sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pessoas de bem já conhecem demais perdas e tragédias. E os espíritos atrasados?


Vivemos uma educação moralista viciada. O moralismo religioso sempre apela para aceitarmos as perdas e ainda tenta forçar a apresentar "novas lições", quando na verdade já aprendemos demais sobre as perdas que sempre temos e estamos até cansados de ter.

Quantos progressos humanos foram adiados por tantas e tantas perdas. Quantas missões humanas foram ceifadas ou interrompidas na sua plenitude, em tarefas desempenhadas de maneira insubstituível, porque não há trainée que faça um canastrão ou arrivista substituir o gênio que se foi.

Certo palestrante "espírita" recomendou o filme A Cabana (The Shack), baseada num best seller literário, sobre um homem que perdeu sua filha mais nova e nunca mais viu seu cadáver e volta ao local da tragédia para encontrar uma lição de vida.

A impressão que temos é que sempre somos masoquistas. Mas tragédia envolvendo pessoas de um caráter mais evoluído é algo que existe há anos e atingiu um número maior de pessoas. Vivemos tantas tragédias desse nível que chega a ser um acinte termos que "obter mais lições" sobre aquilo que a gente aprendeu até demais. Somos pós-graduandos na perda de entes queridos!!

O que quase ninguém percebe é que, agora, quem precisa aprender o que é perda são aqueles que são muito atrasados. Ficamos na visão materialista que defende que um espírito grotesco fique "mofando" a vida toda na esperança de que ele aprenda o que sua vaidade impede de aceitar. Muita gente se recusa a admitir que as pessoas que impõem tragédias e infortúnios aos outros são as que mais se atraem e se prejudicam, criando seus próprios prejuízos e mortes.

O Brasil que se apega ao supérfluo, ao inútil e ao nocivo sempre se portou de maneira dolorosa, nostálgica mas conformada quando perde o que mais necessita. O Brasil sempre se inclina aos retrocessos e só aceita progressos quando eles são desfigurados pelo próprio retrocesso, obtido pela banalização que sempre deturpa uma novidade.

O que há de personalidades de grande valor que faleceram cedo ou no auge de sua tarefa espiritual na Terra, o Brasil já está cansado de saber. Ficamos até resignados e estamos acostumados de ver gente brilhante morrendo de repente, deixando trabalhos em andamento, cancelando uma série de projetos futuros que nunca mais serão realizados.

Mas isso é compreensível. O que não dá para compreender é quanto a homicidas ricos e poderosos que ficam impunes, quando têm suas tragédias potenciais anunciadas - como um câncer ou um sério risco de infarto - , fazem pessoas reagirem como se isso fosse um dado ofensivo. O medo de ver tais criminosos morrerem apavora mais as pessoas do que a perda de um ente querido. Por que será?

Talvez se possa explicar pelo fato da sociedade brasileira ser moralista, conservadora e, de certa forma, vingativa. Uma sociedade que defende o porte de armas e que alega que homicidas ricos e poderosos tenham cometido crimes por um propósito "justo". São "justiceiros de luxo", às vezes vistos como arremedos de Deus pelo "direito de definir a morte do outro", e, por isso, são pessoas que "não podem morrer".

Mas isso é uma grande, aliás, uma gigantesca ilusão. Os feminicidas conjugais (antes definidos como "criminosos passionais"), famosos pela desculpa da "defesa da honra", estão entre as pessoas com o maior alto risco de sofrer infartos no Brasil, não raro antes dos 60 anos de idade. São também jurados de morte em potencial, pela revolta que seus crimes, matando mulheres inocentes por conta de um ciúme doentio, provocam numa sociedade em processo de explosiva convulsão social.

Os pistoleiros que matam camponeses, missionários e ativistas rurais também não possuem uma boa expectativa de vida. Os chamados "jagunços" são mal alimentados, fumam e bebem demais e geralmente parecem mais velhos que são, de forma que dificilmente eles conseguem chegar à velhice, em muitos casos tendo uma vida tão curta quanto as vítimas que mataram, falecendo de câncer, infarto e até por distúrbios alimentares.

As pessoas que, em geral, tiram a vida do outro, provocam duas tragédias: a da vítima, uma "tragédia à vista", e a de si mesmas, uma "tragédia às prestações". É certo que não vamos sair matando homicidas impunes, porque é outra atrocidade, mas, assim que devemos respeitá-los em suas vidas, também devemos nos preparar para a própria tragédia que eles contraíram para si.

É aquela coisa: "deixemos eles viverem em paz, mas também deixemos morrer em paz, também". Mas se é um homicida que ocupou os noticiários nacionais, sobretudo durante julgamentos transmitidos em redes de TV, não há também como a imprensa omitir.

Há um medo de noticiar o falecimento de algum homicida rico, sobretudo um feminicida conjugal, uns com medo de despertar a consciência trágica nos machistas, outros para não estimular a comemoração do movimento feminista.

A omissão faz com que este tipo de homicida seja o único tipo de pessoa que "não pode morrer" e que, portanto, quando é para morrer, "morre sem morrer", sendo apenas presumidamente morto a partir dos 93 anos, por mais que tenha morrido bem antes.

A sociedade moralista se apavora com tais tragédias, achando que os homicidas ricos e poderosos "precisam de tempo" para ressocialização. Mas aí um desequilíbrio ético se ressalta, pois os homicidas, ainda tomados de muita vaidade, apenas zelam para recuperar os privilégios materiais que seus nomes terrenos representam. Poucos são aqueles que realmente sentem remorso pelo que fizeram e aprendem rigorosamente a má lição de seus crimes.

As pessoas se apavoram só de pensar que um feminicida rico morra antes dos 60 anos de idade. Mas aí vem o refrão "olha só quem fala". Pessoas que se preocupam com a tragédia de um homicida se resignam quando seus próprios filhos morrem antes de entrar na faculdade e realizar seus valiosos projetos pessoais, em muitos casos de alto nível altruísta. Por outro lado, não se importam em ver homicidas vivendo até os 85 anos como se fosse um "turista" na Terra.

