quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ariston Teles e a "mensagem de Chico Xavier" sobre a tragédia de Santa Maria


O "espiritismo" brasileiro virou chanchada. Virou uma grande bagunça, com todas as contradições e confusões que simplesmente desnortearam a Doutrina Espírita no Brasil. Chico Xavier, Divaldo Franco e companhia fizeram coisas até piores que Jean-Baptiste Roustaing, já perverso na deturpação da doutrina de Kardec, mas restrito apenas a alguns pontos polêmicos.

Afinal, o que é lançar a tese do "Jesus fluídico" ou dos "criptógamos carnudos" diante das séries de pastiches literários, falsas mediunidades, visões confusas sobre detalhes das vidas dos "espíritas" e suas atividades? Tudo confusão, e onde residem as contradições a coerência não encontra morada confortável e hospitaleira. Kardec seguramente teria reprovado o "espiritismo" brasileiro.

A figura confusa, contraditória e sem um mínimo de coerência de Chico Xavier, que sabemos nunca ter sido mais do que um católico paranormal, adorador de imagens dos mais materialistas, só prejudicou a doutrina de Allan Kardec e espalhou a mentira e a contradição em tudo que se faz oficialmente em nome da Doutrina Espírita no Brasil.

A mediunidade duvidosa de Chico Xavier acabou se voltando pelo lado inverso e hoje alguns supostos médiuns usam mensagens "psicofônicas" atribuídas a ele. Claro, se fosse fora da religião, seriam espetáculos de imitação humorística, mas como é "espiritismo", elas são feitas "a sério" e atribuídas "autenticamente" aos espíritos do "outro lado".

O principal deles, sabemos, é Ariston Teles, que afirma ter tido contatos com Chico Xavier ainda vivo, entre 1980 e 1999. Sabe-se que a suposta psicofonia reproduz os trejeitos do anti-médium e, pelo menos, as palavras transmitidas condizem ao religiosismo conservador do mineiro, compartilhado até por aqueles que usurpam seu nome.

A mensagem a seguir é uma amostra. Ela foi divulgada no "centro espírita" Monte Alverne, em Brasília, no dia 30 de janeiro de 2013, a respeito da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, três dias antes.

Nota-se que Ariston conhece bem Chico Xavier, a "mediunidade" parece convincente, pelo estilo de linguagem e pelo padrão ideológico da mensagem. Mas mesmo assim pode ser uma falsa psicofonia, porque é de praxe o "movimento espírita" desconhecer a Ciência Espírita e o próprio Chico Xavier acaba recebendo de volta a péssima metodologia que ele havia criado. Vamos lá.

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MENSAGEM ATRIBUÍDA A CHICO XAVIER SOBRE A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA

Divulgada por Ariston Teles, em suposta psicofonia, em 30 de janeiro de 2013.

Centro Espírita" Monte Alverne, Brasília.

"Amigos, solicitaram algumas palavras a respeito do que foi manchete nos últimos dias no Brasil e no mundo. 

Cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, casa de festas. Centenas de jovens, em plena noite de euforia em manifestações da própria alma. Acontece o inesperado, sob o ponto de vista humano. 

Tragédia para aqueles que causaram, de uma forma ou de outra, o doloroso evento. Tragédia para aqueles que não conseguem dormir de consciência tranquila. Depuração ou resgate para aqueles que foram constrangidos a deixar o corpo físico, retornando dolorosamente ao estado de pânico ao mundo espiritual. Sofrimento depurativo também para os demais que se encontram hospitalizados, e para todos os respectivos familiares, parentes, colegas, amigos. 

Dor coletiva. Dor no fundo da alma. Ferida que só o tempo se encarrega de sarar e cicatrizar, ficando materialmente a marca do trauma e da saudade. Rio Grande do Sul, território e Estado que abriga a maior colônia europeia, especialmente alemã. 

Peço permissão para fazer um ligeiro paralelo ou analogia entre o Estado do Rio Grande do Sul e o Estado da Bahia. Para a Bahia, imigraram milhares de espíritos após a escravatura, procedentes de países africanos. Para o Sul do país, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, especialmente espíritos procedentes de países europeus. Os jovens que se deleitavam em noite festiva precisavam, embora lamentemos, precisavam, como espíritos, passar por essa dolorosa experiência. 

A dor dos escravos, na velha e amada Bahia, converteu-se em alegria, caraterística do seu povo, enquanto as crueldades do nazismo, em práticas abomináveis, em câmaras de gás venenoso, transformaram-se noutro espaço do globo, no Rio Grande do Sul, Brasil, em dor, a se generalizar em milhares e milhões de almas que, neste momento, vertem em lágrimas a arderem na face e no coração. 

Essa reflexão pode estar sendo feita naturalmente por muitas pessoas, muitos companheiros, que pendem um pouco de História à luz da reencarnação. Mas consideremos finalmente o seguinte: quando alguém bate à nossa porta, movido pela dor ou pelo desespero, não espera explicações, ainda que sejam à luz do Evangelho. A dor que nos procura pede socorro, compaixão, amor. 

Por isso, elevemos, neste momento de tristeza generalizada, elevemos nossos melhores sentimentos ao Senhor Jesus, terapeuta espiritual da Humanidade, pedindo bênçãos e misericórdia para todos aqueles que estão embaixo desse lamentável e doloroso acontecimento. 

Aqueles que desencarnaram em estado de pânico, aqueles outros que se encontram hospitalizados, seus familiares, amigos, os proprietários do clube, pedimos bênçãos e misericórdia para todos aqueles irmãos e irmãs, especialmente os pais e as mães que não têm conseguido conciliar o sono satisfatoriamente, tamanho é o peso da dor que acaba de desabar em seus corações. 

Confiemos na compaixão infinita de Deus. O tempo cicatriza as feridas do corpo e da alma. E os emissários de Deus, protetores espirituais de cada um, se encarregam, como está acontecendo, de espalhar energias balsâmicas para acalmar as dores, renovar as esperanças e pacificar os corações. 

