Brasil, citemos outro trecho, deste mesmo parágrafo:
"É em vão que dirão a Jesus: “Senhor, nós profetizamos, ou seja, ensinamos em vosso nome; expulsamos os demônios em vosso nome; comemos e bebemos convosco!” Ele lhes responderá: “Não sei quem sois. Retirai-vos de mim, vós que cometeis iniquidade, que desmentis as vossas palavras pelas ações, que caluniais o próximo, que espoliais as viúvas e cometeis adultério! Retirai-vos de mim, vós, cujo coração destila ódio e fel, vós que derramais o sangue de vossos irmãos em meu nome, que fazeis correrem as lágrimas em vez de secá-las! Para vós, haverá choro e ranger de dentes, pois o Reino de Deus é para os que são mansos, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade de vossas palavras e de vossas genuflexões. A única via que está aberta, para alcançardes a graça em sua presença, é a da prática sincera da lei do amor e da caridade".
Pode ser que ações explicitamente cruéis não sejam cometidas pelos membros do "movimento espírita", mas a iniquidade existe na maneira em que os "espíritas" não só não se arrependem pela deturpação feita ao trabalhoso legado de Kardec, que deu à doutrina brasileira um caráter de profunda desonestidade em relação à obra kardeciana, como tentam camuflar seus erros e distorções através da bajulação barata ao pedagogo francês, que se intensificou nos últimos anos.
A iniquidade existe quando o "espiritismo" chega a apelar pela pieguice, através de citações tão tendenciosas de ideias de "amor", "caridade" e "fraternidade". "Sejamos irmãos pela deturpação", é o que eles acabam demonstrando. Sermos "fraternos" no erro, cúmplices na distorção dos ensinamentos de Kardec, que no Brasil se reduziu a um padreco de igreja dessas cidades do interior controladas pelo coronelismo.
Desmentem as palavras pelas ações, pois o malabarismo espetacular das belas palavras, que tanto enchem de dinheiro os palestrantes "espíritas", a pregar aos sofredores a aceitação do sofrimento, é desmentido pela prática, pois os próprios palestrantes, tidos como "sábios", nunca aceitariam as desgraças que, "bondosamente", recomendam aos outros.
Querem disfarçar a deturpação com suposta filantropia, um roteiro de pequenas caridades paliativas, que só teriam sentido em países arrasados pela guerra, onde o "pouco" parece "muito" diante do "nada", mas num país como o Brasil, em que se pode fazer mais, "pouco" é "quase nada". E, além disso, se vê que essa "caridade" é mais festejada que praticada, colocando o "benfeitor" acima até mesmo da própria ação filantrópica, ajudando mais ele do que os mais necessitados.
É chocante, mas Chico Xavier e Divaldo Franco apresentam aspectos que causariam em Jesus o mesmo constrangimento que ele sentia em relação aos sacerdotes e escribas do seu tempo. A postura extravagante, o discurso empolado, o aparato de "superioridade moral", ou mesmo a pretensa humildade que dissimula o culto à personalidade muito comum entre os "médiuns" brasileiros, tudo isso já havia sido alertado em outros tempos por Jesus, Kardec e Erasto.
O Brasil tem a mania de dissimular as coisas. O país é dominado pelas paixões religiosas, verdadeiras orgias sem sexo, sem dinheiro, sem drogas, mas tão levianas, tão entorpecentes e tão perigosas na sedução das emoções e dos instintos, em que os êxtases não são sexuais, havendo a "masturbação dos olhos" pela comoção fácil por um mero balé de palavras bonitinhas e imagens de apelo sentimentalista, alegres ou tristes.
O grande desafio é superar as paixões religiosas, em vez de apoiar a ilusão de uma minoria de homens e mulheres que, apoiados pelo prestígio religioso - que simboliza pretensas glórias tão terrenas quanto os bacanais da fortuna e da pornografia - , acham que ganharam o passaporte para o Céu ou, na pior das hipóteses, estão com o caminho encurtado para o Paraíso. E justamente eles, que aceitam e até defendem que os sofredores percam encarnações inteiras com desgraças...
sexta-feira, 17 de março de 2017
Texto "espírita" faz apologia ao sofrimento e contradiz ensinamentos de Jesus
O "espiritismo" brasileiro deturpou tanto o legado de Allan Kardec que, tentando alcançar, na marcha-a-ré religiosa, as tradições do Catolicismo jesuíta brasileiro, retrocedeu para os padrões medievais do Catolicismo Apostólico Romano.