Em muitos casos, o homicida que morre apenas têm como "prejuízo" a perda de seu nome material. Sua ressocialização não se encerra, e, em muitos casos, é benéfica: livre daquele nome ilustre manchado com o sangue de outra pessoa, ele não precisará cobrir de ouro as manchas sangrentas da encarnação anterior e, sob o risco de "aprendizado", retomar todos os privilégios e arrogâncias.

Em vez disso, ele terá uma nova encarnação, mais "limpa" e sem os atributos sociais que as condições terrenas da encarnação anterior mantinham. Em vez de passar a velhice tentando apagar as manchas de sangue que comprometem seu ilustre nome e seus privilégios, ele encontrará situações novas, talvez até limitações, que poderão remodelar sua personalidade de forma a preveni-lo de um novo crime.

Em muitos casos, o feminicida conjugal que havia sido, em tal encarnação, um empresário, profissional liberal, jurista etc, pode reencarnar como alguém que sofre desilusões amorosas e consegue apenas empregos modestos.

Sem o status profissional, ele poderá se preocupar mais com o trabalho, podendo, em vez de usar o prestígio social para praticar um crime de vingança e depois recuperar em vão a reputação perdida, ele poderá usar o emprego modesto para construir seu progresso espiritual, diante da impossibilidade de conquistar a mulher que ele queria namorar.

Da forma como ocorrem tragédias e não-tragédias no Brasil, os espíritos atrasados, que mais precisam de desilusão para regular seus desejos e instintos abusivos, são os que mais se livram desta necessidade, preferindo fazer turismo encarnacional que os faz cada vez mais privilegiados.

O consentimento de uma sociedade moralista com isso, enquanto deixa pessoas de grande valor morrerem antes até de iniciar qualquer tarefa de progresso social, só serve para o Brasil ficar ainda mais atrasado, iludido com a conciliação entre as forças do atraso e do progresso, acreditando num falso equilíbrio.

Hoje o que se vê é um progresso antes condicionado pelas restrições do atraso, ser cada vez mais deixado de lado pelos retrocessos que perdem a vergonha de serem impostos à população. E, como numa fruta nova contagiada pelo fungo da fruta podre, o apodrecimento ameaça até mesmo o que parece relativamente novo nas atividades diversas de nosso país.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Millôr Fernandes nocauteou Chico Xavier e Divaldo Franco


No malabarismo das belas palavras, o "espiritismo" sempre cai em contradição. Cai quando assume posturas que, no dia seguinte, irá desmentir. Cai por cometer erros de propósito que no momento posterior são tidos como acidentais.

Cria-se todo um faz de conta de pretensa sabedoria, com os supostos médiuns promovidos a dublês de pensadores e beneficiados pelo culto à personalidade. Aberrações como a série de livros "Divaldo Responde" são ilustrativas sobre o quanto o "espiritismo" deturpado arroga-se a se achar "possuidor da verdade".

Uma frase de Millôr Fernandes, este, sim, alguém que pôde transmitir o saber através do humor, Em pelo menos duas frases, Millôr pode ser tomado emprestado para questionar o irregular "espiritismo" e seus médiuns dotados de um estrelismo messiânico mal disfarçado de humildade.

Uma frase é "Quem sabe tudo, é porque anda mal informado". Só essa frase faria com que os volumes pedantes do anti-médium Divaldo Franco, os tais "Divaldo Responde", tenham vergonha até de serem jogados nos sebos, porque ninguém vai querer ficar com livros igrejistas que prometem "respostas prontas" para tudo.

A realidade é muito complexa para haver pseudo-sábios oferecendo respostas para todas as coisas, arrogando uma perfeição descomunal. Além do mais, o verdadeiro sábio não é aquele que oferece respostas, mas questões. Ou dúvidas, como uma outra versão da frase de Millôr que circula na Internet: "Se você não tem dúvidas, é porque está mal informado".

Ha um malabarismo discursivo em que os "espíritas" primeiro assumem posições taxativas que depois vão relativizando. Eles ficam fazendo um interminável jogo de palavras que tenta dar a falsa impressão de tanto oferecer certezas como adotar autocríticas. Falam sem saber, iludidos com sua sensação de "posse da verdade" e, quando são desmascarados, tentam reconhecer os erros mas é tarde demais.

A doutrina marca por um festival interminável de contradições. Os seguidores, tomados de uma emotividade extrema, deixam tudo passar. Pensam que o a coerência pode montar uma ilha num mar revolto de tantas contradições e confusões. que o bom senso e o contrassenso podem ser falsamente conectados por uma palavra solta chamada "amor". Seria um falso equilíbrio que, na verdade, atestaria a vitória do contrassenso sobre o bom senso.

Outra frase de Millôr é a de que "Heróis nunca me iludiram". Os supostos "médiuns espíritas", que já destoam violentamente do que os médiuns do tempo de Allan Kardec eram, pois em vez de serem pessoas discretíssimas e quase anônimas, tornaram-se portadores do mais aberrante culto à personalidade, da forma mais cafajeste, disfarçada de humildade, mas inspiradora dos mais levianos gozos terrenos, que ocorrem sob a lona das paixões religiosas.

Os "médiuns" viraram pretensos heróis, pretensos santos canonizados de maneira informal, um agravante em relação à canonização católica, porque, com todo o tendenciosismo e leviandade de muitos processos - pessoas que se revelaram perversas como o padre José de Anchieta e Madre Teresa de Calcutá viraram "santos" - , há pelo menos uma formalização e uma organização. No "espiritismo", basta o "achismo" para atribuir santidade a fulano ou sicrano.

