GETÚLIO VARGAS ANUNCIANDO O ESTADO NOVO, EM 10 DE NOVEMBRO DE 1937.
Sabe-se, com toda a certeza, apesar da insistência de "espíritas" e leigos, que Humberto de Campos nunca escreveu Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído a seu espírito. Isso porque a obra destoa completamente do estilo original do autor, além da qualidade do texto estar abaixo do legado que Humberto deixou em vida.
O que poucos sabem é que a obra, um dos primeiros trabalhos em que o sinistro anti-médium mineiro Francisco Cândido Xavier atribuiu a Humberto de Campos e cujo sucesso consagrou a obsessão que o "iluminado médium" teve pelo autor maranhense, foi feito por encomenda do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, governado por Getúlio Vargas.
Vargas decretou o Estado Novo, regime autoritário inspirado nos regimes fascistas europeus, embora de forma relativamente flexível e, depois, frouxa. Nos seus primórdios, porém, era uma fase política enérgica, em que pese as conquistas trabalhistas realizadas pelo presidente.
Naquela época, o Brasil era bem mais conservador do que hoje, que já é um período ainda de muitos retrocessos sociais (sobretudo no Rio de Janeiro, que em 1937-1938 era capital do país e hoje é uma província com ganas de impor valores retrógrados para o Brasil), e o domínio religioso católico era muito mais rígido do que hoje.
Por isso, nem o já conservador "movimento espírita", que demonstrou ter jogado no lixo as lições de Allan Kardec, tinha vez na sociedade da época. Formar um "centro espírita" era uma ação de risco, já que, à primeira denúncia, a polícia invadia tais estabelecimentos e prendia seus envolvidos, sob o pretexto de práticas clandestinas de curandeirismo e rituais considerados duvidosos.
Diante desse quadro de repressão, que fortalecia até o coitadismo que depois virou marketing para os "espíritas", o presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, teve que negociar com as autoridades do Estado Novo, sobretudo ligadas ao Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão de censura das atividades culturais e informativas da época.
As negociações visavam transformar o "movimento espírita" numa instituição respeitável, fazendo encerrar a repressão policial que invadia os "centros" e prendia as pessoas que nele estavam. Os representantes do Estado Novo acataram o pedido, mas impuseram uma condição.
A Federação "Espírita" Brasileira teria que produzir um livro que estivesse de acordo com o tipo de ufanismo que o Estado Novo trabalhava para o Brasil. Um livro que exaltasse a pátria brasileira e definisse seu nacionalismo como algo superior.
E assim foi feito. Chico Xavier e Wantuil de Freitas foram trabalhar o livro, com base em livros didáticos da época, dentro da narrativa ufanista muito conhecida nas bancas escolares, em que os personagens da História do Brasil eram descritos como supostos grandes heróis da pátria e até mesmo genocidas como os bandeirantes e a atuação brasileira na Guerra do Paraguai eram assim exaltados.
E aí houve o resultado. Como num dos trabalhos anteriores, Chico Xavier escreveu o livro a quatro mãos com Wantuil e depois atribuiu a autoria do livro a Humberto de Campos, como apelo sensacionalista para a venda do livro.
Essa é a realidade que enterra de vez o mito de que o livro teria sido feito por inspirações superiores vindas de um autor maranhense. Nem o plágio de uma passagem de O Brasil Anedótico, livro que Humberto havia lançado em vida, em 1927, ajudou, muito pelo contrário. Reproduzir como relato sério uma crônica satírica - melhor dizendo, uma anedota - é bastante constrangedor.
Com isso, Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho é um péssimo trabalho de História do Brasil, nunca recomendável para quem quiser entender o país. O livro nunca passou de um gancho para promover o "movimento espírita" junto ao cenário político de então, sem falar que Chico Xavier e companhia foram, décadas depois, de mãos dadas com Filinto Müller apoiar a ditadura militar.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
domingo, 6 de setembro de 2015
O "efeito Forer" da pretensa mediunidade "espírita"
Uma família recebe um telefonema em que um farsante faz uma pergunta do tipo: "Alô, quem é que fala? Aqui é alguém que lhe ama muito! Advinha!". Um membro da família, digamos um jovem, se envolve com a simpática fala e anuncia seu nome. Na boa-fé, tenta adivinhar quem telefona e supõe ser algum tio seu.
Dizendo o nome do tio, o farsante responde: "Pois sou eu mesmo, sobrinho! Tudo bem com você?". Diante da réplica do jovem, o farsante inventa uma história que o tio e sua esposa tiveram um carro enguiçado no meio de uma rodovia e que o veículo precisa de conserto, daí a necessidade da família que recebe o telefonema depositar uma grande soma de dinheiro para "seus tios".
O estelionato funciona, porque conforme as informações que o jovem dá sobre a vida familiar, o farsante costura sua narrativa com os dados pessoais e cria um discurso convincente, no qual parece supor imitar a voz de um tio, o que faz o jovem ficar convencido com tal imitação.
Preocupado com a situação, o jovem avisa para os familiares do problema e decide ir ao banco depositar uma grande soma de dinheiro de sua conta-poupança e dar para o número da conta descrito pelo farsante. Sem saber, ele caiu na cilada. O farsante era um assaltante que telefonou na prisão e criou esse golpe para arrancar muito dinheiro das vítimas.
O discurso intimista convenceu, o tom simpático, informal e pretensamente familiar dado pelo farsante parecia verossímil e a estória, ainda que tivesse contradições aqui e ali, parecia merecer algum crédito. No fim, porém, as pessoas saem lesadas, com sério prejuízo financeiro.
Infelizmente, a mediunidade no Brasil segue esse lamentável processo. A falta de estudo da Ciência Espírita faz com que supostos médiuns, mesmo os mais renomados, invistam nessa técnica fraudulenta, e, por mais que possa parecer absurdo para muitos, até Chico Xavier e Divaldo Franco fizeram muito desse estelionato da fé e da pretensa caridade.
A ideia é semelhante a de um estelionatário que realiza trotes telefônicos. É forjada uma mensagem atribuída a um espírito de um falecido, que é montada de forma similar a desses trotes. E, como estes, as mensagens são quase sempre produzidas às escuras.
Se um trote telefônico procura recolher informações das vítimas através de um diálogo envolvente e falsamente intimista, o "médium" recolhe informações geralmente a partir de entrevistas feitas durante o "auxílio fraterno". Nela também existe um discurso envolvente e pretensamente intimista.