Se afastando, na prática, dos postulados originais de Kardec, apesar de seu nome ser muito bajulado pelos palestrantes "espíritas", a doutrina brasileira optou por ser uma "lixeira" da Igreja Católica. O "espiritismo" acolheu em seus postulados desenvolvidos no Brasil valores já considerados obsoletos pelos católicos, como a apologia ao sofrimento, na qual existe até uma ideologia, a Teologia do Sofrimento.
Essa ideologia não era compartilhada por todos os católicos, mas tem origem na Idade Média, através das pregações dos sacerdotes da época. Nos últimos tempos, a Teologia do Sofrimento foi difundida, no século XIX, por Teresa de Lisieux e, mundialmente, por Madre Teresa de Calcutá, no século XX.
No Brasil, ocorre uma coisa gozada. Há defensores católicos da Teologia do Sofrimento, como o padre João Mohana, já falecido, autor do livro Sofrer e Amar, mas a ideologia, sem que seu nome fosse assumido um só momento, foi popularizada não entre os católicos, mas entre os "espíritas", através de Francisco Cândido Xavier. Sim, isso mesmo, Chico Xavier, em suas obras, pregava a Teologia do Sofrimento, com suas próprias palavras.
E uma comprovação de que a Teologia do Sofrimento domina mais o movimento "espírita" do que mesmo as interpretações distorcidas das ideias de Allan Kardec é o texto que o jornalista e escritor "espírita" de Muriaé, Rogério Coelho, publicou e que, em parte, foi reproduzido na página de outro escritor, Orson Peter Carrara. Como Rogério, Carrara também expressou ideias próprias da Teologia do Sofrimento em outras oportunidades.
O texto em questão foi publicado nesta página. São argumentos próprios da Teologia do Sofrimento, já defendidos pelos católicos, que se resumem assim: "Ninguém nasceu para sofrer, mas é necessário amar o sofrimento como meio de encurtar o caminho para Deus e merecer a obtenção de bênçãos futuras". Muito bonito no discurso, mas falar é fácil.
Um trecho que chama muita a atenção no texto de Rogério é um parágrafo que, em si, é de uma preocupante gravidade. Além de confirmar a identificação com as ideias da Teologia do Sofrimento - algo que não pode ser desmentido pelos "espíritas", porque aí seria negar o que fazem - , o trecho revela uma perversidade que contradiz os ensinamentos de Jesus. Vejamos:
"Utiliza-te da sua metodologia para o mais breve triunfo que te cumpre alcançar.
Aquele que se arrepende de um mal, está aflito; aquele que se encoleriza, sofre aflição; quem persegue, padece agonia; quem inveja extremunha-se e chora; quem odeia, galvaniza-se sob o açodar da fúria e combure-se nos altos fornos do desequilíbrio que gera. Estes não serão, por enquanto, consolados. Somente quando a consciência da dor os faça amar, submetendo-os à Divina Vontade, encontrarão na aflição a felicidade por que anelam".
Rogério caiu em contradição. Principalmente em relação ao arrependimento de um mal. No decorrer do parágrafo, o escritor contradiz a própria frase de Jesus: "Bem aventurados os que choram (aflitos), porque serão consolados", ao afirmar que "aquele que se arrepende de um mal, está aflito", e, por isso, "não será consolado", a não ser que encontre na aflição "a felicidade".
O próprio apelo de "amar o sofrimento" vai contra o Pai Nosso, oração que se atribui autoria a Jesus de Nazaré, que pede a Deus "não deixar alguém cair em tentação, mas a livre do mal". Se Jesus falava em "livrar do mal", por que se tem que "amar a desgraça" usando os próprios infortúnios como trampolim para a premiação celestial?