A lei da vida é inviolável, deve ser respeitada, aceita e compreendida, mas a essência dessa grande lei tem nome. Chama-se Amor. Chama-se Amor. O Amor infinito e incondicional de Deus. Que ele nos abençõe e nos guarde em seu coração compassivo, agora, amanhã e sempre. 

Chico Xavier (sic).

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Chico Xavier "recebe o troco" de sua "mediunidade"


Virou bagunça. O confuso "movimento espírita" brasileiro não pode ser esclarecedor se ele apresenta situações e abordagens bastante contraditórias e especulativas. Ficamos imaginando se Allan Kardec, sempre inclinado à busca do esclarecimento e da coerência, visse o que fizeram com a doutrina que ele sistematizou e ele ficaria pasmo com o que aconteceu.

Como um professor diante do vandalismo dos alunos, Kardec ficaria chocado. E ele lamentaria sobretudo as desordens que Francisco Cândido Xavier causou, os escândalos e dissabores que ele provocou com suas molecagens "mediúnicas", com a usurpação da memória dos mortos, com seu moralismo ultraconservador e com seu habitual coitadismo.

Pois o homem que usurpou os escritores do além e os anônimos cidadãos falecidos recebeu o "troco" de sua "mediunidade" e, treze anos após seu falecimento, alguns supostos médiuns agora falam em seu nome. O principal deles é o baiano Ariston Santana Teles, ou simplesmente Ariston Teles.

Ariston afirma ter conhecido Chico Xavier em 1980 em Uberaba. Ele viu o anti-médium mineiro pela última vez em 1999. Ariston é funcionário da Câmara dos Deputados e afirma ser médium psicofônico, que "recebe espíritos" pela voz. Ele cuida de um "centro espírita", em Brasília, chamado Monte Alverne, que realiza palestras, tratamentos espirituais e sopão.

Embora Ariston tenha escrito um livro com o filho adotivo de Chico Xavier, Eurípedes Higino - responsável pelo mausoléu do anti-médium, em Uberaba - , este afirma que não recebeu de Chico qualquer código referente à psicofonia, mas tão somente a psicografias.

Sabe-se que, em 1998, Chico Xavier teria se reunido com três pessoas, Eurípedes Higino, o xará deste, médico Eurípedes Vieira e a amiga Kátia Maria, esta já falecida. Ele teria dado a essas pessoas uma espécie de "senha" ou "código secreto" que os faria identificar a veracidade das mensagens espirituais atribuídas ao anti-médium.

Depois do falecimento de Chico Xavier, em 2002, no dia em que os "cartolas" da CBF e da FIFA ficaram muito felizes, mensagens atribuídas ao seu espírito foram divulgadas por outros supostos médiuns. Nenhum dos três confidentes reconheceu nelas qualquer código correspondente ao que foi anunciado por Xavier.

Amigo de Chico Xavier, o médico Elias Barbosa, todavia, reconhece veracidade em algumas dessas mensagens, incluindo a de Ariston Teles, por causa da "superioridade moral presente nas palavras". Como amostra, em outra oportunidade divulgaremos a mensagem que o "espírito Chico Xavier" enviou sobre a tragédia de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 30 de janeiro de 2013.

Já Divaldo Franco, que acredita que Chico Xavier "poderá voltar a reencarnar na Terra", disse que "incorporar Chico Xavier daria certo status a um médium", embora recomendasse "muita cautela" nesse processo "mediúnico".

Para completar a confusão, Ariston Teles compartilha da visão absurda - que a lógica garante, por definitivo, ser absolutamente impossível de acontecer - de que Chico Xavier é reencarnação de Allan Kardec. Ariston fez essa declaração com as seguintes palavras, em uma entrevista dada em 2012 para o jornal A Gazeta, de Vitória (ES), a respeito de Chico ter sido Kardec:

"Sim. Ele fez essa declaração nos últimos anos antes de morrer a pessoas da sua intimidade. Uma delas foi seu filho, Eurípedes Higino dos Reis. Essa declaração está no livro "Chico Xavier, apóstolo do Brasil". É um assunto que gera muita polêmica, inclusive no meio espírita. Há correntes que acreditam; outras, que não. Eu não acreditava, mas, depois que passei a incorporar o espírito dele, tive visões e passei a crer".

Com toda a certeza, essa visão é absurda. E que toda esta série de contradições torna o "espiritismo" brasileiro bastante confuso. E, se há muita confusão e contradição, a coerência não irá residir nesse lodo de visões que se chocam entre si.

Com a máxima, a mais segura e a mais absoluta certeza, Chico Xavier nunca teria sido Allan Kardec. Nem mesmo hipóteses e argumentos verossímeis conseguirão provar. Isso porque Kardec, homem de firme coerência, nunca teria voltado à Terra na forma de um confuso caipira ultraconservador e católico fervoroso que só causou problemas para a Doutrina Espírita.

Portanto, seria um grande desrespeito a Allan Kardec, um dos piores e mais aberrantes ultrajes à sua pessoa, atribuir a ele uma reencarnação na forma de uma figura tão confusa e contraditória quanto Chico Xavier. Seria esculhambar com o professor lionês e sua coerência.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O femismo como reação às mudanças da mulher brasileira


Desde 1990, o Brasil viu diversos focos de resistências quanto aos novos tempos e novas demandas. Retrocessos vieram por conta da pressão de elites ligadas ao empresariado, aos meios de comunicação, à indústria do entretenimento, à tecnocracia urbanista, à burocracia acadêmica e outros setores estratégicos, para evitar que avanços tomassem conta do país.

Hoje esses retrocessos, que são extensão de outros puxados pela ditadura militar e que até pouco tempo atrás ameaçaram muitos brasileiros sob vários aspectos, começam a ser questionados, mas mesmo assim eles resistem nos seus últimos apelos.

Vários desses retrocessos parecem contraditórios entre si, mas se apoiam num mesmo contexto de degradação de valores e no aparente maniqueísmo entre uma moral rígida demais e uma licenciosidade plena.