"Meu irmão, o que sente? Por que veio aqui?", é o começo da conversa. O parente de alguém falecido então descreve detalhes íntimos, tomados da retórica "amorosa" do entrevistador. O diálogo estimula as pessoas a fazer gestos, demonstrar emoções, coisas que são observadas pela astúcia do "bondoso" entrevistador.
Em seguida, com as informações nas mãos - desde detalhes íntimos até a forma com que o entrevistado reage a cada declaração - , o "médium" recorre a dados extras como diários escritos pelo falecido, notícias publicadas na imprensa se for o caso, entre outros recursos extras. Até conversas informais de outros familiares, após o fim de uma doutrinária, são aproveitadas na "pesquisa".
Se é alguém famoso, fica mais fácil. Informações da imprensa, reportagens de TV, Wikipedia e até comentários de internautas nos fóruns de Internet, tudo é aproveitado para colher dados para forjar uma mensagem mediúnica.
Claro que existem contradições aqui e ali. Assim como as estórias dos estelionatários que praticam trotes telefônicos sempre apresentam alguma contradição ou dado confuso, a suposta mediunidade mostra também suas contradições aqui e ali.
Quando o suposto médium Nelson Moraes usou o nome de Raul Seixas e o pseudônimo Zílio para forjar mensagens espirituais atribuídas ao roqueiro baiano, ele se serviu apenas de fontes pouco especializadas, que mostravam Raul Seixas apenas através de sua fase mística de seus sucessos dos anos 1970, como "Gitã", "Tente Outra Vez", "Sociedade Alternativa" e "Metamorfose Ambulante".
Só que, no final da vida, Raul Seixas havia deixado para trás essa fase, seu parceiro há muito não era o hoje escritor Paulo Coelho, mas o vocalista do Camisa de Vênus, Marcelo Nova, e adotava uma postura cínica e cética em relação aos rumos da sociedade. Nada daquele "Zílio" infantilizado que era tão místico que fazia pregações religiosas das mais patéticas.
Recentemente, uma suposta "Cássia Eller" apareceu falando de "dragões cuspindo fogo" na vida espiritual. Mas teve também um "tolo Ayrton Senna" compondo musiquinhas. Ou um "Renato Russo" abobalhado cheio de pieguices sentimentaloides e de falso lirismo. Ou um "Tancredo Neves descolado" falando em mídias sociais como se só vivesse brincando de WhatsApp no além-túmulo.
Tudo isso mostram falhas, como em toda mensagem desse tipo. E, como os trotes telefônicos mais perigosos, o recurso usado é o efeito Forer, do qual já descrevemos, que partiu de um teste do psicólogo Bertram Forer.
Ele deu um único texto para seus alunos, sem que revelasse isso a qualquer um deles. Eles imaginaram então que eram textos diferenciados e personalizados, como as pessoas que costumam ler horóscopos também acreditam serem eles personalizados.
Mas se, no Rio de Janeiro, por exemplo, rádios como Mix FM, FM O Dia e Rádio Cidade usam praticamente o mesmo estilo de locução, linguagem e mentalidade, e os ouvintes da Cidade acreditam ser "um estilo diferenciado" só por causa do rótulo de "roqueira" desta emissora, então esses ouvintes também adotam o efeito Forer, criando uma falta de discernimento às avessas, que é ver diferença onde não existe.
O efeito Forer já era também testado pelo empresário e artista circense P. T. Barnum, famoso pelos espetáculos de ilusionismo, e por frases como "temos de tudo para todos" e "nasce um otário por minuto". No "espiritismo", o ilusionismo circense está associado sobretudo ao caso da suposta médium Otília Diogo, cujas fraudes foram abertamente apoiadas por Chico Xavier.
Mas esse ilusionismo pode ser observado também nas mensagens "mediúnicas" que, de tão falsas, precisam ser carregadas de algum apelo religioso para seduzir as pessoas, mas deixando a impressão duvidosa de que todo mundo vira igrejista no mundo espiritual.
Daí que, se o "telefone toca do lado de lá", é quase sempre um trote e um estelionato astral. O farsante do além aconselha o farsante da Terra a produzir uma mensagem da própria imaginação, isso quando este, suposto médium, não tem a concentração necessária para produzir falsas mensagens "do além".
Em todo caso, as mensagens falsas, como a simpatia dos trotes, têm que se passar por "amorosas" para parecer convincentes, para assim seduzir as pessoas a acreditar que essas mensagens são de seus entes falecidos, quando eles estão bem longe desse espetáculo circense. Chico Xavier tinha muito mais a ver com P. T. Barnum do que com Allan Kardec.
sábado, 5 de setembro de 2015
"Espiritismo" brasileiro é incapaz de resolver as tensões sociais
A REALIDADE É COMPLEXA DEMAIS PARA FICARMOS APENAS DE MÃOS DADAS.
O "espiritismo" brasileiro tornou-se incapaz de resolver os problemas e as tensões sociais num país complexo como o nosso. Sua promessa de transformação moral foi por água abaixo, pelos defeitos mostrados pela doutrina brasileira, que se distanciou do alegado vínculo a Allan Kardec, condição que se reduz à letra "desencarnada".
Isso porque o cientificismo de Kardec foi traído, tanto pelo religiosismo extremado dos "espíritas", numa herança mal-disfarçada do Catolicismo português de moldes medievais, quanto pela mediunidade mal-estudada que lança mão de fraudes, protegidas pela carregadíssima mensagem religiosa, como se mentir em nome da fraternidade resolvesse alguma coisa.
Diante das crises e dos retrocessos sofridos pelo país, tudo o que os "espíritas" fizeram apenas é aceitar qualquer cilada e sorrir para os opressores. Não há um equilíbrio de interesses nem de necessidades, mas um desequilíbrio que precisa ser aceito e consentido, de forma até infantilizada, como se o opressor fosse "ingênuo" nos seus abusos e crueldades.
Palestras e palestras se desperdiçam pedindo apenas que demos as mãos aos nossos algozes, que oremos para que eles olhem para a gente de forma compassiva, que eles cedam de seus interesses mesquinhos e considerem nossas necessidades.
Tudo isso só resulta em mediocridade. Os egoístas já "cedem" em "nosso benefício". "Democratizam" seu autoritarismo consultando-nos de que forma queremos que as medidas impostas por eles se expressem.