É muita contradição. E isso vai contra os próprios ritos católicos, expressando o quando o "espiritismo" brasileiro, na sua busca desesperada pela palavra final e pela presunção de coerência, cai em contradição o tempo todo, a partir de sua própria catolicização que o fez afastar dos ensinamentos do mesmo Allan Kardec bajulado o tempo todo.
Isso porque o próprio Catolicismo enfatiza o arrependimento pelo mal, e, fora das abordagens medievais da Teologia do Sofrimento, não há uma apologia ao masoquismo religioso do amor às desgraças. A glamourização da desgraça humana acaba indo contra os ensinamentos de Jesus, até porque a ênfase na aceitação do sofrimento se aproxima mais do moralismo severo daqueles que o condenaram ao martírio da cruz.
Evidentemente "espíritas" como Rogério e Orson vão tentando desfazer mal-entendidos aqui e ali e até renegar, se possível, a Teologia do Sofrimento, ou considerar "cruel" associar esta ideologia a Chico Xavier.
Mas o que está feito, está feito, em palavras das mais explícitas, e se observa claramente que o "espiritismo" brasileiro está mais preocupado em ser um receituário medieval de ideias moralistas católicas. Difícil desmentir isso com seu malabarismo de palavras bonitas, mas desprovidas de lógica e consistência.
quarta-feira, 15 de março de 2017
Chico Xavier e o vitimismo ante as críticas duras
Criticar Francisco Cândido Xavier não e fazer ataques. É simplesmente mostrar os erros graves que ele cometeu, e que desmerecem todo o mito que as pessoas cultuam dele, movido pelas paixões religiosas.
Pouco importa se esse mito se mostra sob a imagem de um suposto profeta ou de uma pretensa reencarnação de Allan Kardec, ou se ele é apenas visto como filantropo ou, por outros, como também um filósofo. Todos esses mitos, na verdade idealizações de cunho materialista, são seriamente levianos e legitimam a reputação de um sério deturpador da Doutrina Espírita.
A atitude de coitadismo ou vitimismo, que Chico Xavier teve em vida e, postumamente, é evocada ou herdada pelos seus chorosos seguidores, revela o quanto o deslumbramento religioso e o apego obsessivo a um ídolo da fé igrejista, símbolo de uma suposta bondade que nunca produziu um resultado profundo - se tivesse, nosso país não teria sucumbido ao desastre político e social de hoje - se tornam perigosos, sendo fontes de sentimentos obsessivos de seus adeptos fervorosos.
Há que se criticar tudo no "espiritismo" brasileiro e os adeptos dessa religião, sobretudo adoradores de Chico Xavier e Divaldo Franco, podem se acostumar e pegar seus baldes por onde derramarão lágrimas de chocante desilusão. Afinal, há toda uma rede de contradições, equívocos e prejuízos que precisam ser contestados e analisados, e isso não é uma demonstração de ódio, mas de preocupação com a lógica e o bom senso.
Se for para os chiquistas se revoltarem contra o "tóxico do intelectualismo" ou "overdose de raciocínio", que tal eles manifestarem toda sua raiva contra o próprio Allan Kardec, que sempre se preocupou com o debate e a coerência e não aprovava os devaneios e demais caprichos do deslumbramento religioso?
Manifestem, da mesma forma, contra o espírito Erasto, que falou sobre os "inimigos internos do Espiritismo" e pediu vigilância quando os mistificadores transmitirem "coisas boas", porque as usam para inserir ideias desprovidas de lógica e coerência.
O coitadismo era usado por Chico Xavier para se livrar de acusações de fraude e deturpação do Espiritismo. Era um meio de forçar a comoção da opinião pública, se aproveitando da sua aparência de caipira e, depois, de velhinho doente. Ele caprichava nas poses de tristonho e falava coisas como "não vamos botar querosene nesse incêndio".
A verdade, porém, é que, em muitos momentos, Chico Xavier era incapaz de provar seus equívocos e irregularidades. A gente lê os livros "psicográficos" e vê diferentes autores "pensando igual" a Chico Xavier e estranha, mas não pode criticar nem apontar fraude, porque Chico e seus adeptos (e, nos últimos anos, apenas estes) vão cair na choradeira.