Se por um lado temos Eduardo Cunha e Marco Feliciano, por exemplo, por outro há o "femismo" a resistir contra as transformações vividas pela mulher moderna. Não é erro de grafia, pois escreve-se "femismo" como contraponto ao "feminismo".

O "femismo", confundido como "feminismo" por uma elite intelectual que durante anos prevaleceu querendo defender um modelo caricato de "cultura popular", a pretexto de defender as "expressões e os gostos das periferias", é, na verdade, uma espécie de machismo às avessas, ou mesmo um "machismo de saias", que promove a rivalidade entre homens e mulheres, espécie de "guerra fria".

Enquanto surgem ideias e conceitos novos que façam reafirmar o papel das mulheres modernas nos novos tempos, resiste no Brasil um modelo de "expressão feminina" que, mesmo fracassando, tenta se impor como se fosse um "novo feminismo", ainda que se desenvolvendo em bases claramente machistas.

Exemplos como a funqueira Renata Frisson, a Mulher-Melão, e a ex-estrela da Banheira do Gugu, Solange Gomes, revelam a vocação arrogante do "femismo", com o mesmo apetite truculento que se vê, "no outro lado", através das "pautas-bomba" do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Sem serem desejadas pelo público masculino, até pelo aspecto abertamente grotesco - tão grotesco que fez Valesca Popozuda adotar uma postura light, mas nem por isso verdadeiramente feminista - , Renata e Solange tentam trabalhar um modelo antiquado e bruto de "sensualidade" que, nos tempos do general Ernesto Geisel, pelo menos ficava restrito às revistas pornô de terceiro escalão.

CONCEPÇÕES MACHISTAS DE SENSUALIDADE

Dotadas de corpos exagerados pelo silicone, pelas cirurgias plásticas e do excesso de celulite, e de um "apelo sexual" que parece forçado, Renata e Solange tentam se impor acima das mudanças vividas pela mulher moderna, tentam ser "feministas" para que as feministas não sejam.

Renata tentou ser jogada para um evento de topless, o chamado "toplezaço", para desviar as atenções das manifestantes que apenas chamaram a atenção para a valorização e respeito ao corpo feminino, e se impôs como "feminista" e chamando a atenção até da mídia estrangeira pelo apelo sensacionalista da funqueira.

Já Solange, de 41 anos, é remanescente de uma geração de "musas populares" que preferiu se retrair para a vida privada ou para um contexto de fama sem muito apelo "sensual". Tenta se impor como "desejável", enquanto apela para o clichê do falso feminismo misândrico usando como pretexto o divórcio que teve com um cantor de "pagode romântico".

As duas tentam se afirmar como "feminismo moderno" usando como desculpa a "polêmica" e a "provocação". Tentam se manter em evidência apenas usando o corpo como forma de expressão, já que as duas não parecem se destacar por algum diferencial de personalidade, já que trabalham uma imagem machista da mulher sensual, reduzida a um "objeto erótico" e "mercadoria sexual".

Elas expressam o mito da "liberdade do corpo", tão hipócrita quanto o da "liberdade de expressão" defendida por jornalistas reacionários como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Pois é uma "liberdade" que aprisiona a alma, é a alma da mulher que se torna escrava do corpo, a ostentação de corpos siliconados se torna um fim em si mesmo, tudo se volta para essa motivação.

"Musas" como elas não podem ser consideradas feministas porque seguem concepções machistas de sensualidade feminina, da mesma forma que representam formas antiquadas de apelo sensual, que se tornam decadentes diante da situação em que o feminismo se evolui no país.

CONTRADIÇÕES DE "ATIVISTAS"

A blindagem de "feministas" que integram movimentos intelectuais que faziam apologia à degradação cultural do país, sob as desculpas da "cultura do mau gosto" e "livre expressão das periferias", tentava proteger as siliconadas e fazer prevalecê-las como "expressões modernas de um feminismo popular".

Essas militantes entravam em contradição. Quanto se tratava da classe média, as "feministas" - muitas delas jornalistas, cientistas sociais e cineastas - reclamavam da imagem caricata que as campanhas publicitárias (como as de detergentes, margarinas e até automóveis) faziam da mulher e a "ditadura da beleza" imposta por periódicos como Cláudia, Marie Claire e Nova Cosmopolitan.

Era essa postura que fez com que surgissem movimentos contra o assédio masculino às mulheres, como o "Chega de Fiu-Fiu", além de críticas contra a supervalorização das maquiagens e das plásticas cirúrgicas e a condenação do uso do Photoshop como "maquiagem virtual" da beleza feminina.

Mas quando se tratava das classes populares, o discurso dessas "ativistas" era outro. Enquanto se condenava a exploração caricatural da imagem da mulher em comerciais de TV e mídia impressa, se estimulava que essa mesma imagem caricatural seja feita através do "funk" e da "liberdade do corpo", sob a desculpa escancarada do "discurso direto", do "direito ao sexo" e da "rebelião (?!) do corpo feminino".

Quando se tratava da "ditadura da beleza", as "ativistas" desconheciam que "no lado das periferias" (ou melhor, os subúrbios "disneyficados" da retórica dos intelectuais pró-bregalização) as mulheres sucumbiam a mais plásticas e outros artifícios do que as "madames" que liam Cláudia, Marie Claire e Nova Cosmopolitan. É só ver casos como Solange, Renata, Valesca, Mulher-Filé e outras.

E quando se trata do assédio masculino, quando o caso é "nas periferias", o discurso das "provocativas ativistas" da intelectualidade associada é também outro. Enquanto condenam o assédio masculino às mulheres de classe média, as "feministas" se esquecem que a "liberdade do corpo" é uma forma de estimular ainda mais a já descontrolada libido de muitos homens pobres e machistas que consomem a erotização mercadológica que Renata, Solange e companhia oferecem "de bandeja" para o grande público.