O que parece lindo, confortante, animador e admirável é, na verdade, uma leviandade. "Médiuns" que viram objetos de adoração extrema, pelo malabarismo das palavras, pelo espetáculo de suas atividades religiosas, pela pretensa sabedoria e por uma aparente filantropia que mais expõe o "benfeitor" do que realiza benefícios, por sinal, bastante inexpressivos.

Ainda há uma outra frase de Millôr Fernandes que também pode ser interpretada, não exatamente ao pé da letra, mas diante de uma mania muito comum no Brasil, que é de abraçar novidades e compactuá-las com conceitos velhos: "Quando uma ideologia fica bem velhinha, ela vem morar no Brasil".

Na verdade, a ideologia em si não é o sistema original de ideias contido numa corrente que, no exterior, surgiu inovadora, mas a forma com que ela foi recebida no Brasil. Tivemos vários exemplos de quanto as novidades "perecem" pela compactuação com aspectos retrógrados da corrente que deveria ser rompida, mas que sobrevive na essência quase oculta da novidade deturpada.

Tivemos, no Brasil, um Iluminismo que compactuou com a escravatura. Mais recentemente, tivemos uma cultura rock'n'roll que compactuou com velhos paradigmas de diluições comportadas dos EUA e Itália assimiladas pela Jovem Guarda, e rádios de rock que se deturparam em prol de uma linguagem "jovem", ou melhor, Jovem Pan, espécie de rádio pop mofada.

E temos um feminismo que tem que negociar com o machismo, seja "aconselhando" mulheres com inteligência, opinião e sem sensualismo obsessivo a se casarem com homens de liderança, enquanto aquelas que se contentam em ser meros objetos sexuais são "dispensadas" até de ter um namorado.

O Espiritismo entra nesse bolo de bolor, com cobertura nova e recheio podre, que se faz muito no Brasil. O que se vê na doutrina de Allan Kardec, no Brasil, é sua desfiguração total: em lugar do cientificismo original kardeciano, influenciado pelo Iluminismo francês, o que se vê é um igrejismo extremado e um receituário moralista inspirado na Teologia do Sofrimento do Catolicismo medieval.

Diante de tantas análises, Millôr Fernandes, que embora desagrade muitas pessoas por ter sido ateu, foi um grande intelectual que usava do humorismo para trazer boas lições para a humanidade. Não se preocupava em ser santo, sábio ou herói, e com isso tinha a liberdade de trazer ideias consistentes.

Muito diferente dos "médiuns espíritas" que, no Brasil, vivem o culto à personalidade, se passando por pretensos sábios e supostos filantropos, para promover um igrejismo velho e cansado, mas que ainda arrasta multidões seduzidas pela tentação fácil das paixões religiosas.

Com suas frases, Millôr Fernandes nocauteou os "médiuns" Divaldo Franco e Chico Xavier e outros que seguem linhas semelhantes.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Pretensas mediunidades refletem carência materialista diante das mortes prematuras

HUMBERTO DE CAMPOS - Usurpação de seu nome por Chico Xavier atende à obsessão materialista por obras que os mortos não podem produzir.

Na ausência de pesquisas mediúnicas que poderiam permitir uma comunicação efetiva com os mortos, já que o "espiritismo" brasileiro praticamente surgiu rompendo com os postulados de Allan Kardec - só nas últimas décadas há a "fase dúbia" que exalta o pedagogo francês mas se pratica o igrejismo de Jean-Baptiste Roustaing - , não há como receber obras novas confiáveis dos espíritos falecidos.

A estranha facilidade de haver supostos médiuns e de surgir, em quantidade industrial, trabalhos supostamente mediúnicos, inclusive a aberrante "reunião" de pintores do além-túmulo de diversos lugares e épocas, já faz comprovar o quanto a mediunidade é fraudulenta, porque o contexto não nos permite que surjam trabalhos em série e médiuns em grande quantidade.

As paixões religiosas que fazem as pessoas aceitarem todos esses absurdos, apenas porque apresentam uma retórica e um aparato associados a supostas ações e ideias de bondade, fazem com que a emotividade cega peça para que surjam "novas obras" atribuídas a personalidades falecidas. Isso cria um mercado voraz, em que qualquer famoso que morre passa a ter seu nome apropriado por um terceiro, sem autorização e sob a desculpa do "pão dos pobres".

O que poucos percebem é que os supostos trabalhos mediúnicos acabam atendendo a uma obsessão materialista. Como os mortos já não exercem as atividades que faziam na Terra, no caso deles terem sido escritores ou pintores quando eram vivos, eles não têm condição para lançar trabalhos inéditos, cabendo meios sérios de possibilitar essa comunicação, inexistentes devido à falta de estudos sérios e consistentes.

O que se vê como "obra mediúnica" no Brasil é uma aberração. As obras não refletem o estilo do autor morto alegado, mas expressam fielmente o pensamento pessoal do suposto médium e todo o estilo deste. Pior: para evitar acusação de fraude, as obras são sempre acompanhadas de algum apelo religioso, ainda que implícito, porque, assim, dificilmente desperta alguma desconfiança.

E isso acaba seduzindo e aliciando as pessoas, se tornando uma pegadinha tão bem sucedida que até os familiares do morto alegado acreditam. É um truque tão engenhoso que dificilmente é desmascarado, embora aspectos de fraude não sejam difíceis de serem identificados.

A saudade dos mortos faz com que as pessoas, movidas pela carência materialista de novos trabalhos e mensagens, aceitassem como "autênticas" as mensagens apócrifas que carregam os nomes dos entes queridos ou dos ídolos famosos, sob o pretexto de que elas trazem "mensagens positivas" e portanto "não causam a menor ofensa".

Só que isso revela uma obsessão doentia. Ver, por exemplo, que Humberto de Campos faleceu prematuramente, aos 48 anos, as pessoas sentem falta de material novo relacionado a ele. Poucos trabalhos póstumos Humberto deixou em vida: dois livros de memórias, um deles deixado incompleto, e um diário secreto. Além destes, diversas coletâneas foram lançadas.