Os "espíritas" estão desesperados porque, a cada dia, lhes são cobrados posturas de coerência, lógica e bom senso que eles dizem ter mas não possuem. E a cada dia, quando criticados, eles reagem com coitadismo, chegando mesmo a comparar as críticas duras que recebem à inquisição medieval ou à arena de leões famintos nos tempos do Império Romano.
Isso é um contrassenso. Afinal, os próprios "espíritas" se revelam medievais, e isso se comprova pela natureza histórica, pela herança que receberam do movimento jesuíta do Brasil colonial, que inseriu no "espiritismo" brasileiro até mesmo a retrógrada Teologia do Sofrimento.
A "fase dúbia" do "movimento espírita", surgida sob o pretexto de equilibrar Ciência e Fé e conciliar científicos e místicos, se revelou ainda mais contraditória, na medida em que nunca se decidiu entre ser fiel a Allan Kardec e ser devoto do igrejismo. Fazia uma coisa e fazia outra, como que em vida dupla.
Outra aberração é costurar cientificismo e igrejismo com o cordão frágil da pretensa filantropia. Uma "caridade" em que se vê claramente que o "benfeitor", glorificado pelo prestígio religioso, se coloca acima dos beneficiados, que são poucos e recebem tão poucos benefícios, que os beatos do "movimento espírita" dizem ser "muitos", sem trazer dados concretos para tanto.
Não há como recorrer ao vitimismo. O "espiritismo" está sendo cobrado pelos seus erros diversos e, não raro, gravíssimos, que cometeu em sua trajetória. São erros que, quando as conveniências permitiam, eram apoiados e feitos com prazer e propósito. Mas, na medida em que são descobertos e denunciados, seus praticantes reagem com choradeira e cabeça baixa.
Isso não dá para admitir. Até porque é esse vitimismo que permitiu o prolongamento da deturpação do Espiritismo, ultimamente sob a dissimulação de suposta fidelidade ao legado de Kardec. Os "espíritas" deveriam imaginar se seria bom Allan Kardec se sentir traído e descrever, uma por uma, as irregularidades do "espiritismo" brasileiro. Vai haver mais choradeira com isso?
segunda-feira, 13 de março de 2017
"Espiritismo" e os limites que impõe à Ciência
O "espiritismo" brasileiro, como tenta se passar por uma adaptação da Doutrina Espírita de Allan Kardec, apesar da raiz ter-se fundamentado nos postulados do deturpador Jean-Baptiste Roustaing, tenta manter todo um jogo de aparências para se aproximar, aos olhos dos incautos, da essência do Espiritismo original francês.
Portanto, o "espiritismo" brasileiro faz tudo para parecer uma doutrina intelectualizada, amiga da Ciência e da Filosofia, defensora do pensamento questionador e da análise científico-filosófica, em prol da busca do Conhecimento.
Mas isso é apenas uma aparência e um simulacro, pois, no conteúdo dado pelo "espiritismo" brasileiro, observa-se que seus postulados mais estabelecem limites do que amplitudes ao pensamento científico-filosófico, e as restrições não são muito difíceis de serem identificadas.
Observando os textos "espíritas" que evocam temas científicos ou filosóficos, notamos que as retóricas seguem um caminho comum, o de passar a introdução e o desenvolvimento do referido texto (podendo ser artigo, livro ou documentário, entre outras formas textuais) trazendo uma aparência de intelectualizado, para no final trazer uma conclusão igrejista e pretensamente "pacifista" (no sentido igrejeiro do termo) e "fraternal".
A intenção do "espiritismo", quando aborda personagens, fatos e conceitos científicos, é usar a Ciência para sustentar seu igrejismo. Dentro desses limites, a Ciência é sempre bem vinda, quando ela se serve aos caprichos da fé religiosa, sob o pretexto de "promover a fraternidade e a união entre as pessoas", ideia que é eufemismo para o ato de atrair fiéis a esta doutrina igrejeira.
Quando a Ciência não ultrapassa os limites impostos pela Religião, os "espíritas" apoiam a atividade científica totalmente. Quando filósofos se ocupam em temas arbitrários, como o Ser e o Existir, ou quando denunciam a opressão explícita das ações bélicas que devastam cidades, o "espiritismo" bate palmas e apoia amplamente.