VISÃO FALSAMENTE PROGRESSISTA

O pior é que essa visão contraditória das "ativistas feministas" que, integrantes da classe média (em muitos casos alta), defendem dois pesos e duas medidas, limitando os apelos sensuais na sua classe e aumentando os das "periferias", foi durante muito tempo definida como "progressista", como se isso fosse uma causa libertária. Mas não é.

Para tornar a coisa mais grave, essa visão "progressista" tenta minimizar o machismo dizendo que as siliconadas "reagem a essa origem machista", como pretenso processo de "libertação". E ainda essa visão defendia a prostituição como uma profissão permanente, contrariando a vontade das prostitutas de não quererem ficar a vida toda dependendo do comércio de seus corpos.

Lá fora, a realidade desafia as fantasias brasileiras, e uma ex-prostituta dos EUA, Brenda Myers-Powell, deu seu dramático depoimento sobre a infeliz realidade do trabalho de prostituição, quando chegou a ser estuprada e baleada em tentativa de homicídio.

Aqui, nem mesmo uma chacina que aconteceu recentemente no Brasil, em que um homem matou seis prostitutas, consegue abalar as convicções dos intelectuais que enxergam a periferia como se fosse uma Disneylândia dos subúrbios e veem na prostituição a "maneira ideal" de afirmação das mulheres pobres. Ainda continua valendo essa visão, de um descarado elitismo, que impede as prostitutas de largar essa função e buscar trabalhos mais dignos e socialmente mais seguros.

O que vale é o recreio individual dos "provocativos" intelectuais de classe média, da libertinagem do sexo e das drogas, do livre-mercado da bregalização cultural, pouco importando se a "vontade popular" que eles tanto exaltam na sua "ideologia do mau gosto" é condicionada pelo empresariado, pelo latifúndio e pelos chefões midiáticos.

Para esses intelectuais, o que vale é a pirataria, o subemprego, o comércio das drogas e da prostituição, o mercado voraz do entretenimento, com o povo reduzido a caricatura de si mesmo e os "artistas" se afirmando pela mediocridade e pelo ridículo. A prostituição seria um lucrativo mercado para o recreio sexual de investidores, turistas e até de acadêmicos divorciados.

Essa elite "pensadora" ainda pregava tudo isso em monografias, documentários e longas reportagens, alegando que todos nós devíamos "perder o preconceito" aceitando tudo isso de graça. E de forma pré-concebida (ou não seria preconceituosa?).

MUDANÇA DOS TEMPOS

Felizmente, a sociedade começa a reagir contra essa intelectualidade festiva e muitos de seus valores "provocativos" começam a ser desqualificados. Que "ruptura de preconceitos" eles defendiam se até essa ruptura era carregada de preconceitos, principalmente pela forma com que se viam as classes populares, da forma mais cruelmente caricata?

Pois, embora não tivesse surgido uma geração de intelectuais que se contrapusesse ao da "intelectualidade festiva" que ainda prevalece nos círculos acadêmicos, lota plateias em palestras e ainda acumula prêmios em mostras diversas, reações pontuais começam a aparecer, rompendo com a preconceituosa visão "sem preconceitos" da geração ainda dominante mas já menos prestigiada que antes.

No caso do feminismo, a influência realista no exterior, como o movimento #HeForShe lançado pela atriz inglesa Emma Watson, das reclamações de atrizes de Hollywood contra o sexismo nos filmes começa a ecoar no Brasil, apesar das resistências das musas siliconadas, conhecidas como "boazudas".

As "boazudas" até tentaram embarcar em causas modernas, por puro oportunismo, seja não só o feminismo, mas a causa LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros), para disfarçar o machismo, mas não deram certo e hoje a mídia, seja de esquerda ou de direita, admite que a era das siliconadas está acabando, para desespero de Renata Frisson e Solange Gomes.

Isso porque começa a reaparecer no Brasil a valorização de mulheres com beleza mais natural, como se observa no caso de Giovanna Antonelli e Paolla Oliveira, por exemplo. E, além disso, a sociedade também tende a valorizar mulheres que se destaquem pela personalidade e não pelo "apelo sensual", e não apresentem a forma exagerada das siliconadas.

Fora desse âmbito estético, também há a reação dos movimentos sociais que veem nas siliconadas uma forma velada de racismo e depreciação social de mulheres que nasceram naturalmente com glúteos largos ou formas roliças ou formas curvilíneas mas fornidas, e são pejorativamente vistas por causa das sub-celebridades que só ficam "mostrando demais", que dão a ideia preconceituosa de que as moças das periferias são "sexualmente depravadas".

Evidentemente, o femismo das "boazudas" tenta resistir a tudo isso. Tenta se passar por um "feminismo popular" acima dos tempos e das tendências. Mas, a julgar pela recepção do público, de repúdio ou de desdém, as siliconadas terão que se aposentar, até pelo prejuízo que causam de tanto posarem para fotos "sensuais". Os tempos começam a serem outros.

domingo, 16 de agosto de 2015

Que "exemplos" terá o Brasil do futuro?

GUILHERME DE PÁDUA É CONHECIDO POR SUA ARROGÂNCIA.

Que exemplos terá o Brasil do futuro? Com tantos retrocessos e um preocupante conformismo social das pessoas - algo inimaginável mesmo em 1965, quando a ditadura militar se anunciava como definitiva - , assusta o surrealismo que ultrapassa as fronteiras da ficção.

O caso Guilherme de Pádua é algo que parece ter vindo tanto de um filme de Luís Buñuel (1900-1983) quanto de uma obra de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto, 1923-1968) da série Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País - , dois fenômenos da crítica surrealista brasileira.

Muito se fala de uma cena do filme O Fantasma da Liberdade, que Buñuel, cineasta espanhol, dirigiu em 1974, em que um franco atirador, de um andar alto de um prédio, atirava a esmo matando qualquer pessoa que mirava à frente. Matava como quem matava passarinhos, com sua espingarda.

A cena muda imediatamente para a de um julgamento, em que o franco-atirador recebe a sentença final, sendo em tese condenado à morte. No entanto, os guardas da prisão retiram as algemas e o assassino é solto, e ainda por cima ele dá autógrafos para as fãs.