Então, surgem trabalhos "espirituais" que aparentemente sugerem "continuidade" da obra inédita do autor maranhense. Só que se sabe que são trabalhos que destoam do estilo original do autor maranhense. Mas, num Brasil de hábito de leitura irregular, intelectualmente medíocre e frágil e apegado às paixões religiosas, as pessoas aceitam como "autênticas" as supostas psicografias de Humberto.

Sendo então o "médium" uma figura cercada de muitos fanáticos, como Chico Xavier, as pessoas então sucumbem à mais cega credulidade. E aí Chico faz uma verdadeira farra aos materialistas, que sem perceber as nuances do espírito, aceitam que venha do "bondoso homem" toda uma carga de supostas mensagens do além, que na verdade refletem o estilo e o pensamento pessoal do "médium".

Com isso, até a certeza da vida após a morte é submetida ao capricho das paixões materialistas, nas quais as paixões religiosas, cobertas pelo verniz de uma suposta espiritualidade, dissimulam as ânsias vorazes e a adoração voluptuosa àqueles que têm a "façanha" de morrer cedo. Com isso, eles têm que estar associados a supostas mensagens inéditas que, em verdade, saem das mentes dos "médiuns".

sábado, 22 de abril de 2017

Deturpar Allan Kardec é muito mais grave do que se pensa


Quando falamos que os deturpadores da Doutrina Espírita cometeram graves erros, as pessoas choram apavoradas, bradando que "se está desmoralizando o trabalho do bem", "perseguindo pessoas bondosas" etc e tal.

Mas as críticas em torno da deturpação devem ser levadas a sério. Esqueçamos o recreio das "palavras de amor", da "filantropia" que beneficia mais o benfeitor do que o beneficiado, graças  ao  seu prestígio religioso.

Também vamos deixar de lado as paixões religiosas e o entretenimento das comoções fáceis do derramamento desnecessário de lágrimas, como s fôssemos chafarizes humanos. Deixemos as orgias da fé e seu prazer oculto pela desgraça alheia. E paramos de sonhar com gozos prometidos para "pátria espiritual".

A deturpação do Espiritismo é do mais alto nível de gravidade. Somos acostumados a conviver com uma suposta Doutrina Espírita que soa como um produto pirata do qual se foi obrigado a adquirir. Mas a situação deveria ser de preocupação e não de alívio.

Afinal, dois pontos muito importantes devem ser considerados. Um é que os ditos médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco não deturparam a Doutrina Espírita por ingenuidade ou boa-fé, mas com todo o propósito e, podemos dize, ma-fé. E isso se constata com uma razão bem simples.

Não se pode considerar como um errinho ingênuo algo que foi feito com muitíssimos livros. Chico Xavier e Divaldo Franco registraram, em uma grande quantidade de livros, conceitos e valores que causariam vergonha ao professor de Lyon, e não é de hoje que se denuncia os dois "médiuns" como deturpadores do Espiritismo.

"Ah, mas são as palavras de amor, mensagens de esperança, tem tanta história linda... É, muitas ideias contrariam o pensamento de Kardec, mas prestemos atenção na caridade, mas boas lições de vida...", costumam reagir muitas pessoas, se esquecendo dos avisos do espírito Erasto sobre as "coisas boas", que ele definiu como armadilhas para a transmissão de ideias levianas.

Outro ponto importante a ser considerado é que Allan Kardec teve um duro trabalho para desenvolver suas obras. Era praticamente ele sozinho, com o apoio de sua esposa Amelie Gabrielle Boudet, a desenvolver um arrojado sistema de ideias lógicas e coerentes que nem sempre eram bem recebidos pela sociedade francesa.

Kardec não tinha patrocinador para suas viagens de pesquisa. Ele mesmo as bancava do próprio bolso. A Revista Espírita era feita por ele, dando muito duro para explicar e esclarecer muitas ideias por ele divulgadas e muitos mal-entendidos que vinham do caminho. Até quando suas energias físicas estavam se esgotando, o pedagogo buscava dar o máximo de esclarecimentos sobre a nova doutrina.

Chico Xavier e Divaldo Franco são "filhos" de Jean-Baptiste Roustaing, o deturpador do Espiritismo que primeiro lançou conceitos igrejeiros. Não se compara os eventuais sofrimentos de Chico e Divaldo e suas vidas com os de Kardec, porque os dois "médiuns" viveram como beatos católicos e com os sofrimentos próprios destes.

Por outro lado, comparado com o trabalho do pedagogo francês, os dois "médiuns" tiveram a "cama feita" para "deitar e rolar". Viraram astros da idolatria religiosa, símbolo das tentações emotivas das paixões religiosas - tão traiçoeiras quanto os "gozos mundanos" do sexo, do dinheiro e das drogas - e fizeram a fortuna dos chefões da Federação "Espírita" Brasileira.

Chico e Divaldo fizeram turismo patrocinados por outrem, principalmente este último. Muito diferente do professor lionês que pagou suas próprias viagens. E fizeram isso espalhando mentiras e conceitos que em muitos aspectos desmoralizaram os conhecimentos trazidos por Kardec, o que significa, em parte, uma ofensa ao trabalho árduo do Codificador.

Muitos de nós, mesmo quando criticamos a deturpação da Doutrina Espírita, somos tentados a sucumbir às paixões religiosas e temos medo de criticar severamente Chico e Divaldo. Ainda somos movidos por velhos padrões de religiosidade, coisas do tempo da vovó, e preferimos, em nome da fé, deixarmos para lá as graves irregularidades que mancham seriamente o legado da Doutrina Espírita.

Temos que deixar de lado essas paixões e não cair na sina vergonhosa de Humberto de Campos Filho, que recebeu um abraço de Chico Xavier que mais parecia o "beijo da morte". O homem que chegou a processar o suposto médium pela apropriação indébita do nome de seu pai, ter que ser tomado pelo processo de fascinação obsessiva, uma armadilha emocional alertada por Kardec, é uma demonstração de como as paixões religiosas podem consistir em uma perigosa tentação.