Da mesma forma, quando cientistas pesquisam doenças de difícil cura, como AIDS e vários tipos de câncer, ou, em outras áreas, fazem cálculos sobre as relações entre miséria e produtividade industrial, os "espíritas" aceitam livremente.
É certo que, nos casos das doenças, existe a aparente concorrência da "medicina mediúnica", feita de maneira improvisada e adotando métodos duvidosos nos quais se sonega o diálogo entre a Ciência da Terra e a espiritualidade, preferindo práticas "inexplicáveis" de cirurgias, nas quais se insere uma tesoura ou faca, às vezes contaminadas, no estômago de alguém, para tirar um caroço que se acredita ser um tumor.
Mesmo assim, o "espiritismo" não pode reagir com intolerância à "medicina da Terra". Até porque vemos episódios como o "médium" goiano João Teixeira de Faria, o João de Deus, tendo que recorrer à "ciência terrestre" para se curar de um câncer. "Barbeiro corta o próprio cabelo?", indagou João de Deus, quando se perguntou por que ele não fez autocirurgia.
Quando a Ciência, no entanto, passa a invadir os terrenos da Religião e questiona os paradigmas da fé e do misticismo, os "espíritas" já reagem com alarmismo. Termos maledicentes como "intoxicação do intelectualismo", "impaciência da Ciência" e "overdose de raciocínio" surgem de "espíritas" revoltados, que se sentem ameaçados em ter seus dogmas e ritos contestados pelo raciocínio questionador e investigativo.
Mesmo diante de irregularidades desmontadas pela lógica e pela coerência das investigações questionadoras, como é o caso de supostas psicografias como o famoso caso Humberto de Campos, os "espíritas" tentam camuflar as irregularidades dizendo que as "diferenças de estilo" são "meras impressões" terrenas diante da "linguagem universal do amor".
Chegam os "espíritas" a argumentarem que, se uma mensagem "psicográfica" difere do estilo ou mostra algum aspecto pessoal diferente do morto a que se atribui autoria, é porque "certos detalhes escapam das condições limitadas do raciocínio humano", como se confundisse falta de lógica com mistérios que a Ciência "não consegue resolver".
Ainda no caso Humberto de Campos, o que se observa é que o estilo que se nota nas obras "espirituais" que levam seu nome é totalmente diferente do estilo deixado pelo autor em vida (mesmo em publicações póstumas). E isso é fácil de observar comparando obras trazidas por Francisco Cândido Xavier com o acervo original de Humberto de Campos.
Mas como Chico Xavier é a pessoa mais blindada do país, qualquer irregularidade relacionada a ele é aceita por seus seguidores sem reservas. E nota-se, nas suas pregações ideológicas, um aspecto que facilmente pode ser identificado como contrário aos postulados originais de Allan Kardec.
Note-se que, em seu tempo, Allan Kardec sempre convidava as pessoas para o debate e o questionamento. Ele se oferecia para ser questionado, mas mediante argumentos lógicos. Chegou mesmo a dizer que, se for comprovada alguma ideia no Espiritismo que não estiver de acordo aos procedimentos lógicos da Ciência, que preferisse a Ciência ao Espiritismo.
Kardec lidava com um dado novo, a Ciência Espírita, no qual se esforçou em codificar e entender com o maior nível de abrangência possível e procurando dar aos conhecimentos uma contemporaneidade de entendimento.
Como legado, criou o C. U. E. E., Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos, para atualizar e ampliar as compreensões da Ciência Espírita, pois em seu tempo os recursos de Comunicação, por exemplo, ainda estavam limitados à fotografia. O rádio, a televisão, o cinema e a informática surgiram depois do falecimento do pedagogo francês.
Isso é muito diferente de Chico Xavier, que, do contrário de Kardec, renegava o debate. O anti-médium brasileiro passou o tempo todo apelando para as pessoas não questionarem, não contestarem, não julgarem, embora contraditoriamente dizia "apoiar a busca e a transmissão de Conhecimento".
Xavier criou um engodo conceitual marcado de misticismo religioso e moralismo conservador, e toda aquela promessa vã de "transmitir Conhecimento" não passou de conversa para boi dormir.