Eles lançam paliativos para tornar a opressão "menos opressiva", o transtorno "menos incômodo", o prejuízo "menos nocivo", sem que deixemos de ser oprimidos, transtornados e prejudicados. Para manter seus interesses, os algozes fingem serem bonzinhos, quando estão sempre em vantagem.
Não se trata de transformação moral o que os "espíritas" pedem para nós. Pelo contrário. O mito da "reforma íntima", tão lindamente anunciado, é na verdade uma farsa que consiste apenas em pedir para que aguentemos os retrocessos e "reeduquemos" nossas almas para abrir mão até das mais essenciais necessidades, se for preciso.
E isso não só acoberta ou mostra consentimento com as injustiças sociais - como se a hipótese delas terminarem daqui a cem anos fosse "daqui a pouco" - como se mostra cruel e injusta ao seu modo, porque a "teologia do sofrimento" que o "espiritismo" extraiu do Catolicismo se torna mais cruel que sua fonte de inspiração.
Dizer que o "sofrimento é lindo", que precisamos aguentar toda opressão "com fé e resignação", sofrer "amando" e acreditando na tal "vida futura" que não conhecemos e por isso não temos ideia do que se trata, é muito fácil, quando os líderes "espíritas" estão no seu bem bom, de palestras bem remuneradas e livros e vídeos idem.
Se nossas necessidades não são atendidas na encarnação presente, se nossos projetos pessoais são abortados, não é a garantia da vida futura, da reencarnação, que irão assegurar o atendimento dessas necessidades. Em cem anos, tudo muda, e, se a reencarnação existe, cada encarnação, todavia, é única.
Os tempos mudam, a complexidade da vida mostra isso. Se em vinte anos as pessoas veem ruírem muitos sonhos e perspectivas, se uma catástrofe pode tirar uma cidade do mapa em poucos minutos, adiar os planos de uma encarnação para outra pode se revelar uma tarefa impossível.
Daí a crueldade da moral "espírita". Se deixamos de fazer algo por causa do infortúnio, muito provavelmente deixamos de fazê-lo para sempre. Teríamos que refazer todos os planos, repensar todas as necessidades, porque a vida futura será muito diferente da nossa, para melhor ou para pior.
Os "espíritas", sádicos, acham que tudo será melhor. Eles se apoiam no ideal positivista, já que Auguste Comte é mais valorizado pelos "espíritas" do que Allan Kardec. Diante dos retrocessos de hoje, em que nosso desejo de progresso é bloqueado por barreiras praticamente intransponíveis, o progresso de amanhã precisa ser repensado para a outra encarnação.
Isso porque, se levarmos os retrocessos adiante, os próprios algozes irão se apropriar dos prodígios abortados, das causas de justiça social, deturpando-as, sabotando-as ou apenas adotando os pontos mais inócuos, usando a revolução social vedada dos outros em causa própria.
Projetos de transformação social são paulatinamente absorvidos por aqueles que os condenavam, mediante algum oportunismo pessoal ou alguma pressão das circunstâncias. O que poderia parecer um processo aprofundado e integral torna-se lento e gradual, mas comprometido pelo tendenciosismo, a justiça social vira moeda de autopromoção dos que sempre defendiam injustiças.
Daí que a sociedade muda, mesmo nessa forma tão perniciosa, e aqueles que queriam transformar o mundo no limite de uma encarnação terão que repensar seus planos, ou ir a mundos mais evoluídos, o que geralmente ocorre, para que possam, pelo menos, executar seus projetos de vida com um menor risco de alteração.
O Brasil, em que os medíocres querem ser mais geniais que os gênios, a situação é terrível. Aceitar as injustiças, as arbitrariedades e os infortúnios é algo que não traz transformação da alma, antes fosse um sentimento masoquista de aceitar tudo regredindo, enquanto nos reduzimos a meros animais a sobreviver, e não viver mais.
A "reforma íntima" reduz as pessoas a animais que, pelo menos, diferem, não mais pela capacidade de raciocinar de forma crítica, mas somente pela capacidade de orar. O que é muito inócuo e inútil diante das faculdades que a Natureza deu à espécie humana.
O "espiritismo" brasileiro tornou-se incapaz de resolver os problemas e as tensões sociais num país complexo como o nosso. Sua promessa de transformação moral foi por água abaixo, pelos defeitos mostrados pela doutrina brasileira, que se distanciou do alegado vínculo a Allan Kardec, condição que se reduz à letra "desencarnada".
Isso porque o cientificismo de Kardec foi traído, tanto pelo religiosismo extremado dos "espíritas", numa herança mal-disfarçada do Catolicismo português de moldes medievais, quanto pela mediunidade mal-estudada que lança mão de fraudes, protegidas pela carregadíssima mensagem religiosa, como se mentir em nome da fraternidade resolvesse alguma coisa.
Diante das crises e dos retrocessos sofridos pelo país, tudo o que os "espíritas" fizeram apenas é aceitar qualquer cilada e sorrir para os opressores. Não há um equilíbrio de interesses nem de necessidades, mas um desequilíbrio que precisa ser aceito e consentido, de forma até infantilizada, como se o opressor fosse "ingênuo" nos seus abusos e crueldades.
Palestras e palestras se desperdiçam pedindo apenas que demos as mãos aos nossos algozes, que oremos para que eles olhem para a gente de forma compassiva, que eles cedam de seus interesses mesquinhos e considerem nossas necessidades.
Tudo isso só resulta em mediocridade. Os egoístas já "cedem" em "nosso benefício". "Democratizam" seu autoritarismo consultando-nos de que forma queremos que as medidas impostas por eles se expressem.
Eles lançam paliativos para tornar a opressão "menos opressiva", o transtorno "menos incômodo", o prejuízo "menos nocivo", sem que deixemos de ser oprimidos, transtornados e prejudicados. Para manter seus interesses, os algozes fingem serem bonzinhos, quando estão sempre em vantagem.
Não se trata de transformação moral o que os "espíritas" pedem para nós. Pelo contrário. O mito da "reforma íntima", tão lindamente anunciado, é na verdade uma farsa que consiste apenas em pedir para que aguentemos os retrocessos e "reeduquemos" nossas almas para abrir mão até das mais essenciais necessidades, se for preciso.
E isso não só acoberta ou mostra consentimento com as injustiças sociais - como se a hipótese delas terminarem daqui a cem anos fosse "daqui a pouco" - como se mostra cruel e injusta ao seu modo, porque a "teologia do sofrimento" que o "espiritismo" extraiu do Catolicismo se torna mais cruel que sua fonte de inspiração.