Criticar a deturpação e poupar os deturpadores não irá recuperar as bases originais do Espiritismo. Sermos "fraternos" com os deturpadores não é defender a verdadeira solidariedade, mas usar o "amor" e a "caridade" a serviço da deturpação e da desonestidade doutrinária. Romper com a deturpação sem romper com os detupadores é cortar o mal pelo caule, visto que, com a consideração dada aos detupadores, a deturpação volta ainda com mais força. E, aí, adeus Kardec.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A falsa estabilidade do "espiritismo" visto de fora



Tudo parece reinar na santa paz aos olhos dos leigos, quando se refere ao "espiritismo" brasileiro. Fica muito fácil, mesmo com a melhor das intenções, criar uma narrativa aparentemente equilibrada e imparcial, mas que claramente mostra a forçada coexistência entre o Espiritismo original de Allan Kardec e a forma deturpada feita no Brasil e popularizada por Francisco Cândido Xavier.

Oficialmente, o que o senso comum entende como Doutrina Espírita no Brasil nunca sai disso: uma visão oficialesca, digna de meros releases fornecidos por empresas. Uma visão "de fora" que prevalece e que, na prática, desqualifica e rebaixa Allan Kardec, transformado num mero refém de seus principais deturpadores, o próprio Chico Xavier e seu seguidor Divaldo Franco.

As pessoas se contentam com essa visão, extremamente superficial e equivocada, das coisas, em que uma boa teoria esconde práticas cuja irregularidade cada vez mais se confirma. Observa-se que muitas das mensagens "mediúnicas" se assemelham mais ao respectivo "médium" do que do próprio falecido, e apresenta aspectos comprometedores que destoam da personalidade do referido finado.

Livros como O Que é Espiritismo, da Série Primeiros Passos da Editora Brasiliense e de autoria de Maria Laura Viveiros de Castro (na verdade, uma "segunda visão", pois um volume homônimo da mesma série foi lançado por Roque Jacintho) - ironicamente, quase o mesmo título de um pouco conhecido livro de Allan Kardec - e Do Outro Lado: a História do Sobrenatural e do Espiritismo, seguem essa orientação um tanto pedestre, embora bem intencionada.

O problema destes trabalhos não é a forma como são feitos, mas a fonte a que recorrem quando o assunto é Doutrina Espírita. Eles vão logo à FEB, a roustanguista Federação "Espírita" Brasileira, que certamente vai lhes oferecer uma visão corporativista, pronta, um release supostamente didático, mas cheio de visões que, embora oficiais, são mentirosas.

Devemos levar em conta que essa orientação vem desde os anos 1980, quando o "espiritismo", aparentemente, chegou a um "bom termo". Na verdade, uma estabilidade forçada, na qual um princípio ideológico passou a prevalecer, a coexistência do Espiritismo original de Kardec e sua forma deturpada e igrejista no Brasil.

Foi a consagração da "fase dúbia", autoproclamada "kardecista" (termo hoje desmoralizado entre os espíritas autênticos, que preferem se definir "kardecianos" e não "kardecistas") e que havia sido forjada a partir dos anos 1960, através de suposta mensagem de Bezerra de Menezes pedindo para "kardequizar" (termo ainda de apelo igrejista, como corruptela para "catequizar"), mas foi oficialmente implantada nos anos 1970, depois da morte de Antônio Wantuil de Freitas.

A atual fase do "espiritismo" brasileiro parece fechar o seu ciclo, com a sutil ascensão de um neo-roustanguismo expresso por palestrantes como Orson Peter Carrara, Richard Simonetti e Rogério Coelho, veículos como o "Correio Espírita" e supostos espíritos como um tal de "poeta alegre" que se manifesta em Portugal, comprovando explicitamente a inclinação do "movimento espírita" ao Catolicismo medieval e sua Teologia do Sofrimento, que já era defendida por Chico Xavier.

Mesmo assim, a "fase dúbia" persiste, sobretudo através de Divaldo Franco e sua verborragia, típica dos professores das velhas escolas ultraconservadoras da República Velha, mas tido como "moderno" e "futurista" ao vender a falsa imagem de "entendedor de Kardec". Mas se temos o projeto político retrógrado do presidente Michel Temer, autoproclamado "ponte para o futuro", então se considera "futurista" um orador igrejista nos padrões dos velhos oradores empolados de cem anos atrás.

E esse rol de contradições e equívocos da mais extensa gravidade, que praticamente desmoralizam e ridicularizam o trabalhoso legado kardeciano, construído com muito trabalho e sob pressões adversas, não é observado pelos leigos que se tornam "espíritas de primeira viagem" aceitando como se fosse o Espiritismo autêntico um engodo de conceitos igrejeiros com outros apenas razoavelmente científicos.

Os leigos não conseguem entender por que existe tanta contradição e até se revoltam quando existem questionamentos aprofundados que desfazem o "ambiente de paz" de um "espiritismo" contraditório, tosco e retrógrado, mas forçadamente estabilizado em um falso equilíbrio que apenas esconde sob o tapete as contradições entre uma teoria kardeciana "correta" e um igrejismo entusiasmadamente praticado nos moldes do Catolicismo medieval.

É essa falta de percepção que permite, em outras áreas das atividades humanas, que o Brasil mergulhe na onda de retrocessos terríveis, tudo porque as pessoas se contentam com prestígios sociais aqui e ali. O prestígio do diploma, da toga, da fama, da fé religiosa, do dinheiro, ou mesmo do porte de arma e da forma física ou de um carisma "doméstico" numa turma de amigos, ilude a sociedade que ainda é movida pela ditadura do status quo, da "religiosização" dos privilégios sociais.