Diante de tantos equívocos conceituais e de prática "mediúnica", Xavier pedia para "ninguém contestar" até por causa própria, visando salvar sua pele, no seu arrivismo de, como "astro do espiritismo no Brasil", se ascender como ídolo religioso e virar unanimidade nacional, se aproveitando dos paradigmas de religiosidade muito comum entre os brasileiros.
A falsa apreciação da Ciência e da Filosofia servem apenas para sustentar "intelectualmente" os dogmas religiosos do "espiritismo" brasileiro. Servem, também, para garantir a fachada do "movimento espírita" como uma doutrina "intelectualizada", forjando um diferencial na competição religiosa diante dos evangélicos neopentecostais e de modernas correntes da Igreja Católica como a Renovação Carismática.
Mas, provando seu conservadorismo, o "espiritismo" brasileiro estabelece limites para o pensamento científico-filosófico, apenas atualizando, com leve concessão, a discriminação da atividade científica e intelectual pelo Catolicismo da Idade Média, não mais banindo tal atividade, mas estabelecendo restrições à sua ação.
Assim, a Ciência e a Filosofia só são bem vindas quando se limitam às suas especialidades ou colaboram para confirmar dogmas e ritos religiosos do "espiritismo" igrejeiro. Quando se recusam a essa última tarefa, essas duas áreas do Conhecimento humano são amaldiçoadas pelos "espíritas", que no seu juízo de valor acusam o ato de pensar como "excessivo" quando se coloca a lógica acima da fé, o saber acima da crença.
sábado, 11 de março de 2017
Chico Xavier usou Humberto de Campos Filho para abafar processo judicial
O processo dos herdeiros de Humberto de Campos contra Francisco Cândido Xavier e a FEB poderia ter saído vitorioso. As supostas psicografias de Chico Xavier revelam claramente irregularidades de estilo e outros aspectos relacionados aos autores mortos alegados, que apenas uma leitura atenta pode comprovar a fraude, para desespero de Alexandre Caroli Rocha, um "especialista em análise textual" que se recusava a fazer análise textual para verificar as "obras mediúnicas".
No entanto, havia dois problemas. Um foi o enunciado da ação judicial, que pedia à Justiça analisar se havia veracidade ou não nas obras "psicografadas" sob o nome de Humberto de Campos. Outro era a compreensão estreita dos juízes que avaliaram o caso, que apenas usaram como base teórica a questão dos direitos autorais.
No primeiro problema, a situação complicou para os herdeiros. Afinal, no caso da "psicografia" ser considerada autêntica, os familiares receberiam o dinheiro dos direitos autorais, participando do lucro da venda dos livros sob o nome do escritor. No caso de ser considerada fraude, Chico Xavier e a FEB teriam que indenizar os familiares do falecido autor. Isso fez os "espíritas" definirem, injustamente, os herdeiros de Humberto de Campos como "gananciosos" e "mercenários".
No segundo problema, os juízes, limitados a essa interpretação estreita, só entenderam o caso como uma questão de quem se responsabilizaria pelos direitos autorais de obras ditas "do além-túmulo". Algumas interpretações remetem ao "médium" a responsabilidade dos direitos, na condição de "autor empírico", o que seria uma festa para Chico Xavier, apesar do processo ter gerado num empate técnico.
Em todo caso, o empate fez o mito de Chico Xavier crescer e, com a memória curta das pessoas, que consagram imagens e estereótipos tardios e dóceis de quem esconde um passado mais sombrio, esse mito passou a crescer de forma descontrolada, a ponto de, praticamente, muitos considerarem a ideia de "verdade" privatizada: seu proprietário é Francisco Cândido Xavier e seus discípulos e herdeiros mais próximos.
O que poucos se lembram é que os herdeiros de Humberto de Campos, representados pelo advogado Milton Barbosa - o advogado da FEB, por outro lado, foi Miguel Timponi - , chegaram a recorrer da sentença, enquanto Chico Xavier teria que eliminar o nome de Humberto para "evitar maiores dissabores", usando, a título de paródia, o pseudônimo "Irmão X", imitação parcial de um dos pseudônimos que Humberto havia lançado em vida, o Conselheiro XX.