De Pádua lembra esse caso, embora com um tempero bem Febeapá. Afinal, o homem que, com sua então esposa Paula Thomaz, matou, em 28 de dezembro de 1992, a atriz Daniela Perez, chegou a ameaçar processar a mãe desta, a dramaturga Glória Perez, por danos morais, só porque ela o chamou de "psicopata".

O adjetivo, no entanto, não foi em vão. Depois que Guilherme e Paula Thomaz tiraram a vida da bela atriz com 18 golpes de tesoura, não se sabe por que motivo (Daniella tinha boa índole e era conhecida pelo seu jeito gentil, simpático e amigável), o hoje ex-ator foi consolar os familiares pelo óbito prematuro que ele mesmo, em parte, provocou. Daniela teria feito 45 anos no último dia 11.

Depois de seis anos de prisão, decretata em 1993, Guilherme e Paula foram soltos. Chegou-se a "anular" a pena do hoje ex-casal e Guilherme, após passar uma temporada como frequentador e até pastor evangélico, voltou para a curtição.

Há muitos aspectos surreais. Guilherme tem ficha limpa, contou com a blindagem da grande imprensa, que o tratou de forma cordial, e zela por sua imagem mais do que ele merece, em suas condições de criminoso impune. Assim como o ex-jornalista Antônio Pimenta Neves, Guilherme tem na arrogância um traço forte de sua personalidade.

FOTOS DE DANIELA PEREZ PUBLICADAS NO INSTAGRAM DA MÃE.

Tendo se casado com uma outra bela mulher, xará da anterior, a veterinária Paula Maia, a relação, embora sem grandes conflitos, terminou de forma nada harmoniosa, pois Paula Maia o via como um manipulador, uma pessoa gananciosa, que quer sempre que suas vontades sejam atendidas.

"Soube que agora ele tem turminha, uma vida pessoal intensa. Dizem até que ele está saindo demais. Na minha época era casa igreja, igreja casa", revelou a veterinária e hoje ex-mulher dele. Paula Maia, no entanto, foi duramente criticada por ter se casado com ele antes.

O lado assustador é que Guilherme de Pádua tenta conquistar espaços na sociedade com uma avidez surpreendente. Imaginar ele vivendo até os 95 anos assim é tenebroso, embora tenha havido relatos de vidente, divulgado em 1993, de que Guilherme morreria na casa dos 55 anos, de doença incurável.

Hoje Guilherme tem 46 anos incompletos (seu aniversário é em novembro). Embora toda predição de vidência seja discutível e muitíssimo duvidosa, o passado promíscuo do ex-ator pode sinalizar que ele possa não ter muito tempo de vida, como um Doca Street de intenso passado de nicotina e cocaína e um Pimenta Neves que ingeriu uma overdose de remédios.

Independente disso, porém, a impunidade que cerca Guilherme de Pádua, que chega ao ponto da impunidade social, quando não apenas a condenação criminal é descartada como a ressocialização se torna fácil e vantajosa demais, preocupa o país. Será esse o "exemplo" que o Brasil terá para o futuro? São pessoas assim que irão contar suas histórias para seus netos?

Para piorar, Guilherme de Pádua é um dos beneficiados entre tantos personagens diversos que estão relacionados, cada um com seu contexto diferente, ao processo de degradação de valores sociais, culturais, políticos e morais do período entre 1990 e 1992.

O próprio presidente da República no período, Fernando Collor de Mello, foi beneficiado quando, depois de ter direitos políticos cassados, voltar à cena política posando de "político progressista" e conciliando com antigos opositores.

Curiosamente, diferentes personagens do período 1990-1992 tiveram tempos semelhantes de ostracismo ou condenação. Fernando Collor de Mello teve direitos políticos cassados quase que na mesma época em que Guilherme de Pádua foi preso, o primeiro entre 1993 e 2001, o segundo entre 1993 e 1999.

Outros personagens, como o compositor brega Michael Sullivan, o ex-prefeito de Salvador, Mário Kertèsz, vários intérpretes do "funk carioca", o apresentador Gugu Liberato e a sub-celebridade Solange Gomes, tiveram períodos mais ou menos semelhantes de "entressafra" até voltarem à evidência com apetite redobrado.

O que preocupa é que esse elenco poderá ser exaltado em uma campanha de revival dos anos 1990 a ser articulada por empresários e publicitários ligados à indústria do entretenimento, associados a jornalistas e acadêmicos influentes.

Através dessa nostalgia forjada do período 1990-1992, a ser vendido como uma época "dourada" e "valiosa", esse elenco será promovido como se seus membros fossem os "heróis" de uma época "inesquecível", podendo serem vistos como "exemplos a serem seguidos". Como não bastassem os caricatos "pagodeiros" e "sertanejos" da época, que hoje são vistos como "artistas geniais".

Guilherme de Pádua faria o papel da "polêmica sub-celebridade" que daria, de vez em quando, entrevistas "bombásticas" mediante um generoso cachê. Ele se alimentaria de "polêmicas" através de revelações "sensacionais", enquanto curte a vida ao lado de "sua turminha". Triste saber de um Brasil que acredita poder haver "heróis" como ele.

sábado, 15 de agosto de 2015

"Espiritismo" se perde em práticas não necessariamente espíritas


Extremamente confuso como doutrina, o "espiritismo" brasileiro se perde em práticas que não são necessariamente espíritas, como a assistência moral e filantrópica. Não que essas práticas deixassem de ser essenciais, mas, da forma como elas são feitas, se reduzem a meros artifícios para mascarar a incompetência do "espiritismo" em entender corretamente o pensamento de Allan Kardec.

A maioria das atividades dos "centros espíritas", não bastasse o desvirtuamento da doutrina kardeciana em prol de ritos, dogmas e procedimentos herdados do Catolicismo medieval, é simplesmente de rasteiros receituários morais para os indivíduos.