Dizer que o "sofrimento é lindo", que precisamos aguentar toda opressão "com fé e resignação", sofrer "amando" e acreditando na tal "vida futura" que não conhecemos e por isso não temos ideia do que se trata, é muito fácil, quando os líderes "espíritas" estão no seu bem bom, de palestras bem remuneradas e livros e vídeos idem.
Se nossas necessidades não são atendidas na encarnação presente, se nossos projetos pessoais são abortados, não é a garantia da vida futura, da reencarnação, que irão assegurar o atendimento dessas necessidades. Em cem anos, tudo muda, e, se a reencarnação existe, cada encarnação, todavia, é única.
Os tempos mudam, a complexidade da vida mostra isso. Se em vinte anos as pessoas veem ruírem muitos sonhos e perspectivas, se uma catástrofe pode tirar uma cidade do mapa em poucos minutos, adiar os planos de uma encarnação para outra pode se revelar uma tarefa impossível.
Daí a crueldade da moral "espírita". Se deixamos de fazer algo por causa do infortúnio, muito provavelmente deixamos de fazê-lo para sempre. Teríamos que refazer todos os planos, repensar todas as necessidades, porque a vida futura será muito diferente da nossa, para melhor ou para pior.
Os "espíritas", sádicos, acham que tudo será melhor. Eles se apoiam no ideal positivista, já que Auguste Comte é mais valorizado pelos "espíritas" do que Allan Kardec. Diante dos retrocessos de hoje, em que nosso desejo de progresso é bloqueado por barreiras praticamente intransponíveis, o progresso de amanhã precisa ser repensado para a outra encarnação.
Isso porque, se levarmos os retrocessos adiante, os próprios algozes irão se apropriar dos prodígios abortados, das causas de justiça social, deturpando-as, sabotando-as ou apenas adotando os pontos mais inócuos, usando a revolução social vedada dos outros em causa própria.
Projetos de transformação social são paulatinamente absorvidos por aqueles que os condenavam, mediante algum oportunismo pessoal ou alguma pressão das circunstâncias. O que poderia parecer um processo aprofundado e integral torna-se lento e gradual, mas comprometido pelo tendenciosismo, a justiça social vira moeda de autopromoção dos que sempre defendiam injustiças.
Daí que a sociedade muda, mesmo nessa forma tão perniciosa, e aqueles que queriam transformar o mundo no limite de uma encarnação terão que repensar seus planos, ou ir a mundos mais evoluídos, o que geralmente ocorre, para que possam, pelo menos, executar seus projetos de vida com um menor risco de alteração.
O Brasil, em que os medíocres querem ser mais geniais que os gênios, a situação é terrível. Aceitar as injustiças, as arbitrariedades e os infortúnios é algo que não traz transformação da alma, antes fosse um sentimento masoquista de aceitar tudo regredindo, enquanto nos reduzimos a meros animais a sobreviver, e não viver mais.
A "reforma íntima" reduz as pessoas a animais que, pelo menos, diferem, não mais pela capacidade de raciocinar de forma crítica, mas somente pela capacidade de orar. O que é muito inócuo e inútil diante das faculdades que a Natureza deu à espécie humana.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
A discriminação que está por trás da incompreensão nas mídias sociais
A sociedade brasileira padece da incompreensão e arrogância de pessoas que, nas chamadas redes sociais, adotam posturas preconceituosas e estereotipadas sobre outros grupos sociais e defendem tais posições como se fossem a "verdade" sem entender direito o "outro" e querendo fazer etnocentrismo "na marra" com tais interpretações.
É verdade que renomados psicólogos, sociólogos e demais especialistas se preocupam com a arrogância com que certas pessoas, nas mídias sociais, defendem visões deturpadas e ainda ridicularizam quando são contestadas, geralmente com chacotas ou então com argumentações confusas, porém convictas e persistentes.
O que se vê em relação a negros, nerds, prostitutas, homossexuais, roqueiros, nordestinos e outros grupos sociais que destoam do limitado horizonte das classes dominantes e do espetáculo publicitário-midiático vigente, é algo estarrecedor e o grau de intolerância quanto a visões realistas que os preconceituosos nas mídias sociais não aceitam é preocupante.
Para esses preconceituosos, a realidade é aquilo que o mercado, a mídia e o poder tecnocrático impõem. Acham que o verdadeiro mundo é aquele decidido em escritórios, colegiados e agências de publicidade. Se irritam quando alguém apresenta uma visão que, por mais realista que seja, difere de sua "convicta compreensão" e reagem de toda forma possível, da "racional" à brutal.
Chegam a argumentar que tal interpretação da realidade é distorcida porque é desta forma que ela será bem sucedida, irá render mais dinheiro e o público aceita com mais facilidade. Arrumam mil desculpas e, quando questionados, se perdem em argumentações até partirem para baixarias ou desaforos.
É o que se observa em espaços como o Facebook e o YouTube, assim como no extinto Orkut. E essas visões preconceituosas tornam-se ninhos de "serpentes" virtuais, como os encrenqueiros virtuais que variam entre os "ecumênicos" troleiros (trolls) até os cyberbullies e, em casos extremos, hackers.
A diversidade social não é tolerada, e as visões que prevalecem sempre seguem a orientação etnocêntrica de ver o "outro" não como ele é, mas como ele é "seguramente" trabalhado oficialmente pela mídia, pelo mercado, pela política e pela tecnocracia "para o bem do desenvolvimento social e do sucesso financeiro".
Com isso, intelectuais e acadêmicos chegam a ver as prostitutas como um alegre extrato social que se pretende permanente com a "afirmação do sexo" como "ideal de libertação", mesmo quando o corpo se reduz a uma mercadoria e as "profissionais do sexo" sofram humilhações e outros infortúnios, para não dizer tragédias, além de serem prejudicadas quando buscam um outro horizonte social.
Os nerds, tipo famoso nos EUA pela personalidade inconvencional e pela discriminação que sofre na sociedade, são vistos pelo etnocentrismo brasileiro como fanfarrões, no qual até o visual destoa do original, já que os "nerds" difundidos no Brasil mais parecem valentões que se esqueceram de manter a forma e cortar a barba e passam mais tempo no computador que o necessário.
Os roqueiros trabalhados pela mídia, sobretudo por veículos como a Rádio Cidade carioca, aparecem como débeis-mentais que fazem sinal do diabo com os dedos das mãos, ficam com língua para fora, pulam nos concertos de seus ídolos são ideologicamente niilistas e conservadores, que não se sentem interessados em resolver os problemas sociais, ainda que admitam sua existência.