Sob o novo nome, Chico Xavier lançou o livro Lázaro Redivivo, em 1945, o primeiro dessa nova fase, na qual o nome de Humberto de Campos só era "reconhecido" nos meios "espíritas". A obra, todavia, dava sequência à usurpação que o anti-médium mineiro fazia do autor maranhense, transformando-o num "deprimente sacerdote" que nada tinha a ver com o estilo original do finado escritor.
Mas Chico Xavier, ao longo de pouco mais de uma década após o julgamento do processo de 1944, construiu seu arrivismo sob a ajuda de Antônio Wantuil de Freitas (pelo menos o antigo presidente da FEB poderia ser endeusado pelos chiquistas, não é mesmo?) e várias experiências foram feitas até a oportunidade de atrair para si o cético Humberto de Campos Filho.
Chico Xavier já usurpou a falecida jovem professora Irma de Castro Rocha, a Meimei, a ponto de atrair a cumplicidade do viúvo desta, Arnaldo Rocha (hoje já falecido). Partiu para supostas práticas de psicofonia e materialização, como forma de alimentar ainda mais o sensacionalismo da imagem do "médium". E começava a trabalhar livros "científicos" ao lado de Waldo Vieira, antigo menino prodígio da suposta mediunidade.
Diante disso, a FEB também procurou abafar e condenar ao esquecimento o livro O Enigma Chico Xavier Posto à Clara Luz do Dia, do jornalista Attila Paes Barreto, lançado em 1944 e que revelava detalhes sobre as irregularidades da trajetória do "médium". Excelente trabalho de jornalismo investigativo, o livro, porém, é oficialmente visto como "rancoroso" e está fora de catálogo, tornando-se uma preciosa raridade.
FASCINAÇÃO E ASSISTENCIALISMO
E aí chega-se a 1957 e Chico Xavier resolve convidar Humberto de Campos Filho para assistir a uma doutrinária (missa "espírita") num "centro espírita" de Uberaba. Então produtor de TV, o filho do autor maranhense havia demonstrado seu ceticismo quanto às supostas psicografias do pai, chegando a dizer que não autorizaria o uso do nome do escritor, em entrevista à Revista da Semana, de 08 de abril de 1944, respondendo à seguinte pergunta:
"- Mas encarando a questão seriamente. Acha concebível que aqueles livros tenham sido escritos por seu pai?
- Claro que não. Tanto assim que evitamos tocar no assunto e nunca demos a nossa permissão para a publicação desses livros a meu pai. Frequentemente apareciam delegações espíritas ou padres católicos e até representantes de outras religiões, todos querendo convertê-lo. Ele a todos recebia e ouvia com a devida consideração, mas era só. Nunca foi espírita."
Postura muito diferente ele escreveu no livro Irmão X, Meu Pai, que Humberto Filho lançou em 1997, quando descreveu o seu parecer, nesta época, sobre o desfecho do processo que ele, sua mãe e seu irmão Henrique moveram contra o "médium" e a FEB, 53 anos atrás:
"A causa não deveria terminar senão do jeito que terminou: praticamente um empate técnico. Os herdeiros nada obtiveram senão a retirada do nome do escritor daqueles livros. Em uma conotação com o pseudônimo que Humberto de Campos usou na série de onze livros com estórias galantes e humorísticas - Conselheiro XX - os livros psicografados por Chico Xavier passaram a ter a assinatura de Irmão X".
Humberto chegou a atribuir o processo aos interesses pessoais de Milton Barbosa, acusado de manipular a viúva do escritor e mãe do produtor, Catarina Vergolino, a "dona Paquita", e ainda alegou que o episódio "só serviu para fazer propaganda do Espiritismo", entendido aqui o "espiritismo" deturpado no Brasil.
E o que fez Humberto mudar de opinião? Não bastasse ele trabalhar num meio televisivo, em que há um lobby de profissionais "espíritas" - vários simpatizantes de Chico Xavier, como Augusto César Vannucci, Nair Bello, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Ana Rosa, e, mais recentemente, Carlos Vereza - , ele ainda se rendeu aos encantos do manipulador de mentes que era o anti-médium mineiro.