Pois são esses privilegiados, transformados em semi-deuses por conta de alguma vantagem social - do porte de um revólver à presunção de estar próximo a Deus, passando pelas conhecidas vantagens da grana, do poder, do diploma, da fama, da toga etc - , que no entanto se converteram nos "anjos caídos" que acabam levando o Brasil ao "inferno" que vive nos últimos tempos. E os "espíritas" têm boa parte de responsabilidade com isso, graças à deturpação do legado de Kardec.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"Espiritismo" apressa a "evolução" de espíritos atrasados

ARRIVISMO - O "médium" José Medrado (segundo à esq.) e Mário Kertèsz, de paletó cinza, pegando carona no prestígio do escritor e poeta Affonso Romano de Santana (E), nos bastidores de um evento promovido pela Rádio Metrópole FM, de Salvador.

O "espiritismo" tem uma triste peculiaridade. Enquanto influi em energias negativas para pessoas de perfil bastante diferenciado, que não raro são vítimas de tragédias prematuras ou, na mais razoável das hipóteses, sofrem dificuldades praticamente insuperáveis, o "espiritismo" se torna mais benéfico apenas para pessoas que compactuam com o conservadorismo social e moral ou com pessoas de perfil mais atrasado que são dotadas de intenções arrivistas.

O arrivismo ocorre quando um indivíduo ambicioso quer obter uma vantagem pessoal a qualquer custo. Geralmente são pessoas retrógradas que, no contexto de hoje, embarcam em contextos de vanguarda para levar vantagens pessoais e se promover às custas de movimentos, fenômenos e instituições avançadas, pegando carona no progresso alheio, que não é necessariamente o do arrivista.

O Brasil, com sua moral um tanto torta que permite a memória curta e o jeitinho brasileiro, é famoso pela eterna compactuação entre valores retrógrados, decadentes e obsoletos com ideias e tendências inovadoras, de forma que estas têm sempre que se condicionar em favor daqueles, criando uma novidade deturpada em que a essência acaba sendo do movimento que deveria ser extinto mas se recicla sob a capa da aparente novidade.

O "espiritismo" já é consequência disso. A novidade trazida por Allan Kardec foi desfigurada no Brasil. a ponto do "movimento espírita" hoje estar mais inclinado ao Catolicismo jesuíta do Brasil colonial e à Teologia do Sofrimento da Idade Média, inserida originalmente no "espiritismo" pelo deturpador pioneiro Jean-Baptiste Roustaing.

Nota-se a seletividade das energias "espíritas", diante de conteúdo tão retrógrado. Pessoas diferenciadas e de perfil mais avançado são mais vulneráveis a tragédias. E isso piorou diante do mito de Francisco Cândido Xavier, uma figura sombria que não deveria ter sido glorificada como foi e ainda é (com a ajuda tendenciosa de seu padrinho Antônio Wantuil de Freitas e, mais tarde, com a habilidade da Rede Globo em usar o "médium" para competir com os "pastores eletrônicos").

Chico Xavier tinha um fetiche por mortos prematuros. É só verificar que boa parte das supostas psicografias do anti-médium mineiro atribui autoria a falecidos precoces: Humberto de Campos, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Cruz e Sousa, Irma de Castro Rocha (Meimei), Auta de Souza, Jair Presente, Augusto dos Anjos.

Várias pessoas, inclusive famosos, que entraram em contato com Chico Xavier tiveram a estranha sina de perder filhos de forma prematura: as atrizes Ana Rosa e Nair Bello, o diretor Augusto César Vannucci, e, mais recentemente, o desenhista Maurício de Souza, que, após colaborar com uma revista em quadrinhos "espírita", teve um filho morto aos 44 anos.

O mau agouro de Chico Xavier se justifica em imagens mais antigas, quando o "médium" não escondia seus olhos salientes. Seus olhares eram agressivos, com ar de maldição. Consta-se que ele passou a usar óculos escuros para esconder o olhar que inspira as piores energias. E, se nos últimos anos ele passou a ter um "olhar tenro", era um marketing religioso inspirado em Madre Teresa de Calcuta, se bem que tanto Chico quanto Teresa eram, no íntimo, pessoas bem ranzinzas.

A energia maléfica de Chico Xavier pode ser constatada confrontando dois ex-presidentes da República, para dar ideia da influência seletiva da mesma. Os casos de Juscelino Kubitschek e Fernando Collor nos põem a pensar sobre tais energias.

JUSCELINO E COLLOR - O MAIS RETRÓGRADO FOI O MAIS FAVORECIDO

Juscelino era amigo de Chico Xavier e lhe dava consideração. O médico mineiro que presidiu o Brasil entre 1956 e 1961 e investiu na construção de Brasília era um político de um partido conservador, o PSD, mas tinha uma inclinação progressista, devido ao seu projeto nacional de desenvolvimento.

Foi só Juscelino dar à Federação "Espírita" Brasileira o título de Instituição de Utilidade Pública, em gratidão à entidade e a Chico Xavier, para a coisa sucumbir ao azar. Juscelino perdeu a continuidade política ao não conseguir eleger seu sucessor, o marechal Henrique Lott, o mesmo que fez um contragolpe, em novembro de 1955, para garantir a posse de JK, que estava ameaçada.

Juscelino, mesmo defendendo o golpe militar de 1964, contrariado com o envolvimento do seu ex-vice presidente João Goulart com o radicalismo de Leonel Brizola, foi um dos primeiros políticos cassados pela ditadura militar.

Pior: a campanha presidencial de 1965, dada como certa, foi cancelada e JK passou a viver infortúnios pessoais diversos, não conseguindo lutar pela redemocratização do país nem sequer conquistar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a mesma que foi capaz de eleger, anos mais tarde, uma verdadeira futilidade literária que é o comentarista político Merval Pereira.

Juscelino morreu num estranho acidente com aspectos de atentado, embora também investigações oficiais não falem em assassinato. A única filha biológica, Márcia Kubitschek, morreu de câncer em 2000. Mas a má sorte pode também ter contagiado gente direta ou indiretamente ligada a JK.