O "funk", que tanto clamava "contra o preconceito", na verdade era um fenômeno ideológico que tratava a população pobre de maneira preconceituosa e caricatural, inserindo nelas valores moralmene negativos como se fossem seus contrários, como o machismo travestido de "novo feminismo" das dançarinas e "musas" do gênero.
Homossexuais, negros e nordestinos sofrem as discriminações mais conhecidas, sobretudo de grupos fascistas ou de desordeiros na Internet, que impõem sua "verdade indiscutível" através de comentários jocosos e ofensivos.
Essas pessoas preconceituosas se revelam dotadas de muita incompreensão da sociedade. Querem manter estereótipos e posições sociais "pré-determinadas", e isso causa problemas sérios, porque as mídias sociais se tornam reduto de pessoas tão retrógradas que pensam o mundo de acordo com seus umbigos.
E como resolver isso? Muitas pessoas se conformam com esses preconceituosos porque muitos desses internautas preconceituosos ainda gozam de boa reputação social, geralmente integrantes ou simpatizantes de pessoas influentes ou poderosas. Só reagem quando eles vão longe demais.
A baixa educação escolar e a educação midiática que chega ao ponto do deplorável fazem com que os preconceituosos de toda ordem, que preferem que a diversidade social fique presa a estereótipos visando a manutenção de privilégios sociais garantidos pela estabilidade forçada.
E esses preconceitos também revelam o que o egoísmo humano pode fazer, tentando se valer tanto por argumentações falsamente lógicas, motivos supostamente nobres ou ações agressivas que tentam forçar a prevalência desses pontos de vista sem coerência.
Se perdermos a complacência para tais pessoas, questionando-as com firmeza, é possível que resolvamos os problemas combatendo tais posturas sem medo, através da contestação e da contra-argumentação que possam ser bem difundidas para a sociedade, para assim as visões retrógradas, antes triunfantes, percam sua força através do esclarecimento.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
As encrencas dos parceiros dos encrenqueiros digitais
As campanhas de desmoralização feitas nas mídias sociais são típicas. Uma pessoa divulga um ponto de vista que vai contra a ideia dominante e, como reação, recebe uma série de mensagens, enviadas em conjunto, com recados ofensivos, ameaças e gozações.
As mensagens são despejadas de maneira incessante, alternando sarcasmo e fúria, revelando o ódio e o desrespeito de muitas pessoas. No entanto, sabe-se que tais campanhas sempre contam com algum líder ou uns poucos líderes.
Geralmente, tais
campanhas surgem da cabeça de alguns poucos. Um ou dois combinam alguma trolagem e depois eles chamam pessoas que fazem parte de seu rol de seguidores ou são colegas seus em alguma comunidade das chamadas redes sociais.
São uns poucos, dois ou três, que comandam a campanha de calúnias e difamações. Eles fazem comentários jocosos, a princípio irônicos, e chamam as pessoas que não necessariamente são amigas íntimas deles para aderir.
A coisa cresce como uma bola de neve, as ironias aos poucos dão lugar a ofensas pesadas e, num grau extremo, um dos líderes da campanha passa a fazer sérias ameaças. Em seguida, um deles prepara um blogue de ofensas pessoais que usurpa todos os referenciais da vítima, até fotos de álbuns de família e tudo.
Sabemos que os líderes da campanha se tornam os culpados diretos e, depois de tanto tempo "vitoriosos", um dia veem a encrenca voltar contra eles e, uma vez denunciados, são objeto de investigação no Ministério Público e seus IPs - protocolos de Internet, espécie de "impressão digital" ("digital" no sentido da anatomia humana) do mundo digital ("digital" no sentido da Informática) - passam a ser investigados por peritos e advogados.
Sem perceberem, os líderes da trolagem acabam sendo criminalmente investigados, cada mensagem ofensiva que eles divulgaram - e não só para uma vítima, mas para outras - ou mesmo piadas íntimas com seus parceiros passam a ser conhecimento da polícia e do Judiciário, a analisarem até mesmo os "huahuahuah" e "kkkkkkk" escritos nas mídias sociais.
O Orkut e o Facebook está cheio de pessoas que, num primeiro momento, parecem sádicos descontrolados e, em seguida, por sua própria imprudência, tornam-se vulneráveis de maneira tão descontrolada que um troleiro (troll) pode, encerrando sua atividade no computador, ir para a faculdade no dia seguinte e, na volta para casa, saber que seu computador foi recolhido para a polícia, que investigará TUDO que estiver gravado nele.
Em certos casos, o troleiro pode também ser baleado na rua, mesmo num horário de bastante movimento na rua, quando ele exagera nas trolagens e pega gosto em comprar briga com qualquer um. Ele pode não sofrer atentado por parte de muitas vítimas, mas talvez por outros por algum outro motivo. É bom deixar claro que muitos troleiros são jovens fanfarrões que só querem curtir a vida de forma abusiva e podem "zoar" com os times de outros ou roubar a namorada de outrem.
E os parceiros do encrenqueiro digital? Aqueles que, achando o líder da trolagem "divertido" e "muito irreverente", vão na carona das humilhações e participam de tais campanhas, em muitos casos por boa-fé, como aqueles colegas que se divertem, rindo, quando um valentão humilha alguém na escola com 'bullying'.
O grande problema está nesses "amigos" da trolagem. Eles passam a fazer parte da quadrilha, porque o ato que os líderes de trolagem fazem ao juntar gente para a humilhação digital corresponde à "formação de quadrilha", segundo a interpretação criminal. Forma-se um grupo para realizar um crime, o que constitui este termo, e quem adere acaba sendo criminalmente enquadrado, independente de serem ou não amigos muito próximos do líder encrenqueiro.
Margarida (nome fictício) é aquela moça divertida, alegre, mas de boa-fé. Estava numa comunidade do Orkut com uma quantidade muito grande de seguidores. De repente, um internauta publicou um comentário contestando alguma coisa que estava na moda, e um membro influente dessa comunidade decidiu escrever:
"Que coisa ridícula", escreveu ele.
"O cara tá com m**** na cabeça", escreveu um outro.
"Huahuahuahuahuah", comentou um terceiro.
"Absurdo! Um cara implicar com os valores da galera", reagiu uma internauta.