Pretextos como "bondade", "humildade", "caridade" e "recuperação moral do indivíduo" servem como desculpas para o péssimo entendimento da doutrina de Allan Kardec, o que faz os interessados em conhecer o pensamento do pedagogo francês ficarem desnorteados.

A demagógica retórica da falsa fidelidade ao pensamento de Allan Kardec, orientação que segue o "movimento espírita" nos últimos 40 anos, após o desgaste extremo do roustanguismo assumido, hoje restrito a uns poucos chefes da Federação "Espírita" Brasileira, dá a impressão de que as pessoas são devidamente esclarecidas em torno do pensamento kardeciano. Mas não são.

Enquanto não conseguem resolver as contradições de seu profundo igrejismo e uma superficial e confusa apreciação da doutrina de Kardec, dá-se uma ênfase exagerada em fotos de crianças, flores, céus ensolarados e todos os recursos de pieguice que inutilizam o sentido de Doutrina Espírita a essa religião brasileira.

Não existem pesquisas científicas sérias. Mas há muitas palestras moralistas, muitos temas familiares, apresentações musicais e até projetos sócio-educacionais sem muito significado, já que são projetos de alfabetização, recreação e instrução convencionais e até medianos, que apenas ensinam as pessoas a serem apenas mais uns na multidão.

Não se observam grandes transformações, pois o máximo que se vê é a produção de pessoas inofensivas, porém inócuas, o que não invalida a filantropia e o projeto educacional em si, mas o faz perder toda a relevância dentro do confuso sistema ideológico do "movimento espírita".

Tudo acaba se reduzindo a um marketing institucional e ideológico. O Espiritismo com E maiúsculo, sério, estudado por Allan Kardec, simplesmente não existe. O "estudo" de seu pensamento em palestras tendenciosas nos "centros espíritas" só serve como disfarce e como recurso de pedantismo de seus expositores.

E isso tudo se multiplicou em práticas anti-doutrinárias que se estenderam para além da marca da FEB, atingindo dissidências e grupos que se fazem "divergentes" dos líderes "espíritas", proclamam no discurso a "fidelidade a Allan Kardec" e enrolam as pessoas com igrejismo enfeitado com fotos de crianças, de céu ensolarado, do universo cósmico e outros recursos visuais apelativos.

Daí a perdição em que se encontra o "movimento espírita", com seus danos praticamente irreparáveis, com seu igrejismo no qual nada pode ser aproveitado, nem mesmo Chico Xavier nem Divaldo Franco, se caso houver um esforço de recuperação das bases kardecianas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A polêmica dos novos blogues anti-espiritólicos


Blogues como este estão causando polêmicas, como todo fenômeno novo que causa controvérsias num país cheio de retrocessos como o Brasil. E isso se torna um problema sério, que compromete gravemente o desenvolvimento social do país.

Muitas pessoas reagem contra tantas questões que lançamos. Alguns argumentos parecem pertinentes, como o fato de Allan Kardec não confrontar radicalmente a questão da religião, a ponto dele mesmo admitir um "espiritismo ateu". Mas outros soam mais do que meros artifícios para "puxar o tapete" do debate geral, tentativas desesperadas de salvar o "estabelecido".

Paciência. Um país que deixa que o Poder Legislativo federal seja em parte comandado por um obscurantista como o deputado Eduardo Cunha, e que até pouco tempo atrás internautas combinavam para, nas redes sociais, humilharem gratuitamente qualquer um que pense diferente da "galera", as pessoas ainda se sentem inseguras com a mudança dos tempos.

É verdade que existem movimentos que querem recuperar as bases de Allan Kardec mantendo Chico Xavier e Divaldo Franco no pedestal. E começa a surgir uma sub-tendência que quer que, pelo menos, Divaldo Franco seja reconhecido como o "maior filantropo do Brasil", isso com sua Mansão do Caminho não conseguindo beneficiar mais do que 0,08% da população de Salvador.

As pessoas são bombardeadas por valores midiáticos e decisões de cunho político ou mercadológico que soam como "decisões superiores". O Brasil, em 51 anos, passou por retrocessos profundos, mas impostos aos poucos, e as pessoas passaram a se acostumar com isso.

Não é fácil contestar esses retrocessos. Eles surgem sempre apoiados por desculpas bem argumentadas que podem variar da "defesa da democracia" à "mobilidade urbana", passando pela "expressão das periferias", "combate à corrupção" ou "liberdade do corpo". Ou no caso do "espiritismo" brasileiro, da questão da "bondade" e da "caridade".

Muitos dos retrocessos são decididos por engenhosas iniciativas políticas, pareceres técnicos, argumentos persuasivos e usam como pretextos até tradições culturais ou hábitos e crenças defendidos pela população. São decisões que não beneficiam realmente a população, embora sejam agradáveis a curto prazo, e contestá-las é uma tarefa muito difícil.

É bom lembrar que, em 1964, o Brasil passava por muitos progressos e perspectivas sociais que, mesmo voltadas para a justiça social e o benefício da maioria da população, foram duramente combatidos por movimentos golpistas que instalaram a ditadura militar que impôs uma série de retrocessos, que fizeram o país declinar em dimensões surreais, embora vistas hoje como "normais" e "naturais".

Mas isso é histórico. Se no século XVIII a Europa via crescerem movimentos humanistas que condenavam a opressão humana, no século XIX foi muito difícil combater a escravidão, porque mesmo muitos movimentos "humanistas" brasileiros defendiam a exploração do trabalho escravo com os mais insistentes argumentos, que na época eram tidos como "convincentes" e "objetivos".

Os debates em torno da Doutrina Espírita no Brasil ainda são muito delicados. Quase nunca se discute a questão da mediunidade, porque há a pretensão de que as práticas são "autênticas", mesmo quando há o panfletarismo religioso e as mensagens têm o mesmo estilo pessoal do suposto médium.

Para muitos, o debate espírita só consegue encontrar bom termo quando se questionam apenas os deslizes mais evidentes, quando uma tradução tendenciosa da FEB para os livros de Allan Kardec apontam adulterações semânticas, como no caso de Guillón Ribeiro ter substituído a expressão "sua doutrina", referente a Jesus, pela pomposa "doutrina do Salvador", em O Livro dos Espíritos.