Henrique Lott teve uma filha, Edna, assassinada numa discussão fútil com um deputado, em 1971. Parceiros de JK na Frente Ampla, o ex-vice João Goulart e o antigo desafeto de ambos, Carlos Lacerda, faleceram em circunstâncias misteriosas. Mas a energia chegou até o ator José Wilker, que interpretou JK numa minissérie da Globo, inesperadamente falecido por infarto fulminante depois que ele, ateu, recorreu a um "centro espírita".

Por outro lado, o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello teve mais sorte. Apoiado por Chico Xavier na campanha eleitoral de 1989, Collor apenas perdeu o mandato devido a um impeachment após denúncias de corrupção. Mas foi favorecido pelas circunstâncias, pouco depois.

Aqueles que o denunciaram, o irmão Pedro Collor e o ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, morreram. PC Farias foi ainda a morte mais misteriosa, assassinado com Susana Marcolino num quarto de hotel, numa ocorrência definitivamente sem vestígios, pois uma faxina posterior limpou as marcas do crime.

Collor retomou os direitos políticos em 2000, se elegeu senador em 2006 com o apoio da revista Isto É e das redes sociais e as denúncias de corrupção política parecem não lhe assustar. Para piorar, o seu breve período político (1990-1992) é alvo de saudosismo sócio-cultural, com ídolos do "pagode" e "sertanejo" da época hoje se autopromovendo com tributos à MPB, personalidades como a siliconada Solange Gomes e Gugu Liberato em alta e até um Guilherme de Pádua (que matou a atriz Daniela Perez no mesmo dia do impeachment) vivendo a boa vida da impunidade jurídica e social.

RÁDIO METRÓPOLE E JOSÉ MEDRADO

Por sinal, outra figura em evidência na Era Collor, o baiano Mário Kertèsz, prefeito de Salvador naquela época, também foi beneficiada pelas "energias colloridas": denunciado por um grave esquema de corrupção que paralisou grandes obras de urbanização na capital baiana, ele desviou verbas públicas cujo dinheiro foi usado por ele para adquirir ações em rádios, jornal e numa afiliada de uma rede de televisão.

Tendo sido político lançado pela ditadura militar, apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães e filiado à ARENA, Kertèsz ainda foi designado interventor do Jornal da Bahia, jornal de centro-esquerda que marcou história na imprensa baiana. Kertèsz destruiu o jornal, transformando-o num tabloide de péssima qualidade, inspirado no paulista Notícias Populares.

O que poderia ser um inferno astral político foi revertido para uma trajetória arrivista: Kertèsz teve que se desfazer de parte de seu patrimônio midiático e, com o que restou, formou o grupo Metrópole. Direitista, cooptou setores de esquerda para seu apoio, e conseguiu convencer, mediante acordo de divulgação dos livros sobre o Jornal da Bahia, que os autores João Carlos Teixeira Gomes (Joca) e João Falcão, fundadores do periódico, evitassem comentários desfavoráveis ao ex-interventor.

A Rádio Metrópole tem como um dos contratados o "médium" José Medrado, suspeito de irregularidades na construção da Cidade da Luz e cuja obra de supostas pinturas mediúnicas apresenta sérias irregularidades de estilo.

Neste caso, observa-se a sorte que a Rádio Metrópole FM possui, pois, embora a rádio não seja lá uma das mais ouvidas de Salvador nem do interior da Bahia - existe o artifício de forjar um "Ibope alto" comprando sintonias em estabelecimentos comerciais e em categorias profissionais como taxistas, donos de botequins, frentistas de postos de gasolina e motoristas de vans escolares - , ela é blindada pela imprensa local, como os jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Correio da Bahia.

Kertèsz não é considerado um bom jornalista. É tendencioso, parcial, e acusado de promover o culto à personalidade em sua rádio. É obrigado a se assumir, não como editor-chefe, mas como diretor de seus programas noticiosos, para evitar problemas com o Sindicato dos Jornalistas. O talento de Kertèsz, como radiojornalista, é medíocre e apenas imita os clichês do radiojornalismo de âmbito nacional de emissoras como CBN, Jovem Pan e Band News.

Altamente tendencioso, Kertèsz, poucos dias atrás, se autopromoveu, como exímio arrivista, com uma entrevista ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que ganhou repercussão nacional. O direitista Kertèsz agiu com esperteza, pois, embora a entrevista tivesse sido divulgada também por veículos conservadores como Globo e Folha, ela teve cartaz na mídia progressista, solidária a Lula, o que pode ser um risco de uma certa complacência com a tendenciosa Metrópole FM.

Esse é um exemplo de como um arrivista de perfil retrógrado pode embarcar em movimentos progressistas para obter vantagens pessoais. Protegido pelas energias de um contratado "espírita", Kertèsz é um exemplo de como um espírito atrasado é blindado pelo "espiritismo" brasileiro, de forma a pegar carona em movimentos de vanguarda visando a pura promoção pessoal.

domingo, 16 de abril de 2017

O juízo de valor que derrubou Divaldo Franco e Chico Xavier

AYLAN KURDI, UMA DAS 423 CRIANÇAS REFUGIADAS DO ORIENTE MÉDIO MORTAS EM ACIDENTES DURANTE TRAVESSIA PARA A EUROPA.

"Não julgueis para não serdes julgados", dizia o ensinamento de Jesus. Pegando carona, o anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier criou um arremedo da mesma ideia: "Não julgueis quem quer que fosse". Mas desobedeceu o que ele mesmo disse.

Em 1966, o pior julgamento de valor que se pode dar contra multidões humildes foi dado por Chico Xavier. No livro Cartas e Crônicas, Xavier acusou de terem sido "romanos sanguinários" os pobres cidadãos que, de várias partes do Grande Rio, foram assistir alegremente um espetáculo circense em Niterói, em dezembro de 1961, e foram vítimas de um incêndio criminoso.