"Vamos zoar com esse cara. Amanhã, toda a galera unida flw?", disse o primeiro.
"Tô dentro", disse um quinto, contando com o apoio dos demais.
No dia seguinte, à noite, o pessoal já começava a encher a página de recados da vítima. No começo, fingiam analisar o problema, com carregada ironia. Depois, vieram com gozações e ironias mais jocosas.
O internauta que criticou o modismo então começa a reagir, apagando as primeiras mensagens, mas é bombardeado com novas humilhações. De repente a vítima faz um comentário dizendo para o pessoal parar e, de repente, é ameaçado pelo líder, que dizia querer invadir a conta da vítima.
A vítima teve que recuar, apagou a conta no Orkut, mas antes descobriu que o líder das humilhações preparou uma página ofensiva, um fotologue, tirando fotos da galeria pessoal da vítima e reproduzindo-a de maneira ofensiva. A vítima teve que denunciar para o SaferNet (especializado em receber denúncias criminais), que ordenou ao servidor a eliminação da página ofensiva.
Com o tempo, o grupo passou a ser denunciado. Margarida, que só entrou na onda porque achou divertido, acabou recebendo também mensagens raivosas. Foi quando ela tentou dar uma informação séria numa comunidade e outra internauta revoltada lhe escreveu: "Você só sabe zoar com os outros. Não tem moral para dizer isso ou aquilo".
Ela foi convidada a depor e a notícia chegou aos pais dela. A garota tomou uma bronca violenta. Seu computador havia sido recolhido pela polícia. Ela teve que depor dizendo que só entrou na onda porque achava divertido e só conhecia o valentão pela comunidade do Orkut, ele nem a seguia em sua conta pessoal.
A moça foi liberada e, depois, ficou sabendo que o líder das humilhações teve a conta bloqueada e, depois, havia brigado, em luta física, com seu ex-amigo, seu principal cúmplice nas trolagens, por algum outro desentendimento não esclarecido. O outro também teve conta bloqueada.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Rock e rebeldia sem alma, mas com a "alma do negócio"
Com a proximidade do Rock In Rio e o anúncio da nova fase da FM pop Rádio Cidade, que passou a levantar a "bandeira" do "Rock de Verdade" - num país em que a "verdade" está sempre nas mensagens de marketing - , volta à moda o estereótipo roqueiro que tanto tranquiliza os conservadores em geral.
Se andar pelas ruas do Rio de Janeiro, ou mesmo em Niterói e na Baixada Fluminense, ou então em São Paulo, nas cidades do ABC paulista e Osasco, observa-se jovens "despreocupados" ouvindo suas "rádios rock", a Rádio Cidade e a 89 FM, indiferentes ao fato de ouvirem os mesmos sucessos do rock mais manjado todo dia.
Hoje as duas rádios não repetem tanto as músicas, por causa da pressão da Internet e do fato de que as rádios tentam trabalhar uma programação verossímil. Afinal, as duas rádios agora estão voltadas para o mercado turístico, com uma programação para turista inglês e estadunidense ver, e por isso precisam se passar por emissoras sérias e de dedicação politicamente correta.
A histeria em torno das duas emissoras, sobretudo a Cidade - que nunca teve tradição no rock e começou sua trajetória tocando pop convencional - , já que a 89 FM pelo menos passou por uma breve fase sendo uma rádio de rock fraca, mas próxima da autêntica, se deve não pelo que cada emissora representa para o rock, mas pelo que cada uma representa para o mercado.
As duas emissoras, além de outras que seguem a mesma linha, não são especializadas em rock. São na verdade rádios pop como qualquer outra que toque Justin Bieber e One Direction, mas apenas diferem porque tocam aquilo que entendem como "rock". Vendem uma imagem de "verdadeiras rádios de rock", mas não têm o perfil diferenciado para o gênero.
Mas o grande problema é que essa imagem publicitária, ainda que falsa e questionável pela forma que as emissoras tocam o gênero - de forma superficial, restrita aos "sucessos das paradas" - , acaba prevalecendo e o perfil rock acaba sendo corrompido, influenciando no comportamento da juventude.
Os jovens "roqueiros" de hoje, ou mesmo a gente adulta que "adere" ao gênero, se comportam como se estivessem saído de um ritual de hipnotismo. Se limitam a adotar gestos e vocabulários de roqueiros caricatos, desses que aparecem em programas adolescentes mais tolos na televisão. Botam língua pra fora, fazem sinal de demônio com as mãos, tocam air guitar e falam gírias da moda.
O comportamento nem tem muito a ver com a verdadeira natureza do rock, já que é extremamente caricato, submisso, conformista e consumista. O "roqueiro" brasileiro parece desligado dos problemas do mundo, finge completo cinismo só para dar um tom "próprio" ao conformismo que sente, preferindo reservar a catarse para a "sonzeira" que diz curtir.
Para piorar, o rock acaba sendo visto como "religião". A "permanente" adesão da Rádio Cidade para o rock foi tratada pelos seus fanáticos seguidores - que, por si só, representam uma imagem caricata do rebelde roqueiro - como se fosse uma "dádiva divina", com uma devoção e fé que beiram ao fundamentalismo, diante do fanatismo e da crença cega que têm em relação ao mito do rock.
Eles adotam procedimentos que o roqueiro autêntico rejeitaria, a exemplo do "nosso espiritismo" que contraria o pensamento de Allan Kardec. A "superioridade" do rock é algo que nem os verdadeiros músicos de rock defendem, porque soa como forçar a barra demais. Mas aqui no Brasil costuma-se forçar a barra de tudo e a maioria das pessoas aplaude como focas de circo.
Essa "superioridade" se manifesta pela ilusão de que "só o rock é mais inteligente, é mais cultural", como se outros estilos musicais fossem um lixo e extremamente abomináveis. Isso é fundamentalismo e, como todo fundamentalismo, contraria a essência original de cada causa defendida, já que o fanatismo sempre se dirige sempre a formas deturpadas desta causa.
Esse fundamentalismo é perigoso, porque o rock acaba sendo visto de maneira idiotizada, embora radical. O estereótipo do "roqueiro" no Brasil acaba se voltando para o comportamento alienado e resignado, o "rebelde" aceita qualquer coisa que possa se encaixar nos seus estereótipos, assim como aceita ouvir as mesmas músicas em nome da "catarse" expressa na "sonzeira".