Mas as pessoas ainda se incomodam quando, por exemplo, a autenticidade da autoria espiritual de Humberto de Campos é contestada. Até quem condena o chiquismo joga para o balaio desses mistificadores o autor de O Brasil Anedótico, cujo estilo original nunca teve a ver sequer em uma vírgula com o que Chico Xavier havia lançado usando o nome do finado escritor.

Em primeiro momento, a insegurança de muitas pessoas faz com que elas reajam às novas abordagens e digam "não é bem assim". É a partir desse argumento que ocorre sempre aquela coisa: "dar um passo para frente e dois para trás".

Afinal, muitos argumentos hoje pertinentes, como a necessidade de melhorar o poder aquisitivo da população ou a defesa da educação pública e gratuita, eram "condenáveis". Pedir melhores salários era "caso de polícia". Fazer atividades espíritas, verdadeiras ou falsas, era motivo para prisão. Índios e negros viveram décadas sem ter cidadania reconhecida.

Hoje ainda há muitos retrocessos. Negros são tratados de forma caricatural pelo "funk carioca" e pelo "pagodão baiano" e até juristas deixam isso passar. Feminicidas conjugais têm mais capacidade de conquistar novas namoradas do que muitos nerds românticos, porque os valores do status quo ainda estimulam isso.

Sempre que surgem os primeiros questionamentos, sempre aparece alguém dizendo que "não é bem assim", e, no caso da Doutrina Espírita, fica muito difícil recuperar as bases originais de Allan Kardec se mesmo seu pensamento científico é visto de maneira igrejista por parte de seus adeptos.

E isso com a tentação de manter Chico Xavier e Divaldo Franco no pedestal. Com kardecianos hesitantes alegando que Chico Xavier errou porque "foi manipulado" e se contradizendo o tempo todo quando dizem que o anti-médium mineiro "nunca foi espírita e sempre foi católico" mas sempre se lembrando de suas frases diante do esforço de recuperar a doutrina de Kardec.

As pessoas reagem também porque, na Internet, há o impulso de muitos incomodados rebaterem abordagens que fogem do seu confortável sistema de crenças compartilhado por ele e seus amigos. Há a insegurança natural de ver as crises atingindo tantas instituições e derrubando totens, e aí muitos reagem despejando comentários "indignados" dos quais podem se arrepender daqui a dez anos.

No Brasil da Era Lula e da Era Dilma, muitos internautas custaram a admitir que o Brasil da Era Collor e da Era FHC está obsoleto. Muitos comentários violentos foram despejados na Internet, muitas campanhas de humilhação eram combinadas nas mídias sociais, em clara demonstração de bullying digital.

Na melhor das hipóteses, muitos internautas usando "discurso objetivo", defendem apenas totens e dogmas que parecem bem-sucedidos hoje. Valores que apenas saem das mentes de um Luciano Huck, de um William Bonner ou de um Fausto Silva são vistos como "universais para a humanidade".

E assim os questionamentos diversos, não só dos novos blogues anti-espiritólicos, como de tantos outros espaços de expressão de novos pontos de vista. No Facebook, por exemplo, como no Orkut há cerca de oito, dez anos atrás, o reacionarismo virtual é notório, mas mesmo pessoas com algum questionamento ainda se mostram muito, muito conservadoras.

As pessoas, por exemplo, não conseguem ter coragem para questionar ações filantrópicas, mesmo quando por trás delas existem processos de "lavagem de dinheiro" ou de "lavagens cerebrais", quando a "ajuda ao próximo" esconde um processo de dominação de um movimento ideológico ou religioso sobre seus "beneficiados".

E diante de tantas reações desse nível, que incluem até apelos para que se extingam espaços de contestações mais arrojados, o Brasil não consegue avançar. O país sempre teve como vício o desenvolvimento parcial de progressos feitos com algum pacto com as forças retrógradas. Mesmo o esquerdismo proposto pelo PT, por exemplo, foi feito sob negociação da direita "fisiológica".

Infelizmente, somos pressionados a ceder sempre à vontade dos retrógrados. Eles querem manter sua supremacia e reclamam que não podem ser prejudicados. Eles só aceitam algum progresso quando seu impacto contra eles é minimizado. Em muitos casos, sacrifica-se a essência de algo novo para que não se mexa nos privilégios dos retrógrados.

Por isso o Brasil se torna uma "Belíndia", como descreve o anedotário popular. Meio Bélgica, no seu aparato de desenvolvimento e progresso, mas meio Índia, com sua desorganização social, cultural e urbana. É lamentável que até hoje haja gente querendo pensar assim.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A camponesa e o pistoleiro


Havia, há trinta anos, uma jovem e bela camponesa e um jovem pistoleiro de aluguel. São vidas que não se encontram, não têm a menor relação uma com a outra, mas que aparecem juntas nesta narrativa a título de comparação.

A jovem, filha de um casal de pequenos plantadores de legumes e verduras que era também dono de um pequeno armazém numa cidade próxima, no interior. Bela, jovial, sensível e atraente, era também muito alegre e bastante espirituosa e gentil com quem ela tivesse contato. A menina era também muito inteligente e já sonhava em ser professora.

O jovem, um rapaz a serviço de grandes proprietários de terras, capaz de eliminar até padres que se voltem contra o poder dos grandes latifundiários da região. Havia sido preso várias vezes e recebido várias condenações criminais, mas o poder da região sempre dava um jeito para soltar o capanga e garantir que ele responda pelos seus crimes "em liberdade".

Nessa época, a moça tinha 21 anos e o rapaz, 27. Pareciam típicas figuras do interior do país, nessa contraditória situação em que há pessoas bastante gentis e queridas e outras bastante ameaçadoras e abomináveis.

De repente, num espaço de dois anos, a camponesa descobriu que tinha um grave problema cardíaco, que se agravou até que, em 1989, ela, em casa, deitada no quarto, com apenas 25 anos de idade, chamou os pais e os irmãos mais novos para fazer sua última conversa.