O agravante da infundada acusação - feita sem provas documentais, de maneira generalizada, sem estudo da Ciência Espírita e preocupada com suposta encarnação longínqua e superada - é que Chico Xavier, para se livrar de culpa, botou a responsabilidade no pretenso autor espiritual, Humberto de Campos, muito mal disfarçado pelo codinome Irmão X.

Só neste episódio, Chico Xavier cometeu várias perversidades. Tido como "símbolo máximo de humildade", o anti-médium mineiro acusou pessoas humildes de terem sido pessoas sanguinárias que "pagaram pelo que fizeram". Segundo, botou a responsabilidade em um escritor já falecido há décadas, ofendendo ele e seus herdeiros, não adiantando aquele teatrinho de "bondade" para aliciar o produtor Humberto de Campos Filho, anos antes.

Se verificarmos, no entanto, que, em 2009, caso semelhante ao de Xavier rendeu processo por danos morais, a coisa piora para Xavier. Sabe-se que, no livro O Voo da Esperança, que o suposto médium Woyne Figner Sacchetin atribuiu levianamente ao engenheiro Alberto Santos Dumont, pioneiro da aviação brasileira, as vítimas do famoso acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, há dez anos, foram acusadas de terem sido "romanos sanguinários".

É exatamente a mesma acusação de Chico Xavier em Cartas e Crônicas, com os mesmos artifícios. Mas, com um aspecto gravíssimo. As vítimas do acidente da TAM tiveram dinheiro para pagar advogados e processar Woyne por danos morais e o livro teve que ser retirado das livrarias. No caso de Chico Xavier, são famílias pobres que não tinham recursos para pagar advogados, e por isso a crueldade teve um peso muitíssimo maior.

Recentemente, em dezembro de 2016, durante uma entrevista depois de um "congresso espírita" na Espanha, o anti-médium baiano Divaldo Franco, perguntado sobre as mortes de refugiados do Oriente Médio na travessia para a Europa, também deu um comentário extremamente infeliz:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os selvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu".

Se valendo de seu prestígio religioso, Divaldo Franco feriu com palavras doces, como uma mancenilheira de palavras com sabor de mel mas que atingem feito um punhal dos mais afiados as costas de alguém.

Imagine o sacrifício que muitos cidadãos, não suportando mais viver em áreas de conflitos bélicos dos mais violentos, com bombas e mísseis capazes de cair em qualquer residência, atingindo dezenas de pessoas diariamente, terem, portanto, que se mudar para a Europa, onde esperam ter um mínimo de paz e dignidade, não raro enfrentando tragédias e dificuldades extremas.

Consta-se que cerca de 423 crianças, talvez mais, morreram nessa travessia longa, demorada e feita em muitas etapas. O menino Aylan Kurdi, de três anos, o da foto desta postagem, é um desses exemplos e cujo corpo, encontrado no Mediterrâneo, chocou o mundo inteiro, criando uma grande comoção sobre o drama dos refugiados.

Se considerarmos o juízo de valor de Divaldo Franco, beneficiado pelo confortável status do prestígio religioso, que lhe dá o aparente privilégio de sabedoria, sensatez e humanidade - em um DVD, Divaldo é classificado no título como "humanista" - , o pobre menino teria sido um sanguinário colonizador que tinha prazer de mandar condenados para se afogarem em alto mar.

Que fundamento Divaldo Franco teve para fazer tal acusação? Nenhum, pelo fato dele ter tido formação roustanguista e ser um grave deturpador da Doutrina Espírita, incompetente quanto ao rigor da Ciência Espírita. Além disso, se preocupar com uma encarnação antiga e já superada, de uns mais de 500 anos, é uma leviandade sem tamanho.

A declaração demonstra a soberba de alguém que há muito faz palestras para gente rica e se compraz com uma visão eurocêntrica que revela o temor de uma Europa descaraterizada por pessoas erroneamente associadas ao terrorismo. Muito poucas pessoas que fogem dos países do Oriente Médio são ameaçadoras. A coisa é muito diferente, por exemplo, do que se fez no Brasil colonial, quando bandidos, arruaceiros e outras pessoas desagradáveis foram jogadas para cá por Portugal.

São pessoas praticamente sem condições financeiras expressivas, famílias não raro numerosas, indivíduos recorrendo a seu próprio sacrifício, de fugirem para a Europa, andando quilômetros de distância, se instalando em sucessivos alojamentos, enfrentando embarcações apertadas, com a alma triste e traumatizada.

É possível que Divaldo Franco peça desculpas pelo comentário infeliz e, naquele seu discurso, dizer que os refugiados "merecem toda consideração". Mas aí é tarde demais. Afinal, a cada vez mais os palestrantes "espíritas" primeiro fazem comentários e alegações cruéis, para depois pedirem desculpas. Como se não bastasse traírem os ensinamentos de Allan Kardec o tempo inteiro e depois se autoproclamarem "rigorosamente fiéis" a ele.

O prestígio religioso não pode permitir tais julgamentos. Ninguém está acima de tudo. O "amor" do "movimento espírita" não pode estar acima da Lógica e do Bom Senso. Não há como promover a fraternidade do Bom Senso com o Contrassenso e usar conceitos duvidosos, refutados por Kardec, como "resgates coletivos" (uma multidão vista como "gado expiatório" de ocorrências infelizes e, por vezes, funestas).

Na verdade, a sociedade paga um preço caríssimo por se apegar às paixões religiosas e dar crédito aos deturpadores do Espiritismo, que usam a "caridade" e todo um artifício de belas palavras e uma filantropia que nunca ajudou de verdade - a Mansão do Caminho de Divaldo Franco não ajudou 0,1% da população brasileira e ele é "o maior filantropo do Brasil"? - e que serve mais para a promoção pessoal dos supostos médiuns, já beneficiados pelo culto à personalidade.
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