Aliás, essa aceitação tem limites. Geralmente vai ao sucesso mais manjado, mas recua diante de clássicos do rock. O típico ouvinte dessas "rádios rock", por exemplo, não aguenta ouvir AC/DC além dos acordes de introdução de uma única música, "Back in Black" ou, quando muito, suportar ouvi-la uma única vez por dia.
O gosto musical se volta para coisas mais "fáceis", seja Guns N'Roses e outras bandas posers, ou então nu metal (que mistura hip hop com clichês de rock pesado), poppy punk e pseudo-alternativos da linha de Flaming Lips e Queens of the Stone Age.
Não são pessoas que se preocupam com que marca de guitarra corresponde a um tipo de som do instrumento, são politicamente niilistas - isso quando não aderem ao direitismo, o que é comum - e não gostam de ler livros ou apreciar ideias e textos de intelectuais renomados.
Esse público prefere fazer os papéis de "crianças obedientes" para o mercado que lhes dita o que deve ser um comportamento "rebelde". Agressividade mais na forma, o conteúdo é bem mais conformado e subserviente. São pessoas que não se incomodam em pagar caro por um lanche "qualquer nota" e pouco estão preocupados com as desigualdades sociais que ocorrem no planeta.
Eles não têm o "estado de espírito" verdadeiro do rock, aquele que marcou a década de 1960, de pessoas ávidas em questionar o mundo e explorar sua criatividade e sua força de espírito. Os "roqueiros" atuais preferem o consumismo, a conformação com o "sistema" e apenas o desabafo provisório e inócuo da "catarse roqueira", pulando e fazendo gestos de demônio com as mãos.
Se não existe o estado de espírito que é a alma da cultura rock, existe a "alma do negócio". As "rádios rock", como a Rádio Cidade carioca, são associadas a todo um mercado de grandes corporações que envolve multinacionais e grandes companhias promotoras de eventos ou patrocinadoras de grande porte.
Algumas dessas empresas patrocinadoras são até acusadas de promover o trabalho escravo, pagando mal seus funcionários e sujeitando-os a acidentes de trabalho sem qualquer garantia legal contra isso, seja como prevenção ou solução.
Nas lanchonetes, adolescentes mexem com fornos e fogões recebendo baixos salários e correndo risco de sofrerem queimaduras e não receberem uma assistência médica digna por causa disso. Mas ninguém reage: o espetáculo do rock tem que continuar.
Mas os "roqueiros" não querem saber. Gastam seus dinheiros para enriquecer os exploradores. Daí a "consciência social" desse rock estereotipado e caricato que mostra que não tem sentido de lógica essa pretensa superioridade ideológica do rock, que esconde processos de idiotização e de compulsão ao consumismo.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Quando a deturpação tenta se sobrepôr à original
O que tem a ver a cultura rock com Jesus? Jesus Cristo Superstar? Não. A peça de Andrew Lloyd Webber tem muito pouco a ver, mas as deturpações da Doutrina Espírita têm a ver num país em que a deturpação quer se sobrepôr às formas originais e o falso quer ser mais autêntico que o verdadeiro.
A "nova fase" da Rádio Cidade, emissora FM do Rio de Janeiro que "voltou" segurando a "bandeira do rock", tenta se "radicalizar" e, com uma programação feita para inglês ver, agora fala que "está mais rock'n'roll" e seu lema apela para o "Rock de Verdade", ideia tão marqueteira e falsa como qualquer lema de marca de refrigerantes e rede de lanchonetes.
Falou-se que a Rádio Cidade trata o rock como se fosse uma seita religiosa, criando até mesmo um "estado islâmico" de ouvintes que, há cerca de 15 anos, foram pioneiros entre os trolls que hoje aterrorizam a Internet e entre a mídia odiosa que hoje pede o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
O que é "rock de verdade" no país em que "espiritismo de verdade" tem pouco a ver com Allan Kardec, seu pensador original, e tem mais a ver com a deturpação popularizada por Chico Xavier. Ou com a visão aqui dominante de que a doutrina primitiva de Jesus Cristo e o Catolicismo medieval são a mesma coisa.
O que é "verdadeiro" para um país em que as pessoas acumulam pseudônimos nas mídias sociais? O que é "verdadeiro" num país de crise existencial como o Brasil? "Verdadeira" é a política investigada pela Operação Lava-Jato? "Verdadeiro" é o produto pirata, enquanto o produto autêntico precisa de recall por causa de um defeito de fabricação?
Sabe-se que a Rádio Cidade trata o público roqueiro de forma caricata, produzindo estereótipos feitos para atender aos interesses dos grandes empresários associados a eventos de rock, e isso inclui desde promotores de eventos (responsáveis por trazer os artistas do gênero) até anunciantes que cobram produtos com preços exorbitantes.
A Rádio Cidade, como outras similares (a 89 FM, paulista, é outro exemplo), não tem pessoal especializado em rock. Seus locutores parecem ter vindo de "sobras" não aproveitadas em FMs de pop adolescente, porque falam com a voz, o timbre, a dicção e as gírias de quem ainda se dirige para os fãs de One Direction e Justin Bieber, mesmo quando anunciam músicas de Iron Maiden e AC/DC.
A ideia é carregar num som que represente, para os jovens, uma catarse emocional para assim esvaziar o espírito de rebeldia para aspectos formais. O rapagão bonitão, por exemplo, incomodado por ser sósia do ator Zac Efron, têm a oportunidade de raspar o cabelo a zero e cultivar uma barba pontuda que lhe dê aspecto de "rebelde malvadão". E isso cobrindo seus braços de tatuagens.
A rebeldia se torna apenas um aspecto formal, de poses, roupas, gestos e estética visual, enquanto a personalidade, por trás de tudo isso, se torna conservadora, comodista, e, acima de tudo, consumista. É um público que aceita comprar roupas caras e pagar altos preços em lanches para o "bem" da "atitude rock", enquanto adota uma postura cética, mas resignada, em relação aos problemas da vida.
O público da Rádio Cidade é tão conservador quanto o da revista Veja. O mesmo em relação aos profissionais. Se a Rádio Cidade tenta apagar seus vestígios de Jovem Pan (que ocupava os 102,9 mhz antes da "volta"), tirando até o ex-produtor da rádio pop, Alexandre Hovoruski, da direção artística, não é por discordar da linha da emissora, mas por razões meramente estratégicas.