Ao anoitecer, a menina ainda ficou a sós com sua mãe, tendo uma conversa bastante longa e particular. A mãe beijou a testa da filha que, muito frágil, parecia apenas estar cansada e com vontade de dormir. Mas, assim que se despediram, a menina fechou os olhos e o coração parou. Ela havia morrido.

Nessa época, o pistoleiro, que dois meses antes havia participado da execução de um sindicalista, havia tomado um aguardente e comido um pastel delicioso, mas cujo preparo era feito pelo cozinheiro que, por ignorância, mexeu com o alimento com as mãos sujas de pano de chão. Por incrível que pareça, ele não queria matar o pistoleiro, agiu por ignorância, mesmo.

Aparentemente, o pistoleiro apenas teve uma intoxicação alimentar, que o fez vomitar e ficar de cama. Recuperou-se em cinco dias. E nenhum rancor ocorreu porque, para ele, isso ocorria várias vezes, e ele e o cozinheiro eram muito amigos. O pistoleiro já estava acostumado, acreditava ser excesso de pinga que o fazia passar mal de vez em quando. Estava até tranquilo com isso.

A VERSÃO DOS "ESPÍRITAS"

Quanto ao desfecho desses episódios, os "espíritas" fazem a sua interpretação, com base nos valores que eles aprenderam através de Chico Xavier e derivados, dentro de uma concepção de sociedade e de missões morais e punitivas.

Para eles, a menina morreu de causas naturais. Mesmo muito jovem, com apenas 25 anos, e uma atividade ainda iniciante e prematura de professora primária, ela teria, aos olhos dos "espíritas", encerrado sua missão.

Desse modo, ela foi apenas um belo cometa que passou pela vida de seus familiares para trazer um pouco de alegria e depois ir embora. A menina simplesmente faleceu porque "chegou sua hora" e ela passou a ser um anjinho a mais a enfeitar o céu iluminado.

Já o pistoleiro, os "espíritas" garantem que ele era forte e saudável e pode ter se tornado um novo fazendeiro. Com 57 anos, creem que ele pareceria robusto, mas sereno, embora envelhecido e barrigudo, levando adiante seus planos de vida e se aposentando da pistolagem, por não haver mais necessidade disso, já que se tornou tão latifundiário quanto seus antigos patrões.

O pistoleiro teria uma "longa vida de expiações" pela frente, não se sabe como, e ele apenas teve como atenuante a ideia de que a pistolagem serviu para promover "reajustes espirituais" para as vítimas, antigos sanguinários que "retornaram" para enfrentar a tragédia repentina que teriam ordenado para outras vítimas, nos tempos do Império Romano.

A REALIDADE

A camponesa já não era membro de uma família saudável. Seus pais fumavam muito, e sua mãe ainda fumava durante a gravidez, o que fez a menina nascer com uma certa fragilidade. E a jovem sempre conviveu respirando fumo ao redor, embora ela não quisesse fumar por conta própria.

Pouco antes de contrair uma grave infecção, ela levou sua avó para um hospital público. Com muita gente na espera de atendimento, com poucos médicos em serviço, o local, além de causar estresse pela turbulência da multidão de gente pobre e inquieta, ainda não havia muito cuidado com a higiene.

Desse modo, quando a camponesa levou sua avó para o sanitário, passaram por uma sala que estava não apenas infectada com mofo tóxico como também por uma perigosa bactéria que a falta de higiene de um enfermeiro acabou contaminando, ao tocar nos objetos do recinto.

A avó contraiu uma infecção gravíssima e faleceu um dia após a internação, diante de uma jovem suada e estressada com aquela rotina de longas esperas, superlotação e barulho e falta de médicos, depois de tantas horas esperando atendimento e apenas lanchando um pastel com refresco no quiosque mais próximo.

Com o tempo, o corpo já frágil da jovem sofreria os males da infecção, sem que ela soubesse qual e onde contraiu. Pela religiosidade e pelos mitos católicos, a jovem achava que tinha que ter vida curta, e que seu falecimento prematuro era apenas um chamado urgente de Jesus, quando a realidade mostra que ela morreu por uma combinação de males vindos da falta de higiene e do fumo alheio.

Já o pistoleiro faleceu aos 43 anos de idade, em 2001. Com histórico de bebida alcoólica e alimentação deficitária, com o consumo de alimentos gordurosos, ele havia contraído doenças graves de tanta intoxicação alimentar. Não chegou a ser fazendeiro, embora começasse a viver com uma mulher e a ter dois filhos com ela.

Ele estava lendo o jornal do dia, quando se sentiu mal e pediu à mulher para que o levasse para um hospital, curiosamente o mesmo em que a camponesa levou a avó, muitos anos antes. Ele não sofreu com a infecção hospitalar, porque nesse dia o recinto estava limpo, e também não havia a superlotação porque, então, era um dia de pouco movimento. Era uma tarde de domingo.

Ele imaginava que era apenas mais uma intoxicação, embora tenha almoçado um prato mais saudável com feijão, arroz, bife e salada. Mas as dores apenas aumentaram. Sentia não só problema no fígado e no estômago, mas também uma dor no coração.

Além disso, ele estava envelhecido para seus 43 anos. Parecia ter 23 a mais, embora estivesse ainda magro e esguio. sua pele estava áspera e o rosto embrutecido. Internado no final da tarde, ele faleceu assim que a noite chegou. A vida da viúva só não se complicou porque ela tinha seu trabalho de costureira e lavadeira, que lhe dava uma renda que possibilitava viver com dignidade.

A morte da camponesa foi modestamente anunciada pelo jornal da região, em meados de 1989, Era apenas um pequeno anúncio, envolto em retângulo, convidando para o velório da jovem. Já a morte do pistoleiro, em 2001, nunca foi noticiada pela imprensa, apesar dele ter tido seu corpo cremado por ordem de um grande fazendeiro da região.
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