A narrativa de Humberto, ainda que pareça "linda" aos leitores tomados de muita paixão religiosa, revela três armadilhas usadas por Chico Xavier para seduzir Humberto Filho e conquistar sua confiança (ou credulidade, ou, digamos, boa-fé): o apelo à emoção, a fascinação e o assistencialismo.
As três estratégias são consideradas perigosas. O apelo à emoção (Argumentum Ad Passiones) estava no aparato "comovente" da doutrinária e outras atividades que Chico mostrou a Humberto Filho. É considerado um tipo de falácia, e um dos mais perigosos, recentemente associado à pós-verdade, fenômeno no qual mentiras e meias-verdades "confortáveis" estabelecem supremacia sobre a realidade lógica e objetiva.
A fascinação, ou fascinação obsessiva, é um tipo de obsessão descrito por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns. É considerado um tipo grave, ainda que em nível inferior ao da possessão. Na fascinação obsessiva se trabalham ideias e paradigmas supostamente sublimes para veiculação de ideias e práticas mistificadoras que trazem ideias desprovidas de coerência, lógica e bom senso. Em muitos casos o Ad Passiones é um instrumento usado ela fascinação obsessiva.
A fascinação obsessiva, na narrativa que reproduziremos abaixo de Irmão X, Meu Pai, se manifesta sobretudo no abraço de Chico Xavier em Humberto de Campos Filho, no qual Chico lança mensagens "carinhosas" e faz um falsete que fez o filho "suspeitar" se era a voz do autor maranhense. Vale lembrar que Chico teria seduzido Humberto Filho também pela linguagem tenra usada nas supostas cartas do "espírito Humberto de Campos".
O assistencialismo, também visto como uma prática negativa de "caridade tendenciosa", em que a ajuda ao próximo é quase sempre inócua, feita mais para promover a imagem do "benfeitor", que tira vantagem dessa "filantropia", é visto no caso pela caravana de Chico Xavier, que dá à suposta caridade um caráter ostensivo, quando se percebem que os propósitos são bem inócuos e meramente paliativos (doação de mantimentos). Algo que apenas resolve parcialmente o problema.
Segue então o texto que deve ser lido sem qualquer paixão religiosa, mas com um criterioso senso crítico para percebermos como Humberto de Campos Filho caiu na "doce emboscada" armada por um dos maiores deturpadores da Doutrina Espírita para abafar qualquer risco de ser novamente processado:
"Chegamos a tempo de conseguir entrar na sala superlotada, onde pouco depois, começaria a sessão, com a presença de Chico. Lá pelas tantas, vozes partidas da mesa, por ele presidida, pediam que Humberto de Campos Filho se aproximasse para falar com o médium. É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinhosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.
No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos.
Sem mais nem menos, tive a nítida impressão de que estava em alguma cidade da Galileia, nos primórdios do cristianismo.
Em um enorme galpão, sem paredes laterais, senhoras e moças, alegres e sorridentes preparavam a sopa que, mais tarde, seria distribuída entre os pobres. Pilhas de cenouras, montes de batatas, iam sendo descascadas e levadas para os caldeirões que, a um canto, fumegavam cheirosamente.
Ao cair da tarde, nos incorporamos à caravana, liderada pelo Chico, que ia distribuir sacolas de mantimentos pelos casebres da periferia. Ao lado do Waldo Vieira, caminhamos naquele pôr-de-sol, com a certeza de que uma legião de espíritos luminosos também caminhavam conosco. Lá pelas tantas, Chico entrou numa palhoça, de um só cômodo. Ficamos à porta, com espaço bastante para ver Chico sentar-se na beirada de uma cama estreita e miserável. Nela estendido, um pobre velho, pouco mais que um monte de ossos, sob uma cabeça coberta por uma grande barba e cabelos desgrenhados. O coitado fez menção de erguer-se mas Chico, colocando a mão no seu peito, não deixou. De onde estávamos não era possível ouvir o que ele dizia. Mas o que disse fez o pobre homem se transformar em um enorme sorriso, cheio de gratidão e alegria. E, ao mesmo tempo, sentimos uma onda de perfume, de jasmins colhidos naquele instante, invadir completamente aquela tapera..."
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