A Jovem Pan FM, sabe-se, virou uma espécie de versão radiofônica da revista Veja. O colunista Reinaldo Azevedo trabalha nos dois veículos. Seu ultrarreacionarismo é até compartilhado por outros veículos não tão abertamente histéricos, como a Globo e a Folha, mas também gera uma repercussão bastante negativa que pode afastar boa parte dos anunciantes. Daí os motivos estratégicos.
COMPARAÇÕES COM O CRISTIANISMO
Sabe-se que Jesus de Nazaré foi a personalidade mais deturpada do mundo. Ele havia sido um ativista que, numa ligeira comparação, era um misto de ativista social e cientista político, entre outras qualidades humanas de alguém dotado de inteligência refinadíssima, manifesta desde a infância.
Depois do falecimento, Jesus deixou seu legado para seus discipulos diretos, os apóstolos, e indiretos, seus admiradores mais dedicados, criando as bases de um movimento denominado Cristianismo primitivo, com base no sobrenome Cristo adotado após o famoso ritual de seu primo João Batista, oficialmente creditado como "batismo".
O grande problema é que, passada a condenação sumária - não houve o "famoso julgamento" de Pôncio Pilatos, ele mandou Jesus ser crucificado de forma imediata e rápida - , a aristocracia do Império Romano, através do imperador Constantino, decidiu se apropriar do mito do ativista judeu e montou um "Cristianismo" diferente do original.
Daí o Catolicismo que, em muitos aspectos, contrariou a essência original do pensamento de Jesus. As deturpações foram tão grandes que ninguém pode mais lembrar do Jesus histórico sem o risco de uma violenta reação de "cristãos" radicais. Na Idade Média, chegou-se ao ponto de usar o pretexto da caridade cristã para promover a carnificina das "cruzadas", milícias criadas pela Igreja Católica.
A deturpação causa tantos estragos que o ditado "mais realista que o rei" acaba se aplicando com o passar dos tempos. E não bastasse a deturpação do legado de Jesus pela Igreja Católica, a Doutrina Espírita também sofre o mesmo processo de violação da essência original de Allan Kardec através de uma série muito grande de valores estranhos e até contrários à doutrina do pedagogo francês.
No rock, a deturpação promovida pela Rádio Cidade e seu método medieval de promover a rebeldia juvenil tem como alvo neutralizar e desqualificar todo o trabalho árduo que tiveram rádios que realmente se identificaram com o gênero, como a Eldo Pop FM e, sobretudo, Fluminense FM.
É como se a Rádio Cidade declarasse que todo o trabalho de Luiz Antônio Mello, o jornalista que comandou a programação da Fluminense e hoje tem programas na webradio Cult FM, tivesse sido em vão. LAM, como é conhecido o jornalista, se sacrificou para criar e desenvolver o formato de rádio de rock, que não se resumia numa simples opção de repertório musical.
Com a prevalência da Rádio Cidade, que não tolera concorrência de mercado com outra FM - dizem que o fim da Kiss FM carioca foi pressão do forte lobby da emissora dos 102,9 mhz - , todo o trabalho de Luiz Antônio foi em vão, porque o exemplo da Fluminense acabou sendo inútil, porque, com a Cidade, basta uma rádio pop ter vitrolão roqueiro e fim de papo.
A Rádio Cidade é apenas uma rádio pop como qualquer outra. Durante anos teve sua linguagem calcada na Jovem Pan FM. Programas como Rock Bola e Hora dos Perdidos são claramente inspirados no Pânico da Pan e apostam até na inconsistente tese do futebol como "esporte rock'n'roll", já que 99% dos jogadores de futebol torce o nariz para esse gênero musical. Inclusive Neymar.
Como a equipe da Rádio Cidade não é especializada em rock - há denúncias de que locutores e até produtores esculhambam muitos artistas do gênero - , a emissora acaba adotando posturas preconceituosas para o público de rock, trabalhando um perfil de jovem roqueiro mais próximo de caricaturas que se vê até nas novelas da Rede Globo.
No entanto, o lobby da Rádio Cidade é fortíssimo e isso preocupa. Se seu pessoal não é envolvido naturalmente com rock - até o repertório musical é previamente montado pelas gravadoras e por paradas de sucesso específicas - , os donos da rádio estão associados até a empresas multinacionais, dólares são investidos para promover a emissora dos 102,9 mhz na sua atual fase.
Com isso, pensar em rádio de rock com personalidade, indo além do vitrolão, do mero aparato de tocar rock, tornou-se inviável. O trabalho de Luiz Antônio Mello corre o risco de ter sido em vão, porque, vendo o caso da Rádio Cidade, bastava pedir para uma rádio pop tocar só rock e ficava nisso mesmo. Sem estado de espírito, só um vitrolão roqueiro animado pelos festivos locutores pop de sempre.
E aí vem o lema "Rock de Verdade" que preocupa totalmente, porque o verdadeiro rock é coisa que a Rádio Cidade não se interessa por vontade própria. Recentemente, ela só tocou em seu programa de rock antigo bandas "difíceis" que rolavam na Kiss FM por tendenciosismo. E não iria colocá-las na programação diária, como a Kiss fazia em seu cardápio musical.
Esse é o perigo. A mediocridade tem dessas coisas. O cara não faz, não quer fazer, não aceita fazer e não adianta insistir, mas quando a coisa se comprova mais vantajosa, vai esse mesmo cara querendo fazer e querendo se vincular à mesma causa que, em condições naturais, ele se recusou radicalmente a fazer. Infelizmente, é uma atitude muito comum no Brasil.
Como Jean-Baptiste Roustaing e Chico Xavier na Doutrina Espírita, a 89 FM e Rádio Cidade querem abraçar a cultura rock levantando a bandeira do "Rock de Verdade" mas trabalhando estereótipos de novelas globais, numa conduta extremamente conservadora. No país em que a "verdade" está na publicidade da TV, isso faz sentido.
No fundo, esse papo de "Rock de Verdade" é mimimi de gerente de marketing. Isso porque as "rádios rock" apenas falam isso como apelação para turista ver, já que estamos próximos das Olimpíadas do Rio de Janeiro e o mercado turístico quer mostrar duas "rádios roqueiras" para os turistas ouvirem e consumirem com seus dólares nesse mercado movimentado pelos eventos do gênero.
Deturpadoras da cultura rock, a 89 FM, a Rádio Cidade e similares agradariam em cheio o imperador romano Constantino e o anti-médium mineiro Chico Xavier, se eles gostassem de rock. Até pela forma com que que essas "rádios rock" neutralizam e domesticam a juventude brasileira.
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